Argo

Antonio Mendez e Matt Baglio · Capítulo 6 de 17

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5. Canadá para o resgate

Organizaram-se com rapidez, concordando que seria melhor fazer a viagem antes de o dia clarear. 5 Estavam com tamanha pressa que até esqueceram uma leva de roupa na máquina de lavar. Sam telefonou para um taxista armênio amigo seu, que veio e pegou todo mundo. A escolha lógica era a casa de Kate Koob.

Ao chegar, ficaram sentados inquietos no escuro, amedrontados demais para acender alguma luz. Quando finalmente clareou o suficiente, eles deram uma volta rápida pela casa e perceberam no mesmo instante que não poderiam ficar ali. A casa era de esquina e grudada na calçada. Também tinha janelas enormes, envidraçadas do chão até o teto, sem cortinas, e eles não poderiam sequer entrar na cozinha sem que o mundo todo ficasse sabendo. O desespero se instalou mais uma vez; precisavam encontrar outro esconderijo, e depressa. Por sorte, Anders tinha um plano.

Dois dias antes, em 8 de novembro, depois de Laingen ter telefonado para dizer que eles estavam por conta própria, Anders, que trazia alguns números telefônicos consigo, ligou para um bom amigo na embaixada australiana. Feliz em saber que ele estava bem, o amigo se prontificou a acolhê-lo de imediato, mas, quando Anders mencionou os outros, tirou o corpo fora, alegando que simplesmente não tinha espaço para todos. Anders lembrou-se, então, de John Sheardown, um colega da embaixada canadense que ele conhecera bem nos últimos meses. Os dois haviam sido apresentados em um dos muitos eventos das embaixadas ocidentais que haviam se popularizado na ausência de uma vida noturna na cidade. Tinham muita coisa em comum. Como Anders, Sheardown servira na Segunda Guerra, e aos 55 anos era considerado um sujeito da antiga entre os diplomatas canadenses no Irã. Um homem distinto, com uma calvície crescente e uma predileção por cachimbo, Sheardown era o chefe do setor de imigração na embaixada do Canadá. Como Bob estava no Irã sem família, com frequência John o convidava para jantar em sua casa. Sua esposa, Zena, não era cidadã canadense e nascera na Guiana Inglesa (agora a nação independente da Guiana). Isso significava que ela não contava com a imunidade diplomática. Uma pessoa calorosa e vibrante, Zena adorava receber, mas raramente saía de casa.

Depois de descartar o amigo australiano, Anders pegou de novo o telefone e ligou para a embaixada do Canadá. Sheardown, é claro, sabia do ataque e presumia que Anders fora levado junto com todo mundo. Espantou-se ao ouvir que seu amigo conseguira escapar.

— Onde você está? — perguntou, incrédulo.

Anders tentou explicar, mas desistiu depois de alguns minutos. As ruas de Teerã eram suficientemente complicadas, e, para piorar as coisas, todas ganharam novos nomes depois da revolução.

— Não sei ao certo onde estou — falou.

Sheardown perguntou do que ele precisava. Isso aconteceu na quinta-feira, antes de os americanos saberem que em breve estariam se mudando para a casa de Koob. Anders informou que no momento estavam bem, mas que talvez precisassem encontrar outro esconderijo em breve.

— Estamos meio que numa enrascada — disse ele.

Sheardown não hesitou.

— Por que você não me ligou antes? Por que demorou tanto?

Anders explicou que estava com outros quatro americanos e que o grupo decidira permanecer unido. Por causa disso, relutaram em impor sua presença a qualquer um e colocar vidas em risco desnecessariamente. Apesar de não ter permissão oficial de fazê-lo, Sheardown disse a Anders que ficaria feliz em ajudar de qualquer forma que pudesse. Como a maioria dos diplomatas ocidentais em Teerã, ele havia ficado furioso quando Khomeini endossou a ocupação da embaixada. A comunidade diplomática em Teerã constituía um grupo muito unido, e Sheardown não apenas conhecia muitas das pessoas que agora estavam sendo retidas a contragosto, como o exercício inteiro contrariava convenções do direito internacional e da diplomacia. O fato de ser Anders quem estava ligando o deixava ainda mais disposto a romper as convenções.

— Temos espaço de sobra aqui — disse Sheardown.

Anders agradeceu e eles combinaram de manter contato caso a situação mudasse.

Assim que desligou o telefone, Sheardown subiu para falar com seu chefe, o embaixador canadense Ken Taylor. Aos 45 anos, ostentando uma cabeleira grisalha e ondulada ao estilo dos anos 1970 e óculos finos, Taylor era um tipo meio iconoclasta entre os diplomatas mais graduados de Teerã. Nascido em 1934, entrara para o Serviço Exterior canadense em 1959 e galgara posições como adido comercial. Acabou se tornando diretor do Serviço de Comissionamento Comercial do Canadá em 1974. Taylor sempre tivera um estilo de trabalho pouco ortodoxo, que às vezes irritava os integrantes mais tradicionais do corpo diplomático canadense. Trabalhava numa mesa comum, em vez de em uma escrivaninha, e recusava-se a usar caixas de entrada e saída. Mas, independentemente de seu estilo, ele obtinha resultados. Era um trabalhador incansável e bom administrador, e seus empregados gostavam de trabalhar com ele.

Taylor estava em Teerã desde 1977 e acumulara a reputação de determinado e calmo sob pressão graças à forma com que lidou com a evacuação de um contingente razoável de cidadãos canadenses poucas semanas antes da abdicação do xá.

Sheardown tinha relativa certeza de que Taylor apoiaria sua decisão de ajudar os americanos. Como Sheardown, Taylor estava indignado por ver diplomatas inocentes reféns, usados por um governo como forma de pressão. Quase imediatamente após o ataque, ele começara a trabalhar com os chefes de outras representações estrangeiras em Teerã, tentando apresentar algum tipo de protesto oficial contra o governo iraniano. Além disso, alguns dias após a ocupação, o Departamento de Estado americano lhe pedira para servir de contato com Bruce Laingen no Ministério do Exterior iraniano, o que viria a acontecer uma semana depois, quando ele apareceu trazendo consigo, entre outras coisas,

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livros e um frasco de colônia inglesa, que na verdade estava cheio de uísque escocês single-malt.

Sheardown explicou o telefonema de Anders e fez Taylor apressar o ritmo. Reiterou que os americanos estavam a salvo por enquanto, mas que provavelmente precisariam em breve de um lugar para ficar. Taylor, num gesto louvável, não hesitou e concordou que deveriam fazer tudo que pudessem para ajudar. Os dois começaram a discutir qual seria o melhor lugar para esconder os americanos. A embaixada canadense tinha o benefício da segurança, mas era muito movimentada e não possuía aposentos residenciais. Além disso, ficava no centro da cidade, perto da representação americana. Por fim, resolveram dividir os americanos entre as residências particulares de Sheardown e Taylor. Ambas ficavam num bairro tranquilo e, mais importante, distante da embaixada. Como vantagem adicional, as casas também estavam sob proteção de imunidade diplomática, o que não significava grande coisa no Irã. Mas já era algo.

Nesse ponto, Taylor começou a elaborar um telegrama para enviar a Ottawa, na esperança de obter a permissão oficial do governo. No texto, expôs suas opiniões pessoais sobre a questão e também o plano que ele e Sheardown tinham acabado de traçar.

Entre os muitos aliados americanos, o Canadá fora um dos mais veementes em condenar o Irã pelo ataque à embaixada. Levou apenas um dia para Taylor receber sua resposta, logo na manhã seguinte. Ottawa recomendou-lhe discrição, mas lhe deu sinal verde para fazer o que julgasse necessário para ajudar os americanos. A aprovação viera diretamente do primeiro-ministro canadense, Joseph Clark.

O momento não poderia ter sido mais fortuito para os fugitivos. Bob Anders ligou para Sheardown pela segunda vez da casa de Kate Koob naquela mesma manhã de sábado, poucas horas depois de Taylor receber o telegrama de Ottawa.

— Bem, John — disse Anders —, acho que chegou a hora.

— Vocês têm algum jeito de chegar até aqui? — indagou Sheardown.

— Para falar a verdade, não — respondeu Anders. Explicou como os dois funcionários britânicos os conduziram até a casa de Graves, e Sheardown concordou em buscá-los.

— Aguardem — falou.

Os carros chegaram para apanhá-los pouco depois de uma da tarde. Anders explicara a Sheardown que a casa de Koob ficava na mesma rua que a de Graves, e os motoristas não tiveram problema para encontrá-la. Não era o ideal ficar percorrendo a cidade no tráfego da tarde, mas eles conheciam bem as ruas e se mantiveram longe das avenidas principais.

A casa de Sheardown localizava-se no elegante distrito de Shemiran, a versão de Teerã de Beverly Hills. Situado numa elevação na parte norte da cidade, o bairro íngreme, com seus grandes complexos murados e jardins cuidadosamente aparados, era popular entre diplomatas veteranos, iranianos ricos e empresários estrangeiros.

Quando chegaram os carros com os americanos, Sheardown estava à espera diante da casa, molhando a calçada com uma mangueira de jardim. Podia parecer incongruente, mas lhe dava um motivo plausível para manter o olho na rua. Havia um canteiro de obra rua acima, frequentemente lotado de jovens trabalhadores iranianos, alguns deles vagando de um lado a outro sem ter o que fazer. Quando os veículos se aproximaram, John acenou para que entrassem na garagem e os seguiu, fechando a porta atrás de si.

Na segurança da garagem, os americanos saltaram e John saudou todos calorosamente.

— É bom ver você de novo — disse-lhe Anders.

Depois que as apresentações foram feitas, todos seguiram Sheardown, subindo um lance de escadas para entrar na casa principal.

Assim que chegou, o grupo foi apresentado a Zena, bem como a Ken Taylor, que tinha chegado enquanto todos ainda estavam na garagem. Os americanos imediatamente foram postos à vontade. Zena havia preparado alguns drinques e petiscos, e todos se sentaram na sala. Passaram alguns minutos batendo papo, relatando os acontecimentos de sua fuga, bem como as novidades sobre a crise dos reféns. Disseram-lhes que os dois enviados do presidente Carter, Ramsey Clark e William Miller, não tinham recebido permissão para entrar no Irã e esperavam na pista de pouso na Turquia. Em determinado momento, Mark passou vergonha ao se levantar e perguntar se o embaixador canadense estava ciente da situação deles. Preocupava-se com a possibilidade de que talvez Sheardown estivesse agindo por conta própria e que corressem o risco de a situação de Gholhak Gardens se repetir caso Sheardown perdesse a coragem. Taylor se apresentara somente pelo nome, e Mark não percebera quem ele era. Sheardown não resistiu:

— É claro que o embaixador canadense sabe — respondeu. — Ele está sentado bem ao seu lado.

Todo mundo caiu na risada às custas de Mark, mas foi um grande alívio saber que havia um governo que lhes dava apoio. Pela primeira vez desde a fuga, eles se sentiram realmente seguros.

Como planejado, o grupo deveria ser dividido entre as residências de Sheardown e Taylor. Os Lijek e Bob Anders ficariam com os Sheardown, enquanto os Stafford iriam com Taylor. O embaixador explicou que tinha numerosos empregados domésticos e que a presença de mais de dois visitantes provavelmente despertaria suspeitas. O grupo não gostou muito de ter de se dividir, mas compreendia a lógica que justificava a necessidade. A essa altura, todo mundo ainda pensava que a crise dos reféns seria solucionada em questão de semanas, ou talvez em poucos dias, e todos poderiam prosseguir com suas vidas.

Cora, Mark e Bob passaram o resto da tarde se familiarizando com a organização espacial da casa de Sheardown. Era um palacete com dezessete aposentos, numa contagem. A casa ficava empoleirada numa encosta, espalhando-se por vários níveis a partir de uma rua acima até chegar à rua inferior. Era efetivamente possível sair para a rua acima pelo piso mais alto, o que lhes proporcionava uma rota de fuga, se necessário. Os americanos receberam quartos individuais num andar alto, separados da suíte principal, que ficava no andar superior. O melhor da casa, porém, era que ela continha um pátio interno, o que lhes permitia passar tempo fora de casa sem correr o risco de serem vistos na rua. Engaiolados como estavam, uma hora de sol era inestimável.

Sheardown explicou que havia um grupo do komiteh local que às vezes patrulhava o bairro, mas lhes disse para não se preocuparem, pois raramente aborreciam os moradores. No entanto, advertiu-os, sim, em relação ao jardineiro, que também fazia parte do komiteh. Se ficassem escondidos enquanto ele estivesse por perto, tudo estaria bem.

Enquanto isso, Joe e Kathy foram levados pelo embaixador canadense para sua própria residência, uma imponente mansão branca com colunas de dois andares tomando conta da fachada, afastada da rua e separada por um muro de quase três metros. Esperando por eles no interior estava a esposa de Ken, Pat, nascida na Austrália, mas de origem chinesa. Pat era uma mulher de energia ilimitada e, além de seus deveres como esposa de embaixador, era uma cientista pesquisadora no serviço nacional de transfusão sanguínea em Teerã. Mostrou a casa aos Stafford, explicando aos empregados iranianos que eram simples convidados de outra cidade. Apesar de a casa ter um amplo gramado nos fundos, foi-lhes recomendado que não saíssem, pois os vizinhos poderiam vê-los.

No dia seguinte, Taylor enviou um telegrama para Ottawa para informar que os americanos haviam sido acolhidos e que estavam a salvo. Para ser o mais discreto possível, a mensagem referia-se aos cinco simplesmente como “os hóspedes”.

Não demorou muito para que os Lijek e Anders estabelecessem uma rotina na casa dos Sheardown. De manhã, cada um seguia seu próprio ritmo, acordando em horas diferentes e preparando seu próprio desjejum. No começo isso fora um desafio, pois o único caminho para a cozinha passava por uma grande janela e uma porta de vidro, por onde poderiam ser facilmente vistos pelo jardineiro. Percebendo que seria uma longa estada se não pudessem usar a cozinha, divisaram uma solução esfregando graxa de sapato no vidro, o que obscurecia a visão.

Depois do café da manhã, dedicavam-se à leitura ou a outras formas de passar o tempo. Anders tornou-se adepto dos banhos de sol e dos exercícios no pátio, e ganhou um bronzeado surpreendentemente bom. Cora, por sua vez, lembra-se de ter dormido muito. Mark resolveu deixar a barba crescer, algo que sempre quisera fazer. No começo da tarde, o grupo se reunia numa saleta para conversar e esperar pela chegada de John. Zena costumava manter-se sozinha na suíte principal.

Os Stafford, por seu lado, seguiam rotina semelhante. Depois do café, Joe invariavelmente era atraído pelo aparelho de rádio, escutando os noticiários transmitidos de hora em hora e fazendo anotações. De tarde, Pat chegava em casa e fazia companhia a Kathy e Joe até Ken chegar, no começo da noite. Inicialmente tímidos, os abalados Stafford precisaram de algum tempo até se sentirem à vontade diante de seus anfitriões. E, mesmo então, Joe nunca conseguiu superar a sensação de que a presença dele e da esposa estava sendo imposta para eles.

John Sheardown tinha uma TV, e nos primeiros dias os americanos foram apresentados ao espetáculo da crise dos reféns. Quando Anders e os Lijek assistiam a cenas que mostravam seus antigos colegas sendo exibidos diante das câmeras, o detalhe que saltava aos olhos e que se tornava dolorosamente visível era como os reféns pareciam maltratados. Cora achava as imagens perturbadoras. Era um verdadeiro lembrete — como se eles precisassem — da incrível sorte que tiveram por conseguir escapar.

Entre os que desfilavam pela tela da TV, havia alguns de seus colegas que estavam trabalhando no consulado no dia da captura. O outro grupo de seis americanos fora obrigado a se dirigir para a residência do embaixador, onde passaram os primeiros dias de cativeiro com as mãos e os pés atados a cadeiras na sala de jantar formal da mansão. Não tinham permissão de falar, de se deitar ou mesmo de se lavar. Alguns deles, como Dick Morefield, foram submetidos a execuções encenadas, enquanto outros passaram pela indignidade de serem surrados e obrigados a permanecer deitados por longos períodos de tempo no concreto frio e úmido, sem nada mais do que um cobertor. E com o passar do tempo foram trazidos, um por um, até um grupo de militantes, que os interrogaram e os acusaram de serem espiões trabalhando para a CIA. Kathryn Koob e Bill Royer não tiveram melhor sorte. Todos eles, com exceção de Richard Queen, libertado em julho de 1980 por motivos de saúde, permaneceriam em cativeiro por 444 dias.

* * *

EM 21 DE NOVEMBRO, Taylor recebeu um curioso telefonema do embaixador sueco, Kaj

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Sundberg. O diplomata explicou timidamente que tinha um probleminha e esperava que Taylor pudesse ajudá-lo.

Nessa época, os militantes tinham conseguido achar dois passaportes com identidades falsas feitos para dois suspeitos de serem funcionários da CIA lotados na embaixada. Exacerbava-se o tom do discurso em torno de um possível julgamento dos capturados como espiões. A descoberta dos dois passaportes foi um tremendo constrangimento para o governo norte-americano e para a Agência. Ela também causou grande preocupação ao embaixador sueco, que começou a temer as repercussões por estar abrigando Lee Schatz. Foi então que Sundberg pensou em Taylor e, após explicar a situação, perguntou se o embaixador canadense estaria disposto a ajudar. Taylor não pestanejou, disse ao embaixador que já estava com cinco americanos e que seria simples adicionar Schatz ao grupo. Essa notícia e o desprendimento de Taylor desconcertaram o embaixador sueco, que não fazia ideia de que havia outros americanos que tinham conseguido fugir.

Enquanto os americanos acolhidos pelos canadenses estavam em fuga, Lee Schatz passara o tempo no confortável apartamento de Cecilia Lithander ao norte de Teerã. Ocupava-se com leituras e evitava a faxineira, que vinha praticamente todas as manhãs. Cecilia explicara a ela que Lee era um amigo seu, em visita, mas ele achava estranho estar por ali todos os dias enquanto ela fazia a limpeza. À noite, Cecilia voltava para casa e eles jantavam e conversavam sobre as últimas notícias da crise dos reféns. Às vezes, davam passeios pela vizinhança, perambulando pelo abarrotado mercado local. Ninguém jamais o perturbou, e não ocorreu a Lee que ele poderia estar correndo riscos. “Quando se é diplomata, você nunca acha que alguma coisa vai acontecer com você”, diria mais tarde. Ele se mantivera em constante contato telefônico com Joe Stafford e sabia que os outros cinco americanos haviam encontrado uma casa e estavam a salvo, mas não sabia onde. Por razões de segurança, não contaram um ao outro onde estavam. Duas semanas depois, porém, o que inicialmente parecia uma situação temporária tornava-se cada vez mais permanente, e o governo sueco estava ficando nervoso.

Schatz não foi informado do telefonema entre o embaixador sueco e Ken Taylor, nem do fato de que iria ser transferido. Ele se lembra de um dia estar no apartamento de Cecilia quando de repente ouviu uma chave girando na fechadura. O ruído o assustou, pois Cecilia já saíra para o trabalho e era dia de folga da faxineira. Ele aventou a possibilidade de que uma turba de iranianos furiosos pudesse irromper porta adentro. Todavia, era apenas Cecilia, que informou ter importantes notícias.

— Fizemos um arranjo para você sair daqui, e realmente não posso lhe dizer mais que isso. Alguém estará aqui dentro de alguns minutos e você deve ir. Não se preocupe, está tudo bem — disse ela.

Schatz ficou branco. Fodeu, pensou. Isso não está soando nada bem.

Pôs as poucas coisas que tinha comprado numa mochila, inclusive uma trena retrátil de cinco metros, que por algum motivo estava com ele no dia do ataque.

John Sheardown, nesse meio-tempo, estava a caminho, vindo da embaixada canadense, e resolveu pregar uma pequena peça em Schatz. Quando Cecilia o deixou entrar no apartamento, em vez de se apresentar, bancou o durão e simplesmente disse: “Pegou tudo?” Schatz o olhou de cima a baixo e fez que sim. Na sua cabeça, já começava a se perguntar se o visitante misterioso não seria da CIA.

Sheardown o conduziu para fora do apartamento até o carro que estava à espera embaixo, ainda sem dizer uma palavra. Quando Schatz viu que havia um segundo carro atrás deles, isso pareceu provar suas suspeitas sobre Sheardown. Não acredito que haja um punhado de caras da CIA zanzando por aí no meio dessa confusão, ele pensou. Uma vez dentro do carro, porém, Sheardown virou-se para ele e, despindo-se da fantasia, sorriu e se apresentou:

— Você vai ficar comigo — disse.

Schatz assentiu e relaxou um pouco.

— Ok, parece que está tudo bem — retrucou. Ainda não tinha ideia de que havia outros americanos lá e emocionou-se ao entrar na sala e ver Cora e Mark Lijek e Bob Anders à sua espera. Não era íntimo de nenhum deles, mas os conhecia por causa dos eventos da embaixada. Foi um grande alívio ver seus rostos e saber que estava entre amigos. Dadas as circunstâncias, parecia um lugar ideal para se refugiar da tempestade.

* * *

AS NOTÍCIAS SOBRE OS hóspedes não chegariam a mim antes de meados de dezembro. Com frequência, a única hora em que eu conseguia fazer algum trabalho era depois que todos tinham ido para casa, e, como eu morava a cerca de uma hora de carro de Washington, às vezes não sabia se estava indo ou vindo. Todos vinham trabalhando 24 horas por dia, mas nunca ouvi ninguém se queixar. Certa manhã, eu estava de pé junto à minha mesa, tendo acabado de voltar do lavatório, onde jogara uma água no rosto, quando Max, o chefe do setor gráfico, e Tim, meu segundo em comando, surgiram na minha porta. Max tinha na mão a cópia de um documento que ele agitava no ar à medida que se aproximava.

— Você viu isto? — ele perguntou. — Alguns americanos escaparam da embaixada em Teerã.

A essa altura, eu já fora promovido ao cargo de chefe do setor de autenticação e estava encarregado de criar e manter a infinidade de falsas identidades e disfarces que a CIA usava pelo mundo. Eu tinha uma grande equipe de peritos em todas as fases de alteração de identidade, capazes de penetrar por qualquer fronteira sem serem detectados, duplicar quase qualquer documento, modificar a aparência de uma pessoa, até fazer uma mudança de sexo, caso fosse necessário.

Historicamente, o chefe do setor de autenticação era um funcionário proveniente das fileiras da análise de documentos — ou melhor, alguém que teríamos considerado um dos nossos melhores e mais inteligentes. Corria a piada de que eram os únicos funcionários no nosso meio que sabiam escrever (ou soletrar). O fato era que, do ponto de vista operacional, eles eram mais astutos do que alguns dos nossos técnicos com Ph.D. e tinham uma noção melhor da essência da inteligência, que é a comunicação. O trabalho de nossos analistas de documentos envolvia idiomas, conhecimento da região, viagens e redação — aptidões altamente valorizadas pela cultura da CIA.

Eu resolvera pôr o meu nome na roda quando soube que o chefe de operações do EST, Fred Graves, estava procurando alguém para substituir um chefe de setor. Graves era um homem que, à primeira vista, parecia ser duro como uma pedra. Dava para jurar que ele tinha pertencido aos fuzileiros — certamente xingava como fuzileiro —, mas não era verdade. Foi cadete no colégio militar de Citadel e adquiriu uma postura militar e uma perspectiva que lhe serviam muito bem na CIA que, na verdade, seguia um modelo inspirado na estrutura militar americana. Fred precisava substituir Ricardo, o chefe do setor gráfico, que estava se aposentando. Quando perguntou-lhe quem deveria substituí-lo, Ricardo me indicou. Na verdade, era um cumprimento e tanto, mas não fazia o meu gênero.

— Tenho outra sugestão — eu disse a Graves, sentado na sua sala no Edifício Sul. A mobília da Administração Geral de Serviços era apenas um detalhe do estilo singular de decoração de Fred. A maioria das visitas dava meia-volta na primeira vez que via o letreiro na sua porta. O BAR ESTÁ ABERTO, lia-se — ou FECHADO, dependendo de ele estar ou não em reunião.

— A gente vive falando aqui da boca para fora sobre treinamento interdisciplinar dos nossos futuros administradores. Por que não pegar alguém de autenticação para dirigir o setor gráfico e me nomear chefe do setor de autenticação, o primeiro vindo do setor gráfico? — perguntei.

— Nada mau — respondeu, assentindo com a cabeça. — Volto a falar com você, Mendez. Mas, lembre-se, não vai poder sair em viagens, vagabundear pelo mundo. Vai precisar ficar aqui, administrando o setor.

— Sim, senhor! — eu disse, tentando soar como um bom fuzileiro, resistindo à tentação de bater continência. Recuando até a porta, esbarrei numa placa de metal que dizia: SE VOCÊ OS PEGAR PELAS BOLAS, O CORAÇÃO E A MENTE VIRÃO ATRÁS. Todos nós adorávamos Fred, de verdade. Havia algo de muito meigo espreitando no interior daquele peito inflado.

Graças à nova promoção, parecia que a minha carga de trabalho havia praticamente triplicado com a crise dos reféns. Como estava mergulhado em reuniões demais, tanto em Langley como em Foggy Bottom, e tinha muitos outros assuntos que exigiam a minha atenção direta, eu instruíra Elaine, minha secretária, a mandar cópias das correspondências importantes que exigissem ação imediata diretamente ao supervisor responsável.

Assim, não fiquei surpreso quando Max e Tim entraram na minha sala com uma cópia do memorando do Departamento de Estado nas mãos.

Max me entregou o documento e se sentou enquanto eu dava uma olhada. Tim sentou-se à mesa de reuniões em frente à minha escrivaninha, vistoriando uma cópia da mesma mensagem.

O memorando dirigia-se à equipe da Central de Cobertura da CIA, que cuida de todas as exigências para a criação de fachadas. Pedia a opinião da CIA em relação a uma possível exfiltração de seis diplomatas americanos que tinham escapado da embaixada dos Estados Unidos em Teerã e que se encontravam sob os cuidados dos canadenses. Não nos solicitava tomar a dianteira de nenhuma operação de resgate, apenas pedia nossa assessoria nas etapas de planejamento. O memorando não trazia muita informação — com certeza não o bastante para qualquer tomada de decisão.

Eu o li e pensei que parecia interessante, mas, no contexto da crise dos reféns, não dava a impressão de ser prioridade. Não soava urgente. Apesar de não afirmar precisamente, por omissão parecia deixar implícito que os seis americanos estavam instalados em segurança e que podiam aguentar mais algumas semanas ou meses sem riscos. Fiquei propenso a deixar o assunto de lado para me concentrar em ajudar o resgate dos reféns na embaixada.

* * *

O PLANO ORIGINAL PARA lidar com os hóspedes, ao que parece, era simplesmente ficarem quietos, esperando. Em seus primeiros contatos com o governo canadense, Taylor havia discutido a possibilidade de criar planos de contingência caso os diplomatas precisassem ser evacuados, mas, uma vez instalados, e relativamente seguros, o pensamento em Ottawa, bem como no Departamento de Estado dos Estados Unidos, era de que a situação na embaixada deveria ter prioridade. Uma vez libertados os reféns, raciocinaram, o problema dos hóspedes se resolveria por si só.

Depois que Lee Schatz se juntou aos outros na casa de Sheardown, algumas semanas transcorreram sem incidentes. Passavam a maior parte do tempo lendo. Sheardown tinha uma biblioteca bastante extensa, que incluía muitos romances de espionagem de John le Carré. Ocasionalmente, o grupo se reunia para jogos de baralho ou de tabuleiro. Um dos favoritos era Scrabble — palavras cruzadas de tabuleiro. Competitivo por natureza, Schatz levava o jogo muito a sério. Seu principal rival era Anders, que tinha um talento para a coisa. Após um duro duelo, Schatz debruçou-se sobre um dicionário britânico em dois volumes que Sheardown tinha na prateleira. Não demorou muito para achar uma palavra mortífera — “dzo” —, que o ajudou a ganhar muitos pontos. Quando Anders, cético, sacudiu a cabeça, Lee puxou o dicionário:

— Aqui está — disse, triunfante. — Dzo: cruzamento entre uma vaca e um iaque.

Graças ao acaso, o porão da casa estava cheio de tudo que era tipo de cerveja, vinho e destilados fortes. Os hóspedes não perderam tempo para desfalcar os estoques. Essa generosidade se devia ao fato de a embaixada canadense ser a próxima da fila a dar uma festa na sexta-feira à noite — a farra semanal organizada por uma embaixada ocidental diferente a cada semana. A tradição foi interrompida após a ocupação, mas não antes de as bebidas serem transferidas para a casa de Sheardown. Finalmente, acabaram bebendo tanto que Sheardown teve de ser criativo para se livrar das garrafas vazias, que se amontoavam. Sua solução foi embalá-las e levá-las para a embaixada canadense.

Segundo todos os relatos, o ponto alto do dia era a refeição noturna, carinhosamente lembrada por todos como uma espécie de momento tradicional, ao estilo dos desenhos de Norman Rockwell, que acontecia todas as noites. John chegava do trabalho e todos se reuniam à mesa de jantar para ouvir as notícias. Como a TV quebrara cerca de uma semana depois da chegada dos hóspedes, dependiam dele para mantê-los informados sobre os fatos ocorridos no mundo exterior. A atmosfera era tão familiar que Anders começou a chamar Sheardown de “Papaizão”.

Em certas ocasiões, os Stafford eram levados para lá de carro, dando ao grupo a chance de pôr a conversa em dia. No Dia de Ação de Graças, os canadenses ofereceram a todos uma ceia tradicional, o que contribuiu em muito para que mantivessem o ânimo.

Também recebiam visitas. Roger Lucy, primeiro-secretário da embaixada canadense, aparecia com frequência. Lucy, então com 31 anos, estava na Suíça visitando amigos quando ocorreu a ocupação, mas rapidamente soube de tudo. Ele chegara ao Irã no outono de 1978, poucos dias antes de o xá declarar a lei marcial, e sua ajuda foi fundamental para que Taylor organizasse o êxodo em massa de cidadãos canadenses. Um tipo aventureiro, viria a se tornar um membro importante da equipe local que cuidava dos hóspedes. Anders mais tarde se recordaria da primeira vez que encontrou com Roger Lucy em um desses jantares. Descreveu-o como um personagem saído de um livro de Rudyard Kipling, com um bigode espesso e pequenos óculos redondos, usando capacete e carregando um pequeno bastão.

Dois outros visitantes habituais eram os embaixadores Troels Munk, da Dinamarca, e Chris Beeby, da Nova Zelândia. Beeby viria a se tornar especialmente útil à medida que a crise evoluía, fazendo muito mais do que se esperava dele, como, por exemplo, aparecer com uma caixa de cerveja para os hóspedes. Era como levar um sanduíche a um restaurante, mas, mesmo assim, era muito bem-vinda.

De modo geral, porém, os hóspedes procuravam manter uma postura discreta. Apesar de suas acomodações, a ameaça de serem descobertos ainda era uma perspectiva muito real. Em mais de uma ocasião, os empregados dos Taylor fizeram perguntas sobre os Stafford, estranhando o fato de aqueles “turistas” ficarem sempre dentro de casa. A preocupação de que um visitante inesperado pudesse aparecer de repente significava que os americanos tendiam a ficar nos fundos da casa, ou frequentemente trancados em seus quartos. Por exemplo, numa noite, Taylor convidou o correspondente da ABC News, Peter Jennings, para jantar. Jennings era um dos muitos jornalistas ocidentais que foram ao Irã para cobrir a crise dos reféns. Enquanto os dois desfrutavam o jantar, os Stafford se enfiaram em seu quarto no andar superior, em silêncio, preocupados em não fazer ruídos inesperados e serem descobertos.

Em certas ocasiões, solicitavam a Roger Lucy que levasse os Lijek, Bob Anders e Lee Schatz para sua residência. O proprietário da casa onde Sheardown morava estava tentando vendê-la, e de vez em quando aparecia com algum comprador em potencial. Roger Lucy se lembra dessas viagens como tremendamente enervantes; uma vez, chegaram a ficar presos na neve e ele teve de pedir a um grupo de iranianos que ajudasse a cavar para tirá-los.

Os hóspedes americanos tinham permissão de escrever cartas para casa uma vez por semana, mas não demorou para que não tivessem mais o que dizer. Logo no início da temporada, Mark escreveu para seus pais: “Estamos num esconderijo, mas não posso dizer onde. Se alguma coisa acontecer conosco vocês provavelmente saberão, pois vai dar na TV, ou então vão receber um telefonema do Departamento de Estado, mas, se nada disso ocorrer, fiquem sabendo que estamos bem.”

À medida que as semanas se espichavam, começou a crescer entre os canadenses a preocupação de que o segredo dos americanos pudesse vazar. Para espanto de todos, o jornal local na cidadezinha natal de Lee Schatz, Post Falls, Idaho, publicou uma matéria sobre o fato de ele estar escondido “em um local não revelado no Irã” depois que o Departamento de Estado contou à sua mãe que ele estava a

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salvo, mas aparentemente esqueceu-se de dizer a ela para não contar para a imprensa.Em outro momento, durante uma entrevista por telefone, um cidadão americano chamado Kim King, que estivera no consulado no dia da ocupação, disse a um repórter local que era um dos nove americanos que

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tinham conseguido escapar da embaixada no dia do ataque. Embora essas histórias não tenham repercutido nos Estados Unidos, começaram a correr boatos na imprensa iraniana sobre a possibilidade de haver americanos escondidos em Teerã.

Além disso, havia uma grande chance de que os iranianos no Ministério do Exterior tivessem monitorado as ligações que Laingen e Tomseth fizeram, sabendo, assim, que os americanos tinham conseguido sair e estavam à solta. E havia também todos os empregados da Sociedade Irã-Estados Unidos que viram os Lijek e os Stafford e poderiam facilmente ter contado a alguém. Sem falar nos colegas do consulado. Teriam os iranianos conseguido pegá-los?

Não haviam se passado cinco dias desde que os hóspedes tinham deixado a casa de Koob quando

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Sam foi abordado ali por um grupo de militantes que o ameaçaram com uma arma. Fizeram-lhe perguntas sobre a casa e ele explicou que a ocupante já estava na embaixada, sendo mantida refém. Acabaram por soltá-lo, mas ele ficou muito abalado. Imediatamente foi para um esconderijo e ficou por lá até o fim da crise dos reféns.