Argo

Antonio Mendez e Matt Baglio · Capítulo 4 de 17

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3. Diplomacia

Oriente Próximo, Chuck Cogan, seu segundo em comando, Eric Neff, e todos os chefes de setores para 3 nos organizar e avaliar as opções dos Estados Unidos. A partir dessas reuniões, estabeleceu-se uma divisão de tarefas. Numa situação de crise como essa, um país tem quatro opções: diplomacia oficial, ou melhor, tentar relacionar-se com o governo do Irã revolucionário; ataque militar; diplomacia secreta; ou ação clandestina.

Desde o começo, a administração Carter deparou-se com uma série de desafios. Quando Khomeini e o Conselho Revolucionário deram seu apoio à ocupação, não havia basicamente ninguém com quem o governo americano pudesse negociar. Carter tentou enviar dois emissários, mas Khomeini não permitiu sequer que entrassem no país. Com a diplomacia oficial fora de jogo, Carter voltou-se, então, aos estrategistas militares, que lhe deram uma avaliação igualmente desoladora. Se os Estados Unidos desfechassem um ataque de retaliação, os iranianos poderiam executar os reféns. A probabilidade de um resgate também parecia remota. Do ponto de vista geográfico, o Irã era extremamente isolado, e o complexo da embaixada americana encontrava-se no coração da capital. Parecia não haver como fazer os participantes da ação de resgate entrarem e saírem sem que os iranianos soubessem.

A essa altura, o presidente optou por uma estratégia dupla: intensificar a pressão diplomática, ao mesmo tempo dando sinal verde aos militares para elaborar um plano de contingência para um resgate. Os Estados Unidos não entregariam o xá em nenhuma hipótese.

Mantendo a primeira parte de sua estratégia, em 9 de novembro o presidente bloqueou todos os embarques de materiais militares e peças sobressalentes para o Irã. Depois, em 12 de novembro, cortou

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a importação americana de petróleo do país (cerca de 700 mil barris diários).E, em 14 de novembro, quando correu a informação de que os iranianos estavam tentando retirar os quase doze bilhões de dólares depositados pelo xá em bancos americanos, Carter assinou um ato executivo congelando o dinheiro.

O efeito dessas medidas foi mínimo. O Irã, de sua parte, intensificou a guerra verbal e exigiu o retorno do “criminoso” xá e seus pertences, com a advertência de que qualquer tentativa de resgate provocaria a execução dos reféns e a explosão da embaixada. Num discurso proferido diante de uma ruidosa multidão de correligionários, Khomeini espicaçou Carter, dizendo: “Por que haveríamos de ter

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medo? (...) Carter não tem coragem de se envolver numa ação militar.”E, se chegasse a esse ponto, Khomeini declarava que toda a nação iraniana estava pronta para morrer como mártires.

Um dos maiores problemas que Carter em breve teria de enfrentar era o fato de que as manobras diplomáticas normais — pressão internacional, ameaça de ser rotulado como país fora da lei e assim por diante — não surtiam efeito sobre o Irã. Para Khomeini, um profeta à moda medieval convencido de que seu sonho de uma República Islâmica tinha inspiração divina, nenhum sacrifício era grande demais para atingir sua meta, nem mesmo macular a posição internacional de seu país. Confrontados com uma perspectiva tão fatalista, os diplomatas de carreira em Washington logo se sentiram perdidos. Era quase como lidar com seres alienígenas.

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É COMPREENSÍVEL QUE, À medida que os dias se passavam e o impasse continuava, não tenha demorado muito para que o público começasse a duvidar da determinação do presidente. E, enquanto a administração Carter agia com cautela, protestos e violência contra iranianos começaram a eclodir por todo o país. Num exemplo surreal, Hamilton Jordan, chefe de gabinete do presidente Carter, lembra-se de ter passado de carro por uma manifestação diante da embaixada iraniana em Washington, onde policiais continham uma multidão furiosa. Era a ironia das ironias. Os Estados Unidos protegiam diplomatas iranianos, enquanto seus colegas americanos no Irã permaneciam em cativeiro e sofriam agressões.

Como o presidente podia ficar parado sem fazer nada enquanto 66 cidadãos corriam perigo? Não faltaram críticas, inclusive dos inimigos políticos de Carter, que aproveitaram a ocasião para ganhar pontos desacreditando-o como fraco e ineficaz.

A cobertura dos noticiários sobre a crise era implacável. Desde o primeiro dia, armou-se um verdadeiro circo, com centenas de jornalistas de todo o mundo chegando à embaixada americana em Teerã para apontar câmeras e pontificar nos noticiários noturnos. Está claro que no início os militantes viam os jornalistas como aliados, contando com eles para transmitir sua mensagem às salas de estar dos americanos. Isso, logicamente, levou a uma situação esquisita, na qual jornalistas americanos vagavam livremente pela cidade ao mesmo tempo que 66 compatriotas eram mantidos reféns. A maioria dos âncoras dos telejornais montava a cena para suas transmissões noturnas bem na frente dos portões da embaixada, enquanto nas proximidades multidões entoavam: “Morte aos Estados Unidos” e “Abaixo Carter”.

Um dos motivos para essa frenética cobertura era a natureza altamente personalizada da crise. Os reféns vinham de diferentes partes do país e tinham família e amigos que podiam ser entrevistados. Tudo isso contribuiu para que os noticiários locais pudessem ter algum peso em uma história nacional. Uma emissora local de Ohio conseguiu, de alguma maneira, ligar para a embaixada e falar com um

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dos militantes, que se identificou como “Sr. X”.Em outra estação de rádio no Meio-Oeste, o gerente da emissora passou uma parte do dia amarrado a uma cadeira no estúdio para comunicar melhor aos

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ouvintes qual era a sensação de estar em cativeiro.

Os familiares dos reféns eram convidados frequentes em talk shows e programas de rádio. E, a cada aparição, a câmara de eco reverberava. Carter era criticado por não ser suficientemente arrojado e por deixar que o xá entrasse no país. Um de seus críticos mais eloquentes era Dorothea Morefield, esposa de Dick Morefield, cônsul-geral da embaixada. Repetidamente, ela criticava Carter por não ter evacuado a embaixada antes de permitir que o xá viesse a Nova York.

Num dado momento, Mike Wallace, de 60 Minutes, conseguiu uma entrevista com Khomeini. As perguntas deviam ser apresentadas de antemão, e, quando Wallace tentou fugir do roteiro, o imã recusou-se a responder. Ao longo de toda a entrevista, Wallace foi extremamente — quase

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excessivamente — respeitoso com Khomeini, o que irritou a administração Carter.

A situação dos reféns no Irã também foi tema central do programa de Ted Koppel na ABC, Nightline, que começou quatro dias após o cerco da embaixada e continuou sua cobertura ao longo de toda a crise, e muito além.

Num acesso de frustração, Carter disse um dia ao seu assessor de imprensa que estava cansado de

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ver “aqueles filhos da puta que estão retendo nossa gente citados como ‘estudantes’. Deviam referir-se a eles como ‘terroristas’ ou ‘captores’, ou algo que descreva precisamente o que são”.

Os militantes, de sua parte, logo revelaram seus talentos para manipular a mídia, ávida por ganhar acesso aos reféns e disposta a tolerar quase tudo para obter uma reportagem exclusiva. Eles organizaram eventos encenados, entregaram “confissões” assinadas e selecionaram os reféns mais maleáveis para dar falsos depoimentos sobre as condições do cativeiro. Trinta e três reféns foram obrigados a assinar uma petição solicitando o retorno do xá. Quanto mais atenção recebiam, mais ousados os militantes se sentiam.

Uma das primeiras estratégias de Carter foi incentivar intermediários externos com ligações ou acesso a Khomeini a procurar resolver a crise. O papa João Paulo II mandou um emissário a Qom só para ouvir um discurso de Khomeini sobre as maldades do xá e a hipocrisia da Igreja Católica em relação a seu regime. Relata-se que o imã teria dito ao emissário que, se Jesus estivesse vivo, ele gostaria

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que Carter fosse destituído.

Em 19 de dezembro, a NBC levou ao ar uma entrevista com o sargento dos fuzileiros Billy Gallegos, a primeira exclusiva com um refém. As condições dadas pelos militantes, porém, estipulavam que Nilufar Ebtekar, porta-voz dos militantes, também conhecida como “Maria de Teerã”, tivesse permissão de ler uma declaração não editada antes e depois da entrevista. Nela, Ebtekar se dedicava a dar uma aula ao povo americano sobre as maldades do xá e os velhos pecados da agenda imperialista americana, após o que um Gallegos de olhar vazio entrou no ar para exigir que a administração Carter entregasse o xá.

Naturalmente, a população americana respondeu a tais demonstrações com raiva e frustração, o que desconcertou os militantes.

De início, estavam convencidos de que suas ações fariam com que os “oprimidos” nos Estados

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Unidos, isto é, negros e outras minorias, se erguessem e derrubassem o governo.Em uma ocasião, os militantes compraram um anúncio de meia página no New York Times conclamando as minorias à revolta. Quando a revolução não aconteceu, presumiram que a causa era a censura à mídia. Por exemplo, quando a NBC transmitiu a entrevista de Gallegos, o produtor mencionou a Ebtekar que, por motivos de restrições de tempo, seriam obrigados a editar o segmento, o que ela presumiu significar que

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o governo americano havia ordenado à NBC que censurasse a entrevista.Tendo crescido no Irã, ela não concebia uma imprensa que não fosse controlada pelo Estado.

Quando veio à tona a realidade de que, na verdade, os americanos desprezavam os militantes por sequestrarem e torturarem seus conterrâneos, eles ficaram chocados e aborrecidos. Para alguns dos reféns que interagiam com eles diariamente, isso se ajustava perfeitamente à sua visão de mundo distorcida. Como atores num filme de Hollywood, os militantes se viam como heróis e esperavam que o mundo inteiro os visse assim.

* * *

POR OCASIÃO DA TOMADA da embaixada, os militantes pareciam quase tão chocados quanto os americanos com o sucesso do plano. Eles não tinham muita ideia de como uma embaixada funcionava ou o que faziam seus funcionários. Nas suas cabeças, o único propósito de uma embaixada era espionagem. Numa entrevista coletiva, ergueram um ditafone alegando ser um tipo de aparelho de espionagem — o que foi recebido com uma gargalhada por nós na CIA.

Eles pareciam ávidos por acreditar em qualquer teoria conspiratória, não importando quão

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absurda. Assim, qualquer nome encontrado numa caderneta de endereços era considerado um

conspirador. Alguns adidos políticos com muitos contatos no país ficaram aterrorizados pela possibilidade de os militantes saírem à caça de algum representante de um governo local e simplesmente o matarem por ter se encontrado com um diplomata americano. Os estudantes pareciam não captar todo o propósito das relações diplomáticas.

Na realidade, havia apenas três funcionários da CIA na embaixada quando ela foi tomada. Mas até mesmo seu envolvimento era nominal. A revolução cortara a maioria dos laços que tínhamos com antigos agentes, e esses funcionários — sendo que dois deles estavam no país havia menos de três meses antes da ocupação da embaixada — passaram a maior parte do tempo montando sua fachada e travando conhecimento com as características do Irã e do seu governo. Na cabeça dos estudantes, porém, todos na embaixada estavam, de algum modo, ligados à CIA, e eles se empenharam em provar sua teoria, de forma diligente e rancorosa.

Relativamente no começo do confinamento, os reféns foram submetidos a surras, privação de sono e longos e dolorosos períodos amarrados, além de serem com frequência obrigados a permanecer em posições incômodas e desconfortáveis. Eram também repetidamente ameaçados. Dick Morefield chegou a ser obrigado a se deitar no chão com uma arma apontada na nuca. Em outra ocasião, mostraram ao coronel Dave Roeder, adido assistente de defesa, um retrato de sua família e lhe disseram saber o

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trajeto do ônibus escolar de seu filho nos Estados Unidos. Se ele não começasse a cooperar,

disseram-lhe, sequestrariam seu filho, o esquartejariam e mandariam os pedaços para sua esposa.

Outros reféns, especialmente os três funcionários da CIA, foram mantidos em isolamento por quase todos os seus 444 dias de cativeiro. Todos estavam subnutridos, passando fome, e deixaram o local parecendo sombras das pessoas que tinham sido.

No começo de novembro, a administração Carter e o público em geral praticamente ignoravam as condições do cativeiro. Então, em 18 e 19 de novembro, num acordo intermediado por representantes da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), um grupo de treze reféns, constituído de mulheres e minorias, teve permissão para sair. Antes de irem embora, foram obrigados a participar de uma entrevista coletiva, na qual tiveram de sentar diante de um cartaz denunciando os Estados Unidos por abrigar o xá. Foi com seu retorno que a Casa Branca ficou sabendo das condições extremas às quais os reféns estavam sendo submetidos.

Com a libertação, veio uma declaração de Khomeini dizendo que os americanos restantes seriam em breve levados a julgamento como espiões. Carter imediatamente advertiu o governo iraniano, pelos bastidores, de que, se tais “julgamentos” ocorressem, ou se qualquer um dos reféns se machucasse, o Irã sofreria consequências terríveis. Para respaldar sua ameaça, ordenou que um grupo de porta-aviões de combate assumisse posições nas proximidades da costa do Irã. O USS Kitty Hawk juntou-se a outro porta-aviões no local, o USS Midway, para formar uma das maiores forças navais americanas já reunidas na região.

* * *

NO FINAL DE NOVEMBRO, o Pentágono concebera uma complexa operação de resgate chamada Eagle Claw [Garra de Águia]. O plano exigia que um pequeno grupo de comandos da Força Delta e dos Army Rangers fosse levado de helicóptero para um local remoto no deserto iraniano conhecido como Deserto Um. Ali, o grupo se encontraria com três aviões de transporte Hércules C130, reabasteceria e voaria para uma segunda área de pouso, Deserto Dois, localizada a cerca de oitenta quilômetros de Teerã. No Deserto Dois, os comandos da Força Delta, liderados pelo coronel Charles Beckwith, se disfarçariam e então entrariam na embaixada em caminhões, invadindo o complexo e resgatando os reféns.

Com tantas etapas sujeitas a tantas variáveis, muitos de nós da comunidade de inteligência sentíamos que as chances de sucesso eram pequenas. A estrutura do Comando Unido de Operações Especiais que existe hoje e ajuda os vários serviços a operar em conjunto de maneira harmoniosa não existia na época. Isso queria dizer que pilotos de helicóptero do corpo de fuzileiros, pilotos da força aérea, comandos do exército e equipes da marinha teriam de aprender a cooperar durante o andamento da operação. (Na verdade, o fracasso na coordenação entre esses elementos foi determinante para a criação do Comando Unido de Operações Especiais.)

Quer concordássemos ou não com o plano, nossa prioridade absoluta era conseguir que nossa equipe avançada penetrasse no Irã, de modo a estabelecer uma área para a organização fora da cidade. Composta por diversos agentes secretos não oficiais recrutados nas fileiras da CIA e da sua contraparte na Secretaria de Defesa, a DIA, a equipe era liderada por um agente experiente que trabalhara no OSS, “Bob”, que teve sua iniciação na atividade atuando por trás das linhas inimigas na Segunda Guerra. Bob era uma figura lendária na história clandestina da CIA, um herói invisível, cujas façanhas jamais poderão ser celebradas. A meta dessa equipe avançada era o reconhecimento da situação na embaixada em Teerã e, com alguma sorte, conseguir também descobrir a localização exata dos reféns. Além disso, vasculharia a área em torno da embaixada em busca de locais de pouso para que os helicópteros de resgate tirassem os reféns de Teerã assim que eles fossem libertados pelo grupo de assalto. Essas zonas urbanas de aterrissagem foram chamadas de Parada de Ônibus I e Parada de Ônibus II. Também seria preciso estabelecer um sistema para se comunicar com representantes do governo americano enquanto estivessem em território inimigo.

A equipe ainda teria de reconhecer quaisquer possíveis locais de pouso no deserto, bem como furtar caminhões para o assalto final. Imagens de satélites orbitais seriam usadas inicialmente para estabelecer um local de pouso no deserto, mas, no final das contas, alguém precisaria ir até lá para verificar. Parte do processo exigiria um voo secreto executado por piloto e copiloto da CIA juntamente com um operador especial da força aérea americana. O voo, que teria lugar muitos meses depois, desenrolou-se sem nenhum problema, e os pilotos foram capazes de determinar que não havia radar na área. Assim que o Twin Otter aterrissou, o operador especial da força aérea descarregou uma scooter, dando algumas voltas para colher amostras de solo da região. Mais tarde, depois de análises, concluiu-se que o local seria adequado como campo de pouso. Uma das muitas tarefas do EST era fabricar luzes de aterrissagem infravermelhas para marcar um corredor que pudesse ser visto com óculos especiais.

* * *

COM OS PLANOS PARA a operação de resgate ainda em desenvolvimento e a diplomacia claramente sem funcionar, não demorou para que eu e meus colegas na CIA começássemos a analisar outras formas de pôr um fim ao impasse. Não havia muita coisa acontecendo nos primeiros dias da crise em relação à ação secreta, além do apoio à equipe avançada. Mas uma ideia interessante veio à tona mais de uma vez.

Meu segundo em comando, Tim Small, entrou na minha sala cedo na manhã de 9 de novembro.

— Tony, você tem um minuto? — perguntou.

Era um comportamento fora do normal para Tim, pois sua rotina matinal era passar as primeiras horas do dia lendo as mensagens que chegavam por telex sem ser incomodado e distribuindo atividades específicas para o setor. Ele raramente modificava a rotina; por isso, quando pediu essa reunião, é claro que concordei.

— Estava passeando com meu cachorro ontem à noite — começou — e tive uma ideia. Não quero dizer nada muito maluco, mas me diga: é possível inventar um ardil e fazer parecer que o xá se foi?

Era exatamente a mesma ideia que eu ouvira de Karen na noite anterior. Ela havia concluído que, se os reféns haviam sido presos porque o xá se encontrava nos Estados Unidos, então, se ele partisse — ou morresse —, eles poderiam ser libertados. Era impressionante estar ouvindo aquilo uma segunda vez, e da boca de Tim.

Ele e eu sabíamos que, quando Carter tomara a decisão de admitir o xá nos Estados Unidos para tratamento médico, ele fora advertido de que corria o risco de novos sítios à embaixada. Então, fazia algum sentido que, se removêssemos o xá, poderíamos também remover o problema.

Há uma grande tradição, em operações de espionagem, do emprego dos princípios da mágica, diversionismo, enganação e negação. O cavalo de Troia é um famoso exemplo de enganação. Winston Churchill é apenas mais um entre muitos líderes mundiais que praticaram a arte da enganação — ele tinha um dublê de corpo, como muitas outras figuras públicas ao longo da história. No mundo da mágica de palco, isso é conhecido como diversionismo. O mágico Jasper Maskelyne usava os mesmos princípios da grande ilusão para criar tapeações durante a Segunda Guerra. Ele efetivamente “moveu” a cidade de Alexandria, no Egito, várias noites seguidas, de modo que os nazistas bombardearam por engano um porto vazio. A Operação Guarda-Costas, outra operação britânica, foi um engodo profundamente elaborado usado na invasão da Normandia. Churchill chamou-a de seu “guarda-costas de mentiras”. A falsa concentração de forças em outra parte da Inglaterra fez os nazistas acreditarem que a invasão seria desfechada em Calais.

Decidi fazer uma experiência. Saí, atravessei o pátio e segui rumo ao Edifício Sul. Acabei no segundo andar, no escritório de Matt, o subchefe do nosso grupo de operações. Ele estava metido até os cotovelos no maciço fluxo de mensagens gerado pela crise dos reféns, anotando algumas, dando destaque para outras e colocando-as na sua caixa de saída para distribuição.

— O que é, Tony? — perguntou, sem erguer o rosto.

Eu sabia que Matt veria imediatamente a desvantagem de qualquer proposta, o que fazia dele o melhor advogado do diabo em todo o prédio.

— Se você tiver um minuto, tenho uma ideia — falei, adentrando a sala e fechando a porta.

— Claro, o que é? — ele quis saber, ainda sem erguer os olhos.

— E se pudéssemos fazer parecer que o xá partiu e faleceu?

Matt parou, refletiu, olhou para mim e disse:

— O xá torna-se uma não pessoa. Bastante bom...

Durante as noventa horas seguintes, essa iniciativa foi a única a ser considerada dentro do governo dos Estados Unidos como meio de lidar com a crise dos reféns. Como chefe de disfarces, reuni depressa uma equipe de peritos para esquadrinhar a ideia. Convoquei Tim e diversos membros do meu setor, bem como um funcionário da área de documentos. Queria tanto funcionários experientes como gente jovem, uma mistura eclética de ideias que eu sempre preferia quando lidava com um problema.

— Se não conseguirmos estabelecer um cronograma operacional em 45 minutos, vamos esquecer a ideia — eu disse.

Quarenta minutos depois, tínhamos o esqueleto de um plano operacional. Chamei Hal, chefe da Divisão do Oriente Próximo, Irã, pelo telefone de segurança, e lhe disse que tinha uma ideia. Eu o conhecia bem, pois havíamos trabalhado juntos em Teerã para retirar de lá o agente iraniano RAPTOR. Estabelecêramos uma boa relação durante e depois da operação, e eu o considerava um amigo, o que viria a calhar nos dias a seguir.

— Venha! — respondeu ele.

Entrei sozinho no seu escritório, no quartel-general, trinta minutos depois. Ele se levantou da mesa para me dizer que nos encontraríamos com Bob McGhee, subchefe da Divisão do Oriente Próximo. McGhee então pegou o telefone e chamou John McMahon, vice-diretor da CIA. McMahon estava na sala de McGhee poucos minutos depois.

— Do que vocês precisam? — indagou McMahon.

— Acesso imediato ao xá — respondi.

— Não sabemos quem está falando com ele — McMahon disse. — Sabemos quem não está. Dá para fazer de trás para frente? — perguntou.

O que ele estava querendo dizer era: será que podíamos executar o plano sem envolver o xá, inicialmente? Eu disse que sim.

— No entanto, vamos precisar de tudo que temos sobre ele: todos os registros, todas as fotos, tudo que pode nos ensinar sua aparência. Cicatrizes, tatuagens, marcas, qualquer coisa que pudesse estar sujeito a escrutínio numa autópsia adversa.

Foi nesse momento, por estranho que pareça, que McMahon recebeu um telefonema do bilionário texano H. Ross Perot no escritório de McGhee. Perot havia retirado dois de seus empregados no início da revolução iraniana com a ajuda de uma equipe de ex-comandos do exército. Os comandos tinham se infiltrado no Irã e usaram uma estrada terrestre clandestina para “contrabandear” os empregados para fora do país, para a Turquia. Nós ficamos de lado e (disfarçadamente) escutamos. Podíamos ouvir a voz roufenha de Perot ressoar pela sala, sem nenhuma amplificação.

— Qual é o empecilho? — ele perguntava. — É a burocracia? Se for, posso tentar ajudá-lo a botar as coisas para funcionar. É dinheiro? Posso ajudar também até o seu fluxo de caixa se firmar.

McMahon agradeceu a Perot pelo telefonema e lhe disse que ligaria de volta se precisasse de alguma coisa. Pôs o fone no gancho e atravessou a sala até o nosso grupinho.

— Diga-me do que você precisa, Tony — ele falou —, e eu faço acontecer.

Sábado de manhã, desci até a sala fortificada do Diretório Adjunto de Inteligência (DDI), o braço analítico da CIA, junto com dois dos meus melhores funcionários de disfarce e documentos. Montanhas de papéis, fotografias, publicações e arquivos nos cercavam. Passamos um pente-fino na papelada, em busca de qualquer coisa que nos ajudasse nesse projeto de engenharia reversa.

Ao meio-dia estávamos prontos para passar para a fase seguinte: organizar um “teste de elenco”, um convite para um grupo seleto de funcionários da Agência para audições para o papel principal. Precisávamos de uma autoridade de alto nível para ir até o Centro de Pessoal de Segurança e examinar as fotos de todos os empregados da CIA. Quando contatamos aqueles que pareciam adequados, todos menos um se dispuseram a vir durante o fim de semana e trabalhar conosco.

Trabalhamos sem parar durante as noventa horas seguintes, dormindo no chão e usando nossos casacos enrolados como travesseiros. Nosso consultor de Hollywood, um grande maquiador que chamarei de “Jerome Calloway”, viera de avião de Los Angeles para nos ajudar. Esse episódio já é uma história impressionante por si só, mas o resultado foi que, quando nós chegamos ao fim, tínhamos duas farsas prontas para serem usadas.

Infelizmente, na sexta-feira, o presidente vetou nosso plano, porque não queria dar a impressão de que estava recuando e cedendo aos iranianos — uma decisão, segundo fui informado, da qual ele mais tarde se arrependeria. À luz disso, nosso consultor-chefe retornou a Hollywood, mas eu voltaria a chamá-lo para outro favor em poucas semanas.

* * *

COM O FIM DE novembro veio a frustrante constatação de que, apesar de fazermos progressos graduais para restabelecer nossa capacidade de inteligência no Irã e ajudar no planejamento de uma missão de resgate, 53 diplomatas americanos continuavam reféns. Era um fato duro de engolir, mas, se serviu para algo, foi para que redobrássemos nossos esforços. Havia trabalho de sobra por fazer, e, com outros lugares perigosos e operações clandestinas exigindo nossa atenção, estávamos sobrecarregados. Então, em meio a toda essa atividade, chegou um memorando do Departamento de Estado com a marca URGENTE. Para nossa surpresa, nem todos os americanos que trabalhavam na embaixada em Teerã haviam sido capturados. De algum modo, um grupo de seis que trabalhava no consulado em outro prédio tinha conseguido escapar e percorrer as ruas hostis de Teerã. Por enquanto, pareciam estar a salvo, mas os iranianos estavam fechando o cerco, e havia a possibilidade de serem descobertos a qualquer momento.