Argo
4. Sem lugar para fugir
andares, fora reformada recentemente para receber o maciço fluxo de pedidos de visto. Tantos 4 apareceram na esteira da partida do xá que fora um desafio manter o edifício com uma equipe adequada. Na manhã de 4 de novembro havia dez americanos, além de cerca de vinte empregados iranianos, trabalhando no interior. Entre os americanos estavam o cônsul-geral Dick Morefield, os vice-cônsules Richard Queen e Don Cooke, os funcionários consulares Robert Anders e Bob Ode, bem como o único oficial de segurança do edifício, o fuzileiro-sargento James Lopez, conhecido pelo pessoal como Jimmy. Havia, também, dois jovens casais, Mark e Cora Lijek, e Joe e Kathy Stafford (um décimo primeiro americano, Gary Lee, posteriormente se juntaria ao grupo, durante o assalto).
Os Lijek e os Stafford eram muito chegados. Mark e Joe, ambos com 29 anos, tinham se conhecido no ano anterior em Washington enquanto faziam um curso de idiomas no Instituto de Serviços Estrangeiros. Apesar de serem opostos quase polares, eles se tornaram bons amigos. O cabelo liso e louro de Mark, bem como seu ar de menino, era acentuado por um par de grandes óculos que, de algum modo, o fazia parecer ainda mais jovem e inocente. Com ele, se podia falar de tudo, e ele gostava de falar. Joe, por outro lado, era um tipo sério e silencioso. Com entradas e um bigode cuidadosamente aparado, era um pouquinho mais baixo que a esposa e cultivava a aparência de um professor de economia, complementada por óculos, um colete de lã e um casaco esportivo. Os dois amigos passaram quase sete horas por dia juntos por seis meses e começaram a se conhecer bastante bem. Para Mark, que de início teve dificuldade de entendê-lo, Joe era um sujeito reservado, trabalhador, capaz de subitamente surpreender com um senso de humor mordaz. Joe gostava de implicar com Mark, e Mark sempre demorava a perceber que Joe estava tirando um sarro com sua cara.
Felizmente para Mark e Joe, Cora e Kathy também tinham se dado bem. Eram todos jovens, ardentes e, de um modo geral, empolgados por estarem em Teerã, que era seu primeiro posto. (E, na verdade, não estavam sós — muitos dos diplomatas que trabalhavam na embaixada em Teerã haviam sido atraídos para lá pela sensação de emoção e perigo oferecida pelo posto.)
Mark pensara em entrar para o Serviço Exterior durante seu segundo ano no ensino médio, quando um amigo apresentou-lhe a ideia. Originalmente de Detroit, mas criado em Seattle, ele foi para o leste após o ensino médio para frequentar a Universidade de Georgetown em Washington, D.C., com uma bolsa de estudos do Corpo de Treinamento de Oficiais da Reserva. Depois de se graduar em 1974, passou os quatro anos seguintes no exército, dois deles como redator de discursos de um general de alta patente. Acabou ingressando no Serviço Exterior em 1978. Sua primeira opção de posto era a América do Sul, mas aí recebeu um telefonema pedindo-lhe que se apresentasse como voluntário para o Irã. Ele pensou no assunto. O xá ainda estava no poder e parecia que poderia ser uma aventura. Ele aceitou.
Cora, uma vibrante americana de origem asiática, com 25 anos, também ficara empolgada com a notícia. Seus pais tinham vivido no Irã por quatro anos quando ela tinha dezenove, e ela visitara o país duas vezes. Achava que era um lugar exótico. Não vinha acompanhando as notícias e pensara que seria bastante divertido voltar para lá. No entanto, já ao aterrissar no Aeroporto de Mehrabad, sua opinião mudou de forma significativa. A essa altura o país estava em meio a uma revolução e sob o duro governo de Khomeini. As coisas tinham mudado drasticamente. Para ela, a maior diferença era ver as mulheres em seus véus negros, ou xadores. Lembrava-se de como antes da revolução poucas os usavam, e mesmo assim eram sempre coloridos, alguns com estampas florais. Agora, estavam todas cobertas de preto da cabeça aos pés.
Sua amizade com Kathy havia crescido no Irã. Extrovertida e meiga, com uma tranquilidade de bibliotecária de cidade pequena, Kathy, que tinha 28 anos e era quase uma cabeça mais alta que Cora, estudara artes na faculdade e esperava um dia tornar-se artista.
Assim como os Lijek e os Stafford, a maior parte da equipe do consulado era de aquisições e substituições recentes. Quase todos os funcionários estavam no país havia menos de quatro meses. Nenhum deles estava lá por ocasião do ataque de 14 de fevereiro, mas todos tinham ouvido falar no assunto. Quando o xá teve permissão para entrar nos Estados Unidos, todo mundo foi informado das novas medidas de segurança e instruído a manter um comportamento discreto. O consulado fora atacado por granadas lançadas por pequenos foguetes durante o verão, mas desde então fora fortificado. A entrada principal do prédio era da rua, mas, no dia do ataque, Morefield resolvera fechar o consulado para remover algumas pichações na parede externa. Em vez do azáfama normal das manhãs, havia apenas cerca de sessenta iranianos que tiveram permissão de manter seus agendamentos.
Na parte de cima, Robert “Bob” Anders estava em seu escritório ajudando um velho casal iraniano com seus vistos de imigração. Mais para alto, com denso cabelo grisalho, Anders tinha a aparência de galã de filmes B, com um sorriso sempre pronto (na verdade, ele realmente chegara a fazer uma figuração no filme O exorcista, caracterizado como padre). Aos 54 anos, era considerado um veterano em relação aos outros funcionários consulares. Nativo de Milwaukee, servira como mensageiro para o Sétimo Exército durante a Segunda Guerra, quando foi ferido na mão num ataque de morteiro na época da batalha de Bulge. Ao retornar para casa após a guerra, frequentou a Universidade de Georgetown e se formou em 1950. Depois de ser reprovado na prova de língua estrangeira no exame para o Serviço Exterior, ocupou-se com uma série de biscates até conseguir uma segunda chance. Obteve uma indicação de avaliação e serviu por um tempo em Burma e Manila. Problemas conjugais, porém, forçaram-no a abandonar o serviço. Após um divórcio e mais alguns anos oscilando na trilha financeira, Anders voltou ao Serviço Exterior, trabalhando na emissão de passaportes como GS5, o mesmo nível no qual começara 25 anos antes. Alguns anos e várias promoções depois, indagou sobre a possibilidade de servir novamente além-mar. “Que tal Teerã?”, perguntaram-lhe. Naquela época, o xá ainda estava no poder, e para Anders parecia um lugar tão bom como qualquer outro. Mas, quando chegou para assumir o posto, Khomeini já tomara o poder, e àquela altura era tarde demais para recuar.
Notícias do ataque de 4 de novembro chegaram ao consulado quando algumas empregadas iranianas que tinham saído para pegar biscoitos voltaram correndo para o prédio. O ex-marido de uma das mulheres era um dos policiais no portão e mandou que elas voltassem. Enquanto corriam, a turba já penetrava no complexo.
Ao relatarem aos outros o que haviam ouvido, o rádio de Jimmy Lopez de repente ganhou vida: “Estão pulando os muros!”
Não demorou muito para os militantes convergirem para o consulado. Um grupo correu para a porta dos fundos do prédio e tentou derrubá-la. A porta era feita de vidro à prova de bala, com tranca eletrônica. Não se moveu. Lopez viu que os militantes se espalhavam. As janelas do consulado eram protegidas por barras metálicas. Sem vacilar, os militantes arrebentaram o vidro e estenderam as mãos,
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agarrando tudo que podiam das escrivaninhas e dos arquivos.Lopez correu até as janelas brandindo seu cassetete, tentando golpear os braços dos manifestantes.
Ouviu Morefield berrar: “Todos para cima!”
Os funcionários e os iranianos rapidamente obedeceram.
Bob Anders ainda estava em seu escritório no segundo andar quando Morefield enfiou a cabeça pela porta e lhe disse para se trancar depressa. O casal iraniano que Anders ajudava levantou-se para ir embora, mas Anders lembrou à mulher que ela ainda não terminara de preencher o formulário de solicitação de visto de imigrante. Observou-a assinar seu nome. Sua mão tremia o tempo todo.
Todos se amontoaram no segundo andar e esperaram. Cora se sentiu segura pelo fato de nenhum dos funcionários americanos demonstrar preocupação exagerada, mas notou que o mesmo não poderia ser dito em relação aos iranianos, que se mantinham em silêncio e de cabeça baixa. Como os outros, Cora ouvira falar do ataque de 14 de fevereiro e achava que tudo acabaria logo. Sentou-se perto de uma secretária filipina, e, para passar o tempo, as duas entabularam uma conversa. A mulher já trabalhava na embaixada no ataque do Dia dos Namorados e relatou como vários iranianos haviam sido baleados. Isso imediatamente fez Cora cair na real.
Enquanto aguardavam, ouviram passos correndo pelo telhado, seguidos de fortes batidas: “Estão tentando arrebentar o telhado para entrar”, Cora ouviu alguém dizer.
Então, a eletricidade acabou e o prédio ficou às escuras. Alguns dos iranianos gemiam, mas de modo geral todo mundo permaneceu calmo — algo que Cora achou notável. Alguns minutos depois, no entanto, todos se retesaram ao ouvir um vidro quebrando em algum ponto do segundo andar. Parecia que uma janela tinha acabado de ser arrebentada. Esperando no corredor, Lopez correu para investigar. Um banheiro tinha uma janela sem barras e foi para lá que ele se dirigiu. Antes de entrar,
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sacou a pistola, arrancou o fecho metálico de uma lata de gás lacrimogêneo e abriu a porta. Lá dentro, encontrou um iraniano solitário entrando pela janela quebrada. Ao ver o fuzileiro, o militante logo saltou de volta pela abertura, e Lopez arremessou a lata em cima dele. Aí, tirou o fecho de uma segunda lata e jogou no próprio banheiro, fechando a porta atrás de si. Não havia como trancar a porta, então usou alguns cabides de um armário próximo para fazer uma amarra de arame.
A essa altura, Morefield dizia a todos que acabara de falar com Golacinski pelo rádio. O plano era fazer com que saíssem pela porta dos fundos e se dirigissem à chancelaria em grupo.
Mark olhou pela janela para ver o que acontecia do lado de fora. O terreno fervilhava com militantes. Um grupo de iranianos havia arrebentado a porta do comissariado usando barras de ferro e começava a saquear o lugar. Sair naquela confusão não lhe parecia uma boa ideia.
Assim que alcançaram a porta dos fundos, Morefield chegou à mesma conclusão. Nesse ponto, havia um anel de quase mil manifestantes cercando a chancelaria com gritos de celebração, e ele percebeu que o plano não iria funcionar.
Dando meia-volta, Morefield ligou para a chancelaria e deliberou com Ann Swift por telefone. Ela lhe disse que alguém havia chamado a polícia, que o socorro estava a caminho e que todo mundo devia ficar quieto no lugar e esperar tudo terminar. Então, Lopez ouviu pelo rádio que os militantes haviam penetrado na chancelaria. Como o consulado tinha uma porta para a rua, a essa altura ele concluiu que a melhor opção era fugirem do complexo, arriscarem-se pelas ruas da cidade e tentarem entrar numa embaixada amiga.
Antes de sair, Don Cooke destruiu as matrizes dos carimbos de vistos com uma barra de ferro para que não caíssem nas mãos dos iranianos. Mark, que estava encarregado do caixa, considerou pegar todo o dinheiro e metê-lo nos bolsos antes de trancar. Por fim, resolveu não fazer isso. Como todo mundo, ele ainda presumia que todos retornariam depois de alguns dias, e as coisas voltariam a correr como de hábito. Vários dias depois, quando estava nas ruas precisando de dinheiro, ele viria a lamentar sua decisão.
A porta principal do consulado se abria para uma pequena rua lateral, bem longe do caos da chancelaria. Depois de destrancar a porta, Richard Queen pôs a cabeça para fora e ficou surpreso ao
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ver que havia apenas um par de policiais iranianos nas cercanias.Com exceção deles, a rua estava completamente vazia.
O plano era deixar que os iranianos candidatos a vistos saíssem primeiro, seguidos pelos empregados iranianos e depois os americanos. Para não atrair demasiada atenção, Morefield sugeriu que os americanos se dividissem em dois grupos. Kim King, um turista americano cujo visto vencera e que viera ao consulado para resolver o problema, decidiu sair sozinho e desapareceu de imediato.
Mark, Cora, Joe, Kathy, Bob Ode e Lorraine, que viera ao consulado nesse dia para pedir um visto para seu marido iraniano, estavam no primeiro grupo de americanos a sair. Com eles estava uma funcionária iraniana que disse que poderia lhes servir de guia para ajudá-los a encontrar a embaixada britânica. Cora lembra que, ao saírem, por algum motivo os policiais iranianos checaram as bolsas de todo mundo.
Quando começaram a andar, Ode voltou para auxiliar um iraniano cego que disse estar esperando alguém para vir buscá-lo. Vendo o primeiro grupo partir, Bob Anders correu até alcançá-los.
Caminharam cerca de quinze minutos por uma das ruas laterais rumo à embaixada britânica. Estava chovendo pesado, e não demorou muito para ficarem totalmente ensopados. Mark se sentia especialmente vulnerável na chuva, vestindo um terno com colete e sem capa impermeável. Cora e a mulher iraniana tinham se adiantado um pouco e, ao dobrarem uma esquina, ficaram surpresas de ver que a embaixada britânica também tinha seus próprios problemas. Uma enorme massa de manifestantes estava diante dela, berrando, gritando e batendo nos portões. As duas mulheres retornaram para confabular com o restante do grupo. A embaixada britânica estava fora de cogitação. Para onde poderiam ir? Ao discutirem as opções, começaram a perceber que mais e mais iranianos passavam a observá-los. A funcionária ofereceu-se para levá-los para sua casa, mas nenhum dos americanos quis forçar a situação. Considerando que o apartamento de Anders era o mais próximo, ele sugeriu que fossem para lá secar-se e aguardar. Todos concordaram; a iraniana despediu-se e misturou-se à multidão.
Depois de auxiliar o cego a entrar num carro, Ode juntara-se ao segundo grupo, que consistia em Morefield, Lopez, Gary Lee, Richard Queen e Don Cooke. Eles não poderiam ter chamado mais atenção. Ao contrário do primeiro grupo, resolveram pegar uma rua maior que corria paralela à embaixada. Não tinham ido longe quando uma multidão de iranianos começou a gritar para eles: “CIA, CIA!” e “SAVAK!”. Finalmente, um dos policiais que tinham conferido as bolsas do lado de fora do consulado correu e deu um tiro para o alto. “Parem”, gritou. Morefield virou-se para ele e explicou
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que o prédio estava vazio e que podiam fazer o que bem quisessem.Logo, um grupo armado do komiteh correu para junto deles, e eles entenderam que tudo estava terminado. Um dos militantes agarrou Morefield pelo braço: “Você é nosso refém!”, ele disse. Morefield ficou perplexo. “Refém por quê?”, perguntou. Foi o primeiro sinal de que se tratava de mais do que uma simples manifestação. Para seu grande horror, foram declarados prisioneiros e escoltados de volta para a embaixada.
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COM ANDERS MOSTRANDO O caminho, o primeiro grupo fez um trajeto cheio de voltas, até retornar ao seu apartamento, passando por um posto de guarda komiteh em fila única para evitar suspeitas. O apartamento de um quarto era no térreo de um prédio de dois andares, com uma entrada direto da rua. Todavia, a rua estava tranquila, e, quando o grupo entrou, eles finalmente se sentiram a salvo. Secaram-se e Anders distribuiu todas as roupas extras que tinha. Mark ganhou um suéter em um tom de amarelo berrante. Ótimo, pensou, vão conseguir me localizar a um quilômetro de distância.
Em seguida, Anders tirou restos de um curry de galinha do congelador, esquentou e serviu um almoço tardio para todo mundo.
Como todo o pessoal da embaixada, ele tinha um pequeno rádio portátil de comunicação para situações de emergência, e todos se apertaram em torno dele para escutar. Os acontecimentos da chancelaria ainda estavam se desenrolando. A essa altura, Golacinski já fora capturado, mas os americanos do segundo andar ainda estavam por se render. Ocasionalmente, entrava uma voz na transmissão falando parse, indicando que o rádio de alguém fora tomado e a pessoa, provavelmente capturada. À medida que o dia transcorria, eles repararam que mais e mais vozes em parse entravam na rede.
Alguém que se autodenominava Palm Tree — Palmeira — transmitia informações sobre a invasão de algum ponto fora do complexo. “Agora estão tentando quebrar os para-raios no telhado”, disse a voz. “Os idiotas devem achar que são antenas de comunicação ou algo assim.”
“Quem diabos é esse?”, todo mundo quis saber.
A voz, ficariam sabendo, era de Lee Schatz, um sujeito alto e esguio do noroeste com um bigode em forma de guidão e um sorrisinho malicioso, adido agrícola em missão para o Departamento de Agricultura. Schatz trabalhava num prédio comercial a cerca de uma quadra e meia da embaixada.
Natural da região norte de Idaho, Schatz entrou para o Departamento de Agricultura americano depois de concluir o mestrado em economia agrícola na Universidade de Idaho em 1974. Passou os anos seguintes trabalhando na capital, até que na primavera de 1978 lhe deram seu primeiro posto no exterior, em Nova Délhi. Ele gostava do trabalho, que lhe permitia viajar. Deveria ser uma temporada de dois anos, mas, depois de apenas três meses no país, ofereceram-lhe um posto em Teerã, onde chefiaria o escritório. Tinha 31 anos na época e a oportunidade lhe pareceu boa demais para ignorar. O Irã era um enorme mercado agrícola para os produtos americanos, e ele estaria bem no centro de tudo. Todavia, como aconteceu com os outros americanos, ao chegar o país estava no meio de sua espiral política. As coisas tinham ficado tão ruins que o ministro da Agricultura se recusou a deixá-lo viajar para fora de Teerã, para inspeções, pois não poderia garantir sua segurança.
Como adido agrícola, Schatz geralmente comparecia à reunião matinal na chancelaria. Então, no caminho de volta, fazia um joguinho com uma de suas secretárias, dizendo-lhe que tinha “esquecido” a correspondência, para que ela pudesse dar uma passada para pegá-la, aproveitando para fazer uma visita a algumas de suas amigas.
Em 4 de novembro, quando voltava da embaixada para seu escritório na mesma rua, foi obrigado a esperar uma gigantesca manifestação passar na frente do portão principal da embaixada. Seu escritório ficava no segundo andar, com vista para a bomba da piscina da embaixada. Depois de dizer à secretária para pegar a correspondência, sentou-se à mesa e, minutos depois, surpreendeu-se quando espiou por acaso e a viu atravessando a rua apressadamente, dirigindo-se de volta ao edifício. Não demorou a entender a razão: um “tsunami” de iranianos derramava-se pelas paredes e pelos portões da embaixada. A invasão acabara de começar.
Alerta, Schatz permaneceu junto à janela, observando. Tinha consigo um radinho de comunicação, que imediatamente começou a irradiar as frenéticas conversas do dia. Logo ele ouviu Al Golacinski berrar: “Regresso! Regresso! Todos os fuzileiros ao Posto Um!”
Ficou espantado pela coordenação do ataque. Notou como alguns dos militantes paravam em pontos estratégicos, de onde podiam repassar as ordens entre si na falta de rádios ou dispositivos de comunicação. Notou também como, em vez de ser apenas uma corrida espontânea rumo à chancelaria, vários grupos irromperam juntos e invadiram rumando para direções que pareciam predeterminadas. Pegou seu rádio e relatou o que via. Todo mundo na embaixada recebera codinomes, e o dele era Palm Tree.
Num dado instante, ele fez uma pausa para anotar pedidos para o almoço de sua equipe e mandou o motorista buscar a comida. Mais tarde, enquanto comiam, Cecilia Lithander, funcionária consular da embaixada da Suécia, que ficava no andar de cima, entrou e lhe disse que o Departamento de Estado estava na linha, procurando por ele.
Antes de ir, disse à sua equipe para falar a quem viesse à sua procura que o tinham visto ir embora. Então, desejou a todos boa sorte e saiu porta afora.
No andar de cima, ao telefone, o Departamento de Estado pediu um comentário corrente sobre a invasão. A embaixada sueca ficava no quarto andar, e com um binóculo ele podia ver praticamente tudo. Ficou ao telefone até tarde da noite. A essa altura, uma multidão de quase um milhão de pessoas havia se juntado na frente da embaixada, obstruindo a rua e as calçadas. A atmosfera era festiva, como um parque de diversões. Havia famílias, crianças. As pessoas repetiam refrões e aplaudiam enquanto ambulantes se enfiavam pela multidão vendendo beterraba cozida.
* * *
NO APARTAMENTO DE ANDERS , o grupo começava a ficar inquieto. Anders e Joe tentavam ligar para os vários apartamentos para ver se mais alguém tinha saído, quando de súbito a linha ficou muda. Para piorar as coisas, a rede de rádio estava quase totalmente dominada por vozes falando parse. Palm Tree desaparecera havia muito tempo. Então, pouco depois das quatro e meia da tarde, ouviram a rendição dos americanos restantes, aqueles que se encontravam na sala fortificada. A partir daquele momento eles estavam por conta própria.
Perto das sete horas da noite, o marido iraniano de Lorraine apareceu com comida, e todo mundo jantou. Lorraine ofereceu-se para levá-los para sua casa, mas os americanos declinaram, não querendo colocá-la em risco com seu marido. (Seu marido seria mais tarde executado pelo governo revolucionário por algo não relacionado com os americanos.)
Sem um telefone, Anders resolveu subir para fazer algumas ligações do aparelho de sua senhoria. Isso deixou Mark ainda mais nervoso. Uma infindável quantidade de cenários possíveis se desenrolava na sua cabeça. Corria o boato de que o xá tivera em andamento uma extensa operação de escuta telefônica, e ninguém sabia em que medida a Guarda Revolucionária controlava esses grampos. Além disso, estariam de fato seguros no apartamento de Anders? A maioria das pessoas na vizinhança provavelmente sabia que havia um americano morando no prédio. Teria alguém os visto entrar e talvez chamado os militantes? Mark conhecera um funcionário da embaixada que tinha morado no apartamento antes de Bob, de modo que sabia que o imóvel deveria estar incluído no registro de moradias oficiais havia algum tempo. Duvidava que os militantes já tivessem tido tempo de descobrir os registros de moradias, mas quem podia ter certeza?
Após uma de suas viagens para o andar de cima, Anders retornou com novidades. Conseguira entrar em contato com Kathryn Koob, uma devota católica de 42 anos que trabalhava para a Agência de Comunicação Internacional, o setor do Serviço Exterior relacionado a programas de divulgação cultural. No Irã, ela era diretora executiva da Sociedade Irã-Estados Unidos, instituição que se parecia com um campus universitário, com auditório, biblioteca e salas de aula, localizado três quilômetros ao norte da embaixada americana. Koob explicara a Anders que ela e seu vice, Bill Royer, tinham ficado ao telefone o dia todo com o Departamento de Estado e, se quisessem, poderiam dar um pulo lá e manter a linha aberta. (Se a linha caísse, não havia garantia de que seria possível restabelecer a ligação com o Departamento de Estado.)
Felizes com a chance de entrar em contato com Koob, que todo mundo chamava de Kate, tanto os Lijek como os Stafford concordaram em ir. Às onze da noite, o motorista de Koob encostou na casa de Anders num minúsculo Citroën Deux Chevaux, e todos se amontoaram dentro do carro para a angustiante viagem de vinte minutos pela cidade. Anders decidira ficar em casa e assumir o turno da manhã.
Na manhã de 4 de novembro, Koob estava no meio de uma reunião de equipe quando um
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empregado iraniano interrompeu o encontro para contar a todos que a embaixada estava sob ataque. Seguindo o protocolo de segurança estabelecido por Golacinski, ela não telefonou, mas esperou junto ao telefone. Quando o final da manhã se transformou em tarde, porém, ela começou a ficar preocupada quando ninguém se deu o trabalho de lhe telefonar. No final, pouco depois de uma hora, não conseguiu
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mais esperar e ligou para a linha geral. Uma voz iraniana atendeu.“Embaixada americana”, disse. Ela pediu o ramal do escritório de assuntos públicos. “A embaixada está ocupada”, veio a resposta, seguida de um clique. Por fim, depois de ligar diretamente para outro ramal, conseguiu falar com alguém na central de comunicação, que recomendou que ela ligasse para o Departamento de Estado, o que ela fez. Então, passou a maior parte da tarde falando com o Departamento de Estado numa linha, enquanto Royer ficava na outra com os funcionários da central, recebendo as informações atualizadas.
* * *
QUANDO O GRUPO CHEGOU à sede da Sociedade Irã-Estados Unidos, pouco antes da meia-noite, os Lijek e os Stafford revezaram-se aos telefones. Descreveram suas provações aos funcionários do Departamento de Estado repetidas vezes. Qualquer coisa para manter a linha aberta.
Mark lembra-se de Joe pegar inexplicavelmente outra linha e ligar para a embaixada para falar com um dos reféns. A voz do outro lado da linha lhe disse que não havia ninguém disponível. “Bem, eles estão sendo tratados direito?”, Mark ouviu Joe perguntar. A voz indagou seu nome. “Meu nome é Joe Stafford”, ele respondeu, usando seu nome verdadeiro. Clique. A pessoa desligou. Mark sacudiu a cabeça, estarrecido.
Em certo momento, durante a permanência no local, eles tentaram fazer com que Koob e Royer se juntassem ao grupo e partissem com eles, mas Koob argumentou que, por dirigir um centro cultural, eles deveriam estar a salvo.
Os Lijek e os Stafford saíram às seis horas da manhã seguinte para evitar a hora do rush. Mark não queria voltar para casa porque sentia que sua senhoria era maluca. Ela ficava feliz por receber em dólares americanos, mas não deixava que estacionassem o carro na sua área porque receava que alguém amarrasse uma bomba nele e explodisse o prédio. O motorista de Koob fez uma parada rápida para que Mark e Cora pegassem algumas roupas. Em seguida, desceram todos na casa dos Stafford, onde passaram a manhã se lavando e tirando uma soneca.
Sem que os americanos soubessem, um grande drama agora se desenrolava na Sociedade Irã-Estados Unidos. Apenas algumas horas depois que os casais saíram, Koob e Royer estavam de volta aos telefones quando um grupo de militantes chegou. Um funcionário iraniano conseguiu avisá-los, e os dois saíram rapidamente pela porta dos fundos e pegaram o carro de uma das secretárias. Em poucos minutos estavam na rua principal, rumo ao Instituto Goethe, dirigido pelos alemães.
Passaram cerca de uma hora no Instituto Goethe, até saberem que os iranianos tinham ido embora. Então, retornaram e restabeleceram a conexão com Washington. O diretor da instituição alemã se oferecera para dar abrigo a Koob e Royer indefinidamente, mas Koob declinou. Pouco mais de uma hora depois, porém, os militantes regressaram, dessa vez cercando o prédio. Koob tentou se esconder no banheiro feminino, mas foi logo capturada e levada para a embaixada, junto com Royer e uma
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secretária americana que passara a primeira noite escondida nos apartamentos Bijon.
A primeira pessoa a saber de sua captura foi Vic Tomseth, que estava ao telefone com Koob quando os militantes voltaram.
Tomseth, junto com Bruce Laingen e Mike Howland, ainda estava no Ministério do Exterior tentando de tudo para resolver a crise. Estavam cientes também de que vários americanos tinham saído e estavam à solta em Teerã. Tomseth ligara para o consulado do Ministério do Exterior durante o
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assalto e dera aos funcionários o número do telefone em que ele e Laingen podiam ser encontrados.De fato, uma das primeiras ligações que Joe Stafford fizera do apartamento de Anders fora para Tomseth. Na esteira da captura de Koob, Tomseth se deu conta de que algo precisava ser feito em relação aos Lijek, aos Stafford e a Bob Anders. Agora, havia ficado claro que os iranianos estavam caçando
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americanos e era apenas uma questão de tempo até localizarem os cinco.Percebendo que o tempo era essencial, começou a tentar resolver o problema imediatamente.
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MAIS TARDE NESSA MANHÃ , os Lijek e os Stafford assustaram-se com o som do telefone tocando, mas ficaram felizes ao ouvir a voz de Vic Tomseth do outro lado. Tomseth ligara para o encarregado de assuntos britânicos e tinha algumas boas-novas. Os britânicos haviam concordado em deixar os americanos ficarem em seu complexo residencial, conhecido como Gholhak Gardens. Uma sensação de alívio tomou conta de todos. “Eles vão passar para pegar vocês mais ou menos em uma hora”, explicou Tomseth. Como Anders ainda não tinha um telefone funcionando, Mark usou o rádio de comunicação portátil para informar a Anders que dali a pouco um carro passaria para apanhá-lo.
Todos arrumaram as roupas que tinham e puseram-se a esperar. Quando a hora programada passou sem sinal de Tomseth ou dos britânicos, os Lijek e os Stafford começaram a ficar nervosos. Alguma coisa dera errado? Os militantes estariam vindo? Finalmente, por volta das cinco horas, Joe
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ligou para a embaixada britânica para descobrir que estavam em meio à sua própria crise. “Eles
estão pulando os muros!”, exclamou o encarregado de assuntos externos.
O carro prometido por fim chegou às seis horas, e os Lijek, junto com Joe, foram levados para o complexo residencial. Kathy, nesse meio-tempo, foi num segundo carro buscar Anders, que passara uma noite terrível, pois de sua casa podia ouvir o som da multidão aos berros diante da embaixada. Normalmente um sujeito fácil e de boa índole, sentia que seus nervos estavam à flor da pele. Quando Mark lhe disse que um carro viria apanhá-lo, perguntou-se se seria ou não uma cilada. Será que Mark estava com uma arma apontada para sua cabeça? Ao reconhecer um dos seus colegas da embaixada britânica estacionando, compreendeu imediatamente por que Mark não lhe dissera pelo rádio quem viria buscá-lo. Como os outros, Anders ficou aliviado de se mudar para um local do outro lado da cidade, longe da embaixada.
A viagem foi enervante para todos. O trânsito estava terrível, e muitas vezes o carro andava a passo de lesma. De forma inexplicável, Mark ainda vestia o suéter amarelo de Anders, o que lhe deu subitamente a sensação de ser um alvo. A cada parada de trânsito, ele tinha consciência dos olhares dos motoristas vizinhos. A cada minuto era mais difícil manter a calma.
A chegada ao complexo residencial liberou uma onda de alívio. Os britânicos foram anfitriões gentis e lhes ofereceram uma de suas casas, serviram-lhes uma refeição quente e até prepararam coquetéis. Como precaução, disseram-lhes para não acender nenhuma luz e, se possível, ficar longe das janelas. Também foram avisados sobre o vigia, que era membro de um komiteh local e ardente entusiasta da revolução. A despeito dessas preocupações, naquela noite dormiram profundamente, pela primeira vez sentindo-se seguros sob os cuidados do governo britânico.
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JÁ LEE SCHATZ PASSARA a noite na embaixada da Suécia, usando a bandeira daquele país como cobertor para manter-se aquecido. Na manhã de 5 de novembro, reassumiu seu posto junto à janela, observando e reportando. Teve alguma dificuldade em conseguir uma linha direta para Washington, mas, no final da manhã, pôde lhes dizer que um carro acabara de estacionar na embaixada com dezenas de rifles e metralhadoras que estavam sendo descarregados do porta-malas. Schatz tinha a impressão de que um segundo grupo se preparava para assumir o controle. Não tinha a menor ideia dos planos dos invasores.
Posteriormente naquela tarde ficou decidido que, para sua própria segurança e talvez também para a segurança dos suecos, ele deveria sair dali. Foi levado no carro do embaixador até a casa de Cecilia Lithander, a funcionária consular sueca que o avisara do telefonema. Sua casa localizava-se num bairro tranquilo no norte de Teerã, e, quando Schatz chegou lá, não pôde acreditar que estava na mesma cidade onde ocorrera o ataque à embaixada. Na mesma noite, ele e Cecilia saíram para dar uma volta no mercado local. Considerando-se tudo que havia se passado, foi uma bela noite.
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NA MANHÃ DE TERÇA-FEIRA, 6 de novembro, os americanos em Gholhak Gardens acordaram sentindo-se melhor em relação às suas perspectivas. Era uma área bonita, a casa espaçosa, e eles sentiam alguma paz de espírito por saber que tinham a proteção do governo britânico. Tinham ouvido de um diplomata inglês que o primeiro-ministro Bazargan acabara de renunciar, e começava a lhes ocorrer que era provável que a crise se intensificasse. Porém, saber que tinham encontrado um lugar relativamente seguro para se esconder apaziguava suas preocupações. É óbvio que estavam preocupados com os colegas na embaixada, mas a essa altura ainda não tinham sido informados do péssimo tratamento que os reféns recebiam. Por serem diplomatas, presumiam que o governo iraniano acabaria resolvendo as coisas e libertando os reféns. Além disso, perceberam que pouco havia que pudessem fazer. Tomaram um desjejum consistente e se instalaram para o que esperavam que fosse ser uma estada tranquila em meio ao caos que se desenrolava ao seu redor.
Não durou muito. Pouco depois do meio-dia, Tomseth ligou para lhes dizer que teriam de sair dali. No final das contas, aquela noite relaxante quase terminara em desastre sem que eles soubessem. Depois do ataque à embaixada britânica, um segundo grupo tinha aparecido em Gholhak Gardens. O guarda disse à multidão que estava todo mundo na embaixada, de modo que não restava ninguém para capturar. Foi por pura sorte que acreditaram nele, e nada garantia que não voltariam. E os britânicos não se sentiam mais capazes de garantir a segurança dos americanos. (Khomeini acabou ordenando que os invasores saíssem da embaixada britânica.) Tomseth recebeu um telefonema do encarregado de assuntos britânicos, que lhe disse que a presença dos americanos era perigosa demais para sua própria gente, e por isso eles precisavam partir.
Foi uma decepção enorme para todo mundo. Depois de todos os esforços, tinham voltado à estaca zero. Tomseth não lhes revelara que a multidão de iranianos tinha aparecido em Gholhak Gardens na noite anterior, e assim os americanos sentiram apenas que estavam sendo chutados dali.
Enquanto isso, no Ministério do Exterior, as coisas iam de mal a pior para Laingen, Tomseth e Howland, que, como consequência da renúncia de Bazargan, se sentiam menos como hóspedes e mais
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como prisioneiros. Sem aposentos no ministério, os três ficaram enfurnados na área de recepção
diplomática do edifício, um salão de baile repleto de lustres tchecos, tapetes persas e poltronas confortáveis. Passavam o tempo assistindo TV, ouvindo rádio, lendo jornais e revistas e lavando suas roupas, que penduravam para secar nos lustres tchecos. Ocasionalmente, um criado iraniano trazia chá. Na manhã de 6 de novembro, o chefe do protocolo, Ali Shokouhian, um diplomata iraniano da velha escola que simpatizava com a causa americana, lhes disse que tivessem cuidado para não fazer
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muitas ligações locais. Tomseth desconfiara desde o começo que suas conversas telefônicas pudessem
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estar sendo monitoradas, e a advertência de Shokouhian confirmou suas suspeitas. A partir daquele
momento, teriam de ser cuidadosos na hora de escolher com quem falar, o que complicava imensamente a comunicação com os americanos fugitivos.
Tomseth, porém, bolou uma solução engenhosa. Graças a missões passadas, ele sabia falar tailandês, uma língua que tinha bastante certeza de que os iranianos não poderiam entender. Acontecia que o cozinheiro de Kathryn Koob, Somchai “Sam” Sriweawnetr, era tailandês. Falando o idioma, ele ligou para Sam e os dois elaboraram um plano. A esposa de Sam trabalhava para John Graves, o chefe de assuntos públicos da embaixada, que fora capturado nos primeiros minutos do assalto. A casa de Graves ficava numa parte relativamente sossegada no norte de Teerã, longe da embaixada, e Sam julgou que poderia ser um bom lugar para eles se esconderem. No mínimo, raciocinou Tomseth, Sam e sua esposa estariam ali para ajudar a cuidar dos fugitivos americanos, o que já seria de grande valia.
Quando os Lijek, os Stafford e Bob Anders ficaram sabendo dessa solução, ficaram longe de entusiasmados. Mais uma vez estariam voltando para uma casa pertencente a um funcionário da embaixada americana. Para Mark, parecia lógico que os militantes não demorariam a começar a revistar as casas dos americanos em busca de fugitivos ou algum outro contrabando que pudesse ser usado como evidência de espionagem. E, no entanto, não tinham outra escolha a não ser ir.
Nessa noite, eles jantaram na casa de um diplomata britânico, despediram-se e foram levados pelos britânicos até a casa de Graves. Sam lhes disse que havia um velho nas redondezas que pertencia a um komiteh, e, ao se aproximarem da casa, viram alguém na rua que acabou dando uma boa olhada neles. Seria o tal sujeito? Ninguém sabia dizer com certeza.
À primeira vista, a casa de Graves parecia um local perfeito para não ser notado. Era grande, com três ou quatro dormitórios, numa estrutura em vários níveis, com quartos de empregados, tudo cercado por um muro. Era também afastada da rua o suficiente para poderem se movimentar livremente sem se preocupar em serem vistos. Lá, de certa forma, eles foram mimados. Além de Sam e de sua esposa, havia uma governanta tailandesa idosa, e os três cozinhavam e faziam a limpeza para os americanos, o que lhes poupou o incômodo, e o risco, de serem obrigados a sair. Como não havia TV nem livros, para passar o tempo jogavam pôquer e dormiam.
Um dia, enquanto procuravam algo para fazer, descobriram um filme de 16 mm num dos armários. Como Graves era funcionário de imprensa da embaixada, não haveria nada de extraordinário em ter um projetor para exibir esses filmes. Encontraram o projetor e começaram a assistir ao filme, porém logo perceberam que era um filme sobre a coroação do xá. Perfeito, pensou Mark. Um grupo do komiteh chega aqui invadindo tudo e nos encontra assistindo a um filme sobre o xá. Rapidamente desligaram o projetor e esconderam o filme num buraco do teto.
Depois de dois dias, a preocupação de que os militantes pudessem estar nos seus calcanhares começou a devorá-los. A casa de Kate Koob ficava a apenas três quadras de distância; então, ao primeiro sinal de perigo, sairiam correndo pela porta dos fundos, pulariam o muro e tentariam chegar até a casa dela. No entanto, nenhum deles tinha familiaridade com o bairro, e Anders ficou preocupado com a possibilidade de se perderem e serem capturados.
Para piorar as coisas, a idosa governanta tailandesa vinha ficando mais e mais irracional à medida que os dias se passavam. Acusou os americanos de beberem todo o vinho da casa (uma garrafa) e de comerem a comida toda. “O que vou dizer para o Sr. Graves quando ele voltar?”, ela lhes perguntou. Não adiantaria nada, perceberam eles, dizer-lhe que o Sr. Graves não voltaria tão cedo. À medida que foi ficando cada vez mais difícil, consideraram a possibilidade de trancá-la no porão, mas depressa perceberam que isso lhes traria mais problemas.
À noite, podiam ouvir o velho vigia komiteh passar continuamente pela casa soprando seu apito, dando a impressão de que só queria lembrar aos americanos que eles estavam presos lá dentro. O vigia tornava quase impossível relaxar.
Na quinta-feira, 8 de novembro, Laingen ligou do Ministério do Exterior para lhes dizer que o governo iraniano iria cortar as linhas telefônicas e que não poderiam mais dar telefonemas. Os americanos estariam agora por sua própria conta. “Boa sorte”, foi tudo que Laingen pôde lhes dizer antes de desligar.
A essa altura, a tensão estava começando a ficar insuportável. Além da chamada final de Laingen, nesse ponto a notícia da captura de Koob já tinha chegado aos seus ouvidos, fazendo o moral despencar ainda mais. Sentiam-se isolados, abandonados, desamparados. Não tinham a menor dúvida de que os militantes estavam do lado de fora, à espera, dando um tempo antes de irromper porta da frente adentro.
E exatamente quando pensavam que a situação não poderia piorar ela piorou. No dia 9 de novembro, Sam chegou à casa e lhes disse que seus maiores temores haviam se concretizado: os
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militantes sabiam onde eles estavam e vinham buscá-los. Sam ouvira a notícia de um jardineiro num
dos apartamentos de um americano que estava detido na embaixada. O jardineiro estava trabalhando naquela manhã, quando um grupo de militantes apareceu e revistou o lugar. Era a pior situação imaginada por Mark transformando-se em realidade. Sam disse aos americanos que deveriam se aprontar para partir. Se aparecesse alguém, o plano ainda era tentar alcançar a casa de Koob.
Nessa noite, todo mundo dormiu de roupa, pronto para dar no pé ao primeiro sinal de perigo. Kathy e Cora dividiram o quarto, enquanto Mark, Joe e Bob ficaram acordados na sala durante a maior parte da noite, conversando e pensando. Mark estava especialmente preocupado com Cora. Pensava nos fatos que tinham levado sua esposa a vir para o Irã. Eles tinham sido namorados de faculdade e se casaram assim que ela se formou. Inicialmente, quando Mark chegou ao Irã e viu como as coisas estavam malparadas, resolveu pensar melhor — os funcionários do Departamento de Estado, pensou, haviam pintado um quadro muito mais róseo do que a realidade. Cora lhe disse que ele estava exagerando. Agora, gostaria de ter firmado o pé e convencido a mulher a não vir. Junto com Joe e Kathy, eram os únicos casais da embaixada no Irã, e sua principal preocupação era que ele e Cora fossem capturados e os militantes os usassem um contra o outro. Ele pensava nas maneiras como ela podia ser maltratada, machucada — qualquer coisa que quisessem tirar dele, e vice-versa. Isso o fazia sentir-se vulnerável. Não era um filme de Hollywood, mas a vida real. As apostas eram altas.
Enquanto os americanos estavam sentados na sala, lá fora o komiteh solitário fazia suas rondas noturnas, o apito rompendo a calma com seu lamento estridente. O alçapão fechava-se à sua volta, e eles sabiam disso. E tinham a sensação de que não havia nada a fazer.