Argo

Antonio Mendez e Matt Baglio · Capítulo 10 de 17

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Argo

9. Hollywood

Terno resolveu, então, pegar um voo para Los Angeles para encontrar-se com Calloway. Isso foi logo depois do episódio NESTOR, quando a CIA começava a pensar em preparar de antemão kits para melhorar nossa prontidão em caso de necessidade de realizar alguma exfiltração de urgência. Terno não tinha certeza do que Calloway poderia fazer, mas esperava que ele estivesse disposto a nos assessorar de alguma maneira.

Calloway, que servira no exército na Segunda Guerra Mundial, ficou muito feliz em ajudar. Era um completo patriota e adorou a ideia de voltar a fazer algo pelo seu país. Antes de se envolver com Hollywood, ele havia trabalhado por muitos anos criando narizes falsos e olhos de vidro para soldados feridos. Na verdade, mesmo depois de se tornar uma fera na indústria de entretenimento, essa faceta do início de sua vida profissional ainda era aquela que mais o gratificava. Para ele, os produtores não passavam de barracudas dispostas a devorar o almoço dos outros.

Alguns meses após a viagem de Terno, eu voei de Okinawa a Washington para receber um treinamento que fazia parte do novo programa generalista de autenticação. Era exatamente o mesmo programa que eu tinha proposto depois da Operação NESTOR para preparar técnicos com treinamentos multidisciplinares a serem enviados para mais perto da ação. Jacob e eu tivemos a oportunidade de testar nossa teoria formando a primeira equipe. Ficaríamos lotados no Extremo Oriente, mas primeiro eu precisava receber treinamento em disfarce.

Naquela época, as técnicas usadas pela CIA não davam orgulho — utilizavam principalmente perucas, óculos e chapéus encontrados nas prateleiras das lojas de departamento. Não é de admirar, eu pensava, que a maioria dos agentes em campo se recusasse a usar aquele material. Ao todo, o treinamento durou dez dias, ao cabo dos quais recebi o certificado de “perito”. Foi durante a minha viagem de retorno à Ásia que Terno pediu que eu fizesse uma escala em Los Angeles e visitasse Calloway.

Desde sua concepção, a CIA sempre se apoiou na engenhosidade de consultores externos para auxiliar os espiões americanos a se manter à altura dos adversários. Ao contrário dos seus colegas soviéticos, que desfrutavam de forte apoio governamental, no rastro da Segunda Guerra Mundial os espiões americanos viram-se desempregados, quando o presidente Truman desmontou o OSS em 1945. Seria apenas em 1947 que os Estados Unidos voltariam a ter uma agência de inteligência, mas mesmo então suas verbas eram irrisórias quando comparadas às dos rivais. Além disso, os chefes de espionagem nos Estados Unidos achavam difícil competir com o setor privado, que não só pagava mais, mas também oferecia a seus cientistas a perspectiva de louvores e reconhecimento, algo que um serviço secreto não podia oferecer. Como resultado, a CIA viu-se em desvantagem tecnológica por quase duas décadas, no início de sua existência. Ainda no começo dos anos 1960, por exemplo, a CIA ainda não criara uma câmera pequena e confiável que pudesse ser usada para fazer cópias de documentos. Essa desvantagem ficou dolorosamente óbvia quando um dos mais importantes agentes russos dos Estados Unidos, o coronel Oleg Vladimirovich Penkovsky, foi denunciado no outono de 1962 e executado em 1963.

Para superar esse déficit de tecnologia, a Agência começou a contratar mais técnicos recém-saídos

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da universidade, ao mesmo tempo que repassava vários outros projetos para o setor privado.Por exemplo, ao buscar auxílio para projetar uma nova câmera em miniatura conhecida como T100 no começo da década de 1970, os técnicos do EST recorreram a um especialista em óptica de precisão que foi capaz de projetar lentes de 4 mm de diâmetro. Quando o projeto foi concluído, a câmera era tão pequena que cabia numa caneta-tinteiro. Em outro caso, os técnicos do EST trabalharam junto com um conhecido fabricante de aparelhos auditivos para criar um microfone pequeno o suficiente para caber

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numa bala calibre .45.Os técnicos buscavam um meio de implantar um dispositivo de escuta dentro de uma árvore que estava no pátio de uma embaixada estrangeira. A questão, é claro, era que o microfone precisava continuar funcionando mesmo depois que a bala estivesse encravada na árvore. Levou algum tempo, mas no final das contas a empresa teve êxito no projeto.

Além de Calloway, eu trabalharia com muitos profissionais terceirizados ao longo da minha carreira. Em meados da década de 1970, desenvolvi uma associação com um criador de mágicas que inventava truques para ilusionistas e produções de Hollywood para ajudar a aperfeiçoar um dispositivo conhecido como JIB. A ideia por trás do JIB era permitir que um agente que estivesse viajando no banco do passageiro de um carro escapasse da vigilância fazendo um manequim tomar seu lugar exatamente no momento de sair do carro. Para dar certo, porém, a troca tinha de ser tão rápida que os integrantes do carro da KGB que o seguissem não percebessem nada. O dispositivo passou por diversas versões, desde uma boneca inflável ligeiramente modificada até uma geringonça que pesava mais de vinte quilos. Pensando em como poderíamos simplificar, entrei em contato com o criador de mágicas, que era amigo de Calloway (os dois, na verdade, tinham trabalhado juntos num filme de James Bond, entre outras coisas). A solução encontrada por ele foi um elegante instrumento que podia ser escondido dentro de uma variedade de objetos e que funcionava com o mesmo princípio de um guarda-chuva. Quando foi finalmente concluído, o motorista do carro podia até mesmo animar o dispositivo usando um pequeno controle para fazer a cabeça virar.

Durante o nosso primeiro encontro, Calloway me levou em visita ao set de gravação do programa de espionagem, apresentando-me como seu “amigo do exército”, uma frase sempre acompanhada por uma piscadela. Em anos futuros, esta se tornaria a grande piada entre nós: “Este é o meu amigo; ele faz efeitos especiais para o exército.”

Na época em que o conheci, Calloway já era considerado um dos mais criativos profissionais de maquiagem na indústria cinematográfica. Ganhara os principais prêmios do setor pelo trabalho num filme de ficção científica.

Enquanto ele me guiava pelo set, alguém chegou às nossas costas e disse: “Jerome Calloway é uma bicha.” Viramos para ver um dos astros do programa andando atrás de nós. A piada tinha graça quando se conhecia Jerome. Americano de primeira geração criado em Chicago, Calloway tinha uma exuberância característica. Seu rosto grande e expressivo era emoldurado por um par de óculos de aro grosso, estilo anos 1950, enquanto o cabelo era geralmente puxado para trás com uma espessa camada de brilhantina. Era um homenzarrão que mais parecia um leão de chácara do que um maquiador e usava camisa branca de mangas curtas e gravata preta quase como se fosse um uniforme. Aqui e ali, porém, exibia certo tipo de afetação. Usava um anel no dedo mindinho com uma pedra preciosa encravada e guiava um Pontiac amarelo pastel, o maior veículo da marca.

Apesar de ter crescido longe do mundo do cinema, Calloway fora atraído para a ribalta desde o início. Ele me contou que, quando ainda era menino em Chicago, ficara sabendo de um incêndio num armazém em seu bairro. Ele saiu correndo na esperança de que, apresentando-se como voluntário, pudesse ter sua foto estampada no jornal. Quando o fotógrafo bateu um instantâneo dele com outra pessoa carregando uma maca, ele achou que, com certeza, apareceria na primeira página. Na manhã seguinte, porém, ficou desolado ao ver que o fotógrafo o cortara do quadro, a não ser pelas mãos. Costumava contar essa história como advertência para o vazio da fama: “Você passa por todas aquelas dificuldades, e no final a única coisa de que eles se lembram de você são as mãos!”

Ir a qualquer lugar com Calloway era sempre uma aventura, fosse dar um pulo numa lanchonete local, fosse penetrar num dos muitos mundos que habitavam suas histórias. Um narrador inveterado, Calloway tinha uma queda pelo drama. E quando seus braços entravam em ação e ele abria um sorriso, seu entusiasmo era contagiante. Vários artistas conhecidos se recusavam a trabalhar se não fosse ele o maquiador. Um de seus clientes favoritos era Bob Hope. Piadista nato, ele e Hope ficavam trocando tiradas engraçadas o tempo todo que trabalhavam juntos.

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DEPOIS DA VISITA AO set, Jerome e eu voltamos para seu ateliê em Burbank, que era essencialmente a garagem de seu bangalô suburbano. Era uma casa pequena, mas agradável. Ele era casado com uma boa moça com o jeitão típico dos anos 1950 e morava com seu pai, de noventa anos, um ex-bombeiro hidráulico da cidade de Chicago que ele apropriadamente chamava de “Papai”.

Andar por sua garagem era como andar por uma espécie de museu. Calloway modificara o espaço adicionando um pequeno escritório e ateliê. Tinha mesas e bancadas arrumadas com materiais em várias fases de execução. Atrás da garagem, havia dois barracões que serviam de depósito, cheios de tudo que ele já tinha feito um dia — narizes de borracha, orelhas, partes de monstros. Ele vivia recebendo telefonemas de outros maquiadores pedindo ajuda, alguns de muito longe, até mesmo da Austrália. Se você lhe dissesse que estava procurando determinado tipo de nariz, havia nove chances em dez de encontrá-lo numa caixa de sapatos em um de seus barracões. Porém, talvez os artefatos mais notáveis que ele guardava na garagem fossem os bustos de diversas atrizes famosas. Antes dos tempos das cirurgias plásticas, Calloway fora contratado para fazer moldes do busto de certas estrelas e criar “enchimentos” naturais de espuma colocados num sutiã, fazendo com que as mulheres parecessem mais bem-dotadas. Ele mantinha os bustos cobertos por toalhas, mas ocasionalmente os exibia ao receber visitas. Uma das muitas histórias que contava envolvia um famoso ator inglês que, ao entrar, viu o molde do peito de sua esposa.

— Está reconhecendo? — perguntou Calloway.

— Ela parece familiar — respondeu o ator, hesitante.

Calloway informou-lhe, então, que pertencia à sua esposa, que naquela época era uma atriz jovem e em ascensão.

Brincadeiras à parte, Calloway era realmente talentoso em seu trabalho. Criativo e intelectualmente curioso, estava sempre em busca de novas tecnologias. À frente de seu tempo, vivia em contato com indústrias químicas, à procura de produtos, desenvolvendo-os, fazendo o que fosse preciso para obter os resultados que desejava. E para ele apenas o melhor servia. Era um mestre, e trabalhar com ele era uma farra. Se você precisava de que algo fosse feito, nem que fosse apenas um mero esboço, Jerome tinha a solução, ou então a produzia em pouquíssimo tempo. Com frequência, ele já tinha aquilo pronto e escondido em algum canto de seu ateliê. “Parece aquela peça que fiz para Robert Mitchum.”

Desnecessário dizer, nós dois nos entendemos de imediato. O processo de criar um bom disfarce era muito semelhante ao de criar uma obra de arte, e creio que nós dois percebemos que éramos almas gêmeas. Depois do nosso primeiro encontro, não demoraria muito para que eu lhe pedisse ajuda.

* * *

VOLTANDO DE LOS ANGELES para a Ásia, logo me encontrei em Vientiane, capital do Laos. Com a guerra chegando ao fim no vizinho Vietnã, Vientiane se tornara um centro de atividade clandestina. Era como uma cidade fronteiriça do velho Oeste, só que banhada pelo rio Mekong. Assim que caía a noite, serviços de inteligência do mundo inteiro desciam para a rotatória em torno da praça principal da cidade para fazer suas coletas com carros em movimento. Uma coleta com carro em movimento é exatamente isto: um agente guia um carro bem devagar, o suficiente para que uma pessoa possa saltar rapidamente no banco traseiro sem ser vista. Havia tantas coletas com carros em movimento nessa rotatória de Vientiane que as pessoas chegavam a entrar nos carros errados. Em certo momento, fiquei responsável por administrar 26 disfarces diferentes. Tudo o que eu podia fazer era me manter atualizado.

Aí, certo dia, fui abordado por um dos supervisores veteranos da CIA com um problema real. Ele era um dos poucos — talvez o único — afro-americanos na cidade, o que fazia dele um alvo fácil para a vigilância. Por uma estranha conjuntura de fatos, ele se viu lotado no país quando foi requisitado pelo novo embaixador americano no Laos, que o conhecera no Congo. O agente vinha mantendo encontros com um importante ministro do Laos que possuía informações vitais sobre o que acontecia no lado comunista durante as conversações de paz na Indochina. Os dois se reuniam em segredo havia muitas semanas, mas, com o Pathet Lao fechando o cerco sobre a cidade, a milícia local instituíra um toque de recolher e começara a bloquear as ruas de forma aleatória. O supervisor sabia que, se o ministro fosse pego com ele, seria um desastre.

Depois de ele explicar sua atribulação, fiquei ali sentado por alguns segundos pensando no que fazer. Sem que me ocorresse nada, expliquei ao agente que o acompanharia na próxima ocasião em que fosse se encontrar com o ministro para programá-lo para um disfarce. Nesse ínterim, mandei imediatamente um telegrama para a central pedindo instruções. Quase de imediato, recebi uma resposta dizendo que eles tampouco sabiam o que fazer. O que mais os preocupava, disseram, eram as orelhas. Em outras palavras, a única coisa que lhes ocorria era um artefato no qual estávamos trabalhando para nossos funcionários que se dirigiam à União Soviética e que se ajustava ao rosto, mas não cobria as orelhas.

Pensei, então, em alguns dos utensílios que tinha visto na garagem de Calloway e imaginei se ele teria algo que pudesse ajudar. Antes de tudo, porém, teria de me encontrar com o ministro para tirar suas medidas, o que pude fazer depois de me sujeitar eu mesmo a ser coletado por um carro em movimento. Depois de estar de posse dessa informação, sentei e escrevi um longo telegrama delineando meu plano. No texto, especifiquei minha ideia e depois pedi à central que encaminhasse a informação anexa a Calloway.

Como fiquei sabendo depois, Calloway recebeu as medidas e foi imediatamente para os barracões de depósito. Ele tinha feito máscaras da maioria dos astros de Hollywood para serem utilizadas por seus dublês, e por acaso as medidas que eu lhe enviara coincidiam com as de Victor Mature e Rex Harrison.

Após um intervalo de poucas semanas, recebi um pacote da central. Dentro dele havia duas máscaras, junto com outros materiais que eu solicitara, inclusive um par de luvas cor da pele. As técnicas de disfarce que Jacob e eu acabamos utilizando para essa operação ainda são confidenciais. Quando terminamos, Jacob e eu conseguimos transformar um supervisor de caso afro-americano e um ministro do Laos em dois caucasianos que se pareciam vagamente com Rex Harrison e Victor Mature. E acabou sucedendo que, depois de disfarçados, enquanto voltavam do lugar seguro onde se reuniam, nossos piores temores se concretizaram. Uma barreira aleatória havia sido montada e os dois foram forçados a parar. No entanto, em vez de entrarem em pânico, exibiram suas novíssimas identificações diplomáticas. Os soldados olharam as carteiras, deram uma espiada dentro do carro e mandaram que seguissem, sem maiores incidentes.

O sucesso dessa operação foi reportado aos mais altos escalões da central. Foi realmente o início daquilo que viríamos a chamar de disfarce avançado.

* * *

AO LONGO DOS ANOS , à medida que Calloway e eu nos tornamos bons amigos, comecei a passar um bocado de tempo com ele em Los Angeles. Em algumas dessas viagens, eu me juntava à sua equipe no estúdio para o qual estivessem trabalhando, como se fizesse parte do time. Em uma dessas ocasiões, eu estava esculpindo um novo protótipo de cabeça a ser usada para o JIB enquanto ele e o grupo trabalhavam nas máscaras para um filme de ficção científica com monstros. De outra vez, ele e eu caminhávamos pela área externa do estúdio quando um ônibus de turismo passou e o guia anunciou:

— Senhoras e senhores, o premiado maquiador Jerome Calloway!

Calloway, é claro, apontou para mim.

Depois que passei a chefiar o setor de disfarces, começamos a fazer um rodízio de funcionários para esse estágio em Hollywood. E, como eu, eles frequentemente trabalhavam em sets de filmagem, nas produções das quais ele estava participando. Ele ensinou a uma geração de funcionários da CIA os rudimentos de como fazer um disfarce eficaz. Além disso, também se tornou uma inestimável caixa de ressonância para futuras situações hipotéticas, muitas das quais ainda usadas pela CIA até hoje.

Calloway também se tornou um patrimônio para o setor de disfarces de outras maneiras. Numa de suas muitas viagens a Washington, marquei um almoço com ele e com o nosso chefe de operações. Na época, eu estava procurando expandir a seção de disfarces. Calloway sabia disso, e o tópico surgiu durante o almoço, quando o chefe perguntou como a seção estava se saindo.

— Bem — Calloway respondeu —, mas estariam se saindo ainda melhor se tivessem mais espaço no escritório.

E nós ganhamos mais espaço.

Quando Jerome visitou Washington alguns anos depois, resolvi incluí-lo num exercício de treinamento. “Flick”, o químico de uma indústria que também colaborava com a CIA, por acaso também estava de visita, e achei que poderia ser bom para os dois ver como operávamos em campo.

Após o programa generalista ter decolado, treinávamos continuamente três ou quatro agentes por vez, deixando-os preparados para suas atribuições além-mar. Com o objetivo de submetê-los a treinamentos multidisciplinares, fazíamos com que mergulhassem por várias semanas em determinado assunto para lhes ensinar um ofício específico, como, por exemplo, a criação de dentaduras falsas. Aí, como exame final, juntávamos tudo em uma única operação complexa que exigia que usassem todas as suas habilidades recém-adquiridas. Em um desses exercícios, um grupo de três trainees devia se infiltrar sub-repticiamente num país fictício, estabelecer um quartel-general num quarto de hotel no Key Bridge Marriott em Rosslyn, Virgínia, e então sair e pegar um terrorista foragido. Feito isso, deveriam trazê-lo de volta ao hotel, onde ele seria disfarçado para ser retirado do país.

Para nos divertirmos um pouco, resolvemos deixar que Calloway e Flick interpretassem os papéis dos guardas de fronteira do país fictício. Os dois ficaram animadíssimos e foram ao nosso guarda-roupa para tornar a coisa mais realista. A travessia da fronteira foi montada em Crystal City, perto do Pentágono. Quando nosso grupo apareceu numa van, encontraram Calloway e Flick sentados a uma mesa de baralho numa área vazia, trajando chapéus de pele e uniformes poloneses. Os trainees permaneceram imperturbáveis e dirigiram-se para a mesa.

— Olá — disseram —, gostaríamos de permissão para entrar no seu país.

— Por que vocês querem entrar? — perguntou Calloway.

Usando a cobertura que haviam preparado, responderam:

— Somos apreciadores de pulgas e planejamos participar do seu festival de pulgas.

Sempre rápido no gatilho, Calloway disse:

— Tudo bem, mas as nossas pulgas são restritas, de modo que vamos ter de fazer uma inspeção. Baixem as calças.

Os trainees devem ter imaginado o que estava por acontecer, porque, quando baixaram as calças, estavam todos usando a bandeira americana como roupa de baixo.

Após um rápido exame, Calloway e Flick liberaram a passagem e eles entraram de volta na van, seguindo para o Key Bridge Marriott. Depois de darem entrada, disfarçaram-se e aí se dirigiram para o bar para se encontrarem com seu contato local, papel assumido por outro aluno. Este responderia usando uma senha/contrassenha que a equipe elaborara de antemão. Nesse caso, porém, em vez de usar uma palavra ou uma frase, o grupo havia bolado algo ligeiramente mais criativo.

Calloway, que vivia contando piadas, tinha uma favorita que havia penetrado nos nossos escritórios. Era uma piada do tipo toc-toc, que envolvia um bêbado num bar:

— Toc-toc — dizia Calloway.

— O que é? — questionava a pessoa.

— Argo — respondia ele.

— Argo o quê? — a pessoa perguntava, compenetrada.

— Argo que vai te foder! — ele exclamava, em um tom pastoso, como se tivesse acabado de virar uma garrafa de bourbon.

Não demorou muito para o bordão virar um grito de guerra quando a carga de trabalho estava pesada demais e tínhamos muita coisa na cabeça. Sempre que isso acontecia, Calloway cortava a tensão berrando “Argo!”, ao que todos respondiam conforme o roteiro.

Os trainees haviam decidido usar ARGO como contrassenha. Só que, em vez de dizer a palavra, um deles a desenhara numa dentadura falsa que tinha criado. Assim, a troca correu mais ou menos assim: “A lua é azul”, seguido de um grande sorriso com ARGO escrito em vermelho nos dentes da pessoa.

A terceira parte da operação envolvia pegar o terrorista, que resolvera trazer a namorada, representada por Doris Grange. A namorada era a pegadinha, pois o grupo não tinha preparado documentos de mulher e assim teve de disfarçá-la de homem.

Quando o exercício terminou, ocupamos um salão privativo no hotel e comemoramos. Havia sido um dia divertido. Calloway curtiu imensamente e penso que apreciou a complexidade das tarefas exigidas de um responsável por uma exfiltração.

* * *

DEPOIS QUE NOSSA OPERAÇÃO de criar um dublê de corpo para o xá fora cancelada, antes de pegar seu voo de volta para Los Angeles Calloway reiterou que estava disposto a fazer qualquer coisa para ajudar. Na primeira semana de janeiro de 1980, a crise ainda estava nas manchetes de primeira página e eu sabia que Jerome se sentia tão frustrado quanto qualquer um de nós.

Enquanto eu me aprontava para minha segunda viagem para Ottawa, fiquei pensando no problema da história de fachada para os hóspedes, repassando vezes intermináveis na cabeça os tipos de pessoa que viajavam entrando e saindo do Irã. Parado em meu ateliê, as últimas palavras de Calloway ressoavam nos meus ouvidos. Haveria algum jeito de Calloway nos ajudar com os hóspedes? Pensei em todas as histórias que ele tinha me contado, em todas as minhas experiências em Los Angeles. Então, no momento em que aterrissei e me registrei mais uma vez no Lord Elgin, ocorreu-me de supetão uma ideia que achei que poderia dar certo. Em vez de fingirem ser trabalhadores em firmas petrolíferas, nutricionistas ou professores, os seis americanos fingiriam ser parte de uma produtora de Hollywood averiguando locações no Irã para um filme a ser rodado em breve. O plano, que normalmente estaria fora de questão para a maioria das operações clandestinas, tinha diversas características atraentes. Uma delas: as equipes das produções de Hollywood eram tipicamente compostas de pessoas do mundo todo. E, entre todos os grupos que se dirigiam ao Irã, não seria implausível imaginar um grupo de excêntricos e egocêntricos técnicos de Hollywood viajando para lá em meio a uma revolução para encontrar as locações perfeitas para seu filme. Além disso, tinha a única qualidade de que eu sentia falta nas outras histórias: era algo divertido, o que eu sabia que ajudaria os hóspedes a se relacionarem com ela de uma forma que as outras não permitiriam. Com suas vidas em jogo, poderia tornar suas performances muito mais convincentes. Embora algumas pessoas pudessem não saber as coisas básicas sobre agricultura, todo mundo tinha alguma ideia de como era Hollywood. O principal critério para qualquer fachada era sempre: eu estou disposto a usá-la? No meu íntimo, senti que era a nossa melhor opção.

Mas, antes de apresentar a ideia aos canadenses, eu precisava telefonar para Calloway e saber o que ele achava. Ele não tinha ideia sobre o que eu estava trabalhando naquele momento, e, já que se tratava de uma linha aberta, eu tinha de ser circunspecto sobre o que podia dizer.

— Oi, Jerome. É o seu amigo do exército — eu disse.

— Ei, Tone — ele disse, usando um dos meus apelidos prediletos. — Que é que há?

— Quantas pessoas há num grupo de pesquisa de locações de uma produção de Hollywood? — perguntei.

— Estou captando — ele disse. — Umas oito.

E listou um por um: diretor, diretor de fotografia, gerente de produção, diretor de arte, gerente de transportes, consultor de roteiro, produtor associado e gerente administrativo.

Explicou, então, que o objetivo do grupo seria examinar potenciais locações para o filme do ponto de vista artístico e comercial. O produtor associado representava os investidores financeiros. O gerente administrativo preocupava-se basicamente com arranjos bancários; mesmo uma filmagem de dez dias podia exigir milhões de dólares gastos na economia local. O gerente de transportes alugava uma variedade de veículos, desde limusines para transporte das estrelas do filme até o equipamento pesado exigido para construir um cenário. O gerente de produção juntava tudo isso. Os outros membros da equipe eram técnicos que criavam as imagens a partir das palavras do roteiro.

Quando ele terminou, achei que parecia perfeito.

— Obrigado — eu disse. — Foi de grande ajuda.

Na manhã seguinte, encontrei-me com Delgado bem cedinho, ansioso para lhe apresentar minha nova ideia. Ele permaneceu sentado pacientemente enquanto eu pincelava meu envolvimento passado com Calloway e explicava a história de fachada do grupo de pesquisa de locações para uma produção de Hollywood. Ficou logo intrigado e disse que achava que poderia funcionar. Concordou comigo quanto ao fato de que as excentricidades das pessoas que trabalhavam na indústria de cinema eram bem conhecidas, provavelmente até mesmo entre os iranianos. Melhor ainda, disse ele, o Canadá tinha uma indústria cinematográfica bastante robusta, de modo que a fachada se encaixaria perfeitamente com a documentação canadense.

Comecei, então, a pensar em como eu iria criar uma fenda para enfiar uma cunha e convencer a central da minha ideia. Pensei em algo que aprendera com a Operação NESTOR, quando Jacob fora obrigado a lidar com todos os palpiteiros. Naquela ocasião, Jacob basicamente entregara à central um fait accompli: ele já estava fazendo o que se propunha fazer. A tática também fora usada durante a exfiltração de Svetlana Stalin, quando o supervisor local mandou um telegrama para a central dizendo-lhes simplesmente que iriam botá-la num avião para Atenas, porque, se não o fizessem, pela manhã sua ausência já teria sido descoberta. Assim, no momento em que a central recebeu o telegrama, a operação já estava em andamento. Em essência, era isso que eu tinha em mente fazer agora. Delgado e eu iríamos elaborar os detalhes do plano da operação, resolver os problemas, fazer um cronograma, e aí dizer à central que ele e eu estávamos de acordo e que ambos queríamos seguir adiante com o plano no final da semana.

Com Delgado a bordo, informei, então, ao chefe do posto em Ottawa, que sinalizou sua concordância. “Parece ótimo”, disse ele. A essa altura, sentei-me à mesa do chefe e escrevi à mão um plano operacional de dezesseis páginas num bloco de papel amarelo. Era o plano abrangente que se espera que a central endosse; por isso, você tenta ser o mais detalhista possível e responder a qualquer pergunta que lhe ocorra. Lembro-me de que, enquanto escrevia o telegrama, o chefe e o embaixador americano estavam parados à porta do escritório me observando. “Ele está escrevendo a solução neste exato momento”, lembro-me de ter ouvido o chefe do posto cochichar ao embaixador. Quando terminei, entreguei diretamente ao encarregado de comunicações, que datilografou e enviou para a central, discriminando o documento como FLASH.

Na manhã seguinte, eu estava de volta a Washington, sentado na minha sala para me atualizar com alguns telegramas, quando o telefone tocou. Eu tinha uma boa ideia de quem poderia ser do outro lado da linha, antes mesmo de atender.

— Alô? — falei.

Com toda a certeza, era Hal, da Divisão do Oriente Próximo.

— Eric quer ver você — ele disse. — Você acha que arranja algum tempo esta manhã para vir até aqui?

O telegrama enviado do Canadá já tinha, conforme o esperado, percorrido todo o circuito, e, mesmo sem que Hal me contasse nada, eu sentia que Eric não estava nada feliz. Informei à minha secretária aonde estava indo e me dirigi ao estacionamento. Nos meus primeiros tempos no “cercado” gráfico, eu costumava ir para o trabalho de bicicleta. Ter carro me parecia quase um luxo. Quando cheguei à sala de Eric, ele ergueu os olhos de uma pasta sobre sua mesa e me pediu para sentar. “Tenho algumas questões com você”, ele começou. E seguiu, explicando que, em sua opinião, eu tinha cometido um erro mandando uma comunicação baseada na aprovação do chefe da representação local, que era apenas um contato. Seu ponto principal, é claro, era que eu deveria ter me coordenado com ele, em vez de tentar agir pelas suas costas com o chefe, cujo cargo no Canadá era mais de representante do que qualquer outra coisa. “E você sabe disso, Mendez”, ele concluiu. Depois que o assunto foi resolvido, a tensão na sala pareceu se dissipar e ele disse que o plano era a porra de uma obra de arte, reconhecendo que poderia ter vantagens que extrapolavam a questão do resgate dos seis hóspedes. E explicou seu pensamento:

O Pentágono ainda estava aparando as arestas do plano Eagle Claw — Garra de Águia — e, dada a localização geográfica de Teerã, não apresentara nenhum modo viável de inserir uma força de comandos do exército para resgatar os reféns. A história do filme poderia ser uma solução elegante que talvez até fosse bem recebida pelo Ministério da Orientação Nacional iraniano. O ministério fora encarregado de combater a publicidade negativa sobre o Irã — de forma absurdamente afrontosa — promovendo o turismo. Teerã também procurava meios de aliviar alguns dos problemas de fluxo de caixa decorrentes do congelamento dos ativos iranianos nos Estados Unidos, feito pelo presidente Carter. Uma produção cinematográfica em solo iraniano poderia ser uma bela injeção financeira e proporcionaria uma estratégia de relações-públicas ideal para contra-atacar a publicidade adversa proveniente da situação dos reféns.

Relativamente “moderado”, Abulhassan Bani-Sadr estava prestes a ser eleito presidente do Irã, e nós julgamos possível que ele fosse convencido pelos argumentos econômicos e então conseguisse obter a concordância das facções radicais do regime. Se assim fosse, a fachada para infiltrar comandos da Força Delta (como preparativo para uma tentativa de resgate dos reféns) como uma equipe de cenotécnicos e operadores de câmeras para preparar a locação pareceria natural. Imaginamos que talvez fosse possível inclusive ocultar armas e outros materiais nos equipamentos de filmagem.

Era uma hipótese que poderia funcionar em muitos níveis. No entanto, enquanto guiava de volta a Foggy Bottom, por um momento fui consumido pela dúvida. A opção Hollywood fora abraçada tão prontamente que me perguntei se não seria apenas um excesso de otimismo por parte de todos. De cara, era uma ideia tão absurda que eu tinha esperado alguma resistência, e, quando a resistência não veio, foi apenas natural que eu começasse a me questionar: Será que nos esquecemos de considerar alguma coisa? Estaríamos criando um plano desnecessariamente complicado que acabaria provocando a morte de alguém? Como era eu o arquiteto, precisava ter toda a certeza. Por algum motivo, apesar de sua implausibilidade, era a única opção que me deixava confortável.

* * *

O RESTO DO MEU dia foi passado em reunião com a minha equipe, fazendo com que ela entrasse de cabeça na opção Hollywood, bem como nas outras fachadas. Joe Missouri permanecia no Canadá trabalhando na questão de documentos secundários, como cartões de crédito e carteiras de motorista canadenses, que acabaram por se revelar difíceis de obter. Do mesmo modo que o governo dos Estados Unidos, os canadenses tinham certas restrições em relação ao uso de seus documentos de segurança. Numa tentativa de conseguir as carteiras, Joe acabara se encontrando com o chefe das forças de segurança nacional, que lhe disse que aquilo não iria acontecer sem algum tipo de aprovação especial dos altos escalões. A essa altura, haviam mobilizado o procurador-geral. Posteriormente, Joe relatou como o procurador-geral tinha entrado, olhado para o chefe das forças de segurança nacional e dito: “Providencie logo essa porra.” Além disso, os canadenses tinham finalizado o conjunto de seis passaportes e alguns artistas do EST no Canadá inseriram rapidamente os selos apropriados, inclusive um visto originário de um país europeu. Esses deveriam ser os documentos de emergência caso os hóspedes precisassem escapar imediatamente, de modo que foram reunidos com certa rapidez e enviados pela mala diplomática. O outro conjunto seria enviado bem mais tarde, junto com os documentos secundários que Joe estava arranjando.

* * *

EU ESTAVA NO MEU escritório naquele mesmo dia quando apareceu Matt, subchefe de operações do EST. Estava dando uma passada para verificar nosso progresso. Matt vira a minha mensagem e sabia sobre a ideia do grupo de pesquisa de locação vindo de Hollywood, mas estava na hora de tornar aquilo realidade.

— Se alguém for conferir, precisamos que as fundações estejam lá — eu disse.

— E como você pretende fazer com que isso ocorra?

O melhor tipo de escoramento de histórias de fachada é aquele em que você entra na cidade de origem dos documentos falsos da pessoa, depois vai até a rua e finalmente até a casa, onde sobre a lareira vê a foto da pessoa junto com seu suposto cônjuge e família. Esse era o nível de escoramento que eu propunha agora.

— Hollywood é uma cidade que vive de imagem — falei. — Quero arranjar um escritório, gente para trabalhar lá, fazer o máximo que pudermos.

Considerando que os hóspedes fingiriam ser membros de um grupo de busca de locações, precisávamos criar uma produtora e um filme no qual estariam trabalhando. Como eu conhecia o território, fazia todo sentido que fosse eu a ir para lá e cuidar do assunto. Disse a ele que planejava pedir um adiantamento de verba de dez mil dólares ao departamento de orçamento e finanças para cobrir as despesas.

Matt pensou por um instante. Ele sabia que corríamos um risco, pois ainda não tínhamos obtido aprovação consensual para a opção Hollywood, mas era um risco mínimo comparado à recompensa. Se a fachada fosse utilizada também para o resgate dos reféns na embaixada, assentar a base parecia a coisa mais astuta a fazer naquele momento.

Seu rosto se iluminou, e ele balançou a cabeça:

— Só você para pensar numa coisa dessas. Eu gosto.

Começamos, então, a discutir a logística da exfiltração. Até esse ponto, eu ainda tinha de designar os agentes que se infiltrariam no Irã para fazer contato com os hóspedes.

— Quem você tem em mente? — ele perguntou.

Creio que é seguro dizer que desde o começo eu estava convencido de que deveria liderar a equipe. Tecnicamente, como chefe do setor de autenticação, eu era um gerente graduado demais para estar em campo. Além disso, pela natureza do meu trabalho, eu sabia demais acerca do funcionamento interno das operações clandestinas da CIA. Se eu fosse desmascarado, seria um tremendo risco de segurança. Ainda assim, graças à minha recente viagem ao Irã e devido à natureza dessa exfiltração, penso que todos estavam dispostos a aceitar os riscos. Com a vida de seis americanos em jogo, o envolvimento direto do governo canadense, bem como a crescente pressão de todo canto sobre o presidente Carter, todos nós sabíamos que o fracasso não era uma opção.

— Eu e alguém de documentação — repliquei. — Talvez o Julio.

“Julio” era um agente de documentação com 31 anos locado na Europa. Na minha cabeça, ele era um dos caras mais habilidosos do setor. Era um verdadeiro “homem cinzento”, capaz de encarnar qualquer personagem que se pedisse a ele. Quando as pessoas pensam em espiões, a maioria pensa nos filmes de Hollywood, em que o espião é sempre exuberante, arrojado. No mundo real, porém, um espião tem que ser capaz de se integrar à paisagem. Uma coisa que eu sempre digo quando se trata do tipo de pessoa que a CIA procura é que não deve ser o sujeito que atrai todos os olhares, e, sim, aquele que, depois de passar na fila do banco ou pelo caixa do supermercado, ninguém mais se lembra da sua aparência. Le Carré entendeu isso muito bem. Ele podia ser alto, baixo, europeu, americano, sul-americano — o que fosse preciso para fazer o serviço, e Julio era assim. Originário do Meio-Oeste, Julio estudara na Sorbonne e era um linguista talentoso, que falava alemão, espanhol, parse e francês. Dava a impressão de que, se você lhe desse um fim de semana para aprender uma língua nova, ele voltaria na segunda-feira completamente fluente. Além disso, Julio havia participado de numerosas exfiltrações, nas quais provara ser mais do que capaz. Durante uma dessas operações no Oriente Médio, ele pegara um importante terrorista que queria passar para o nosso lado. Julio se encontrara com ele num local seguro e o colocara numa balsa para carros, apenas para ver a embarcação dar meia-volta e retornar ao cais. As hélices tinham emperrado por causa de algum lixo, e Julio foi obrigado a improvisar. É fácil imaginar como o terrorista deve ter ficado assustado quando a balsa fez lentamente a curva para voltar às docas. Nesse tipo de situação, pode ser incrivelmente difícil fazer a pessoa passar uma segunda vez por todo o processo de tentar fugir, mas Julio se mostrou imperturbável e tirou o terrorista do país no dia seguinte.

Tão importante quanto esse tipo de serenidade, nessa operação, era a grande necessidade de falar a coisa certa. Inspirar a confiança dos hóspedes era fundamental; tudo cairia por terra se apenas um deles não acreditasse. Eram pessoas inteligentes, mas muitos dos envolvidos na aprovação da operação não acreditavam que um grupo de seis novatos pudesse se organizar e agir de forma coesa. Eu acreditava que poderia convencê-los de que nosso plano daria certo.

— Penso que há uma boa chance — disse Matt.

* * *

NA MANHÃ SEGUINTE, QUINTA-FEIRA, 10 de janeiro, liguei para Elaine e lhe disse para ir até o departamento de orçamento e finanças para pedir um adiantamento de dez mil dólares em dinheiro vivo. O pessoal do setor era formado por muquiranas de primeira, que inventavam burocracia só para se divertir. Dez mil dólares eram o máximo permitido. Qualquer coisa mais exigia a mão direita de Deus. Quando Elaine voltou com o dinheiro, coloquei-o dentro das nossas maletas-esconderijos. Eu sabia que seria bombardeado pelo povo de orçamento e finanças, mas o dinheiro seria muito bem aplicado. Era hora de partir para Hollywood e criar a nossa produtora de cinema.