Argo
8. História de cobertura
fantasiando fugas. Depois de ler tantos romances de Le Carré, Schatz teve uma boa ideia de como 8 poderia fugir. Em uma das situações que imaginou, ele usava “um traje nativo” para se misturar à população ao cruzar a pé a fronteira com o Paquistão. Em outra, pegava um carro que deixara escondido em algum lugar da cidade e guiava até a fronteira turca. Numa terceira fantasia, ele controlava uma pequena lancha que cruzava a toda velocidade o Golfo Pérsico, enquanto o caos do Irã desaparecia atrás de si num nevoeiro. Quanto mais lia, mais fantasiava.
Os outros também estavam ficando irrequietos. A essa altura, já tinham jogado tanto Scrabble que eram capazes de reconhecer as pecinhas pela textura da madeira no verso de cada uma. Depois de quase dois meses, começaram a se sentir esquecidos e a questionar se alguma coisa estava sendo feita para salvá-los.
Sua única fonte de notícias era a transmissão da BBC pela manhã. Mark criara o hábito de dormir tarde e geralmente perdia o programa, de modo que Anders lhe fazia um resumo. Numa tentativa de desviar a ira dirigida aos Estados Unidos, o xá, que estava com saúde suficiente para viajar, deixara o país em 15 de dezembro e fora para o Panamá. Os militantes, porém, pareceram não se importar. Na cabeça deles, eram os Estados Unidos que estavam por trás da manobra, não o Panamá. Para piorar as coisas, em 26 de dezembro os soviéticos invadiram o Afeganistão, o que só serviu para aumentar a tensão na área. Com o exército soviético combatendo às portas do Irã, as opções militares para um ataque ao Irã ficaram ainda mais limitadas. Numa estranha virada, a Casa Branca subitamente se viu na desconfortável posição de ter de fazer todo o possível para trazer os reféns para casa e ao mesmo tempo tentar conter a agressão soviética na região. Sob muitos aspectos, a invasão do Afeganistão se tornou a faísca inicial que acabaria por levar Irã e Estados Unidos de volta para a mesa de negociações. No entanto, ninguém poderia prever isso. O Irã tinha passado por uma série de novos ministros do Exterior, cada um mais incompetente que o anterior. A vontade da Guarda Revolucionária não podia ser questionada por motivo nenhum, e qualquer um que fosse visto negociando com os Estados Unidos era rotulado de traidor. E, ainda por cima, os militantes na embaixada continuavam a estimular a histeria revolucionária arrastando a nação com sua retórica e exibições públicas de americanos vendados, todos eles mentirosos, todos eles espiões, todos eles prontos para destruir a revolução.
Não é de admirar, portanto, que, em 31 de dezembro, quando o secretário-geral da ONU, Kurt Waldheim, viajou ao Irã numa tentativa de mitigar a crise, ele quase tenha sido agredido no aeroporto por turbas iradas. Como se a humilhação não fosse suficiente, naquela mesma tarde ele foi recriminado pelo Conselho Revolucionário e, sem a menor cerimônia, mandado de volta para casa como um cachorro com o rabo entre as pernas. Alguns dias depois, ele se reuniria com funcionários da Casa Branca para relatar o ocorrido. Conforme escreveu o presidente Carter em Keeping Faith [Mantendo a
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fé], Waldheim tinha lágrimas nos olhos ao falar da visita e acreditava que “tinha sorte de estar vivo”.
O Natal ajudou a quebrar a monotonia dos hóspedes, ainda que por apenas alguns dias. Para entrar no espírito, Cora resolveu assar biscoitos de Natal. Os Sheardown tinham uma enorme bancada que logo ficou coberta por todos os tipos de biscoitos confeitados. Mark e Lee estavam ajudando a enfeitá-los quando, de repente, uma secretária iraniana da embaixada canadense apareceu na porta, e eles foram forçados a abandonar o trabalho. Obviamente, Taylor não havia informado sobre os hóspedes a nenhum dos funcionários iranianos. Quando a secretária entrou na cozinha, Zena precisou fingir que os biscoitos eram um de seus projetos. A secretária ficou impressionada, dizendo que sempre tivera curiosidade de saber o que Zena fazia enquanto estava em casa.
Uma noite, quando Roger Lucy transportava os hóspedes de volta da casa dos Taylor, Lee, Mark e Bob pararam do lado de fora da garagem. Havia nevado recentemente, e eles não puderam resistir à vontade de pegar um pouco de neve nas mãos e jogar bolas de neve num poste de luz próximo. Riam como crianças até que lhes ocorreu o que poderia acontecer a eles se o poste fosse danificado. Sem dúvida, resultaria numa visita do komiteh local. Imediatamente pararam de fazer farra e entraram na casa.
Para o Natal, John dera um jeito de comprar um enorme peru numa fazenda nos arredores de Teerã, e todo mundo ofereceu sua contribuição. Lee assumiu o comando no preparo da ave, junto com um guarda de segurança da embaixada canadense que era ex-cozinheiro do exército. Bem ao estilo do programa de televisão Galloping Gourmet (em que o cozinheiro fazia as receitas tomando taças de vinho), eles começaram a beber cedo. O peru era tão grande que foi preciso duas pessoas para levar a assadeira ao forno, uma de cada lado. No final do processo, tiraram a ave do forno para ver se estava no ponto, e um deles tropeçou. O peru escorregou da assadeira e caiu no chão. Os dois se entreolharam, depois olharam a porta da cozinha, pegaram rapidamente tudo do chão e puseram de volta na assadeira. Quando acabaram de limpar, os dois chefs ergueram um brinde por terem salvado a refeição. Mais tarde, o embaixador Taylor trouxe os Stafford e todos se sentaram à mesa para saborear a ceia sem fazer a mínima ideia do que havia acontecido.
Como presentes, Schatz trouxe rosários de contas e tapetes de orações de Khomeini para todos. “Vou usar o meu como capacho na porta”, ele disse. Outros sugeriram usar o tapete para treinar filhotes de cães. Numa tirada irônica, o governo iraniano dera aos Sheardown uma lata de caviar como presente de Natal, e todos a devoraram felizes. Olhando para trás, os hóspedes se recordam do Natal de 1979 com carinho, percebendo corretamente que tiveram uma sorte incrível por poderem celebrá-lo na casa dos Sheardown, e não aprisionados com seus colegas na embaixada dos Estados Unidos.
Os militantes haviam prometido aos reféns na embaixada que poderiam participar de algum tipo de comemoração de Natal, incluindo uma cerimônia religiosa e a possibilidade de se confessar. Em vez disso, ganharam uma farsa. Em grupos de três ou quatro, foram conduzidos a uma sala toda decorada. Havia uma árvore de Natal com luzes cintilantes no canto e mesas repletas de presentes, alguns enviados por americanos, especialmente para elevar o ânimo dos reféns. Convidaram três clérigos americanos para estar presentes, e os prisioneiros foram filmados sentados em sofás cantando
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Noite Feliz acompanhados por um dos três ao piano.É claro que, enquanto essa cena aparentemente inócua se desenrolava, uma fileira de militantes se mantinha atrás da câmera, girando pistolas e acariciando rifles. Antes de entrar na sala, os reféns foram avisados de que não tinham permissão de falar.
Reconhecendo o real significado daquela situação, muitos reféns se recusaram a falar com os religiosos, a quem consideravam traidores por ajudar os militantes. Alguns se aborreceram quando um deles, William Sloane Coffin, da Igreja Unida de Cristo, sugeriu que os americanos cantassem e dessem
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as mãos aos iranianos em sinal de solidariedade. Para a maioria dos reféns, a cerimônia serviu apenas para lhes recordar aquilo de que mais sentiam falta: o lar. Um deles descreveu mais tarde esse momento como o instante em que chegou ao fundo do poço.
Ainda assim, algo positivo emergiu de toda a experiência: os clérigos conseguiram deixar claro para os reféns que as pessoas em casa se importavam com eles, e muito. Por todos os Estados Unidos, cerimônias especiais de Natal foram realizadas em homenagem aos reféns, enquanto nas escolas as crianças escreviam cartões e mandavam doces e biscoitos. Para a maioria dos reféns, que não tinham permissão de receber correspondência, foi a primeira vez que tomaram conhecimento de uma reação pública nos Estados Unidos. E sentiram-se reanimados por saber que havia uma nação inteira torcendo por eles e rezando para que voltassem para casa sãos e salvos.
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NO COMEÇO DE JANEIRO, eu senti que estávamos prontos para viajar a Ottawa e apresentar o nosso caso aos canadenses. Antes de partir, porém, eu precisava ir ao quartel-general da Divisão do Oriente Próximo e conversar com eles. O subchefe, Eric Neff, estivera recentemente em Ottawa, e eu queria descobrir a melhor maneira de agir com o governo canadense.
O escritório de Eric, no sexto andar do edifício-sede, era espaçoso para os padrões da central, com muita luz entrando por janelas altas com vista panorâmica para as copas das árvores. Eram as
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mesmas árvores que haviam levado Allen Dullesa declarar que o complexo de Langley mais parecia um campus do que uma instalação governamental.
Como sempre, Eric estava vestido de forma excessivamente refinada, com uma gravata de bolinhas, abotoaduras francesas e botas feitas sob medida. Ele contrastava de forma radical com o resto da população masculina da CIA, que trajava paletós de tweed Harris, camisas sociais, gravatas estampadas e sapatos de couro com bicos redondos, quase como uniforme. Para Eric, o código de vestimenta era sempre formal. Os outros sujeitos da divisão muitas vezes reclamavam, comentando que se algum dia fossem convidados para jantar na casa de Eric seriam solicitados a calçar sapatos sociais de verniz. Eric e eu havíamos trabalhado juntos num projeto no sul da Ásia quando ele era chefe da CIA lá, e eu sentia admiração pelas suas habilidades. Também estavam na reunião Joe Missouri e Hal, o chefe da Divisão do Oriente Próximo para o Irã.
Assim que o caso dos hóspedes se tornou prioridade máxima, Eric viajara ao Canadá para fazer o contato inicial da CIA. Enquanto estava em Ottawa, ele conseguiu estabelecer um método de comunicação especial por meio do qual podíamos contatar Ken Taylor em Teerã via Ottawa. Era um canal muito eficaz e no mês seguinte se tornaria praticamente a nossa linha privativa compartimentada. Nos meus contatos com Ken Taylor, eu encontraria uma alma gêmea. Ele se saíra de forma admirável ao dar abrigo aos reféns e fora um valioso intermediário para o Departamento de Estado e os diplomatas presos no Ministério do Exterior. Parecia pegar as coisas com rapidez e tinha o talento de guardar segredos, qualidades que o tornariam um elemento valioso para nós em Teerã. Uma das primeiras coisas que fiz foi lhe perguntar quais seriam as opções de fachada para os hóspedes.
A essa altura, porém, a questão-chave era a documentação.
— Podemos pedir aos canadenses para usar seus passaportes? — indaguei a Eric, indo direto ao ponto.
Ele disse, em tom ligeiramente defensivo, que já tinha tocado no assunto.
— Mas você pode falar de novo se quiser — prosseguiu.
Assenti com a cabeça e lhe contei que o faria. Indiquei Joe e mencionei que o levaria comigo, e em seguida apresentei o jovem agente a Eric e Hal. Joe estava vestido mais como um professor desleixado do que como um dos agentes de Eric em traje completo e pareceu hesitante, quase se desculpando, ao apertar sua mão.
O papel de Joe em Ottawa seria estabelecer a continuidade entre a CIA e os canadenses, essencialmente criando parcerias entre seus colegas do EST e os parceiros em Ottawa. Isso me deixaria livre para fazer negociações mais estratégicas com os canadenses, Teerã e o governo dos Estados Unidos. Lidar com o Departamento de Estado, com a Casa Branca e com a cúpula da CIA, trabalhando por intermédio de Eric, era uma tarefa intimidante. Em breve eu descobriria que a simplicidade com que o governo canadense operava era um sonho, em comparação.
Eric era autoritário por natureza. Ele não estava realmente seguro de como eu iria proceder, mas tentou de fato exercer alguns dos privilégios de seu cargo. Suas instruções eram um pouco empoladas, mas a intenção era boa. Por exemplo, ao responder à minha pergunta sobre os passaportes dizendo que já tinha tratado do assunto, ficou um pouco irritado quando avisei que voltaria a abordar o tema — quase como se eu tivesse pisado no seu pé. Eric estava tentando descobrir como conduzir a exfiltração, algo que nunca fizera antes, e se apresentar ao Canadá como um especialista. Ele era também o canal entre o presidente Carter e Stansfield Turner, diretor da CIA. Era como um tripé: o presidente, o diretor e os canadenses. A função de Eric era manter um equilíbrio delicado entre os políticos e os elementos clandestinos em campo. Eu não o invejava.
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O CÉU DE INVERNO estava cinzento e havia vestígios de neve no solo quando nosso avião pousou em Ottawa. A cidade em si me deu a sensação de ser um tanto maltratada, mas os prédios do Parlamento davam certo ar de elegância ao que era essencialmente uma cidade pequena.
Registramo-nos no Lord Elgin Hotel, um gótico e imponente aglomerado de pedras no meio de Ottawa, perto da maioria dos edifícios governamentais. Era decorado com fotos, quadros e arranjos cheios de tulipas, um contraste incongruente em meio à escuridão dos dias do inverno canadense.
Como se fosse necessário um lembrete de que a vida de um espião de verdade nada tinha a ver com o que vemos nos filmes, a bagagem de Joe fora extraviada pela companhia aérea. E, somente com a roupa do corpo, ele foi obrigado a pegar emprestado um de meus suéteres de esqui, que vestiria durante os dez dias em que permaneceu na capital do Canadá. Por estranho que pareça, não seria a única peça de roupa que eu viria a perder nessa operação.
No dia seguinte, Joe e eu nos dirigimos à embaixada dos Estados Unidos para nossa primeira reunião com os integrantes da sucursal canadense da CIA. O chefe da Agência em Ottawa, um homem alto, magro e de meia-idade, repassou animado as reuniões que nos havia preparado para esse dia.
Na primeira delas, mais tarde nessa mesma manhã, Joe e eu fomos direto ao ponto. Sentamo-nos diante de um homem de meia-idade mirrado, mas vestido de forma impecável. Vou chamá-lo de “Lon Delgado”. Ele juntou as mãos e me olhou direto nos olhos.
— O que posso fazer por vocês? — indagou.
— Estamos aqui, em primeiro lugar, para lhe agradecer por tudo que o Canadá tem feito pelos Estados Unidos neste caso — respondi. — Em segundo lugar, como pode imaginar, estamos aqui de chapéu na mão, pedindo mais favores. E pedimos desculpas por isso. Sentimo-nos afortunados por nossas relações, governo a governo, serem tão benéficas.
Fiz uma pausa, medindo as palavras.
— Na sua opinião, quais seriam nossas chances de obter permissão para usarmos passaportes canadenses para fornecer uma fachada aos nossos seis diplomatas? — Pronto, estava dito. A coisa que mais queríamos e que julgávamos que seria a mais difícil de negociar. Eu me dei conta de que estávamos pedindo aos canadenses que abrissem uma exceção à sua própria lei de passaportes. Minha pesquisa revelara que a única maneira de fazer isso seria com uma permissão especial do Parlamento.
O Sr. Delgado abriu uma pasta à sua frente e retirou um pedaço de papel com um grande lacre vermelho. Pôs a folha de lado e suavizou seu comportamento ao responder:
— Acho que já fizemos isso — ele disse.
Ficamos estarrecidos. Tentei imaginar o que seria para o representante de um governo estrangeiro vir a Washington e pedir ao Congresso dos Estados Unidos que abrisse uma exceção à nossa própria lei de passaportes. Não se tratava de um assunto sem importância.
O que eu não sabia era que os canadenses vinham trabalhando no problema dos passaportes havia algum tempo. Desde o dia em que os hóspedes passaram a seus cuidados, creio que os canadenses perceberam a lógica de deixá-los usar documentação de seu país. Posteriormente, eu viria a descobrir que a autorização fora aprovada durante uma sessão ordinária do Parlamento, quando Flora MacDonald, trabalhando em consonância com o primeiro-ministro Joe Clark, havia manipulado a questão de tal modo que esta pudera passar sem discussão. Isso ocorreu porque, para começar, apenas poucos ministros sabiam de alguma coisa sobre os hóspedes, e o sigilo era de suma importância.
A essa altura, decidi forçar a nossa sorte e perguntar a Delgado se podíamos ter seis de reserva para os seis hóspedes, como uma margem de manobra para a operação, bem como dois passaportes adicionais para uso dos “acompanhantes” da CIA. Lon concordou em arranjar os documentos extras para os hóspedes, mas rejeitou nosso último pedido. A exceção à lei valia para os refugiados, e não para agentes da inteligência.
— Sinto muito — ele disse —, mas você vai ter que se virar com os seus.
Há um entendimento entre as agências de que não existe algo como um serviço de inteligência “amistoso”. Nesse momento da história, o Canadá nem admitia ter um serviço secreto. Porém aquele homem estava provavelmente muito perto de incorporar tais atribuições. E a sensação com certeza era amistosa. O Sr. Delgado prosseguiu:
— Você tem uma lista de nomes a serem usados para os passaportes? — ele perguntou. — Além disso, também vamos precisar de fotografias.
Sem hesitar, Joe abriu sua maleta e retirou um envelope onde se encontrava a lista de nomes que já tinha sido preparada para as identidades falsas dos seis. Acompanhando cada nome havia uma fotografia própria para passaporte. Ao longo da margem vertical de cada foto, havíamos forjado os nomes falsos na caligrafia de cada um dos seis hóspedes. Era assim que deveriam constar nos passaportes canadenses.
O Sr. Delgado deu uma rápida olhada no material. Comentou que as fotos pareciam boas, mas que um dos nomes que havíamos escolhido tinha uma sonoridade ligeiramente semítica — o que não era uma boa ideia num país muçulmano. Achou que deveríamos corrigir isso, e Joe sugeriu um novo nome. Delgado aquiesceu com um meneio afirmativo e Joe tirou outra foto limpa de Kathy Stafford, estendendo-a a mim.
— Você é o artista-autenticador, Tony — disse ele.
Usando uma técnica que eu aprendera nos meus primeiros dias do “cercado”, posicionei a foto no canto da mesa de Delgado e assinei o novo nome de Kathy na sua caligrafia.
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JOE E EU SAÍMOS da reunião animados. A primeira fase do nosso plano estava dando certo com muito menos esforço do que imagináramos. Tínhamos a promessa de seis passaportes canadenses para os nossos cidadãos, além de um jogo de duplicatas, o que nos daria uma opção para um plano B se fosse necessário.
Depois de um intervalo para o almoço no Lord Elgin, fomos apanhados por um carro oficial e levados para o Ministério da Defesa.
Antes de seguir para o Canadá, soubemos que o embaixador Taylor estava enxugando o pessoal de sua representação, o que poderia nos ajudar na hora de obter as informações de que necessitávamos. De especial interesse para nós era a polícia militar que trabalhava lá. Muitos dos policiais militares eram bastante viajados e tinham familiaridade com os procedimentos de fronteira por todo o mundo. Queríamos montar um sistema para que, caso mais algum deles entrasse ou saísse do país pelo Aeroporto de Mehrabad, pudéssemos obter um relatório detalhado sobre a fiscalização em vigor.
Com isso resolvido, retornei a Washington na manhã seguinte, deixando Joe no Canadá para acompanhar a emissão dos passaportes e se reunir com as forças nacionais de segurança que nos ajudariam a acertar toda a documentação para complementar os passaportes. Eles também providenciariam a aquisição de um visto iraniano emitido no Canadá. Joe passaria os dez dias seguintes no país cuidando dessas tarefas.
Embarquei no meu voo de volta com a sensação de dever cumprido, acompanhado pelo alívio de termos sido capazes de dar um grande impulso no projeto. Também senti gratidão por estarmos trabalhando com um vizinho realmente solidário ao problema americano.
A caminho de casa, refleti sobre o Canadá e seu governo. O mantra “O negócio é ser pequeno” girava na minha cabeça. O governo canadense parecia pronto e capaz de pinçar um fio de cabelo se necessário, enquanto o nosso parecia lerdo e paquidérmico em comparação. O fato de os canadenses terem antecipado as nossas necessidades e dado os passos extraordinários exigidos para nos atender era um tanto avassalador e, com toda certeza, sem precedentes. Eles estavam redefinindo o que significava ser um bom vizinho.
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COM A QUESTÃO DOS documentos solucionada, podíamos nos concentrar na questão da história de fachada. A importância de ter uma boa história acompanhada da documentação pode ser às vezes a diferença entre vida e morte. Um dos mais famosos casos na CIA aconteceu em Cuba em 1960. Um grupo de três técnicos de áudio, Thornton Anderson, Walter Szuminski e David Christ, todos da Divisão de Serviços Técnicos, havia viajado para Cuba numa missão de grampo e escuta. Atuavam no papel de três turistas americanos que estavam ali para se divertir. Todos carregavam documentos forjados dizendo que eram engenheiros elétricos, nas carteiras levavam cartões de crédito e carteiras de motorista, tudo falsificado pelos técnicos competentes que lhes haviam fornecido suas identidades falsas. O real propósito de viagem para Cuba era instalar escutas clandestinas num prédio que deveria se tornar a embaixada de um importante e visado país do Terceiro Mundo. Em meio à instalação dos dispositivos, porém, eles foram capturados e jogados na prisão local. Se apenas um deles soltasse a língua, ou fosse detectada alguma falha em sua documentação, seriam rotulados de espiões e provavelmente executados. No final das contas, os homens passaram quase um mês sofrendo duros interrogatórios noturnos, mas não se dobraram. Acabaram sendo transferidos para uma notória prisão nos arredores de Havana e finalmente soltos três anos depois, quando o governo americano conseguiu trocá-los por tratores. Durante todo esse tempo, a fachada foi mantida e eles nunca foram condenados por espionagem. Pela sua coragem, os três receberiam a mais elevada medalha de bravura da Agência, a Distinta Cruz da Inteligência.
Quando voltei a Foggy Bottom, minha equipe e eu começamos uma busca generalizada de informações sobre os tipos de grupos que viajavam entrando e saindo pelo Aeroporto de Mehrabad. Logo descobrimos que grupos que viajavam legalmente para o Irã incluíam técnicos de companhias de exploração de petróleo com base na Europa, jornalistas de todas as nacionalidades cobrindo a questão dos reféns, toda espécie de caçadores de curiosidades e trabalhadores de assistência humanitária de todo o mundo. Muitos eram cidadãos americanos. Nenhum se encaixava nos nossos objetivos, dados os perfis e padrões desses grupos, e um meticuloso escrutínio lhes era aplicado pelos serviços de segurança e imigração iranianos.
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DIFERENTEMENTE DO QUE ACONTECE no cinema, as histórias de fachada geralmente são planejadas para serem tediosas e não chamar a atenção. Também são escolhidas com base na experiência da pessoa. Existem vários fatores que entram no processo. A pessoa fala alguma língua estrangeira e pode passar por alguém de outra nacionalidade? Ela possui algum treinamento clandestino? Havíamos transformado tanto NESTOR quanto RAPTOR em homens de negócios. No passado, viajei como turista ou diplomata de médio escalão, situações que eu podia administrar com facilidade. Tão importante como quem a pessoa pode ser é sua habilidade de vestir uma nova identidade e torná-la passível de crédito. Por isso foi tão importante que Jacob Jordan se encontrasse com NESTOR, e era por isso que agora eu propunha à central que mandássemos uma equipe para fazer uma avaliação dos hóspedes. Qualquer que fosse o motivo que inventássemos para justificar sua estada no Irã, tinha de ser algo que pudessem vestir com o mesmo conforto que uma roupa, algo que lhes caísse bem, quase como uma segunda natureza. Não é tarefa fácil quando se está lidando com seis amadores.
O Departamento de Estado havia proposto que os seis usassem documentação americana e fossem disfarçados de professores de inglês desempregados que tinham viajado para o Irã presumivelmente para encontrar trabalho, ao passo que a ideia de Ottawa era transformar os hóspedes em nutricionistas que viajaram ao Irã para inspecionar colheitas. Uma terceira opção sugeria que bancassem funcionários de companhias petrolíferas. Nenhuma dessas opções despertava o meu entusiasmo. A maioria das escolas de inglês em Teerã tinha fechado meses antes, e seria esquisito ter um grupo tão grande de professores desempregados aparecendo todos juntos. No que se referia aos planos canadenses, eu não acreditava que levasse muito tempo até um guarda revolucionário perceber que essas pessoas não entendiam nada de agricultura ou petróleo. O Irã ficava totalmente coberto de neve no inverno e simplesmente não seria plausível que um grupo de nutricionistas estivesse inspecionando colheitas naquela época do ano.
Precisávamos de uma fachada que ajudasse a engajá-los, que fizesse com que acreditassem em nós e se tornassem participantes dispostos. Fingir ser alguém diferente não é algo fácil como parece, especialmente se sua vida está em jogo. Eu já vira agentes treinados como RAPTOR, acostumados a operações em campo, quase desmoronarem sob a pressão.
Discuti com minha equipe os prós e contras de cada opção. Todo mundo pareceu concordar com a minha avaliação, mas ninguém tinha uma ideia melhor.
Com tanto por fazer, interrompi a reunião e decidimos nos reencontrar depois.
Passamos o resto da semana tentando resolver o problema, mas não conseguimos conceber nada de novo. Então, quando estava parado no meu ateliê aprontando-me para voltar a Ottawa e conferir as coisas com Joe, de repente me ocorreu uma ideia. Se, por um lado, era verdade que histórias de fachada deveriam ser triviais, aqui não estávamos lidando com uma situação comum. Então, em vez de uma história sem graça, e se fôssemos na direção oposta? E se bolássemos uma história tão fantástica que ninguém acreditaria que estivesse sendo usada com propósitos operacionais? limites dos efeitos visuais e da maquiagem. Calloway fora trazido pela produção especificamente para 9 conceber a tomada que seria a marca registrada de cada episódio — o ardiloso espião por fim revelando sua verdadeira identidade. O programa, junto com um filme em que Calloway trabalhara mais ou menos no mesmo período, chamou a atenção de Lou Terno, que na época chefiava o setor de disfarces da CIA. Como no programa de TV, durante o filme uma sucessão de atores conhecidos magicamente revelavam suas belas figuras depois de remover uma série de disfarces esquisitíssimos, mas inteiramente dignos de crédito. Por exemplo, um famoso cantor, com um dos rostos mais conhecidos do mundo, aparecia como uma velha, mas ninguém diria. Para Terno, o assombro que ele experimentou ao ver o astro emergir de sua crisálida vulcanizada assemelhava-se ao de uma remota tribo amazônica subitamente assistindo a um espetáculo de fogos de artifício do 4 de Julho. Foi algo miraculoso: “Por que não podemos fazer a mesma coisa?”, ele exclamou.
Quando aterrissei em Ottawa, eu já tinha formulado um plano. Se conseguíssemos executá-lo, seria uma das mais audaciosas operações de resgate na história da CIA. Mas, antes de ir em frente, eu precisaria ligar para a única pessoa que poderia tornar esse plano uma realidade. Peguei o telefone e disquei.
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Primeiro diretor civil da CIA. [N. do T.]