As Herdeiras de Duna
Folha de Rosto
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 16 partes.
Os pensamentos de Odrade voltaram-se para sua projetada visita ao deserto. Sheeana não deve ser avisada com antecedência.
“Preciso estar certa de que ela é a pessoa de que necessitamos.”
Havia perguntas que ela deveria responder.
Odrade sabia o que encontraria em suas inspeções durante o caminho. Nas Irmãs, na vida animal e vegetal, nas próprias bases da Sede da Irmandade, ela veria mudanças grandes e sutis, coisas que abalariam a decantada serenidade da Madre Superiora. Até mesmo Murbella, que nunca se ausentava da não-nave, percebia essas mudanças.
Esta manhã ainda, sentada de costas para sua mesa de comando, Murbella tinha ouvido Odrade, de pé à sua frente, com uma nova atenção. Havia uma vivacidade perspicaz na Honrada Madre cativa. Sua voz traía dúvidas e julgamentos desajustados.
— Tudo é transitório, Madre Superiora?
— Esse é um conhecimento impresso em você pela Outra Memória. Não há planeta, terra ou mar, ou parte de algum deles que esteja aqui para sempre.
— Um pensamento mórbido! — Rejeição.
— Onde quer que estejamos, somos apenas administradores.
— Um ponto de vista inútil. — Hesitante, questionando por que a Madre Superiora teria escolhido esse momento para dizer tais coisas. — Ouço as Honradas Madres falarem através de você. Elas lhe deram sonhos ambiciosos, Murbella.
— É o que você diz! — Profundamente ressentida.
— As Honradas Madres acham que podem comprar segurança infinita: um pequeno planeta, você sabe, com uma grande população subserviente.
Murbella fez uma careta.
— Mais planetas! — Odrade vociferou. — Sempre mais e mais! É por isso que elas voltam em atropelo.
— Pobre colheita neste Velho Império.
— Excelente, Murbella! Você está começando a pensar como uma de nós.
— E isso faz de mim um zero à esquerda.
— Nem isso nem aquilo, apenas seu eu verdadeiro? Mesmo aí, você é apenas administradora. Cuidado, Murbella! Pensar que se é dono de alguma coisa é como andar na areia movediça.
Essas palavras provocaram uma careta perplexa em Murbella. Algo precisava ser feito a respeito do modo como ela deixava transparecer as emoções. Ali, isso era permissível, mas algum dia...
— Então, não há nada que se possua com segurança. E
daí? — Muita amargura.
— Algumas de suas palavras são corretas, mas não acho que você tenha encontrado, dentro de si mesma, um lugar para ficar o resto da vida.
— Até que o inimigo me ache e me destrua?
“O treinamento das Honradas Madres adere como cola! Mas ela conversou com Duncan na outra noite de um jeito que me diz que está pronta.
O quadro de Van Gogh sensibilizou-a, eu acho. Percebi pela sua voz. Tenho de rever essa projeção.”
— Quem a destruiria, Murbella?
— Vocês nunca farão frente a um ataque das Honradas Madres! — Eu já declarei o fato básico que nos interessa: nenhum lugar é eternamente seguro.
— Outra de suas malditas lições inúteis!
Na sala das acólitas, Odrade lembrou-se de que não tinha tido tempo de rever a projeção dos televigias de Duncan e Murbella.
Quase lhe escapou um suspiro. Disfarçou-o com uma tosse. Nunca aja de modo a permitir que as jovens vejam qualquer perturbação na Madre Superiora.
“Ao deserto e Sheeana! Visita de inspeção assim que eu puder arranjar tempo para isso. Tempo!”
Novamente, a acólita sentada ao lado de Odrade pigarreou.
Odrade olhou perifericamente — loira, vestido curto, preto debruado de branco — Terceiro Estágio Intermediário. Nenhum movimento de cabeça em direção a ela, nenhum olhar de soslaio.
“Isso é o que vou encontrar em minhas visitas de inspeção: medos. E na paisagem, as coisas que sempre vemos quando ficamos sem tempo: árvores deixadas sem cortar porque os lenhadores foram embora — forçados, para a Dispersão, para o túmulo, ou talvez mesmo para os trabalhos de peonagem. Será que verei Fantasias arquitetônicas tornando-se atraentes por estarem incompletas devido à ausência dos construtores? Não, não somos dadas a Fantasias.”
A Outra Memória continha exemplos que ela desejava poder encontrar: antigas construções mais belas por estarem inacabadas.
A falência do construtor ou um proprietário brigado com a amante...
Algumas coisas eram mais interessantes por isso: velhos muros, velhas ruínas. O tempo como escultor.
“O que Bell diria se eu mandasse construir uma Fantasia no meu pomar favorito?”
A acólita ao lado de Odrade disse: — Madre Superiora?
“Excelente! Elas raramente reúnem coragem.”
— Sim? — Quase imperceptível. “É bom que seja importante.” Será que ela ouviria?
Ouviu. — Estou interferindo em função da urgência, e porque conheço seu interesse pelos pomares.
“Magnífico!” Essa acólita tinha pernas grossas, mas isso não se estendia à sua mente. Odrade olhou-a fixamente, em silêncio.
— Sou a pessoa que faz o mapa de seu quarto de dormir, Madre Superiora. Então esta era uma adepta confiável, alguém encarregado de trabalhar para a Madre Superiora. Melhor ainda.
— Terei logo o meu mapa?
— Em dois dias, Madre Superiora. Estou ajustando projeções em overlay, onde anotarei o crescimento diário do deserto.Um breve aceno. Essa tinha sido a ordem original: uma acólita para manter o mapa atualizado. Odrade queria acordar a cada manhã e ter sua imaginação inflamada por essa vista em mudança, a primeira coisa impressa em sua consciência ao despertar.
— Coloquei um relatório em seu gabinete esta manhã, Madre Superiora. Gerenciamento dos Pomares. Talvez não o tenha visto. Odrade tinha visto apenas a etiqueta. Vinha atrasada dos exercícios, ansiosa para a visita a Murbella. Tanta coisa dependia de Murbella!
— As plantações ao redor da Central devem ser abandonadas ou então é preciso que se tomem medidas para conservá-las — disse a acólita. — Esta é a essência do relatório.
— Repita-o palavra por palavra.
Caiu a noite e acenderam-se as luzes, enquanto Odrade ouvia. Conciso. Melhor ainda: direto e sutil. Trazia, além disso, uma nota de admoestação que Odrade reconheceu como de Bellonda.
Não havia assinatura dos Arquivos, mas os avisos da Meteorologia passavam por eles, e a acólita tinha usado algumas das palavras originais.
Concluído o relatório, a acólita ficou silenciosa.
“Que devo responder?” Os pomares, as pastagens e as vinhas não eram meros pára-choques contra a intromissão de estranhos, decoração agradável na paisagem. Eram um suporte para as mesas e para o moral da Sede.
“Um suporte para o meu moral.”
Com que tranqüilidade essa acólita esperava. Cabelo loiro ondulado e face redonda. Fisionomia agradável, embora a boca fosse larga. Havia comida no prato, mas ela não comia. Mãos dobradas no regaço. — Estou aqui para servi-la, Madre Superiora.
Enquanto Odrade compunha sua resposta, a memória interferiu — um antigo incidente em simulfluxo sobre as observações imediatas. Lembrou-se de seu curso de treinamento de ornitóptero. “Duas alunas acólitas ao meio-dia, sobre as terras úmidas de Lâmpadas.” Ela fazia par com a pior acólita que poderia ser aceita pela Irmandade. Obviamente uma escolha de gene. As Mestras Procriadoras desejavam-na por alguma característica a ser passada aos descendentes. “Com certeza não era equilíbrio emocional ou inteligência!” Odrade lembrava-se de seu nome: Linchine.
Linchine tinha gritado ao instrutor: — Vou pilotar este maldito tóptero!E o tempo todo, o céu e a paisagem de árvores e praias pantanosas rodopiavam em turbilhão, deixando-as atordoadas. “Era como parecia: nós duas paradas e o mundo girando.” Linchine fazendo a coisa errada a todo momento. Cada movimento criava mais e piores voltas.
O instrutor tirou-a fora do sistema desligando a chave que só ele podia alcançar. Ele não pronunciou palavra até que estivessem voando direto e em nível.
— Nunca mais vai pilotar isto, jovem. Nunca mais! Não tem as reações corretas. Elas têm que ser treinadas antes da puberdade em pessoas como você.
— Vou, sim! Vou, sim! Vou pilotar essa coisa maldita. —
Suas mãos agarravam-se convulsivamente aos inúteis controles.
— Não merece confiança, moça. Vai ficar retida em terra.
Odrade respirou aliviada, compreendendo que soubera o tempo todo que Linchine poderia matá-los.
Atropelando-se em direção a Odrade no banco de trás, Linchine gritava: — Diga-lhe! Diga-lhe que deve obedecer a uma Bene Gesserit!
Referia-se ao fato de que Odrade, vários anos à sua frente, exibia uma presença de comando.
Odrade sentou-se em silêncio, com as feições imóveis.
“O silêncio é a melhor coisa para se dizer”, alguma humorista Bene Gesserit tinha rabiscado num espelho de lavatório. Odrade achara um bom conselho naquela ocasião e em outras.
Lembrando-se da necessidade de responder à acólita na sala de refeições, Odrade se perguntou por que a antiga memória teria surgido. Essas coisas raramente aparecem sem um propósito. “Não o silêncio, agora, com certeza. Humor?” Sim! Essa era a mensagem. Odrade com seu humor (usado mais tarde) tinha ensinado a Linchine algo sobre si mesma. “Humor sob estresse.”
Odrade sorriu para a acólita a seu lado no refeitório. — Você gostaria de ser um cavalo?
— O quê? A resposta escapou, revelando surpresa, mas ela respondeu ao sorriso da Madre Superiora. Não havia nada de alarmante nele. Era até mesmo caloroso. Todos diziam que a Madre Superiora permitia-se afeições.
— Você não entende, naturalmente — Odrade disse.
— Não, Madre Superiora. — Ela estava ainda sorridente e tranqüila. Odrade deixou que seu olhar se detivesse no rosto jovem de modo indagador. Claros olhos azuis ainda intocados pela cor engolfante da Agonia da Especiaria. Uma boca quase como a de Bell, mas sem a maldade da outra. Músculos confiáveis, assim como a inteligência. Ela seria eficiente em antecipar as
necessidades da Madre Superiora. Prova disso era sua tarefa de mapeamento e esse relatório. Sensível. Estava de acordo com sua inteligência superior. Provavelmente não chegaria às posições máximas, mas estaria sempre nas posições principais, onde suas qualidades fossem necessárias.
“Por que me sentei a seu lado?”
Freqüentemente Odrade selecionava uma determinada companhia nessas visitas ao refeitório. Quase sempre acólitas. Elas podiam ser tão reveladoras. Os relatórios sempre chegavam ao gabinete da Madre Superiora: observações das Instrutoras a respeito de uma ou outra acólita. Mas, às vezes, Odrade escolhia um lugar sem uma razão aparente. “Como fiz esta noite. Por que esta?” A conversação raramente ocorria, a menos que a Madre Superiora a provocasse. Geralmente uma iniciação suave, facilitando uma abordagem de outros assuntos mais íntimos. Os outros ao redor ouviam atentamente.
Nesses momentos, Odrade quase sempre assumia uma atitude de serenidade quase religiosa. Isso acalmava os nervosos.
Acólitas eram.... bem, acólitas, mas a Madre Superiora era a feiticeira suprema de todas elas. O nervosismo era natural.
Alguém atrás de Odrade sussurrou: — Hoje ela chamou Streggi às falas. “Chamar às falas.” Odrade conhecia a expressão.
Era usada em seus tempos de acólita. Então Streggi era o seu nome. “Vamos deixá-lo impronunciado, por enquanto. Os nomes têm uma certa magia.”
— Gostou de jantar hoje? — Odrade perguntou.
— Está aceitável, Madre Superiora. — Era de praxe que não se dessem falsas opiniões, mas Streggi estava confusa pela mudança na conversação.
— Cozinharam demais — disse Odrade.
— Servindo uma quantidade tão grande de pessoas, como poderiam agradar a todas, Madre Superiora?
“Ela fala o que pensa, e fala bem.”
— Sua mão esquerda está tremendo — Odrade disse.
— Estou nervosa com sua presença, Madre Superiora. E
acabo de vir das práticas. Hoje foi muito cansativo.
Odrade analisou os tremores. — Eles a estão fazendo praticar a elevação do braço.
— Era doloroso no seu tempo, Madre Superiora? (Naqueles velhos tempos?)
— Tanto quanto hoje. A dor ensina, elas diziam.
Isso suavizava as coisas. Experiências compartilhadas, o jargão das Instrutoras.
— Não entendo de cavalos, Madre Superiora. — Streggi olhou para seu prato. — Isto não pode ser carne de cavalo. Tenho certeza que...
Odrade riu alto, atraindo olhares espantados. Ela colocou a mão no braço de Streggi e limitou-se a um sorriso suave. —
Obrigada, querida. Ninguém me fez rir assim em muitos anos.
Espero que este seja o início de uma longa e feliz associação.
— Obrigada, Madre Superiora, mas eu...
— Vou explicar a respeito do cavalo, uma piada minha, sem nenhuma intenção de diminuí-la. Quero que você carregue uma criança em seus ombros, para transportá-la mais rápido do que suas pernas a levariam.
— Como quiser, Madre Superiora. — Sem objeções, nem outras perguntas. Perguntas havia, mas as respostas viriam a seu tempo, e Streggi sabia disso.
“Tempo mágico.”
Retirando a mão, Odrade disse: — Seu nome?
— Streggi, Madre Superiora. Aloana Streggi.
— Fique descansada, Streggi. Vou tomar providências em relação aos pomares. Precisamos deles não só para a alimentação, mas também para manter o moral. Dirija-se ao Reescalonamento esta noite. Diga-lhes que desejo que esteja em meu gabinete às 6h, amanhã de manhã.
— Estarei lá, Madre Superiora. Devo continuar marcando seu mapa? — perguntou ela, quando Odrade se levantou para sair.
— Por enquanto, Streggi. Mas solicite ao Reescalonamento uma nova acólita e comece a treiná-la. Muito em breve você estará
ocupada demais para cuidar do mapa.
— Obrigada, Madre Superiora. O deserto está se desenvolvendo muito depressa.
As palavras de Streggi deram a Odrade uma certa satisfação, dissipando a melancolia que tinha toldado a maior parte de seu dia.
O ciclo estava conseguindo uma outra oportunidade, voltando uma vez mais como era impelido a fazê-lo pelas forças subterrâneas chamadas “vida”, “amor” e outros rótulos desnecessários.
“Então ele se modifica. Ele se renova. Mágica. Que bruxaria poderia tirar-lhe a atenção deste milagre?”
Em seu gabinete, ela emitiu uma ordem para a Meteorologia, então silenciou os instrumentos em seu escritório e dirigiu-se para a janela em arco. A Sede da Irmandade brilhava num vermelho pálido dentro da noite, através das luzes da terra contra as nuvens baixas.
Dava uma aparência romântica aos telhados e muros, mas Odrade prontamente a rejeitou.
Romance? Não havia nada de romântico no que ela tinha feito no refeitório das acólitas.
“Eu o fiz, finalmente. Comprometi-me. Agora, Duncan deve recuperar as memórias de nosso Bashar. Uma tarefa delicada.”
Ela continuou a olhar fixamente a noite, suprimindo os nós que sentia no estômago.
“Não apenas estou me comprometendo, como comprometo o que resta de minha Irmandade. Então é assim que a gente se sente, Tar.” “E assim que a gente se sente e seu plano é astucioso.”
Ia chover. Odrade sentiu-o no ar, vindo dos ventiladores em volta da janela. Não era preciso ler um relatório da Meteorologia, o que ela raramente fazia atualmente. Por que se incomodar? Mas o relatório de Streggi trazia um aviso importante.
As chuvas estavam se tornando mais raras aqui, e eram consideradas uma boa coisa. As Irmãs saíam em caminhada debaixo da água, a despeito do frio. Havia um toque de tristeza no pensamento. Cada chuva que ela via trazia a mesma pergunta:
“Será a última?”
As pessoas da Meteorologia faziam verdadeiros milagres para manter um deserto em expansão seco, e as áreas de plantação irrigadas. Odrade não sabia como tinham conseguido aquela chuva para cumprir suas ordens. Daqui a pouco tempo, não poderiam obedecer a comandos desse tipo, mesmo vindos da Madre Superiora. “O deserto triunfará, porque isso é o que pusemos em movimento.”
Ela abriu as vidraças centrais de sua janela. O vento nesse nível tinha parado. Apenas as nuvens moviam-se lá em cima.
Ventos mais altos devastando as coisas. Um sentido de urgência no tempo. O ar estava gelado. Então elas tinham feito ajustes de temperatura para conseguir esse pouco de chuva. Fechou a janela, não sentindo vontade de ir lá fora. A Madre Superiora não tinha tempo de jogar o jogo da última chuva. Uma chuva de cada vez. E
sempre, lá fora, o deserto movendo-se inexoravelmente em direção a elas.“Isso eu posso mapear e observar. Mas, e a caçadora atrás de mim — a figura do pesadelo com o machado? Qual é o mapa que me diz onde ela está hoje à noite?”
A religião (emulação dos adultos pela criança) compreende mitologias passadas: especulações, pressupostos ocultos de confiança no universo, pronunciamentos feitos na busca de poder pessoal, tudo isso combinado com fragmentos de iluminação. E
sempre um mandamento não formulado: Vão perguntar ás!
Quebramos esse mandamento diariamente na subordinação da imaginação humana à nossa criatividade mais profunda.
— Credo Bene Gesserit
Murbella sentou-se de pernas cruzadas na sala de exercícios, sozinha, remendo depois da prática. A Madre Superiora tinha estado ali menos que ia hora, essa tarde. E, como quase sempre acontecia, Murbella sentia que fora abandonada num sonho febril.
As últimas palavras de Odrade, antes de partir, reverberavam no sonho: ^ lição mais difícil para uma acólita é que ela deve sempre atingir seu limite. Suas capacidades a conduzirão além do que imagina. Portanto, não imagine. Estenda-se.”
“Qual é minha resposta? Que fui ensinada a enganar?”
Odrade tinha feito alguma coisa para trazer à lembrança os padrões da infância e a educação das Honradas Madres. “Aprendi a enganar quando criança. Como simular uma necessidade e conseguir atenção.” Muitos “como se faz” no modelo de enganar. Ela aprendera que as pessoas grandes i sua volta eram exigentes. “Eu regurgitei na exigência. Isso era chamado de educação.” O que havia de tão notavelmente diferente no ensinamento Bene Gesserit?
— Não lhe peço para ser honesta comigo — dissera Odrade.
— Seja honesta consigo mesma.
Murbella estava perdendo a esperança de algum dia arrancar toda essa mentira de seu passado. “Por que o faria?” Mais mentira!
— Maldita Odrade!
Somente depois que as palavras tinham sido ditas é que percebeu que falara em voz alta. Começou a pôr a mão na boca, mas abortou o movimento. A febre dizia: — Que diferença faz?
— As burocracias educacionais embrutecem a sensibilidade indagadora da criança — era a explicação de Odrade. — Os jovens
devem ser sufocados. Nunca os deixe serem tão bons quanto poderão ser. Isso provoca mudanças. Gaste bastante tempo em reuniões discutindo como lidar com alunos excepcionais. Não perca tempo preocupando-se com o fato de que o professor convencional se sente ameaçado pelos talentos que surgem, e os esmaga em função de um arraigado desejo de se sentir superior e seguro num ambiente que não ofereça perigo.
“Ela estava falando das Honradas Madres.”
“Professores convencionais?”
Aí estava: por trás da fachada de sabedoria, as Bene Gesserit eram naturais, sem cerimônia. Elas quase nunca pensavam sobre a maneira de ensinar: elas simplesmente o faziam.
“Deuses! Quero ser como elas!”
O pensamento a chocou, e ela levantou-se de um pulo, lançando-se num treinamento de braço e pulso.
A compreensão atingiu-a mais profundamente que nunca.
Não desejava desapontar estas professoras. “Honestidade e franqueza.” Todas as acólitas ouviam isso. — Instrumentos básicos de aprendizagem — dizia Odrade.
Distraída por seus pensamentos, Murbella levou um tombo e levantou-se, esfregando o ombro machucado.
Tinha pensado de início que o protesto Bene Gesserit devia ser uma mentira. “Estou sendo tão franca com você que preciso contar-lhe da minha inabalável honestidade.”
Mas as ações confirmaram suas alegações. A voz de Odrade persistia no sonho febril: — É assim que você julga.
Elas tinham algo na mente, na memória, e um equilíbrio intelectual que nunca uma Honrada Madre havia possuído. Esse pensamento a fez sentir-se pequena. “Torne-se corrupta.” Era como a existência de lugares mais vivos em seus pensamentos febris.
“Mas eu tenho talento! É preciso talento para ser uma Honrada Madre.”
“Ainda me considero uma Honrada Madre?”
As Bene Gesserit sabiam que ela não estava inteiramente comprometida com a Irmandade. “Que habilidades terei eu, para que elas se interessem? Não as habilidades de enganar.”
“As ações combinam com as palavras? Existe a sua medida de confiabilidade. Nunca se limite às palavras.”
Murbella pôs as mãos no ouvido. “Cale a boca, Odrade!”
“Como uma Reveladora da Verdade separa sinceridade de um julgamento mais fundamental?”
Murbella deixou cair as mãos. “Talvez eu esteja realmente doente.’ Lançou o olhar por toda a extensa sala. Não havia ninguém que pronunciasse essas palavras. De qualquer modo, era a voz de Odrade.“Se você estiver sinceramente convencida, pode usar um mero palavrório (que palavra antiga maravilhosa; procure-a no dicionário), uma asneira completa e será acreditada. Mas não por uma das nossas Reveladoras da Verdade.”
Os ombros de Murbella curvaram-se. Começou a andar sem direção pela sala de exercícios. Não havia lugar para fugir?
“Procure as conseqüências, Murbella. É assim que se descobrem as coisas que funcionam. É disso que tratam nossas elevadas verdades.”
“Pragmatismo?”
Idaho encontrou-a nesse momento, e reagiu ao brilho selvagem de seus olhos. — O que foi?
— Acho que estou doente. Bem doente. Pensei que fosse algo que Odrade tinha feito comigo, mas...
Ele segurou-a quando ela tombou.
— Ajudem-nos!
Pela primeira vez era grato aos televigias. Em menos de um minuto uma médica Suk estava com eles. Ela curvou-se sobre Murbella no local em que Idaho a tinha colocado, no chão.
O exame foi breve. A Suk, uma grisalha Reverenda Madre com a marca tradicional do diamante na testa, endireitou-se e disse:
— Esgotamento. Ela não está procurando encontrar seus limites, ela os está ultrapassando. Nós a poremos de volta numa classe de sensibilização antes de permitir que continue. Enviarei as Instrutoras.
Odrade encontrou Murbella na Enfermaria das Instrutoras naquela noite, reclinada na cama, com duas Instrutoras se
revezando para testar sua resposta muscular. Ante um pequeno gesto, deixaram-nas sozinhas.
— Tentei evitar complicações — disse Murbella. “Franqueza e honestidade.”
— Tentar evitar complicações geralmente cria outras. —
Odrade afundou-se numa cadeira ao lado da cama, e pôs a mão sobre o braço de Murbella. Os músculos tremiam sob sua mão. —
Dizemos que as palavras são vagarosas, o sentimento é mais rápido. — Odrade recuou. — Que decisões andou tomando?
— Vocês permitem que eu tome decisões?
— Não seja sarcástica. — Ela ergueu a mão pára impedir qualquer interrupção. — Não levei seu condicionamento anterior em bastante consideração. As Honradas Madres deixaram-na praticamente incapaz de tomar decisões. Isso é típico de sociedades que têm fome de poder. Ensinam as pessoas a hesitarem eternamente. “As decisões trazem maus resultados” — é o que dizem. Ensinam a omissão.
— O que isso tem a ver com o meu colapso? —
Ressentimento.
— Murbella! Os piores produtos do que eu estou descrevendo são quase casos únicos — não conseguem tomar decisões sobre o que quer que seja, ou deixam tudo para o último minuto, e então lançam-se sobre as soluções como animais desesperados.
— Você me disse que procurasse alcançar meus limites! —
Quase choramingando.
— Seus limites, Murbella. Não os meus. Não os de Bell ou de qualquer outra. Os seus.
— Decidi que desejo ser como vocês. — Muito débil.
— Maravilhoso! Mas não acho que alguma vez tentei matar-me. Principalmente quando estava grávida.
Murbella sorriu, a despeito de si mesma.
Odrade levantou-se. — Durma. Você vai para uma classe especial amanhã, onde trabalharemos sobre sua capacidade de entrosar suas decisões com a sensibilidade a seus limites. Lembre-se do que eu lhe disse: nós nos cuidamos.
— Pertenço a vocês? — Quase um sussurro.
— Desde que repetiu o juramento diante das Instrutoras. —
Odrade desligou as luzes quando saiu. — Parem de incomodá-la.
Ela precisa descansar.
Murbella fechou os olhos. O sonho febril tinha desaparecido, mas em seu lugar estava sua própria memória. — Sou uma Bene Gesserit. Existo apenas para servir.
Ouviu-se dizendo essas palavras às Instrutoras, mas a memória dava-lhes uma ênfase que não existira na situação original.
“Elas sabiam que eu estava sendo cínica.”
O que se poderia esconder dessas mulheres?
Sentiu a mão da Instrutora em sua testa, na recordação, e ouviu as palavras que somente agora adquiriam significado.
“Estou na sagrada presença humana. Como eu, que você também esteja um dia. Suplico à sua presença que assim seja. Que o futuro permaneça incerto, porque ele é a tela que receberá nossos desejos. Portanto, a condição humana se defronta com sua eterna tabula rasa. Não possuímos mais que este momento, onde nos dedicamos continuamente à sagrada presença que compartilhamos e criamos.”
Convencional, mas ao mesmo tempo não convencional.
Compreendeu que não tinha sido preparada física ou emocionalmente para este momento. Lágrimas escorreram-lhe pelas faces.
As leis repressoras tendem a fortalecer aquilo que proíbem.
Esse é o ponto essencial onde todas as profissões legais da História basearam sua segurança de trabalho.
— O Coda Bene Gesserit
Em suas agitadas visitas de inspeção através da Central (não muito freqüentes, hoje em dia, mas justamente por isso, mais intensas), Odrade procurava sinais de negligência e, especialmente, áreas de responsabilidade que estavam funcionando com exagerada suavidade.
A Vigilante Maior tinha seu próprio lema: — Mostrem-me uma operação completamente sem problemas e eu lhes apontarei alguém que está encobrindo erros. Os verdadeiros barcos oscilam.
Ela repetia isso com freqüência, a tal ponto que se tornou uma frase que as Irmãs (e mesmo algumas acólitas) usavam para identificá-la.
— Os verdadeiros barcos oscilam. — Risinhos surdos.
Bellonda acompanhava Odrade nessa inspeção matinal de hoje, sem mencionar que “uma vez por mês” tinha se tornado “uma vez a cada dois meses”, se tanto. Esta já estava atrasada em uma semana. Bell queria usar esse tempo para preveni-la contra Idaho. E
trouxera Tamalane consigo, embora Tam devesse estar examinando o desempenho das Instrutoras nesse momento.
“Duas contra uma?”, Odrade pensou. Achava que nem Bell nem Tam suspeitavam do que a Madre Superiora pretendia. Bem, isso viria à tona, como tinha acontecido com o plano de Taraza. “A seu próprio tempo, hein, Tar?”
E assim elas iam pelos corredores, seus mantos negros num ruge-ruge de urgência, e olhos perspicazes aos quais quase nada escapava. Tudo era familiar, mas mesmo assim elas procuravam o que era novo. Odrade levava seu receptor Áudio-V pendente do ombro esquerdo, como se fosse um peso de mergulho fora do lugar.
“Nos dias de hoje não se pode estar nunca fora do alcance da comunicação.”
Nos bastidores de qualquer centro Bene Gesserit estavam as instalações de apoio: hospital clínico, cozinha, necrotério, controle do lixo, sistemas de recuperação (ligados aos esgotos e ao lixo), transportes e comunicações, abastecimento da cozinha, salas de educação física, escolas para acólitas e postulantes, alojamentos pessoais para todas, centros de reunião, instalações para testes e muito mais. O pessoal mudava muitas vezes, em função da Dispersão e do movimento para novas responsabilidades, tudo conforme a sutil consciência Bene Gesserit. Mas permaneciam as tarefas e os lugares para todos.
Enquanto caminhavam rapidamente em passos largos, de uma área para outra, Odrade falava da Dispersão da Irmandade, sem tentar esconder seu desalento a respeito da “família atômica”
em que haviam se transformado.
— Acho difícil contemplar a humanidade espalhando-se em um universo ilimitado — disse Tam. — As possibilidades...
— O jogo dos números infinitos. — Odrade pisou numa guia quebrada. — Isso deve ser consertado. Estamos jogando o jogo do infinito desde que aprendemos a transpor as Dobras do Espaço.
Não havia alegria no tom de Bellonda. — Não é um jogo!
Odrade podia avaliar os sentimentos de Bellonda. “Nós nunca vimos o espaço vazio. Sempre outras galáxias. Tam está certa. É
assustador focalizar o Caminho Dourado!”
Recordações de explorações deram à Irmandade um instrumento estatístico, mas pouco mais que isso. Tantos planetas habitáveis num grupo e, entre eles, um inesperado número adicional, que podia ser formado de terra.
— O que está evoluindo lá fora? — Tamalane interpelou.
Uma pergunta que elas não podiam responder. Pergunte o que o Infinito pode produzir, e a única resposta possível é: qualquer coisa. “Qualquer bem, qualquer mal, qualquer deus, qualquer demônio.”
— E se as Honradas Madres estiverem fugindo de alguma coisa? — Odrade perguntou. — Não é uma possibilidade interessante?
— Essas especulações são inúteis — resmungou Bellonda.
— Não sabemos nem mesmo se as Dobras do Espaço nos introduzem em um universo ou muitos... ou até mesmo um número infinito de bolhas que se expandem e se contraem.
— O Tirano teria conseguido entender isso melhor do que nós? — Tamalane perguntou.
Elas pararam, enquanto Odrade observava uma sala onde cinco Acólitas Adiantadas e uma Instrutora estudavam uma projeção de estoques regionais de melange. O cristal que transmitia a informação realizava uma intrincada dança no projetor, saltando sobre seu raio como uma bola na fonte. Odrade viu o resumo final e afastou-se antes de franzir a testa. Tam e Bell não viram a expressão da Madre Superiora. “Teremos de começar a restringir o acesso às informações sobre melange. São por demais deprimentes.”
“Administração!” Tudo caía em cima da Madre Superiora.
Quando se delega excessivamente às mesmas pessoas, o resultado é a burocracia.
Odrade sabia que dependia demasiado de seu senso interior de administração. Um sistema testado e revisado, que usava a automação apenas onde era essencial. “A maquinaria”, era como elas o chamavam. À época em que se tornavam Reverendas Madres, todas elas possuíam uma certa sensibilidade em relação à
“maquinaria” e tendiam a usá-la sem questionamentos posteriores.
Era aí que estava o perigo. Odrade fazia pressão para que fizessem um aperfeiçoamento constante (até mesmo pequenas melhoras), afim de introduzir mudança em suas atividades. Imprevisibilidade.
Nada de padrões absolutos que os outros pudessem descobrir e
usar contra elas. Podia-se não ver tais mudanças no período de uma vida, mas, ao longo de espaços de tempo maiores, as diferenças com certeza seriam mensuráveis.
O grupo desceu para o térreo, ao nível da principal via pública da Central. As Irmãs chamavam-na de “O Caminho”.
Tratava-se de uma piada, entre elas, referindo-se ao regime de treinamento popularmente conhecido como “O Caminho Bene Gesserit”.
O Caminho estendia-se da praça ao lado da torre de Odrade até os arrabaldes ao sul da área urbana — direto como um raio de arma laser, quase 12km de edifícios altos e baixos. Estes últimos tinham uma coisa em comum: eram bastante sólidos, visando uma possível expansão vertical.
Odrade fez sinal a um transporte aberto, com lugares vagos, e as três acomodaram-se num espaço onde podiam continuar a falar. A Fachada ostentada no Caminho tinha um apelo antigo, Odrade pensou. Edifícios como esses, com suas altas janelas retangulares de plaz isolante enquadravam os “Caminhos” Bene Gesserit durante longos períodos da história da Irmandade. No centro havia uma fileira de olmos geneticamente programados em função da altura e do perfil estreito. Os pássaros aí faziam seus ninhos, e as manhãs tornavam-se radiantes com movimentos esvoaçantes em vermelho e laranja — papa-figos e sanhaços.
“A preferência por este cenário familiar seria um padrão perigoso para nós?”
O grupo desceu na Trilha do Biriteiro, com Odrade na dianteira pensando como o humor Bene Gesserit se evidenciava em nomes curiosos. Nas ruas, então, o tom brincalhão sobressaía.
Trilha do Biriteiro porque a fundação de um dos edifícios tinha baixado levemente, dando à estrutura a aparência curiosa de um bêbado. O único elemento do grupo pisando fora da linha.
“Como a Madre Superiora. Só que elas ainda não sabem.”
Seu receptor tocou quando elas chegavam à Alameda da Torre. — Madre Superiora? — Era Streggi. Sem parar, Odrade deu sinal de que estava na linha. — A senhora pediu um relatório sobre
Murbella. A Central Médica disse que ela já está pronta para recomeçar as aulas.
— Encaminhe-a, então. — Continuaram rua abaixo: só construções de um andar.
Odrade lançou um olhar rápido para os edifícios baixos de ambos os lados. Estava sendo construído um segundo andar num deles. Poderia haver uma verdadeira Alameda da Torre aqui um dia, e a piada que existia a respeito seria esquecida.
Argumentava-se que dar nomes era, de qualquer modo, apenas uma questão de conveniência, e elas poderiam aproveitar a oportunidade para tratar de um assunto que era delicado para a Irmandade.
Odrade parou abruptamente numa passagem movimentada e virou-se para as companheiras. — O que acham da sugestão de darmos nomes de nossas Irmãs falecidas às ruas e às praças?
— Você está cheia de tolices, hoje — acusou Bellonda.
— Elas não estão mortas — disse Tamalane.
Odrade retomou a inspeção. Ela antecipara essa reação. Os pensamentos de Bell podiam quase ser ouvidos. “Trazemos as
‘Irmãs Falecidas’ conosco na Outra Memória!”
Odrade não queria nenhuma discussão em público, mas achava que a idéia tinha mérito. Algumas Irmãs morriam sem Compartilhar. As Linhas de Memória principais eram multiplicadas, mas perdia-se o fio e sua conclusão na carreira. Schwangyu, da Fortaleza de Gammu, tinha ido dessa forma, morta pelo assalto das Honradas Madres. Ficou uma série de lembranças, que lembravam suas boas qualidades... e complexidades. Hesitava-se em dizer que seus erros ensinavam mais que seus sucessos.
Bellonda acelerou o passo para acompanhar Odrade, numa reta relativamente vazia. — Preciso falar-lhe sobre Idaho. Um Mentat, sim, mas essas múltiplas memórias... Extremamente perigosas!
Estavam passando por um necrotério, e sentiram o cheiro forte de anti-sépticos, mesmo na rua. A porta em arco estava aberta.
— Quem morreu? — Odrade perguntou, ignorando a ansiedade de Bellonda.
— Uma Instrutora da Seção Quatro e um homem da manutenção de pomares — disse Tamalane. Tam sempre sabia.
Bellonda estava furiosa por ser ignorada, e não fazia nenhuma tentativa para escondê-lo. — Não fuja do assunto!
— Qual é o assunto? — O tom de Odrade era muito brando.
Emergiram no terraço sul e pararam num parapeito de pedra, a fim de olhar as plantações — vinhas e pomares. A luz da manhã tinha um nevoeiro empoeirado, em nada semelhante às névoas criadas pela umidade.
— Você sabe qual é! — Bellonda não se dobrava.
Odrade examinava o panorama, pressionando o corpo contra as pedras. O parapeito estava gelado. Esse nevoeiro lá fora tinha uma cor distinta, pensou. A luz do sol atravessava a poeira com um diferente espectro reflexivo. Havia mais radiância e nitidez na luz, absorvida de um modo que não era habitual. Os nimbos estavam mais cerrados. A poeira e a areia que sopravam insinuavam-se nas frinchas da mesma forma que a água, mas o rangido áspero e rascante traíam sua origem. O mesmo para a persistência de Bell.
Nenhuma lubrificação.
— É a luz do deserto — Odrade apontou.
— Pare de me evitar — Bellonda disse.
Odrade preferiu não responder. A luz poeirenta era algo clássico, mas não tranqüilizador como os antigos pintores e suas névoas matinais.
Tamalane aproximou-se de Odrade. — Belo, a seu próprio modo. — O tom remoto denunciava comparações com a Outra Memória semelhantes às de Odrade.
“Se é dessa forma que se foi condicionado a procurar a beleza.” Mas alguma coisa bem dentro de Odrade dizia-lhe que essa não era a beleza pela qual ansiava.
Na rasa planície abaixo, onde uma vez houvera vegetação, havia agora seca, e uma impressão de que a terra estava sendo esvaziada do modo como os antigos egípcios preparavam seus mortos — secos quanto à matéria essencial, preservados para a Eternidade. “O deserto como o senhor da morte, enfaixando a terra
em carbonato de sódio, embalsamando nosso belo planeta com todas as suas jóias escondidas.”
Bellonda permaneceu atrás, resmungando e sacudindo a cabeça, numa recusa a olhar para aquilo em que seu planeta se transformaria.
Odrade quase estremeceu num repentino ímpeto de simulfluxo. A memória inundou-a: viu-se procurando as ruínas de Sietch Tabr, encontrando corpos de piratas de especiaria embalsamados pelo deserto, deixados onde os assassinos os tinham derrubado.
“O que é Sietch Tabr agora? Uma torrente solidificada e sem nenhuma marca de sua orgulhosa história. Honradas Madres: assassinas da História.”
— Se você se recusa a eliminar Idaho, então devo protestar contra o fato de usá-lo como um Mentat.
Bell era uma mulher tão difícil! Odrade notou que ela estava mostrando sua idade mais do que nunca. Usando óculos para ler, mesmo agora. Eles aumentavam seus olhos, dando-lhe a aparência de um peixe de grandes órbitas. O uso de óculos, e não uma prótese mais discreta, revelava algo sobre ela. Ostentava uma vaidade ao contrário, que anunciava: sou maior do que as exigências de meus sentidos enfraquecidos.
Bellonda estava definitivamente irritada com a Madre Superiora. — Por que está me olhando dessa forma?
Odrade, surpreendida pela consciência súbita de uma fraqueza em seu Conselho, desviou a atenção para Tamalane. A carruagem nunca pára de crescer: orelhas, nariz e queixo tinham aumentado em Tam. Algumas Reverendas Madres corrigiam essas manifestações pelo controle de metabolismo ou através de cirurgia corretiva regular. Mas Tam não se curvaria a essa vaidade. “Sou desse jeito. É pegar ou largar.”
“Minhas conselheiras são velhas demais. E eu... eu deveria ser mais jovem e mais forte para ter esses problemas sobre meus ombros. Oh, maldição. Estou escorregando para a autopiedade!”
Apenas um perigo supremo: ação contra a sobrevivência da Irmandade.
— Duncan é um magnífico Mentat — Odrade falou com toda a força de sua posição. — Mas não utilizo nenhum de vocês além de suas capacidades.
Bellonda permaneceu silenciosa. Conhecia os pontos fracos de um Mentat.
“Mentats!” Odrade pensou. Eram como Arquivos ambulantes, mas quanto mais se precisava de respostas, eles recaíam em perguntas.
— Não preciso de outro Mentat — disse Odrade. — Preciso de um inventor!
Como Bellonda ainda permanecesse silenciosa, Odrade continuou: — Estou libertando sua mente, não seu corpo.
— Insisto em uma análise, antes que você abra todas as fontes de informações para ele!
Considerando a postura habitual de Bellonda, sua reação foi suave. Mas Odrade não confiava nela. Detestava essas sessões —
intermináveis apresentações de relatórios dos Arquivos. Bellonda explicava-os meticulosamente. Bellonda e suas minúcias dos Arquivos e amaçante insistência sobre detalhes irrelevantes! Quem estava interessado na preferência da Reverenda Madre X por leite desnatado em seu mingau?
Odrade voltou-lhe as costas e olhou para o céu do sul.
“Poeira! Ainda teríamos que peneirar mais poeira!” Bellonda estaria flanqueada por assistentes. Odrade sentia-se entediada só de pensar. — Nada de mais análises — Odrade falou mais asperamente do que pretendia.
— Tenho um ponto de vista — a voz de Bellonda soava magoada. “Ponto de vista? Não somos nada mais que janelas sensíveis em nosso universo, cada uma com apenas um ponto de vista?”Instintos e lembranças de todos os tipos... até mesmo Arquivos — nenhuma destas coisas falava por si, a não ser por intrusões constrangedoras. Ninguém carregava peso até que fosse formulado numa consciência viva. Mas quem quer que fizesse a formulação pesava na balança. “Toda ordem é arbitrária!” Por que
esta informação, ao invés de outra? Qualquer Reverenda Madre sabia que os acontecimentos ocorriam em seu próprio fluxo, seu próprio ambiente relativo. Por que uma Reverenda Madre Mentat não poderia agir a partir desse conhecimento?
— Você recusa conselho? — Era Tamalane. Será que ela está aliada a Bell?
— Quando foi que recusei conselho? — Odrade deixou transparecer sua indignação. — O que estou recusando é outro carrossel dos Arquivos de Bell.
Bellonda interferiu. — Então, na realidade...
— Bell! Não me fale de realidade! — Ela que se rale por isso!
Reverenda Madre e Mentat! “Não há realidade. Somente sua ordem imposta a tudo. Um ditado básico Bene Gesserit.”
Havia vezes (e esta era uma delas) em que Odrade desejaria ter nascido numa era mais primitiva — uma matrona romana na prolongada paz dos aristocratas, ou uma vitoriana mimada. Mas estava presa pelo tempo e pelas circunstâncias.
“Presa para sempre?”
“É preciso encarar essa possibilidade.” A Irmandade poderia ter somente um futuro restrito a esconderijos secretos, sempre temendo a descoberta. O futuro dos caçados. “E aqui, na Central, poderemos não ter permissão para errar mais de uma vez.”
— Chega de inspeção! — Odrade chamou um carro particular e apressou-as de volta para seu gabinete.
“O que faremos se as caçadoras nos encontrarem aqui?”
Cada uma delas tinha seu próprio roteiro, uma pequena encenação repleta de reações planejadas. Mas toda Reverenda Madre era bastante realista para saber que seu pequeno ato poderia causar mais estorvo do que ajuda.
No gabinete, com a luz da manhã incidindo sobre tudo ao redor, Odrade afundou na cadeira e esperou que Tamalane e Bellonda tomassem lugar.
Não haveria mais essas malditas sessões de análise. Ela realmente precisava ter acesso a algo melhor que os Arquivos, melhor que qualquer coisa que já tivessem usado anteriormente.
Inspiração. Odrade esfregou as pernas, sentindo os músculos
tremerem. Não estava dormindo bem há dias. Esta inspeção tinha tido um efeito frustrador sobre ela.
“Um único erro poderia destruir-nos, e eu acabo de comprometer a Irmandade numa decisão sem volta.”
“Estarei sendo astuciosa demais?”
Suas conselheiras opunham-se a soluções ardilosas. Diziam que a Irmandade deveria mover-se com firme convicção, em terreno previamente conhecido. Tudo o que fizessem teria como contrapeso o desastre, que estaria à sua espera ao menor deslize.
“E eu estou na corda bamba sobre o abismo.”
Teriam ainda a oportunidade de experimentar, de testar possíveis soluções? Todas elas estavam empenhadas no mesmo jogo. Bell e Tam exibiam um fluxo constante de sugestões, mas nada mais efetivo que sua Dispersão atômica.
— Precisamos estar preparadas para matar Idaho ao menor sinal de que seja um Kwisatz Haderach — Bellonda disse.
— Vocês não têm trabalho para fazer? Saiam daqui, as duas. Quando elas se ergueram, a sala de trabalho assumiu, aos olhos de Odrade, uma expressão de estranheza. O que estaria errado? Bellonda encarou-a com aquele terrível olhar de censura.
Tamalane parecia mais sábia do que jamais fora.
“O que há com esta sala?”
O gabinete teria sido reconhecido por suas funções por qualquer dos humanos da era pré-espacial. O que produzia a sensação de estranheza? A mesa de trabalho era uma mesa de trabalho, e as cadeiras estavam colocadas adequadamente. Bell e Tam preferiam cadeiras-cão, que teriam parecido bizarras aos antigos humanos da Outra Memória. Os cristais ridulianos podiam brilhar estranhamente, com a vibração da luz fazendo-os piscar. As mensagens que oscilavam ao redor da mesa talvez causassem surpresa. Seus instrumentos de trabalho poderiam parecer incomuns ao humano de outra era que estivesse compartilhando sua percepção.
“Mas está parecendo estranho a mim.”
— Você está bem, Odrade? — preocupou-se Tam.
Odrade fez sinal para que se fossem, mas nenhuma das duas se moveu.
Estavam acontecendo coisas a sua mente que não poderiam ser atribuídas às longas horas de insuficiente descanso. Não era a primeira vez que sentia estar trabalhando em ambiente estranho. Na noite anterior, quando comia um lanche nessa mesma mesa, cuja superfície estava coberta de tarefas como agora, tinha-se achado sentada, olhando fixamente o trabalho por fazer.
Que Irmãs poderiam ser dispensadas de que cargos, para essa terrível Dispersão? Como elas poderiam aperfeiçoar as possibilidades de sobrevivência das poucas trutas da areia que as Irmãs Dispersas levavam? Qual seria a porção adequada de melange a ser distribuída? Deveriam esperar, antes de enviar mais Irmãs para o desconhecido? Esperar pela possibilidade de que Scytale pudesse ser induzido a lhes dizer como os tanques axlotl produziam a especiaria?
Odrade lembrou-se de que o sentimento de estranheza tinha ocorrido enquanto mastigava um sanduíche. Tinha-o olhado, abrindo-o levemente. “Que coisa é essa que estou comendo?”
Fígado de galinha e cebola, no excelente pão da Sede da Irmandade.
Questionar suas próprias rotinas fazia parte dessa sensação incomum.
— Você parece doente — Bell disse.
— Apenas cansada — mentiu Odrade. Elas sabiam que estava mentindo, mas teriam coragem de desafiá-la? — Vocês duas devem estar igualmente cansadas. — Havia afeição em sua voz.
Bell não estava satisfeita. — Você dá maus exemplos!
— Quem? Eu? — A caçoada não escapou a Bell.
— Sabe muito bem que sim!
— São suas demonstrações de afeto — disse Tamalane.
— Mesmo em relação a Bell.
— Não quero sua maldita afeição! Não é correto.
— Somente quando permito que isso governe minhas decisões, Bell. Somente neste caso.
A voz de Bellonda transformou-se num sussurro rouco. — Há gente que acha que você é uma romântica perigosa, Dar. Você sabe o que isso poderia acarretar.
— Vincular-me a Irmãs por outros motivos que não a nossa sobrevivência. É isso que quer dizer?
— Às vezes você me dá dor de cabeça, Dar!
— É minha obrigação e meu direito dar-lhes dor de cabeça.
Quando a cabeça não dói, nós nos tornamos descuidadas. As afeições a incomodam, mas os ódios não.
— Conheço meu defeito.
“Você não poderia ser uma Reverenda Madre se não o conhecesse.”
A sala voltou a parecer familiar, mas agora Odrade sabia a origem de seus sentimentos de estranheza. Estava pensando neste lugar como parte da história antiga, considerando-o como o faria depois que tivesse desaparecido. Como certamente aconteceria, se seu plano tivesse sucesso. Sabia o que tinha de fazer agora. Era hora de revelar o primeiro passo.
“Cuidado.”
“Sim, Tar, estou tão cautelosa quanto você.”
Tam e Bell podiam estar velhas, mas suas mentes tornavam-se alertas quando a necessidade se impunha.
Odrade fixou o olhar em Bell. — Padrões, Bell. É nosso padrão não oferecer violência pela violência. — Ergueu a mão para impedir a resposta. — Sim, a violência gera mais violência, e o pêndulo oscila até que os seus agentes sejam destruídos.
— O que está pensando? — Tamalane interpelou.
— Talvez devêssemos pensar em atrair o touro mais agressivamente.
— Não podemos ousar. Não agora.
— Mas ousamos sentar aqui, esperando pacientemente que elas nos encontrem. Lâmpadas e outros de nossos desastres nos mostram o que acontecerá quando elas chegarem. Quando, não se.
Enquanto falava, Odrade sentia o abismo abaixo de si, a caçadora do pesadelo com o machado cada vez mais perto. Ela queria se aprofundar no sonho, voltar lá para identificar aquela que
as espreitava, mas não tinha coragem. Esse tinha sido o erro do Kwisatz Haderach.
“Esse futuro não se vê, cria-se.”
Tamalane queria saber por que Odrade tinha levantado a questão.
— Você mudou de idéia, Dar?
— Nosso Teg-ghola tem dez anos de idade.
— Jovem demais para que tentemos restaurar suas memórias — disse Bellonda.
— Por que recriamos Teg, a não ser para um uso violento?
— Odrade perguntou. — Oh, sim! — E como Tamalane começasse a objetar: — Teg nem sempre resolveu nossos problemas com violência. O Bashar pacífico afastaria os inimigos com palavras racionais.
Tam falou pensativamente: — Mas as Honradas Madres podem não negociar jamais.
— A menos que nós as levemos ao extremo.
— Acho que está propondo um movimento rápido demais —
disse Bellonda. — Confie em Bell para chegar a uma conclusão final Mentat.Odrade deu um suspiro profundo e olhou para a mesa de trabalho. Tinha chegado a hora, finalmente. Naquela manhã em que retirou o bebê-ghola daquele tanque obsceno, tinha sentido esse momento esperando por ela. Mesmo na ocasião, soubera que colocaria este ghola em provação antes da hora. Não obstante os laços de sangue.
Esticando a mão, Odrade pressionou uma tecla de chamada embaixo da mesa. Suas duas conselheiras esperavam de pé, em silêncio. Sabiam que estava para dizer algo importante. De uma coisa uma Madre Superiora podia estar certa — suas Irmãs ouviam-na com imenso cuidado, uma intensidade que gratificaria alguém mais egocêntrico que uma Reverenda Madre.
— Política — disse Odrade.
A palavra, por sua carga, prendeu-lhes a atenção imediata.
Quando entrava para a política Bene Gesserit, dirigindo os poderes para chegar ao topo, a pessoa tornava-se prisioneira da
responsabilidade. Sobrecarregava-se de tarefas e decisões que a vinculavam às vidas daqueles que dependiam dela. Isso era o que realmente ligava a Irmandade a sua Madre Superiora. Aquela única palavra comunicou às conselheiras e vigilantes que a Primeira-entre-Todas tinha chegado a uma decisão.
Ouviram um leve ruído de alguém que se aproximava do lado de fora. Odrade tocou a placa branca no canto direito da mesa. A porta atrás dela abriu-se, revelando a presença de Streggi, que esperava as ordens da Madre Superiora.
— Traga-o — disse Odrade.
— Sim, Madre Superiora. — Sua voz era quase sem emoção. Uma acólita muito promissora, essa Streggi.
Ela saiu e voltou conduzindo Miles Teg pela mão. O cabelo do menino era bem louro, mas estriado de castanho-escuro, o que indicava que se tornaria mais escuro quando ficasse mais velho.
Seu rosto era estreito, com o nariz começando a mostrar aquela angularidade de falcão tão característica dos homens Atreides. Seus olhos azuis moviam-se alertas, absorvendo tanto a sala como os ocupantes com curiosidade e expectativa.
— Streggi, espere lá fora, por favor. Odrade esperou que a porta se fechasse.
O rapaz permaneceu olhando para ela, sem nenhum sinal de impaciência.
— Ghola Miles Teg — disse Odrade —, naturalmente você se lembra de Tamalane e Bellonda.
Ele lançou um olhar para as duas mulheres, mas continuou em silêncio, aparentemente imobilizado pela intensidade de sua inspeção.
Tamalane franziu o cenho. Desde o princípio tinha discordado de chamar essa criança de ghola. Os gholas eram criados a partir de células de um cadáver. Este era um clone, assim como Scytale também o era.
— Vou enviá-lo para a não-nave com Duncan e Murbella —
disse Odrade. — Quem melhor do que Duncan para restaurar as memórias originais de Miles?
— Justiça poética — concordou Bellonda. Não apresentou objeções, embora Odrade soubesse que elas viriam assim que o rapaz saísse. “Jovem demais!”
— O que ela quer dizer com justiça poética? — Teg perguntou. Sua voz tinha uma qualidade estridente.
— Quando o Bashar estava em Gammu, restaurou as memórias originais de Duncan.
— E mesmo doloroso?
— Duncan achou que sim. “Algumas decisões devem ser cruéis.”Odrade achava que isso era uma grande barreira que a impedia de aceitar o fato de que se podiam tomar decisões próprias.
Algo que não precisaria ser explicado a Murbella.
“Como suavizar o golpe?”
Havia ocasiões em que não se podia suavizá-lo; na verdade, era mais humano arrancar as ataduras de uma vez só.
— Esse... esse Duncan Idaho pode realmente devolver minhas lembranças de... antes?
— Não só pode, como o fará.
— Não estaremos sendo precipitadas? — Tamalane perguntou.
— Tenho estudado as estórias sobre o Bashar — disse Teg.
— Era um militar famoso e um Mentat.
— E você está orgulhoso disso, não está? — Bell estava descontando suas objeções no garoto.
— Não especialmente — Ele retribuiu seu olhar sem hesitação. — Penso nele como uma outra pessoa. No entanto, é muito interessante.
— Outra pessoa — resmungou Bellonda. Ela olhou para Odrade com mal disfarçada desaprovação. — Você está lhe dando o ensinamento profundo.
— Como o fez sua mãe.
— Eu me lembrarei dela? — perguntou Teg.
Odrade lançou-lhe um sorriso conspirador, do tipo que tinham compartilhado nas caminhadas pelos pomares. — Lembrará, sim.
— Tudo?
— Você se lembrará de todas as coisas — sua esposa, seus filhos, as batalhas. Tudo.
— Mande-o sair! — disse Bellonda.
O menino sorriu, mas olhou para Odrade, esperando sua ordem. — Muito bem, Miles — disse Odrade. — Diga a Streggi que o leve a seus novos alojamentos na não-nave. Eu irei mais tarde, para apresentá-lo a Duncan.
— Posso ir nas costas de Streggi?
— Pergunte a ela.
Impulsivamente, Teg correu para Odrade, ficou na ponta dos pés e beijou-a no rosto. — Espero que minha mãe verdadeira seja como você.
Odrade deu-lhe um tapinha no ombro. — Bastante parecida.
Agora, corra.
Quando a porta se fechou atrás dele, Tamalane disse: — Não lhe contou que é uma de suas filhas?
— Ainda não.
— Idaho lhe dirá?
— Se for indicado.
Bellonda não estava interessada em detalhes insignificantes.
— O que está planejando, Dar?
Tamalane respondeu por ela. — Uma força punitiva comandada pelo Bashar Mentat. E óbvio.
“Ela mordeu a isca!”
— É isso? — Bellonda perguntou.
Odrade olhou ambas com dureza. — Teg foi o melhor que tivemos. Se alguém puder punir nossas inimigas...
— É melhor começarmos a desenvolver um outro Teg —
disse Tamalane.
— Não gosto da influência que Murbella poderá ter sobre ele — acrescentou Bellonda.
— Idaho está disposto a colaborar? — Tamalane perguntou.
— Ele fará o que um Atreides lhe pedir.
Odrade falou com confiança, mas sentiu que as palavras abriam sua mente para outra fonte de sentimentos estranhos.
“Estou nos vendo como Murbella nos vê! Consigo pelo menos pensar como uma Honrada Madre.”
Não ensinamos História: recriamos a experiência. Seguimos a corrente de conseqüências — o rastro do animal na floresta.
Observe o que está por trás de nossas palavras e verá o grande alcance de comportamento social que nenhum historiador chegou a tocar.
— Panoplia Propheticus da Bene Gesserit
Scytale assobiava enquanto caminhava pelo corredor em frente a seus aposentos, no exercício da tarde. Ida e volta.
Assobiando.
“Deixe que se acostumem a meu assobio.”
Assobiando, compôs uma cantilena para acompanhar o som:
— O esperma dos Tleilaxu não fala. — As palavras giravam em sua
mente muitas e muitas vezes. Elas não poderiam usar suas células para cobrir a lacuna genética e aprender seus segredos.
“Terão que vira mim com presentes.”
Odrade tinha passado para vê-lo um pouco antes “a caminho de meu encontro com Murbella”. Ela mencionava a Honrada Madre prisioneira freqüentemente, quando falava com ele. Havia um propósito nisso, mas ele não tinha idéia do que pudesse ser.
Ameaça? Sempre era possível. Viria à tona eventualmente.
— Espero que não esteja com medo — Odrade tinha dito.
Estavam ao lado da máquina de refeições, enquanto ele esperava que seu almoço aparecesse. O cardápio nunca era inteiramente a seu gosto, mas aceitável. Hoje, tinha pedido frutos do mar. Sem nenhuma indicação da forma como seria servido.
— Com medo? De vocês? Ahhh, querida Madre Superiora, eu sou valiosíssimo para vocês enquanto vivo. Por que teria medo?
— Meu conselho ainda não se manifestou a respeito de suas solicitações mais recentes.
“Eu esperava isso.”
— É um erro cercear-me — disse ele. — Limita suas escolhas. Enfraquece-as.
Levara inúmeros dias planejando a composição dessas palavras. Esperou pelo efeito que produziriam.
— Depende de como se deseja empregar a ferramenta, Mestre Scytale. Há ferramentas que se quebram quando usadas inadequadamente.
“Maldita seja, bruxa!”
Ele sorriu, mostrando seus caninos aguçados. — Testando para a extinção, Madre Superiora?
Ela fez uma de suas raras demonstrações de humor. — Você realmente espera que eu lhe dê força? O que está querendo agora, Scytale?
“Então, não sou mais Mestre Scytale. Dê-lhe um golpe com a parte lisa da lâmina!”
— Vocês dispersam suas Irmãs, esperando que algumas escapem à destruição. Quais são as conseqüências econômicas de sua reação histérica?
“Conseqüências! Eles sempre falam de conseqüências.”
— Negociamos para ganhar tempo, Scytale. — Muito solene.
Ele refletiu silenciosamente por um momento. Os televigias estavam espionando-os. Nunca se esqueça disso! “Economia, bruxa! Quem e o que vocês compram e vendem?” Este aposento perto da máquina de refeições é um lugar estranho para negociar, pensou ele. Meu gerenciamento da economia. A atividade administrativa, a sessão de planejamento e estratégia deveria ocorrer a portas fechadas, em grandes salas com vistas que não distraíssem os ocupantes dos negócios à sua frente.
As memórias em série de suas muitas vidas não aceitariam isso. “Necessidade. Os humanos conduzem seus negócios comerciais onde podem — nos conveses dos navios, em ruas de mau aspecto, cheias de vendedores apressados, em espaçosos salões de uma bolsa tradicional, com a informação circulando à vista de todos.”
O planejamento e a estratégia poderiam vir dos altos aposentos, mas a evidência deles era como a informação comum da bolsa — visível para todos.
Então, deixe que os televigias presenciem tudo.
— Quais são suas intenções a meu respeito, Madre Superiora?
— Mantê-lo vivo e forte. “Cuidado! Cuidado!”
— Mas não dar-me carta branca.
— Scytale! Você fala de economia e depois quer algo grátis?
— Mas minha força é importante para vocês?
— Acredite!
— Não confio em vocês.
A máquina escolheu esse momento para fazer surgir seu almoço: peixe branco passado de leve num molho delicado. Sentiu o cheiro de ervas. Água num copo alto, com um fraco aroma de melange. Uma salada verde. “Um de seus melhores esforços.”
Sentiu-se salivar.
— Bom apetite, Mestre Scytale. Não há nada que possa fazer-lhe mal. Não é uma prova de confiança?
Como ele não respondesse, ela falou: — O que tem a confiança a ver com a nossa barganha?
“Que tipo de jogo ela está fazendo agora?”
— Você me disse o que pretendem em relação às Honradas Madres, mas não disse o que pretende fazer comigo. — Sabia que estava dando uma impressão lamentosa, mas achou que era inevitável.