Argo
Introdução
No final daquela tarde de sábado, eu estava pintando no meu ateliê. Lá fora, o sol começava a se pôr detrás das montanhas, lançando uma sombra escura e comprida que cobria o vale como uma cortina. Eu gostava da penumbra no aposento.
Come Rain or Come Shine era a canção que tocava no rádio. Com frequência eu ouvia música enquanto trabalhava. Para mim, era quase tão importante quanto a luz. Eu instalara um ótimo sistema de som estéreo e, se pintasse até tarde no sábado à noite, podia pegar o Hot Jazz Saturday Night, com Rob Bamberger, na estação NPR.
Eu comecei a pintar ainda na infância e trabalhava como artista plástico ao ser contratado pela CIA em 1965. Ainda me considerava um pintor em primeiro lugar e depois um espião. A pintura sempre foi uma válvula de escape para as tensões que acompanhavam meu trabalho na Agência. Apesar do convívio ocasional com burocratas, cujas idiossincrasias me faziam chegar ao ponto de querer esganá-los, se pudesse ir até o ateliê e pegar um pincel, a raiva reprimida acabava se dissolvendo.
Meu ateliê equilibrava-se sobre a garagem, com acesso por uma escada bastante íngreme. Era um aposento amplo com janelas em três lados. O piso era revestido com um assoalho de pinho amarelo em diagonal e coberto por uma profusão de tapetes orientais. Como mobília, havia um enorme sofá branco e algumas antiguidades que a minha esposa, Karen, adquirira para sua empresa de decoração de interiores. Era um espaço bastante confortável e, o mais importante, era meu. Entrar ali exigia minha permissão, algo que eu concedia com generosidade. Os amigos e a família sabiam, porém, que, quando eu estava envolvido com um projeto, deviam andar nas pontas dos pés.
O ateliê foi construído junto com a casa. Após regressar de uma temporada de trabalho no exterior em 1974, Karen e eu decidimos que seria melhor criar nossos três filhos longe da barra-pesada de Washington, D.C. Escolhemos um terreno de quinze hectares no sopé das montanhas Blue Ridge e, depois de desmatar um trecho, passei a maior parte de três verões construindo a casa principal enquanto a família e eu morávamos numa cabana de madeira, também erguida por mim. A terra tinha
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uma longa história. O campo da Batalha de Antietamficava pouco adiante estrada acima, e de vez em quando achávamos alguma relíquia da Guerra Civil — botões, balas, peitorais — jogada entre as folhas e as árvores caídas nos limites da nossa propriedade.
A pintura em que eu trabalhava naquela tarde fora desencadeada por uma expressão associada ao meu trabalho: Wolf Rain [Chuva de Lobo]. Era um nome de sonoridade sombria como o clima melancólico, inóspito e úmido, e se relacionava com as profundezas da paisagem de floresta, bem diante da minha janela, numa noite de inverno. Transmitia uma espécie de tristeza que eu não conseguia explicar, mas sentia que podia pintar.
Trabalhar em Wolf Rain era uma daquelas coisas que a gente espera que aconteçam na nossa vida de artista — uma pintura que simplesmente emerge do nada. Talvez como o personagem de um livro que abre seu caminho até tomar conta da narrativa. A figura do lobo era reconhecível apenas pelos olhos — uma imagem flutuante numa floresta encharcada pela chuva com uma angústia perceptível no olhar.
Se a pintura ia bem, minha mente entrava de imediato em modo “alfa”, o estado subjetivo, criativo, do lado direito do cérebro no qual ocorrem os lampejos de descobertas. Einstein disse que o que define um gênio não é uma inteligência superior à dos outros, e sim a predisposição para receber a inspiração. Para mim, essa era a definição de “alfa”. Eu começava a sessão desvencilhando-me de todos os babacas do trabalho e, em seguida, saltava para momentos de clareza em que encontrava soluções para problemas que eu nunca tinha considerado antes. Eu estava pronto para receber.
Era o dia 19 de dezembro de 1979, e eu tinha muita coisa na cabeça. Pouco antes, naquela mesma semana, eu recebera um memorando do Departamento de Estado dos Estados Unidos com algumas notícias alarmantes. Seis diplomatas americanos haviam escapado da embaixada norte-americana em Teerã, tomada por militantes, e escondiam-se nas residências do embaixador canadense, Ken Taylor, e de seu chefe do serviço de imigração, John Sheardown. Os seis pareciam estar seguros por enquanto, mas não tinham garantias de que permaneceriam a salvo; no rastro da invasão da embaixada, os militantes vasculhavam a cidade à procura de qualquer americano que pudessem encontrar. Eles já estavam escondidos havia quase dois meses. Quanto tempo mais poderiam aguentar?
A notícia da fuga chegou a mim meio de surpresa. Eu passara o mês anterior na CIA absorvido no problema mais amplo. Em 4 de novembro, um grupo de militantes iranianos invadira a embaixada dos Estados Unidos em Teerã fazendo mais de 66 reféns. Os militantes acusavam os americanos de “espionagem” e de tentativa de solapar a incipiente Revolução Islâmica no país, e o governo iraniano, encabeçado pelo aiatolá Khomeini, os apoiava.
Na época da invasão, eu trabalhava como chefe das operações globais de disfarce da CIA, no Escritório de Serviços Técnicos (EST). No decorrer daqueles catorze anos de carreira, eu conduzira numerosas operações clandestinas nos lugares mais distantes, com agentes e supervisores disfarçados, ajudando a resgatar desertores e refugiados de dentro da Cortina de Ferro.
Como consequência imediata do ataque, eu e minha equipe vínhamos trabalhando na preparação de disfarces, documentos falsos e antecedentes pessoais para as várias identidades falsas necessárias para que qualquer equipe avançada pudesse se infiltrar no Irã. Então, em meio a esses preparativos, chegou o memorando do Departamento de Estado.
Quando apliquei o verniz escuro sobre a base da tela, ele imediatamente transformou a atmosfera da obra. Os olhos penetrantes do lobo de repente ganharam vida, como dois globos dourados. Eu observei, transfixado. A imagem desencadeara algo em mim. O Departamento de Estado parecia estar assumindo uma postura de “esperar para ver” em relação aos seis americanos, o que eu considerava problemático. Eu estivera recentemente no Irã numa operação secreta e conhecia os perigos em primeira mão. Os diplomatas poderiam ser descobertos a qualquer momento. A cidade estava repleta de olhos, a observar, procurar. Se os seis americanos tivessem de fugir, para onde iriam? As multidões de milhares de pessoas entoando cânticos diariamente diante da embaixada americana em Teerã não deixavam dúvida de que, se capturados, eles quase certamente seriam jogados numa prisão e talvez encarassem até mesmo um pelotão de fuzilamento. Eu sempre dissera à minha equipe que há dois tipos de exfiltração: aquelas feitas sob pressão hostil e aquelas sem tal pressão. Não podíamos nos dar ao luxo de esperar até que os seis americanos fossem obrigados a fugir. Ou seria quase impossível tirá-los de lá.
Meu filho Ian entrou no ateliê.
— E aí? — perguntou. Caminhou até o quadro e o examinou de um jeito que só um filho de artista com dezessete anos poderia fazer. — Bacana, pai — declarou, recuando um pouco para ter uma perspectiva melhor. — Mas precisa de mais azul. — Ele mal notou os olhos do lobo.
— Cai fora daqui, Ian. Vou descer para o jantar dentro de mais ou menos meia hora. Diga à sua mãe, sim?
No rádio, Ella soltou a voz em uma interpretação de Just One of Those Things, em uma versão antiga, e comecei a limpar os pincéis na terebintina e devolver as tampas às bisnagas de tinta a óleo. Minha paleta, que havia engrossado com o passar dos anos, parecia um punhado de estalactites de cores vivas assentadas sobre uma tábua oval com um buraco para enfiar o dedo. A essa altura, ela era pesada demais para segurar na mão, mas continha fragmentos de todas as pinturas que eu já tinha feito no ateliê.
Enquanto guardava os pincéis, os estágios iniciais de um plano começaram a surgir. Não precisaríamos apenas criar novas identidades e disfarces para os seis americanos. Alguém teria de se infiltrar no Irã, fazer contato com eles e avaliar sua capacidade de executar o plano.
Um milhão de perguntas começaram a passar pela minha cabeça. Como eu convenceria seis inocentes diplomatas americanos sem nenhum treinamento em operações secretas de que conseguiriam escapar do Irã? Como eu inventaria uma história que pudesse explicar a presença do grupo num país sacudido por uma revolução? Apesar de ter realizado dezenas de “exfiltrações”, eu via que essa seria uma das minhas missões mais desafiadoras.
Desliguei o rádio, apaguei as luzes e permaneci por um momento no escuro, olhando pela janela, para a noite, sob o brilho das luzes na estufa. Espionagem é um instrumento da política estatal, ponderei. Para ser empregada de forma adequada e profissional, existem regras internacionais a serem seguidas. No caso do governo revolucionário do Irã, porém, a única regra era a ausência de regras.
*
Batalha travada durante a Guerra Civil, em setembro de 1862, vencida pela União e considerada
a mais sangrenta da história dos Estados Unidos, quando perderam a vida mais de 23 mil
americanos de ambos os lados. [N. do T.]