As Herdeiras de Duna
Folha de Rosto
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 16 partes.
— Madre Superiora, se pudéssemos ter só...
— Diga a suas jardineiras, Fali, que têm uma escolha.
Podem reclamar e esperar aqui até que as Honradas Madres venham para escravizá-las, ou podem escolher a Dispersão.
Odrade voltou para o carro e sentou-se, olhos fechados, até que ouviu as portas fecharem-se e puseram-se a caminho.
Eventualmente, abriu os olhos. Já tinham saído de Pondrille e estavam na alameda vidrada, atravessando os círculos de pomares do sul. O silêncio atrás dela era carregado. As Irmãs estavam contemplando seriamente o comportamento da Madre Superiora naquela ocasião. Um encontro não satisfatório. As acólitas naturalmente captavam o estado de espírito. Streggi tinha um ar taciturno.
Esse tempo exigia atenção. As palavras não podiam mais aplacar as reclamações. Os bons dias eram medidos por padrões mais baixos. Todos sabiam as razões, mas as mudanças continuavam sendo o foco. Visível. Não se podia reclamar da Madre Superiora (não sem boa razão!), mas era possível reclamar do tempo.“Por que tiveram que fazer o tempo tão frio hoje? Por que hoje, que tenho de estar lá fora? Bem quentinho quando saímos, mas olhe agora. E eu sem agasalho!”
Streggi queria conversar. “Bem, é por isso que a trouxe.” Mas tinha se tornado quase tagarela à medida que a intimidade corroía seu temor da Madre Superiora.
— Madre Superiora, procurei em meus manuais uma explicação de...
— Cuidado com manuais! — Quantas vezes em sua vida ouvira ou pronunciara essas palavras? — Os manuais criam hábitos.Streggi ouvira muitas preleções sobre hábitos. As Bene Gesserit os tinham — essas coisas que o Povo preservava como
“Peculiaridades das Bruxas!” Mas padrões que permitiam a outros predizer o comportamento, esses tinham de ser cuidadosamente extirpados.
— Então por que temos manuais, Madre Superiora?
— Principalmente para refutá-los. O Coda é para noviças e outras em treinamento primário.
— E as histórias?
— Nunca ignore a banalidade das histórias registradas.
Como Reverenda Madre, você reaprenderá a História a cada novo momento.
— A verdade é uma xícara vazia. — Muito orgulhosa por lembrar-se do aforismo.
Odrade quase sorriu.
“Streggi é uma jóia.”
Era uma idéia que induzia cautela. Certas pedras preciosas podiam ser identificadas por suas impurezas. Os técnicos as marcavam dentro das próprias pedras. Uma impressão digital secreta. As pessoas eram assim. Muitas vezes podiam ser conhecidas por seus defeitos. A superfície cintilante diz muito pouco. Uma boa identificação requer que se olhe no fundo para ver as impurezas. Até que estava a qualidade preciosa de um ser total.
O que teria sido de Van Gogh sem impurezas?
— São os comentários de cépticos com percepção, Streggi, coisas que eles dizem sobre a História, que devem ser seus guias antes da Agonia. Depois, você será sua própria céptica e descobrirá seus próprios valores. Por enquanto, as histórias revelam datas e dizem-lhe que algo ocorreu. As Reverendas Madres procuram as coisas e aprendem os preceitos dos historiadores.
— Isso é tudo? — Profundamente ofendida. “Por que desperdiçaram meu tempo dessa maneira?”
— Muitas histórias são em grande parte inúteis porque são preconceituosas, escritas para agradar um ou outro grupo poderoso.
Espere para que seus olhos se abram, minha cara. Nós somos as melhores historiadoras. Estivemos lá.
— E meu ponto de vista mudará diariamente? — Muito introspectiva.
— Essa é uma lição que o Bashar nos lembrou que devíamos manter viva em nossa mente. O passado deve ser reinterpretado pelo presente.
— Não estou certa de que gostarei disso, Madre Superiora.
Tantas decisões morais.
Ahhhhh, essa jóia via até o âmago, e dizia o que pensava como uma verdadeira Bene Gesserit. Havia facetas cintilantes entre as impurezas de Streggi.
Odrade olhou de lado a acólita pensativa. Há muito tempo atrás, a Irmandade decidira que cada Irmã deveria tomar suas próprias decisões morais. “Nunca siga um líder sem fazer suas próprias perguntas.” Era por isso que o condicionamento moral das jovens tinha uma prioridade tão alta.
“E por isso que gostamos de acolher futuras Irmãs bem jovens. E talvez seja por essa razão que existe uma falha moral em Sheeana. Nós a recebemos tarde demais. O que é que ela e Duncan falam tão secretamente com as mãos?”
— As decisões morais sempre são fáceis de reconhecer —
disse Odrade. — Elas existem onde você abandona o interesse pessoal.
Streggi olhou para Odrade com espanto. — Que coragem é preciso para isso!
— Não é coragem! Nem mesmo desespero. O que fazemos, no sentido mais básico, é natural. Coisas feitas porque não existe outra escolha.
— Às vezes me faz sentir muito ignorante, Madre Superiora.
— Excelente! É o princípio da sabedoria. Há muitas espécies de ignorância, Streggi. A mais baixa é de seguir seus próprios desejos sem examiná-los. Há vezes em que o fazemos inconscientemente. Apure sua sensibilidade. Fique consciente do que faz inconscientemente. Pergunte sempre: quando fiz aquilo, o que estava procurando ganhar?
Chegaram ao topo da última colina antes de Eldio, e Odrade acolheu um momento de reflexão.
Alguém atrás dela murmurou: — Lá está o mar.
— Pare aqui — ordenou Odrade quando se aproximaram de um amplo desvio em uma curva de onde se via o mar. Clairby conhecia o lugar e estava preparado. Muitas vezes Odrade lhe pedia para parar ali. Parou onde ela queria. O carro rangeu quando parou. Ouviram o ônibus parar atrás deles, uma voz alta lá atrás dizendo às companheiras: “Olhem só isso!”
Eldio se estendia lá embaixo, à esquerda de Odrade: edifícios delicados, alguns erguidos acima do solo em tubos delgados, o vento passando por baixo e através deles. Estava tão ao sul e abaixo da altura da Central, que era muito mais quente. Pequenos moinhos de vento de eixo vertical, brinquedos a essa distância, giravam nos cantos dos prédios de Eldio para ajudar no fornecimento de energia à comunidade. Odrade mostrou-os a Streggi. — Pensamos nisso como uma forma de independência da escravidão a uma tecnologia complexa controlada por outros.
Enquanto falava, Odrade desviou a atenção para a direita. O
mar! Era um resíduo horrivelmente condensado de sua antiga gloriosa expansão. A Filha do Mar detestou o que viu.
Vapores quentes se erguiam do mar. A púrpura indistinta das colinas secas esboçava contornos embaçados de horizonte do outro lado da água. Viu que a Meteorologia havia introduzido um vento para dispersar o ar saturado. O resultado era uma espuma de ondas crespas batendo no cascalho da praia, abaixo desse ponto de observação.
Havia uma fileira de aldeias de pescadores aqui, lembrou-se Odrade. Agora que o mar tinha recuado, as aldeias estavam mais para trás, na colina. Há tempos atrás, as aldeias haviam sido pontos coloridos ao longo da costa. A maior parte de sua população tinha sido sugada na nova Dispersão. As pessoas que haviam permanecido tinham construído uma via de transporte para tirar e pôr os barcos na água.
Aprovava isso e o lastimava. Conservação de energia. A situação como um todo, de repente, pareceu-lhe lúgubre — como uma das instalações geriátricas do Velho Império, onde as pessoas ficam esperando a morte.
“Quanto tempo até esses lugares morrerem?”
— O mar está tão pequeno! — Era uma voz do fundo do carro. Odrade a reconheceu. Uma funcionária dos Arquivos. “Uma das infernais espiãs de Bell.”
Inclinando-se à frente, Odrade bateu no ombro de Clairby. —
Leve-nos até a costa mais próxima, aquela enseada ali bem embaixo. Quero nadar no mar, Clairby, enquanto ainda existe.
Streggi e mais duas outras acólitas a acompanharam nas águas mornas da enseada. As outras passearam pela praia ou ficaram observando a estranha cena do carro e do ônibus.
“A Madre Superiora nadando nua no mar!”
Odrade sentiu a água cheia de energia a seu redor. Era necessário nadar devido às decisões de comando que tinha de tomar. Quanto desse último grande oceano poderiam manter nesses derradeiros dias de vida temperada do planeta? O deserto estava vindo — “deserto total”, para igualar o do perdido Duna. “Se o machado nos der tempo.” A ameaça estava muito perto e o abismo muito profundo. “Diabos de talento infernal! Por que tenho de saber?”Aos poucos, a Filha do Mar e o balanço das ondas renovaram seu senso de equilíbrio. Essa extensão de água era uma grande complicação — muito mais importante que pequenos mares e lagos espalhados. A umidade se erguia daqui em proporções significativas. Energia para carregar os desvios indesejáveis da pouco controlada administração da Meteorologia. No entanto, esse mar ainda alimentava a Sede da Irmandade. Era uma via de comunicações e transporte. O transporte marítimo era o mais barato. O custo de energia tinha de ser contrabalançado com outros elementos em sua decisão. Mas o mar ia desaparecer. Isso era certo. Populações inteiras iam enfrentar novos deslocamentos.
As recordações da Filha do Mar interferiram. Nostalgia.
Bloqueava o caminho de uma decisão certa. “Quando deveriam eliminar o mar?” Essa era a questão. Todas as mudanças inevitáveis e a acomodação em outros lugares dependiam dessa decisão.
“Melhor fazer isso rápido. Banir a dor para o passado. Vamos em frente com isso.”
Nadou até o mar raso e olhou para a perplexa Tamalane. A saia de Tam estava molhada de respingos de uma onda inesperada.
Odrade suspendeu a cabeça acima do mar encapelado.
— Tam! Elimine o mar o mais depressa possível. Peça à Meteorologia que diagrame um esquema rápido de desidratação.
Temos que incluir Alimentos e Transportes. Aprovarei o plano final após nossa revisão usual.
Tamalane virou-se sem falar. Chamou Irmãs escolhidas para acompanhá-la, lançando só um olhar para a Madre Superiora. “Está vendo! Eu tinha razão em trazer a equipe necessária!”
Odrade saiu da água. A areia molhada gemeu sob seus pés.
“Muito breve será areia seca.” Vestiu-se sem se secar com uma toalha. A roupa agarrou-se à pele causando desconforto, mas ignorou isso caminhando praia acima, para longe das outras, sem olhar para o mar.
“Lembranças na memória têm de ser só isso. Coisas que se pegam e acariciam de vez em quando para evocar alegrias passadas. Nenhuma alegria pode ser permanente. Tudo é transitório. ‘Isso também passará’ se aplica a todo o universo existente.”
Onde a praia se tornava terreno margoso com algumas plantas esparsas, virou-se finalmente e olhou para o mar que acabara de condenar.
Só a própria vida tinha importância, disse a si mesma. E a vida não podia perdurar sem um empurrão à continuidade da procriação.
“Sobrevivência. Nossas crianças têm de sobreviver. A Bene Gesserit tem de sobreviver!”
Nenhuma criança era mais importante que o total. Aceitava isso, reconhecendo que era a espécie lhe falando das profundezas de seu próprio eu, o eu que havia encontrado pela primeira vez como Filha do Mar.
Odrade permitiu à Filha do Mar aspirar o mar pela última vez quando voltavam nos veículos e se preparavam para ir para Eldio.
Sentiu que se acalmava. O equilíbrio essencial, uma vez adquirido, não precisava de um mar para ser mantido.
Arranque suas perguntas do solo e as raízes suspensas ficarão à vista. Mais perguntas!
— Mentat Zensufi
A Dama estava em seu elemento.
“Rainha Aranha!”
Gostava do nome que as bruxas lhe haviam dado. Aqui estava o coração de sua teia, esse centro de controle em Junção. O
exterior do prédio ainda não lhe agradava. Muita complacência da Corporação no planejamento. Conservador. Mas o interior começava a adquirir uma familiaridade que a acalmava. Até podia imaginar que nunca deixara Dur, que não tinha havido Futares e a angustiante fuga de volta ao Antigo Império.
Estava à porta aberta da Sala de Reuniões, olhando para o Jardim Botânico. Logno aguardava quatro passos atrás. “Não fique mais perto de mim, Logno, ou terei de matá-la.”
Ainda havia orvalho no gramado além dos ladrilhos onde, quando o sol estava bastante alto, as criadas colocariam cadeiras confortáveis e mesas. Mandara que fosse um dia de sol e era bom que a Meteorologia cumprisse a ordem. O relatório de Logno era interessante. Então a velha bruxa tinha voltado a Buzzell. E estava zangada, também. Excelente. Era óbvio que sabia que estava sendo vigiada e visitara a bruxa suprema para pedir sua remoção de Buzzell, pedir refúgio. E fora recusada.
“Não se importam que destruamos seus membros desde que o corpo central permaneça escondido.”
Falando a Logno por sobre o ombro, a Dama disse: — Traga-me a velha bruxa. E todas as suas acompanhantes.
Quando Logno virou-se para obedecer, a Dama acrescentou:
— E comece a fazer uns Futares passarem fome. Quero que fiquem bem famintos.
— Sim, Dama.
Outra pessoa ocupou o lugar de Logno. A Dama não virou para identificar a substituta. Sempre havia um número suficiente de assistentes para obedecerem às ordens. Uma era muito parecida com a outra, exceto quanto à questão de ameaça. Logno era uma ameaça constante. “O que me mantém alerta.”
A Dama respirou fundo o ar fresco. Ia ser um bom dia exatamente porque era isso que desejava. Colheu suas memórias secretas, e deixou que elas a acalmassem.
“Guldur seja abençoado! Encontramos o local para reconstruir nossa força.”
A consolidação do Antigo Império prosseguia conforme planejado. Não haveria muitos ninhos de bruxas intactos lá fora e assim que a Sede infernal fosse descoberta, os membros poderiam ser destruídos com calma.
E agora, Ix. Era um problema. “Talvez eu não devesse ter matado aqueles dois cientistas Ixianos ontem.”
Mas os idiotas tiveram a ousadia de exigir “mais informações”
dela. Exigir! E isso depois de dizer que ainda não tinham uma solução para o rearmamento da Arma. Claro que não sabiam que era uma arma. Ou sabiam? Não tinha certeza. Então tinha sido bom matar aqueles dois, afinal de contas. Dera uma lição.
“Tragam-nos respostas, não perguntas.”
Gostava da ordem que ela e suas Irmãs estavam criando no Antigo Império. Tinha havido muitas perambulações e culturas diferentes demais, religiões instáveis demais.
“O culto de Guldur os servirá como serve a nós.”
Não sentia nenhuma afinidade mística com sua religião. Era um instrumento útil de poder. As raízes eram bem conhecidas: Leto II, que as bruxas chamavam de “O Tirano”, e seu pai, Muad’Dib.
Agentes consumados do poder, todos os dois. Muitas células cismáticas nos arredores, mas podiam ser extirpadas. Guardar o essencial. Era uma máquina bem lubrificada.
“A tirania da minoria disfarçada sob a máscara da maioria.”
Isso fora o que a bruxa Lucilla tinha reconhecido. Não era possível deixá-la viva depois de descobrirem que sabia como manipular as massas. Os ninhos das bruxas tinham de ser encontrados e queimados. A perceptibilidade de Lucilla evidentemente não era um exemplo isolado. Suas ações indicavam o trabalho de uma escola. Ensinavam isso! Idiotas! Era preciso manobrar a realidade, ou tudo ficava fora de controle.
Logno voltou. A Dama conhecia o ruído de seus passos.
Furtivos.
— A velha bruxa vai ser trazida de Buzzell — disse Logno.
— E suas acompanhantes.
— Não se esqueça dos Futares.
— Já dei as ordens, Dama.
“Voz untuosa! Você gostaria de me dar de comerão rebanho, não é, Logno?
— E reforce a segurança nas gaiolas, Logno. Mais três escaparam a noite passada. Estavam vagando no jardim, quando acordei. — Disseram-me, Dama. Foram destacados mais guardas para as gaiolas.
— E não me diga que são inofensivos sem um Treinador.
— Não creio nisso, Dama.
“E está dizendo a verdade, pela primeira vez. Morre de medo dos Futares. Muito bem.”
— Acho que temos nossa base de poder, Logno. — A Dama virou-se, notando que Logno havia avançado pelo menos dois milímetros na zona de perigo. Logno viu isso também, e recuou.
“Pode chegar bem perto na minha frente, onde posso vê-la, Logno, mas não nas minhas costas.”
Logno percebeu o brilho alaranjado nos olhos da Dama e quase ficou de joelhos. “Curvou definitivamente os joelhos.” —
Estou ansiosa por servi-la, Dama!
“Está ansiosa por tomar meu lugar, Logno.”
— E quanto àquela mulher de Gammu? Um nome esquisito.
Qual era?
— Rebecca, Dama. Ela e alguns de seus companheiros conseguiram... ahhh, escapar temporariamente. Vamos encontrá-los. Não podem sair do planeta.
— Acha que eu devia tê-la guardado aqui, não é?
— Foi sábio de sua parte usá-la como isca, Dama!
— Ainda é isca. Aquela bruxa que encontramos em Gammu não encontrou aquelas pessoas por acidente.
— Sim, Dama.
“Sim, Dama!” Mas o som subserviente da voz de Logno era agradável. — Então, ande logo com isso!
Logno saiu apressada.
Havia sempre essas pequenas células de violência potencial reunindo-se secretamente em algum lugar. Incrementando a carga mútua de ódio, apinhando-se para desintegrar as vidas ordeiras a seu redor. Alguém sempre tinha que fazer uma limpeza depois disso. A Dama suspirou. As táticas terroristas eram sempre tão... tão temporárias!
Sucesso, esse era o perigo. Havia lhes custado um império.
Se você acenasse com o sucesso como uma flâmula, alguém sempre ia querer derrotá-la. Inveja!
“Desta vez, guardaremos nosso sucesso com mais cautela.”
Caiu em uma espécie de devaneio, alerta ainda aos sons às suas costas, mas apreciando a evidência de novas vitórias que lhe haviam sido reveladas essa manhã. Gostava de rolar os nomes dos planetas cativos silenciosamente na ponta da língua.
“Wallach, Kronin, Reenol, Ecaz, Bela Tegeuse, Gammu, Gamont, Niushe...”
Os seres humanos nascem com suscetibilidade à mais persistente e debilitante enfermidade do intelecto: a de se iludirem a si próprios. O melhor e o pior de todos os possíveis universos recebem disso a sua coloração dramática. Pelo que pudemos apurar, não existe imunidade natural. É necessário estar constantemente alerta.
— O Coda
Com Odrade longe da Central (e provavelmente só por pouco tempo), Bellonda sabia que tinha de agir rápido. “Aquele infernal Mentat-ghola é perigoso demais para ficar vivo!”
Mal o grupo da Madre Superiora desapareceu de vista na tarde que caía, Bellonda já estava a caminho da não-nave.
Uma aproximação sensata pelos anéis de pomares não lhe servia. Tomou lugar em um tubo sem janelas, automático, e veloz.
Odrade, também, tinha observadoras que poderiam mandar mensagens indesejáveis.
No caminho, passou em revista sua avaliação das muitas vidas de Idaho. Um registro que havia guardado nos Arquivos, pronto para rápida recuperação. Nos gholas originais e antigos, seu caráter havia sido dominado por impulsividade. Rápido em odiar, rápido em ser leal. Idaho-gholas posteriores temperaram isso com cinismo, mas a impulsividade básica permaneceu. O Tirano a chamara à tona muitas vezes. Bellonda reconheceu um padrão.
“Ele pode ser instigado pelo orgulho.”
Fascinava-a o longo tempo em que ele servira o Tirano. Não só tinha sido Mentat muitas vezes, mas havia indícios de que tinha sido um Revelador da Verdade em mais de uma encarnação.
A aparência de Idaho refletia o que vira nos registros. Linhas interessantes de caráter, uma expressão ao redor dos olhos e uma posição de lábios que combinavam com um desenvolvimento interior complexo.
Por que Odrade não aceitava o perigo que esse homem representava?
Bellonda ficava apreensiva quando ela falava de Idaho, alardeando suas emoções.
— O pensamento dele é claro e direto. Sua mente é escrupulosamente limpa. É revigorante. Gosto dele, e sei que é uma coisa trivial demais para influenciar minhas decisões.
“Ela admite a influência dele!”
Bellonda encontrou Idaho sozinho e sentado à mesa de comando. Fixava atentamente uma imagem linear que ela reconheceu: o esquema operacional da não-nave. Apagou a projeção quando a viu.
— Olá, Bell. Estava à sua espera.
Tocou a mesa de comando, e uma porta se abriu atrás dele.
O jovem Teg entrou e ficou perto de Idaho, olhando em silêncio para Bellonda.
Idaho não a convidou a sentar-se nem procurou uma cadeira para ela, forçando-a a trazer uma do quarto de dormir e colocá-la à sua frente. Quando se sentou, ele olhou-a com uma expressão cautelosa e divertida.
Bellonda continuava surpresa pela saudação. “Por que ele estava à minha espera?”
Ela respondeu à pergunta não formulada: — Dar se projetou antes, disse que ia ver Sheeana. Sabia que você não perderia tempo em vir me ver quando ela saísse.
Simples projeção Mentat ou... — Ela avisou você!
— Errado.
— Quais segredos você e Sheeana compartilham? —
Exigindo.
— Ela me usa como você quer que me use.
— A Missionária!
— Bell! Dois Mentais juntos. Será que temos de fazer essas brincadeiras estúpidas?
Bellonda respirou fundo e procurou o modo Mentat. Não era fácil nessas circunstâncias, aquela criança olhando para ela, a expressão divertida de Idaho. Estaria Odrade demonstrando uma dissimulação insuspeitada? Trabalhando contra uma Irmã com esse ghola?Idaho relaxou quando viu a intensidade Bene Gesserit tornar-se o foco duplo da Mentat. — Sei há muito tempo que você quer me ver morto, Bell.
“Sim... Tenho sido transparente em meus temores.” Escapara por pouco, pensou. Bellonda viera a ele com a morte no pensamento, um pequeno drama já preparado, para criar “a necessidade”. Tinha poucas ilusões quanto à sua capacidade de competir com ela em violência. Mas Bellonda-Mentat observaria antes de agir.
— É falta de respeito essa sua maneira de usar nossos primeiros nomes — disse, provocando.
— Reconhecimento diferente, Bell. Você não é mais Reverenda Madre
e eu não sou “o ghola”. Dois seres humanos com problemas em comum. Não me diga que não sabe disso.
Olhou em volta da sala de trabalho. — Se estava à minha espera, por que não trouxe Murbella aqui?
— Forçá-la a matar você para me proteger?
Bellonda avaliou a idéia. “O diabo da Honrada Madre provavelmente poderia me matar, mas então...” — Você a mandou embora para protegê-la.
— Tenho um protetor melhor. — Indicou a criança.
“Teg? Um protetor? Havia umas histórias de Gammu sobre ele. Será que Idaho sabe alguma coisa?”
Queria perguntar, mas ousaria arriscar um desvio do assunto? Os vigilantes deveriam receber um cenário claro de perigo.
— Ele?
— Serviria a Bene Gesserit se visse você me matar?
Como ela não respondesse, disse: — Ponha-se em meu lugar, Bell. Sou um Mentat preso não só em sua armadilha, mas também na das Honradas Madres.
— É tudo que você é, um Mentat?
— Não. Sou uma experiência Tleilaxu, mas não vejo o futuro, não sou um Kwisatz Haderach. Sou um Mentat com memórias de muitas vidas. Você, com suas Outras Memórias — pense na vantagem que isso me dá.
Enquanto falava, Teg veio se encostar na mesa de comando ao lado dele. A expressão do menino era de curiosidade, mas Bell não viu nenhum medo dela.
Idaho indicou o foco de projeção acima da cabeça, grãos de prata dançando, prontos para criarem suas imagens. — Um Mentat vê suas transmissões produzindo discrepâncias — cenas de inverno no verão, sol quando suas visitas vieram na chuva... Não esperava que eu não levasse em conta seus pequenos dramas?
Ela ouviu a exposição de Mentat. Até esse ponto, compartilhavam os mesmos ensinamentos. — Naturalmente você disse a si mesmo para não minimizar o Tao.
— Fiz perguntas diferentes. Coisas que acontecem juntas podem ter laços subterrâneos. O que são causa e efeito quando confrontados com a simultaneidade?
— Você teve bons professores.
— E não só em uma vida.
Teg inclinou-se para ela. — Veio realmente aqui para matá-lo? Não adiantava mentir. — Ainda acho que é perigoso demais. —
Que as vigilantes discutam isso!
— Mas ele vai me devolver minhas memórias!
— Dançarinos no mesmo palco, Bell — disse Idaho. — Tao.
Pode parecer que não estamos dançando juntos, podemos não usar os mesmos passos ou ritmos, mas somos vistos juntos.
Começou a desconfiar onde ele poderia estar chegando, e pensou se haveria outra maneira de destruí-lo.
— Não sei do que está falando — disse Teg.
— Coincidências interessantes — Idaho disse.
Teg virou-se para Bellonda. — Talvez possa explicar, por favor? — Ele está tentando me dizer que precisamos um do outro.
— Então por que não diz isso?
— É mais sutil que isso, garoto. — E pensou: “Os registros devem me mostrar avisando Idaho.” — O nariz do asno não é a origem da cauda, Duncan, não importa quantas vezes você veja o animal passar no estreito espaço vertical que limita a visão que você tem dele.
Os olhos de Idaho encontraram o olhar fixo de Bellonda. —
Dar veio aqui uma vez com um ramo de flores de macieira, mas minha projeção mostrava a época da colheita.
— São charadas, não é? — disse Teg, batendo palmas.
Bellonda lembrou-se do registro daquela visita. Movimentos precisos da Madre Superiora. — Você não desconfiou de uma estufa? — Ou que ela só queria me agradar?
— É para eu adivinhar? — Teg perguntou.
Após um longo silêncio, olho Mentat dentro de olho Mentat, Idaho disse: — Existe anarquia por trás de minha prisão, Bell.
Discórdia nos conselhos mais altos da Irmandade.
— Pode haver deliberação e critério mesmo na anarquia —
ela disse.
— Você é uma hipócrita, Bell.
Recuou como se ele a tivesse atacado, um movimento totalmente involuntário que a chocou pela reação forçada. “Voz”?
Não... algo mais profundo. Ficou, de repente, com terror desse homem. — Acho incrível que uma Mentat e uma Reverenda Madre possa ser tão hipócrita — ele disse.
Teg puxou o braço de Idaho. — Estão brigando? Idaho empurrou a mão dele. — Sim, estamos brigando. Bellonda não conseguia desgrudar o olhar dos olhos de Idaho. Queria virar-se e fugir. O que ele estava fazendo? Estava saindo tudo errado.
— Hipócritas e criminosos entre vocês? — ele perguntou.
Mais uma vez, Bellonda lembrou-se dos televigias. Ele estava jogando não só com ela, mas também com os vigilantes! E o fazia com um cuidado extraordinário. Sentiu-se de repente cheia de admiração por seu desempenho, mas isso não acalmou o medo.
— Estou perguntando por que suas Irmãs toleram você. —
Os lábios se moviam com precisão tão delicada! — Você é um mal necessário? Uma fonte de dados valiosos e, ocasionalmente, bons conselhos?
Encontrou a fala. — Como ousa? — Gutural, contendo toda a malevolência alardeada.
— Pode ser que você fortaleça suas Irmãs. — Voz sem timbre, sem mudar a inflexão. — Elos fracos criam espaços que outras têm de reforçar e isso dá força a essas outras.
Bellonda percebeu que mal conseguia manter o modo Mentat. Alguma coisa disso podia ser verdade? Seria possível que a Madre Superiora a visse assim?
— Você veio com uma desobediência criminal em mente —
ele disse. — Tudo em nome da necessidade! Um pequeno drama
para os televigias, provando que não tinha escolha.
Descobriu que essas palavras estavam restaurando suas habilidades Mentat. Ele saberia o que estava fazendo? Estava fascinada pela compulsão de estudar tanto seu modo como suas palavras. Será que ele realmente a lia tão bem assim? O registro desse encontro poderia ser muito mais valioso que seu pequeno drama. E o resultado era igual!
— Acha que as vontades da Madre Superiora são lei? —
perguntou.
— Acha realmente que não sou observador? — acenando com a mão para Teg, que estava prestes a interromper. — Bell! Seja apenas uma Mentat.
— Estou ouvindo. — “E muitos outros também!”
— Estou afundado em seu problema.
— Não lhe demos nenhum problema!
— Deram, sim. Você deu, Bel. Vocês são avarentas na maneira em que dispensam as peças, mas eu vejo.
Bellonda abruptamente lembrou-se de Odrade dizendo: —
Não preciso de um Mentat! Preciso de um inventor.
— Vocês... precisam... de mim — disse Idaho. — Seu problema ainda está no embrião, mas a carne está lá e precisa ser extraída.
— Por que iríamos precisar de você?
— Precisam de minha imaginação, minha inventividade, coisas que me mantiveram vivo face à ira de Leto.
— Disse que ele o matou tantas vezes, que perdeu a conta.
— “Engula suas próprias palavras, Mentat!”
Deu-lhe um sorriso primorosamente controlado, tão preciso que nem ela nem os televigias podiam se enganar quanto à intenção. — Mas como pode confiar em mim, Bell?
“Ele se autocondena!”
— Sem algo de novo, vocês estão condenadas — ele disse.
— É somente questão de tempo, e todas sabem disso. Talvez não nesta geração. Talvez nem mesmo na próxima. Mas é inevitável.
Teg puxou a manga de Idaho com força. — O Bashar poderia ajudar, não é?
Então o menino prestava atenção. Idaho deu uma pancadinha no braço de Teg. — O Bashar não basta. — E para Bellonda: — Dois pobres-diabos. Temos que brigar por causa de um osso? — Já disse isso antes. — “E sem dúvida dirá novamente.”
— Ainda Mentat? — perguntou. — Então jogue fora o drama!
Tire essa névoa romântica de nosso problema!
“Dar é a romântica! Eu não!”
— O que há de romântico — ele perguntou — em pequenos agrupamentos de Bene Gesserit Dispersas aguardando o massacre?
— Acha que ninguém escapará?
— Vocês estão semeando o universo com inimigos — ele disse. — Estão alimentando Honradas Madres!
Ficou totalmente (e somente) Mentat então, o que era necessário para competir com esse ghola, habilidade contra habilidade. Drama? Romance? O corpo era um obstáculo ao desempenho Mentat. Mentats têm de usar o corpo, e não deixar que interfira. — Nenhuma das Reverendas Madres que vocês dispersaram jamais voltou ou mandou um recado — ele disse. —
Procuram se tranqüilizar dizendo que só as Dispersas sabem onde vão. Como podem ignorar o recado implícito nesse fato? Por que ninguém tentou se comunicar com a Sede?
“Está censurando todas nós, esse demônio! E tem razão.”
— Apresentei o problema em sua forma mais elementar?
“Pergunta Mentat!”
— A pergunta mais simples, a projeção mais simples — ela concordou.
— Êxtase sexual amplificado: impressão Bene Gesserit? As Honradas Madres estão pegando sua gente em armadilhas?
— Murbella? — O desafio de uma só palavra. “Avalie essa mulher que você diz que ama! Ela sabe coisas que deveríamos saber?” — São condicionadas a não levar seu próprio prazer em níveis viciosos, mas são vulneráveis.
— Ela nega que haja origens Bene Gesserit na história das Honradas Madres.
— Como foi condicionada a fazer.
— Ânsia de poder, então?
— Até que enfim fez uma pergunta apropriada. — E como ela não respondesse, disse: — Mater Felicíssima. — Dirigindo-se a ela no tratamento antigo dado aos membros do Conselho Bene Gesserit.
Ela sabia por que fazia isso e sentiu as palavras produzirem o efeito desejado. Estava em equilíbrio firme agora. Reverenda Madre Mentat envolvida pela mohalata de sua própria Agonia de Especiaria
— aquela união da benigna Outra Memória protegendo-a do domínio de ancestrais malignos.
“Como é que ele sabia fazer isso?” Todos os observadores atrás dos televigias fariam essa pergunta. “Claro! O Tirano o havia treinado nisso, milhões e milhões de vezes. O que temos aqui? Que talento é esse que a Madre Superiora ousa usar? Perigoso, sim, mas muito mais valioso do que eu suspeitava. Pelos deuses de nossa própria criação! Será ele o instrumento para nos libertar?”
Como estava calmo! Sabia que a havia pegado.
— Em uma de minhas vidas, Bell, visitei sua casa Bene Gesserit em Wallach IX e lá falei com uma de suas ancestrais, Tersius Helen Anteac. Deixe que ela a guie, Bell. Ela sabe.
Bellonda sentiu uma pontada familiar na mente. “Como é que ele podia saber que Anteac era minha antepassada?”
— Fui a Wallach IX por ordem do Tirano — ele disse. — Ah, sim! Pensava muito nele como o Tirano. Minhas ordens eram eliminar a escola Mentat que vocês pensavam que haviam escondido lá.
O simulfluxo-Anteac intrometeu-se: “Vou lhe mostrar agora o acontecimento de que ele está falando.”
— Considere — disse ele — eu, um Mentat, forçado a eliminar uma escola que treinava as pessoas da maneira em que fui treinado. Sabia por que ele o ordenara, é claro, e você também sabe.
Simulfluxo derramou em sua percepção: “Ordem dos Mentats, fundada por Gilbertus Albans; santuário temporário com Bene Tleilaxu que esperava incorporá-los na hegemonia Tleilaxu; espalhou-se em inúmeras escolas-sementes; suprimidas por Leto II porque formavam um núcleo de oposição independente; espalhadas na Dispersão após a Fome.”
— Manteve alguns dos melhores professores em Duna, mas a pergunta com que Anteac está forçando você a se confrontar agora não vai até lá. Onde foram suas Irmãs, Bell?
— Não podemos saber por enquanto, não é? — Olhou a mesa de comando com novos olhos. Era errado bloquear uma mente dessas. Se iam usá-lo, deveriam usá-lo totalmente.
— A propósito, Bell — disse, quando ela ficou de pé para partir —, as honradas Madres podem ser um grupo relativamente pequeno.
“Pequeno?” Não sabia que a Irmandade estava sendo esmagada por números aterrorizadores de planeta em planeta?
— Todos os números são relativos. Existe alguma coisa no universo que seja realmente inalterável? Nosso Velho Império poderia ser o último refúgio para elas, Bell. Um lugar para se esconderem e tentarem se reagrupar.
— Sugeriu isso antes... a Dar.
“Não Madre Superiora. Não Odrade. Dar.” — Ele sorriu. — E talvez pudéssemos ajudar com Scytale.
— Nós?
— Murbella para colher informações, eu para avaliá-las. Não gostou do sorriso que isso provocou.
— O que está sugerindo, exatamente?
— Deixar nossas imaginações divagarem e construir nossas experiências de acordo. Qual seria a utilidade até mesmo de um não-planeta, se alguém pudesse penetrar o escudo?
Ela olhou para o menino. Idaho sabia da suspeita de que o Bashar havia visto as não-naves? Naturalmente! Um Mentat com sua capacidade... bocados e pedaços se juntaram em uma projeção magistral.
— Seria necessária a potência total de um sol G-3 para servir de escudo a qualquer planeta habitável. — Olhou-o de maneira seca e muito fria.
— Nada é impossível na Dispersão.
— Mas não com nossa capacidade atual. Tem alguma coisa menos ambiciosa?
— Faça uma revisão das marcas genéticas nas células de seu povo. Procure padrões comuns na herança Atreides. Pode haver talentos que nem imaginaram.
— Sua imaginação criativa dá grandes saltos.
— Sóis G-3 para genética. Pode haver fatores em comum.
“Por que essas sugestões loucas? Não-planetas e pessoas para as quais os escudos prescientes ficam transparentes? O que ele está fazendo?”
Não se iludiu com a idéia de que falava só para ela. Sempre havia os tele vigias.
Ele ficou calado, um braço descansando com toda a naturalidade nos ombros do menino. Ambos observando-a. Um desafio?
“Seja um Mentat se puder!”
“Não-planetas?” À medida que a massa de um objeto aumentava, a energia — para anular a gravitação — ultrapassava limites comparáveis a números primos. Não-escudos encontravam barreiras de energia ainda maiores. Estaria Idaho sugerindo que alguém na Dispersão podia ter encontrado uma solução do problema? — ela perguntou.
— Os Ixianos não penetraram o conceito de unificação de Holzmann — ele disse. — Apenas o usam — uma teoria que funciona mesmo quando você não a compreende.
“Por que está dirigindo minha atenção para a tecnocracia de Ix?” Os Ixianos estavam metidos em coisas demais para que as Bene Gesserit confiassem neles.
— Não está curiosa em saber por que o Tirano nunca suprimiu Ix? — perguntou. E quando ela continuou a olhá-lo fixamente: — Apenas os refreou. Estava fascinado com a idéia de
humanos e máquinas ligados por indissolúvel laço, um testando os limites do outro.
— Cyborgs?
— Entre outras coisas.
Idaho não sabia do resíduo de repulsa deixado pelo Jihad Butleriano até mesmo entre as Bene Gesserit? Alarmante! A convergência do que cada um — humano e máquina — podia fazer. Considerando as limitações das máquinas, era uma descrição sucinta da miopia dos Ixianos. Estaria Idaho dizendo que o Tirano apoiava a idéia da Inteligência das Máquinas? Tolice! Virou as costas para ele.
— Está indo embora depressa demais, Bell. Deveria estar mais interessada na imunidade de Sheeana à ligação sexual. Os jovens que mando para polimento não são imprimidos, e nem ela.
No entanto, nenhuma Honrada Madre é mais perita que ela.
Bellonda viu então o valor que Odrade dava a esse ghola.
“Inestimável! E eu poderia tê-lo matado.” A proximidade desse erro a encheu de consternação.
Quando chegou à porta, ele a deteve mais uma vez.
— Os Futares que vi em Gammu — por que nos disseram que caçavam e matavam Honradas Madres? Murbella não sabe nada sobre isso.
Bellonda saiu sem olhar para trás. Tudo que havia aprendido sobre Idaho hoje aumentava o perigo que ele representava... mas tinham que conviver com isso... por enquanto.
Idaho respirou fundo, e olhou para o confuso Teg.
— Obrigado por estar aqui. Apreciei muito que tenha ficado calado diante de tão grande provocação.
— Ela não teria mesmo matado você... teria?
— Se você não tivesse ganho aqueles primeiros segundos para mim, talvez tivesse.
— Por quê?
— Ela está com a idéia errada de que eu posso ser um Kwisatz Haderach.
— Como Muad’Dib?
— E seu filho.
— Bom, não vai atacar você agora.
Idaho olhou a porta por onde Bellonda saíra. Trégua. Era só o que tinha obtido. Talvez não fosse mais somente um dente de engrenagem nas maquinações de outros. Tinham conseguido um novo relacionamento, que poderia mantê-lo vivo, se fosse explorado cuidadosamente. Ligações emocionais não faziam parte disso, nem mesmo com Murbella... nem com Odrade. No fundo, Murbella se ressentia da escravidão sexual tanto quanto ele. Odrade podia fazer insinuações sobre laços antigos de lealdades Atreides, mas não se podia confiar nas emoções de uma Reverenda Madre.
“Atreides!” Olhou para Teg, vendo a aparência de família começando a dar formas ao rosto imaturo.
“E o que consegui realmente com Bell?” Era provável que não lhe dessem mais dados falsos. Podia ter uma certa confiança no que uma Reverenda Madre lhe dissesse, temperando isso com a percepção de que qualquer ser humano pode cometer erros.
“Não sou o único em uma escola especial. As Irmãs estão em minha escola agora!”
— Posso ir procurar Murbella? — Teg perguntou. — Ela prometeu me ensinar como brigar com os pés. Acho que o Bashar nunca aprendeu isso.
— Quem nunca aprendeu?
De cabeça baixa, encabulado. — Eu nunca aprendi.
— Murbella está na sala de exercícios. Pode ir. Mas deixe que eu conte a ela sobre Bellonda.
O aprendizado no meio Bene Gesserit não parava nunca, pensou Idaho, olhando o menino sair. Mas Murbella tinha razão quando dizia que estavam aprendendo coisas que só podiam aprender com as Irmãs.
Essa idéia despertou apreensão. Viu uma imagem na memória: Scytale de pé atrás de uma barreira em um corredor. O
que estaria aprendendo o companheiro de prisão? Idaho estremeceu. Pensar nos Tleilaxu sempre provocava recordações dos Dançarinos Faciais. E aquela habilidade do Dançarino Facial de
“reimprimir” as memórias de qualquer pessoa que matasse. Por sua vez, isso o encheu de medo de suas visões. Dançarinos Faciais?
“E eu sou uma experiência Tleilaxu.”
Não ousaria explorar isso com uma Reverenda Madre, ou mesmo ao alcance da vista ou do ouvido de uma delas.
Foi então pelos corredores até os aposentos de Murbella, onde sentou-se e examinou o resíduo de uma lição que ela estudara. Voz. Ali estava o timbre-puro, instrumento que usava para repercussão de suas experiências vocais. O aparelho de respiração para forçar reações prana-bindu estava em uma cadeira, jogado com displicência, todo emaranhado. Eram maus hábitos, datados de seus dias como Honrada Madre.
Murbella o encontrou quando voltou. Usava uma malha branca colante manchada de suor e estava com pressa de tirar a roupa e ficar à vontade. Ele a deteve a caminho do chuveiro, usando um dos truques que havia aprendido.
— Descobri umas coisas sobre a Irmandade que não sabíamos antes.
— Conte! — Era a sua Murbella exigindo isso, o suor reluzindo no rosto oval, admiração nos olhos verdes. “Meu Duncan as desmascarou de novo!”
— Um jogo em que uma das peças não pode ser movida —
ele a fez lembrar. “Que os espiões televigias se divirtam com essa!”
— Não só esperam que as ajude a criar uma nova religião em torno de Sheeana, nossa participação voluntária em seu sonho, mas também querem que eu seja seu moscardo, sua consciência, fazendo-as questionar suas próprias desculpas por comportamento extraordinário.
— Odrade esteve aqui?
— Bellonda.
— Duncan! Ela é perigosa. Você nunca deve vê-la sozinho.
— O menino estava comigo.
— Ele não disse nada!
— Estava obedecendo ordens.
— Está bem! O que aconteceu?
Fez um breve resumo, descrevendo até as expressões faciais de Bellonda e outras reações. (E como os espiões televigias iam se divertir!)
Murbella ficou furiosa. — Se ela fizer algum mal a você, nunca mais vou cooperar com nenhuma delas!
“Resposta na ponta da língua, minha querida.
Conseqüências! Vocês, bruxas Bene Gesserit, devem reexaminar seu comportamento com muito cuidado.”
— Estou suada dos exercícios — ela disse. — Aquele menino. Como é rápido. Nunca vi uma criança tão esperta.
Ele ficou de pé. — Deixe que a ensaboe.
No chuveiro, ajudou-a a tirar a malha suada, os dedos frescos na pele quente. Podia ver como ela gostava de seu toque.
— Tão meigo, mas também tão forte — murmurou.
“Deuses das profundezas!” Olhava para ele como se quisesse devorá-lo.
Excepcionalmente, os pensamentos de Murbella com respeito a Idaho estavam livres de auto-acusação. “Não me lembro de momento algum em que tenha acordado e dito: — Eu o amo!”
Não, tinha se insinuado manhosamente nesse vício cada vez mais profundo até que, fato consumado, tinha de ser aceito em cada momento da vida. Como a respiração... ou as batidas do coração.
“Uma falha? A Irmandade está errada!”
— Esfregue minhas costas — disse, e riu quando o chuveiro encharcou as roupas dele. Ajudou-o a despir-se e ali mesmo no chuveiro aconteceu mais uma vez: essa compulsão incontrolável, essa amálgama macho-fêmea que afugentava tudo, exceto a sensação. Só depois podia se lembrar e dizer a si mesma: “Ele sabe todas as técnicas que eu sei.” Mas era mais do que técnica. “Ele quer me agradar! Meus deuses de Dur! Como tive tanta sorte?”
Agarrou-se ao pescoço dele enquanto ele a tirava do chuveiro e a deitava ainda molhada na cama. Puxou-o para junto dela é ficaram deitados, quietos, deixando que as energias se recuperassem.
Depois de algum tempo, ela murmurou: — Então a Missionária vai usar Sheeana.
— Muito perigoso.
— Coloca a Irmandade em uma posição muito exposta.
Pensei que sempre procurassem evitar isso.
— De meu ponto de vista, é ridículo.
— Acha isso porque tencionavam que você controlasse Sheeana?
— Ninguém pode controlá-la! Talvez ninguém deva. — Olhou para os televigias. — Olá, Bell! Você pegou mais de um tigre pelo rabo. Bellonda, voltando aos Arquivos, parou à porta do Registro de Televigias e tez uma pergunta com os olhos à Madre Vigilante.
— No chuveiro de novo — disse a Madre Vigilante. — Fica monótono depois de certo tempo.
— A Mística da Participação! — Bellonda disse e foi em direção a seus cômodos, a mente um turbilhão de percepções alteradas que necessitavam ser reorganizadas. “Ele é um Mentat melhor que eu!”
“Tenho ciúmes de Sheeana, diabos! E ele sabe!”
A mística da participação! A orgia como energizante. O
conhecimento sexual das Honradas Madres estava tendo um efeito nas Bene Gesserit semelhante aquela imersão primitiva em êxtase compartilhado. Damos um passo nessa direção e um passo na direção contrária
Basta saber que isso existe! Tão repelente, tão perigoso... e no entanto, tão magnético.
“E Sheeana é imune! Maldita!” Por que Idaho tinha de lembrá-la disso logo agora?
Dêem-me a decisão de mentes equilibradas de preferência a leis, todas as vezes. Códigos e manuais criam um comportamento padronizado. Todo comportamento padronizado tende a não ser questionado, acumulando um momentum destrutivo. — Darwi Odrade Tamalane apareceu nos aposentos de Odrade, em Eldio, pouco antes do amanhecer, trazendo notícias da estrada vidrada à frente delas.
— A areia levada pelo vento tornou a estrada perigosa ou intransitável em seis locais além do mar. Dunas muito grandes.
Odrade acabara de completar a rotina diária: mini-Agonia de Especiaria, seguida de exercício e um chuveiro frio. O quarto de hóspedes de Eldio só dispunha de uma cadeira-linga (conheciam suas preferências) e tinha se sentado para aguardar Streggi e o relatório matinal.
O rosto de Tamalane parecia pálido à luz de dois globos luminosos prateados, mas sua satisfação era evidente. “Se tivesse me ouvido!”
— Arranje uns tópteros — Odrade disse.
Tamalane saiu, obviamente desapontada com a reação calma da Madre Superiora.
Odrade chamou Streggi. — Verifique as estradas alternativas.
Procure saber sobre a passagem pela ponta oeste do mar.
Streggi saiu apressada, quase esbarrando em Tamalane, que estava de volta.
— Lastimo informar-lhe que o Transporte não pode nos dar bastantes tópteros imediatamente. Estão mudando cinco comunidades a leste daqui. É possível tê-los lá pelo meio-dia.
— Não há um terminal de observação na beira daquela ponta de deserto para o sul? — Odrade perguntou.
— A primeira obstrução é logo depois. — Tamalane ainda estava muito satisfeita consigo mesma.
— Mande os tópteros nos encontrarem lá — disse Odrade.
— Vamos partir logo após o café.
— Mas Dar...
— Diga a Clairby que você vai comigo hoje, sim, Streggi? —
A acólita estava junto à porta, atrás de Tamalane.
A posição dos ombros ao sair demonstrava que Tamalane não considerava o novo arranjo de assentos um perdão.
“ Censura!” Mas o comportamento de Tam se adaptava às necessidades.
— Podemos chegar até o terminal de observação — disse Streggi, indicando que tinha ouvido. — Vamos levantar poeira e areia, mas é seguro.
— Vamos apressar o café.
Quanto mais se aproximavam do deserto, mais árida ficava a região, e Odrade comentou isso enquanto viajavam para o sul.
Dentro de cem quilômetros da última orla de deserto observada, viram sinais de comunidades erradicadas e levadas para latitudes mais frias. Alicerces nus, paredes inaproveitáveis, danificadas ao desmontar, deixadas para trás. Canos cortados ao nível dos alicerces. Caro demais escavá-los. A areia ia cobrir essa sujeira toda em pouco tempo.
Não tinham uma Muralha-Escudo aqui como havia em Duna, Odrade comentou com Streggi. Muito em breve, a população da Sede da Irmandade iria para as regiões polares, minar o gelo para obter água.
— E verdade, Madre Superiora — alguém atrás, com Tamalane perguntou —, que já estamos produzindo equipamento para colher a especiaria?
Odrade virou-se no assento. A pergunta viera de uma funcionária de Comunicações, acólita sênior: uma mulher mais velha, com rugas de responsabilidade sulcando a testa; sombria e vesga, de tantas horas com seu equipamento.
— Temos de estar preparadas para os vermes — disse Odrade. — Se eles vierem — disse Tamalane.
— Você já andou no deserto, Tam? — Odrade perguntou.
— Eu estava em Duna. — Resposta muito curta.
— Mas foi até o deserto aberto?
— Só até umas pequenas dunas perto de Keen.
— Não é a mesma coisa. — Uma resposta curta merecia uma réplica igualmente curta.
— A Outra Memória me diz o que preciso saber. — Isso foi para as acólitas.
— Não é a mesma coisa, Tam. Você mesma tem de fazer isso. Uma sensação muito estranha em Duna, sabendo que um verme podia vir a qualquer momento e consumir você.
— Ouvi falar de sua... exploração em Duna.
“Exploração. Não experiência. Exploração. Muito precisa em sua censura. Isso é típico de Tam. — ‘Está aprendendo coisas demais com a Bell’ — dirão alguns.”
— Andar nesse tipo de deserto muda a gente, Tam. A Outra Memória fica mais clara. Uma coisa é extrair experiências de um antepassado Fremen. É muito diferente andar por lá como uma Fremen, mesmo que seja só por poucas horas.
— Não gostei nada.
O espírito de aventura de Tam se resumia nisso, e todo mundo no carro a tinha visto sob esse aspecto. A notícia se espalharia.
“Ainda furiosa, veja só!”
Mas agora a mudança para Sheeana no Conselho (“se ela servir”) teria uma explicação mais fácil.
O terminal de observação era uma expansão de sílica fundida, verde e vidrada, entremeada de bolhas de calor. Odrade estava em pé na beira fundida e notou que a grama logo abaixo estava desaparecendo, a areia invadindo o sopé da colina, antigamente tão verdejante. Havia uns arbustos novos (plantados pelo pessoal de Sheeana, disse uma das acompanhantes de Odrade) formando um anteparo cinzento ao longo dos braços do deserto que avançavam. Uma guerra silenciosa. A vida baseada em clorofila lutando na retaguarda contra a areia.
Uma duna baixa se erguia acima do terminal à direita.
Acenando para que as outras não a seguissem, subiu a colina de areia. Do outro lado, escondido pelo seu volume, estava o deserto da memória.
“Então isso é o que estamos criando.”
Nenhum sinal de habitação. Não olhou para trás, para coisas vivas, empenhadas em sua última luta desesperada contra as dunas invasoras, mas focalizou a atenção ao longe, no horizonte. Era essa a fronteira que os habitantes do deserto vigiavam. Qualquer coisa se movendo naquela vastidão árida era potencialmente perigosa.
Quando voltou para as outras, ficou olhando algum tempo a superfície vítrea do terminal.
A acólita mais velha de Comunicações veio a Odrade com uma solicitação da Meteorologia.
Odrade a examinou. Concisa e inescapável. Nada de repentino sobre as mudanças indicadas nessas palavras. Estavam pedindo mais equipamento térreo. Isso não aconteceu como uma súbita tempestade acidental, mas com a decisão da Madre Superiora.
“Ontem? Foi ontem que resolvi eliminar o mar?”
Devolveu o relatório à acólita de Comunicação e olhou ao longe a superfície vidrada marcada pela areia.
— Solicitação aprovada. — E depois: — Fico triste de ver que todos aqueles prédios lá atrás não existem mais.
A acólita encolheu os ombros. “Encolheu os ombros!” Odrade teve vontade de bater nela. (E isso certamente iria causar grandes confusões na Irmandade!)
Odrade deu as costas à mulher.
“O que poderia lhe dizer? Ocupamos este solo cinco vezes os anos de vida de nossas irmãs mais velhas. E esta aqui encolhe os ombros.”
No entanto... por certos padrões, sabia que as instalações da Irmandade mal tinham alcançado a maturidade. Plaz e plasteel tendiam a manter um relacionamento metódico entre os prédios e o cenário. “Fixo na terra e na memória.” Vilas e cidades não se submetiam facilmente a outras forças... exceto aos caprichos humanos. “Outra força natural.”
O conceito de respeito pela idade era estranho, decidiu. Os humanos o tinham inato. Ela o vira no velho Bashar quando falava da propriedade da família em Lernaeus.
“Achamos apropriado manter a decoração de minha mãe.”
Continuidade. Iria um ghola ressuscitado ressuscitar esses sentimentos também?
“Foi aí que minha espécie esteve.”
Isso adquiria uma patina esquisita quando “minha espécie”
eram antepassados consangüíneos.
“Veja só quanto tempo nós, Atreides, ficamos em Caladan, restaurando o velho castelo, polindo entalhes profundos em madeira
antiga. Equipes de servidores só para manter aquele lugar velho que rangia, em um nível funcional apenas tolerável.”
Mas aqueles servidores não se consideravam maltratados.
Havia um senso de privilégio em seu trabalho. As mãos que poliam a madeira quase a acariciavam.
— Velho. Com os Atreides há muito tempo já.
As pessoas e seus artefatos. Sentiu a sensação de ferramentas como se fossem parte dela.
“Sou melhor por causa desse pau em minha mão... por causa dessa lança afiada a fogo para matar a carne... por causa desse abrigo contra o frio... por causa do meu porão de pedra para armazenar a comida no inverno... por causa desse rápido barco à vela... esse gigantesco navio... essa nave de metal e cerâmica que me transporta no espaço...”
Aqueles primeiros aventureiros humanos no espaço — pouco suspeitando até onde a viagem se estenderia. Como estavam isolados naqueles tempos antigos! Pequenas cápsulas de atmosfera habitável ligada a fontes de dados ineptas por sistemas de transmissão primitivos. Solidão. Isolamento. Oportunidades limitadas para tudo, exceto sobreviver. Manter o ar limpo. Verificar a água potável. Fazer exercícios para evitar a debilitação causada pela ausência da gravidade. Permanecer ativo. Mente sã em corpo são. Afinal de contas, o que era uma mente sã?
— Madre Superiora?
Aquela desgraçada acólita de Comunicações, de novo!
— Sim?
— Bellonda pediu para lhe dizer imediatamente que chegou uma mensageira de Buzzell. Vieram estranhos que levaram todas as Reverendas Madres.
Odrade virou-se rapidamente. — Só isso?
— Não, Madre Superiora. Descreveram os estranhos como sendo comandados por uma mulher. A mensageira disse que parecia uma Honrada Madre, mas não estava usando o manto habitual.
— Nenhuma notícia de Dortujla ou das outras?
— Não tiveram a oportunidade, Madre Superiora. A mensageira é uma acólita do Primeiro Estágio. Veio na pequena não-nave obedecendo a ordens explícitas de Dortujla.
— Diga a Bell que essa acólita não tem permissão para partir. Ela possui informações perigosas. Darei instruções a uma mensageira quando voltar. Tem de ser uma Reverenda Madre.
Entendeu?
— Claro, Madre Superiora. — Magoada com a idéia de qualquer dúvida. Estava acontecendo! Odrade teve dificuldade em conter a agitação. “Morderam a isca. Agora... estarão no anzol?
“Dortujla fez uma coisa perigosa dependendo de uma acólita.
Conhecendo Dortujla, deve ser uma acólita absolutamente confiável.
Pronta a se matar se for capturada. Preciso ver essa acólita. Pode estar pronta para a Agonia. E talvez isso seja uma mensagem que Dortujla está me mandando. É o jeito dela.”
Bell ia ficar furiosa, claro. “É tolice confiar em alguém de uma estação de castigo!”
Odrade chamou uma equipe de Comunicação. — Façam uma conexão com Bellonda.
O projetor portátil não era tão nítido quanto uma instalação fixa, mas Bell e a cena ao redor eram reconhecíveis.
“Sentada à minha mesa como se lhe pertencesse.
Excelente!”
Sem dar tempo a Bellonda para uma de suas explosões, Odrade disse: — Verifique se a mensageira acólita está pronta para a Agonia.
— Está. — “Deuses das profundezas! Era bem conciso para Bell.” — Então providencie. Talvez possa ser nossa mensageira.
— Já providenciei.
— Ela tem expediente?
— Muito.
“O que, em nome dos diabos, tinha acontecido com Bell?
Está muito esquisita. Muito diferente do usual. Duncan!”
— Ah, Bell, e quero que Duncan tenha uma ligação aberta com os Arquivos.
— Já fiz isso hoje de manhã.
“Ora, ora. O contato com Duncan está tendo efeito.”
— Falo com você depois de ver Sheeana.
— Diga a Tam que ela estava certa.
— Sobre o quê?
— Só diga isso.
— Muito bem. Devo dizer, Bell, que estou muito satisfeita com a maneira como você está tratando de tudo.
— Depois da maneira como me tratou, como poderia falhar?
Bellonda chegou a sorrir quando desligaram. Odrade virou-se e encontrou
Tamalane em pé atrás dela.
— Certa sobre o quê, Tam?
— Que há muito mais nos contatos entre Idaho e Sheeana do que tínhamos suspeitado. — Tamalane chegou perto de Odrade e abaixou a voz. — Não a coloque no meu lugar sem descobrir o que eles mantêm em segredo.
— Sei que percebeu minha intenção, Tam. Mas... será que sou tão transparente assim?
— Em algumas coisas, Dar.
— Tenho sorte de você ser minha amiga.
— Você tem outras que a apóiam. Quando as Instrutoras votaram, foi sua criatividade que pesou a seu favor. “Inspirada”, foi isso que uma de suas defensoras disse.
— Então sabe que farei Sheeana pisar em brasas antes de tomar uma de minhas decisões “inspiradas”.
— Claro.
Odrade fez sinal a Comunicações para retirarem o projetor e foi esperar na beira da área vitrificada.
“Imaginação criativa.”
Conhecia os sentimentos confusos de suas companheiras.
“Criatividade!”
Sempre perigosa para o poder entrincheirado. Sempre aparecendo com alguma coisa nova. Coisas novas podiam destruir o domínio da autoridade. Até a Bene Gesserit abordava a criatividade com apreensão. Manter o equilíbrio inspirava alguns a
pôr de lado os que os ameaçavam. Era isso que estava por trás da transferência de Dortujla. O problema era que as pessoas criativas tendiam a preferir a estagnação. Chamavam isso de “privacidade”.
Tinha sido preciso muita força para fazer Dortujla emergir.
“Cuide-se, Dortujla. Seja a melhor isca que já usamos.”
Os tópteros chegaram nessa hora — dezesseis, os pilotos demonstrando desagrado com essa missão adicional depois de tudo por que tinham passado. “Mudando comunidades inteiras!”
Em um estado de espírito frágil, Odrade olhou os tópteros aterrissarem na superfície vidrada, as asas dobrando-se para dentro das cápsulas — cada nave parecendo um inseto adormecido.