Argo

Antonio Mendez e Matt Baglio · Capítulo 13 de 17

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Argo

12. Pronto para decolar

Tínhamos cerca de dez pessoas trabalhando na Operação Argo em Frankfurt: um analista de documentos, um encarregado de disfarces e um punhado de pessoas do setor gráfico. O chefe do escritório local estava por dentro das coisas, sempre de charuto aceso, mas não era do tipo que põe a mão na massa. Seu segundo em comando, Al, por outro lado, estava totalmente envolvido. Advogado de formação que também tinha diploma de engenharia, Al era um homem muito enérgico, perspicaz, meticuloso, que entendia as nuanças daquilo que estávamos prestes a realizar. Era uma boa pessoa para se ter na equipe, sensato e cuidadoso.

Na manhã de 21 de janeiro, no mesmo dia em que parti de Washington, Julio viajou para Genebra sob identidade falsa para solicitar um visto iraniano. O motivo de ser tão importante obter um visto legal é que é muito fácil verificar se a pessoa que você alega ter emitido seu visto estava de fato trabalhando naquele dia. Também era importante ter um exemplar para comparar com as falsificações preparadas para os hóspedes e enviadas a Teerã. Como parte das medidas de segurança, os países mudavam constantemente seus carimbos ou inseriam ciladas ou truques para sinalizar um documento forjado. Durante minha primeira missão na Agência como artista-autenticador, minha função foi estudar esses carimbos à procura de irregularidades e cascas de banana. Podia ser qualquer coisa, desde uma letra ligeiramente apagada até a cor da tinta. Lembro-me de um país que usava especificamente grampos baratos que enferrujavam com facilidade. Quando examinavam o visto e não encontravam a ferrugem no grampo, eles sabiam que alguma coisa estava errada.

Quando cheguei a Frankfurt, Julio já havia voltado de Genebra com o visto. “Sem problema”, disse ele, mostrando o passaporte recém-carimbado. “Eles pareciam ansiosos que eu fosse visitar seu país.” Apesar de ter uma pele branca, quase leitosa, ele não encontrou dificuldades para convencer o funcionário de que era um produtor associado da América do Sul. É claro que eu nunca havia duvidado dele. A genialidade de espiões como Julio é que eles podem ser praticamente qualquer pessoa. Não havia nada de especial em sua aparência, sob nenhum aspecto. Tinha altura, compleição e peso medianos; o cabelo rareava e ele usava óculos. Era uma pessoa qualquer. Isso, associado a seu talento de dominar línguas estrangeiras, fazia dele um camaleão.

Meu plano era tirar o visto na manhã seguinte, dia 23, antes de voar para o Irã na mesma noite. Nesse meio-tempo, eu tinha muito o que fazer e pouco tempo para arranjar tudo.

Passei a manhã do dia 22 finalizando a documentação. Os técnicos do EST tinham dado duro para preparar minha identidade falsa de Kevin Costa Harkins mesmo antes da minha chegada, mas havia ainda alguns detalhes para resolver, como, por exemplo, tirar minha foto. Como minha fachada era de um europeu, eu precisava ter cara de europeu. No final da década de 1970, em especial, havia vários traços capazes de trair você como americano, por causa das roupas que se usavam. Os sapatos europeus, só para dar um exemplo, eram muito diferentes. A importância desses detalhes sutis não poderia ser suficientemente enfatizada. Eu já tinha visto numerosos agentes serem desmascarados, apesar da documentação perfeita, por vestirem marcas americanas muito óbvias. Como qualquer agente secreto experiente sabe, o sucesso reside na atenção aos detalhes. Um funcionário do OSS uma vez me disse que se manteve vivo na Itália atrás das linhas inimigas porque havia colocado uma pedra no sapato para lembrar-se de mancar, pois precisava de uma desculpa para não estar no exército.

Por esse motivo, uma das primeiras coisas que fiz em Frankfurt foi ir às compras. A cidade tinha uma grande loja de departamentos chamada Kaufhof, que era uma versão alemã da Macy’s. Deve ser engraçado imaginar um espião provando roupas no setor masculino de um magazine, mas foi exatamente o que fiz. Na época, os trench coats estavam na moda. Por isso, comprei um, junto com uma muda de roupas e, é claro, sapatos. Além do estilo, me certifiquei de que tudo fosse o mais comum possível. Qualquer coisa muito extravagante chamaria atenção sobre mim. Comprar roupas também me forneceria o “lixinho de bolso”, que ajudaria a dar credibilidade ao meu disfarce.

Naquela tarde, recebemos um telex FLASH de Ottawa. O primeiro lote com seis passaportes canadenses já chegara a Teerã, mas Roger Lucy constatara um problema. Ele retirara pessoalmente a encomenda, enviada ao país num voo da Iraqi Airways. Os guardas revolucionários às vezes interceptavam os malotes das embaixadas ocidentais, e por issso o portador fora instruído a entregar o embrulho para Roger Lucy, em mãos. A essa altura, ele vinha recolhendo a correspondência diplomática havia cerca de dez meses e era bem conhecido no aeroporto. O malote lhe foi entregue sem incidentes; no entanto, depois de retornar à embaixada e examinar os passaportes, ele descobriu um defeito. Por algum motivo, o preenchimento manual em parse nos vistos iranianos mostrava uma data de emissão futura. Lucy aprendera parse sozinho e logo se deu conta de que o problema residia no fato de o calendário persa começar em 21 de março. Isso significava que os vistos teriam sido emitidos aos hóspedes depois de sua suposta entrada no país. Quanto ao motivo dessa ocorrência, eu só podia imaginar que o especialista em parse que assistia nossa equipe em Ottawa tivesse se equivocado em relação ao calendário. Taylor e Lucy ficaram preocupados com a possibilidade de esse erro atrasar nossa partida por alguns dias, algo que lhes traria considerável dor de cabeça, pois estavam planejando fechar a embaixada quase imediatamente depois de termos resgatado os hóspedes.

Mandamos na hora uma mensagem para Taylor, proveniente de Ottawa, dizendo que isso não era problema, pois podíamos facilmente corrigir o erro depois de chegar a Teerã. Além disso, esses eram os passaportes reserva, a serem usados no caso de Julio e eu não conseguirmos entrar no Irã. Se isso acontecesse, enviaríamos instruções a Taylor e Lucy, de modo que eles próprios pudessem fazer a correção. Todavia, se nossa entrada fosse bem-sucedida, usaríamos o outro jogo de passaportes, que ainda receberia o carimbo de visto.

Nessa hora, os canadenses já estavam fechando rapidamente a loja em Teerã e se aprontando para a exfiltração dos hóspedes, programada para segunda-feira, 28 de janeiro, dia da eleição nacional iraniana. De antemão, Taylor pediu a John e Zena Sheardown que voltassem para o Canadá. Para John Sheardown, que fora a primeira pessoa a acolher os americanos, foi uma despedida muito emocionante. O grupo se reuniu na sala de estar e John deu a notícia. Como alguns dos hóspedes explicariam depois, John não queria deixar o barco e tinha o sentimento de estar abandonando os hóspedes, por quem se sentia responsável. Os Sheardown reclamaram por ter de ir embora, mas não tiveram muita opção. “Eu quero ficar e terminar o serviço”, ele lhes disse. Os hóspedes, por sua vez, incentivaram os canadenses a partir. Sabiam quanto perigo os Sheardown tinham corrido por abrigá-los e, de certa maneira, tiveram uma sensação de alívio por não precisarem mais carregar esse fardo. Ainda assim, a despedida foi difícil. Como me contaria depois Bob Anders, o grupo sentiu que sua base de força e apoio havia sido retirada.

Depois que os Sheardown se foram, os hóspedes permaneceram sozinhos por um ou dois dias, mas ficaram preocupados com o que fariam se alguém viesse à porta ou se o telefone tocasse. Nesse ponto, Taylor encarregou Lucy de cuidar dos seis, e ele saiu de casa e se mudou para ficar com eles. Porém, uma vez que Lucy estava ocupado durante o dia ajudando Taylor na embaixada, um policial militar canadense conhecido como Junior foi mandado para vigiar a casa enquanto Lucy estava fora.

Os seis americanos ficaram um pouco surpresos com a partida precipitada dos Sheardown, mas isso também os fez desconfiar que estava em andamento um plano para tirá-los de lá. Mark raciocinou que, uma vez que Zena não tinha imunidade diplomática, fazia todo sentido do mundo que ela se fosse antes que se tentasse qualquer operação de resgate. Anteriormente, surgiram indícios de que havia uma possibilidade de fuga quando Taylor discutira a questão de preferirem usar documentos canadenses ou americanos. O simples fato de a pergunta ter sido feita indicou aos hóspedes que algum tipo de plano estava sendo elaborado. No entanto, como nem Sheardown nem Taylor tinham dado nenhuma confirmação de que alguém viria tirá-los dali, eles tentaram não ficar esperançosos demais.

* * *

DE VOLTA A FRANKFURT , Julio e eu passamos a tarde de 22 de janeiro revendo o plano operacional. Havia semanas que o EST vinha entrevistando viajantes e colhendo informações sobre a fiscalização no Aeroporto de Mehrabad.

Quando se trabalha nesse ramo durante tanto tempo como eu, acaba-se percebendo que todo aeroporto, sala de embarque e portão têm uma atmosfera própria. Dependendo da parte do mundo em que se está, há certos costumes culturais e profissionais que influenciam a forma com que as coisas correm no aeroporto. Como é o grau de organização dos funcionários? É um pessoal alfabetizado ou bem treinado? Eles reagem a ameaças ou é melhor bajulá-los? É possível suborná-los? Há alguma lista de pessoas em vigilância? Que tipo de coisas podem estar sendo procuradas pelos inspetores aduaneiros? Como é a disposição do aeroporto? Com o tempo, é possível desenvolver um sexto sentido sobre como lidar com determinadas situações. Na Índia, por exemplo, se confrontado pelo funcionário da alfândega em relação à ausência de um documento, é possível agir com indignação e culpar outra pessoa: “Como é que eu vou saber onde está o documento? O formulário é de vocês! O cara em Nova Délhi não me entregou; então, o problema é seu, não meu!” Essa jogada, porém, jamais funcionaria, digamos, na antiga Tchecoslováquia, onde os agentes de fronteira eram temidos pela sua eficiência férrea nos tempos da Guerra Fria.

Nove entre dez vezes, os funcionários da imigração eram iletrados ou mal treinados, enquanto os da alfândega eram de primeira linha. Nesse caso, era prudente saber o tipo de item em que eles estariam de olho. Certa vez, quando fui a outra cidade no subcontinente para uma exfiltração, pus exemplares das revistas Playboy e Time na minha mala em lugares facilmente acessíveis, sabendo que seriam distrações óbvias. É claro que fui barrado, como sabia que seria, e, quando o primeiro funcionário da alfândega viu a Playboy, suas sobrancelhas se ergueram. “Pode pegar”, eu disse. O funcionário seguinte franziu o cenho quando viu a revista Time. O número em questão trazia um artigo muito negativo sobre a religião oficial do país em que eu ingressava. “Esta aqui é proibida”, o segundo funcionário disse. “É sua”, respondi. Aí, sem esperar que eles continuassem a busca, rapidamente fechei a mala e segui adiante. Eu tinha vários carimbos de vistos e quase dez mil dólares em dinheiro escondidos num compartimento secreto.

Quando se tratava da fiscalização no Aeroporto de Mehrabad, em Teerã, a maior preocupação que tínhamos era com o formulário de desembarque/embarque composto de duas folhas que remontava aos dias repressivos da SAVAK. Ele era impresso num papel que dispensava papel-carbono. Na chegada, cada pessoa tinha de preencher um formulário, e o agente da imigração mantinha a folha branca de cima enquanto o viajante ficava com a cópia amarela. Teoricamente, quando o viajante deixasse o país, deveria devolver a via amarela para o agente poder compará-la com a outra e ver se havia alguma irregularidade. Como estávamos planejando falsificar a via amarela, essencialmente corríamos um risco. Devido à natureza caprichosa dos homens do komiteh no aeroporto, não era possível dizer se os fiscais da imigração se dariam o trabalho de comparar nossos formulários amarelos com as inexistentes vias brancas.

Para minimizar esse risco, tínhamos juntado o máximo de informações humanamente possível sobre os controles no Aeroporto de Mehrabad para descobrir se estavam fazendo as comparações.

Há basicamente dois jeitos de colher informação sobre aeroportos. Um é passivo, e o outro é mandar alguém fazer uma sondagem. Um exemplo de coleta passiva seria o viajante notar coisas que poderia ver simplesmente ao passar por ali; então, ao retornar, preencher um relatório detalhado. Essa é uma ação de coleta de informação de baixo risco, pois o viajante, na realidade, não está indo além dos procedimentos de viagem habituais. No começo da crise dos reféns, havíamos mandado uma mensagem abrangente pedindo que qualquer um que estivesse em trânsito pelo Aeroporto de Mehrabad monitorasse os controles.

Uma vez identificadas as lacunas em nossas informações — os “desconhecidos conhecidos”, como se poderia dizer —, seguiríamos adiante para o segundo método, que é mandar alguém para fazer uma sondagem. Nesse caso, geralmente se está buscando testar uma teoria ou conceito específico.

Em meados de janeiro, a CIA fora capaz de alocar diversos agentes em Teerã coletando informação sobre uma variedade de assuntos, inclusive sobre o Aeroporto de Mehrabad. O mais proeminente entre eles era Bob, o antigo agente do OSS que fora tirado da aposentadoria para dirigir o apoio de inteligência para a Operação Garra de Águia. Bob era essencialmente um dos nossos agentes secretos não oficiais e fora incumbido de fazer o reconhecimento da embaixada e montar uma companhia de caminhões como parte da Garra de Águia. Os caminhões deveriam ser usados para transportar os comandos da Força Delta para a embaixada americana em Teerã como parte do assalto final. Bob era um verdadeiro profissional, capaz de falar várias línguas e adotar exatamente a fachada necessária. Para essa missão, estava viajando com documentos autênticos de um país do Leste Europeu, então não havia como ligá-lo à CIA. Para os objetivos da nossa operação, Bob também se tornara uma excelente aquisição. O trabalho exigia que ele fosse e voltasse com frequência, e ele passava bastante pelos escritórios do EST na Europa informando o que vira no aeroporto. Bob também tinha indivíduos trabalhando sob suas ordens no Irã, ocupados em colher informações.

Além disso, é claro, os canadenses também foram de grande ajuda. No começo da crise, eu solicitara ao embaixador Taylor que pedisse a qualquer um de seus funcionários em trânsito pelo aeroporto que auxiliasse na nossa tarefa de coleta de informações. Nas minhas viagens a Ottawa, pude interrogar diversos policiais canadenses que haviam passado pelo aeroporto, e as informações por eles fornecidas demonstraram ser valiosíssimas.

Toda essa inteligência pintava o quadro dos desafios que enfrentaríamos para tentar fazer com que os hóspedes passassem por Mehrabad. Na primeira vez que estive no aeroporto, para resgatar RAPTOR, notei que os funcionários habituais da alfândega haviam sido substituídos por capangas do komiteh. No fim de janeiro, parecia que os iranianos voltavam a se organizar lentamente. Ainda assim, nossas melhores informações diziam que não estavam comparando as vias branca e amarela dos formulários de imigração. Eu esperava que conseguíssemos entrar e sair com os hóspedes antes que isso mudasse.

* * *

NA MANHÃ DE 23 DE janeiro, fui de carro para Bonn com uma das nossas quatro agentes disfarçadas para tirar o visto. Eu estava sob a identidade de Kevin e trouxera comigo o portfólio Argo, que planejava usar para impressionar os funcionários iranianos. Eu havia alterado minha aparência com um disfarce simples e vestia um pulôver verde de gola rolê com um paletó de tweed, que continuaria usando durante toda a operação.

À medida que nos aproximávamos da representação iraniana em Bonn, fiquei um pouco preocupado em ver que a embaixada do meu suposto país de origem se encontrava bem do outro lado da rua. Se os iranianos resolvessem, seria perfeitamente aceitável que me mandassem para a embaixada do meu país para pegar uma carta de apresentação antes de me concederem o visto. Se isso ocorresse, seria um verdadeiro teste para a minha habilidade de manter a fachada. Fui deixado no fim da quadra e caminhei de volta até a entrada da seção consular iraniana.

A área de recepção era uma sala grande, amorfa, que continha algumas cadeiras retas com espaldar de madeira e tapetes persas espalhados no chão. Uma fileira de janelas corria ao longo da parte superior de uma das paredes, mas fornecia pouca luz natural. Na verdade, o espaço era iluminado por uma série de mortiças lâmpadas fluorescentes que davam ao ambiente um ar sombrio, quase lúgubre, como algo que poderia ser visto num filme de Hitchcock. Meia dúzia de candidatos ao visto estavam sentados nas cadeiras preenchendo os formulários, enquanto um punhado de guardas revolucionários em trajes civis se mantinha por perto examinando todo mundo com olhares ferozes. Foi só então que me dei conta de que, de forma estúpida, deixara o portfólio no carro quando saltei. Eu ainda estava com meu passaporte falso e outros documentos pessoais, mas fiquei furioso comigo mesmo. Fervendo de raiva, sentei-me para preencher os formulários e fui até o guichê para entregá-los ao encarregado consular. O funcionário, de aparência desgrenhada, me examinou com a postura arrogante de um fanático convencido de sua superioridade. Dava para dizer que ele estava ansioso para me mostrar que pertencia a um komiteh e desconfiava de todos os ocidentais.

Quando as pessoas me perguntam como é encarnar uma identidade fictícia, eu sempre digo que é muito parecido com ser um bom mentiroso. O truque é que você precisa acreditar na mentira e acreditar tanto que a mentira se torna verdade. Em outras palavras, ao entrar no consulado como Kevin, eu não estava fingindo ser Kevin. Eu era Kevin, e ele era eu.

Para mim, há duas abordagens básicas quando se desempenha um papel: fazê-lo pela intuição ou fazê-lo de maneira controlada. Em condições normais, tendo a ser meio maníaco por controle, mas, quando se trata de interpretar um papel, sou mais do tipo que age de improviso. Porém, se você não estiver afiadíssimo ao parar na frente do funcionário da imigração e mostrar seus documentos, então realmente não está preparado. Quando se consegue enganar alguém levando-o a pensar que você é outra pessoa, ser o único que sabe a verdade dá uma sensação de poder.

— Qual é o propósito da sua visita? — perguntou o funcionário, coçando a barba.

— Uma reunião de negócios com meus associados no Hotel Sheraton em Teerã — eu disse, com meu melhor sotaque do norte da Europa. — Eles vão chegar de Hong Kong amanhã e estarão esperando por mim.

— Por que não tirou o visto no seu país de origem? — ele perguntou, parecendo agora entediado com a transação e só cumprindo as obrigações.

Expliquei que estava viajando pela Alemanha quando meu patrão me mandou um telex me informando da reunião. Dei de ombros:

— Eu não tive tempo de voltar para casa.

O funcionário pensou no caso e assentiu duas vezes. Vinte minutos depois eu estava saindo pela porta com um visto iraniano de um mês carimbado no meu passaporte falso. Nem precisei do portfólio Argo, mas foi por sorte, e eu sabia muito bem disso.

* * *

DE VOLTA A FRANKFURT , Julio e eu fizemos os acréscimos finais no plano operacional, detalhes da aquisição de vistos, plano de infiltração para mim e Julio e a parte de escape e evasão. Esta última era um componente necessário, embora todos soubéssemos que, se algo desse errado, as chances de executar escape e evasão eram praticamente inexistentes. A segurança em Mehrabad era avassaladora e armada. Não haveria chance de mudar de ideia assim que decidíssemos dar a partida. A essa altura, a única saída do aeroporto seria num voo.

Escolhemos partir de Zurique porque queríamos chegar a Teerã de manhã cedo, quando o terminal de Mehrabad ficava sossegado. Também queríamos viajar de Swissair, por seu histórico confiável. Além disso, o voo da Air France que documentaríamos como o voo de chegada dos hóspedes aterrissava em Mehrabad quase na mesma hora que o nosso. Isso queria dizer que os hóspedes teriam passado supostamente pela imigração no mesmo dia que nós. As assinaturas e cores de tinta dos carimbos de entrada seriam idênticas àquelas que constavam em nossos passaportes, fornecendo-nos exemplares autênticos para serem copiados mais tarde.

Com tudo resolvido, mandamos um telex FLASH que incluía nosso plano final de operação requisitando permissão para dar partida. Era um procedimento-padrão solicitar a aprovação da central antes de prosseguir.

Enquanto Julio e eu esperávamos, recebemos uma mensagem em código de um dos supervisores locais dizendo que havia alguém que queria se encontrar conosco. Demos uma volta pelo corredor e entramos numa sala vazia, onde nosso contato Bob estava à espera. Recém-chegado de Teerã, ele nos deu algumas informações de última hora sobre a fiscalização no aeroporto. Então, nos examinou de cima a baixo para ver se estávamos convenientemente trajados. Satisfeito, fez que sim com a cabeça e disse: “Vocês vão se sair bem.” Pode não parecer muita coisa, mas foi um grande elogio vindo de uma lenda viva do mundo da espionagem, um sujeito que durante a Segunda Guerra Mundial saltou de paraquedas atrás das linhas inimigas para trabalhar com a resistência. Tomei como um bom sinal de que a nossa operação acabara de receber a bênção de um dos mestres do nosso ofício.

Meia hora depois de enviado o telex, chegou a resposta do diretor da inteligência central, dizendo: “Sua missão está aprovada. Boa sorte.” Espiões não são do tipo que manifesta emoção, especialmente entre colegas. Virei-me para Julio e nos encaramos com um olhar firme. Não havia nada a dizer. Éramos profissionais e sabíamos dos riscos. Ele estendeu a mão para apertar a minha. Isso não era muito típico dele, e eu dei um sorriso discreto.

— Vejo você em Teerã — eu disse.

Conforme o nosso plano, eu partiria primeiro. Enquanto saía para me dirigir ao flughafen de Frankfurt, Al, o subchefe, desceu correndo pelo saguão.

— Espere aí — ele disse. — O presidente está para fazer uma declaração. — E virou-se para mim, parecendo ligeiramente espantado. — O quer dizer isso? — ele indagou.

— Acho que quer dizer que ele está tomando uma decisão — respondi.

O chefe do escritório reuniu Al, Julio e eu numa de suas salas. Andava de um lado a outro, mascando seu charuto e correndo os dedos pelos cabelos ralos, obviamente nervoso. Al, por outro lado, estava totalmente composto. Eu tinha uma sensação muito boa em relação a essa operação e achava que o presidente ficaria feliz com ela. O governo dos Estados Unidos não tinha muito mais que isso — pelo menos, não que eu soubesse. Eu estava tranquilo, como a calmaria no olho de um ciclone.

O encarregado das comunicações nos trouxe a mensagem seguinte pelo saguão. Estávamos agrupados no meio da sala quando ele irrompeu porta adentro.

— É um Ok! — exclamou com um sorriso mesmo antes de chegar até nós, uma quebra da etiqueta operacional que ficamos felicíssimos em perdoar. Um sujeito da comunicação nunca deve verbalizar o conteúdo de uma mensagem.

A mensagem tinha duas linhas: “O Presidente dos Estados Unidos aprova sua missão. Boa sorte.” Olhei-a por um segundo, absorvendo-a. Não é frequente receber uma mensagem pessoal do presidente numa missão. Se fosse para haver um sinal de que estávamos para embarcar numa operação importante, lá estava. O presidente — e, se desse errado, o mundo — estaria acompanhando.

De repente, eu estava do lado de fora, sendo levado ao Aeroporto de Frankfurt por um colega do setor gráfico para pegar meu voo da Lufthansa para Zurique. O presidente havia provocado um pequeno atraso no meu horário já apertado, mas parecia que ia dar tempo.

Cheguei a Zurique por volta das dez da noite, e o meu voo de conexão da Swissair para Teerã estava marcado para partir à uma da manhã. O avião para Teerã estava bastante cheio, pelo número de pessoas no salão para passageiros em trânsito. Descobri que o voo da Swissair seria o último a sair de Zurique naquela noite.

Enquanto aguardava, tive um momento para refletir. Apesar de todo o planejamento, não havia como ter certeza de nada no Irã. Muitos dos postos oficiais do país tinham sido ocupados por bandidões despreparados. Sob certos aspectos, isso era uma tremenda vantagem para nós, porque muitas vezes eles não sabiam o que deviam estar fazendo — na verdade, às vezes era até possível lhes mostrar o que deveriam fazer. Por outro lado, significava que não poderíamos esperar que a oposição agisse de forma racional. Em Moscou, por exemplo, se um agente fosse capturado, geralmente seria fichado e denunciado. Os soviéticos tirariam uma foto do infrator e a publicariam no jornal nacional, o Izvestia, declarando-o persona non grata, e o expulsariam do país. Eu sabia, porém, que no Irã tais condutas civilizadas seriam inexistentes. Quando tinha exfiltrado RAPTOR, o país já era perigoso, mas o clima era diferente. Naquela época, a embaixada dos Estados Unidos ainda estava inteira e os americanos podiam ir e vir livremente. Agora, porém, o país todo parecia unido por um único propósito: engajar-se diretamente numa vingança contra os Estados Unidos e a CIA. Eu não tinha ilusão do que aconteceria comigo ou com Julio se fôssemos pegos.

Caminhei até um grande conjunto de janelas que davam para a pista. Fiquei ali parado alguns segundos observando um 747 taxiar, quando de repente tomei consciência do meu reflexo na vidraça. Estava vestido com o meu disfarce Kevin Costa Harkins e notei a ausência da minha aliança. Instintivamente, toquei o dedo, lembrando da minha promessa a Karen. Será que isso é algo que eu quero realmente fazer?, perguntei-me. Quero voltar ao Irã e correr o risco de que os revolucionários estejam me “esperando”? Pude sentir o meu corpo tremer ao passar pelo que nós sempre chamávamos de “checagem de entranhas”. A ideia é fazer o melhor plano operacional possível e, quando atinge a casa dos 90% de confiança, você sabe que está pronto. Então, a pergunta era “Estou lá? Estou nos 90% ou acima?” Havia vidas em jogo — não só as dos hóspedes, mas a de Julio e a minha. Além disso, quem sabia que tipo de retribuição os militantes dariam aos reféns, ou aos canadenses, por causa disso? Embora as operações de espionagem sempre procurem ponderar o uso de recursos clandestinos e o risco para vidas humanas, o presidente Carter e seus assessores de segurança nacional já haviam feito esses cálculos na Casa Branca. No momento, contudo, eu teria de esquecer tudo isso. Minhas preocupações eram relativamente simples. Será que eu conseguiria entrar e resgatar os americanos em segurança?

Havia uma regra não escrita na CIA que dava ao encarregado da operação a opção de abortá-la quando achasse que ela iria falhar. Não era vergonha nenhuma recuar. Era apenas mais uma forma de estimular a avaliação de riscos no último momento, e já havia salvado muitas vidas.

Fiquei ali parado, pesando minhas opções. Abri o portfólio Argo e folheei os currículos dos hóspedes. Uma das perguntas que me foram feitas como parte do processo de entrevista em 1965 quando entrei na CIA foi: “E se você estivesse numa situação em que simplesmente desaparecesse e ninguém soubesse onde você está?” Minha resposta foi imediata: “Tentariam me achar.” Mesmo sem conhecer os seis americanos, eu sabia que, porque estava dentro das minhas possibilidades, eu tinha de fazer todo o possível para ajudá-los, independentemente de quaisquer reservas que tivesse acerca da minha própria segurança. Era a mesma coisa que eu esperaria que alguém fizesse por mim, e uma das razões de eu ter confiança para me colocar em situações de perigo.

E, de um instante para outro, a incerteza momentânea que eu sentia em relação à missão se dissipou, substituída por uma euforia à medida que a tensão abandonava meu corpo. Era um bom plano operacional, e nós estávamos prontos, pensei. A essa altura, meu compromisso era fazer o que fosse necessário para que tudo funcionasse a contento.

E, aí, sem mais nem menos, o sistema de alto-falantes anunciou que o voo da Swissair em que eu estava prestes a embarcar havia sido cancelado devido ao mau tempo no Aeroporto de Mehrabad. A Lei de Murphy tinha atacado.

Dei um telefonema estéril — uma ligação para um número europeu não registrado em nenhuma companhia telefônica — para informar Julio. “Estou definhando em Zurique”, eu disse. Concordamos que nos ateríamos ao cronograma de Julio no dia seguinte e entraríamos no Irã juntos — mais uma vez, não era perfeito, mas teria de servir.

Depois disso, saí, peguei um táxi e fui a um hotel, onde dormi feito um bebê.

Na tarde seguinte, Julio chegou de Frankfurt e fomos juntos para a sala de embarque. Nós estávamos imbuídos de nossos papéis. Juntos, embarcamos para Teerã.