Argo
14. Preparativos finais
fechamento da embaixada na segunda-feira. A primeira coisa que fiz foi enviar um plano operacional 1 4 atualizado e o relatório da situação para o quartel-general da CIA e para Ottawa. No relatório, esmiucei a história de fachada, explicando que “os seis canadenses da Estúdio Seis Produções” tinham feito uma visita ao embaixador em Teerã. Esperavam conseguir uma audiência com o ministro da Orientação Nacional para apresentar sua proposta de locar um bazar local para o filme Argo. Expliquei em seguida que o embaixador os aconselhara a procurar locações em outra parte e que, seguindo seu conselho, provavelmente deixariam o país na segunda-feira, 28 de janeiro.
Isso nos daria a opção de levar os seis para o aeroporto num veículo com um motorista da embaixada, poupando-nos da dificuldade de arranjar transporte confiável até o aeroporto.
Feito isso, Julio e eu nos sentamos para trabalhar no pacote de documentos. Gentil como sempre, Taylor nos ofereceu seu escritório.
Julio imediatamente pôs mãos à obra nos formulários de desembarque/embarque. Sewell nos deixara um lote de formulários extras, o que nos dava uma boa margem para trabalhar. Julio completou as anotações em parse e em inglês em vinte deles, usando as palavras das nossas próprias folhas para orientar-se.
Enquanto ele fazia isso, voltei minha atenção para os passaportes. Minha principal tarefa era inserir os vistos iranianos que havíamos coletado em Toronto e completar a viagem de retorno, incluindo selos de entrada na chegada por Mehrabad. O modelo para o selo de chegada era o que havíamos recebido nos nossos próprios passaportes.
A pior coisa que pode acontecer quando se está falsificando um selo de entrada é forjar a assinatura de um funcionário da imigração antes de chegar ao país para depois descobrir que a mesma pessoa está escalada para lhe dar o selo de saída. Ela obviamente saberia que não estava trabalhando no dia em que o seu passaporte diz que você chegou. Outro erro, é claro, seria colocar um selo que não está mais em uso. Nosso monitoramento cuidadoso e a coleta de selos e carimbos de Mehrabad, bem como a diligência de nossos peritos de tinta do setor gráfico do EST, nos permitiam produzir uma cópia exata.
Então, lenta e cuidadosamente, coloquei os selos nos passaportes, usando uma técnica que aprendi nos meus dias de “cercado”, fazendo parecer que tinham sido colocados às pressas pelo funcionário da imigração.
Quando se trata de operações clandestinas, existem tipos de artistas-autenticadores: aqueles que o fazem por instinto e os que o fazem de maneira controlada. Os primeiros tendem a trabalhar melhor depois do almoço, depois que tomam uns martínis para relaxar. Eu, por outro lado, decididamente fazia parte do segundo grupo. Minha abordagem para dar autenticidade a um documento era fazê-lo parecer o mais casual possível, mas sob o meu controle. Desse modo, se alguma vez me encontrasse em dificuldades, não precisaria confiar nos meus instintos e reflexos, poderia contar com meus talentos mecânicos. Fui treinado no uso de diversas ferramentas e técnicas para me ajudar, tais como a “ponte de falsário”, técnica que utiliza uma mão para firmar a outra enquanto se escreve. E, é claro, havia muitos outros truques que aprendi sozinho.
No decorrer da minha carreira, tive oportunidades de sobra para praticar minhas habilidades como falsário. Ser artista-autenticador é tudo menos rotina — havia vezes em que eu me achava metido num esconderijo do outro lado do mundo, trabalhando longas horas sob a luz de uma lâmpada de relojoeiro.
Entre os primeiros serviços que os novos artistas-autenticadores costumam receber está a reprodução dos carimbos de fronteira. Para começar, as impressões originais desses selos tendem a ser um tanto confusas e por isso não há problema se o serviço não estiver perfeito. Na verdade, a perfeição às vezes pode ser prejudicial, pois a própria perfeição de um documento é o que acaba por distingui-lo. Não há nada mais suspeito para um funcionário da imigração do que ver um carimbo perfeitamente impresso no meio da bagunça de um documento de viagem. Depois de dominar a habilidade de criar uma bagunça realista, o artista pode passar a trabalhar em documentos secundários: carteiras de motorista, identidades das forças armadas, cartões de seguro de saúde — qualquer coisa que possa acompanhar um documento primário. No topo da cadeia alimentar estão os documentos mais importantes, e o passaporte é um deles. Alguns artistas podem trabalhar anos no “cercado” antes de conseguir chegar a eles, e era considerado um insulto se um artista menos experiente fosse designado antes de um com mais experiência.
Em algumas ocasiões, o departamento inteiro trabalhava junto. Lembro-me de uma vez em que alguém teve acesso a um raro passaporte de um país comunista, mas precisava devolvê-lo no dia seguinte. Toda uma equipe de peritos foi convocada no fim de semana. Foram necessários todos os fotógrafos que tínhamos na equipe só para fotografar os diversos elementos que precisaríamos reproduzir caso desejássemos duplicá-lo.
Como funcionário técnico em viagem do EST, era preciso estar pronto para trabalhar a qualquer hora e sob quaisquer condições. Uma vez fui obrigado a improvisar no banheiro de um avião. Foi numa missão ao subcontinente para ajudar na exfiltração de um desertor russo e de sua família. (Esse mesmo russo fora tirado de um país vizinho no porta-malas de um carro.) Chegara um telegrama pedindo os serviços de um artista-autenticador, e eu peguei o primeiro voo. Todavia, quando o avião ia começar a aterrissar, a aeromoça anunciou que havia um surto de febre amarela no país e que quem não estivesse com as vacinas em dia seria posto em quarentena por sabe-se lá quanto tempo. Nós tínhamos menos de 24 horas para tirar o russo e sua família do país, e a hipótese da quarentena não existia para mim. Além disso, eu tinha vários carimbos de borracha e instrumentos incriminadores, para não mencionar milhares de dólares em dinheiro vivo escondidos num compartimento oculto na minha maleta. Com tanta coisa em risco, eu não poderia ser detido. Rapidamente, entrei no banheiro e dei uma melhorada no meu registro de vacinas de modo a incluir febre amarela por dez anos. Tive de fazê-lo em questão de minutos, pois o avião tinha começado a aterrissagem. A turbulência dificultou as coisas, mas fui capaz de voltar ao meu assento pouco antes de as rodas tocarem o solo. Conseguimos tirar o russo e sua família na manhã seguinte.
* * *
ENQUANTO JULIO E EU trabalhávamos nos documentos, Taylor fez uma pausa em suas atividades e se juntou a nós no escritório. Sem querer nos incomodar, sentou-se num sofá branco do outro lado da sala, e Julio e eu continuamos a tratar das nossas coisas. Taylor ficou sentado escutando as perguntas que fazíamos um ao outro ao discutirmos os aspectos mais refinados de nossas habilidades de falsificação. Ele estava claramente curtindo o fato de participar dessa falcatrua. Alguns minutos depois, sua secretária entrou para informá-lo de que um mercador de tapetes estava na sala de espera do escritório. “Tudo bem”, disse Taylor. O mercador entrou com uma mesura.
— Eu lhe trouxe apenas meus melhores tapetes, Senhor Embaixador! — ele exclamou.
Em seguida, desenrolou vários deles, estendendo-os pelo piso. Taylor abaixou-se para examinar com olhar de especialista. Estava claro que ele esperava adquirir mais alguns tapetes persas antigos para levar para casa. Eles tiveram uma discussão em voz baixa sobre a mercadoria, com discrição, de modo a não nos incomodar.
Nesse meio-tempo, Claude “Marreta” Gauthier estava ocupado manejando seu instrumento e destruindo materiais comprometedores numa sala nos fundos da embaixada, a reverberação de cada impacto ecoando pelas paredes.
Julio e eu estávamos entretidos demais para notar alguma coisa. Eu me concentrava em esculpir uma data num dos carimbos com uma vareta afiada, semelhante ao instrumento de manicure que minha esposa muitas vezes usava. Depois de terminar os selos da viagem anterior dos hóspedes, era hora de passar para os vistos. Uma pessoa em Ottawa tinha ido a Toronto buscar um exemplar, que enviamos em seguida ao EST em Washington para que os técnicos pudessem reproduzir o carimbo. No entanto, ao abrir o estojo, percebi que a almofada do carimbo havia secado totalmente. Nosso químico havia se esmerado em elaborar essa tinta, especialmente por sua fluorescência. Esses vistos eram, na verdade, o ponto-chave operacional de todo o pacote. Eles estariam sujeitos ao mais meticuloso exame na imigração. Sem eles, não importava a nossa história de fachada: não teríamos condições de sair do Irã. Ao procurar uma solução, meus olhos recaíram no pequeno armário de bebidas de Taylor. Fui até lá e examinei os rótulos, selecionando um uísque puro malte que eu imaginava ter um álcool de alta octanagem como ingrediente. Verti dois dedos de uísque num copo alto e trouxe os dois, garrafa e copo, de volta a nossa área de trabalho. Julio olhou com ar ligeiramente divertido enquanto eu os arrumava.
— Com sede? — perguntou.
Derramei um pouquinho do uísque no tinteiro para umedecer a tinta, e sem perda de tempo comecei a carimbar os vistos nos passaportes. Julio balançou a cabeça e deu um sorriso.
— Por que não? — ele disse. — De qualquer maneira, toda esta operação está sendo movida a álcool.
Levei boa parte da manhã para completar os vistos em todos os seis passaportes. A única coisa que faltava era arrumar nossos pacotes de documentos e destruir qualquer indício das obscuras artes do falsário. O jogo de reserva dos passaportes canadenses com o erro nos vistos foi mandado para o picador de papéis. O mesmo foi feito com os documentos norte-americanos que haviam sido incluídos no malote diplomático caso precisássemos deles. Nossos instrumentos, almofadas de tinta e coisas do tipo foram mandados para as chamas do incinerador da embaixada. Os professores de inglês e os nutricionistas viraram fumaça. Era Argo ou nada.
* * *
NESSE MEIO-TEMPO, EM Hollywood, Bob e Andi Sidell se ocuparam cuidando dos telefones da Estúdio Seis. Não tínhamos lhes dado uma previsão de quando a exfiltração iria ocorrer, e por isso Bob presumiu que poderia ser a qualquer momento.
No começo, Bob e Andi ficaram entusiasmados com a brincadeira de espiões amadores. Não demorou muito, porém, para que seu entusiasmo inicial fosse substituído por medo e preocupação. De repente lhes ocorreu que as vidas de oito indivíduos, talvez mais, estavam em suas mãos. Mais tarde, Bob me contou que à noite eles se juntavam em volta da TV esperando não ver o meu rosto desfilar pelo noticiário vespertino como o mais recente cativo amarrado e vendado. No escritório, Andi começou a temer o toque do telefone, ficando assustada cada vez que o ouvia tocar, receando que pudesse ser alguém para dar más notícias. A maioria dos telefonemas, porém, era para falar de negócios.
Apesar de Sidell estar no ramo de cinema havia quase 25 anos, ele ainda ficou pasmo com a facilidade com que o mito da Estúdio Seis se disseminou. Após nosso anúncio inicial ter saído nas publicações especializadas, Hollywood Reporter tinha ligado pedindo uma declaração. Hollywood é como uma cidade pequena, e correram boatos de que Calloway estava ligado ao filme. Um repórter quis saber quem estrelaria o filme. Sidell foi citado na matéria, dizendo: “Vamos usar nomes de peso. No momento, somos obrigados a manter sigilo.” Não demorou para que ele começasse a receber ligações de amigos à procura de trabalho. Depois de duas semanas, o escritório estava inundado de roteiros e fotos de divulgação. “Isso é uma loucura!”, Bob disse a Andi um dia, quando examinavam todo o material.
Além disso, várias pessoas importantes do setor tentavam lhe vender ideias, e ele chegou a marcar reuniões. Um autor quis saber se ele estaria interessado em produzir uma pequena história de horror de Arthur Conan Doyle, pouco conhecida, chamada “Lote Nº 249”, sobre um estudante universitário que usa magia egípcia para reanimar uma múmia. Ela por sua vez é tomada por uma verdadeira fúria assassina. Sidell ficou tão curioso que realmente considerou a compra dos direitos da história do espólio de Conan Doyle, mesmo sabendo muito bem que, assim que saíssemos do Irã, a Estúdio Seis deixaria de existir.
Era como se uma mentira tivesse ganhado vida própria, e agora ele era obrigado a ir em frente. Em termos hollywoodianos, era o papel de uma vida, mas ele não sabia quanto tempo poderia aguentar.
* * *
DOMINGO À NOITE, JULIO e eu retornamos à casa dos Sheardown para um ensaio de figurinos. Os hóspedes tinham passado o dia anterior estudando seus personagens e aperfeiçoando os disfarces. Agora era a hora da verdade. Lucy trouxera os Stafford, e todos estavam à nossa espera na saleta. Quando chegamos, não pude crer nos meus olhos. Todos os hóspedes estavam com roupas emprestadas, portavam alguns itens pessoais e haviam redesenhado totalmente sua aparência para adequar-se aos novos papéis. Mark usara um delineador preto para escurecer a barba, enquanto Lee brincava de forma confiante com o visor pendurado no pescoço. “Pode me chamar de Woody!”, ele disse. Tinha resolvido que todo cinegrafista de Hollywood que se preze devia ter um apelido, e o seu era Woody. Cora, por sua vez, usara bobes para ondular o cabelo normalmente liso. Também havia tirado os óculos e usava muito mais maquiagem do que estava acostumada. Ficava folheando o roteiro com ar distraído. Nossa diretora de arte, Kathy, tinha prendido o longo cabelo castanho num rabo de cavalo e usava um par de óculos escuros de aro fino, tipo Truman Capote, para combinar com o bloco de desenhos de Argo. Mas a transformação mais surpreendente veio de Bob Anders, que usara o secador de cabelo para criar um estilo moderninho e vestia calças justas e uma camisa azul dois tamanhos menor, desabotoada no peito. Para completar o conjunto, usava uma corrente de ouro com um medalhão, e jogou um casaco sobre os ombros como se fosse uma capa. “Dê uma olhada nisto aqui”, ele disse, desfilando exibido pela sala. Achei difícil não sorrir.
A melhor coisa do show era a maneira tranquila e descontraída com que os hóspedes adotaram suas novas personalidades. Conforme eu esperava, estavam se divertindo e não pareciam nem um pouco preocupados com a passagem pelo aeroporto no dia seguinte. Joe, na verdade, não fizera nada para se transformar, mas, em virtude do restante do pessoal, senti que poderíamos passar.
Além dos disfarces, Roger Lucy orientara os hóspedes em relação ao sotaque, para que soassem mais canadenses. Cora me deu um exemplo do jeito certo de um canadense dizer Toronto: “É Toronna, parecido com piranha”, disse ela. Lucy brincou, dizendo que lhes ensinara simplesmente a dizer “eh?” após cada frase e que assim tudo daria certo.
Também havia os adesivos com folhas de bordo, alfinetes de lapela e etiquetas de bagagem que Joe Missouri e eu tínhamos comprado em Ottawa para serem usados como enfeites finais por nossos viajantes. Como qualquer viajante experiente sabe, canadenses de verdade tendem a grudar um monte de etiquetas com folhas de bordo em suas bagagens para não serem confundidos com americanos.
Após o ensaio de figurinos, Julio e eu entregamos a cada um deles seus documentos recém-carimbados e selados, bem como suas passagens aéreas de ida e volta, que refletiam o itinerário que havíamos preparado para eles, além da origem de seus vistos. Esses últimos detalhes eram de extrema importância. Uma das primeiras coisas que um funcionário da imigração poderia perguntar era onde o visto tinha sido emitido e qual fora o itinerário. Joe Missouri havia comprado os bilhetes de viagem em Toronto para as datas apropriadas, e nós tínhamos retirado dos bilhetes as folhas correspondentes aos trechos já percorridos. Não saber os detalhes e o roteiro de viagem poderia ser o jeito mais fácil de ser pego.
Também lhes demos algum dinheiro, para ajudá-los a se sentir mais normais naquelas circunstâncias.
Depois, Taylor chegou com a resposta do Canadá para uma mensagem que eu mandara por telex naquela manhã contendo o plano final de operações. Ele me entregou e sorriu. Os poderes superiores em Ottawa e Washington haviam avalizado nosso plano e estávamos prontos para deslanchá-lo na manhã seguinte. Eles encerravam a mensagem com uma nota de incentivo: “Vejo você depois, exfiltrador!”
Em seguida, nos retiramos para a sala de jantar para o que só pode ser descrito como um banquete. Não querendo deixar nada atrás para os iranianos, os hóspedes tinham preparado um jantar de sete pratos, regado a vinhos finos, champanhe, café e licores. Os embaixadores Munk, da Dinamarca, e Beeby juntaram-se a nós, e o clima rapidamente se tornou festivo. Recomendei aos hóspedes que não bebessem demais, pois enfrentariam um “interrogatório hostil” feito por Lucy após o jantar. Todavia, percebi imediatamente que eles tinham planos próprios. Na verdade, os seis haviam se reunido antes e resolvido que, para deixar tudo o mais relaxado possível, iam se manter com a adrenalina alta. A casa ainda tinha uma razoável seleção de bebidas, e os hóspedes pretendiam acabar com elas.
Enquanto jantávamos, regalei os hóspedes com alguns relatos de operações passadas em lugares conhecidos como “áreas de acesso proibido”, como Moscou, onde as equipes de vigilância podiam às vezes perfazer mais de cem pessoas. Julio brincou dizendo que nunca mais visitaria o país. Moscou se tornara um importante campo de provas para nós, e muitas técnicas que estávamos utilizando na missão Argo tinham sido um dia testadas sob o olhar vigilante da KGB.
Todo mundo estava curioso para saber detalhes da ideia por trás da Estúdio Seis, e eu lhes contei sobre a origem da piada com Argo. Não demorou muito para todos erguerem as taças e fazerem uma calorosa ovação brindando “Argo!”. Em seguida, fiquei momentaneamente sério e lhes pedi que não divulgassem nenhum detalhe da missão de resgate para proteger nossos recursos e métodos, essenciais para levar adiante nossas operações secretas.
— Depois que isto tiver terminado, todos vocês vão querer escrever um livro — eu disse. — Não façam isso. Julio e eu precisamos continuar trabalhando no ramo.
Depois do jantar, todo mundo voltou a se reunir na saleta para interrogatórios fictícios. Para deixar as coisas o mais realistas possível, Lucy calçou coturnos e vestiu uma jaqueta do exército, além de carregar um bastão. Ele parecia alguém saído do filme O homem que queria ser rei.
Dirigiu-se lentamente para o centro da sala e assumiu a postura de um funcionário da imigração em serviço:
— Quem é o primeiro? — ladrou.
Os hóspedes se remexeram em seus lugares. Taylor e eu ficamos no fundo da sala junto com Julio, Beeby e Munk.
Lee se ergueu num salto e caminhou até Lucy, que o encarou de cima para baixo.
— Seu passaporte, por favor.
Disse isso imitando o sotaque de um persa falando inglês. Lee apresentou os documentos, e Lucy passou os olhos pelas páginas.
— E onde você tirou o visto? — foi a pergunta.
Lee, que vinha bancando o relaxado, de repente empalideceu.
— Sabe, é gozado... Eu não me lembro.
Lucy caiu em cima dele:
— Como assim você não se lembra? — E encarou Lee frente a frente. — Seu mentiroso! Você é um espião americano!
Taylor se virou para mim:
— Isso é realmente necessário? — indagou.
— Claro que sim. Quanto mais entrarem nos papéis, melhor vão se sair amanhã — respondi.
Quando Lee terminou, virei-me para o grupo:
— Escutem. Não lhes demos essas fachadas para vocês não aprenderem. O Woody aqui acabou de demonstrar como é fácil ser enrolado e tropeçar. Pode ser que lhes façam essas perguntas, pode ser que não. Mas, se fizerem, vocês precisam estar à vontade quando derem as respostas.
Enquanto os interrogatórios prosseguiam, um dos dois embaixadores estrangeiros me pediu para dar um pulo com ele até a sala de jantar. Ele estivera em contato com Mike Howland, um dos três diplomatas americanos no Ministério do Exterior junto com Vic Tomseth e Bruce Laingen. O embaixador me disse que Howland lhe confiara que estava planejando uma fuga. Na verdade, Howland disse que já estivera fora do ministério e estava pedindo um cortador de vidro e uma arma. O embaixador me perguntou o que eu achava que ele deveria fazer. Eu lhe disse que tudo bem dar um cortador de vidro para Howland, mas a arma, decididamente não. (No fim, não sei se ele chegou a dar o cortador, pois Howland, Laingen e Tomseth permaneceriam em cativeiro no Ministério do Exterior durante toda a crise dos reféns.)
Quando os interrogatórios fictícios terminaram, Julio e eu nos sentamos com os hóspedes uma última vez para repassar os arranjos finais. Eu tinha desenhado um diagrama do aeroporto e os fiz passar pelas diversas fases do plano para não haver confusão. E disse:
— Trata-se apenas de uma grande tapeação. Nós vamos usar os mesmos truques que um mágico usa para iludir seu público.
O plano era o seguinte: eu chegaria ao aeroporto trinta minutos antes, levado por Sewell, que me pegaria no hotel às três da manhã. Assim que eu chegasse, faria um reconhecimento do aeroporto e confirmaria que nosso voo para Zurique estava no horário. Nesse ponto, se tudo estivesse em ordem, despacharia minha bagagem pela alfândega e aí assumiria minha posição junto às grandes janelas para dar o sinal de que tudo estava certo.
Enquanto isso, os hóspedes, junto com Julio, seriam levados para o aeroporto no furgão da embaixada. Ao ver o meu sinal, Julio os conduziria pela alfândega e se encontraria comigo no balcão de check-in.
O ideal, numa operação desse tipo, se algo desse errado, seria que tivéssemos um par de carros esperando do lado de fora, para o caso de precisarmos sair às pressas. Não tínhamos tal apoio — aliás, na verdade, não tínhamos nenhum tipo de plano B. Assim que entrássemos no aeroporto e estivéssemos sob as garras da segurança, não haveria chance de voltar atrás.
Todos os hóspedes já tinham passado pelo aeroporto, mas eu queria garantir que não haveria surpresas. Apesar de ser praticamente um galinheiro, era bastante organizado, graças, em grande parte, aos controles draconianos instituídos pelo xá. O primeiro posto de fiscalização ficava bem diante da porta principal: dois guardas da polícia nacional checavam os passageiros na entrada. Nesse local, exigia-se apenas uma identificação com foto. Ao contrário da maioria dos aeroportos ocidentais, onde as pessoas têm permissão de levar sua bagagem sem empecilhos até o balcão da companhia aérea, havia um posto da alfândega logo depois da entrada, devido ao medo de iranianos contrabandearem bens para fora do país.
— Depois, seguimos até o balcão do check-in — eu disse.
Eu não imaginava nenhum problema aí. No entanto, a fiscalização de imigração já era um caso diferente.
— É aqui o ponto crítico — eu disse, apontando para a mesa da imigração no meu diagrama.
Eu sabia que os hóspedes ainda tinham algumas preocupações em relação aos formulários de desembarque/embarque, mas lhes assegurei que as autoridades não vinham comparando as vias branca e amarela havia meses. Acrescentei:
— É muito melhor não estar levando alguma coisa do que incluir algo que você não deveria ter. Sempre se pode blefar dizendo que esqueceu alguma coisa. “Como é que eu vou saber onde está o formulário branco? É a cópia de vocês!”
À meia-noite, Julio e eu finalmente nos despedimos, e, enquanto saíamos, os hóspedes soltaram um entusiástico “Argo!” como saudação de despedida. Eu parei antes de sair.
— Gente, vocês vão se sair superbem amanhã — disse, olhando para cada um dos seis rostos. — Lembrem-se apenas de seguir com o fluxo e se divertir, e tudo vai dar certo.
Depois que Julio e eu fomos embora, Lee e Joe ficaram acordados bebendo e conversando. A filosofia de terra arrasada funcionou, e a essa altura a única bebida que restava na casa era uma garrafa de Cointreau. Joe continuou reclamando do plano e imaginando jeitos de as coisas darem errado. Estava preocupado com o fato de que o Ministério da Orientação Nacional era encarregado das permissões de filmagem e que isso pudesse fazer com que simplesmente tirassem todo mundo do avião, retendo-os até confirmarem se a história Argo era verdadeira. Lee contestava, dizendo que o voo estaria repleto de estrangeiros e que o ministério só abria às nove da manhã — uma hora e meia depois do horário do voo.
— Não há como nos arrancarem do avião e nos segurarem por duas horas.
Joe, então, voltou ao problema das vias branca e amarela dos formulários. Lee sacudiu a cabeça, frustrado. O Cointreau estava fazendo efeito, e ele sabia que devia ir para a cama.
— O que importa — disse, antes de se recolher — é que eu vou estar naquele avião amanhã. Espero que você decida fazer a viagem; se não quiser vir, a escolha é sua. Mas, se vier, não ferre tudo para mim e para os outros.