Argo
1. Bem-vindos à revolução
Teerã. A data era 4 de novembro de 1979, e uma enorme multidão de “estudantes militantes” acabara 1 de invadir os portões principais e se espalhava pelo complexo de edificações adentro.
A embaixada era colossal. Ocupava mais de cem mil metros quadrados, cercados por um muro alto de tijolos. No interior, havia dezenas de construções e depósitos, a residência do embaixador, uma pista de atletismo, quadras de tênis e até mesmo uma piscina. Além disso, o complexo localizava-se em pleno coração de Teerã, circundado de todos os lados por algumas das ruas mais movimentadas da cidade. O resultado era um pesadelo para a segurança. Cerca de uma dúzia de fuzileiros navais ficava de plantão junto ao complexo, mas sua função era basicamente fornecer proteção interna.
Por esse motivo, o plano de segurança armado por Golacinski convocava todos para a chancelaria, um grande edifício de três andares que fora fortificado com grades nas janelas, blindagens antiexplosões e fechaduras com horários pré-programados. O segundo andar podia ser isolado por uma grossa porta de aço, que teoricamente permitiria aos americanos resistir por várias horas. Toda embaixada no mundo depende do país anfitrião para lhe prover segurança externa. Esperava-se que, com a ajuda dessas medidas preventivas, o governo iraniano tivesse tempo suficiente para organizar uma reação e mandar ajuda.
A embaixada já fora atacada uma vez, havia nove meses, em 14 de fevereiro de 1979, apenas um mês após Mohammad Reza Pahlavi, xá do Irã, fugir do país. Durante aquele ataque, um grupo de guerrilheiros marxistas invadira a embaixada com rajadas de metralhadoras e mantivera os funcionários como reféns por quatro horas.
Nessa época, o Irã era um caos completo. O aiatolá Khomeini retornara, em triunfo, do exílio em Paris, e o governo do xá desabara rapidamente. O exército logo trilhou o mesmo rumo, e, no vácuo que se seguiu, as diversas facções que tinham se juntado para derrubar o xá (esquerdistas, nacionalistas, comunistas apoiados pela União Soviética, islâmicos da linha-dura) se dividiram e agora brigavam entre si. Homens armados vagavam pelas ruas, e assassinatos por vingança eram lugar-comum. Pequenos bandos chamados komiteh (comitês) surgiam por todo o país, estabelecendo territórios de controle. Não reconhecidos por ninguém exceto o mulá ao qual declaravam fidelidade, esses bandos não passavam de arruaceiros e começaram a aplicar sua própria justiça revolucionária com o cano do revólver. Em meio a essa confusão, Khomeini e seu círculo mais próximo instalaram um governo provisório para administrar o país enquanto a Assembleia dos Sábios trabalhava diligentemente nos bastidores para redigir o esboço de uma nova constituição.
Não demorou muito para que o governo provisório enviasse um grupo desorganizado para expulsar os invasores, mas a ocupação de 14 de fevereiro, Dia de São Valentim — o dia dos namorados nos Estados Unidos —, teria importantes repercussões para os acontecimentos que viriam a seguir. Em primeiro lugar, o corpo funcional da embaixada foi drasticamente reduzido (em seu auge, perto de mil pessoas trabalhavam lá). Em segundo lugar, e talvez ainda mais importante, houve a impressão de que o governo iraniano honraria seu compromisso de proteger a embaixada e os diplomatas que trabalhavam lá dentro.
Depois que os guerrilheiros marxistas foram expulsos, a proteção da embaixada foi conferida a um grupo do komiteh, que ocupou um dos pequenos edifícios perto da frente do complexo e passou a patrulhar a área. Foi só no verão que uma força de segurança mais estável foi encarregada de guardar a embaixada, mas, mesmo pelas estimativas mais otimistas, não passava de um gesto simbólico.
À luz do perigo exposto pelo primeiro ataque, podemos nos perguntar por que a embaixada simplesmente não fechou suas portas. Para começar, o Irã era importante demais para os interesses estratégicos dos Estados Unidos. O país não só abrigava vastas reservas de petróleo, mas por mais de 25 anos servira como fiel aliado e barreira contra a União Soviética, que tinha uma fronteira de mais de 2.500 quilômetros com o Irã. Não era segredo nenhum que os soviéticos desejavam um porto sem riscos de congelamento no inverno e gostariam de incrementar sua influência no Golfo Pérsico. Assim, em vez de romper os laços, a administração Carter começou a trabalhar cautelosamente com o governo provisório e a embaixada americana no Irã permaneceu em funcionamento.
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HOJE PODE PARECER ESTRANHO pensar que o Irã e os Estados Unidos foram aliados no passado, mas tudo precisa ser entendido em termos do Grande Jogo disputado entre os Estados Unidos e a União Soviética.
Nos primeiros tempos, os Estados Unidos pareciam se contentar em observar o Irã a distância. Então conhecido como Pérsia (só viria a receber o nome Irã em 1935), o país era como o nó no centro de um jogo de cabo de guerra entre a Rússia e a Grã-Bretanha — um papel que desempenhava com grande habilidade, lançando uma nação contra a outra. Veio a Segunda Guerra Mundial e a geopolítica da região foi alterada. De repente, Moscou e Londres tornaram-se aliados, e, em sua tentativa de proteger o petróleo e as vias de transporte terrestre para a Rússia, as duas potências resolveram ocupar o país conjuntamente. Preocupados com o fato de que o monarca iraniano, o xá Reza, tendia a fazer uma aliança com a Alemanha nazista, os dois países provocaram sua deposição e instalaram no trono seu filho Mohammad Reza Pahlavi, de 21 anos.
Após a guerra, os Estados Unidos fizeram grandes investimentos no Irã, tanto econômicos quanto militares. Stalin relutara em recuar do norte do Irã em 1946, e o pensamento em Washington era de que ele usaria o menor pretexto para voltar a invadir. Igualmente preocupante era a possibilidade de os soviéticos minarem o governo do xá por meios clandestinos. O partido comunista no Irã, o Tudeh, ganhava poder e apoiava abertamente os objetivos de Moscou.
Assim, foi com um sobressalto que os Estados Unidos viram, em 1951, o xá ser lentamente despojado do poder por um advogado iraniano chamado Mohammed Mossadegh. Mossadegh ganhara proeminência graças a uma campanha para nacionalizar a Companhia de Petróleo Anglo-Iraniana (Anglo-Iranian Oil Company, AIOC), um gesto popular entre os iranianos, que havia muito se sentiam explorados pelos britânicos. Apanhado em meio a uma onda de nacionalismo, Mossadegh tornou-se um herói e acabou sendo nomeado primeiro-ministro.
Como seria de se esperar, em resposta à tentativa de nacionalizar a AIOC, os britânicos logo instigaram o que veio a ser um boicote ao petróleo iraniano, jogando a economia local numa espiral descendente. No turbilhão que se seguiu, a coalizão que apoiara Mossadegh começou a se fragmentar.
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NINGUÉM EM WASHINGTON ACREDITAVA que Mossadegh era comunista, mas a preocupação começou a aumentar quando ele se alinhou com o Tudeh. Para a administração Eisenhower, a gota-d’água veio quando a inteligência descobriu que os soviéticos estavam prestes a
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enviar vinte milhões de dólares para ajudá-lo.
À luz dessas ameaças, a Casa Branca ordenou ao diretor da CIA, Allen Dulles, que trabalhasse com os britânicos para derrubar Mossadegh.
Hoje, olhando para trás, é fácil dizer que houve exagero na reação da administração Eisenhower. No entanto, no calor da Guerra Fria, os líderes americanos viam um mundo diferente daquele que existe hoje. Nele, os soviéticos estavam em marcha por toda parte, instalando regimes fantoches na Europa Oriental, apoiando levantes na Itália, na França e na Grécia. Também é importante lembrar que, na época, os Estados Unidos estavam envolvidos numa guerra sangrenta na Coreia, que Eisenhower herdara de Truman. O Irã poderia facilmente se tornar mais uma frente de batalha.
Na primavera de 1953, Kermit “Kim” Roosevelt, chefe da Divisão do Oriente Próximo do Diretório de Planejamento da CIA, recebeu a verba de um milhão de dólares e a tarefa de executar a operação de derrubada de Mossadegh, conhecida como TPAJAX, ou Operação AJAX.
O plano exigia o uso de propaganda e ação política para debilitar a base de apoio ao líder, mas, como de hábito, as coisas não correram conforme o plano. Mossadegh fora avisado do contragolpe e ordenou a prisão de alguns dos golpistas mesmo antes de a operação ser acionada. No entanto, com a ajuda de imensas manifestações públicas, muitas organizadas por Roosevelt, Mossadegh foi forçado a renunciar e o xá, reconduzido ao poder.
Em termos de estratégia de contenção na Guerra Fria, Washington considerou a operação um fantástico sucesso de política externa, e Kermit Roosevelt foi saudado como herói. Ficou famosa a frase
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do xá, durante um encontro entre os dois: “Devo meu trono a Deus, ao povo, ao exército — e a você!”
Na esteira da operação, o xá rapidamente estabeleceu um acordo com a gigante petrolífera AIOC, e o Irã tornou-se um estável aliado pró-Ocidente, fornecendo aos Estados Unidos um fluxo constante de petróleo, bem como uma série de postos ao longo da fronteira com a União Soviética, o que permitia a escuta clandestina dos testes balísticos de mísseis russos intercontinentais.
A despeito dessas vantagens estratégicas, porém, não há como negar que o contragolpe de 1953 teve sérias consequências para as relações de longo prazo entre os Estados Unidos e o Irã.
Muitos oponentes da Operação AJAX culparam os Estados Unidos por agirem de forma egoísta para proteger seus próprios interesses, em detrimento do Irã e de seu povo. De forma irônica, como mostram os registros históricos, o contragolpe não teria tido êxito se não fosse pelo apoio de uma facção numerosa de iranianos que também tinham muito a ganhar assegurando o poder do xá. Todavia, o mito popular entre os iranianos em 1979, sempre desconfiados de intervenções estrangeiras, era de que a CIA havia deposto por conta própria um líder democrático, impondo um tirano em seu lugar. Embora não fosse inteiramente preciso, era um quadro em que muitos iranianos estavam ávidos por acreditar.
Depois de retornar ao poder, o xá se alinhou com o Ocidente e imediatamente se dedicou a tentar legitimar seu reinado. Empreendeu uma série de reformas ocidentalizantes e fez pródigos gastos para criar um exército moderno e bem treinado. Ambos os esforços o colocaram em conflito com o povo, que mais tarde viria a alegar que ele destruíra seu modo de vida tradicional enquanto desperdiçava a riqueza da nação numa tentativa de agradar a Washington.
Com o passar do tempo, ele foi se tornando cada vez mais autocrático, reprimindo qualquer forma de oposição com o auxílio de sua brutal polícia secreta, conhecida pela sigla SAVAK.
Porém, como tendia a acontecer durante o Grande Jogo, sucessivas administrações americanas decidiram engolir o bom junto com o ruim, apoiando publicamente o regime do xá, ainda que por baixo dos panos o encorajassem a eliminar a corrupção sistêmica de seu regime e a tolher os abusos da SAVAK.
O xá não parecia nem disposto nem capaz de fazer nenhuma das duas coisas.
Com a supressão da maioria das vias de dissidência política, as massas voltaram-se para os mulás em busca de apoio, e os religiosos usaram seu recém-descoberto poder para denunciar o xá como instrumento do Ocidente. O mais exaltado desses críticos chamava-se Ruhollah Khomeini. Nascido em 1902, Khomeini fizera seu nome em meio à comunidade religiosa do Irã redigindo e publicando muitos panfletos contra a liderança secular iraniana, incluindo o pai do xá, Reza. Então, em 1961, ele passou a atacar o xá diretamente, censurando sua política pró-Ocidente — especificamente as que concediam direitos civis às mulheres e aos não muçulmanos — como sendo antíteses do verdadeiro espírito do Islã. No entanto, sem o conhecimento sequer de seus próprios seguidores, que acreditavam que ele apoiaria uma democracia islâmica moderada após a abdicação do xá, a verdadeira meta de Khomeini era criar um governo que fosse estritamente apegado à lei islâmica e regido inquestionavelmente por ele.
Poderoso demais para ser preso ou morto, Khomeini foi exilado pelo xá, em 1964, na Turquia, seguindo depois para Najaf, no sul do Iraque. Dali, o religioso provaria ser um operador político engenhoso. Nos catorze anos seguintes, continuaria a fazer sermões denunciando os malefícios do xá e dos Estados Unidos, que eram contrabandeados de volta para o Irã e vendidos em bazares em fitas cassete.
No outono de 1978, o país estava à beira do colapso. Uma sucessão de greves e tumultos havia provocado violentos choques entre as forças de segurança do xá e os correligionários de Khomeini. Depois que uma série de medidas desesperadas — inclusive um governo militar — fracassou em conter a maré, o xá finalmente foi obrigado a deixar o Irã em 16 de janeiro de 1979. Em sua trilha, ele deixou um país oscilando à beira do abismo, e levaria apenas dez dias para o que restava de seu governo e do exército se desintegrar.
Mesmo com todos os sinais de que o regime do xá estava à beira de sucumbir, a rapidez com que isso aconteceu pegou de surpresa a Casa Branca, bem como toda a comunidade de inteligência. Ainda em agosto de 1978, um Relatório da Inteligência Nacional ficou famoso por informar que o Irã não estava em “situação revolucionária, nem mesmo pré-revolucionária”. Não há uma resposta fácil que explique como nós, da CIA e da Casa Branca, podíamos estar tão fora de contato com a realidade. O xá mantivera o país sob mão de ferro por quase 25 anos, e o senso comum dizia que, apesar de todas as inquietações, ele superaria a tormenta. Depois do fato consumado, revelou-se que muitas pessoas em Washington tinham presumido que o xá empregaria todos os recursos necessários para salvar seu regime e ficaram perplexas quando ele não o fez. Mesmo o embaixador americano no Irã naquela
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época, Bill Sullivan, acreditava que o governo do xá sobreviveria;quando ele mudou de atitude, em 9 de novembro de 1978, pouco havia a se fazer. Durante os embates de 1978, não houve estratégia clara de encontros com os grupos de oposição, em parte por medo de que isso pudesse enfraquecer o regime do xá. No final, porém, talvez a maior razão para o fracasso da inteligência foi que o governo dos Estados Unidos dera importância demais à pessoa do xá e não levara em conta o povo do Irã. Assim, quando as rachaduras do regime começaram a aparecer, os estrategistas em Washington recusaram-se a admiti-las, porque simplesmente não dispunham de uma alternativa além do apoio ao xá.
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Ironicamente, dizia-se que o xá tinha ficado um tanto nervoso com a eleição de Jimmy Carter.Sua preocupação principal, ao que parece, era a declarada meta de Carter de fazer dos direitos humanos um tema central de sua presidência. Sensível à opinião pública, o xá aparentemente temia que Carter pudesse pensar que ele era um tirano. Não precisava ter se preocupado. Até a véspera do Ano-Novo de 1978, apenas uma semana antes de uma série de choques violentos que culminariam na revolução, o presidente Carter visitou Teerã e reassegurou ao xá o firme compromisso norte-americano de
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considerar o Irã uma “ilha de estabilidade em uma das áreas mais atribuladas do mundo”.Carter podia ter bons motivos para apoiar o xá, ou não ter alternativa, dada a aliança estratégica criada devido às necessidades da Guerra Fria, mas essa óbvia hipocrisia não passou despercebida às massas no Irã. O presidente dos Estados Unidos era agora considerado amigo íntimo do xá, e não demorou muito para que as multidões de manifestantes raivosos começassem a denunciar o nome de Carter junto com o do xá.
Apesar da retórica iraniana, parecia haver algumas afinidades entre os dois países. O xá, por um lado, comprou enormes quantidades de equipamentos militares americanos durante as administrações Nixon e Ford, e parte deles ainda precisava ser entregue. Além disso, o Irã tinha alguns bilhões de dólares depositados em bancos americanos, dinheiro de que o governo revolucionário necessitava desesperadamente para se manter à tona. Durante o outono de 1979, Khomeini ainda precisava consolidar seu poder, e o país era conduzido de forma frouxa pelo governo relativamente “moderado” do primeiro-ministro Mehdi Bazargan. Em junho de 1979, os iranianos aceitaram a indicação de Bruce Laingen como encarregado de negócios da embaixada dos Estados Unidos, e parecia que os dois países estavam a caminho de normalizar suas relações.
Ao deixar o Irã, o xá passou vários meses como “fugitivo” internacional, até que o presidente Carter foi persuadido a receber o governante deposto por razões humanitárias, quando se descobriu que ele sofria de um linfoma e necessitava de tratamento médico emergencial. Ainda assim, ao acolhê-lo, Carter sabia que assumia um risco. Khomeini vinha exigindo o retorno do xá para responder por seus “crimes”, e Carter estava preocupado com represálias. Numa reunião de café da manhã com sua equipe na Casa Branca, o presidente reiterou suas preocupações, perguntando: “Que curso de ação vocês me
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recomendam caso os americanos no Irã sejam capturados ou mortos?” Ninguém tinha resposta.
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A NOTÍCIA DA CHEGADA do xá aos Estados Unidos detonou imediatamente uma onda de ira e paranoia entre a população iraniana, que temia uma conspiração para sua volta ao poder. Durante meses, os jornais fabricaram histórias que diziam que os Estados Unidos estavam por trás de cada revés sofrido pelo país. Khomeini, em busca de um meio de fortalecer seu controle, acrescentou combustível às chamas, conclamando os estudantes a intensificar os ataques aos Estados Unidos para pressionar o país a devolver o governante deposto. Como era de se prever, os iranianos focaram o alvo mais óbvio: a embaixada americana em Teerã.
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A MANHÃ DE 4 DE novembro de 1979 começou igual às outras, e, para os americanos a caminho do trabalho, não havia motivos para desconfiar que a embaixada estivesse à beira de sofrer um grande ataque. Bruce Laingen havia presidido uma reunião dos chefes de departamento, após a qual, junto com Vic Tomseth e Mike Howland, ele se dirigira ao Ministério do Exterior iraniano para discutir a obtenção de imunidade diplomática para militares americanos alocados no Irã.
John Graves, encarregado de assuntos públicos, foi um dos primeiros a verem os militantes penetrando no complexo. Graves estava no Irã havia mais de um ano e passara pelo ataque do Dia dos Namorados.
A assessoria de imprensa ficava localizada bem ao lado da bomba da piscina, junto ao portão. Alguém cortara a corrente do portão, e uma turba de manifestantes invadiu. A maioria era de mulheres com cartazes em que se lia NÃO TENHAM MEDO e SÓ QUEREMOS ENTRAR — com pequenos erros de inglês. A preponderância feminina na primeira leva foi, na verdade, planejada, pois os militantes sentiam que os fuzileiros americanos hesitariam em abrir fogo contra mulheres. Parado junto à janela, Graves viu um dos militantes se aproximar de um policial iraniano que supostamente deveria
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proteger a embaixada. Os dois se abraçaram. Graves não ficou surpreso.
Enquanto os manifestantes se dispersavam pelo complexo, os demais funcionários da embaixada demoraram a reagir. Multidões berrando “Morte aos Estados Unidos” e “Abaixo o xá” haviam se tornado uma ocorrência quase diária, tanto que os americanos que trabalhavam dentro da embaixada se referiam àquilo como ruído de fundo. Para complicar, os militantes tinham escolhido lançar o ataque no Dia Nacional dos Estudantes, evento que recordava a morte de um grupo de estudantes pelas
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forças do xá durante uma manifestação na Universidade de Teerã no ano anterior. A celebração atraíra vários milhões de universitários, e os planejadores puderam utilizar a enorme multidão para camuflar o ataque.
Em questão de minutos, a chancelaria ficou completamente isolada. Funcionários e diplomatas, agora plenamente cônscios do que se passava, subiam em cadeiras para espiar pelas janelas. Alguns se aglomeraram em torno de monitores de circuito fechado localizados na sala de segurança. O que viram os deixou estarrecidos. O terreno da embaixada estava pululando de militantes carregando cartazes e cantando “Só queremos entrar!”. Então, um a um, os monitores de circuito fechado foram saindo do ar à medida que as câmeras eram arrancadas das paredes.
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A MAIOR PARTE DOS funcionários da embaixada ficou calma, e alguns até se irritaram. Parecia que os estudantes estavam apenas desfilando, entoando palavras de ordem e gritando até que fosse hora
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de ir para casa. Repetidamente erguiam-se vozes acima do rumor geral — algumas com auxílio de megafones — berrando: “Não queremos lhes fazer mal! Só queremos entrar!”
Sem que os americanos soubessem, não se tratava de mais um protesto e, sim, de uma invasão muito bem coordenada. Autodenominando-se Estudantes Muçulmanos Seguidores da Linha do Imã, os militantes observaram a embaixada por muitos dias e desenharam mapas detalhados. Tinham cortado tiras de pano para usar como vendas em quase cem reféns e haviam até armazenado víveres para alimentar os cativos.
O plano era ocupar a embaixada por três dias, quando leriam uma lista de acusações contra o xá e os Estados Unidos. Sua principal esperança era que o ataque enfraquecesse a posição do governo
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moderado de Bazargan ao forçá-lo a enfrentar uma situação difícil. Se Bazargan socorresse os
americanos, os iranianos veriam que ele e os outros moderados não passavam de fantoches do Ocidente.
Alguns militantes portavam armas improvisadas, tais como correias de bicicleta, tábuas e até martelos. E uns poucos traziam pistolas, contradizendo alegações posteriores de que a invasão fora completamente não violenta.
Depois de trancar a chancelaria, os fuzileiros logo se prepararam para enfrentar o tumulto. Carregaram as pistolas e metralhadoras e assumiram posições por toda a embaixada. A adrenalina corria solta, e alguns pareciam ávidos por uma briga. Um deles se deitou de bruços num dos escritórios, com munição ao seu alcance, fazendo mira com o cano da arma como um atirador de elite
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enquanto esquadrinhava a janela.
Nesse meio-tempo, Laingen, Tomseth e Howland estavam num carro, voltando da reunião no Ministério do Exterior. Tinham acabado de entrar no trânsito quando Al Golacinski os chamou pelo rádio e lhes disse para dar meia-volta. “Centenas de pessoas tomaram conta da área da embaixada”, avisou. Os três se deram conta de que, mesmo que chegassem ao local, provavelmente não conseguiriam entrar. Decidiram que o melhor seria retornar ao Ministério do Exterior e tentar organizar o socorro dali.
A última coisa que Laingen disse a Golacinski antes de desligar foi para que ele garantisse que os
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fuzileiros não abririam fogo. Se apenas um deles disparasse, provavelmente aconteceria um banho de
sangue.
— E gás lacrimogêneo? — indagou Golacinski.
— Só em último caso — foi a resposta de Laingen.
A essa altura, os funcionários do segundo andar da chancelaria começaram a perceber que o ataque era mais sério do que pensavam. Alguns fuzileiros e outras pessoas, como John Graves, que trabalhavam nos prédios mais periféricos, já haviam sido capturados, e os americanos na chancelaria viram das janelas do segundo andar seus colegas serem vendados, terem as mãos amarradas e serem conduzidos em seguida rumo à residência do embaixador, nos fundos do complexo.
Don Hohman, um paramédico militar que estava nos apartamentos Bijon na rua diante do portão
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dos fundos, contatou Golacinski pelo rádio dizendo que um grupo de iranianos também havia
entrado ali. No quarto andar, onde se encontrava, ele os ouvia chutando as portas e vasculhando as unidades abaixo: Golacinski percebeu que pouco havia a fazer; disse a Hohman que ele estava por sua própria conta. (Hohman mais tarde seria capturado ao descer pela parede externa do edifício.)
Nesse momento, Golacinski tinha problemas maiores que os de Hohman; chegara aos seus ouvidos pelo rádio que a chancelaria acabara de ser invadida. Apesar de recentemente terem sido despendidos vários milhões de dólares para fortificar o prédio, os militantes encontraram o único ponto fraco da
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estrutura: uma janela do porão que ficou sem grades para servir de saída de incêndio. Na verdade,
os intrusos pareciam saber exatamente onde ela estava.
Com os militantes no porão, Golacinski ordenou a todos, inclusive aos funcionários iranianos que aguardavam no primeiro piso, que subissem para o segundo andar. (O segundo andar era, em geral, inacessível aos funcionários locais.) Num rasgo de bravura ou de estupidez, dependendo de como se olha, Golacinski perguntou, então, a Laingen pelo rádio se ele podia sair para “argumentar” com a
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multidão, que agora já perfazia bem mais de mil pessoas. Laingen respondeu que só fizesse isso se
pudesse garantir sua própria segurança, o que não era possível. Golacinski foi mesmo assim, e logo foi capturado e obrigado a marchar de volta para a chancelaria sob a mira de armas.
No segundo andar, fuzileiros e funcionários começaram a empilhar móveis por trás da porta de aço. O corredor central estava atulhado de gente, todos trocando olhares preocupados. Alguns dos iranianos começaram a chorar. Os fuzileiros andavam por toda parte entregando máscaras antigás. Outros examinavam e reexaminavam a mira de suas armas. O clima era tenso.
Em outra parte do edifício, um pequeno grupo de americanos ocupava-se em destruir documentos e desmontar equipamentos usados em comunicações reservadas para evitar que caíssem nas mãos dos
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militantes. Laingen demorou a dar essa ordem, pois esperava que a manifestação terminasse sem
incidentes. Alguns membros da equipe com mais iniciativa já tinham começado a destruir documentos dentro da sala de comunicações da embaixada, de segurança máxima, conhecida como “cofre” porque podia ser fechada por fora por uma porta de aço semelhante à de um cofre. Além de abrigar o equipamento de comunicação, o cofre, com cerca de dezesseis metros quadrados, também continha um
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dispositivo especial usado para pulverizar documentos. No entanto, a máquina muitas vezes dava
problema, e por isso alguém trouxera um picador comercial, que cortava os papéis em longas tiras. Mas o progresso era lento, e, em vez de destruir os documentos completamente, ele deixava uma pilha de tiras de papel no chão.
A situação deteriorava-se rapidamente. Os militantes levaram Al Golacinski para o porão da chancelaria e o conduziram em seguida até o segundo andar, onde os americanos tinham feito barricadas por trás da porta reforçada. As escadas estavam se enchendo de gás lacrimogêneo, e os olhos ardiam. Alguém agitou uma revista em chamas diante do seu rosto, e ele se encolheu
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apavorado. “Não me queime!”, berrou. Então, um cano de arma foi encostado em sua nuca e lhe
deram um ultimato: diga-lhes para abrir a porta ou você morre.
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Golacinski berrou através da porta metálica, dizendo aos colegas que não adiantava resistir. Informou que os militantes já tinham capturado oito americanos (era sua própria avaliação) e que apenas queriam ler uma declaração e depois partir. “É igualzinho a 14 de fevereiro”, disse.
John Limbert, um adido político que falava parse com fluência, apresentou-se como voluntário para
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sair e ver se conseguia persuadi-los a libertar Golacinski. De início, os militantes ficaram surpresos
de ele os censurar como crianças em seu próprio idioma, dizendo-lhes que a Guarda Revolucionária estava a caminho para botá-los para fora. Sabiam que estava blefando, e numa questão de minutos ele foi capturado e recebeu a mesma opção que Golacinski: faça seus amigos abrirem a porta ou atiramos em você.
Laingen, a essa altura, já tinha percebido que era inútil resistir. Apesar de todos os seus esforços junto ao Ministério do Exterior iraniano, ele e Tomseth não conseguiram obter auxílio do governo. Pelo telefone da sala do ministro, ele ligou para a embaixada dos Estados Unidos e disse a Ann Swift, adida política sênior da embaixada, para se renderem. Swift e outros dois funcionários cuidavam de uma central telefônica na antessala de Bruce Laingen. Como funcionária mais graduada presente na embaixada, ela fazia o que podia para manter abertas as linhas de comunicação. No começo da invasão, telefonara para o Centro de Operações no Departamento de Estado dos Estados Unidos e a puseram em contato com três funcionários de escalão superior, entre eles Hal Saunders, secretário de Estado assistente para Assuntos do Oriente Próximo e Ásia Meridional. Saunders ainda estava ao telefone com Swift uma hora depois, quando Laingen declarou que era hora de desistir. “Nós vamos deixá-los entrar”, disse ela a Saunders pelo telefone.
Ao perceber a seriedade da situação, Saunders transmitiu a informação ao conselheiro de Segurança Nacional do presidente Carter, Zbigniew Brzezinski, que por sua vez ligou para o presidente
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às quatro da madrugada. Carter ficou “profundamente perturbado mas razoavelmente confiante” de
que o governo iraniano removeria os militantes com rapidez, assim como acontecera em 14 de fevereiro.
Após a rendição, os americanos na chancelaria resignaram-se. Quando a porta de aço foi finalmente aberta, a turba ofegante inundou a sala. Os funcionários no interior do cofre aguentaram ainda mais de uma hora destruindo documentos, mas por fim também foram obrigados a se entregar.
O plano de segurança original requisitava que os funcionários da embaixada resistissem por duas horas até que o governo iraniano pudesse enviar socorro. Como se viu, o plano funcionou com perfeição. O único problema, é claro, foi que o socorro nunca chegou.
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A NOTÍCIA DO ATAQUE à embaixada me alcançou num domingo de manhã, quando eu estava na bancada da cozinha tomando a primeira xícara de café. Era a minha parte favorita do fim de semana — a família ainda adormecida; a casa em silêncio. Eu tinha um rádio de pilha ligado na NPR e não prestava muita atenção à transmissão enquanto passava os olhos pelo jornal de domingo. Lá fora, uma leve camada de neve cobria o chão, e o céu estava cinzento e frio. Eu pensava em quanta lenha precisaria cortar antes de poder me dedicar à pintura no ateliê. Tínhamos uma grande estufa anexa à frente da casa, e eu estava prestes a entrar nela para observar a neve quando a transmissão da NPR foi interrompida pela notícia do ataque.
Os acontecimentos ainda se desenrolavam, mas o quadro geral era claro. Uma multidão invadira a embaixada e as vidas de aproximadamente 70 diplomatas americanos corriam perigo.
Minha mente voou de volta para abril de 1979, a última vez em que eu pusera os pés dentro da embaixada americana em Teerã. Como eu era um agente especializado do Escritório de Serviços Técnicos da CIA, com mais de catorze anos de experiência naquela época, haviam me pedido que me infiltrasse no Irã em meio à revolução para ajudar a resgatar um blue striper, ou melhor, um agente iraniano de primeiro escalão, cujo codinome era RAPTOR. Como chefe do setor de disfarces, fui encarregado de bolar uma fachada convincente que permitisse ao agente, um ex-coronel do exército iraniano, passar pelos controles de segurança do Aeroporto de Mehrabad e pegar um voo comercial.
A operação era semelhante a incontáveis outras que eu fizera no Sudeste Asiático e em outras partes distantes do mundo, mas estava longe de ser rotineira. A violência explodira por todo o país, e os revolucionários estavam à caça de antigos membros do regime do xá. O tempo se esgotava para o coronel. Ele tinha passado o inverno escondido no sótão de sua avó, com a neve gotejando sobre ele enquanto um grupo de guardas revolucionários vasculhava com rifles o apartamento abaixo. Quando o encontrei, ele estava terrivelmente abalado.
Eu usara a biblioteca da embaixada para fazer parte da minha pesquisa para o seu disfarce. Depois, passei a maior parte da semana preparando-o, treinando-o, empregando todos os truques que havia aprendido no decorrer da minha carreira para tirá-lo do país com vida.
Após escutar as notícias por alguns minutos, fui na ponta dos pés até o quarto e, em silêncio, peguei as chaves do carro e meu distintivo da Agência. Parei na cozinha para rabiscar um bilhete para Karen, explicando aonde tinha ido; depois peguei o telefone e liguei para o plantonista da minha seção. Nos fins de semana, era função dele monitorar todo o fluxo de mensagens e informar se minha presença era necessária. Os detalhes do ataque ainda não estavam claros, mas novas informações de Teerã chegavam a cada minuto. Todos nós da CIA estávamos cientes dos perigos enfrentados pelo pessoal da embaixada num lugar imprevisível como o Irã revolucionário. Entre eles, havia três colegas meus da CIA, que, sem dúvida, seriam escolhidos para o tratamento especial se os iranianos conseguissem identificá-los. Eu só esperava que os funcionários tivessem tido tempo suficiente de destruir todos os documentos mais delicados dentro da embaixada. Quando finalmente alcancei o plantonista, ele só confirmou aquilo de que eu já desconfiava. As coisas estavam movimentadas no escritório. Era hora de ir para o trabalho.