A virtude laureada

Manuel Maria Barbosa du Bocage · Capítulo 27 de 30

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A virtude laureada

*Epistola.*

 

 

Ruindo lá do Bárathro medonho

Lúgubre som, motivador do pranto,

Que as faces mólha de enlutada Lysia,

De ti, ó Vate, reclamava o feudo;

Já lá do Abismo horrendo as furias torpes,

Por ordem de Plutão na terra surgem;

Da vil materia, do que he pó, que he nada,

Opaco manto de endeosados genios,

Rabidas rompem o ordenado todo.

"Murchas esp'ranças mais a mais fraquejem, Sentimento mortal, tristeza baça

Nos Lusos corações a dor espalhe;

Apenas cinza, o que já foi Elmano."

Esta do Averno a voz, a lei da Morte,

Que ás funeraes Irmans o Monstro intima!

Do Sena pelas margens saborosas,

Pelas praias do Ganges, do Aureo Téjo,

Assustadas de horror as Ninfas clamão;

A lei maldizem, que lhes rouba a gloria,

Carpindo o mimo, que as honrava tanto.

Os alumnos de Apollo ao nume envião Entre cortados ais, sentidas vozes,

Votos provindos do profundo d'alma,

Quaes os da Gratidão, e os da Verdade:

Co'as mentes cheias de saudade infinda, Teu nome, ó caro Elmano, a Jove lembrão;

No fogo ardente de sonóros Hymnos,

Escudados da candida amizade,

Da justiça, é dever, da gloria Tua,

Hum Nume Creador, que uniu os Entes,

Hum Deos, hum justo Deos piedoso dobrão. Eis de repente na brilhante Esfera

Risonho assoma o dia, a noite fóge;

Raia alegre o prazer, somem-se as trévas;

Abrem-se as portas do sulfureo Averno,

E á feia escuridão as Furias tornão.

Esforça-se a razão, estudo, e arte

Das garras a salvar a prêza excelsa:

Angelico tropel ao leito adeja;

Da Sacra Região baixando os vôos

Do Vate aos lares, a melhora guia.

No Olympo os Numes a harmonia prézão,

Affeitos a escutar da terra os Vates.

Oh como de prazer exulta o peito!

E mano, Elmano vive, oh Ceos, oh dita!

Por elle a gloria, e honra em Lysia abundão;

Cisne do Téjo, que trespassa a méta,

Licita a raros de adejar cançados.

Fadem teus dias fortunosos lances.

Praza aos Ceos compassivos, que inda eu possa

Ver-te immune ao mal, que te consterna;

Porque possas tambem dar vida á Fama

De deslizado Heróe, que a cobardia

Pendura nos portaes do Esquecimento;

E as azas desprender em canto altivo,

(Dos Voltaires, Camões, dos Tassos digno)

Em lustres de Varão, que immortalizes.

Virente louro não me cinge a frente;

Tolhem meus gressos as varedas ínvias

Ao bipartido Cume, ao sacro asilo

Dos almos Genios, onde entrar não posso: A ser-me dado, intrepido verias

Em duravel engaste, em Padrão d'oiro

Ir assomar teu nome além dos Evos;

A ardentes Vates, que o Porvir esconde,

Engenhos como Tu, mover-lhes pasmo;

Mostrar-te como exemplo ás Plagas Lusas, Disparando o trovão, vibrando os raios,

Imagens vivas, que dão alma ás pedras;

Em quanto as graças em Gertruria bella

Co'os doces folgazões amores brincão;

Quando surge da Estancia a torva invéja,

Ou trilhas sem desdouro o Lacio augusto: Do filho de Sulmona unindo a cinza,

Fazendo-o reviver com pompa egregia

Em veste alheia; mas tão nobre, e rica,

Que equivale ao valor dos proprios trajes. Quizera agora ter o dom de Elpino,

Invadir com teu nome a Eternidade……

Mas ah que delirei: oh mente louca!

Não precisas de quem de ti precisa:

Rite, rite de mim, ó grande Elmano

Mas dos desejos não, dos sãos desejos.

 

De João Galvão Mexia de Sousa Mascarenhas.

 

* * * * *

 

Ao Senhor Manoel Maria de Barbosa du Bocage.