Argo
6. Lições do passado
de que esse era o melhor caminho a seguir. Como muitas vezes costumo fazer quando tenho um 6 problema difícil que precisa ser resolvido, fui para o meu ateliê numa tarde de sábado para pintar. E foi durante aquela sessão, enquanto trabalhava em Wolf Rain, que me dei conta de que não podíamos ficar sem fazer nada, para depois sermos atropelados pela urgência da situação. É claro que por enquanto eles estavam a salvo, mas já permaneciam escondidos em Teerã havia quase dois meses. Quanto tempo mais poderiam aguentar? Eu sempre dizia para minha equipe que, quando possível, era melhor realizar uma exfiltração antes de seus adversários saberem que você estava lá. Se por alguma razão os hóspedes fossem descobertos antes que pudéssemos pegá-los, então seria praticamente impossível tirá-los do país.
Um dos motivos da minha preocupação com essa exfiltração era que eu estivera recentemente no Irã. Na minha qualidade de chefe de disfarces, em abril de 1979, sete meses antes de ter ouvido falar dos hóspedes, eu me apresentara como voluntário para me infiltrar no país e resgatar um agente de alta prioridade, e sob muitos aspectos o caso servia como boa referência para o que estava à espera dos seis americanos.
Era um segredo conhecido por todos que, durante o reinado do xá, havia uma estreita ligação entre a CIA e o governo iraniano. Na verdade, um dos mais recentes embaixadores dos Estados Unidos no Irã, Richard Helms, fora anteriormente diretor da CIA. Mas, sem o conhecimento dos iranianos, a Agência recrutara também um informante, um integrante muito respeitado do círculo íntimo do xá. Era conhecido dentro da CIA por seu criptônimo operacional. Eu optei por chamá-lo de “RAPTOR”.
RAPTOR podia prover informações inestimáveis para os estrategistas americanos em relação às intenções do xá. Os dados fornecidos por ele eram transmitidos de maneira clandestina para seu contato, que, por sua vez, preparava um relatório bruto enviado de Teerã por um sistema de telex diretamente para o quartel-general. Em geral, as informações eram tão boas que eram levadas na mesma hora para o presidente, no Salão Oval, por um funcionário da CIA.
Os envelopes pardos usados para guardar as frágeis mensagens eram marcados com grossas bordas azuis e as palavras ULTRASSECRETO — MANUSEIO RESTRITO — SOMENTE PARA SEUS OLHOS impressas em grossas letras vermelhas no meio. Por causa dessas marcas, os relatórios eram conhecidos como “blue stripers” — “faixas azuis”. Todas as cópias eram numeradas e cuidadosamente controladas. O envelope de faixas azuis e manuseio restrito era embalado duas vezes, lacrado e trancado num pesado fichário de lona azul, que estava sempre sob controle do portador.
Todos os relatórios de inteligência recebem uma nota de 1 a 10. Os mais valiosos às vezes recebem a nota “duplo 10”. Os relatórios de RAPTOR costumavam ser duplos 10.
RAPTOR sabia havia tempos que o xá estava perdendo o controle e repetidamente avisara seus contatos da CIA, mas, como pode suceder quando a informação bruta não se encaixa com o cenário preferido dos que fazem a política em Washington, as advertências de RAPTOR tendiam a ser desconsideradas. A informação é tão boa quanto a capacidade do cliente de acreditar nela e utilizá-la.
Quando o xá deixou o país em janeiro, RAPTOR entrou imediatamente na clandestinidade. Com os tentáculos da Guarda Revolucionária se estendendo mais e mais fundo em todas as facetas da sociedade iraniana, ele sabia que não conseguiria se esconder por muito tempo.
A essa altura, ele começou a se encontrar sub-repticiamente com “Don”, um funcionário local da CIA em Teerã que tentou organizar sua exfiltração. Os dois, contudo, não se entendiam. Don, um jovem de cabeça quente que achava que podia fazer tudo sozinho, propôs disfarçar o iraniano como um árabe do Golfo, algo que RAPTOR sabia não ser capaz de sustentar. Infelizmente, em vez de tentar trabalhar com o que tinha em mãos e ver o que mais ele poderia bolar, Don apenas dissera: “É pegar ou largar”, o que só serviu para piorar as coisas. Foi então que Hal, o chefe do posto da CIA em Teerã, mandou uma mensagem urgente requisitando meu auxílio.
Foi um caso desafiador desde o começo. Guerreiro nato, RAPTOR almejava sair de cena em grande estilo, com um Colt de coronha de marfim em cada mão. A perspectiva de ser agarrado no aeroporto usando um disfarce era demais para o seu senso de honra tradicionalista. Para complicar as coisas, ele havia treinado a maior parte da equipe de segurança do aeroporto, de modo que todos o conheciam. Tinha certeza de que seria imediatamente reconhecido sob qualquer disfarce. Como o sucesso da operação dependeria da sua autoconfiança e da capacidade de levá-la adiante, nada aconteceria a menos que pudéssemos convencê-lo a confiar em nós. Eu sabia, por experiências passadas trabalhando como funcionário técnico em numerosas exfiltrações, que algumas dependem mais do disfarce do que outras. No caso de RAPTOR, percebi que o disfarce era de suma importância. Com a Guarda Revolucionária bem nos seus calcanhares, seria fundamental impressioná-lo de imediato com o nosso profissionalismo. Não lhe faltava coragem, mas segurança.
Minha primeira parada ao entrar no país foi a biblioteca no segundo andar da chancelaria da embaixada americana em Teerã. A cidade parecia uma zona de guerra. Gangues armadas vagavam pelas ruas, e não era incomum ouvir uma explosão em algum bairro distante. Mas talvez a característica mais impressionante fosse o povo em si — intimidado, apavorado. Por toda parte, as calçadas estavam cheias de mulheres vestidas da cabeça aos pés com xadores pretos. Era como se a cidade inteira estivesse de luto.
Quando estacionamos na Avenida Takht-e Jamshid, notei que os muros da embaixada dos Estados Unidos estavam cobertos por pichações — um lembrete vívido de que o sentimento antiamericano no país era forte e crescente.
No quartel-general, havíamos revirado todo o estoque de documentos de viagem do Oriente Médio e do Mediterrâneo, achando três nacionalidades diferentes que poderiam dar certo. Mas, como não sabíamos o tom de pele de RAPTOR, decidimos que eu deveria tomar a decisão final quando estivesse cara a cara com ele em Teerã. Nesse meio-tempo, fui até a biblioteca à procura de algo em particular.
A biblioteca era uma sala tranquila, embolorada, mal iluminada. Apesar disso, percebi que era bastante utilizada, com uma pilha de livros devolvidos esperando para voltar às prateleiras. Não havia bibliotecário no atendimento, provavelmente como resultado da redução de pessoal, de modo que prossegui sozinho. Examinei as prateleiras e alguns minutos depois encontrei o que procurava. Era um livro encadernado em couro marroquino verde e marrom, com o título na lombada estampado com maiúsculas em relevo dourado: STEWART — PELA PÉRSIA SOB DISFARCE.
Desci o volume e o revirei nas mãos. Eram as memórias coligidas de um oficial britânico, o coronel Charles E. Stewart. Em 1880, praticamente cem anos antes da minha viagem, ele assumira a identidade de um mercador de cavalos armênio e passara quase dois anos viajando a cavalo com seu pequeno grupo, esquadrinhando a região. Cobriu uma distância impressionante durante esse período, e nunca ninguém suspeitou que ele fosse europeu.
A operação para exfiltrar RAPTOR não era muito diferente da jornada do coronel Stewart. Eu sabia que o livro, que trazia muitos retratos de gente que Stewart encontrara na região, seria útil quando eu fosse ver RAPTOR mais tarde naquela noite. É claro que primeiro teria de chegar a ele, tarefa nada fácil numa cidade repleta de desconfiança de tudo que fosse estrangeiro, especialmente espiões americanos.
Qualquer boa operação de detecção de vigilância sempre começa com a premissa de que os agentes hostis, seja lá quem forem, estão por toda parte, observando. Essa máxima foi enfiada na minha cabeça no meu curso de iniciação em operações na “Fazenda”, uma instalação de quatro mil hectares aonde funcionários novatos da CIA vão para aprender os ossos do ofício antes de partir em missões pelo mundo. Posteriormente, quando visitei Moscou em meados dos anos 1970 e deparei com a paranoia da KGB, patrocinada pelo Estado, pude ver o quanto aquela afirmativa era verdadeira, pois simplesmente todo mundo — até mesmo o furador de bilhetes no zoológico — era informante.
Nas ruas de Teerã, meus colegas e eu usaríamos essas habilidades para despistar quaisquer perseguidores potenciais que pudessem tentar nos usar para chegar a RAPTOR. Andrew, um funcionário local do setor de documentos, juntou-se a mim e Hal. Serpenteando pelas ruas estreitas, nós três rapidamente retornamos e então entramos numa agitada loja de departamentos na Avenida Abbasabad. Era uma técnica predileta usada por funcionários da Agência, porque lojas grandes costumam ter múltiplas saídas e era quase impossível cobrir todas elas. Deixando a loja, caminhamos, então, pelo meio da rua, esquivando-nos do trânsito suicida de Teerã — muitos dos carros andando sem faróis acesos — com o objetivo de nos livrarmos de qualquer veículo de vigilância que pudesse estar nos seguindo. É provável que tal atitude fosse considerada uma provocação pelos padrões de Moscou, onde os agentes eram profissionais treinadíssimos; mas no Irã, onde a oposição era basicamente composta por fanáticos revolucionários, serviu-nos muito bem.
O desinteressante prédio de apartamentos estava localizado nas imediações do Bulevar Motahari, ao lado de um hotel que abrigava um restaurante popular.
RAPTOR estava escondido nas sombras do patamar do segundo piso, e, quando nos aproximamos, ele saiu para a luz e me abraçou, com os olhos cheios de lágrimas. Eu o estudei com a atenção de um artista ao detalhe — o homem esquelético, doentio, com o suéter largo demais, tinha pouca semelhança com as fotos que me foram mostradas, fotos de um coronel de ar confiante na casa dos trinta anos.
RAPTOR nos fez subir até um apartamento no quarto andar, quase vazio, a não ser por um sofá imundo e um aparelho de TV parcialmente desmontado. O balcão da cozinha estava atulhado de revistas velhas que haviam sido folheadas inúmeras vezes, e jornais em parse, junto com uma saca de arroz, um saco de lentilhas e alguma comida enlatada. Era óbvio que ele estava acampado ali havia várias semanas. No lugar de cortinas, jornais velhos cobriam as janelas.
Movimentando-nos com determinação, Andrew e eu conduzimos RAPTOR pelo apartamento às escuras em direção ao banheiro. Eu sabia que era importante deixá-lo à vontade. “Não vai demorar”, eu disse, dizendo-lhe também para não se preocupar.
Quando entramos no banheiro, Hal abriu uma janela estreita nos fundos do apartamento e jogou uma corda enrolada. Seria a nossa “rota de fuga” no caso de os guardas revolucionários tomarem conta da escada. A janela se abria para uma claraboia sobre um vazio que terminava quinze metros abaixo de nós, grudado no hotel ao lado. Depois de descer pela corda, poderíamos, então, entrar por uma janela da lavanderia e sair do hotel pela porta de serviço. Tudo isso fora bolado no dia anterior, quando nós três nos revezáramos observando a entrada de serviço a partir do restaurante do hotel. Na vez de Hal, ele fora até o lavatório, que tinha uma janela que se abria para o espaço iluminado pela claraboia. Enquanto se debruçava para fora, a pulseira do seu caro relógio de pulso se quebrou e o relógio caiu embaixo pelo peitoril da janela. Ao voltar para a mesa, explicou o que tinha acontecido. Enquanto ele lamentava a perda, saí para ver o que podia fazer. Descendo dois lances de escadas, entrei na lavanderia e depressa vesti um paletó sujo de garçom para não chamar a atenção. Então abri caminho entre as enormes máquinas de lavar e recuperei o relógio sob a claraboia. Hal ficou mudo quando voltei e larguei o relógio em cima da mesa à sua frente.
Dentro do banheiro do apartamento, RAPTOR improvisou uma iluminação prendendo a ponta de cobre retorcida de uma antena de televisão a uma lâmpada com a mão direita, usando a esquerda para enfiar a outra ponta do arame na tomada elétrica perto da pia. Saquei meu kit e rapidamente comecei a trabalhar.
“Já fiz isso centenas de vezes”, fui dizendo, enquanto aplicava os materiais especiais de disfarce que trouxera comigo. Metade da sua face, da linha do cabelo até o lábio superior, logo foi coberta por um material elástico que obscurecia sua visão e o obrigava a respirar pela boca.
Andrew me auxiliava preparando uma cola especial, agitando-a sob a água corrente da torneira; e Hal ficou sentado no sofá do quarto monitorando um rádio Motorola transmissor-receptor que ele mantinha grudado ao ouvido. O rádio conectava-o a uma equipe de funcionários da CIA que estava do lado de fora, tomando conta da rua. Não queríamos deixar nada ao sabor do acaso.
— Só mais alguns minutos — falei, testando o disfarce com as pontas dos dedos. De repente, ouvimos uma batida na porta e todo mundo congelou.
RAPTOR tirou os fios da tomada e nós deixamos o banheiro. Passamos pela sala rumo à porta da frente. Sem conseguir enxergar por causa dos materiais do disfarce aplicados em seu rosto, RAPTOR foi forçado a tatear o caminho, enquanto eu o conduzia pela mão. Mostrei-lhe pelo tato onde estava a maçaneta, e ele, por sua vez, pôs a boca na abertura entre a porta e o batente.
— Quem está aí? — sussurrou, com a boca a apenas alguns centímetros da porta.
— Sou eu, tio — respondeu uma voz cochichada de menino.
Nós relaxamos. Um dos parentes de RAPTOR era dono de muitos apartamentos no prédio, e a voz era do filho do homem.
A criança perguntou se RAPTOR precisava de algo do bazar.
— Não — disse ele. — Venha me ver depois.
Escutamos os passos leves do garoto sumirem escada abaixo. Então retornamos ao banheiro, onde pude finalmente remover os materiais.
* * *
APÓS ESSE EPISÓDIO, RAPTOR foi transferido para um local seguro da CIA perto da embaixada dos Estados Unidos. Nós dois continuamos a nos encontrar várias vezes nos três dias seguintes, enquanto eu finalizava o disfarce. Tínhamos resolvido levá-lo pelo Aeroporto de Mehrabad, bem debaixo dos narizes dos guardas revolucionários. Era uma jogada arriscada, mas eu tinha confiança de que funcionaria. Eu transformara o coronel iraniano de meia-idade num empresário jordaniano de 65 anos, perfeito, com alguma calvície e um grumoso terno de lã. RAPTOR falava árabe decentemente e conseguia fingir um sotaque britânico ao falar inglês, o que o ajudaria a dar conta do disfarce.
No dia anterior à partida, a gente se reuniu com RAPTOR para um ensaio final de figurinos. Usando o disfarce, ele se sentou na sala de jantar folheando os surrados documentos de viagem que Andrew providenciara para ele. Quando levantou os olhos, um sorriso se espalhou pelo seu rosto, e eu percebi que ele estava satisfeito com os nossos esforços. Para o olho não treinado, ele era a imagem escrita de um distinto vendedor árabe que viajava pelo Golfo havia décadas. Eu inclusive o orientara sobre como andar, falar e buscar os documentos para apresentá-los aos funcionários da imigração. Além disso, ele passara horas com Andrew repassando a documentação de seu personagem, os planos de viagem e antecedentes. Também memorizou os números de telefone de escritórios “afiliados” no Oriente Médio, que na verdade eram controlados pela CIA especialmente para confirmar suas referências, caso funcionários iranianos telefonassem.
Tudo parecia pronto. RAPTOR demonstrou ser um bom aluno e estava motivado. Todavia, eu estava preocupado. Naqueles dias, eu havia percebido que, periodicamente, ele mergulhava em uma depressão profunda.
Seu maior medo era ser pego e torturado. “Você não tem ideia do que fariam comigo”, dizia. Em geral, eu atribuiria esse tipo de conversa aos nervos à flor da pele, mas, quando ele perguntou se poderia levar uma cápsula de cianureto, fiquei genuinamente preocupado.
— Não tenho certeza de que ele vá conseguir dar conta disso tudo — falei a Hal na véspera da exfiltração.
— O que você tem em mente? — indagou ele.
— Vou acordá-lo de manhã cedo e fazer a minha avaliação final — respondi. — Se eu achar que ele não consegue fazer isso sozinho, vou pessoalmente fazê-lo passar pelos controles.
Isso ia muito além das ordens da central, mas eu não via outra saída.
No dia seguinte, meus temores se confirmaram quando fui acordar RAPTOR, agora conhecido como “Sr. Kassim”, às três da manhã, apenas para me deparar com um caco de homem de palidez esverdeada e um olhar assustado. Estava claro que ele não tinha dormido nada, e por certo não estava em condições de tentar passar pela segurança sozinho.
Enquanto Andrew preparava um leve desjejum para RAPTOR, chamei Hal num canto. “Vou levá-lo ao aeroporto”, eu disse. Hal parecia ter previsto que aquilo aconteceria, e assentiu. “Vou na frente com Andrew verificar o terminal uma última vez e então confirmar o voo”, acrescentei. Sem dúvida, a central acharia que eu estava assumindo um risco desnecessário, mas eu não estava a fim de ser questionado por alguém num escritório a milhares de quilômetros. Nós éramos os responsáveis operacionais em cena e ninguém sabia melhor do que nós o que era preciso.
As ruas de Teerã antes do alvorecer estavam calmas e sinistras quando Andrew e eu nos dirigimos para o Aeroporto de Mehrabad. Palavras de ordem e cartazes antiamericanos cobriam cada muro da cidade deserta, dando-nos uma sensação quase avassaladora de que o sucesso só seria obtido se, de alguma forma, conseguíssemos superar o país inteiro. Passando sob um arco decorado, paramos o carro perto do terminal principal, uma construção tosca em concreto aparente, bem na hora marcada.
Esperei Andrew estacionar o carro e fizemos uma rápida verificação do terminal, que estava vazio, com exceção de alguns komiteh estirados em bancos e um grupo de funcionários temporários da revolução junto aos balcões tomando chá. Ninguém pareceu se incomodar quando fomos até o balcão de check-in da Swissair para confirmar se o voo estava no horário.
Andrew, então, passou pelo controle de passaportes, enquanto eu saía para esperar por Hal e RAPTOR. Como Andrew sempre tinha usado disfarce nos encontros com RAPTOR, o plano era usá-lo como nosso “identificador” no aeroporto. Isso queria dizer que sua função seria fazer uma ligação de um telefone público no saguão de embarque passando um sinal de “vai” ou “não vai”, dependendo de RAPTOR ter conseguido pegar o voo ou não. A essa altura, Andrew embarcaria no avião, se apresentaria a RAPTOR e seguiria para escoltá-lo para a liberdade.
Esperei do lado de fora e resolvi dar uma volta para não despertar suspeitas. Ainda estava escuro, e me dirigi para o lado oposto do estacionamento para assistir ao nascer do sol. Isso também me ajudou a acalmar os nervos. Na hora que voltei ao terminal, táxis e vans começavam a chegar, descarregando seus passageiros. Identifiquei RAPTOR e Hal saindo de um táxi e me aproximei com ar de indiferença. Apertei a mão de RAPTOR e abri um sorriso caloroso, na esperança de que o gesto ajudasse a fazê-lo se sentir à vontade. Sua mão estava fria e úmida, e o aperto, sem vida. Ele deu um sorriso forçado por trás do disfarce. Olhou para mim como um homem a caminho do cadafalso, e eu comecei a me preocupar que ele cedesse ainda antes do check-in. Agarrei sua sacola e disse adeus a Hal, cuja função seria retornar ao local seguro e aguardar o telefonema de Andrew.
Entramos no terminal e nos aproximamos da alfândega, e fiquei satisfeito em ver que o disfarce de RAPTOR não levantava a mínima suspeita entre os amadorísticos fiscais aduaneiros nomeados pela revolução, que haviam recebido instruções de ficar de olho em iranianos ricos que tentassem contrabandear bens para fora do país.
Depois de passar pelo balcão de check-in, fiquei com RAPTOR até chegar ao controle de passaportes, onde o funcionário da Guarda Revolucionária carimbou seu passaporte e o devolveu. Era hora da despedida, mas, quando voltei a apertar sua mão, senti que havia algo errado. O olhar assustado retornara a seu semblante, e, em vez de ir embora, resolvi permanecer no aeroporto até a partida do voo.
Estava sentado na área de espera vinte minutos depois quando vislumbrei Andrew pela divisória de vidro. Ele estava claramente agitado por algum motivo e fez sinal para que eu me aproximasse. Explicou que o voo da Swissair fora chamado, mas que não havia sinal de RAPTOR em lugar nenhum.
— Eu o vi entrar na sala de embarque — disse Andrew —, mas depois ele desapareceu.
Minha cabeça ficou a mil. Onde ele poderia estar? Eu disse a Andrew para voltar e embarcar; aí, retornei ao balcão da Swissair. Expliquei ao agente que estava com um sério problema:
— Meu tio está embarcando no voo de vocês para Zurique, mas receio ter me esquecido de entregar a ele seu remédio para o coração. Será que seria possível você me acompanhar pelo controle de imigração para me assegurar de que ele saiba como tomar? Sabe, ele é um homem muito velho.
O atendente da Swissair assentiu com um ar solidário e rapidamente passou comigo pela segurança e me acompanhou até a sala de embarque, onde me deixou sozinho.
Passei os olhos pelo amplo salão, procurando algum sinal de RAPTOR. Ele devia estar em algum lugar. Meus olhos pousaram na porta do banheiro masculino.
Meus sapatos ecoaram no piso ladrilhado quando entrei. O banheiro parecia vazio, mas notei que a porta de uma das cabines estava fechada. Fui até lá.
— Sr. Kassim? — sussurrei.
Uma fresta da porta se abriu e vi um olho ansioso me fitando.
— Venha, Sr. Kassim. Vai perder seu voo.
A porta se abriu mais um pouco e pude perceber que RAPTOR estava chocado por me ver — os dois olhos arregalados como se ele fosse um animal assustado.
— Como você entrou aqui? — gaguejou.
Sem responder, eu o agarrei pelo cotovelo e o empurrei para fora do banheiro. Enquanto caminhávamos apressados pela sala de embarque rumo ao portão, alguns guardas revolucionários nos lançaram olhares oblíquos, mas de modo geral pareceram não se importar. RAPTOR ficara paralisado de pavor, mas a minha súbita aparição o sacudiu de volta.
Cinco minutos depois, fiquei sabendo pelo atendente da Swissair que o voo estava a caminho de Zurique, e cabia a mim telefonar para Hal e informá-lo de que RAPTOR acabara de partir. Naquela tarde, recebemos um telegrama de Andrew dizendo que RAPTOR estava a salvo. E também contava uma história engraçada: enquanto voavam, RAPTOR removeu sua verruga falsa e a deu a Andrew como suvenir.
* * *
A OPERAÇÃO RAPTOR ESTAVA na minha cabeça enquanto eu me dirigia ao Departamento de Estado para descobrir a situação do plano de exfiltração para os hóspedes. O memorando do Departamento de Estado dizia que eles planejavam assumir o comando, mas eu estava preocupado com a capacidade deles de se saírem bem. Sabia que havia vários desafios nesse caso que podiam não parecer importantes aos não iniciados. Infiltrar e exfiltrar gente, para áreas hostis e para fora delas, é uma das tarefas mais perigosas no ramo da espionagem. É, também, uma das constantes preocupações do EST, que realiza esse tipo de operação desde os tempos do OSS. A “autenticação” de responsáveis de operações e seus agentes, fornecendo-lhes disfarce e documentos pessoais, históricos falsos e dados de apoio, “parafernália de bolso” e assim por diante, é um dos elementos fundamentais em qualquer operação clandestina. No EST, peritos em disfarce e documentação pessoal, artistas gráficos e outros especialistas passam centenas de horas preparando material, elaborando histórias e coordenando o plano. Se valiosos recursos humanos não podem mais permanecer onde estão, a política oficial da CIA é retirá-los da situação de risco.
Em se tratando dos hóspedes, eu compreendia que a operação seria um osso duro de roer. RAPTOR havia sido um agente altamente treinado e ainda assim vacilara sob pressão. Com os seis americanos estávamos lidando basicamente com amadores despreparados, escondidos numa cidade que fervilhava de ódio aos ocidentais. Seriam necessários todos os nossos recursos para resolver essa situação.
O edifício do Departamento de Estado na Rua 23 com a Rua C no centro de Washington, D.C., é imenso. Estava localizado bem em frente aos nossos escritórios de Foggy Bottom, de fato tão perto que às vezes almoçávamos na imensa cafeteria deles.
A arquitetura da sede do Departamento de Estado, tanto interna como externa, fora projetada para ser moderna e elegante, mas rapidamente perdera o viço, transformando-se numa série de retângulos insossos sem nenhuma personalidade.
Teríamos uma reunião com uma subsecretária de Estado, uma mulher respeitada, com bastante autoridade. Ela ocupava uma sala espaçosa no sétimo andar. Presentes à reunião, além de um jovem encarregado de documentos e eu mesmo, estavam dois de seus assistentes, um membro da equipe de cobertura da CIA e um supervisor da CIA da Divisão do Oriente Próximo, que achou que ia dirigir a reunião. Ele começou descrevendo como planejaria e executaria a exfiltração dos seis diplomatas do Departamento de Estado.
A subsecretária o colocou imediatamente em seu lugar:
— Desculpe — disse ela —, mas ainda não delegamos a responsabilidade a vocês. Entendemos que estão aqui para nos assessorar, e não para assumir o comando. Eu lhe asseguro que, por serem nossos diplomatas, o departamento tem a maior preocupação de como devemos nos comportar para efetivar seu resgate.
Nosso homem sentou-se, e um dos assessores tomou a palavra. Descreveu o que eles julgavam que seria a maneira de montar e efetuar uma operação dessas. Pareciam preferir um plano que trouxesse os seis aos poucos, realizando três ou mais operações paralelas, sem sair necessariamente pelo Aeroporto de Mehrabad em Teerã. Nesse ponto, eu interrompi.
— Desculpe — comecei —, mas a minha experiência me diz que, quando estamos dirigindo uma operação complexa para mais de uma ou duas pessoas, é melhor consolidar o risco, botar todo mundo junto sob uma cobertura apropriada e pegar a saída mais curta e rápida possível. É um dos princípios da guerrilha: escolher o lugar e a hora para a ação e confundir seus sentidos.
Olhei ao redor e percebi que tinha capturado a atenção de todos.
— Exfiltrações são como abortos — prossegui. — Não são necessárias a menos que alguma coisa esteja errada. Se vocês estão precisando de uma, não tentem fazer sozinhos. Nós podemos lhes dar um trabalho limpo, bem-feito.
A subsecretária olhou para mim com espanto, obviamente horrorizada. Então, com um sorriso irônico, falou:
— Bem, o senhor certamente tem talento com as palavras, Sr. Mendez. Talvez possamos levar isso adiante, e com sua ajuda, afinal de contas.
* * *
EU TIVE MINHAS PRIMEIRAS experiências com exfiltrações no começo dos anos 1970. Na época, os soviéticos espalhavam sua influência pelo Terceiro Mundo, e, como resultado, estávamos tendo mais e mais “visitantes inesperados”. Um visitante inesperado é exatamente isto: um desertor que aparece sem mais nem menos na embaixada dos Estados Unidos, ou dá um jeito de chegar a uma representação oficial, para em seguida pedir asilo, ou compartilhar alguma informação valiosa. Qualquer bom supervisor precisa saber como lidar com a situação, pois costumam ser o arroz com feijão no ramo da espionagem. Ferre com um visitante inesperado e você já era — simples assim.
Tantos funcionários soviéticos desapareceram durante esse período sem deixar vestígios que a KGB achou que nós devíamos estar sequestrando-os. Em retaliação, foi até aventada nos escalões mais altos da KGB a criação de um programa de sequestro de funcionários americanos, mas Yuri Andropov, o chefe da KGB, acabou vetando a ideia.
Minha primeira exfiltração envolveu um funcionário de alto nível da KGB de codinome NESTOR, lotado na embaixada soviética numa capital densamente povoada do subcontinente asiático. Na época, eu estava em Okinawa, dirigindo a equipe de 25 homens do setor gráfico, quando chegou uma mensagem classificada como IMEDIATA pedindo um artista-autenticador. O telegrama fora enviado por um funcionário da CIA que chamarei de “Jacob Jordan”. Ele e eu trabalhamos juntos pela primeira vez numa missão em Hong Kong em 1968, quando me pediram que ajudasse a forjar os documentos de viagem para um figurão chinês.
Jacob, um veterano do setor de disfarces e documentação do EST para a Ásia, já era uma lenda quando comecei a trabalhar com ele. Apesar de ser do Meio-Oeste, Jacob tinha aparência e comportamento mais condizentes com butiques finas do que com lojas de departamentos. Usava calçados feitos sob medida e ternos caros e, sob todos os aspectos, tinha o ar de um cavalheiro britânico. Durante todo o tempo que passei com ele, jamais o vi perder a compostura. Linguista prendado, falava fluentemente mandarim, coreano e japonês. Depois de entrar para a Divisão de Serviços Técnicos da CIA (precursora do EST), Jacob foi enviado para Xangai, em 1949. Na época em que a China caiu nas mãos do Exército Vermelho comunista, ele era considerado o maior especialista americano da região.
Menos de 24 horas depois de receber o telegrama de Jacob, eu me vi, junto com um agente de documentos, “David”, enfiado numa minúscula sala, que parecia um cofre-forte, num porto marítimo no Sudeste Asiático. Entráramos no país por via aérea, bancando os turistas, e depois de nos registrarmos num hotel fomos apanhados num lugar previamente combinado por um funcionário local da CIA, “Mac”, e levados por um emaranhado de vielas para essa locação segura. O lugar ficava num prédio de escritórios comerciais que serviam de fachada para contatos extraoficiais. O prédio se situava no meio de um mar de prédios parecidos, então não foi difícil nos misturarmos à infinidade de empresários britânicos e americanos que faziam seus negócios nesse movimentado porto.
Uma vez dentro da sala, Mac nos apresentou a mais dois funcionários locais da CIA, “Raymond” e “Jane”, que vinham trabalhando dia e noite nos últimos dias.
Nossa presença ali havia sido consequência de uma ação deflagrada doze dias antes, quando NESTOR saiu da embaixada soviética e contatou um funcionário local da CIA dizendo-lhe que queria desertar. Depois de confirmar a identidade de NESTOR, o agente da CIA lhe dera instruções de como se manter em contato e prometeu ajudar a organizar sua fuga. NESTOR, nesse meio-tempo, mergulhou na clandestinidade durante vários dias antes de chegar ao lugar marcado, onde Jacob estava à sua espera.
Se pudéssemos tirá-lo do país, NESTOR seria uma grande aquisição. Ele não era apenas um funcionário do Primeiro Diretório da KGB, setor responsável pela espionagem no exterior, mas também fazia parte de um grupo que a CIA tinha apelidado de “KGB Júnior”. Sob falsa identidade, NESTOR passara vários anos frequentando escolas na Inglaterra e nos Estados Unidos, posando de filho de funcionários soviéticos legitimamente lotados no país — de modo que falava inglês fluente, com sotaque tanto britânico quanto americano. Depois disso, frequentara diversos institutos da KGB como preparação para assumir postos na Ásia. Como resultado, ele não só podia fornecer informações valiosas sobre as operações da KGB na Ásia Central e Meridional como trazia o bônus adicional de poder ajudar a identificar outros “juniores” que estivessem sendo treinados no estrangeiro.
Como era de se esperar, o desaparecimento de NESTOR desencadeou uma avalanche de atividades por parte da KGB e do Setor Especial local. A vigilância em torno das embaixadas ocidentais e nas fronteiras aumentou drasticamente, enquanto a KGB e o Setor Especial inundavam de agentes o aeroporto, rodoviárias e estações de trem. Além disso, jornais por todo o país divulgavam notícias sobre um adido soviético desaparecido, incluindo uma boa foto de NESTOR para ajudar qualquer um a identificá-lo. Graças a seu treinamento feito em Moscou, NESTOR evitara ser seguido raspando a cabeça e se disfarçando como um dos moradores locais. Mas, para fazê-lo passar pela densa rede de segurança lançada contra nós, teríamos de fazer o nosso melhor.
Nossa maior preocupação eram os controles de segurança no aeroporto. Com uma caçada humana em andamento, as companhias aéreas solicitavam que todos os passageiros confirmassem seus voos pessoalmente antes de deixarem o país. De algum modo, tínhamos conseguido bolar um jeito de superar esse obstáculo final. Mas era preciso agir depressa. Tínhamos apenas três dias até a hora de efetivar a operação.
Quando se trata de exfiltrações, o leigo quase sempre pensa em “opções negras”, geralmente envolvendo uma viagem noturna de helicóptero ou uma travessia desesperada de fronteira em compartimentos ocultos num carro e um espião americano passando uma boa conversa para se livrar do perigo. O problema inerente à maior parte dessas hipóteses é que, se qualquer coisa der errado, então não há chance de negativas plausíveis. Se o plano ruir por terra, a bandeira americana envolverá todo o carro ou helicóptero. Em certas situações, não há escolha — as únicas opções possíveis são essas e é preciso assumir os riscos.
Na maioria dos casos, porém, uma partida quase legal num voo comercial é o meio mais simples e eficaz de tirar uma pessoa valiosa do país. Jacob forneceria o disfarce para NESTOR, enquanto David e eu criaríamos dois conjuntos de documentos falsos para ele usar.
Quando me sentei para dar uma olhada no plano operacional para NESTOR, pude ver de imediato que, no quartel-general, não havia escassez de ideias sobre o que fazer. Raymond trouxera uma grossa pilha de mensagens, cada uma com uma opinião diferente. Parecia que todo mundo estava dando palpite, algo que eu viria a chamar de “efeito comitê”.
Mais tarde, após alguns dias de suspense, Jacob chegou a uma decisão. Ele vinha dormindo no esconderijo com NESTOR, instruindo-o para o disfarce, e conhecia a situação melhor do que ninguém. NESTOR estava ficando ansioso, e, enquanto Jacob lia os comunicados, sacudia a cabeça com espanto. “Tudo bem”, disse Jacob ao concluir. “Eis o que nós vamos fazer.” Ao ouvir Jacob apresentando sua ideia, percebi que estava aprendendo uma lição valiosa, uma lição que levaria comigo pelo resto da minha carreira: jamais subestime o homem em campo. Nesse caso, Jacob sabia que NESTOR falava alemão fluente e poderia facilmente incorporar um empresário alemão, que se danassem as restrições da central. Mais importante, como NESTOR começava a fraquejar, Jacob nos informou que o levaria ao aeroporto “de cabo a rabo”, o que queria dizer que ele estaria fisicamente presente para intervir caso algo saísse errado. Era uma jogada arriscada, pois NESTOR poderia comprometer Jacob, mas, por outro lado, aquilo lhe permitiria resolver o problema da confirmação pessoal da reserva do voo. Era algo que Jacob poderia fazer no lugar do fugitivo.
Uma vez escolhida a cobertura, Jacob começou a trabalhar no disfarce de NESTOR, transformando o russo baixo e atarracado num distinto empresário alemão. Usando uma câmera que eu havia providenciado, bateu algumas fotos em várias poses e diferentes jogos de luz, permitindo a David e a mim montar todo um complemento de documentos falsos que dariam a impressão de um homem em diferentes fases da vida.
Na noite da exfiltração, minha função era ficar de vigia no terraço da sala de embarque, para ver se Jacob e NESTOR haviam conseguido chegar ao avião. Tínhamos escolhido o voo da TWA, que deveria partir à uma da manhã. Porém, o voo sofreu uma hora de atraso, e quando ele finalmente chegou a “fumerda” — um espesso nevoeiro que enlaça o chão composto de partes iguais de fumaça e merda queimando — estava tão densa que eu mal podia distinguir as silhuetas dos passageiros que caminhavam pela pista. Quando não vi Jacob e NESTOR entre aqueles que embarcavam, fiquei nervoso. Mais tarde, soube que tudo lá dentro correra de acordo com o planejado até NESTOR chegar ao balcão da alfândega, onde um funcionário de turbante imediatamente pegou seu passaporte e desapareceu numa salinha. Alguns minutos depois, o funcionário ressurgiu acompanhado de um europeu que era na verdade um dos colegas de KGB de NESTOR. Os dois se encararam por longos segundos antes de NESTOR, mergulhado no personagem, acender um charuto cubano que Jacob lhe dera e soltar uma grossa baforada de fumaça na direção do funcionário da KGB. O homem continuou a estudar NESTOR, mas por fim acenou para que ele passasse. O charuto foi o detalhe final que enganou seu ex-colega.
Alguns minutos depois, finalmente pude ver Jacob e NESTOR embarcarem no avião junto com os últimos passageiros.
Quando conseguiram decolar para Atenas, um pouco antes das três da manhã, ocorreu-me ligar para Raymond para lhe contar que a operação fora um sucesso. Enquanto revirava os bolsos em busca de uma moeda no telefone público, meu corpo cedeu diante de toda a tensão dos três últimos dias. De repente, tive um ataque de pânico de o telefone não funcionar, algo que me assombraria por muitos anos. Mas, após discar o número, ouvi o toque e o inconfundível clique quando Raymond atendeu do outro lado. Conforme nosso código pré-combinado, informei que NESTOR saíra perguntando: “Suzy está aí?”
Fazendo o jogo, Raymond berrou: “Não!”, e bateu o telefone na minha cara.
Quando finalmente consegui voltar ao hotel, estava exausto, mas não pude dormir, pois caíra a ficha em relação à gravidade do que acabávamos de realizar. Não só tínhamos efetuado uma das mais importantes exfiltrações da história da Agência, mas, na minha cabeça, também havíamos estabelecido uma espécie de arcabouço pelo qual todas as outras exfiltrações se guiariam.
* * *
TODA AGÊNCIA DE INTELIGÊNCIA é, em última instância, julgada por seu sucesso no resgate de pessoas e pela habilidade de retirá-las de situações de perigo, o que constitui, em essência, uma exfiltração. A chave para fazer isso é a prontidão, e, na esteira de NESTOR, a CIA começou a procurar meios de poder melhorar nossos recursos. Uma das principais lições que aprendi foi que, em se tratando de exfiltrações, quase 90% dos problemas são questões de logística — simplesmente assegurar-se de que cada coisa esteja em seu lugar. Prever cada um dos problemas logísticos pode de fato significar a diferença entre sucesso e fracasso. A necessidade de prontidão já fora ressaltada numa operação anterior envolvendo a filha de Stalin, Svetlana, que decidira desertar durante uma viagem à Índia em 1967. Ela foi casada com um indiano e, quando ele morreu, Svetlana viajou para aquele país levando suas cinzas. Normalmente, solicitava-se aos cidadãos soviéticos que deixassem os passaportes na embaixada local durante suas estadas no estrangeiro. Mas ela convenceu o funcionário russo de que partiria cedo, na manhã seguinte, e pediu para ficar com o documento para ir embora sem ter de esperar. Assim que recebeu o passaporte, de forma parecida ao que aconteceu com NESTOR, Svetlana deixou a embaixada soviética e entrou direto na nossa. Isso foi à meia-noite, e o supervisor responsável mandou imediatamente um telegrama a Washington pedindo orientação. A resposta da central foi algo do tipo “se Stalin tivesse tido uma filha, ela jamais teria se casado com um indiano”. A decisão cabia ao supervisor. Ali estava uma visitante inesperada que poderia definir o resto de sua carreira. Se fosse realmente a filha de Stalin, então pela manhã a embaixada estaria cercada e haveria pouca chance de tirá-la dali. Por sorte, ela havia trazido seus documentos, o que facilitava as coisas. Decidindo que não podia correr o risco, o agente a pôs dentro de um avião que a tirou do país nas primeiras horas da manhã, antes que uma busca decente pudesse ser organizada. Ela conseguiu chegar aos canais de refugiados na Europa. Como se viu depois, falava a verdade. hóspedes. Na central, em Ottawa, e no Departamento de Estado, havia montes de palpites. Com os 7 hóspedes assentados, porém, parecia que tínhamos algum tempo para pesar nossas opções. E aí, justamente quando eu pensava que era impossível que a situação ficasse mais complicada, soube que um jornalista canadense em Washington estava trabalhando no caso e em vias de torná-lo público.
Essa operação, bem como a de NESTOR, nos ensinou que seria extremamente interessante para a Agência se pudéssemos preparar de antemão materiais que melhorassem a nossa prontidão. Começamos a montar sondagens e a estabelecer trajetos predeterminados para certas áreas. Um desses trajetos incluía a travessia de uma fronteira no dorso de um elefante.
Para enfrentar tal conceito de prontidão, pensei em um treinamento polivalente para um seleto grupo de agentes técnicos especializados em várias disciplinas, como disfarces e documentos. Hoje pode parecer óbvio, mas na época não era assim que se faziam as coisas. Apelidado de “programa generalista”, a ideia era criar um corpo técnico capaz de fazer coisas que seriam críticas em campo e que precisariam ser feitas com rapidez. Teoricamente, um agente poderia fazer o trabalho de dois especialistas. Além disso, acabaria sendo criado um novo cargo na central, conhecido como assistente especial de exfiltração, cuja função seria acompanhar todos os casos de exfiltração da CIA em andamento pelo mundo. Isso nos daria condições de arrebanhar recursos a qualquer momento. Quando o próximo caso de exfiltração ou de visitante inesperado ocorresse, nós estaríamos prontos.