As Herdeiras de Duna
Folha de Rosto
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 16 partes.
Ohhhh... — Levantou a mão. — ”Ainda sou seu cão obediente. Farei o que mandarem, mas talvez não da maneira que imaginaram.”
Odrade viu consternação no rosto das Irmãs. “O que soltei em cima de nós?”
— Podemos impedir que qualquer coisa viva deixe esta nave
— ela disse.
— Você pode ser rápido, mas duvido que seja mais rápido que o fogo que o engoliria se tentasse sair daqui sem nossa permissão.
— Sairei quando quiser e com a sua permissão. O que você ainda tem das tropas de Burzmali?
— Quase dois milhões. — Saiu sem perceber.
— Tanto assim!
— Ele tinha mais que o dobro com ele, em Lâmpadas, quando as Honradas Madres os eliminaram.
— Teremos de ser mais espertos que o pobre Burzmali. Quer me deixar discutir isso com Duncan? É por isso que nos mantém aqui, não é? Nossa especialidade? — Dirigiu um olhar sorridente para os televigias no teto. — Tenho certeza de que farão uma revisão de nossa discussão antes de aprovar.
Odrade e as Irmãs trocaram olhares. Compartilhavam uma pergunta que não fora feita. “Que mais poderemos fazer?”
Em pé, Odrade olhou para Idaho. — Aqui está uma tarefa digna de um Mentat Revelador da Verdade!
Quando as mulheres saíram, Teg acomodou-se em uma das cadeiras e olhou para a sala vazia através da parede visora. Tinha sido muito abafado lá e ainda sentiu o coração batendo apressado com o esforço. — Foi um espetáculo e tanto — disse.
— Já vi melhores. — Extremamente seco.
— O que eu gostaria agora mesmo era de um grande copo de Marinete, mas duvido que este corpo pudesse agüentá-lo.
— Bell vai estar esperando por Dar quando ela voltar à Central — disse Idaho.
— Para as profundezas do inferno com Bell! Temos de retirar o detonador dessas Honradas Madres antes que nos encontrem.
— E nosso Bashar tem o plano certo.
— Que se dane esse título! Idaho inspirou profundamente, tolhido pelo choque.
— Vou dizer uma coisa, Duncan! — Intenso. — Uma vez, quando eu chegava para uma reunião importante com inimigos potenciais, ouvi um ajudante me anunciar. “O Bashar está aqui.”
Quase que tropecei, preso na abstração.
— Confusão Mentat.
— Claro que foi. Mas sabia que a denominação me afastava de alguma coisa que não ousava perder. Bashar? Eu era mais que isso! Era Miles Teg, o nome que me foi dado por meus pais.
— Você estava na cadeia-de-nomes!
— Certo, e compreendi que meu nome estava à distância de algo mais primordial. Miles Teg? Não, eu era mais básico que isso.
Podia ouvir minha mãe dizendo: — Oh, que bebê lindo. — E lá estava eu com outro nome: “Bebê lindo.”
— Foi mais a fundo? — Idaho estava fascinado.
— Fui apanhado. Um nome leva a um nome leva a nomes leva a não ter nome. Quando entrei naquela sala importante, não tinha nome. Você já arriscou isso?
— Uma vez. — Uma admissão relutante.
— Todos nós fazemos isso pelo menos uma vez. Mas ali estava eu. Tinha sido instruído. Tinha uma referência para todos naquela mesa — rosto, nome, título, e todo o background.
— Mas você não estava realmente lá.
— Oh, podia ver os rostos cheios de expectativas me medindo, duvidando, se preocupando. Mas não me conheciam!
— Isso lhe deu uma sensação de grande poder?
— Exatamente como fomos avisados na escola Mentat.
Perguntei a mim mesmo: “Essa Mente está em seu início?” Não ria.
É uma pergunta tantalizadora.
— Então você foi mais fundo? — Empolgado com as palavras de Teg, Idaho ignorou sinais de alerta à beira de sua percepção.
— Oh, sim. E me encontrei no famoso “Hall de Espelhos”
que elas descreveram e nos avisaram para evitar.
— Então você se lembrou como sair de lá e...
— Lembrei? Evidentemente você já esteve lá. Foi a memória que tirou você de lá?
— Ajudou.
— Apesar dos avisos, fiquei por lá, vendo meu self dos selves e permutações infinitas. Reflexos de reflexos ad infinitum.
— Fascinação do “cerne do ego”. Muito poucos escapam dessa profundeza. Você teve sorte.
— Não estou certo se deve ser chamado de sorte. Sabia que tinha de haver uma Primeira Percepção, um despertar...
— Aquele que o descobre não é o primeiro.
— Mas eu queria um self das raízes do self.
— As pessoas nessa reunião não notaram alguma coisa estranha a seu respeito?
— Descobri mais tarde que sentei com uma expressão totalmente inexpressiva que escondia essa ginástica mental.
— Você não falou?
— Fiquei mudo. Isso foi interpretado como “a reticência devida de um Bashar”. Veja o que é a reputação.
Idaho começou a sorrir e lembrou-se dos televigias. Viu logo como os vigilantes interpretariam essas revelações. Talento impetuoso em um perigoso descendente dos Atreides! As Irmãs sabiam dos espelhos. Qualquer um que escapasse seria suspeito. O
que os espelhos lhe mostravam?
Como se tivesse ouvido a pergunta perigosa, Teg disse: —
Tinham me apanhado e eu sabia disso. Podia me visualizar como um vegetal acamado, mas não liguei. Os espelhos eram tudo até que, como algo flutuando fora da água, vi minha mãe. Estava mais ou menos com a mesma aparência que tinha pouco antes de morrer.Idaho inalou uma respiração trêmula. Teg não sabia o que acabava de dizer para os televigias registrarem?
— As Irmãs agora vão imaginar que sou pelo menos um Kwisatz Haderach em potencial — disse Teg. — Outro Muad’Dib.
Besteira! Como você tanto gosta de dizer, Duncan. Nenhum de nós dois arriscaria isso. Sabemos o que ele criou e não somos estúpidos!
Idaho não conseguia engolir. Iriam aceitar as palavras de Teg? Falava a verdade, mas...
— Ela pegou minha mão — disse Teg. — Senti isso! E levou-me para fora do Hall. Esperava que estivesse comigo quando me senti sentado à mesa. Minha mão ainda formigava com seu toque,
mas tinha ido embora. Sabia disso. Concentrei-me e assumi o comando. A Irmandade tinha vantagens importantes a ganhar e eu as ganhei.
— Alguma coisa que sua mãe implantou...
— Não! Eu a vi do mesmo modo que as Reverendas Madres vêem a Outra Memória. Era sua maneira de dizer: “Por que diabos você está perdendo tempo aqui quando há tanto trabalho a fazer?”
Ela nunca me deixou, Duncan. O passado nunca deixa nenhum de nós. Idaho abruptamente viu o objetivo atrás da narrativa de Teg.
“Honestidade e franqueza, que piada!”
— Você tem a Outra Memória!
— Não! Só a que todo mundo tem, em emergência. O Hall de Espelhos foi uma emergência e também me deixou ver e sentir a origem do auxílio. Mas não vou voltar lá!
Idaho aceitou isso. A maioria dos Mentats arriscava um mergulho no infinito e aprendia sobre a natureza transitória de nomes e títulos, mas o relato de Teg era muito mais do que uma declaração sobre o Tempo como imagem fluida ou fixa.
— Achei que já estava na hora de nos apresentarmos às Bene Gesserit — disse Teg. — Elas devem ficar sabendo o quanto podem confiar em nós. Há trabalho a fazer e já perdemos bastante tempo com tolices.
Gaste energias com aqueles que o tornam forte. A energia gasta com os fracos os arrasta à ruína. (Regra HM) Comentário Bene Gesserit: Quem julga?
— Registro Dortujla
O dia da volta de Dortujla não correu bem para Odrade. Uma conferência sobre armas com Teg e Idaho terminou sem nenhuma decisão. Sentira o machado das caçadoras durante toda a reunião, e sabia que isso tinha alterado suas reações.
Depois a sessão da tarde com Murbella — palavras, palavras, palavras. Murbella estava confusa em questões de filosofia. Um beco sem saída, era a opinião de Odrade.
Agora ela estava no final da tarde na borda oeste do perímetro de pavimento da Central. Era um de seus lugares favoritos, mas Bellonda a seu lado privava Odrade da apreciação tranqüila antecipada.
Sheeana as encontrou ali e perguntou: — É verdade que você deu a Murbella a liberdade de andar pela nave?
— Veja só! — Era um dos maiores temores de Bellonda.
— Bell — Odrade interrompeu e apontou para os anéis de pomares. — Aquela pequena colina ali onde não plantamos nenhuma árvore. Quero que você mande construir um belvedere ali, de acordo com minhas especificações. Um mirante com treliças emoldurando a vista.
Não havia como deter Bellonda agora. Odrade raramente a tinha visto tão exaltada. E quanto mais Bellonda se exaltava, mais decidida Odrade se tornava.
— Você quer um... um mirante? Naquele pomar? Onde mais vai desperdiçar nossa substância? Mirante! Nome apropriado para mais uma de suas...
Era uma discussão tola. Ambas sabiam disso antes de terem pronunciado vinte palavras. A Madre Superiora não podia ceder primeiro, e Bell raramente cedia a qualquer coisa. Mesmo quando Odrade ficou calada, Bell continuou atacando defesas vazias. No final, quando Bellonda esgotou sua energia, Odrade disse: — Você me deve um ótimo jantar, Bell. Providencie para que seja o melhor possível.
— Devo a você... — Bell começou a gaguejar.
— Uma oferta de paz — disse Odrade. — Quero que seja servido no meu belvedere... meu mirante.
Quando Sheeana riu, Bellonda viu-se forçada a juntar-se a ela, mas com um tom gelado. Sabia quando tinha perdido.
— Todo mundo vai olhá-lo e dizer: “Vejam como a Madre Superiora está cheia de confiança” — disse Sheeana.
— Então você quer isso pelo moral! — Nessa altura, Bellonda aceitaria quase qualquer justificativa.
Odrade sorriu para Sheeana. “Minha querida espertinha!”
Não só Sheeana tinha deixado de provocar Bellonda, começara a reforçar a auto-estima da mulher mais velha sempre que possível. Bell sabia, claro, e permanecia uma pergunta Bene Gesserit inevitável: “Por quê?”
Reconhecendo a suspeita, Sheeana disse: — Estamos realmente discutindo sobre Miles e Duncan. E, por mim, estou farta!
— Se ao menos eu soubesse o que você realmente está fazendo, Dar! — disse Bellonda.
— A energia tem seus próprios moldes, Bell.
— O que quer dizer com isso? — Muito espantada.
— Elas vão nos encontrar, Bell. E eu sei como. Bellonda ficou boquiaberta.
— Somos escravas de nossos hábitos — disse Odrade. —
Escravas das energias que criamos. As escravas podem se libertar?
Bell, você conhece o problema tão bem quanto eu.
Excepcionalmente, Bell ficou perplexa.
Odrade olhou-a fixamente.
Orgulho, era o que Odrade via quando olhava suas Irmãs e seus lugares. A dignidade era apenas uma máscara. Nenhuma humildade real. Em vez disso, havia essa conformidade visível, um padrão verdadeiro Bene Gesserit que, em uma sociedade consciente do perigo dos padrões, soava como uma buzina de aviso. Sheeana estava confusa. — Hábitos?
— Seus hábitos sempre a perseguem. O self que você constrói vai assombrá-la. Um fantasma vagando em busca de seu corpo, ansioso para possuí-lo. Ficamos viciadas ao self que
construímos. Escravas dos atos que praticamos. Estamos viciadas às Honradas Madres e elas a nós!
— Você e seu eterno romantismo! — disse Bellonda.
— Sim, sou uma romântica... assim como o Tirano. Ele se sensibilizou à forma fixa de sua criação. Eu sou sensível à sua armadilha presciente.
“Mas, oh, como o caçador está perto e, oh, como o abismo é profundo.” Bellonda não se aplacou. — Você disse que sabe como vão nos encontrar.
— Basta que reconheçam seus próprios hábitos e... Sim? —
Dirigiu-se a uma mensageira acólita que saía de uma passagem coberta atrás de Bellonda.
— Madre Superiora, é a Reverenda Madre Dortujla. Madre Fintil a trouxe para a Plataforma de Aterrissagem e vão chegar dentro de uma hora.
— Leve-a para minha sala de trabalho! — * Odrade olhou para Bellonda com olhos quase selvagens. — Ela disse alguma coisa? — Madre Dortujla está doente — disse a acólita.
“Doente? Que coisa extraordinária para dizer de uma Reverenda Madre.”
— Suspenda o julgamento. — Era Bellonda-Mentat falando, Bellonda inimiga do romantismo e da imaginação desenfreada.
— Mande Tam para lá como observadora — disse Odrade.
Dortujla entrou mancando com uma bengala, tendo a ajuda de Fintil e
Streggi. Havia uma firmeza nos olhos de Dortujla, entretanto, e uma sensação de cálculo em cada olhar que dava a sua volta. O
capuz estava jogado para trás revelando cabelos castanho-escuros matizados da cor de marfim antigo, e quando falou sua voz transmitia uma sensação de fadiga.
— Fiz o que mandou, Madre Superiora. — Quando Fintil e Streggi saíram da sala, Dortujla sentou sem ser convidada em uma cadeira-linga perto de Bellonda. Um olhar rápido para Sheeana e Tamalane a sua esquerda, depois um olhar fixo para Odrade. —
Vão-se encontrar com você no Entroncamento. Acham que o lugar é idéia delas e sua Aranha Rainha está lá!
— Quando? — Sheeana perguntou.
— Querem 100 dias Padrão a contar de agora. Posso ser mais precisa se quiser.
— Por que tanto tempo? — Odrade perguntou.
— Minha opinião? Vão usar esse tempo para reforçar suas defesas no Entroncamento.
— Que garantias? — Isso veio de Tam, concisa como sempre. — Dortujla, o que aconteceu com você? — Odrade ficou chocada pela fraqueza trêmula aparente na mulher.
— Fizeram experiências comigo. Mas isso não é importante.
Os acordos são. Prometem a você uma passagem segura entrando e saindo do Entroncamento. Não acredite. Permitem uma “pequena”
comitiva de serviçais, não mais que cinco. Presuma que matarão todos que a acompanharem, embora... Talvez eu lhes tenha ensinado como isso era errado.
— Esperam que eu traga a submissão da Bene Gesserit? —
A voz de Odrade nunca fora tão gélida. As palavras de Dortujla criavam um espectro de tragédia.
— Esse foi o incentivo.
— As Irmãs que foram com você? — Sheeana perguntou.
Dortujla bateu com um dedo na testa, um gesto comum da Irmandade.
— Estão comigo. Concordamos que as Honradas Madres devem ser punidas.
— Mortas? — Odrade forçou as palavras entre lábios comprimidos.
— Tentando me forçarem suas fileiras. “Você vê? Mataremos mais uma se você não concordar.” Disse-lhes que matassem nós todas e acabassem com aquilo e esquecessem sobre se encontrarem com a Madre Superiora. Não aceitaram isso até não terem mais reféns.
— Você as compartilhou todas? — Tamalane perguntou.
Sim, essa preocupação era típica de Tam pela proximidade de sua
própria morte.
— Enquanto fingia que estava me certificando de que estavam mortas. É melhor você ficar sabendo de tudo. Aquelas mulheres são grotescas! Possuem Futares em jaulas. Os corpos de minhas Irmãs foram jogados nas jaulas onde os Futares os comeram. A Aranha Rainha — um nome muito apropriado — me obrigou a ver isso.
— Revoltante! — Bellonda disse.
Dortujla suspirou. — Elas não sabiam, naturalmente, que tenho visões piores na Outra Memória.
— Tentaram dominar suas sensibilidades — disse Odrade.
— Tolice. Ficaram espantadas quando você não reagiu como queriam?
— Mortificadas, diria. Acho que tinham visto outras reagirem como eu. Disse-lhes que era uma maneira boa de obter fertilizante.
Creio que isso as deixou zangadas.
— Canibalismo — murmurou Tamalane.
— Só na aparência — disse Dortujla. — Os Futares definitivamente não são humanos. Animais selvagens mal domesticados.
— Nenhum Treinador? — Odrade perguntou.
— Não vi nenhum. Os Futares falaram. Disseram: “Comer!”
antes de comer e zombaram das Honradas Madres ao seu redor.
“Vocês com fome?” Esse tipo de coisa. O mais importante foi o que aconteceu depois de comerem...
Dortujla foi interrompida por um acesso de tosse. —
Experimentaram venenos — disse. — Que mulheres estúpidas!
Quando se refez, Dortujla disse: — Um Futar veio até as barras da jaula depois do... banquete. Olhou para a Aranha Rainha e berrou. Nunca tinha ouvido um som assim. Apavorante! Todas as Honradas Madres na sala ficaram petrificadas e juro que estavam aterrorizadas.
Sheeana tocou o braço de Dortujla. — Um predador imobilizando sua presa?
— Sem dúvida. Tinha qualidades de Voz. Os Futares pareceram surpresos que eu não tenha ficado petrificada.
— A reação das Honradas Madres? — Bellonda perguntou.
Sim, uma Mentat. precisaria desses dados.
— Um clamor geral quando recuperaram a voz. Muitas gritavam para a Grande Honrada Madre destruir os Futares. Ela, entretanto, olhou isso com mais calma. — São valiosos demais vivos — disse. — Um bom sinal — disse Tamalane.
Odrade olhou para Bellonda. — Vou mandar Streggi trazer o Bashar aqui. Alguma objeção?
Bellonda acenou ligeiramente com a cabeça. Sabiam que tinham de arriscar isso apesar de questionarem as intenções de Teg. Odrade disse para Dortujla: — Quero você nas minhas acomodações de hóspedes. Vamos chamar as Suks. Peça o que você quiser e se prepare para uma reunião completa do Conselho.
Você é uma conselheira especial.
Dortujla falou enquanto se punha de pé. — Não durmo há quase quinze dias e vou precisar de uma refeição especial.
— Sheena, providencie isso e chame as Suks. Tam, fique com o Bashar e Streggi. Relatórios regulares. Ele vai querer ir ao aquartelamento e se encarregar pessoalmente. Arranje um comunicador ligado a Duncan. Nada deve impedi-los.
— Quer que eu fique aqui com ele? — perguntou Tamalane.
— Você vai ser sua sanguessuga. Streggi não vai levá-lo a parte alguma sem você saber. Ele quer Duncan como Mestre de Armas. Certifique-se de que ele aceita a detenção de Duncan na nave. Bell, qualquer informação que Duncan quiser sobre armas —
prioridade. Algum comentário?
Não houve comentários. Idéias sobre as conseqüências, sim, mas a atitude decisiva de Odrade as contagiou.
Recostando-se na cadeira, Odrade fechou os olhos e esperou até que o silêncio lhe dissesse que estava sozinha. Os televigias ainda estavam lá, é claro.
“Sabem que estou cansada. Quem não estaria nessas circunstâncias? Mais três Irmãs assassinadas por esses monstros! Bashar! Elas têm de sentir nosso açoite e aprender a lição!”
Quando ouviu Streggi chegar com Teg, Odrade abriu os olhos. Streggi o conduzia pela mão, mas havia algo neles que dizia que não era um adulto conduzindo uma criança. Os movimentos de Teg diziam que estava dando permissão a Streggi para tratá-lo dessa maneira. Ela tinha de ser avisada.
Tam os seguiu e foi para uma cadeira perto das janelas, diretamente embaixo do busto de Chenoeh. Posicionamento significativo? Tam estava fazendo coisas estranhas ultimamente.
— Quer que eu fique, Madre Superiora? — Streggi soltou a mão de Teg e ficou de pé junto à porta.
— Sente-se ali perto de Tam. Escute e não interrompa. Deve ficar sabendo o que será exigido de você.
Teg se acomodou na cadeira há pouco ocupada por Dortujla.
— Suponho que seja um conselho de guerra.
“Há um adulto atrás dessa voz de criança.”
— Não vou perguntar seu plano ainda — disse Odrade.
— Muito bem. O inesperado leva mais tempo e talvez não possa lhes dizer o que pretendo até o momento de agir.
— Estivemos observando você com Duncan. Por que está interessado em naves da Dispersão?
— Naves de longo alcance têm uma aparência distintiva. Eu as vi na plataforma de Gammu.
Teg recostou-se e deixou essa declaração ser digerida, satisfeito com a animação que sentia no modo de Odrade.
Decisões! Não deliberações prolongadas. Isso atendia a suas necessidades. “Elas não podem saber o alcance total de minhas habilidades. Ainda não.”
— Você disfarçaria uma força de ataque?
Bellonda entrou enquanto Odrade estava falando e resmungou uma objeção ao sentar-se. — Impossível! Elas terão códigos de reconhecimento e sinais secretos para...
— Deixe que eu decida isso, Bell, ou me retire do comando.
— Esse é o Conselho! — disse Bellonda. — Você não...
— Mentat! — Ele olhou-a em cheio, o Bashar evidente em seu olhar. Quando ela ficou calada, ele disse: — Não questione minha lealdade!
Se vai me enfraquecer, substitua-me!
— Deixe-o dizer o que quiser. — Era Tam falando. — Não é o primeiro Conselho onde o Bashar aparece como nosso igual.
Bellonda abaixou o queixo uma fração de milímetro.
Teg disse a Odrade: — Evitar a guerra é questão de inteligência — informações obtidas e poder intelectual.
“Jogando nosso próprio jargão em nós!” Ouviu o Mentat na voz dele e Bellonda evidentemente também ouviu. Informações e inteligência: a visão dupla. Sem ela, a guerra muitas vezes ocorria como um acidente.
O Bashar ficou sentando em silêncio, deixando que nadassem em suas próprias observações históricas. O impulso para o conflito ia muito mais fundo do que a consciência. O Tirano estava certo. A humanidade agia como “uma fera”. As forças impulsionando aquele grande animal coletivo regredia aos dias tribais e além, assim como tantas forças a que os humanos reagiam sem pensar.
“Misture os genes.”
“Expanda Lebensraum para suas próprias procriadoras.”
“Reúna as energias de outros: arrecade escravos, peões, serviçais, servos, mercados, trabalhadores... Os termos muitas vezes eram permutáveis.”
Odrade viu o que ele estava fazendo. A sabedoria absorvida da Irmandade ajudava a fazer dele o incomparável Mentat Bashar.
Para ele, essas coisas eram instintos. O consumo de energia impulsionava a violência da guerra. Isso era descrito como
“ganância, medo (que outros tomem seu tesouro), fome de poder” e assim por diante até análises inúteis. Odrade ouvira isso até de Bellonda que, obviamente, não estava aceitando bem que um
“subordinado” lhes lembrasse o que já sabiam.
— Tirano sabia — disse Teg. — Duncan o cita: “A guerra é um comportamento com raízes na única célula dos mares primordiais. Coma seja o que for que tocar, ou isso comerá você.”
— O que você propõe? — Bellonda, com toda brusquidão.
— Um ataque simulado a Gammu, depois um real à base delas no Entroncamento. Para isso precisamos de observações de primeira mão. — Olhou fixamente para Odrade.
— “Ele sabe!” A idéia relampejou na mente de Odrade.
— Acha que seu estudo do Entroncamento, quando ainda era uma base da Corporação, ainda está certo? — Bellonda perguntou.
— Não tiveram tempo de fazer mudanças sensíveis no que tenho armazenado aqui. — Bateu na testa, numa paródia estranha do gesto da Irmandade.
— Englobamento — disse Odrade. Bellonda olhou-a abruptamente. — O custo!
— Perder tudo é muito mais dispendioso — disse Teg.
— Os sensores das dobras do espaço não precisam ser grandes — disse Odrade. — Duncan os disporia para criar uma explosão Holzmann ao contato?
— As explosões seriam visíveis e nos dariam uma trajetória.
— Ele recostou-se na cadeira e olhou para uma área indefinida na parede dos fundos. Aceitariam isso? Não ousava amedrontá-las com outra demonstração de talento selvagem. Se Bell soubesse que ele podia “ver” as não-naves!
— Faça isso! — Odrade disse. — Você está no comando.
Use-o. Houve um claro sentido de um risinho de Taraza em Outras Memórias.
“Dê-lhe as rédeas! Foi assim que consegui uma grande fama!” — Uma coisa — disse Bellonda. Olhou para Odrade. — Você vai ser a espiã dele?
— Quem mais pode ir lá e transmitir observações?
— Vão controlar todos os meios de transmissão.
— Mesmo o que disser à não-nave — à nossa espera — que não fomos traídas? — perguntou Odrade.
— Uma mensagem em código escondida na transmissão —
disse Teg. — Duncan inventou um código que levaria meses para decifrar, mas duvidamos que detectem sua presença.
— Loucura — resmungou Bellonda.
— Conheci uma Honrada Madre comandante militar em Gammu — disse Teg. — Relaxada no que diz respeito a detalhes necessários. Acho que estão confiantes demais.
Bellonda o olhou fixamente, e lá estava o Bashar olhando de volta, com os olhos inocentes de uma criança. — Abandone toda a sanidade, você que entra aqui — ele disse.
— Saiam daqui, todas vocês! — ordenou Odrade. — Têm muito a fazer. E Miles...
Ele ja tinha se levantado da cadeira, mas ficou ali com a mesma expressão de quando ficava esperando que a “Mãe” lhe dissesse alguma coisa importante.
— Você fez referência à loucura de eventos dramáticos que a guerra sempre amplifica?
— Certo! Você não ia pensar que eu me referia à sua Irmandade?
— Às vezes, Duncan faz essa brincadeira.
— Não quero que nós peguemos a loucura das Honradas Madres — disse Teg. — É contagiosa, você sabe.
— Tentaram controlar o impulso sexual — disse Odrade. —
Isso sempre foge ao controle.
— Insensatez — ele concordou. Encostou-se à mesa, o queixo mal alcançando o tampo. — Alguma coisa arrastou essas mulheres de volta para cá. Duncan tem razão. Estão procurando alguma coisa e fugindo ao mesmo tempo.
— Você tem 90 dias Padrão para se aprontar — ela disse. —
Nem mais um dia.
Ish yara al-ahdab hadbat-u (Um corcunda não vê sua própria corcova — Dito popular).Comentário Bene Gesserit: A corcova pode ser vista por meio de espelhos, mas os espelhos podem mostrar o ser total.
— O Bashar Teg
Era uma fraqueza na Bene Gesserit que — Odrade sabia —
a Irmandade inteira teria de reconhecer muito breve. Não tinha nenhum consolo em tê-la visto em primeiro lugar. “Negar nosso recurso mais profundo quando mais precisamos dele!” As dispersões tinham ido além da habilidade dos humanos de reunir as experiências de forma viável. “Só podemos extrair o essencial, e isso é uma questão de discernimento.” Dados vitais permaneceriam dormentes em grandes e pequenos eventos, acumulações chamadas de instinto. Então era isso finalmente — tinham de recorrer à sabedoria tácita.
Nessa época, a palavra “refugiado” assumia o aspecto de seu significado pré-espacial. Pequenos grupos de Reverendas Madres enviados pela Irmandade tinham algo em comum com velhas cenas de deslocados errantes arrastando-se por estradas esquecidas, humildes pertences amarrados em pedaços de pano, carregados em decrépitos carrinhos de bebê e caminhões de brinquedo, ou empilhados em cima de veículos tortos, o resto da humanidade pendurado do lado de fora e compactada dentro, cada rosto inexpressivo de desengano ou rubro de desesperação.
“Então repetimos, repetimos e repetimos a história.”
Ao entrar na boca de um tubo pouco antes do almoço, Odrade pensava em suas Irmãs Dispersas: refugiadas políticas, refugiadas econômicas, refugiadas pré-combate.
“E esse o seu Caminho Dourado, Tirano?”
Visões de suas Dispersas assolaram Odrade ao entrar na Sala de Jantar Reservada da Central, um lugar onde só as Reverendas Madres podiam entrar. Serviam-se a si mesmas aqui, em estilo de restaurante automático.
Tinham-se passado 20 dias desde que liberara Teg para o aquartelamento. Os boatos voavam pela Central, especialmente entre as Instrutoras, embora não houvesse ainda nenhum sinal de outra votação. Novas decisões tinham de ser anunciadas hoje e teriam de ser mais do que só nomear as pessoas que a acompanhariam ao Entroncamento.
Olhou em volta da sala de jantar, um lugar austero de paredes amarelas, teto baixo, pequenas mesas quadradas que podiam ser juntadas em fileiras para grupos maiores. Janelas de um lado revelavam um pátio ajardinado sob uma cobertura diáfana.
Abricoteiros-anões com frutos verdes, gramado, bancos, pequenas mesas. As Irmãs comiam lá fora quando o sol banhava o pátio cercado. Hoje não havia sol.
Ignorou uma fila onde um lugar estava sendo aberto para ela.
“Mais tarde, Irmãs.”
Na mesa de canto, reservada para ela, mudou as cadeiras de propósito. A cadeira-cão marrom de Bell pulsou ligeiramente com esse distúrbio desusado. Odrade sentou de costas para a sala, sabendo que isso seria interpretado corretamente: “Deixe-me com meus pensamentos.”
Enquanto esperava, olhou o pátio. Uma cerca de arbustos exóticos de folhas roxas estava com flores vermelhas —
florescências enormes com delicados estames amarelo-escuros.
Bellonda chegou primeiro, caindo em sua cadeira-cão sem comentar sobre sua nova posição. Bell freqüentemente parecia desalinhada, cinto solto, manto amarfanhado, pedacinhos de comida no busto. Hoje estava arrumada e limpa.
“Por que isso agora?”
Bellonda disse: — Tam e Sheeana vão se atrasar.
Odrade aceitou isso sem interromper seu estudo dessa Bellonda diferente. Estaria um pouco mais magra? Não havia maneira de isolar uma Madre Superiora completamente do que
acontecia dentro dos limites de sua área sensória de preocupações, mas às vezes as pressões do trabalho a distraíam de pequenas mudanças. Essas eram o habitat natural de uma Reverenda Madre, porém, e a evidência negativa era tão elucidante quanto a positiva.
Refletindo, Odrade percebeu que essa nova Bellonda já estava com elas há várias semanas.
Algo tinha acontecido com Bellonda. Qualquer Reverenda Madre podia exercer um controle razoável sobre o peso e a figura.
Uma questão de química interna — abafar o fogo ou deixá-lo queimar alto. Por muitos anos, a rebelde Bellonda ostentara um corpo volumoso.
— Você perdeu peso — disse Odrade.
— A gordura estava me tornando muito lenta.
Isso nunca fora razão suficiente para Bell mudar seus hábitos. Tinha sempre compensado com velocidade mental, projeções e transporte mais rápido.
— Duncan atingiu você, não foi?
— Não sou hipócrita nem criminosa!
— Está na hora de mandar você para uma Fortaleza de punição, talvez. Essa espetadela humorística geralmente irritava Bellonda. Hoje, não a perturbou. Mas sob a pressão do olhar de Odrade, disse: — Se você quer mesmo saber, é Sheeana. Está atrás de mim para melhorar minha aparência e alargar meu círculo de relações. Irritante! Estou fazendo isso para ela calar a boca.
— Por que Tam e Sheeana estão atrasadas?
— Estão passando em revista sua última reunião com Duncan. Limitei severamente quem tem acesso a isso. Não há como prever o que acontecerá quando se tornar do conhecimento geral.
— Como acontecerá.
— Inevitável. Só posso comprar tempo para nos prepararmos.
— Não queria que fosse suprimido, Bell.
— Dar, o que você está fazendo?
— Vou anunciar isso numa Convocação. Sem palavras, mas Bellonda exprimiu surpresa.
— Uma Convocação é meu direito — disse Odrade.
Bellonda recostou-se na cadeira e olhou para Odrade, avaliando, questionando ... tudo sem palavras. A última Convocação da Bene Gesserit tinha sido na ocasião da morte do Tirano. E antes disso, quando o Tirano tomou o poder. Não se pensara que fosse possível haver uma Convocação desde que as Honradas Madres atacaram. Tempo demais roubado a tarefas desesperadas.
Eventualmente, Bellonda perguntou: — Você vai arriscar trazer as Irmãs de nossas Fortalezas que sobreviveram?
— Não. Dortujla as representará. Há precedentes, como você sabe.
— Primeiro, você libera Murbella; agora é uma Convocação.
— Liberar? Murbella está amarrada por cadeias de ouro.
Onde ela iria sem seu Duncan?
— Mas você deu liberdade a Duncan de deixar a nave!
— E ele deixou?
— Você acha que aquela informação do arsenal da nave é só o que ele levará? — Bellonda disse.
— Sei que é.
— Isso me lembra Jessica virando as costas ao Mentat que ia matá-la.
— O Mentat estava imobilizado por suas próprias crenças.
— Às vezes o touro chifra o matador, Dar.
— Na maior parte das vezes, não.
— Nossa sobrevivência não deveria depender de estatística.
— Concordo. É por isso que vou fazer uma Convocação.
— Incluindo acólitas?
— Todo mundo.
— Até Murbella? Ela terá um voto de acólita?
— Acho que poderá ser uma Reverenda Madre até lá.
Bellonda arquejou: — Você está indo depressa demais, Dar!
— A época requer isso.
Bellonda olhou para a porta da sala. — Lá está Tam. Mais tarde do que eu esperava. Será que consultaram Murbella?
Tamalane chegou, ofegante de tanta pressa. Sentou em sua cadeira-cão azul, notou a nova posição e disse: — Sheeana está chegando. Está mostrando registros a Murbella.
Bellonda se dirigiu a Tamalane — Ela vai mandar Murbella se submeter à Agonia e fazer uma Convocação.
— Isso não me espanta. — — Tamalane falou com sua velha precisão. — A posição daquela Honrada Madre tem de ser resolvida o mais cedo possível.
Sheeana juntou-se a elas, e usou a cadeira-linga à esquerda de Odrade, falando enquanto sentava. — Viram Murbella andar?
Odrade notou como essa pergunta abrupta, feita sem preâmbulos, fixou a atenção. “Murbella andando na nave.”
Observada naquela manhã mesmo. Uma beleza em Murbella que os olhos não podiam ignorar. Para outras Bene Gesserit, Reverendas Madres e acólitas igualmente, era algo exótico.
Chegara amadurecida do perigoso Exterior. “Uma delas.” Mas eram seus movimentos que atraíam o olhar. A homeostase nela que ia além das normas.
A pergunta de Sheeana reorientava a mente do observador.
Algo sobre a passagem perfeitamente aceitável de Murbella requeria novo exame. O que era?
Os movimentos de Murbella eram sempre cuidadosamente escolhidos. Ela excluía qualquer coisa que não fosse necessária para ir daqui até lá. “Caminho de menor resistência?” Era uma visão de Murbella que abalou Odrade. Sheeana tinha visto isso, é claro. Era Murbella uma dessas pessoas que escolheria sempre a saída mais fácil? Odrade podia ver essa pergunta no rosto de suas companheiras.
— A Agonia esclarecerá tudo — disse Tamalane.
Odrade olhou em cheio para Sheeana. — Então? — Fizera a pergunta, afinal de contas.
— Talvez seja somente que ela não desperdiça energia. Mas concordo com Tam: a Agonia.
— Estaremos cometendo um grande erro? — Bellonda perguntou. Algo na maneira em que essa pergunta foi feita disse a Odrade que Bell havia feito um sumário Mentat. “Ela viu minha intenção!”
— Se você sabe uma solução melhor, fale agora — disse Odrade. “Ou fique calada.”
O silêncio desceu sobre elas. Odrade olhou as companheiras, uma após outra, demorando mais em Bell.
“Ajudem-nos, quaisquer deuses que existem! E eu, sendo Bene Gesserit, sou agnóstica demais para fazer essa súplica com algo mais que uma esperança de cobrir todas as possibilidades.
Não revele nada, Bell. Se você sabe o que vou fazer, sabe que só pode ser visto na hora certa.” Bellonda tirou Odrade de seu devaneio com uma tosse. — Vamos comer ou falar? As pessoas estão olhando.
— Devemos tentar novamente com Scytale? — Sheeana perguntou. “Seria uma tentativa para distrair minha atenção?”
Bellonda disse: — Não lhe dê nada! Ele está de reserva.
Deixe-o esperar.
Odrade olhou Bellonda cuidadosamente. Estava fumegando com o silêncio que lhe tinha sido imposto pela decisão secreta de Odrade. Evitando encontrar os olhos de Sheeana. “Com ciúmes!
Bell tem ciúmes de Sheeana!”
Tamalane disse: — Sou apenas uma conselheira, mas...
— Pare com isso, Tam! — Odrade disse bruscamente.
— Tam e eu estávamos discutindo aquele ghola — disse Bellonda. (Idaho era “aquele ghola” quando Bellonda tinha alguma coisa depreciativa a dizer.) — Por que ele achou que tinha de falar secretamente com Sheeana? — Um olhar duro para Sheeana.
Odrade viu suspeita compartilhada. “Ela não aceita a explicação. Será que rejeita o preconceito emocional de Duncan?”
Sheeana falou apressada. — A Madre Superiora explicou isso! — Emoção — Bellonda escarneceu.
Odrade ergueu a voz e ficou surpresa com essa reação. —
Suprimir emoções é uma fraqueza!
As sobrancelhas espessas de Tamalane levantaram.
Sheeana interrompeu: — Se não nos curvarmos, podemos quebrar.Antes que Bellonda pudesse responder, Odrade disse: — O
gelo pode ser quebrado ou derretido. As donzelas de gelo são vulneráveis a uma única forma de ataque.
— Estou com fome — disse Sheeana.
“Fazendo as pazes?” Não era um papel que se esperasse para o Camundongo.
Tamalane se levantou. — Bouillabaisse. Temos de comer peixe antes que nosso mar vá embora. Não há bastante armazenagem de nulentropia.
No mais suave simulfluxo, Odrade notou que as companheiras tinham ido para a fila pegar comida. As palavras acusadoras de Tamalane lembraram o segundo dia com Sheeana após a decisão de acabar com o Grande Mar. De pé junto à janela de Sheeana de manhã cedo, Odrade observara uma ave marinha mover-se contra o pano de fundo do deserto. Voou para o norte, uma criatura completamente deslocada naquele lugar, mas linda de uma maneira profundamente nostálgica, exatamente por isso.
Asas brancas reluziam no sol matinal. Um toque preto abaixo e em frente dos olhos. Abruptamente, pairou, as asas imóveis, Então, levantando em uma corrente de ar, aconchegou as asas ao corpo como uma águia e mergulhou atrás dos prédios longínquos.
Reaparecendo, carregava algo no bico, um petisco que engoliu voando.Uma ave marinha sozinha e se adaptando.
“Nós nos adaptamos. Nós certamente nos adaptamos.”
Não era um pensamento calmo. Nada que induzisse repouso.
Pelo contrário, chocante. Odrade se sentira arrancada de um curso perigosamente à deriva. Não só a sua amada Sede da Irmandade, mas também seu universo humano inteiro estavam irrompendo de seus velhos formatos e tomando novos feitios. Talvez estivesse certo nesse novo universo que Sheeana continuasse a esconder coisas da Madre Superiora. “E ela está escondendo algo.”
Mais uma vez, o tom ácido de Bellonda trouxe Odrade de volta à percepção do ambiente. — Se não vai se servir, vamos ter de tomar conta de você. — Bellonda colocou um prato fundo de ensopado de peixe aromático em frente de Odrade, com um pedaço grande de pão de alho ao lado.
Quando todas tinham provado a bouillabaisse, Bellonda largou a colher e olhou fixo para Odrade. — Não vai sugerir “amor
ao próximo” ou coisa desse gênero, vai?
— Obrigada por ter trazido minha comida — disse Odrade.
Sheeana engoliu e deu um largo sorriso. — Está delicioso.
Bellonda continuou a comer. — Não está ruim. — Mas ouvira o comentário silencioso.
Tamalane comia calmamente, observando Sheeana e depois Bellonda e em seguida Odrade. Tam parecia concordar com a proposta de atenuação das restrições emocionais. Pelo menos não deu voz a objeções e as Irmãs mais velhas tinham mais probabilidades de objetar.
O amor que a Bene Gesserit tentava negar estava em toda parte, pensou Odrade. Em pequenas e grandes coisas. Quantas maneiras havia de preparar pratos deleitosos, alimentícios, receitas que eram realmente a encarnação de amores antigos e novos. Essa bouillabaisse tão suavemente restauradora em sua língua; sua origem tinha raízes no amor: a esposa em casa usando a parte da pesca do dia que o marido não pôde vender.
A própria essência da Bene Gesserit estava escondida no amor. Que outra razão haveria para atender a essas necessidades silenciosas que a humanidade sempre tem? Por que trabalhar para a perfectibilidade da raça humana?
O prato vazio, Bellonda largou a colher e limpou os restos com o último pedaço de pão. Engoliu, com expressão pensativa. —
O amor nos enfraquece — disse. Sua voz não tinha força.
Uma acólita não o diria de forma diferente. Exatamente como no Coda. Odrade achou divertido, mas disfarçou e retorquiu com um outro degrau do Coda. — Cuidado com o jargão. Geralmente oculta a ignorância e leva pouca sabedoria.
Uma precaução respeitosa surgiu nos olhos de Bellonda.
Sheeana se afastou da mesa e passou o guardanapo nos lábios. Tamalane fez o mesmo. Sua cadeira-cão se adaptou quando ela se recostou com os olhos brilhando divertidos.
“Tam sabe! A velha bruxa matreira conhece meu jeito. Mas Sheeana...-qual é o jogo de Sheeana? Diria quase que espera me distrair, manter minha atenção longe dela. É muito boa nisso,
aprendeu no meu colo. Bem... duas pessoas podem jogar.
Pressiono Bellonda, mas vigio minha criança abandonada de Duna.”
— Que valor tem a respeitabilidade, Bell? — Odrade perguntou. Bellonda aceitou essa estocada em silêncio. Escondida no jargão Bene
Gesserit havia uma definição de respeitabilidade e todas sabiam isso.
— Deveríamos honrar a memória da Lady Jessica por sua humanidade?
— Odrade perguntou. “Sheeana está surpresa!”
— Jessica colocou a Irmandade em perigo! — “Bellonda acusa.” — Seja leal a suas Irmãs — murmurou Tamalane.
— Nossa definição antiga de respeitabilidade ajuda a nos manter humanas — disse Odrade. “Ouça com atenção, Sheeana.”
Em uma voz que mal passava de um sussurro, Sheeana disse: — Se perdermos isso, perderemos tudo.
Odrade reprimiu um suspiro. “Então é isso!” Sheeana olhou-a nos olhos.
— Está nos instruindo, é claro.
— Pensamentos do crepúsculo — resmungou Bellonda. — É
melhor evitá-los.
— Taraza nos chamou de “Bene Gesserit de hoje em dia” —
disse Sheeana.
O estado de espírito de Odrade tornou-se auto-acusador.
“A maldição de nossa existência atual. Imaginações sinistras podem nos destruir.”
Como era fácil evocar um futuro que as fitava dos olhos laranja vidrados das Honradas Madres frenéticas. Temores de muitos passados agachavam-se dentro de Odrade, momentos sem respirar focalizados nas presas que acompanhavam esses olhos.
Odrade forçou a atenção de volta ao problema imediato. —
Quem vai me acompanhar ao Entroncamento?
Sabiam da experiência angustiante de Bortujla e falava-se disso em toda a Sede da Irmandade.
“Quem for com a Madre Superiora pode muito bem virar comida dos Futares.”
— Tam — disse Odrade. — Você e Dortujla. “E isso pode ser uma sentença de morte. O próximo passo é óbvio.” — Sheeana —
disse Odrade —, você vai Compartilhar com Tam. Dortujla e eu vamos Compartilhar com Bell. E eu também Compartilharei com você antes de ir.
Bellonda ficou horrorizada. — Madre Superiora! Não posso tomar o seu lugar.
Odrade continuou a prestar atenção a Sheeana. — Isso não está sendo sugerido. Só farei de você o repositório de minhas vidas.
— Temor definido no rosto de Sheeana, mas não ousava recusar uma ordem direta. Odrade acenou a cabeça para Tamalane. —
Compartilharei mais tarde. Você e Sheeana vão fazê-lo agora.
Tamalane inclinou-se para Sheeana. As restrições da idade avançada e morte iminente tornavam isso uma coisa bem-vinda para ela, mas Sheeana involuntariamente recuou.
— Agora! — Odrade disse. Sheeana inclinou a cabeça em direção à de Tamalane até que se encostaram. O clarão da troca foi elétrico e a sala inteira o sentiu. Toda conversa parou, todos os olhares convergiram para a mesa perto da janela.
Havia lágrimas nos olhos de Sheeana quando se afastou.
Tamalane sorriu e fez um gesto doce de carícia com as duas mãos nas faces de Sheeana. — Está tudo bem, querida. Temos todos esses temores e às vezes fazemos coisas tolas por causa deles. Mas estou contente de chamar você de Irmã.
“Diga-nos, Tam! Agora!”
Tamalane não quis fazer isso. Encarou Odrade e disse: —
Temos de nos apegar a nossa humanidade a todo custo. Sua lição é bem recebida e você ensinou Sheeana muito bem.
— Quando Sheeana Compartilhar com você, Dar —
começou Bellonda —, não poderia reduzir a influência que ela tem sobre Idaho?
— Não enfraquecerei uma possível Madre Superiora —
disse Odrade. — Obrigada, Tam. Acho que faremos nosso empreendimento arriscado ao Entroncamento sem excesso de
bagagem. Agora! Quero um relatório hoje à noite sobre o progresso de Teg. Sua sanguessuga está longe dele há tempo demais.
— Ele vai saber que tem duas sanguessugas agora? —
Sheeana perguntou. “Com tanta alegria!”
Odrade ficou de pé.
“Se Tam a aceita, então eu também. Tam nunca trairia nossa Irmandade. E Sheeana — de todas nós, Sheeana é a que mais revela as características naturais de nossas raízes humanas...
Gostaria que nunca tivesse criado aquela estátua que chama de O
Vácuo!’
A religião deve ser aceita como fonte de energia. Pode ser dirigida para nossos fins, mas somente dentro dos limites que a experiência revela. Aqui está o significado secreto de Livre-Arbítrio.
— Missionária Protectiva Ensino Primário Uma cobertura de nuvens espessas localizara-se sobre a Central essa manhã, e a sala de trabalho de Odrade adquiriu um silêncio cinzento ao qual ela reagiu com uma quietude interior, como se não ousasse se mexer porque isso perturbaria forças perigosas.
“O dia de Agonia de Murbella’’, pensou.’ ‘Não devo pensar em presságios.”
A Meteorologia emitira um aviso peremptório sobre nuvens.
Eram um “deslocamento acidental”. Medidas corretivas estavam sendo tomadas mas levariam tempo. Por enquanto, esperem ventos fortes e talvez haja precipitação.
Sheeana e Tamalane ficaram à janela olhando o tempo tão mal controlado. Os ombros das duas se encostavam.
Odrade as observava de sua cadeira atrás da mesa. As duas haviam se tornado como uma só pessoa desde que haviam Compartilhado ontem, um acontecimento não inesperado.
Conheciam-se precedentes, embora não muitos. Trocas, ocorrendo na presença de essência de especiarias venenosas ou no verdadeiro momento da morte, em geral não permitiam contato vivo entre as participantes. Era interessante observar isso. As duas costas eram estranhamente semelhantes em sua rigidez.
A força de “extremis” que tornava possível Compartilhar causava mudanças extremas na personalidade e Odrade sabia isso tão bem que tinha tolerância. Fosse o que fosse que Sheeana escondia, Tam também escondia. “Alguma coisa ligada à humanidade básica de Sheeana.” E Tam era confiável. Até que outra Irmã Compartilhasse com uma delas, a decisão de Tam teria de ser aceita. Não que as vigilantes deixassem de sondar e observar detalhes, mas não precisavam de uma nova crise
agora. — Hoje é o dia de Murbella — disse Odrade.
— As probabilidades são de que não sobreviverá — disse Bellonda, encolhida em sua cadeira-cão. — O que acontece com nosso precioso plano então?
“Nosso plano!”
— “Extremis” — Odrade disse.
Nesse contexto, era uma palavra com vários significados.
Bellonda interpretou como uma possibilidade de adquirir as memórias da pessoa de Murbella no momento de sua morte. — Então não podemos permitir que Idaho observe!
— Minha ordem continua — disse Odrade. — É a vontade de Murbella e dei minha palavra.
— Erro... erro... — resmungou Bellonda.
Odrade sabia a origem das dúvidas de Bellonda. Visível para todas elas: em algum lugar em Murbella jazia algo extremamente doloroso. Fazia com que ela se esquivasse de certas perguntas como um animal confrontado com um predador. Fosse o que fosse, era coisa profunda. Indução hipnótica poderia não explicar isso.
— Está certo! — Odrade falou alto para enfatizar que era para todas as suas ouvintes. — Não é a maneira que temos usado sempre. Mas não podemos tirar Duncan da nave, portanto, temos de ir a ele. Ele estará presente.
Bellonda ainda estava muito e realmente chocada. Nenhum homem, “com exceção do diabo do Kwisatz Haderach, o próprio, e seu filho, o Tirano”, tinha jamais conhecido os detalhes desse segredo Bene Gesserit. Ambos “esses monstros” tinham sentido a Agonia. Dois desastres! Não importa que a Agonia do Tirano tivesse penetrado uma célula de cada vez para transformá-lo em um verme da areia simbionte (não mais verme original, não mais humano original). E Muad’Dib! Ele desafiou a Agonia e vejam o que aconteceu!
Sheeana virou-se da janela e deu um passo em direção à mesa, causando em Odrade a sensação curiosa de que as duas mulheres tinham se tornado uma figura de Jano: costas contra costas, mas uma pessoa só.
— Bell está “confusa” com sua promessa — disse Sheeana.
Que voz suave.
— Ele poderia ser o catalisador para salvar Murbella — disse Odrade. — Você tende a subestimar o poder do amor.
— Não! — Tamalane falou para a janela em frente. —
Tememos seu poder.
— Pode ser! — Bell ainda estava desdenhosa, mas isso era natural nela. A expressão do rosto dizia que continuava implacavelmente obstinada.
— Arrogância — murmurou Sheeana.
— O quê? — Bellonda virou-se na cadeira-cão, fazendo-a ganir com indignação.
— Partilhamos uma falha comum com Scytale — disse Sheeana.
— Hein? — Bellonda estava mordiscando o segredo de Sheeana.
— Achamos que fazemos a história — disse Sheeana.
Voltou para junto de Tamalane, ambas olhando pela janela.
Bellonda voltou sua atenção para Odrade. — Entendeu isso?
Odrade a ignorou. Deixe a Mentat decifrar isso sozinha. O
projetor sobre a mesa deu um clique e uma mensagem apareceu.
Odrade a repetiu. “Ainda não estão prontos na nave.” Olhou as duas costas rígidas em frente da janela.
“História?”
Na sede da Irmandade, tinha havido muito pouco do que Odrade gostava de chamar “fazer história” antes das Honradas Madres. Somente a formatura constante de Reverendas Madres passando pela Agonia.
“Como um rio.”
Corria e ia a algum lugar. Você podia ficar na margem (como Odrade às vezes achava que faziam aqui) e podia observar a corrente. Um mapa poderia lhe dizer onde o rio ia, porém nenhum mapa poderia revelar coisas mais essenciais. Um mapa nunca poderia mostrar movimentos íntimos da carga do rio. Aonde tinham ido? Os mapas tinham valor limitado nessa época. Uma impressão ou projeção dos Arquivos; não era esse o mapa de que precisavam.
Tinha de haver um melhor em algum lugar, um ligado a todas aquelas vidas. Você poderia carregar “esse” mapa em sua memória e tirá-lo de vez em quando para ver melhor.
“O que terá acontecido com a Reverenda Madre Perinte que mandamos lá fora no ano passado?”
O “mapa-na-mente” tomaria conta disso e criaria um “Cenário Perinte”. Era realmente você no rio, é claro, mas isso fazia pouca diferença. Ainda era o mapa de que precisavam.
“Não gostamos de estar presas na corrente de outra pessoa, de não saber o que poderá ser revelado na próxima curva do rio.
Sempre preferimos sobrevoar, ainda que qualquer posição de comando tenha de continuar parte de outras correntes. Todos os fluxos contêm coisas imprevisíveis.”
Odrade ergueu os olhos e viu suas três companheiras observando-a. Tamalane e Sheeana tinham virado de costas para a janela. — As Honradas Madres esqueceram que se agarrar a qualquer forma de conservantismo pode ser perigoso — disse Odrade. — Será que nós também esquecemos?
Continuaram de olhos grudados nela, mas ouviram. Torne-se muito conservadora e você fica despreparada para surpresas. Isso era o que
Muad’Dib tinha-lhes ensinado, e seu filho Tirano tornara a lição inesquecível para sempre.
A expressão sombria de Bellonda não mudou.
Nas profundezas da consciência de Odrade, Taraza murmurou: “Cuidado, Dar. Tive sorte. Rápida em tirar partido. Assim como você. Mas você não pode depender da sorte, e é isso que as incomoda. Nem sequer espere a sorte. Muito melhor é confiar em suas imagens de água. Deixe Bell dizer o que quiser.”
— Bell — disse Odrade —, pensei que você aceitasse Duncan.
— Dentro de limites. — Definitivamente acusatória.
— Acho que devíamos ir para a nave — Sheeana falou com ênfase exigente. — Aqui não é lugar para esperar. Temos medo do que ela pode se tornar?
Tam e Sheeana viraram para a porta ao mesmo tempo como se o mesmo titereiro manipulasse seus cordões.
Odrade gostou da interrupção. A pergunta de Sheeana as alarmara. “O que poderia Murbella se tornar? Uma catalisadora, minhas Irmãs. Uma catalisadora.”
O vento as sacudiu quando saíram da Central e excepcionalmente Odrade apreciou o transporte por tubo. Andar a pé podia esperar por temperaturas mais amenas sem essa minitempestade açoitando seus mantos.
Quando estavam sentadas em um carro particular, Bellonda, mais uma vez, recomeçou seu estribilho acusatório. — Tudo o que ele faz pode ser camuflagem.
Mais uma vez, Odrade expressou o aviso Bene Gesserit tão repetido de limitar sua dependência de Mentats. — A lógica é cega e muitas vezes só conhece seu próprio passado.
Tamalane intrometeu-se, dando apoio inesperado: — Você está ficando paranóica, Bell!
Sheeana falou mais suavemente. — Ouvi você dizer, Bell, que lógica é bom para jogar xadrez de pirâmide, mas muitas vezes vagarosa demais para as necessidades de sobrevivência.
Bellonda ficou sentada em silêncio carrancudo, somente o rumor sibilante de sua passagem pelo tubo se introduzindo no sossego.
“As feridas não devem ser levadas para a nave.”
Odrade falou no mesmo tom que Sheeana: — Bell, querida Bell. Não temos tempo de considerar todas as ramificações de nossa situação. Não podemos mais dizer: “Se isso acontecer, então aquilo deve certamente suceder, e nesse caso devemos agir assim e assim e assim...”
Bellonda chegou a sorrir. — Oh, Céus! A mente comum é tão confusa. E não posso exigir o que precisamos e não podemos ter —
tempo suficiente para cada plano.
Era Bellonda-Mentat falando, dizendo-lhes que tinha uma falha de orgulho em sua mentalidade normal. Que lugar mal organizado, desarrumado era esse. “Imagine o que o Não-Mentat
tem de suportar, impondo tão pouca ordem.” Estendeu a mão pelo corredor e bateu no ombro de Odrade.
— Está tudo bem, Dar. Vou me comportar.
O que uma pessoa de fora pensaria vendo essa troca? —
pensou Odrade. Todas as quatro agindo em comum para o bem de uma Irmã.
“Para o bem da Agonia de Murbella, também.”
As pessoas só viam o lado de fora dessa máscara de Reverenda Madre que usavam.
“Quando precisamos (o que é a maior parte do tempo hoje em dia), funcionamos em níveis surpreendentes de competência.
Nenhum orgulho, nisso; um simples fato. Mas deixe-nos relaxar e ouvimos tagarelices incoerentes interferindo, como acontece com as pessoas comuns. Conosco só tem maior volume. Vivemos nossa vida em pequenas congéries como todo mundo. Compartimentos da mente, compartimentos do corpo.”
Bellonda havia se composto, mãos entrelaçadas no colo.
Sabia o que Odrade tinha planejado e ficaria quieta. Era uma confiança que ia além da Projeção Mentat, em algo mais basicamente
humano.
Projeção
era
um
instrumento
maravilhosamente adaptável, mas apenas um instrumento. No final, todos os instrumentos dependiam de quem os usasse. Odrade não sabia como demonstrar seu agradecimento sem reduzir a confiança.
“Tenho de andar em minha corda-bamba em silêncio.”
Sentiu o abismo abaixo dela, a imagem de pesadelo evocada por essas reflexões. A caçadora invisível com o machado estava mais perto. Odrade queria se virar e identificá-la, mas resistiu. “Não cometerei o erro do Muad’Dib!” A advertência presciente que sentira em Duna nas ruínas de Sietch Tabr não seria exorcizada até seu fim ou o fim da Irmandade. “Teria eu criado essa terrível ameaça pelos meus temores? Certamente que não!” Contudo, sentia que tinha encarado o Tempo naquela antiga cidadela Fremen como se todo o passado e o futuro estivessem congelados em um quadro que não podia ser mudado. “Tenho de me libertar de você completamente, Muad’Dib!”
A chegada à Plataforma de Aterrissagem a arrancou desse devaneio pavoroso.
Murbella aguardava em aposentos preparados pelas Instrutoras. No centro havia um pequeno anfiteatro cerca de sete metros ao longo da parede dos fundos. Bancos acolchoados seguiam-se em um arco ascendente, acomodando não mais que 20
observadoras. As Instrutoras a deixaram sem explicação no banco mais baixo, em frente de uma mesa flutuando em suspensores.
Correias estavam penduradas dos lados para confinar quem quer que estivesse nela.
“Eu.”
Uma série incrível de salas, pensou. Nunca tivera acesso a essa parte da nave. Sentia-se exposta aqui, muito mais do que sob o céu aberto. As salas menores que a tinham feito atravessar até chegar a esse anfiteatro eram obviamente destinadas a emergências médicas: equipamento de ressuscitação, odores sanitários, anti-sépticos.
Sua remoção para essa sala havia sido peremptória, nenhuma de suas perguntas respondida. As Instrutoras a haviam tirado de uma aula avançada de acólitas em exercícios prana-bindu.
Disseram apenas: — Ordens da Madre Superiora.
A qualidade de suas Instrutoras guardiãs revelava muito.
“Delicadas, mas firmes.” Estavam aqui para evitar a fuga e para garantir que fosse para onde era mandada. “Nada vou tentar fugir!”
Onde estava Duncan?
Odrade havia prometido que ele estaria com ela para a Agonia. Será que a ausência dele significava que essa não seria sua última prova? Ou o teriam escondido atrás de alguma parede secreta através da qual ele pudesse ver sem ser visto?
“Quero que ele esteja a meu lado!”
Não sabiam como governá-la? Claro que sim!
“Ameacem me privar desse homem. É só isso que é preciso para me segurar e me satisfazer. Satisfazer! Que palavra inútil.
Completar-me. Isso é melhor. Sou menos quando estamos separados. Ele sabe disso, também, diabos.”
Murbella sorriu. “Como ele sabe? Porque se sente completo da mesma maneira.”
Como isso poderia ser amor? Não se sentiu enfraquecida pela força do desejo. Tanto a Bene Gesserit quanto as Honradas Madres diziam que o amor enfraquecia. Ela se sentia fortalecida por Duncan. Mesmo os pequenos cuidados dele eram fortalecedores.
Quando lhe trazia uma xícara fumegante de stim-chá de manhã, era melhor vindo das mãos dele. “Talvez tenhamos uma coisa mais que amor.” Odrade e suas companheiras entraram no anfiteatro, na bancada mais alta, e ficaram de pé um pouco, olhando a figura sentada abaixo delas. Murbella vestia o manto debruado de branco de uma acólita sênior. Os cotovelos se apoiavam nos joelhos, a atenção se concentrava na mesa.
“Ela sabe.”
— Onde está Duncan? — Odrade perguntou.
A essas palavras, Murbella se levantou e virou. A pergunta confirmou o que ela desconfiava.
— Vou indagar — disse Sheeana, e saiu.
Murbella esperou em silêncio, não desviando os olhos de Odrade.“Tem de ser nossa”, pensou Odrade. Nunca a necessidade da Bene Gesserit havia sido maior. Que figura insignificante era Murbella lá embaixo, para levar tanto em sua pessoa. O rosto quase oval alargando-se nas têmporas revelava uma nova serenidade Bene Gesserit. Os olhos verdes espaçados, sobrancelhas arqueadas — nada de olhos semicerrados — nada de alaranjado.
Boca pequena — nada de beicinho.
“Ela está pronta.”
Sheeana voltou com Duncan a seu lado.
Odrade lançou um olhar para ele. “Nervoso.” Então Sheeana tinha lhe dito. “Bom.” Isso era um ato de amizade. Talvez ele precisasse de amigos aqui.
— Você vai sentar e permanecer aqui, a não ser que o chame — disse Odrade. — Fique com ele, Sheeana.