Argo

Antonio Mendez e Matt Baglio · Capítulo 16 de 17

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Argo

15. A fuga

Era Richard Sewell, pontual. Tomei uma chuveirada, juntei o resto das minhas coisas e desci em 1 5 menos de quinze minutos. Sewell viera me buscar na Mercedes do embaixador e dirigia com cuidado pela cidade ainda adormecida. As ruas estavam escuras e quase desertas àquela hora — o que era ao mesmo tempo estranho e tranquilizador —, e às quatro e meia chegamos ao Aeroporto de Mehrabad.

Sewell estacionou o carro e nós dois seguimos juntos, passando sem problema pelo posto de controle inicial. Como eu esperava, o aeroporto estava relativamente vazio. Havia apenas uns poucos passageiros no saguão e vários funcionários largados, cochilando em suas mesas. Só alguns guardas revolucionários estavam apoiados nos balcões, com aparência solitária e entediada. Eu sabia que no final da manhã a cena seria completamente outra, com multidões de iranianos apinhando os controles e um grupo maior de guardas revolucionários para mantê-los na fila. Esse foi um dos principais motivos para eu ter escolhido um horário de partida tão cedo.

Passei pela alfândega sem incidentes. Richard seguira seu próprio caminho; não estávamos planejando necessariamente nos encontrar de novo, a menos que surgisse algum problema. Richard tinha em seu poder uma identificação diplomática que lhe dava acesso a todo o aeroporto. A essa altura, ele estava indo fazer uma verificação com seu contato da British Airways em caso de precisarmos de um plano B. Eu me dirigi ao balcão da Swissair, onde o funcionário confirmou que o nosso avião chegaria a tempo, às cinco da manhã. Peguei uma revista e passei os olhos pelas manchetes, fazendo hora para esperar Julio e o restante do pessoal.

Enquanto isso, na casa dos Sheardown, Roger Lucy fazia o máximo para despertar os hóspedes e fazer a coisa andar. Não foi fácil. O grupo mal havia dormido, e alguns estavam de ressaca. Cora se recorda de estar andando pelo corredor e ver Lee de cueca numa corrida desenfreada até o banheiro. Lucy preparou um bule de café e todos iniciaram o processo de entrar no personagem, dando os retoques finais nos disfarces. Bob Anders achara uma boina azul-marinho em um dos armários dos Sheardown e a adicionou ao figurino. Conferiu seu aspecto no espelho e ficou satisfeito com o resultado. Quando chegou a hora de partir, Lucy lhes desejou tudo de bom e os acompanhou até a van da embaixada, que os aguardava. Lee notou que Joe resolvera fazer a viagem.

Ao trafegar com o veículo pela cidade, o motorista, um empregado iraniano da embaixada canadense, pensava se tratar apenas de mais uma corrida de rotina até o aeroporto. Os hóspedes estavam bem cientes disso e tinham de tomar cuidado com o que diziam dentro do furgão. Durante a maior parte do tempo, ficaram sentados em silêncio. Mark lembra-se de como a viagem foi tranquila, quase serena. Era uma sensação reconfortante estar acomodado na escuridão do carro. Pensou em como seria bom se pudessem ir de carro, todos amontoados, até Washington, D.C. Sentada a seu lado, Cora tentava lembrar-se de uma lista de coisas a verificar. Resolveu dar uma última olhada na bolsa para ver se havia algo com seu nome real. Ficou surpresa ao descobrir um recibo de lavagem a seco e rapidamente o meteu entre os assentos. Os outros repassavam mentalmente as histórias de fachada, revendo os detalhes e preparando-se psicologicamente.

Quando o motorista perdeu a entrada correta para o Sheraton, Anders lembrou-lhe que deveriam apanhar alguém no hotel. O motorista rapidamente fez meia-volta e acelerou para não perder tempo. Imperturbável como sempre, Julio passou o tempo de espera no saguão lendo seu jornal. Posteriormente me contou como ficou aliviado ao ver a van encostar na frente do hotel. Quando chegaram a Mehrabad, passava um pouco das cinco horas.

Dentro do terminal, eu vaguei até um conjunto de janelas envidraçadas do chão ao teto, perto da entrada principal, e parei num lugar onde sabia que seria facilmente visto do exterior. Com o ar mais indiferente possível, dobrei minha revista e a pus na maleta, tirei o enorme portfólio Argo e comecei a folheá-lo. Conforme o combinado, eu fora na frente e sinalizava para os outros que não havia problema em entrar no aeroporto. O sinal era eu ficar parado num lugar em que pudessem me ver, bem do outro lado do vidro, examinando o portfólio.

Do lado de fora, os hóspedes estavam sentados no veículo, esperando. Por causa da presença do motorista, não podiam falar abertamente. Julio manteve os olhos na janela e, quando me viu, virou-se para os outros:

— Tudo bem. Vamos lá.

Os sete se aproximaram dos guardas da polícia nacional parados do lado de fora do terminal e entregaram as identidades. O policial passou os olhos pelos documentos, notou as passagens aéreas e fez um gesto para que passassem. Eles tinham um aspecto bom, confiante, como viajantes experientes prestes a embarcar. Uma coisa a menos, pensei.

Cruzei o aeroporto em direção aos balcões de check-in, onde podia observar melhor Julio e os hóspedes percorrendo o interior iluminado do aeroporto. Eles pareciam animados, mas também um pouco ansiosos. Afinal, tinham ficado na casa dos Sheardown por quase noventa dias, e eu sabia que deveria dar uma sensação estranha se ver subitamente cercado por tanta gente. Espantei-me com Bob Anders, que deslizava pelas portas segurando um cigarro entre o polegar e o indicador. Ele parecia um personagem saído de um filme de Fellini. Só espero que ele não exagere, pensei, vendo-o alisar os cabelos num gesto que parecia quase feminino. Apesar do auxílio dos canadenses, os hóspedes tiveram alguma dificuldade de juntar muita bagagem, e a olhos treinados pareciam estar viajando um pouco desimpedidos demais para um grupo hollywoodiano em busca de locação em várias partes do mundo.

A passagem pela alfândega, porém, correu tranquilamente e eles logo se juntaram a mim no balcão d e check-in. Quando nos reunimos pela primeira vez no aeroporto, pude ver que os cantos de seus olhos se apertavam de tensão e fadiga. Ainda assim, havia um sentimento bom de camaradagem. Estávamos nisso juntos e íamos passar juntos. Éramos uma equipe. Éramos um grupo de busca de locação para um filme, a caminho da nossa próxima escala, e depois de volta a Hollywood. Estávamos vivendo o momento. Eles pareciam ter escutado tudo o que eu lhes dissera nos ensaios. Tudo bem , pensei. Eles vão conseguir.

O plano que eu passara para os hóspedes tinha um elemento-chave: permanecer juntos. No caso de alguma coisa sair errado, isso me daria a oportunidade, como gerente de produção, de me intrometer com o portfólio Argo. Lee, porém, tinha outras ideias. Ainda mais que Anders, pude ver que ele abraçara o espírito aventureiro da missão Argo. Naquela época, as linhas aéreas tinham duas filas para o check-in: fumantes e não fumantes — parece incrível, mas nos anos 1980 ainda era permitido fumar nos aviões. Por hábito, Lee entrara na fila muito mais curta dos não fumantes, enquanto o resto de nós estava na fila dos fumantes. Isso significava que, na hora que tivéssemos nossos cartões de embarque, Lee já teria entrado e estaria a caminho dos controles de imigração.

Quando Lee chegou à frente da fila, nós ainda estávamos um pouco atrás dele. Notei que um funcionário uniformizado, e não algum mal-encarado sem treinamento de um komiteh, cuidava da fiscalização, como eu os avisara. Observei Lee entregar o passaporte e o formulário amarelo. Como agente da CIA com anos de experiência usando documentos falsos, posso dizer que, na primeira vez que você mostra um deles a um funcionário de imigração, sempre há um pequeno sobressalto. Aí vamos nós, pensei comigo mesmo. Este é o momento da verdade. Lee estava bancando o tranquilo, mas eu sabia que por dentro seu estômago devia estar se contorcendo. Se fosse para algo dar errado, a maior probabilidade era que fosse aqui. E agora.

O funcionário da imigração examinou o passaporte de Lee:

— Esta foto é sua? — Eu mal conseguia ouvir o funcionário perguntar.

Estiquei o pescoço para ouvir a resposta de Lee.

— Claro que é.

Ele estava tentando permanecer calmo, mas pude ver que o nervosismo estava começando a aparecer. Um par de guardas revolucionários malvestidos apoiava-se numa parede próxima, observando com um misto de tédio e ameaça.

O funcionário deixou seu posto e rapidamente desapareceu numa sala dos fundos. Lee olhou na nossa direção. Ficamos paralisados, os olhos grudados na porta por onde o funcionário saíra. Teríamos esquecido alguma coisa no passaporte de Lee? Estaria o funcionário procurando a via branca do formulário de desembarque? Alguns segundos se arrastaram, até que o homem voltou.

— Não parece você — disse, no seu inglês com forte sotaque.

Mostrou a Lee a foto que fora tirada vários meses antes. Nela, ele tinha um grosso bigode que cobria totalmente seu lábio superior. Percebendo que era esse o problema, Lee fez uma cara séria para combinar com a da foto, depois usou os dedos para imitar uma tesoura cortando as pontas do bigode.

— Agora está mais curto — ele disse.

O funcionário lançou um olhar na foto, depois olhou de novo para Lee e finalmente deu de ombros. Carimbou o passaporte e Lee sumiu dentro da sala de embarque. Estudei os hóspedes e fiquei feliz em ver que, apesar de ter sido por pouco, ninguém tinha entrado em pânico.

A fila seguia em passo de lesma para diante, emperrando ocasionalmente quando irrompia alguma discussão entre passageiros e o funcionário da imigração. Vários iranianos tentavam viajar com documentos falsos, e uma mulher foi puxada para o lado quando se recusou a cooperar. Algumas semanas antes, Cora lera um artigo sobre uma mulher que fora pega tentando contrabandear dinheiro na vagina. Ao ver a passageira ser tirada da fila, ela de repente ficou preocupada que as autoridades pudessem estar escolhendo passageiras ao acaso para sujeitá-las a buscas de corpo inteiro.

Quando finalmente chegamos ao balcão, todo mundo se alinhou para apresentar os passaportes como grupo. O funcionário da imigração, porém, desaparecera misteriosamente. Ficamos ali parados alguns minutos sem fazer nada. Mark e Cora, que estavam à frente do grupo, tiveram uma rápida discussão se deviam ou não simplesmente passar pelo controle. Logo se deram conta de que seria uma péssima ideia. Se fossem pegos tentando passar, isso só despertaria suspeitas de que tinham algo a esconder. Mark tinha absoluta confiança na qualidade dos documentos, e o plano foi aguardar. Após mais alguns minutos, o funcionário voltou à mesa, mexendo em uma xícara de chá. Ele deu uma olhada rápida nos nossos passaportes e sem mais delongas colou os selos de saída, gesticulando para que passássemos. Também recolheu nossas vias amarelas e, ao prender suas bordas ao balcão, uma delas flutuou e caiu no chão. Ao passarmos, não pude resistir e disfarçadamente a peguei e a enfiei no meio dos meus papéis. Era o formulário de Bob Anders.

Cada um de nós soltou um longo suspiro de alívio quando entrou na sala de embarque. Tecnicamente, ainda não tínhamos saído da selva, pois havia um último posto de controle antes do embarque, mas com a imigração resolvida, sentíamos que o pior já tinha passado. Alguns guardas revolucionários vagavam pela sala encarando as pessoas com ar desconfiado, mas seu interesse parecia embotado pela hora precoce. Faltavam cerca de vinte minutos para chamarem nosso voo. Tudo que tínhamos a fazer era ficar sentados quietos, de cabeça baixa, e aguardar.

Lee e Bob se juntaram e caminharam na direção de uma fileira de assentos. A sala de embarque estava a meia lotação, mas eu sabia que não demoraria muito para estar lotada até os caibros. Os dois escolheram um lugar e se sentaram, notando que à sua frente estava Junior, o policial militar da embaixada canadense que ajudara a cuidar da casa depois que Roger Lucy saíra para os Sheardown. Com a embaixada fechando, os canadenses tinham sido escalados para partir em dois turnos, com vários deles embarcando nos voos matutinos, e o restante, inclusive o embaixador Taylor, partindo à tarde. Na verdade, Laverna, a secretária de Taylor, estava sentada ao lado de Junior. Assim que Lee se sentou, Junior viu sua sacola, que estava coberta de adesivos com a folha de bordo da bandeira canadense. Ao ver os adesivos, os olhos de Junior foram subindo da sacola até pousarem nas faces radiantes de Lee Schatz e Bob Anders. Junior deu uma olhada nos dois americanos e fez uma expressão de espanto. Laverna ficou igualmente surpresa. Ela vira Anders no passado, em algumas funções da embaixada, mas levou um instante para perceber que o homem de peito descoberto com um medalhão extravagante e usando boina era o mesmo diplomata sênior de terno que ela conhecera antes.

Junior inclinou-se para a frente:

— O que você está fazendo aqui? — perguntou a Lee.

Lee não hesitou:

— Indo para casa, ué! — disse com seu melhor sotaque canadense.

Junior ficou abestalhado. Sacudiu a cabeça estarrecido.

Enquanto isso acontecia, eu havia ido procurar Sewell, que estava parado num canto da sala junto com seu amigo da British Airways. O amigo me perguntou por que não tínhamos escolhido voar com eles.

— Nós teríamos lhes dado um tratamento de realeza — ele disse. — Primeira classe, champanhe, é só escolher.

— Eu agradeço — respondi.

Disse que era bom saber que tínhamos uma alternativa caso algo desse errado com o voo da Swissair. É muito raro ter um contato no aeroporto para uma exfiltração, e isso decididamente reforçou a minha confiança.

Notei que Joe e Kathy estavam na duty-free, mas não consegui ver o que faziam. De repente, Kathy puxou meu paletó, e Joe se aproximou com uma sacola lacrada da loja. Sua boca se abriu num largo sorriso ao dá-la para mim com uma mesura, colocando-se em posição de sentido como se apresentasse um troféu:

— Gostaríamos que recebesse isto como uma demonstração da nossa estima — disse em tom levemente formal.

Achei um pouco constrangedor, mas foi sincero. Estava claro que haviam comprado um enorme recipiente de caviar beluga iraniano — pude ver pela sacola plástica e avaliar o peso. Não era nada barato. Pareceu um momento estranho, antes de realmente chegarmos à “hora H”. Senti que, com esse presente, Joe dizia: “Estou com você neste plano, o seu plano, e acho que vamos conseguir sair daqui.” Ainda estávamos “a quilômetros de casa”, como diria Jerome, e parecia um pouco prematuro, mas era sincero, em especial partindo de Joe, que se portara o tempo todo como o guerreiro relutante. Pareceu-me que ele finalmente concluíra sua própria “checagem de entranhas” e havia encontrado a confiança para seguir adiante.

Foi nesse momento que uma voz anunciou ao alto-falante que o voo 363 da Swissair estava pronto para embarque. Os hóspedes logo se puseram de pé e eu os conduzi como um rebanho rumo ao portão de embarque. Passamos pelos detectores de metal e pelo último posto da segurança sem incidentes e assumimos nossos lugares na minúscula saleta de vidro junto ao portão. Olhando à minha volta, vi que todos estavam empolgados, mal podendo se conter. Só faltava pegar o ônibus de pista que nos levaria até o avião. Mas, antes de nos darmos conta, veio um segundo aviso pelo sistema de alto-falantes:

— Lamentamos informar que o voo 363 da Swissair sofrerá um atraso devido a problemas mecânicos.

Parecia que Murphy ainda não tinha se divertido o suficiente conosco. Todo o nosso grupo formou um cerco apertado à minha volta. Eu disse:

— Relaxem, todos vocês. Isso acontece o tempo todo. Vou verificar do que se trata e descobrir qual é o tipo de problema mecânico e de quanto atraso estão falando.

Retornamos à sala de embarque tentando manter os ânimos positivos. Mais uma vez me encontrei com Richard e seu contato da British Airways para ver o que podia ser feito. Como fiquei sabendo, eles já tinham conversado com a Swissair e descoberto que se tratava apenas de um problema técnico mínimo. Sewell informou:

— É só um indicador de velocidade do ar com defeito. Deve levar uma hora para o conserto.

Chegamos a discutir a possibilidade de mudar para um voo da British Airways, mas concluímos que isso só atrairia atenção desnecessária. Já tínhamos despachado nossas malas pela Swissair, de modo que a troca exigiria retirá-las do avião e passar de novo por todo o processo do check-in.

Reuni-me com os seis e os deixei a par do que ficara sabendo por Richard. Todos concordaram que o melhor seria esperar.

— Só precisamos ter paciência — eu disse.

Mark e Cora se entreolharam.

— Sei que estão preocupados — falei baixinho para todos eles, olhando nos olhos também de Joe e Kathy. — Seriam loucos se não estivessem. Mas já fizemos isso. Problemas mecânicos ocorrem o tempo todo. Este aqui é mínimo.

Bob Anders pareceu relaxar de imediato. Lee, sempre vigilante e falador, ficou momentaneamente mudo.

A espera se tornou angustiante. O dia tinha nascido e o céu lá fora começava a mostrar uma luz cinzenta filtrada. Pilhas de neve espalhavam-se pela pista como icebergs flutuando num mar de aço cinzento. Dentro do aeroporto, a sala de embarque se encheu rapidamente com passageiros dos numerosos voos que começavam a chegar da Europa e da Ásia. Vários grupos de guardas revolucionários encontravam-se no saguão, movimentando-se entre os viajantes. Cansados de pegar só iranianos, voltaram sua atenção aos estrangeiros, dirigindo-se a eles rudemente em inglês ou alemão sofrível. Para eles, parecia quase um esporte.

Fiquei imaginando quanto tempo demoraria até que algum ultrazeloso membro do komiteh voltasse sua atenção para um de nós. Olhei em volta para ver como os hóspedes estavam se arranjando e fiquei surpreso de ver que Joe lia um jornal em parse. Achei que ele tinha ficado maluco — ninguém acreditaria que um produtor de Hollywood fosse capaz de ler parse. Naquele instante, Joe pareceu se dar conta disso, pois de repente soltou o jornal.

O tempo passava em câmera lenta. O salão ficou atulhado e quente, e a névoa da fumaça dos cigarros enchia o ar. O barulho aumentou. A superlotação tornou-se desconfortável. O que começara quase como um jogo havia se transformado numa extenuante provação mental. Aí, exatamente no momento em que pensei que um dos hóspedes poderia ceder, o sistema de som anunciou que o voo 363 da Swissair estava pronto para embarque. Mais uma vez passamos pelo posto de segurança e entramos na saleta de vidro. Dessa vez, não fomos levados de volta. Quando nos esprememos dentro do velho ônibus do aeroporto, pude ver que todos estavam exaustos, inclusive eu. Agora faltava pouco, e nós sentíamos isso.

Na pista, desembarcamos do ônibus e nos dirigimos para a escada. O ar frio foi uma mudança bem-vinda depois do sufocante calor na sala de embarque. Então, enquanto subíamos para o avião, Bob Anders me deu um soquinho no braço:

— Cara, vocês pensam em tudo — ele disse com um sorriso de uma orelha à outra.

Ao me virar, vi o que ele estava apontando. Ali, pintado na lateral do nariz da aeronave, estava escrito o nome do cantão suíço de onde ela viera. Em letras grandes, dizia: AARGAU. Deixei escapar um sorriso e encarei como um presságio de que tudo daria certo.

Quando o DC8 rugiu taxiando pela pista e levantou voo, senti-me eufórico. Como dizemos no nosso ramo, não há sensação mais doce do que as rodas sendo recolhidas. Ainda tínhamos duas horas pela frente antes de deixar o espaço aéreo iraniano, mas agora parecia mera formalidade. Quando o capitão finalmente anunciou que havíamos saído do Irã e entrado nos céus da Turquia, os passageiros ovacionaram (havia vários iranianos em fuga que, sem dúvida, também tinham passado por suas próprias provações naquela manhã). Para os hóspedes, foi como se um peso terrível tivesse sido retirado de seus ombros. Pude ver o alívio em seus rostos quando se deram conta. Tínhamos conseguido. O sofrimento havia chegado ao fim — eles estavam indo para casa.

Quando os comissários de bordo passaram com o carrinho de bebidas, todo mundo pediu um Bloody Mary para comemorar. Ergui meu copo para os outros:

— Argo! Estamos em casa, livres! — disse.

Na embaixada canadense, o embaixador Taylor informou Ottawa, via telex, sobre o sucesso da missão. Depois, pediu a Claude para segurar uma última vez a sua marreta e arrebentar o

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equipamento de comunicação, o que ele fez com muito entusiasmo. Taylor pendurou na porta da embaixada uma tabuleta de TEMPORARIAMENTE FECHADA, e ele, Lucy, Claude e um quarto funcionário canadense saíram para almoçar. Na hora em que nosso grupo pousava em Zurique, a mensagem de Taylor já deixara Ottawa e chegara a Washington, onde um ansioso presidente Carter recebeu uma rara notícia boa vinda do Irã: os seis americanos haviam escapado.

* * *

SEMPRE ME LEMBRAREI DA alegria nos rostos dos hóspedes ao descerem a escada do avião em Zurique. Lee e Bob bateram os pés na pista e ergueram os braços em triunfo. Surpreendentemente, não havia ninguém para nos receber no portão, e por isso fomos obrigados a passar pela imigração com documentos falsos e tudo mais. Quando saímos no estacionamento, um grupo de funcionários do Departamento de Estado norte-americano rapidamente se aproximou. Sem uma saudação sequer, agarraram os hóspedes e os colocaram num furgão que estava à espera, e partiram a toda velocidade. Mais tarde, eu viria a descobrir que foram transportados às pressas para um chalé nas montanhas, onde foram alimentados com pizzas e embalagens de seis unidades de Heineken.

Julio e eu, nesse meio-tempo, fomos deixados sozinhos no estacionamento gelado. Como qualquer agente secreto que preza seu anonimato, não esperávamos um desfile com fanfarra para nos receber. A maioria dos funcionários da CIA é composta de profissionais que jamais recebem o reconhecimento que merecem. Para nós, era apenas parte do trabalho. Fiquei feliz de ter feito a minha parte e ajudado a tirar os seis americanos do Irã, mas eu sabia que havia mais trabalho pela frente. Havia ainda 53 americanos mantidos como reféns que necessitavam do nosso auxílio.

— É hora de conversarmos sobre o seu futuro no ramo de cinema — eu disse a Julio, minhas palavras pairando no ar gelado da noite.

Expliquei que, como a história de fachada do filme Argo tinha funcionado tão bem, havia uma chance real de ser usada para infiltrar os comandos da Força Delta em Teerã no caso de uma tentativa de resgate.

— Eles vão querer que você tome algumas aulas sobre finanças internacionais — acrescentei.

— Você acha que dou conta? — ele perguntou. Por um instante, pareceu mais jovem.

— A minha única dúvida é em que língua você deve fazer o curso — respondi.

Um vento frio varreu o estacionamento e eu tremi, percebendo que não estava mais de casaco.

— Vamos dar o fora daqui. Estou congelando.

— Onde está o seu casaco? — Julio indagou.

— Emprestei para o Joe.

Ele riu.

— O departamento financeiro vai comer o seu rabo por causa disso.

— E eu não sei? Vamos embora.

Nós viramos e andamos na direção da fila de táxis. Era hora de voltar ao trabalho.