A virtude laureada

Manuel Maria Barbosa du Bocage · Capítulo 2 de 30

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A virtude laureada

*Epistola.*

 

Qual d'entre as rôtas, náufragas cavernas

Do lenho que se abrio, desfez nas rochas, Colhe affanoso, deploravel Nauta

Reliquias tenues, com que a vida estêe,

Em erma, ignota praia, a que aboiárão,

E onde a custo o remio propicia antenna: Tal eu, que da Existencia o Pégo, o Abysmo,

(De que assomão, rebentão, rugem, fervem Rochedos, Escarcéos, Tufões, e Raios)

Tal eu, que da Existencia o Mar sanhudo

Vi romper meu Baixel, e arremessar-me

A inhóspitos montões de estranha arêa,

Triste recolho os míseros sobêjos,

Com que esvaído alento instaure, esforce, E avive os dias, que amorteço em mágoas.

Em ti, constante, desvelado Amigo,

Demando contra a Sorte asylo, e sombra;

Oh das Musas Fautor, de Flora Alumno!

(Rasgado o véo da Alegoria) estende

Ao Metro, que desvale, a Mão, que presta. Se azas lhe deres, em suave adêjo De Lysia ao seio, que a Virtude amima,

Della Cultores, voárão meus Versos,

E o Patrio, doce Amor ser-lhe-ha piedoso.

 

Bocage.

 

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