Argo
2. Recolhendo os pedaços
coleção de edifícios neoclássicos em pedra calcária e tijolos nada tinha de especial, segundo a opinião 2 da maioria das pessoas. Parte integrante do antigo Observatório Naval no fim do século XIX, os prédios acabaram sendo ocupados durante a Segunda Guerra Mundial pela primeira agência de inteligência dos Estados Unidos, o OSS (Office of Strategic Services; Escritório de Serviços Estratégicos). Comandado pelo major-general William “Wild Bill” Donovan, o OSS teve entre seus servidores alguns dos personagens mais inusitados da história da espionagem, entre vigaristas profissionais, arrombadores de residências, peritos em falsificação, mágicos e até mesmo atores e aristocratas formados pelas melhores universidades do país. A Segunda Guerra Mundial foi repleta de proezas realizadas por esses audaciosos agentes secretos. O ainda inexperiente serviço de espionagem mandava tais agentes para além das linhas alemãs e japonesas e criava artefatos engenhosos como cigarros-pistolas, câmeras em caixas de fósforos, até mesmo farinha explosiva. E isso também abriu caminho para a CIA. Na verdade, grande parte da estrutura, dos métodos operacionais e dos procedimentos que a CIA viria a empregar mais tarde evoluiu diretamente das práticas do OSS.
O EST, por sua vez, teve origem no setor de Pesquisa e Desenvolvimento do OSS. Originalmente encabeçado por Stanley Lovell, um químico, esse setor viria a desempenhar um papel integral no desenvolvimento e no aprimoramento das habilidades dos agentes operacionais do OSS, ao mesmo tempo que abria caminho para a chegada de técnicos como eu.
Talvez um dos mais importantes legados do setor de P&D para as gerações futuras de técnicos do EST tenha sido a maneira como contratavam fornecedores externos para desenvolver novas tecnologias. Isso permitiu ao OSS tirar vantagem plena da capacidade industrial e tecnológica do setor privado norte-americano, muito diferente do método empregado por outros serviços estrangeiros, como o MI6 ou a KGB. E acabou nos dando uma enorme vantagem sobre nossos colegas soviéticos, que dependiam de equipamentos e instalações estatais e de uma mentalidade burocrática. Parte do motivo para recorrermos a fontes externas era a necessidade, uma vez que Lovell não dispunha das verbas necessárias para construir laboratórios a partir do zero. Aproveitando ao máximo o setor privado, porém, o EST foi capaz de se manter na vanguarda.
Em 1965, quando entrei a serviço da Divisão de Serviços Técnicos da CIA, ou DST (o nome seria alterado para EST em 1973), relacionávamos nosso departamento e nosso trabalho ao personagem Q dos filmes de James Bond. Éramos os criadores de engenhocas da CIA, os fornecedores do equipamento técnico necessário para os agentes de operações terem sucesso em roubar os segredos dos nossos inimigos.
Nossa organização era parte do setor operacional da CIA conhecido como Diretório de Operações, ou DO. Havia outros três diretórios: Administração, Ciência e Tecnologia, e Inteligência. O trabalho do DO era basicamente no exterior, o que vale dizer que nossos equipamentos e conhecimentos eram utilizados em todo o mundo, e em geral fora dos Estados Unidos.
Havia essencialmente dois grupos que compunham nosso departamento. Metade dos funcionários nas divisões de desenvolvimento e engenharia era de químicos, físicos, engenheiros mecânicos e elétricos, e um sortimento de cientistas com Ph.D. especializados em campos restritíssimos, tais como baterias, balões de ar quente, tintas especiais, escolha o que quiser. Eram os caras que projetavam e construíam as engenhocas. A outra metade fazia parte da divisão de operações; eram eles que utilizavam os equipamentos e ensinavam nossos agentes responsáveis e os estrangeiros a usá-lo.
Listar alguns de nossos recursos pode dar uma ideia da robustez das possibilidades à disposição da CIA. Sem nenhuma ordem específica, eles incluíam áudio, foto/vídeo, disfarces, documentos e dissimulações. Havia também peritos em grafologia, psicologia e parapsicologia, medicina forense e muitas outras disciplinas esotéricas. Se alguém precisasse de suporte técnico para uma operação, nós fornecíamos, e, se não existisse, podíamos inventar.
* * *
MINHA SALA LOCALIZAVA-SE NO Edifício Central, que também abrigava o setor de autenticação, os laboratórios de disfarces, o “cercado dos artistas” e a seção de documentos. Do outro lado de um pequeno pátio ficava o imponente Edifício Sul, em estilo neoclássico, sede do EST. Em 4 de novembro de 1979, meu título era “chefe de disfarces”, mas, na verdade, eu estava prestes a ser promovido a “chefe do setor de autenticação”, um cargo que me tornaria responsável pelas operações sob disfarce da CIA em todo o mundo, bem como de quaisquer casos envolvendo documentação falsa e o monitoramento forense desses documentos para fins de contraterrorismo.
Passar de chefe de disfarces para chefe de autenticação era um grande passo, e eu estava ansioso pela transição. Tinha uma boa base em disfarces e sentia-me perfeitamente capaz de seguir em frente. Em termos de conhecimento e qualificações profissionais, eu sentia, com toda sinceridade, que era provável que não houvesse ninguém tão bom quanto eu, à exceção de alguém na KGB que eu ainda não conhecia. “Arrogante mas seguro” era provavelmente como meus colegas me viam, “promissor”, devia ser a opinião dos meus chefes. Quanto a mim, ainda não tinha encontrado situação ou oponente que não me sentisse capaz de enfrentar.
Nunca planejei me tornar um espião. Nunca ouvi uma vozinha em meus ouvidos dizendo que eu deveria me candidatar a uma vaga em serviços clandestinos. Na verdade, eu estava convicto de que a minha carreira seria em belas-artes. Sob vários aspectos essa carreira se materializou, mas não foi da forma que eu havia previsto.
Nasci em Eureka, Nevada — segundo a National Geographic, a cidade mais solitária na estrada mais solitária dos Estados Unidos. Provavelmente foi bom eu não saber disso enquanto crescia. Achava que estava tudo bem.
Minha mãe, Neva June Tognoni, vinha de uma antiga família de Nevada e era a única filha numa casa de rapazes. Seus três irmãos tinham obtido relativo sucesso nesse estado do Oeste: um se tornou senador estadual, e os outros dois viraram advogados, geralmente representando casos na área de mineração. Seu avô, J. C. Tognoni, um imigrante do norte da Itália, da cidade de Chiavenna, enriquecera com o maior filão de ouro da história do estado. No entanto, com a mesma rapidez que construiu sua fortuna, ele a perdeu. Neva June nunca sentiu o sabor das riquezas de que seu avô tinha desfrutado; pelo contrário, era sempre preterida, enquanto os irmãos recebiam a educação e as oportunidades que lhe eram negadas.
Essa foi a história da minha mãe. Ela, por sua vez, transmitiu sua experiência para os filhos: quatro meninas e dois meninos. Minhas irmãs foram favorecidas, em detrimento de mim e meu irmão, numa tentativa de corrigir o erro cósmico que ela sofrera.
Meu pai se chamava John Mendez. Era um homem incrivelmente jovem e bonitão com apenas 23 anos quando nasci, mas não pude conhecê-lo direito. Trabalhava nas minas de cobre de Nevada, onde morreu quando eu tinha três anos, esmagado por um vagão cheio de minério. A família de meu pai tinha um passado sombrio; é bem possível que seu verdadeiro nome fosse Manuel Gomez. Corria a história de que sua mãe morrera num acidente de carro em Los Angeles e, durante a disputa pela custódia das crianças com a cunhada, meu avô pegou os dois meninos, fugiu e mudou de sobrenome.
Mamãe falava muito sobre meu pai enquanto crescíamos. Ela tinha sido loucamente apaixonada por ele, e os dois eram muito jovens quando ele morreu.
Meu irmão John e eu trabalhávamos arduamente no árido deserto em torno de Eureka, rebocando madeira pela neve durante o inverno numa pequena carroça, vendendo jornais no trem que fazia uma parada de nove minutos na cidade uma vez por dia, recolhendo e vendendo guano de morcego para as senhoras mórmons do outro lado da cidade, que utilizavam o produto como fertilizante para seus jardins. Ganhávamos o suficiente para uma ida ocasional dos seis ao cinema, e às vezes um sorvete na confeitaria local. Minha mãe não tinha dinheiro sobrando para esses luxos.
Desde muito cedo, sempre adorei desenhar. Como éramos pobres, tive de me virar com o que achava. Usava um pedaço de pau pontudo para rabiscar figuras no chão, um toco de carvão sobre uma tábua velha ou pedaço de cartolina, um lápis sobre um saco de papel pardo. Quando tinha cinco ou seis anos, minha mãe chegou da cidade com um embrulho para cada um de nós. Meu presente era um pequeno estojo de aquarela, do tipo mais básico. Mamãe disse: “Tony, você vai ser um artista.” Não era uma sugestão. Durante a minha futura carreira na CIA, eu costumava levar comigo um estojo de aquarela bem semelhante nas minhas viagens pelo mundo, apenas uma entre muitas ferramentas que usei em minha trajetória na espionagem.
Após o ensino médio, frequentei a Universidade do Colorado, em Boulder, por um ano, mas tranquei para trabalhar como auxiliar de encanador e ajudar no sustento de minha família. Foi mais ou menos nessa época que conheci minha esposa, Karen Smith, e cinco anos depois tínhamos três filhos: Amanda, a mais velha, seguida de Toby, e mais tarde Ian. A essa altura, eu estava em Denver trabalhando para Martin Marietta como desenhista/ilustrador de ferramentas e mantendo um estúdio de design. Era um trabalho prosaico — desenhar os diagramas de fiação para os mísseis Titan que estavam sendo instalados em silos em todo o país —, mas pagava as contas. Aí, em 1965, vi algo que mudaria a minha vida para sempre. Foi um anúncio no Denver Post em busca de candidatos para trabalhar no exterior como artistas para a Marinha dos Estados Unidos. Mandei uma resposta com algumas amostras do meu trabalho para a caixa postal em Salt Lake City. Disse a Karen que poderia ser revitalizante experimentar algo novo.
Quando me encontrei com o representante do governo, não foi no edifício da administração federal no centro de Denver, mas num quarto de motel na Avenida Colfax, no lado oeste da cidade. As venezianas estavam fechadas. Meu interlocutor era um sujeito de aspecto um tanto escuso que manteve o chapéu com abas dentro do quarto, como um detetive dos velhos tempos. Ele me mostrou rapidamente uma credencial do governo e pôs uma garrafa de Jim Beam sobre a mesa.
— Filho — disse ele, servindo o bourbon para os dois —, isto não é a marinha.
Não brinca!, pensei.
A verdade, segundo me contou, era que ele pertencia à CIA. Na época, eu não sabia o que era a CIA, mas tentei parecer interessado enquanto escutava seu papo de vendedor.
— Não sei que tipo de artista estão procurando — falou. — Mandei alguns currículos para eles, mas não pareceram servir. Aqui, veja isto. Você vai entender melhor do que eu.
Li o guia de recrutamento (confidencial!) e entendi imediatamente que o tipo de artista que o recrutador da CIA tinha em mente acabaria trancafiado numa prisão se tentasse praticar aquele tipo de “arte” por conta própria. O que estavam procurando eram falsificadores à moda antiga. Do ponto de vista técnico, aquilo não representava um problema para mim. Era uma questão de coordenação da mão e do olho, em conjunto com a habilidade de manusear materiais, e seguramente eu era capaz.
Fui para casa e comecei a ler sobre a CIA, e, quanto mais eu lia, mais interessado ficava. Eu podia servir o meu país, ver o mundo e possivelmente causar algum impacto sobre os acontecimentos. Reuni uma amostra do meu trabalho artístico, incluindo um selo postal búlgaro, parte de uma nota de um dólar e alguma caligrafia chinesa, e despachei para o recrutador da Agência em Salt Lake City. A convocação para ir a Washington chegou em poucas semanas.
Na capital, passei por diversos níveis de entrevistas. Estava claro que tinham gostado das minhas amostras, e a qualidade do meu trabalho nunca foi um problema. Por fim, a questão se tornou um assunto moral. Encontrei-me com o vice-diretor do DST, Sidney Gottlieb, que conduziu minha última entrevista.
— Sabe, Tony — disse ele —, há gente que talvez tenha problema em fazer o que nós vamos lhe pedir. Infringir leis de governos estrangeiros. Mentir para seus amigos e sua família, que vão querer saber onde você trabalha e o que faz. Você vai ter problemas com isso? Por um longo período?
Considerei com seriedade o que ele me dizia. Seria um novo modo de vida, um novo modo de trabalhar, de fechar alguns caminhos e abrir portas que eu só podia imaginar. Não hesitei:
— Penso, Dr. Gottlieb, que a verdade não é necessariamente da conta de todo mundo, sobretudo quando seu país confia em você para guardar segredos.
Ele se levantou para apertar minha mão.
— Você vai se sair bem, Tony — falou.
* * *
MINHA PRIMEIRA FUNÇÃO NA Agência foi no setor gráfico, trabalhando no “cercado dos artistas”, onde aprendia a trabalhar com linguistas e peritos que haviam estudado controles de segurança e viagens ao exterior. Quando cheguei, eu me encontrava na base da cadeia alimentar. O escritório era encabeçado por Franco, um sujeito corpulento, jovial, muitas vezes exigente, mas também muito justo. Se você se dispunha a trabalhar com um pouco mais de dedicação, ele assegurava que recebesse o crédito. Se você resolvia problemas, era recompensado. Foi um ótimo primeiro chefe. Seu segundo em comando, Ricardo, por outro lado, era muito competitivo com a equipe. Se visse alguma fraqueza, atacava.
Tive muitos projetos desafiadores nos 22 meses em que trabalhei no cercado, na sede. Talvez o mais difícil, porém, tenha sido lidar com Ricardo. Todo mundo deixava o trabalho sobre a mesa no fim do dia, e Ricardo chegava cedo na manhã seguinte para checar o progresso de cada um, rondando cada escrivaninha para ver como o artista se saía. Depois de sua inspeção, marcava com pequenas setas azuis as áreas que precisavam ser mais trabalhadas. Assim, ao se chegar de manhã, a primeira coisa que acontecia era encontrar seu trabalho do dia anterior cheio dessas setinhas. Parecia que ele sentia certo prazer em fazer as tais marquinhas azuis. Aquilo deixava os artistas furiosos.
Para aliviar a tensão, instalamos um alvo para dardos, que usávamos durante os intervalos. Em vez de lançar três dardos a uma distância padrão de três metros, bolamos um jogo mais desafiador, coisa de macho: um dardo, a uma distância de seis metros, por um dólar o arremesso. Ricardo demonstrou maestria, sendo capaz de lançar o dardo com a fina precisão de um escorpião espetando o rabo. O que ele adorava fazer era se meter no jogo e tirar seu dinheiro na frente dos outros. Quando, finalmente, consegui vencê-lo, não concordei com uma revanche e, durante algum tempo, temi pela minha vida. Mas ele apreciava meu trabalho, tanto que, um ano depois, ao sair para assumir o cargo de chefe do setor gráfico da nossa base no Extremo Oriente, solicitou especificamente que eu fosse seu subordinado, passando por cima de outros funcionários mais antigos.
Como artistas, reproduzíamos basicamente documentos pessoais de identidade que pudessem ser usados com objetivos operacionais, tais como viagens, locação de casas ou quartos de hotel. Podiam ser utilizados, também, para exfiltrações, operações de bandeira falsa, ciladas ou travessia de fronteiras internacionais. As falsificações às vezes eram destinadas a desacreditar indivíduos ou governos, da mesma forma que a KGB fazia conosco. O programa deles era chamado de Medidas Especiais. O nosso não tinha nome — simplesmente chamávamos de ação secreta. Outros documentos que produzíamos podiam assumir a forma de desinformação, cartas em diários, adesivos ou qualquer outro item gráfico que pudesse influenciar os acontecimentos. Éramos capazes de reproduzir quase tudo que fosse colocado à nossa frente; as únicas restrições eram questões de ordem política, tais como dinheiro. Fabricar dinheiro dos outros, naquela época, era considerado um ato de guerra. Mas bombardear um país com panfletos em vez de munição era um recurso que fornecíamos com o maior prazer.
Depois do meu tempo no cercado, passei os sete anos seguintes, de 1967 a 1974, vivendo e trabalhando em Okinawa, Bangcoc e outros lugares distantes, em viagens pelo mundo como técnico clandestino da CIA. Durante todo esse tempo, continuei a trabalhar como artista-autenticador, mas também me aventurei em outras áreas, como os disfarces e as exfiltrações, ajudando a resgatar desertores e refugiados da Cortina de Ferro. Uma grande parte disso se deveu ao fato de que ajudei a conceber um novo programa “generalista”, que dava treinamento multidisciplinar aos funcionários técnicos e abarcava temas como disfarce ou documentos, ou o que fosse necessário para a região específica na qual estariam trabalhando. Isso não só nos dava um novo conjunto de aptidões como também nos permitia respostas mais ágeis às necessidades potenciais de nossos chefes locais e supervisores de caso, que, em campo, muitas vezes pediam um pouco de tudo.
Então, em 1974, fui promovido a chefe de disfarces e pedi para voltar à sede para dirigir a seção. Nessa época, eu tinha apenas 33 anos, e algumas pessoas não reagiram bem quando um novato como eu, surgido do nada, veio lhes dizer o que fazer.
Na esteira de Watergate, o moral da Agência estava em seu ponto mais baixo. Nixon acabara de deixar a Casa Branca, e o Senado preparava uma investigação sobre a CIA. Havia sangue na água. Minha postura era de que ainda havia gente boa por lá e muito trabalho a ser feito. Eu estava ansioso por fazer a minha parte.
Os anos 1970 caíram bem no meio da Guerra Fria, e havia numerosos casos em andamento. A União Soviética se espalhava pelo Terceiro Mundo, e, à medida que estendia seu alcance, passamos a ter mais acesso a seu pessoal.
* * *
QUANDO ABRI AS PORTAS do Edifício Central na manhã de 4 de novembro de 1979, percebi que a crise capturara a atenção de todos. Apesar de ser domingo, o prédio parecia em estado de sítio, com gente correndo em todas as direções. Várias pessoas carregavam arquivos secretos de tarja vermelha; todos exibiam uma expressão soturna. Eu nunca tinha visto o lugar tão frenético — era como se um alarme silencioso tivesse disparado. O fim de semana havia terminado oficialmente.
Dirigi-me até meu conjunto de salas e laboratórios, localizado no terceiro andar, para ler as mensagens e me reunir com minha equipe.
Primeiro, meti a cabeça pela porta do subchefe de operações do EST. Matt, um homem intenso, conservador, mas educado, estava sentado atrás de sua mesa, distribuindo telegramas e falando ao telefone.
— Oi, Tony, bem-vindo. Que bom que você conseguiu chegar — disse, cobrindo o bocal do telefone com a mão e apontando uma cadeira onde estava jogado seu paletó. Era a primeira vez que eu via Matt sem gravata. O cabelo ruivo, sua marca registrada, estava despenteado, e ele não tirava os olhos da papelada sobre sua mesa.
— Parece que temos o que fazer — falei quando ele desligou o telefone.
— É, estamos esperando que as coisas fiquem ainda mais agitadas por aqui. Por que você não vai tomando pé das coisas e conversamos mais tarde?
Segui adiante até a minha seção. A maior parte da equipe já estava lá, alguns trabalhando em outros projetos não relacionados com a crise dos reféns. Tim, o meu segundo em comando, entrou e foi arrancando a gravata; estava voltando da igreja. Sem dar mais do que um alô, ele começou a preparar café. Parei diante da porta do laboratório de disfarces para ver quem mais tinha chegado.
Quando fui promovido para comandar a seção de disfarces do EST em 1974, o chefe de operações me chamou de lado e me encarregou de tornar o setor o mais eficiente possível, e eu me propus fazer disso uma realidade. Na época, a maioria das pessoas achava que o setor nada mais era do que um grupo de maquiadores. O conceito amplo de disfarce não era tratado com muito mérito dentro da Agência, especialmente por funcionários que tinham chegado à maturidade nos tempos em que ele não passava de perucas mal assentadas, bigodes e chapéus. Houve gente que trabalhou para a CIA durante esse período cuja abordagem sobre o assunto se limitava a sentar um agente numa cadeira de barbeiro e ficar discursando sobre a arte do disfarce, sem fornecer absolutamente nada em termos de recursos materiais.
Tudo mudou quando comecei a trabalhar com um maquiador de Hollywood no começo da década de 1970 e a mostrar o que podia ser obtido com alguma criatividade. A primeira dessas operações exigia a transformação de um supervisor de caso afro-americano e de um ministro do Laos em caucasianos para que pudessem se encontrar em Vientiane, Laos, em 1972. As caracterizações foram tão convincentes que os dois conseguiram passar por uma blitz de estrada sem serem detectados. O episódio abriu as comportas e mudou tudo que dizia respeito a disfarce operacional.
Em meados dos anos 1970, todos no setor precisavam aprender a fazer uma impressão facial. Algumas pessoas que trabalhavam ali havia vinte anos não estavam mais qualificadas. Mas em 1979 tínhamos revolucionado totalmente o departamento, criando numerosos recursos capazes de alterar por completo a aparência de uma pessoa e que podiam ser aplicados no escuro, em questão de segundos. Parado na porta, observando o profissionalismo da minha equipe no trabalho, me ocorreu quão longe tínhamos chegado. Eles estavam motivados e prontos, e eu tinha confiança de que, não importava o desafio, eram capazes de fazer um serviço bem-feito.
Ao entrar na minha sala naquela manhã, vi uma pilha de umas duzentas mensagens de telex à minha espera sobre a mesa. Isso não era incomum; o que chamou imediatamente a minha atenção, porém, era que um grande número delas vinha com a marca FLASH [a jato]. Era o mais elevado nível de prioridade usado pela CIA (os outros eram IMEDIATO, PRIORIDADE e, o mais baixo, ROTINA). Mensagens de categoria FLASH eram assunto sério, utilizadas apenas em tempos de guerra ou quando vidas de cidadãos americanos corriam perigo imediato. Alguns encarregados de comunicação passavam a carreira toda sem jamais ver uma delas. Nesse caso, eu não estava olhando para uma, mas para várias dezenas. Foi então que a ficha caiu em relação à gravidade da situação.
Naquela manhã, a maioria de nós ainda confiava que os ocupantes da embaixada ficariam apenas algumas horas, como ocorrera com o grupo de guerrilheiros marxistas em 14 de fevereiro.
Nesse intervalo, nossa primeira ordem de serviço era enorme. Agora que a embaixada fora tomada, precisaríamos tentar restabelecer algum tipo de rede de inteligência humana no Irã. Normalmente, quando um país atravessa um período de turbulência ou quando é preciso lidar com uma área inacessível, tal como Moscou, monta-se uma rede de agentes deixados para trás, cidadãos que concordam em ficar em contato com o Ocidente após qualquer incidente desagradável, propondo-se a dar informações sobre a situação corrente. Nós tínhamos uma rede dessas estabelecida em Teerã antes do ataque. Nossos agentes, porém, pareciam ter se fundido à paisagem. Talvez estivessem em posição, mas a maioria deu para trás quando percebeu o perigo que eles e suas famílias estariam correndo.
O plano era reunir um grupo de agentes treinados que pudesse se infiltrar no Irã para fazer o reconhecimento da situação e começar a construir uma infraestrutura para algum resgate potencial. Tal cenário envolvia antes de tudo diversas perguntas: Como seriam seus documentos e materiais de disfarce? Quais seriam suas nacionalidades? Começamos a procurar candidatos que pudessem assumir os personagens estrangeiros para quem tínhamos documentos e histórico de informações a respaldar. Esses indivíduos necessitavam de conhecimentos linguísticos que permitissem se passar por não americanos. Também precisavam ter aparência condizente. Um empresário latino-americano tem de parecer latino. Um estudante alemão precisa falar alemão.
Uma vez identificados os candidatos, poderíamos construir suas histórias de fachada. Quem estava indo ou voltando do Irã a essa altura dos acontecimentos? Empresários? Jornalistas? O mundo estava de olho, e a mídia, com certeza, estava acompanhando de perto toda a situação.
Quanto ao disfarce, as mesmas regras se aplicavam. Já teríamos alguma coisa pronta nas prateleiras? Alguém precisaria parecer mais velho? Era possível lhes dar a aparência de iranianos? Que tal criar a insígnia para os uniformes iranianos? Nós nos debatíamos, correndo para antecipar quaisquer exigências que nos fossem solicitadas. Estávamos apreensivos, mas não assustados. Éramos capazes de fazer o que precisava ser feito, pensava eu, mas levaria tempo.
Embora a sensação de ansiedade prevalecesse no Edifício Central naquela primeira semana, não faltaram ideias. Mas nem todas eram muito bem concebidas. Houve um ex-agente das forças especiais que entrou na minha sala e me disse que resolveria tudo se eu conseguisse lhe arranjar uma máscara de borracha e um fuzil AK47.
Em outra ocasião, um experiente funcionário com quem eu trabalhara no sul da Ásia apareceu na minha porta parecendo perdido.
— Ei, Jack. Em que posso ajudá-lo? — perguntei.
Ele explicou como o diretor de operações o vira caminhando pelo corredor, na sede, e lhe dissera para mexer a bunda e ir até o Edifício Central para ser disfarçado e ir ao Irã. Jack era de origem asiática, e corria a ideia de que provavelmente seria mais fácil para um não caucasiano entrar no Irã sem chamar atenção. Faltava apenas um importante elemento para transformar o plano em realidade.
— Mandaram que eu o procurasse — disse ele. — Mas não tenho como fazer isso. Eu não falo japonês.
Em outra parte do EST, Mike Dougherty, mercenário irlandês em uma vida passada, dirigia sua divisão com mão de ferro e entusiasmo. Ele estava juntando seus recursos paramilitares para formar uma força-tarefa que supervisionaria a reação mais ampla. Sua força-tarefa e a minha equipe coordenavam esforços com o diretório de operações do quartel-general da CIA e do Pentágono. Mike e eu tivemos uma série de reuniões nos quatro dias seguintes, com uma frequência que variava de acordo com o assunto. Ele adorava uma reunião, de modo que talvez houvesse mais reuniões do que eu esperava. A certa altura, chegamos a ter uma reunião sobre reuniões. Recebíamos um volume esmagador de mensagens, mas isso era uma tarefa administrativa com a qual já tínhamos estabelecido como lidar — não havia muita diferença entre duzentas ou quatrocentas mensagens por dia. Mas as reuniões consumiam tempo, e o tempo era precioso. Ao final de quatro dias, estávamos exaustos. As coisas estavam em andamento. Planos haviam sido feitos. Mas o Pentágono estava desorganizado porque não existia um comando especial de operações; assim, eles não tinham meios de requisitar recursos. A Casa Branca foi tão tímida em sua reação que o presidente Jimmy Carter nem queria chamar os reféns de “reféns”, com medo de ofender o governo revolucionário do Irã, expressão crivada de contradições.
Cheguei em casa me arrastando na quinta-feira à noite, exausto após trabalhar dezoito horas por dia nos quatro dias anteriores. Estava esgotado e fui tirando o casaco enquanto passava pela estufa, que servia como vestíbulo anexo à nossa cozinha. Frequentemente tínhamos jantares formais ali no inverno, sempre à espera de neve. Era um lugar mágico à noite, com a neve e alguma luz de velas. Afrouxei a gravata e afundei na minha poltrona favorita na sala de estar, tirando os sapatos. Karen se aproximou com uma cerveja e um abraço. Sentou-se ao meu lado no sofá e ficou me escutando tagarelar sobre o trabalho, o escritório, o Pentágono, tudo. Estava começando a parecer cada vez mais que a crise iria se arrastar indefinidamente. Em 5 de novembro, o filho do aiatolá Khomeini, Ahmad, elogiara a tomada da embaixada, dizendo que fora em nome do povo. Depois disso, todas as lideranças religiosas manifestaram apoio aos militantes. Mehdi Bazargan, primeiro-ministro iraniano, foi obrigado a renunciar em protesto, e isso queria dizer que restava apenas uma pessoa com quem o presidente Carter e sua administração poderiam tratar: o aiatolá Khomeini.
Fiz uma longa pausa para tomar um gole de cerveja e senti que ela me olhava com atenção. Erguendo os olhos, percebi que Karen esperava que eu parasse de falar para poder me dizer algo.
— O que foi? — perguntei. Em algum nível subconsciente, imaginei que ela estivesse tendo problemas com um de nossos filhos.
— Querido, andei pensando — começou. — Tenho pensado em como fazer aqueles iranianos saírem da embaixada e libertarem os reféns. Como dar um fim à crise. E tive uma ideia...
— Tudo bem — eu disse. — Conte-me sua ideia.
Recostei na poltrona. A verdade era que eu estava só entreouvindo, cansado demais.
— Você precisa matar o xá — ela disse.
Virei-me para encará-la.
— Sou todo ouvidos — respondi.