A virtude laureada

Manuel Maria Barbosa du Bocage · Capítulo 24 de 30

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A virtude laureada

*Ode*

 

Por occasião da noticia, que grassou no Porto, das melhoras do

Senhor Bocage.

 

Cisne de immenso vôo! ave, que rója,

A medo se abalança aos teus louvores.

 

D'entre a que, eterna, lá no abysmo estala Immensa chamma, que accendeo o Immenso,

Tôrva ullulando, á região do dia

Surge a myrrhada Invéja.

 

Seu hálito empestado a luz suffóca,

E sécca, e mirra as arvores, as flores;

Dragão, de linguas tres, na dextra arrôcha,

Alça na outra o facho.

 

Silvão-lhe horrendas na tostada fronte

Viboras crespas, de que está coalhada;

Nutre nos peitos ávida serpente,

De insaciavel fome.

Atro veneno a lingua lhe destilla,

A lingua, que de vibora parece:

Vós Górgonas, vós Furias, tu Medusa,

Não sois mais horrorosas.

 

De espaço meneando as azas longas,

Demanda vagarosa a Estygia margem;

E alli, prendendo o vôo, descendo á terra,

Que, ao sentilla, estremece.

 

Alli em subterranea, em ampla furna,

Desde a infancia dos seculos formada,

Dura, immutavel lei impondo a tudo,

Reside a Morte horrenda.

 

Montão enorme de esbulhados ossos,

De crâneos seccos lhe compõem o throno,

Assôma no alto o descarnado Monstro,

A ferrea fouce em punho.

 

Voão-lhe em roda Lémures, Espectros,

Jazem-lhe aos pés as lividas Doenças:

O silencio, o pavor, a escuridade

Alli, perennes, mórão.

 

Nos quatro cantos de horrorosa estancia

Quatro cyprestes lúgubres se elevão;

Aves sinistras, rouquejando agouros,

Entre os ramos se aninhão.

 

Para aqui se encaminha a Invéja tôrpe:

Tremendo, aos pés do throno se apresenta; Frio terror os membros lhe entorpece

Ao encarar o Nume:

 

Mas, assanhando a roedora serpe,

Que no peito lhe pásce, a dor vehemente

Lhe esperta o coração, lhe volve o acôrdo;

E assim troveja a Furia:

 

"Deosa, dominadora do Universo,

Cujo imperio vastissimo confina

Co'a muralha da immensa Eternidade:

Branda meu rogo affaga.

 

Já vezes mil o tétrico veneno

Das serpes, que me toucão, que alimento,

Fêz em teus lares borbulhar o sangue

De victimas sem conto,

 

Serviço não vulgar, que te hei prestado,

Jús me confere a não vulgar indulto:

Vinga-me, ó Deosa, de hum Mortal soberbo,

Que ousa affrontar-me impune.

 

Elmano, o caro a Febo, e caro a Lysia,

C'roado ha muito de immurchavel louro,

Sobre o ludibrio meus alçou ufano

Troféo de eterna dura.

 

Com pé robusto esmigalhou valente

(Da peçonha mortal nem foi tocado)

Viboras, que arranquei da trança horrenda,

Para arrojar-lhe ao seio.

Tentei vãmente ennegrecer-lhe a Fama,

Que nivea, e pura os Orbes divagava!

Meus baldados projectos só servirão

De aviventar-lhe o lustre.

 

Chusmas de Zoilos, meus fieis Ministros, Em vão em meu favor as armas tomão:

Relampaguêa o Vate, e nos abysmos

Baqueão, aterrados.

 

Myrrhada de pezar, baixei ao Orco,

E alli fui prantear a injúria minha:

Gritos, que então soltei de dor, de raiva,

Inda nelle retumbão.

 

Foi-me comtudo balsamo suave

Á dor cruel, que me ralava o peito,

O grato annúncio, de que o Vate odioso

Roçava o ponto extremo.

 

Mortifero aneurisma promettia

Romper-lhe antes de muito os nós da vida! Meu coração folgou, desaffrontado,

Co'a proxima ventura.

 

Já com soffregas mãos, tintas em sangue, No Báratro compunha atróz peçonha,

Para ensopar-lhe as socegadas cinzas

No tácito jazigo.

 

Porém, ó Deosa, se, exercendo a Fouce,

O demorado golpe não desfechas, As, que alimento, gratas esperanças,

Qual fumo, se esvaecem.

 

Sim, ás contínuas súpplicas de Lysia,

Como que o Fado a fronte desenruga;

Brado, macio já, como que intenta

Deferir-lhe propicio.

 

Ah! e quanto, inda assim oppresso, enfermo,

Quando me affronta, me assoberba Elmano! Seu Estro sempre o mesmo, sempre em chammas,

Raios me vibra intensos.

 

Todos de Lysia abalizados Cisnes

Melifluo canto em seu louvor modúlão;

Rôto ao porvir (mercê de Apollo) o seio,

Vida fádão-lhe eterna.

 

E serei, ai de mim! assim calcada,

Sem que possa vingar-me!.." Aqui lhe brótão As lágrimas em fio, entre soluços

Suffocada, emmudece.

 

Depois de curto espaço, a Morte horrenda, A fronte definada meneando,

Alça a medonha voz, e assim responde

Á consternada Furia:

 

"Não te desdenho, ó Filha: do meu throno

Tu és robusto apoio; os teus serviços

A obrigação me impõe de ser-te grata:

Morrerá quem te affronta"

Disse; e n'astea da Fouce o corpo firma,

Ergue-se, e ensaia para o vôo as azas:

Nos cantos da caverna os negros Mochos

Soltão da morte o grito.

 

Eis que estranho clarão, rompendo as trévas, Súbito inunda a lôbrega morada;

Eis apparece (mortal raio á Invéja)

Em branca nuvem Lysia.

 

Brando surriso esmalta-lhe o semblante,

Nos olhos o prazer lhe reverbéra,

Luz-lhe na dextra lâmina de bronze,

Qual astro, fulgurosa.

 

Com garbo magestoso a vestidura

Sobraça roçagante; e assim que arrósta

O Nume aterrador, na voz suave

Taes expressões lhe envia:

 

"Chorosa, amargurada, longo tempo

Curva ante o Solio do adoravel Fado,

Ferventes rogos, humidos de pranto,

Fiz subir-lhe á presença.

 

De Elmano, do meu Vate a vida em risco: Meu coração materno consternava:

Elle era a gloria minha; ella morrêra,

Se morresse o meu Vate.

 

Regeitado, porém, não foi meu rogo:

O Fado para mim sempre benigno, Risonho me outorgou (mercê não tenue)

O suspirado indulto.

 

Eis o Decreto seu:" (e entrega ao Monstro A lâmina de bronze.) Ao vê-lo a Parca,

Depondo a curva Fouce, inclina a frente,

E reverente o beija.

 

"Cumpre-se, ó Lysia, (diz) a Lei do Fado."

Exulta Lysia, e presurosa surge

Da habitação medonha: opácas sombras

De novo alli se espessão.

 

Oh que horrendo espectaculo não era

A Invéja furiosa, ardendo em raiva!

Da dextra, da sinistra a serpe, o facho

Arreméça convulsa.

 

As melenas, frenéticas, arrepéla,

E de áspides alastra o pavimento;

Na boca, onde as espumas são veneno,

As maldições lhe fervem.

 

Torcendo, e retorcendo os vesgos olhos,

Vaguêa delirante a vasta furna:

A Morte, a propria Morte, ao ver-lhe as furias,

Treme no throno horrendo.

 

O Fado, contra quem vomita o Monstro

Negra turma de pragas, indignado

Manda ronque o trovão, fuzile o raio,

E sobre ella desabe.

A Furia, remordendo-se, baquêa,

E no bojo inflammado o Inferno a sorve.

Em tanto a grande Lysia, exultadora

Vôa a abraçar seu Filho.

 

* * * * *