A virtude laureada
*Epistola.*
Qual d'entre as rôtas, náufragas cavernas
Do lenho que se abrio, desfez nas rochas, Colhe affanoso, deploravel Nauta
Reliquias tenues, com que a vida estêe,
Em erma, ignota praia, a que aboiárão,
E onde a custo o remio propicia antenna: Tal eu, que da Existencia o Pégo, o Abysmo,
(De que assomão, rebentão, rugem, fervem Rochedos, Escarcéos, Tufões, e Raios)
Tal eu, que da Existencia o Mar sanhudo
Vi romper meu Baixel, e arremessar-me
A inhóspitos montões de estranha arêa,
Triste recolho os míseros sobêjos,
Com que esvaído alento instaure, esforce, E avive os dias, que amorteço em mágoas.
Em ti, constante, desvelado Amigo,
Demando contra a Sorte asylo, e sombra;
Oh das Musas Fautor, de Flora Alumno!
(Rasgado o véo da Alegoria) estende
Ao Metro, que desvale, a Mão, que presta. Se azas lhe deres, em suave adêjo De Lysia ao seio, que a Virtude amima,
Della Cultores, voárão meus Versos,
E o Patrio, doce Amor ser-lhe-ha piedoso.
Bocage.
* * * * *