Argo

Antonio Mendez e Matt Baglio · Capítulo 12 de 17

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Argo

11. Uma conflagração cósmica

mais direta de que fossem descobertos a qualquer momento. 1 1

Em uma ocasião, a esposa de Ken Taylor, Pat, recebera o telefonema misterioso de uma pessoa não

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identificada que pediu, em inglês perfeito, para falar com Joe e Kathy Stafford e então desligou.Ken Taylor, é claro, sabia que havia jornalistas que vinham juntando pedaços da história e, como o autor da ligação falara em inglês, tinha esperança de que fosse apenas um jornalista ocidental à cata de informação. Mas, num gesto calculado, decidiu não contar aos seis americanos sobre o telefonema, com medo de assustá-los.

Após quase três meses, havia gente no Irã sabendo que seis americanos estavam à solta. A essa altura, os militantes tinham uma boa noção a respeito dos vários empregados que trabalhavam na embaixada no dia em que ela foi tomada. Muitos documentos haviam sido retalhados num picotador comercial, daqueles que cortam as folhas de papel em longas tiras. Porém, os iranianos empregaram crianças tapeceiras para emendar as tiras. Além disso, várias caixas de documentos foram inexplicavelmente esquecidas no primeiro andar da embaixada quando a equipe fugiu. O mais prejudicial, contudo, foi a apreensão de todo o conteúdo do cofre de Bruce Laingen, revelando não apenas as comunicações secretas entre Washington e Teerã, mas também as identidades de vários empregados, inclusive dos três funcionários da CIA.

Mais tarde, Cora viria a descobrir que os militantes acabaram levando um empregado do consulado para percorrer as diversas salas, perguntando quem trabalhava em cada uma. Ficou claro que o número de capturados não batia, e, quando os militantes mencionaram isso, o colega deu cobertura aos ausentes dizendo que estavam fora do país quando a embaixada caiu. Aparentemente, os militantes acreditaram, mas ninguém podia dizer por quanto tempo isso iria colar.

Em outra ocasião, Anders e Schatz tomavam sol no pátio quando foram obrigados a se abaixar e se esconder dentro de casa quando um helicóptero pairou bem em cima deles. Os quatro hóspedes se encolheram dentro da casa, esperando o que presumiam ser um ataque iminente. Anteriormente, tinham criado um plano de fuga em duas etapas no caso de algo assim acontecer. A primeira etapa pressupunha uma corrida até o telhado e dali uma saída para a rua que passava no alto da casa dos Sheardown. A segunda etapa era — bem, era a parte que eles ainda não tinham concebido. Com um helicóptero pairando sobre suas cabeças, seria apenas questão de segundos até serem localizados. Eles se encolheram e a aeronave acabou indo embora. Zena ligou para John na embaixada canadense para descobrir se ele sabia de alguma coisa. O que se passara era o assassinato de um mulá numa mesquita próxima. A Guarda Revolucionária vasculhava a área em busca do agressor.

* * *

ESSES SUSTOS OCASIONAIS, AGREGADOS à monotonia do confinamento, viviam testando a força moral dos hóspedes. Zena se recolhia mais e mais, enquanto os outros tentavam lidar com a incerteza da melhor forma possível. Cora, ao que parece, passou a dormir até tarde e também na maior parte do dia. Mark lembra-se de ter se escondido debaixo da cama uma noite enquanto os Sheardown levavam um visitante iraniano curioso para um passeio pela casa. Todos sentiam que estavam abusando da hospitalidade canadense, e queriam desesperadamente encontrar uma solução. Outra coisa que lhes ocorreu foi a possibilidade de um deles ficar seriamente doente e precisar de cuidados médicos. A chance de serem capturados, mortos ou de sofrerem algum acidente esquisito aumentava a cada segundo que permaneciam no país.

No início da estadia, os hóspedes foram informados de que, quando os reféns fossem libertados, eles seriam escoltados até o aeroporto por um grupo de embaixadores ocidentais que tentariam colocá-los no mesmo avião. Todavia, à medida que as semanas se arrastavam, tal situação parecia cada vez menos provável. Nas suas cabeças, o fato de terem conseguido escapar os tornaria importantes suspeitos aos olhos dos militantes. E se os militantes exigissem interrogá-los? E se os acusassem de serem espiões simplesmente por terem escapado do cativeiro? Eles achavam que sua situação era completamente independente da captura da embaixada e sentiam que o Departamento de Estado não estava fazendo o bastante para ajudá-los.

Cansados do que consideravam inoperância, uma noite eles se reuniram na saleta para redigir uma carta na qual expressavam a frustração e medo de serem deixados para trás no caso da libertação dos reféns. E, mesmo sabendo que o embaixador Taylor provavelmente não mandaria a carta, tinham certeza de que a intenção da mensagem certamente seria transmitida.

Nesse meio-tempo, o estado de espírito em Ottawa também se tornou mais tenso. O conhecimento da existência dos americanos fugitivos vinha se tornando um segredo compartilhado por cada vez mais gente. Flora MacDonald, por sua vez, ficava cada vez mais nervosa, à medida que mais pessoas a abordavam com perguntas sobre os hóspedes. Os canadenses começaram a fazer arranjos discretos para fechar a embaixada. Ninguém sabia ao certo por quanto tempo o segredo dos hóspedes poderia permanecer a salvo.

* * *

DE VOLTA A WASHINGTON, as diversas iniciativas aglutinadas contra o Irã continuavam a todo vapor. Sentei-me imediatamente com minha equipe para repassar os preparativos técnicos finais para a história de Argo. Além disso, como a central ainda precisava avalizar um plano específico de operações, isso queria dizer que tínhamos de finalizar materiais para Argo, bem como para as outras duas histórias de fachada — os nutricionistas canadenses e os professores de inglês americanos. Apesar de toda a fundamentação que obtivemos, aparentemente ainda havia gente no Departamento de Estado e no Conselho de Segurança Nacional que estava cética da opção hollywoodiana. Ela era ambiciosa demais, ousada demais, complexa demais. Na minha cabeça, eram exatamente essas as características que fariam com que funcionasse.

Todos no departamento ficaram impressionados com o anúncio na Variety, mas lembrei-lhes que ainda havia muito trabalho por fazer.

Agora que tínhamos a Estúdio Seis em funcionamento, o passo seguinte seria formar um portfólio, atribuir os papéis aos hóspedes e elaborar a documentação secundária. Eu sabia que tínhamos uma janela de tempo muito pequena para aprontar tudo, de modo que precisávamos agir rapidamente.

Joe Missouri havia retornado recentemente do Canadá, e eu o encarreguei da tarefa de bolar os antecedentes de cada um dos hóspedes. Eu tinha absoluta confiança nele. Era capaz de inventar qualquer história para qualquer situação. Havia partilhado com ele algumas das anotações que Calloway e Sidell me deram sobre os papéis mais prováveis que cada um deveria desempenhar, bem como seus créditos. Seria tarefa de Joe examinar suas personalidades e idades e criar funções plausíveis para eles. Por exemplo, soubemos que Kathy Stafford tinha um passado no campo das artes, por isso foi transformada em diretora de arte.

Lembro-me de ver Joe sentado à sua mesa, cigarro pendurado nos lábios, datilografando na sua máquina de escrever. Joe era brilhante e se encaixava no molde de uma nova geração que estava imersa no mundo à sua volta. Curtia sua tarefa, e ocasionalmente vinha me mostrar o que tinha feito. Para facilitar aos hóspedes lembrar detalhes, Joe inventara o engenhoso truque de usar particularidades de suas vidas reais. Por exemplo, ao elaborar a identidade falsa de Mark Lijek, “Joseph Earl Harris”, Joe usara o primeiro nome e o nome do meio do pai de Cora. Da mesma maneira, como data de nascimento da identidade de Mark, utilizara o aniversário do pai de Cora.

Tentar memorizar uma identidade falsa pode ser uma tarefa assustadora, especialmente se sua vida depende disso. Às vezes, não dá para evitar a confusão, principalmente quando se está viajando com múltiplos documentos. Lembro-me de uma vez que viajei a Moscou com uma identidade falsa e estava me registrando num hotel quando o recepcionista disse:

— Ok, Sr. Mendez, temos reservas para o senhor para duas noites.

Sem perder a compostura, passei-lhe meu passaporte falso e disse:

— Ah. Mendez não pôde vir. Eu vim no lugar dele.

Inadvertidamente, a reserva fora feita no meu nome real. Na verdade, às vezes, quando você assina o livro de visitantes de uma embaixada, dá para ver as pessoas que se esqueceram momentaneamente de quem deveriam ser, porque deram entrada sob outro nome e depois o rabiscaram para escrever outra coisa no lugar.

Ao terminar, Joe pegou os papéis dos vários membros do grupo de produção e os reescreveu sob a forma de currículos. Isso não só ajudaria os hóspedes a decorar suas identidades como também podia ser levado abertamente no portfólio do gerente de produção, o que daria credibilidade à minha própria fachada.

Enquanto isso se passava, reuni-me com Truman, nosso chefe de produção, para falar sobre os cartões de visita da Estúdio Seis. Cada hóspede teria seu próprio cartão, contendo o título e o número de telefone do nosso escritório em Los Angeles. Na viagem de volta de LA, eu tivera uma ideia e a submeti a ele:

— Que tal um enorme número seis em vermelho no cartão, feito de tiras de filmes? — perguntei.

Ele fez que sim com a cabeça.

Também lhe entreguei dois exemplares de carteiras de associação profissional que Calloway e Sidell tinham pedido “emprestado” a seus amigos, bem como o roteiro do filme e os desenhos de Jack Kirby. Para o roteiro, precisaríamos tirar todas as referências ao título anterior e inserir “Argo”. Para os desenhos, eu queria que alguns dos ilustradores do “cercado” criassem suas próprias versões de criaturas do espaço sideral e desenhos muito pirados, como se nossa diretora de arte viesse trabalhando em suas próprias ideias. Percebi que se tratava de um pedido estranho, mas tinha absoluta confiança em nossos artistas, contratados por sua habilidade para fazer de tudo. Tarefa nenhuma parecia fora de seu alcance, inclusive finos esquemas técnicos e caligrafia forjada. A maioria deles era de “operários” do ofício que se orgulhavam de sua versatilidade. Era uma cepa especial em meio à burocracia da nossa organização. Os artistas eram difíceis de administrar. Mais de uma vez ameaçaram entrar em greve. Mas eram altamente competentes no que faziam.

Truman, originalmente um tipógrafo especializado em composição, se encaixava perfeitamente no molde desses operários. Como chefe de produção, ele supervisionava qualquer coisa de que precisássemos do departamento gráfico. Costumava dar um número a cada uma das tarefas que chegavam ao setor gráfico, colando-o num grande envelope pardo conhecido como capa da tarefa. Era assim que o progresso do trabalho era acompanhado, e as horas registradas de seção em seção. Isso acontecia, é claro, porque quase toda tarefa gráfica exigia uma multiplicidade de departamentos. O EST tinha peritos em tintas, em papel, em fotografia e até um prelo à sua disposição.

Depois de receberem as carteiras das associações profissionais, os artistas as esquadrinharam de todos os ângulos. Não basta que um documento pareça estar em ordem. Ele também precisa transmitir a sensação de que está em ordem. Por exemplo, qual o som que produz ao ser amassado? Por isso, examina-se o papel e procura-se no estoque aquele que é mais adequado. O mesmo vale para carteiras de identidade plastificadas. Se alguém para você no meio da noite para examinar o documento, talvez ele não consiga enxergá-lo direito, mas com toda certeza sente a textura. Talvez uma das ciladas seja um plastificado grudento. Tudo isso é levado em consideração quando o setor gráfico reproduz documentos.

Allen Dulles disse da melhor forma: “Qualquer serviço de inteligência que se preze é capaz de fabricar dinheiro dos outros.” Em outras palavras, todo país precisa ter suas próprias e rígidas medidas de segurança, ao mesmo tempo que trabalha ativamente, de forma secreta, em um jeito de revirar pelo avesso as medidas do inimigo mais rápido do que o outro consegue inventá-las.

* * *

DEPOIS DE ELABORAR O portfólio, a tarefa seguinte seria trabalhar na documentação de viagem dos hóspedes. Agora que sabíamos quem eram, precisávamos mostrar como tinham chegado ao Irã para conseguir tirá-los de lá.

Isso não era tão fácil quanto parece, pois exigia não só registro de passagens, mas também a inserção de diversos carimbos e selos de fronteira nos passaportes para mostrar que eles de fato seguiram o itinerário específico que diziam ter seguido. É sempre um processo complexo e envolve dezenas de funcionários técnicos altamente qualificados trabalhando em duplas. Nesse caso, tínhamos optado por um itinerário de volta ao mundo, com os hóspedes fazendo o voo final de Hong Kong para o Irã. Isso queria dizer que Joe precisava ir aos arquivos e buscar o carimbo específico usado pelo funcionário da imigração em Hong Kong no dia em que os hóspedes diziam ter partido. Por isso é tão importante atualizar continuamente os registros de viagem. É a razão para a CIA fazer constantes verificações para manter em dia a base de dados. Depois de achar o carimbo certo, Joe o mandaria para o chefe de produção, cuja tarefa seria acompanhar sua inserção por várias fases envolvendo numerosos departamentos no EST. Concluído o processo, Joe receberia um documento de viagem contendo o carimbo apropriado. Mas isso seria relativo a apenas um país. Imagine ter de inserir dezenas de selos e carimbos em um passaporte. E mais, imagine centenas de operações semelhantes acontecendo simultaneamente, e assim você terá uma ideia da natureza complexa do trabalho em andamento no departamento gráfico.

Para completar nosso roteiro, Doris estava ocupada reunindo alguns materiais de disfarce. Seriam incluídos num malote enviado de Ottawa para a embaixada canadense em Teerã. Como eu ia seguir para o Irã, meu envolvimento era mais direto do que o habitual, e de vez em quando Doris vinha a mim com um relatório dos progressos. Devido à inexperiência dos hóspedes em usar disfarces sofisticados, optamos por ressaltar traços visuais e comportamentais básicos para servirem de máscara. Diplomatas são tradicionalmente conservadores na aparência; nós os estimularíamos a ficarem mais extravagantes, geniosos, sensuais. Montes de perfumes e loção pós-barba, camisas desabotoadas, calças justas, correntes de ouro, joias chamativas, cabelos esvoaçantes — um visual que eles jamais escolheriam. E o comportamento também precisaria mudar: teriam de ser mais escandalosos, mais agressivos, mais histriônicos, até mesmo arrogantes. Em suma, todo o estereótipo que um observador associaria a alguém que trabalhasse em Hollywood.

Também não sabíamos de quanto espaço dispúnhamos, uma vez que os materiais de disfarce teriam de caber na mesma sacola com os documentos. Doris voltou com um pequeno kit tipo faça você mesmo para cada um dos hóspedes, que incluía produtos como gel de cabelo, maquiagem, óculos da moda, delineador etc., bem como uma folha impressa com instruções detalhadas de como eles poderiam modificar suas aparências. O kit incluía, também, o monóculo que Sidell escolhera para o diretor de fotografia usar pendurado no pescoço, bem como os materiais que eu levaria comigo no portfólio, tais como o roteiro e a prancheta do cronograma.

Com a central e o Departamento de Estado ainda vacilando em relação às diferentes opções de fachada, redigi uma versão atualizada do plano de operações expondo a minha ideia de levar as três comigo para o Irã. Eu as apresentaria, então, aos hóspedes e os deixaria decidir se queriam sair individualmente ou em grupo e qual dentre as fachadas eles preferiam. Não era a situação ideal, mas, com tantas instituições governamentais envolvidas, senti que era o único jeito de chegar lá a tempo. Sabia também que, sendo eu quem lhes apresentaria as opções, poderia conduzi-los na direção que eu achava que deveríamos seguir. Qualquer coisa era melhor do que simplesmente ficar sentado esperando que os burocratas tomassem uma decisão. Eu sabia que os canadenses também estavam ficando nervosos. Era hora de tirar nossos diplomatas de lá, antes que fosse tarde demais.

Cerca de uma semana depois que voltei da Califórnia, tudo estava pronto. Joe e eu saltamos dentro de um avião e voamos para Ottawa para recolher o malote.

Logo que chegamos ao Canadá, saímos para finalizar os documentos e juntar ainda mais lixo de bolso, coisas como distintivos com o símbolo do Canadá, caixas de fósforos, cartões de visitas, recibos — dessa vez, elementos que dariam aos hóspedes a aparência de serem cidadãos canadenses.

O malote canadense se revelou do tamanho de uma fronha de travesseiro, mal tendo espaço suficiente para o kit de documentos e materiais de disfarce. Os couriers canadenses, pelo visto, tinham uma vida bem mais fácil que o courier típico do Departamento de Estado, que geralmente transporta vários malotes do tamanho de sacos de correio. O canadense tem permissão de levar apenas uma sacola e a mantém junto a si o tempo todo. Assim, havia um contratempo final: parte do nosso material de disfarce extra teria de ser deixada para trás.

Antes de voar para o Canadá, eu fizera uma revisão de tudo que tínhamos juntado para a hipótese dos professores de inglês e percebi que havia a possibilidade de sermos levados a uma situação constrangedora. Os canadenses haviam conseguido documentos com referências escoradas para a opção proposta por eles — carteiras de motorista, carteiras de saúde do Canadá, cartões de visita para nutricionistas —, ao passo que as permissões das várias agências da CIA para obter documentos similares para os professores foram lentas demais. Lembro-me de ter procurado o chefe do setor gráfico na véspera às sete da noite e perguntado o que ele tinha no arquivo. A única coisa que conseguiu encontrar foi um cartão de crédito de uma grande loja de departamentos. Achei que era melhor do que nada, mas quando liguei para Fred Graves, chefe de operações do EST, para perguntar se podíamos usar o cartão de crédito sua resposta foi basicamente “Não”. Como resultado, os conjuntos de documentos de identidades falsas dos Estados Unidos eram superados de longe pelos canadenses. Na verdade, a única razão de mandar esses documentos era apaziguar certas esferas do planejamento operacional. Mas eu não levava essas questões para o lado pessoal. Não desejava mal a ninguém. Sabia que eles só estavam fazendo o que julgavam ser o melhor para sua gente.

Se os nossos colegas canadenses fizessem um inventário dos documentos a serem colocados no malote, ficaríamos com caras de trouxa. Isso nos incomodou. Assim que chegamos à embaixada dos Estados Unidos em Ottawa, na manhã seguinte, nos revezamos juntando cartões de visita e outros artigos de bolso para encher o pacote.

Acabou que os canadenses não examinaram o conteúdo da sacola. Constrangimento evitado.

Tínhamos seis passaportes canadenses e doze americanos. É claro que já havíamos enviado antecipadamente um conjunto de passaportes canadenses, e isso queria dizer que possuíamos recursos redundantes nas duas nacionalidades. Para o primeiro conjunto, os técnicos do EST no Canadá já haviam forjado vistos, vindos de um país da Europa, mas, para o segundo, os vistos operacionais tinham sido deixados em branco. Julio e eu os completaríamos com carimbos de entrada em terra já em Teerã, de modo a termos alguma flexibilidade de última hora.

Por fim, um conjunto de instruções altamente detalhadas sobre o uso dos documentos e sobre as informações finais a serem transmitidas aos hóspedes também foi preparado para fácil consulta — escrito por gente não especializada —, acompanhado de passagens aéreas mostrando itinerários de volta ao mundo. Ao deixar o Canadá, senti-me bem sabendo que estávamos alguns passos mais perto de tirar os hóspedes de lá.

* * *

DE VOLTA A WASHINGTON , comecei a me preparar para a fase seguinte da operação, que seria viajar para a sucursal do EST na Europa. Ali, eu planejava me juntar a Julio, preparar meus documentos falsos e obter meu visto.

Antes de partir, porém, fiz uma visita ao EST. Ao caminhar pelo corredor, passei pela sala de Fred Graves. “Mendez!”, ele me chamou quando eu ia passando, parecendo um instrutor do corpo de fuzileiros.

— Você não está mais lá fora em campo se divertindo! — berrou. — Tem que voltar para cá e administrar; você não é mais um agente de operação!

Eu sabia que era o jeito dele de me manter no meu lugar, mas era também um bom lembrete de que, se algo saísse errado, era o meu que estava na reta.

Na noite seguinte, Karen foi comigo de carro até o Aeroporto Internacional Dulles. Com meus filhos, procurei não criar muito alvoroço em relação à viagem. Nessa época, já adolescentes, eles tinham coisas mais importantes com que se preocupar. Karen era diferente. Quando encostamos no aeroporto, notei que ela estava preocupada. E sabia também que ela entendia a importância do que eu precisava fazer.

Já nos despedíramos muitas vezes, anteriormente. A despedida tinha praticamente um ritmo. Não era como olhar o cano de um revólver e ver a vida passar em um segundo. Era mais como uma tradição, sabendo que havia perigo pela frente, mas que provavelmente poderia ser administrado. É claro que sempre pensamos que somos capazes de administrar o perigo, até o dia em que não conseguimos. Havia sempre uma tristeza pesada quando eu partia para essas missões. A última vez que eu estivera no exterior fora na operação de exfiltração em abril, nove meses antes, quando resgatara RAPTOR. Na ocasião, Karen sabia, como agora, que eu correria perigo, mas sem detalhes. Nem antes nem mesmo depois. Era melhor assim.

Tirei a chave do contato e me virei para Karen. Puxando-a para mim, eu a beijei e a abracei por muito tempo. Sentia as batidas de seu coração. Houve uma pausa — ficamos simplesmente ali sentados, sem falar nada. Finalmente, ela rompeu o silêncio:

— Você precisa arranjar um emprego de verdade — ela disse.

— Este é um emprego de verdade — retruquei. — É um bom emprego.

— Você tem que arranjar outro emprego — repetiu.

Saí do carro e tirei minhas sacolas do porta-malas. Karen também desceu e deu a volta no carro até chegar ao lugar onde eu estava segurando a porta do motorista. Entreguei-lhe minha aliança — agentes sempre usam fachadas de gente solteira. Poderia ter deixado a aliança no escritório. Ou no armário. Mas entregá-la a Karen era parte da nossa tradição. “Toma”, aquilo significava. “Guarda para mim; vou voltar para pegá-la.” Nunca dissemos essas palavras. Mas estava implícito. “Voltarei.”

Enquanto ela se afastava com o carro, deixando-me na calçada, fui tomado por uma onda momentânea de tristeza. Eu esperava cumprir minha promessa. que nos daria redundância caso um de nós não conseguisse. Julio e eu vínhamos nos comunicando 1 2 havia algum tempo enquanto eu finalizava os detalhes do meu pacote de documentos com o escritório do EST na Europa. O plano era que pedíssemos vistos iranianos separadamente, em diferentes cidades europeias, e voltássemos a nos encontrar em Frankfurt antes de finalmente nos infiltrarmos no Irã. Se nenhum dos dois tivesse sorte, eu já havia providenciado um plano alternativo. Um de nossos colegas na Europa tinha um passaporte com identidade falsa, emitido pelo EST, usado de vez em quando. No início do processo, eu o instruíra a obter um visto iraniano nesse passaporte, de modo a termos um exemplar, uma versão original e atualizada do visto real. Ele não teve problema em conseguir o visto, e, se necessário, eu pegaria carona na sua identidade se não tirasse o meu.