Argo
7. Reunindo a equipe
Em meados de dezembro, a embaixada canadense em Washington, D.C., recebeu o telefonema de um jornalista pedindo para confirmar uma reportagem que ele estava escrevendo. Era verdade que a embaixada canadense em Teerã estava abrigando um grupo de diplomatas americanos fugitivos? O repórter era Jean Pelletier, correspondente em Washington do jornal La Presse, de Montreal. Ainda no começo da crise dos reféns, Pelletier começara a questionar por que o Departamento de Estado fazia tanta questão de manter tamanho sigilo em relação ao número de americanos que estavam trabalhando na embaixada no dia do ataque. A Casa Branca não havia sequer divulgado uma lista oficial de nomes nem discutido os detalhes, o que lhe parecia estranho. O jornalista se colocou no lugar deles: Por quê? Então lhe ocorreu — teriam alguns americanos conseguido escapar? Por meio de seus contatos no Departamento de Estado dos Estados Unidos, bem como na embaixada canadense em Washington, ele confirmou sua teoria. Para Pelletier, seria o furo jornalístico de sua vida, mas ele também tinha suas reservas. Se a história fosse publicada cedo demais, sabia que poderia causar mais mal do que bem. Na mesma tarde, suas suspeitas foram confirmadas quando ele recebeu uma ligação do embaixador canadense nos Estados Unidos, Peter Towe, que lhe pediu para não publicar a matéria até que os americanos tivessem deixado o país.
Pelletier concordou, mas o fato de que a história começava a vazar deixou o governo canadense extremamente apreensivo. O que impediria outro jornalista, não tão solidário, de escrever uma matéria parecida? A última coisa de que o Canadá precisava era um escândalo internacional envolvendo sua embaixada em Teerã. O fato de seis americanos terem conseguido escapar poderia ser mal interpretado, convencendo os militantes de que eles tinham treinamento clandestino — mais uma “prova” de que eram espiões, e não diplomatas.
À medida que se espalhou pelos círculos diplomáticos canadenses a notícia de que um jornalista estava a par do segredo dos hóspedes, Ottawa começou a se agitar. Numa troca de mensagens, solicitaram ao embaixador Taylor que desse sugestões sobre possíveis opções para se retirar os seis do país. Como era uma embaixada pequena, ele costumava trocar ideias com Roger Lucy, que fora de extrema utilidade durante a evacuação dos cidadãos canadenses do Irã no ano anterior. A maioria dos canadenses estava instalada na região à beira do mar Cáspio. Por isso, Lucy pegou um motorista e saiu verificando as fronteiras com a Turquia e a Rússia, para ver se seria viável tentar levá-los por terra. Por fim, decidiram utilizar um campo de aviação nas proximidades para fazer a retirada por via aérea.
As diversas ideias ventiladas para a situação dos hóspedes variavam de transportá-los de carro até
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o Golfo Pérsico para tirá-los de navio a fazê-los percorrer rotas clandestinas para entrar na Turquia. Taylor e Lucy sentiam que qualquer hipótese que incluísse percursos terrestres provavelmente não iria funcionar, pois aumentaria as chances de serem pegos se algo saísse errado.
Quando a ministra do Exterior canadense, Flora MacDonald, soube da notícia, ficou particularmente alarmada. Algo precisava ser feito em relação aos hóspedes, e depressa. Numa reunião de ministros do Exterior dos países da OTAN em Bruxelas, no dia 13 de dezembro, ela pôs o secretário de Estado americano, Cyrus Vance, contra a parede, expressando sua frustração ao afirmar que os Estados Unidos não estavam fazendo o suficiente. Então lhe contou sobre Pelletier e os danos que poderiam ocorrer se a história dos hóspedes viesse a público. Foi seca e direta, dizendo-lhe que, se nada
fosse feito em relação a eles, ela os despacharia de bicicleta e faria com que pedalassem até a fronteira
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turca.
Informado por um colega sobre as várias catástrofes em andamento, compreendi que precisávamos agir rápido. Nos tumultos que antecederam a tomada da embaixada, bandos de komiteh haviam executado incontáveis membros do governo anterior, do xá, bem como quaisquer pessoas consideradas colaboradores. Na minha cabeça, eu tinha poucas dúvidas sobre o que aconteceria aos seis americanos caso fossem capturados. Espalhei que haveria uma reunião na minha sala. Sabia que cada membro da minha equipe estava dando duro em outros projetos e que aquilo que eu estava prestes a lhes contar só serviria para aumentar a sua sobrecarga de trabalho, mas eram todos profissionais e me dariam tudo que tinham, não importando quanto eu lhes pedisse.
* * *
OS ESCRITÓRIOS DO SETOR de autenticação ficavam no terceiro andar do Edifício Central em Foggy Bottom. Como chefe, eu tinha uma sala tipo suíte no meio do corredor principal do prédio. Passando pela entrada, encontrava-se uma espaçosa saleta, com uma mesa para a secretária, uma área de recepção e outra de registro, onde os membros do setor vinham enviar ou coletar a correspondência confidencial. Comunicados mais urgentes ou muito delicados eram entregues por portador.
Se você parasse na entrada dos escritórios do setor e olhasse para a esquerda, veria a porta para a sala do subchefe. Tim Small fora meu chefe no passado. Agora, era meu subordinado. Tim era mais velho, na casa dos cinquenta anos, um homem sério e austero do Leste Europeu, cujo escritório refletia perfeitamente sua personalidade. Não havia decoração pessoal. Tudo vivia em ordem: a escrivaninha arrumada, a caixa de entrada de correspondência vazia. Tim escrevia colocando pingo no “i” e traço no “t” antes de qualquer outra coisa. “Vale a pena conferir” era seu mantra. Na verdade, ele tinha razão. Todavia, nós o chamávamos de “velho chato”, um belo contraponto para alguns de nossos funcionários mais jovens.
Olhando para a direita, você veria a entrada para o meu escritório. Bem no meio, diante da minha mesa, havia uma placa com cerca de trinta centímetros de altura e quinze de largura onde se lia O TRABALHO FEDE. Nas paredes, algumas pinturas que havia terminado recentemente; eu fazia um verdadeiro rodízio de minhas obras de arte à medida que completava quadros novos e vendia os mais antigos.
As janelas altas atrás da minha secretária, Elaine Younger, davam para o pátio interno do complexo. Elaine tinha a voz de uma daquelas buzinas de nevoeiro, em parte devido a um longo histórico de tabagismo. Pessoas que telefonassem sem tê-la conhecido pessoalmente a chamavam de “senhor”. Ela estivera no Corpo de Fuzileiros Navais na Segunda Guerra Mundial e era uma mulher objetiva. Datilografava com um cigarro pendurado na boca. Guardava a porta de nossos escritórios com absoluto vigor e era leal a mim, seu novo chefe, como era leal ao país, e que Deus tivesse pena de quem cruzasse nossos caminhos. Elaine estava ali muito antes de qualquer um de nós chegar, e permaneceria ali depois que muitos de nós tivessem partido. Estávamos apenas de passagem, no que lhe dizia respeito.
O grupo foi entrando na minha sala um por um. Além de Tim Small, havia Truman Smith, chefe de produção gráfica. Truman era um consumado burocrata-advogado guardião da área gráfica. Ele sabia como agradar seu chefe e como bombardear o moral de alguém. Alto, louro e com péssima postura, o cinquentão tinha o físico de um ex-jogador de futebol americano envelhecido: talvez um lineman, um jogador de linha de frente. Embora não fosse particularmente querido, era eficiente. “Prazos são conosco” poderia ser o seu lema. Ele e Tim Small tinham alcançado um equilíbrio cósmico de antipatia mútua. Se houvesse lugar para apenas um dos dois, o júri ainda não teria chegado a um veredito para decidir qual deles era o pior.
Depois entraram Joe Missouri e Dan Varga, dois jovens, brilhantes e enérgicos analistas de documentos.
Joe estava na CIA havia apenas uns dois anos. Era o exemplo perfeito de um “jovem chato”, do tipo que contrabalançava a mente bitolada de Tim Small. Eu gostava de pôr o velho e o novo na mesma sala porque com certeza teriam visões diferentes do mesmo problema. Joe acabaria se tornando nosso homem no Canadá durante essa operação, mas não vou me antecipar.
Joe tinha apenas 24 anos. Era talentoso, e não apenas pelo conhecimento em idiomas, comum no setor de documentação, mas em criar fachadas de grande credibilidade. Era audacioso. Tinha também um senso de humor feroz que lhe servia, e a nós, muito bem. Penetrantes olhos castanho-escuros, uma compleição mediterrânea e estatura que não era excessivamente alta: Joe era um ótimo “infiltrado”.
Dan, por sua vez, vinha da porção analítica da CIA, o Vice-Diretório de Inteligência. Tinha um diploma de chinês avançado e era a imagem de um jovem professor: calvície incipiente, barba aparada, cabelo mais para longo, olhos com aros de plástico com cara de artigo produzido em série para o governo. Tinha grande senso de humor e era sagaz ao extremo. Eu estava ansioso para ver qual seria sua contribuição para essa empreitada.
A seguir, veio Doris Grange, nossa chefe de disfarces. Doris era uma mulher do tipo mignon, mas com uma postura que impedia que fosse desconsiderada quando estivesse falando. Sua aparência profissional combinava toques da moda com ares de executiva, e era uma das agentes mais capazes que tínhamos no setor — afinal, se tornara chefe de sua divisão. Doris era encantadora, mas ambiciosa. Era considerada um modelo por muitas de nossas funcionárias mais jovens. Mas, sob a fachada agressiva, havia afetividade e uma habilidade natural para ser uma mentora.
O último membro de nossa equipe era Jack Kerry, nosso Ph.D. em química. Jack era novo na CIA e no EST. Sua atribuição seria nos dar apoio nas exigências de pesquisa, desenvolvimento e engenharia que pudéssemos ter — por exemplo, fornecer uma peça de equipamento técnico ou construir alguma coisa necessária. Era uma alma gentil, muito inteligente, intelectualmente curioso e bastante dado a atividades ao ar livre. O cabelo prematuramente grisalho, que escasseava, e a barba esparsa ocultavam o fato de que ele tinha apenas 35 anos.
Fechei a porta depois que Jack entrou. Elaine nem ergueu os olhos; apenas bateu a cinza do cigarro no cesto de papéis junto à sua mesa.
— Todo mundo se lembra do memorando do Departamento de Estado que recebemos algum tempo atrás? — indaguei. Todos assentiram. — Bem, parece que as coisas ficaram um bocado mais urgentes.
Expliquei a situação com Pelletier, o que capturou a atenção de todos.
— Ok — eu disse. — Vamos começar pelo básico.
Desde a epifania no meu ateliê, eu vinha, de modo informal, atribuindo aos membros da equipe tarefas preliminares para o planejamento da exfiltração, e chegara a hora de conferir os resultados. Nossa prioridade inicial seria estabelecer a rota pela qual poderíamos tirar os hóspedes do país. Sabíamos que a melhor opção sempre seria um voo comercial decolando do Aeroporto de Mehrabad.
Isso queria dizer que nossa maior preocupação seria como fazer com que os hóspedes passassem pelos draconianos controles de imigração do aeroporto. Os procedimentos nos aeroportos de cada país são diferentes, e a melhor maneira de compreendê-los é mandar alguém para sondar e coletar os dados. Os controles do Irã haviam sido estabelecidos pelo regime do xá, mas, graças à revolução, era impossível saber o que esperar. O protocolo poderia mudar de um dia para outro. Porém, em certo sentido, estávamos com sorte, pois já possuíamos uma ampla base de dados sobre os controles de imigração e alfândega no aeroporto graças à Operação RAPTOR, sete meses antes. Além disso, podíamos ampliar nossa base de informações continuando a apoiar a inserção de uma equipe avançada ou de nossas próprias “sondas”. Em última análise, agentes da inteligência teriam de fazer uma verificação final no Irã e se reunir com os hóspedes para avaliar seu estado de espírito e sua capacidade de realizar a operação. A Divisão do Oriente Próximo, nesse meio-tempo, procuraria uma possível rota clandestina para tirá-los por terra, semelhante àquela que Ross Perot utilizara para resgatar dois de seus empregados um ano antes. Nessa fase, era importante não excluir nada e ter um plano B em caso de necessidade.
Depois de tratar desse assunto, voltamo-nos, então, para o problema da criação de fachadas, que representava um desafio singular. Tínhamos seis diplomatas americanos, homens e mulheres, com idades entre 25 e 54 anos. Pelo que sabíamos, nenhum deles sabia falar uma língua estrangeira nem tinha qualquer treinamento clandestino. Para piorar a situação, pelo fato de trabalharem no consulado, que era intensamente frequentado por iranianos, desconfiávamos que seus rostos talvez fossem familiares e que poderiam estar numa lista de procurados.
— Ainda não sabemos o que vamos usar como documentos ou qual será a fachada, mas vamos ter de achar algumas dessas respostas bem depressa — eu disse. — Vou precisar interagir com a Divisão do Oriente Próximo/Irã e mantê-los informados de tudo que fizermos.
Virei-me para Dan e Joe:
— E vocês, o que acham, rapazes? O que têm em mãos?
Seria função do setor de documentação fabricar para os hóspedes uma história realista que acompanhasse seus documentos falsos. Por esse motivo, eles sempre mantinham um estoque de identidades nas prateleiras, prontas para serem usadas a qualquer momento. Mas, dependendo da situação, existiam apenas algumas poucas nacionalidades que poderiam funcionar a qualquer momento, e, até começarem a inventar países novos, tínhamos que tomar muito cuidado para não as desperdiçar.
Era uma questão que já havia merecido atenção quando os militantes na embaixada descobriram dois documentos emitidos para dois agentes da CIA capturados na embaixada. Ambos haviam sido alterados para corresponder aos de potências ocidentais amigas, o que quase criou um escândalo diplomático. O ministro da Defesa de um dos países em questão estava, por acaso, em visita a Langley quando a notícia veio à tona e perguntou diretamente quantos documentos daquele tipo a CIA fabricara. “Apenas aquele”, disseram-lhe. “Até parece”, o ministro resmungou. Como consequência, tínhamos de ser incrivelmente seletivos com os tipos de documentos que usaríamos.
— Que tal um dos países nórdicos? — respondeu Dan.
— Tudo bem — eu disse. — O que seis pessoas do norte da Europa estão fazendo em Teerã?
Joe se meteu:
— Precisam ser todos do mesmo lugar? Poderíamos dar a cada um documentos de viagem de um país diferente e aí botá-los em fila no aeroporto como se simplesmente tivessem chegado todos juntos.
— O verdadeiro problema — falei — é que ninguém na central acredita que essa gente vai ser capaz de assumir uma identidade estrangeira. Eles nem mesmo têm certeza de que seriam capazes de usar passaportes americanos falsos.
Num telefonema anterior para Hal, que, após a Operação RAPTOR, fora promovido a chefe da Divisão do Oriente Próximo para o Irã, discutimos a possibilidade de os hóspedes usarem documentos estrangeiros como fachada. Uma vez que nenhum deles recebera treinamento básico nas manhas necessárias para assumir uma falsa identidade estrangeira, eu duvidava que pudesse funcionar. “Além disso”, ele dissera, “quase todo mundo no Irã fala uma língua estrangeira, e não podemos correr o risco de eles darem de cara com alguém que possa questionar sua língua ‘nativa’”.
— O que diz o Departamento de Estado? — perguntou Tim.
— A ideia deles é que sejam professores americanos desempregados que foram ao Irã em busca de trabalho — respondi. — Eles poderiam nos dar qualquer documentação de que precisássemos, mas isso ainda faria deles cidadãos americanos, o que para mim não parece ser a melhor ideia.
— Que tal passaportes canadenses? — perguntou Doris.
— É o que mais faria sentido, mas não sei se eles topariam. Eu gostaria de fazer essa pergunta quando estiver em Ottawa para ver a reação deles.
— Quando você vai? — Joe quis saber.
— Estou programando neste momento — respondi. — Quero ir para lá o mais rápido possível, e, se vamos lhes pedir documentos canadenses, temos que tê-los para ontem.
Eu já tinha decidido que seria função de Joe bolar uma história fictícia para os seis. Trabalhar com documentos não fazia de Joe um falsificador. Os falsificadores eram os artistas que trabalhavam no “cercado”, posição que eu mesmo ocupara nos primeiros tempos de carreira. O pessoal da documentação estava encarregado da manutenção desses documentos de viagem e de compreender a fiscalização que se aplicavam a eles. Muitas vezes, esses agentes faziam viagens para se atualizar e saber que tipos de documentos seriam necessários para alguém assumir determinada fachada.
— Joe, quero você comigo. Isso pode não ser legal, e pode ser que neguem, mas, se aceitarem, quero estar pronto para ir em frente.
— O que precisamos levar? — Joe indagou. Àquela altura, ele já havia atravessado a rua para visitar o Departamento de Estado e requisitado fotografias de passaporte atualizadas dos seis hóspedes. Colheu, também, amostras atualizadas de suas caligrafias e lhes atribuíra antecipadamente nomes fictícios. Ele fizera todo esse trabalho sem saber que rumo iríamos tomar em relação aos documentos. Sempre alerta não é só o lema criado por Baden-Powell para os escoteiros. Era também o lema do agente da inteligência.
— Leve o que você tem — repliquei. — É possível que tenhamos que usar tudo.
Houve uma batida na porta. Levantei os olhos e vi Elaine introduzindo a cabeça no canto.
— Eles estão aqui — ela disse.
Quando viu a expressão intrigada no meu rosto, deu uma tragada no cigarro e soprou a fumaça no vestíbulo.
— O Comitê de Decoração de Natal da oficina de arte — ela explicou.
Olhei para ela sem falar nada.
— Vou apenas fechar a porta e eles podem fazer tudo sem criar problemas — disse Elaine, fechando a porta com uma leve pancada. Sacudi a cabeça.
Virei para Doris:
— Nesse meio-tempo, Doris, não sabemos ainda quais serão as exigências de disfarce, mas quero ter certeza de que você e todo o setor estejam prontos em caso de necessidade.
— Pode ter certeza — ela respondeu.
— Ok, isso acabou de virar a nossa prioridade mais alta. Então, botem as cabeças para funcionar e vejam o que conseguem bolar — ordenei.