Argo
13. Em locação no Irã
Mesmo tão cedo, o ar já estava pesado por causa da fumaça das fogueiras que ardiam por toda a 1 3 cidade. Quando os motores cessaram e as escadas foram levadas até o avião, percebi que alguns passageiros agitavam-se nervosamente em seus assentos. Reparei também que algumas mulheres que anteriormente estavam descobertas haviam colocado xadores pretos, um lembrete de que estávamos prestes a entrar num mundo com suas próprias regras. Outros passageiros se mantinham com o olhar fixo à frente. Eu tinha certeza de que a revolução atingira todas aquelas vidas de alguma maneira. Observei um homem ansioso roer as unhas. Por que estaria preocupado? Enquanto permanecíamos sentados, a cabine se manteve estranhamente silenciosa, tanto que, quando a porta por fim se abriu, pude ouvir o forte estalo da fechadura. Então, um por um, nos levantamos.
Julio e eu desembarcamos no frio ar matinal e rumamos para o terminal. Não havia muito que diferenciasse Mehrabad de uma centena de outros aeroportos no Oriente Médio, exceto, talvez, um leve toque de art déco nas balaustradas erguidas em torno de sua área externa. Era uma caixa de concreto baixa e espalhada, normalmente apinhada de gente nas horas matinais e vespertinas.
Logo preenchemos nossos formulários de desembarque/embarque, nas duas vias, branca e amarela, encontrados em pilhas sobre mesas da sala de chegada. Como seria função de Julio preencher os formulários para os hóspedes mais tarde, ele pegou disfarçadamente algumas cópias extras, dando uma de mão-leve. Andando rumo à mesa, ele pôs seu jornal, o Frankfurter Allgemeine, sobre uma pilha de formulários. Em seguida, preencheu o seu, rearrumou sua bagagem de mão e, num único movimento, pegou o jornal com os formulários por baixo. Dobrando o jornal ao meio, ele o enfiou na sua sacola de mão e pronto.
O aeroporto estava salpicado de todo tipo de imagens turísticas de iranianos sorridentes curtindo férias de inverno nas montanhas do país. O Ministério da Orientação Nacional tinha um departamento turístico, que estava fazendo o melhor que podia para arrecadar algum dinheiro. Os anúncios traziam dizeres em inglês, francês, alemão e parse, todos com variações de slogans turísticos típicos, como “Aproveite o Irã!”. Num dos cartazes, havia um astro de cinema iraniano posando com a família em trajes de esqui. Pensei em como a imagem era incongruente com a crise dos reféns que se desenrolava no centro de Teerã. Julio parecia ter chegado à mesma conclusão:
— Este lugar está sendo injustiçado — disse com um sorriso malicioso.
Eu sacudi a cabeça, atônito.
— É. Da próxima vez, vou trazer a família.
Depois de preencher os formulários, entramos na fila da imigração. Pude ver que havia vários guardas revolucionários e membros do komiteh à paisana circulando pelo saguão de chegada, mas pareciam mais interessados em aborrecer os iranianos que retornavam do que em perturbar os estrangeiros. A situação econômica no país só tinha piorado desde que eu estivera lá nove meses antes, e as autoridades iranianas estavam preocupadas com contrabando de bens para dentro e para fora do país. Isso queria dizer que podíamos esperar, também, encontrar uma fiscalização rigorosa na saída. A mesa da imigração não era mais comandada por um civil sem treinamento, e, sim, por um funcionário oficial da imigração uniformizado. Eu esperava que a minha operação de resgate de RAPTOR não tivesse deixado rastros em documentos na embaixada americana. A essa altura, os militantes provavelmente já tinham conseguido juntar a maior parte dos documentos retalhados durante o ataque. Se tivesse sobrado alguma coisa da Operação RAPTOR, ou se algo a ligasse a mim, então havia a possibilidade de terem colocado o meu nome numa lista de vigilância. Quando chegamos perto do balcão, porém, o funcionário não poderia ter nos dado menos importância. Depois de destacar as duas vias dos nossos formulários, carimbou nossos passaportes e fez um gesto para que passássemos sem dar sequer uma segunda olhada. (Mais tarde eu ficaria sabendo que os militantes de fato acharam um documento secreto no cofre de Bruce Laingen que mencionava a exfiltração de RAPTOR. Felizmente, meu nome não constava nele, mas Tom Ahern, o chefe do posto no Irã que fora capturado durante o ataque, passou um inferno por causa daquilo. Depois ele me contaria que os militantes ficaram irados quando souberam que RAPTOR havia fugido.)
Passando rapidamente pela alfândega, saltamos para dentro de um decrépito táxi Opel Kadett e nos dirigimos para o Sheraton localizado em uma das principais vias de ligação entre Mehrabad e o centro de Teerã. Nosso motorista era um homem idoso e magro que usava um colete de lã sob o paletó por causa do frio. Pareceu feliz em nos ver e se lançou num longo monólogo em inglês sobre as belezas de Teerã. Presumiu que viéssemos dos Estados Unidos e perguntou se estávamos com fome. Sem esperar resposta, repartiu um enorme pedaço de pão sem fermento que trazia ao seu lado no banco da frente e o passou para trás. O pão ainda estava quente e era muito gostoso.
O trajeto pelo qual nosso táxi trafegava estava ladeado por uma profusão de cartazes escritos à mão com slogans revolucionários e propaganda antiamericana — uma realidade que traía a inocência retratada nos anúncios turísticos. Não estávamos em Moscou, mas Julio e eu ainda assim teríamos que pisar em ovos. Durante o reinado do xá, a SAVAK mantivera uma rede colossal de informantes e espiões domésticos, e era impossível saber quem tinha sido cooptado pelos guardas revolucionários.
O Sheraton em Teerã parecia ter sido transplantado de Detroit. Era um típico arranha-céu moderno, monolítico, cercado por um estacionamento — como qualquer Sheraton no mundo.
Era um hotel popular entre viajantes e empresários estrangeiros. Assim, Julio e eu nos encaixamos bem logo que entramos no imenso saguão. Uma passada geral de olhos não revelou nenhuma vigilância evidente, mas eu presumi que houvesse. Anos de trabalho clandestino em Moscou me ensinaram que é melhor presumir que o outro lado está sempre vigiando, mesmo que não possamos ver.
Depois de nos registrarmos no hotel, Julio e eu fomos até o escritório da Swissair para reconfirmar as reservas aéreas para nossa partida na segunda-feira seguinte. A programação era partir para Zurique às sete e meia da manhã, e eu queria me assegurar de que não haveria surpresas. Se algo desse errado e nós fôssemos obrigados a abortar, seria quase impossível fazer os hóspedes passarem de novo por todo o processo de preparação psicológica para voltar ao aeroporto. Ter certeza de que teríamos lugar no avião era apenas os ossos do ofício.
Quando chegamos ao escritório da Swissair, porém, ele ainda estava fechado. Eu sabia, de minha viagem anterior, que a embaixada americana ficava bem na esquina, e, precisando matar tempo, resolvemos dar uma volta.
As paredes da embaixada estavam completamente cobertas com cartazes e pichações, todos eles denunciando os Estados Unidos, o presidente Carter e o xá. Aqui e ali, o rosto sombrio de Khomeini nos encarava de um cartaz ou pôster como um vilão de histórias em quadrinhos. Àquela hora, as ruas estavam assustadoramente silenciosas, e, ali parado, olhando para a embaixada, tive uma sensação de profunda e irremediável impotência. Eu estava tão perto e ao mesmo tempo era incapaz de fazer qualquer coisa para libertar meus conterrâneos presos lá dentro. No mínimo, podia prestar atenção ao que via e reportar na volta aos planejadores da Garra de Águia, mas isso não servia de consolo.
Continuamos descendo a Avenida Roosevelt e entramos numa ruazinha lateral, onde nosso mapa turístico nos dizia que encontraríamos a embaixada canadense. Porém, em vez da bandeira com a folha de bordo vermelha do Canadá, demos de cara com a bandeira azul e amarela da Suécia. Na verdade, tínhamos chegado ao prédio onde Lee Schatz estivera trabalhando no dia da tomada da embaixada.
Juntamo-nos por um segundo, consultando o mapa. Um policial iraniano solitário estava de guarda perto da entrada do edifício, as mãos metidas nos bolsos.
— Por que não perguntamos para ele? — falei em voz alta, apontando para o guarda.
Eu estava a caráter, seguindo o fluxo. É claro que o Departamento de Defesa ou o EST poderiam ter nos fornecido o mapa de Teerã mais detalhado e atualizado do planeta, mas ser pego com uma peça profissional tão óbvia teria imediatamente mandado a fachada pelos ares. Nós devíamos ser de Hollywood, não de Langley.
Julio e eu nos aproximamos do guarda e, após várias tentativas de comunicação em alemão, árabe e até espanhol, Julio ergueu as mãos (embora ele falasse parse, se fizesse isso poderia despertar suspeitas). Eu segurei nosso mapa turístico e apontei para o labirinto de ruas. “Canadá”, eu disse. Depois, ainda mais devagar, “Can-ah-dah”. O guarda só olhou para mim e piscou.
Enquanto isso acontecia, um jovem iraniano vestindo jeans e uma jaqueta militar verde desbotada nos observava do outro lado da rua. Eu o tinha visto com o canto do olho, mas tentei não deixar transparecer que sabia que estava lá. Para mim, ele parecia exatamente um dos “estudantes” que haviam atacado a embaixada. Estávamos ali resolvendo o que fazer em seguida quando o jovem atravessou a rua e se aproximou. Ignorando-nos, foi direto ao guarda e os dois tiveram uma acalorada troca de palavras em parse. O homem virava o rosto para nós, depois olhava de volta para o guarda, e presumo que ele estava perguntando o que fazíamos ali. Em seguida, virou-se para Julio e dirigiu-se a ele num alemão puro, sem sotaque. Julio se animou e não demorou muito para que os dois estivessem numa conversa animada. Julio arrancou o mapa da minha mão e ambos o examinaram. O iraniano apontou uma rua ao norte da embaixada dos Estados Unidos.
Julio agradeceu, mas o rapaz não tinha terminado. Pediu uma folha do meu caderno e anotou o endereço. Depois, acenou para um táxi Mercedes que ia passando e entregou o pedaço de papel ao motorista. Por um instante, imaginei se não seria algum tipo de cilada. Será que tinha acabado de dar ao taxista o endereço de uma sede do komiteh local em vez da embaixada canadense?
Ele segurou a porta do carro para entrarmos. Antes de fazer isso, Julio tentou lhe dar algumas notas de rial amassadas, mas o homem sacudiu a cabeça e fez um gesto, como quem diz: “Por favor, foi um prazer.” Pôs a mão sobre o coração e abriu um largo sorriso, revelando vários dentes de ouro. Pensei na ironia de todo esse intercâmbio. Ali estava um homem esforçando-se para mostrar a dois agentes disfarçados da CIA que os iranianos eram gente hospitaleira, afetuosa. Era difícil conciliar isso com a ideia de que a menos de uma quadra diplomatas americanos inocentes estavam sendo torturados e retidos contra sua vontade.
O táxi, então, atravessou a cidade para nos levar até a embaixada canadense, aonde chegamos pouco antes do meio-dia. O embaixador Taylor estava nos esperando, e um corpulento policial militar canadense, Claude Gauthier, nos conduziu ao encontro dele em seu escritório no segundo andar. Taylor era simpático e afável, e seu rosto se iluminou quando nos viu. “Bem-vindos a Teerã”, ele disse, mão estendida. Usava óculos ao estilo mod, calça jeans e botas de caubói. Não se parecia em nada com o rígido burocrata governamental que eu estava esperando. Apresentou-me à sua secretária, uma senhora idosa e miúda chamada Laverna, e então nos levou para o interior do escritório.
Era um espaço elegante e muito moderno. Havia estantes de vidro cheias de livros, fotos emolduradas, além de um bar bem abastecido. O chão era coberto por vários tapetes persas de qualidade e havia uma bandeira canadense pendurada num dos cantos. O traço mais surpreendente da sala era sua escrivaninha, que, na verdade, não era uma escrivaninha, mas uma elegante mesa redonda com tampo de vidro.
Nós nos sentamos e Taylor explicou que estavam prontos para fechar a embaixada como preparativo para a exfiltração próxima. Na verdade, naquela mesma tarde ele iria se despedir de sua família no aeroporto. Permaneceriam apenas cinco membros do pessoal canadense, e estes partiriam na segunda-feira, 28 de janeiro, poucas horas depois do horário marcado para o voo da Swissair no qual esperávamos embarcar. Explicou que enviaria uma carta diplomática ao Ministério do Exterior na segunda-feira, informando ao governo iraniano que a embaixada canadense estaria temporariamente fechada. Dito isso, ele nos perguntou se havia algo que pudesse fazer para ajudar. Fiquei impressionado com o jeito descontraído e informal de todo o encontro.
A primeira coisa que precisávamos fazer, eu disse a ele, era nos encontrar com os hóspedes e informá-los das várias opções para a fuga. Isso também me daria a oportunidade de avaliar se conseguiriam levar o plano adiante. Concordamos que o encontro deveria ter lugar mais tarde naquele dia, no começo da noite, na casa de John Sheardown. Depois disso, precisaríamos mergulhar no trabalho dos vistos e documentos, o que provavelmente aconteceria no dia seguinte. Eu trouxera comigo meu estojo de aquarelas e planejava usá-lo para pôr os carimbos finais nos passaportes. Taylor trouxe os documentos de reserva, junto com o segundo malote. Esse pacote lacrado continha o segundo conjunto de passaportes e vários outros documentos secundários que havíamos incluído. Julio e eu examinamos o conteúdo e ficamos contentes de ver que tudo tinha sido feito. Mostramos a Taylor o segundo conjunto, e ele pareceu satisfeito com a autenticidade. Para fazê-los parecer usados, nossos técnicos do EST em Ottawa tinham pisado repetidamente em cima deles e os esfregado no chão.
Quando o encontro terminou, Taylor nos apresentou a Roger Lucy, que nos deu a impressão de um líder tranquilo e competente. Ele já fizera diversas viagens por Mehrabad para Taylor e nos fornecera uma boa quantidade de informações sobre a fiscalização no aeroporto. Em seguida, fomos formalmente apresentados a Claude, de Quebec, chefe de segurança da embaixada. Claude recebera o apelido de “Marreta” por ter empunhado uma marreta para destruir quase todo o equipamento criptográfico e de comunicações na embaixada canadense em preparação para a partida. Era um apelido que ele viria a apreciar.
Antes de Taylor sair para se despedir da família, nós lhe pedimos permissão para mandar um telegrama a Washington via Ottawa, confirmando nossa chegada e os planos para o encontro com os hóspedes mais tarde, naquela noite. Devo admitir que era gratificante que tanto Taylor como Lucy estivessem empolgados com todo o progresso que tínhamos feito com a fachada Argo. Eles me disseram que tinha um apelo com o qual ambos podiam se identificar. Quando abri o portfólio e lhes mostrei o anúncio na Variety, ficaram impressionados. Algumas pessoas tinham insinuado que havia uma espécie de competição entre a CIA e Ottawa, mas Taylor e eu nunca enxergamos dessa forma. Era uma operação conjunta desde o início, e posso dizer, sem erro, que nós dois tínhamos apenas um objetivo em mente: tirar os seis americanos de Teerã.
* * *
OS HÓSPEDES TINHAM SIDO informados por Lucy que deveriam esperar visitas. É claro que ele não lhes contou que éramos da CIA — disse simplesmente que viríamos para ajudar. Como preparativo para a fuga, Taylor e Lucy haviam providenciado malas e roupas extras, pois os hóspedes não tinham nada. Seria muito estranho entrarem no aeroporto sem bagagem.
Depois de concluído o encontro na embaixada do Canadá, Claude concordou em nos levar até a casa dos Sheardown, e Julio e eu nos enfiamos na Mercedes da embaixada. Quando saímos eram cinco da tarde e as ruas estavam apinhadas de carros. Claude não se impressionou, usando generosamente a buzina, um equipamento sem o qual, segundo ele, seria impossível dirigir na cidade. As coisas não tinham mudado muito desde a última vez em que eu estivera em Teerã. Grandes setores da cidade ainda estavam fechados. Na época do xá, Teerã era famosa por sua vida noturna. Tudo isso desaparecera após a revolução, substituído por vitrines escurecidas, restaurantes tapados com tábuas e bunkers de sacos de areia onde se viam jovens com metralhadoras. A cidade estava dividida basicamente em norte e sul, com os habitantes mais abastados morando na área mais elevada e fresca do norte e os pobres na região mais quente, plana e superpovoada do sul.
Levamos cerca de trinta minutos para sair da parte central da cidade, e, quando finalmente chegamos ao distrito de Shemiran, era como estar em outro universo. Ele lembrava lugares como Bel Air, em Los Angeles, onde os ricos e poderosos moravam em segurança, enclausurados atrás dos muros de suas fortalezas.
Como Ken tinha ido ao aeroporto, Lucy fora até sua casa buscar os Stafford, tendo chegado aos Sheardown pouco antes de nós. Enquanto esperavam no interior, alguns dos hóspedes haviam feito um joguinho de como seria a nossa aparência. Nunca vou me esquecer da cara de Lee Schatz ao abrir a porta. Era a cara de uma criança crescida, cheia de malícia, com um bigode que sobressaía acima de todo o resto. Deu uma olhada em nós e disse: “Trench coats ! Vocês estão vestindo trench coats!” Balançou a cabeça, desanimado. Podia parecer clichê, porém, não custa dizer, se encaixava ao nosso disfarce. Os outros vieram correndo nos encontrar, vibrando de entusiasmo e expectativa.
Ao entrar na casa, fui confrontado por uma imagem bizarra. Um fogo ardia alegremente na lareira, e os hóspedes tinham preparado aperitivos. O grupo parecia descansado e ansioso, até mesmo em forma. Bob Anders exibia até um belo bronzeado. Lucy foi até a cozinha preparar uns drinques e não demorou muito para estarmos bebericando animadamente nossos coquetéis e nos apresentando. Não fossem os ruídos de marcha dos grupos de guardas revolucionários assassinos e o komiteh patrulhando as ruas, pareceria que estávamos num jantar igualzinho aos que eu costumava frequentar em Washington, D.C.
Quando senti que já fora o suficiente para quebrar o gelo, levantei-me para informá-los sobre as várias histórias de fachada.
— Muito bem, vocês já trabalham há bastante tempo no governo para saber que não viemos aqui sem algumas perguntas — eu disse. — Temos três opções diferentes, cada uma com seu próprio passaporte e documentos de apoio. Em última instância, são vocês que vão decidir qual delas preferem, mas Julio e eu com toda certeza podemos aconselhá-los.
Apresentei, então, os diferentes jogos de passaportes e discorri sobre as várias histórias de cobertura: professores americanos, nutricionistas canadenses, opção Hollywood. Expliquei que, independentemente da opção que escolhessem, o plano era sair pelo Aeroporto de Mehrabad na segunda-feira de manhã.
Os hóspedes estavam obviamente preocupados com a segurança no aeroporto e perguntaram o que aconteceria se fossem parados e levados a um segundo interrogatório, reservado para os indivíduos considerados suspeitos o bastante para justificá-lo. Pude perceber que, entre eles, talvez o mais preocupado fosse Joe Stafford. Ele me pareceu extremamente analítico, o tipo de pessoa que tem dificuldade de viver o momento. Considerando que o êxito de qualquer disfarce está calcado na confiança, eu esperava que pudéssemos dar um jeito.
Lee apontou os documentos americanos:
— Para mim, embarcar no aeroporto com documentos americanos parece uma ideia bastante ruim — ele disse.
Os outros assentiram, comentando, como eu fizera, que as escolas de inglês estavam fechadas havia muitos meses. Pude perceber que eles estavam tentando absorver todo o conceito de fuga, para apreender o máximo. Senti que era o momento perfeito de apresentar minha defesa de Argo.
— Eu realizei uma porção de operações desse tipo no passado — comecei. — Tenho confiança de que a opção Hollywood vai funcionar.
Abri o portfólio da Estúdio Seis e tirei o número da Variety com o anúncio da produção Argo. Depois, dei a Cora Lijek seu cartão comercial da Estúdio Seis e indiquei o anúncio:
— Baseado numa história de Teresa Harris. É você — eu disse.
Peguei o passaporte canadense falso com seu retrato e entreguei a ela. Cora examinou a foto e a assinatura forjada com visível admiração. Em seguida, peguei o bloco de esboços e entreguei-o a Kathy Stafford:
— Aqui está. Vimos que você tem um pouquinho de arte no seu histórico e resolvemos torná-la a diretora de arte.
Distribuí os outros cartões de visitas, que indicavam os vários papéis que eles iriam assumir: Joe Stafford era produtor associado; Mark Lijek era “Joseph Earl Harris”, coordenador de transportes; Lee Schatz era “Henry W. Collins”, cinegrafista; e Bob Anders era “Robert Baker”, gerente de locação.
Expliquei que havíamos alugado um escritório em Hollywood e que nesse exato momento tínhamos um grupo de funcionários cuidando dos telefones.
— Se alguém ligar, vão dizer que Teresa Harris está viajando com um grupo, escolhendo locações no Oriente Médio, mas que estará de volta na próxima semana.
Os seis americanos ficaram me fitando por um longo instante, talvez compreendendo pela primeira vez a extensão do que tínhamos feito para tirá-los de lá, o que incluía a montagem de uma produção cinematográfica fictícia, com escritório e funcionários que eram realmente de Hollywood. Isso além de todas as horas que minha equipe passara trabalhando em Foggy Bottom para aperfeiçoar suas histórias e a documentação para “provar” que eles eram quem diziam ser.
Finalmente, Mark falou:
— Não parece uma coisa completamente maluca — ele disse.
— Qual é o filme? — perguntou Anders.
Fiz o melhor que pude para explicar, usando o jargão que Calloway me orientara a usar:
— É como Buck Rogers no deserto. A história mistura mitos do Oriente Médio com espaçonaves e mundos distantes. Acreditem em mim quando digo que os iranianos não vão conseguir entender uma palavra, e isso é ótimo.
Pude ver que eles ainda estavam em cima do muro. Então falei:
— Qualquer que seja a opção de vocês, tem de ser algo que vocês se vejam fazendo, algo em que possam acreditar.
Com isso, eu os instruí a irem para a sala de jantar e discutir entre si. Eles também precisavam resolver se queriam ir embora como grupo ou individualmente.
Mais tarde, eles me contariam sobre o que aconteceu durante essa conversa. Eles se reuniram em volta da mesa e imediatamente se lançaram nos prós e contras dos vários planos. Para Lee, que era adido agrícola, a ideia dos nutricionistas era uma furada, o que, levando em conta seu histórico, não era nenhum elogio. Os outros sentiam que não se encaixariam como professores e nutricionistas. Cora visualizou alguém parando-a e fazendo perguntas sobre colheitas, e a ideia a deixou preocupada. Ela sabia zero de agricultura e não teria a menor ideia do que dizer. Todavia, sabia um pouco sobre Hollywood, como todo mundo. Visualizou-se como roteirista de cinema. Tudo que precisaria fazer era ler o script e estaria pronta. Os outros também começaram a se animar. Mark percebeu que fazia absoluto sentido que alguém de Hollywood fosse maluco o bastante para vir ao Irã em meio a uma revolução. Anders, por sua vez, comprou a coisa no mesmo instante. Viu-se num set de filmagem, lado a lado com Faye Dunaway e Warren Beatty. Parecia um papel que ele estava predestinado a interpretar.
— Dava a impressão de que a gente ia se divertir para caramba, e eu mal podia esperar para começar — ele me revelou mais tarde.
Lee, por sua vez, não sabia praticamente nada de como operar uma câmera de cinema, mas imaginou a vida aventurosa de um diretor de fotografia de Hollywood viajando pelo mundo. Ele próprio estivera em alguns lugares exóticos e imaginou que poderia se sair bem. O fator mais importante para todos eles era que se tratava da opção com mais documentos de apoio, sem mencionar que havia efetivamente um escritório com funcionários trabalhando para respaldar a história.
No final, o único dissidente parecia ser Joe, que não parava de dizer:
— Eu simplesmente não vejo como.
Joe, ao que parece, era contra todos os planos e, em vez disso, queria permanecer no Irã. A essa altura, Mark já o conhecia bastante bem e viu a resposta de Joe como mais emocional do que racional. Para Mark, parecia que Joe se sentia culpado com a perspectiva de fugir enquanto seus colegas definhavam na embaixada.
— E se eles fizerem alguma retaliação contra os reféns se nós formos embora? — Joe perguntava a todos.
Era uma boa questão a considerar, e eu mesmo tinha pensado nela. Mas, com o Canadá fechando a embaixada e os iranianos chegando cada vez mais perto de descobrir os americanos fugitivos, não havia alternativa a não ser partir. Os outros hóspedes certamente sentiam isso.
— Bem, o que você quer que façamos? Que fiquemos aqui? E como é que isso vai ajudá-los? — Anders lhe perguntou.
Joe propôs, então, que fossem até a embaixada dos Estados Unidos e tentassem ponderar com os militantes. Teria sido um gesto nobre, mas Anders e Schatz foram ambos irredutíveis:
— Pode esquecer isso — disseram.
Foi quando estavam discutindo o plano de Joe que eu resolvi entrar e ver como estavam as coisas. Pude sentir a tensão elétrica na sala e então decidi usar um pouco de mágica de salão.
— Deixem-me mostrar como funciona uma operação como essa — eu disse.
Peguei duas rolhas de um balcão ao lado e as pus entre o polegar e o indicador de cada mão, formando duas letras D entrelaçadas. Usei esse truque muitas vezes para ilustrar como se monta uma operação de tapeação.
— Aqui estamos nós, e aqui estão os bandidos. E é assim que vamos sair um da frente do outro.
Com um rápido passe de mãos, separei uma da outra, e as rolhas pareceram atravessar-se mutuamente. Era um truque simples, mas o objetivo era mostrar-lhes que estavam envolvidos com profissionais na arte da tapeação e que havíamos pensado em tudo.
Deve ter funcionado, porque depois disso eles votaram e o resultado foi cinco a um em favor da opção Argo e de partir como grupo.
Com isso resolvido, os seis levaram Julio e eu para dar uma volta pela casa, que era um autêntico palacete. Enquanto fazíamos a visita, Chris Beeby, o embaixador da Nova Zelândia, apareceu com seu segundo secretário, Richard Sewell. Sewell acabaria se revelando incrivelmente valioso nos dias seguintes. Ele me explicou que tinha um bom contato em Mehrabad, alguém que trabalhava para a British Airways. Julio perguntou se ele estaria disposto a nos ajudar pegando alguns formulários brancos e amarelos de desembarque/embarque. Sewell imediatamente se prontificou e marcamos uma hora para um encontro na embaixada do Canadá no dia seguinte.
Antes de partir, sentei-me com os hóspedes mais uma vez para repassar suas histórias. Entreguei a cada um o currículo pessoal criado por Joe Missouri, dizendo-lhes para decorá-los de trás para a frente:
— Se alguém parar ou perturbar algum de vocês, da maneira que for, ajam com confiança, encarando-o olho no olho. Pensem em como alguém de Hollywood reagiria. Lembrem-se, Julio e eu estaremos bem ao seu lado. Assim, se alguma coisa der errado, deixem que a gente fale.
A última coisa que eu quis destrinchar foram os disfarces. Trouxera comigo os materiais que Doris preparara e os espalhei sobre a mesa. Uma vez que milhares de iranianos passavam pela seção consular da embaixada, onde a maioria dos hóspedes trabalhara, sempre havia uma chance de algum dos americanos ser facilmente reconhecido.
Expliquei-lhes que a chave para um bom disfarce era identificar os vários traços ou características mais importantes que eram sua marca pessoal e então alterá-los, em vez de exagerar na mão em algum aspecto. Muitas vezes, são coisas sutis que denunciam as pessoas, tais como a maneira de andar ou uma pinta específica. Se essa operação se desenrolasse em Moscou, teríamos toda a nossa equipe de peritos em disfarce do EST trabalhando conosco. Naquela situação, precisaríamos nos virar com o que tínhamos à mão.
— Cada um de vocês vai ter que se tornar um pouquinho mais espalhafatoso, um pouquinho mais Hollywood — eu disse.
Entreguei a Schatz seu visor de cinegrafista e dei a Cora a pasta com o roteiro.
— Julio e eu estaremos de volta no domingo à noite para fazer um pequeno ensaio de figurinos — falei. — Mas, nesse meio-tempo, aprendam seus papéis. Vocês vão passar por um teste!
Como eles sabiam o que estava em jogo, não precisei lhes informar o que aconteceria se eles não passassem. Eu só esperava que Joe entrasse no espírito como os outros. Apesar de todo o trabalho duro e de toda a energia que tínhamos empenhado na história de Argo, uma única performance pouco convincente bastaria para comprometer todo o enredo.