As Herdeiras de Duna

Frank Herbert · Capítulo 2 de 3 · parte 16/16

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As Herdeiras de Duna

Folha de Rosto

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 16 partes.

Não sem vida, mas vivendo de um modo profundamente diferente da outrora verdejante Sede da Irmandade.

“Menos vida, porém mais intensa.”

Ela ouvia o deserto: pequenos deslizes, cricris e chiados de insetos, um obscuro farfalhar de asas caçadoras acima, e chapes rapidíssimos na areia — ratos cangurus trazidos para cá em antecipação deste dia, quando os vermes começariam novamente a governar.

“Walli se lembrará de enviar flora e fauna de Duna.”

Parou no alto de um barranco. À sua frente, com as bordas ocultas pela escuridão, estava um oceano em imobilidade, uma sombra de arrebentação batendo numa sombra de praia desta terra em mudança. Era um deserto-mar sem limites. Tinha se originado em lugares muito distantes e se deslocaria para locais ainda mais estranhos que este.

“Eu o levarei lá, se puder.”

Uma brisa noturna vinda das terras secas em direção a lugares mais úmidos atrás dela depositava uma película de poeira nas faces e no nariz, erguendo as pontas do cabelo na passagem.

Sentiu-se entristecida.

“O que poderia ter sido.”

Isso não era importante agora.

“As coisas que existem — elas importam.”

Respirou profundamente. Canela mais forte. Melange.

Especiaria e vermes próximos. Vermes conscientes de sua presença. Quanto tempo levaria para que o ar ficasse seco o suficiente para que os vermes da areia crescessem e produzissem sua safra, como tinham feito em Duna?

O planeta e o deserto.

Ela os via como duas metades da mesma saga. Exatamente como as Bene Gesserit e a humanidade que elas serviam. Metades combinadas. Cada uma sem a outra ficava diminuída, um vazio com propósito perdido. Melhor do que morta, talvez, mas movendo-se sem objetivo. Aí estava a ameaça da vitória das Honradas Madres.

Conduzidas pela violência cega!

“Cegas num universo hostil.”

E aí estava por que o Tirano tinha preservado a Irmandade.

“Ele sabia que só nos dava um caminho sem direção. Uma caça de papéis lançados por um humorista e deixada vazia no fim.”

“Um poeta em seus direitos, porém.”

Lembrou-se de seu “Poema da Memória”, de Dar-es-Balat, pequeno fragmento salvo dos escombros pela Bene Gesserit.

“E por que razão o preservamos? Para que eu possa encher minha mente com ele agora? Esquecendo por um momento o que devo enfrentar amanhã?”

“A bela noite do poeta,

Preenche-a com estrelas inocentes.

Orion fica a um passo adiante.

Seu olhar tudo vê,

Marcando nossos genes para sempre.

Bem-vinda escuridão e bem-vindo o olhar,

Cego após o arrebol da tarde.

É a eternidade estéril!”

Sheeana sentiu subitamente que tinha ganho a oportunidade de se tornar a artista suprema, repleta até as bordas e agraciada com uma superfície vazia onde poderia criar o que desejasse.

“Um universo irrestrito!”

As palavras de Odrade, dos tempos de seus primeiros contatos com o propósito da Bene Gesserit, na infância, voltaram-lhe à mente — Por que nos prendemos a você, Sheeana? É muito simples. Reconhecemos em você algo que esperamos há muito tempo. Você chegou, e nós vimos isso acontecer.

— Isso? “Como eu era ingênua!” — Algo novo surgindo no horizonte.

“Minha migração será em busca do novo. Mas... preciso encontrar um planeta com luas.”

De um ponto de vista, o universo é movimento browniano, não havendo nada previsível no nível elementar. O Muad’Dib e seu filho Tirano fecharam a câmara de nuvem onde o movimento ocorria.

— Estórias de Gammu

Murbella entrou num período de experiências incongruentes.

Isso a aborreceu, de início, por ver sua própria vida com uma visão múltipla. Os acontecimentos caóticos no Entroncamento tinham deflagrado esse estado de coisas, criando uma confusão de necessidades imediatas que não a abandonavam, nem mesmo quando voltou à Sede.

“Eu a preveni, Dar. Você não pode negá-lo. Eu disse que elas podiam transformar a vitória em derrota. E veja a enrascada em que você me meteu. Tive sorte em salvar o que podia.”

Este protesto interior sempre a mergulhava nos acontecimentos que a tinham elevado a essa horrível proeminência.

“Que mais eu poderia ter feito?”

A Memória mostrava Streggi caindo de repente no chão, numa morte sem sangue. A cena tinha passado nos transmissores da não-nave como um drama de ficção. A moldura da projeção na estação de comando da nave aumentava a ilusão de que isso não estava acontecendo na realidade. Os atores se levantariam e se curvariam em agradecimento. Os televigias de Teg, zumbindo automaticamente, registrariam toda a cena até que alguém os desligasse.

Ela ficou entregue às imagens, um ocaso assustador: Teg estatelado no chão daquela Honrada Madre irreal. Odrade olhando, petrificada pelo choque.

A declaração de que ela devia ir à terra imediatamente foi cercada de vivos protestos. As Instrutoras estavam irredutíveis, até que ela lhes revelou os detalhes da jogada de Odrade e interpelou-as: — Querem o desastre total?

“A Odrade Interior venceu a discussão. Mas você estava preparada para isso desde o início, não é, Dar? Seu plano!”

As Instrutoras disseram: — Ainda há Sheeana. Deram a Murbella uma barcaça individual e enviaram-na sozinha ao Entroncamento. Mesmo tendo transmitido sua identidade de Honrada Madre à sua frente, houve momentos difíceis na Plataforma de Aterrissagem.

Um pelotão de Honradas Madres armadas a confrontou assim que desceu da nave, ao lado de um buraco fumegante. A fumaça tinha cheiro de explosivos exóticos.

“Onde a nave da Madre Superiora foi destruída.”

Uma antiga Honrada Madre liderava o grupo, tendo o manto vermelho manchado, alguns enfeites perdidos e um rasgão no ombro esquerdo. Parecia uma lagartixa seca, ainda venenosa, ainda capaz de morder, mas às voltas com raivas já gastas, com a maior

parte da energia perdida. Cabelo em desalinho como a casca recém-arrancada de uma raiz de gengibre. Tinha um demônio consigo. Murbella o viu espiando pelos olhos pintados de laranja.

Com toda a presença de um pelotão completo dando suporte à velha, as duas se defrontaram como se estivessem sós junto da prancha levadiça da nave, animais selvagens farejando com cuidado, tentando julgar a extensão do perigo.

Murbella estudou a velha com cuidado. Essa lagartixa mostraria um pouco a língua, testando o ar, dando saída às emoções, mas estava chocada o suficiente para ouvi-la.

— Meu nome é Murbella. Fui aprisionada pela Bene Gesserit em Gammu. Sou uma adepta do Hormu.

— Por que está usando o manto de uma bruxa? — A velha e seu grupo estavam prontos para matar.

— Aprendi tudo o que elas tinham para ensinar, e trouxe esse tesouro para minhas Irmãs.

A velha estudou-a por um momento. — Sim, reconheço seu tipo. Você é uma Roc, uma das que escolhemos para o projeto de Gammu. O pelotão atrás dela relaxou um pouco.

— Você não veio o caminho todo nessa barcaça — a velha acusou. — Escapei de uma das não-naves.

— Sabe onde fica o ninho delas?

— Sei.

Um sorriso largo espalhou-se pelos seus lábios. — Bem!

Você é um prêmio! Como escapou?

— Precisa perguntar?

A velha considerou a resposta. Murbella podia ler-lhe os pensamentos no rosto como se eles fossem falados: “Essas que trouxemos de Roc — mortais, todas elas. Podem matar com mãos, pés ou qualquer parte móvel do corpo. Deviam levar um rótulo:

‘Perigosa em qualquer posição’.”

Murbella afastou-se da barcaça, exibindo a graça sinuosa que era uma marca de sua identidade.

“Rapidez e músculos, Irmãs. Tomem cuidado.”

Algumas pessoas do grupo adiantaram-se, curiosas. Suas palavras estavam cheias de comparações das Honradas Madres, perguntas ávidas que Murbella foi obrigada a evitar.

— Você matou muitas delas? Onde é seu planeta? É rico?

Aprisionou muitos homens lá? Você foi treinada em Gammu?

— Estive em Gammu no terceiro período. Sob o comando de Hakka. — Hakka! Eu a conheço. Ela tinha aquele machucado no pé esquerdo, quando a conheceu?

“Ainda fazendo testes.”

— Era no pé direito, e eu estava com ela quando se machucou.

— Ah, sim, o pé direito. Lembro-me agora. Como foi isso?

— Chutando um palerma no traseiro. Ele tinha uma faca afiada no bolso de trás. Hakka ficou tão zangada que o matou.

O riso se espalhou pelo grupo.

— Vamos ver a Grande Honrada Madre. “Então passei na primeira inspeção.” Entretanto, Murbella sentia reservas.

“Por que essa adepta de Hormu está vestindo os mantos do inimigo? E ela tem um olhar estranho. Era melhor enfrentar isso de uma vez.”

— Fiz seu treinamento e elas me aceitaram.

— Que tolas! Aceitaram mesmo?

— Duvida da minha palavra? — Como era fácil reverter, adotando os modos suscetíveis das Honradas Madres.

A velha eriçou-se. Não perdeu a altivez, mas deu um olhar de aviso ao grupo. Todas elas levaram um momento para digerir o que Murbella tinha dito.

— Você se tornou uma delas? — Alguém atrás dela perguntou.

— De que outro modo poderia roubar seu conhecimento?

Saiba que eu era a aluna pessoal da Madre Superiora.

— Ela lhe ensinou direito? — A mesma voz desafiadora lá detrás. Murbella identificou quem perguntava: pertencente ao escalão médio e ambiciosa. Ávida de reconhecimento e promoção.

“Este é o seu fim, ansiosa. E uma perda pequena para o universo.” Um ataque simulado Bene Gesserit pôs a inimiga, leve como pena, à sua mercê. Um pontapé no estilo Hormu para que elas vissem. A contestadora

jazia morta no chão.

“A união das capacidades Bene Gesserit e Honradas Madres cria um perigo que todas devem reconhecer e invejar.”

— Ela me ensinou admiravelmente — Murbella disse. —

Outras perguntas?

— Ehhhh! — a velha entoou.

— Como se chama? — Murbella interpelou-a.

— Sou uma Dama graduada, Honrada Madre de Hormu.

Chamo-me Elpek.

— Obrigada, Elpek. Pode chamar-me de Murbella.

— Estou honrada, Murbella. O que nos trouxe é realmente um tesouro. Murbella estudou-a um momento com atenção Bene Gesserit, antes de sorrir sem humor.

“A troca de nomes! Você, com o manto vermelho que a caracteriza como uma das poderosas que cercam a Grande Honrada Madre, sabe o que acaba de aceitar em seu círculo?”

O pelotão permanecia chocado, e olhava Murbella com prudência. Ela percebia isso com sua nova sensibilidade. O

esquema da Garota de Antigamente nunca teve uma posição segura dentro da Bene Gesserit, mas funcionava para as Honradas Madres. O simulfluxo divertiu-a com um desfile de confirmações. Com que sutileza o poder se transfere: a escola certa, os amigos certos, formatura e transferência para os primeiros degraus da escada — tudo orientado por parentes e suas relações, uma atenção mútua que dirigia alianças, inclusive casamentos. O

simulfluxo lhe dizia que isso levava ao abismo, mas aqueles que estavam na escada, os que controlavam os nichos, nunca permitiram que isso os preocupasse.

“Hoje basta por hoje, e é assim que Elpek me vê. Mas ela não quer ver o que me tornei, somente que sou perigosa, mas potencialmente útil.”

Virando-se vagarosamente sobre um pé, Murbella estudou o grupo de Elpek. Não havia homens escravizados aqui. Essa era uma tarefa muito delicada, apenas para mulheres confiáveis. Bom.

— Agora, ouçam-me, todas vocês. Se têm alguma lealdade para com a Irmandade, o que julgarei pelas ações futuras, saberão honrar o que eu trouxe. Minha intenção é de que seja um presente para aquelas que o merecem.

— A Grande Honrada Madre ficará satisfeita — Elpek disse.

Mas a Grande Honrada Madre não pareceu contente quando Murbella foi apresentada.

Murbella reconheceu o cenário da torre. Era quase noite, agora, mas o corpo de Streggi ainda estava lá onde tinha caído.

Alguns dos especialistas de Teg tinham sido mortos, principalmente os da equipe dos televigias, que tinham a função dupla de protegê-lo.

“Não, nós, Honradas Madres, não gostamos que outros nos espiem.”

Viu que Teg ainda vivia, mas estava atado em shigafio e empurrado para um canto com desdém. O fato mais surpreendente: Odrade estava em pé, desamarrada, ao lado da Grande Honrada Madre. Era um gesto de desprezo.

Murbella sentiu que tinha vivido muitas vezes esta cena — a conseqüência da vitória das Honradas Madres: fileiras de corpos de seus inimigos deixados onde tinham sido derrubados. O ataque das Honradas Madres com a arma sem sangue fora rápido e mortal, uma depravação peculiar, que matava quando matar não era mais necessário. Ela disfarçou um estremecimento à lembrança dessa reversão mortal. Não houvera aviso, apenas os soldados caindo em filas largas — um efeito dominó que deixou os sobreviventes em estado de choque. O que foi obviamente apreciado pela Grande Honrada Madre.

Olhando para Murbella, a Grande Honrada Madre disse: —

Então este é o saco de insolência que você diz ter treinado nos seus métodos.

Odrade sorriu ante a descrição.

“Saco de insolência?”

Uma Bene Gesserit o aceitaria sem rancor. Essa Grande Honrada Madre de olhos remelentos estava diante de um dilema, e não podia recorrer à arma que matava sem sangue. Um equilíbrio de poder muito delicado. Conversas agitadas entre as Honradas Madres revelaram o problema.

Todas as suas armas secretas tinham sido esgotadas, e não podiam ser recarregadas, algo que tinham perdido quando fugiram para cá.“Nossa arma de último recurso e nós a desperdiçamos!”

Logno, que se considerava suprema, estava numa arena diferente agora. E tivera conhecimento da temível facilidade com que essa Murbella podia matar uma eleita.

Murbella lançou um olhar avaliador sobre o séquito da Grande Honrada Madre, estimando seu potencial. Elas reconheciam essa situação, naturalmente. Como votaram?

“Neutro?”

Algumas estavam cautelosas, e todas estavam esperando.

Antecipando um desvio. Nenhuma preocupação a respeito de quem triunfaria, desde que o poder continuasse a fluir em sua direção.Murbella permitiu que seus músculos tomassem a posição de espera de combate que tinha aprendido com Duncan e as Instrutoras. Sentia-se tão calma quanto estaria na sala de prática, examinando respostas adversárias. Mesmo quando reagia, sabia que seu movimento correspondia aos modos como Odrade a tinha preparado — mental, física e emocionalmente.

“Primeiro a Voz. Dê-lhes uma prova de frio interior.”

— Vejo que avaliaram as Bene Gesserit muito mal. Quanto aos argumentos de que se orgulham tanto, essas mulheres já os ouviram tantas vezes que suas palavras são mais que tediosas.

Isso foi pronunciado com um controle de voz severo, um tom que trouxe laranja aos olhos de Logno, embora ela permanecesse imóvel.Murbella ainda não tinha terminado, quanto a ela. — Você se considera poderosa e esperta. Uma coisa dá origem a outra, não é?

Que idiotice! Você é uma mentirosa consumada, e mente para si mesma.Como Logno continuasse imóvel em face desse ataque, as que estavam à sua volta começaram a se afastar, abrindo um espaço que dizia: “Ela é toda sua.”

— Sua espontaneidade nessas mentiras não as esconde —

Murbella disse. Ela varreu o grupo atrás de Logno com um olhar de desdém. — Assim como aqueles que conheço da Outra Memória, vocês estão fadadas à extinção. O problema é que levam um tempo infernalmente longo para morrer. Isso é inevitável, mas, oh, o tédio enquanto isso dura. Você ousa intitular-se Grande Honrada Madre!

— Voltando sua atenção para Logno: — Tudo a seu respeito é uma cloaca. Você não tem estilo.

Era demais. Logno atacou, com o pé esquerdo golpeando o espaço com uma velocidade cega. Murbella agarrou o pé como se fosse uma folha soprada pelo vento e, continuando o próprio movimento, usou Logno como um bastão, atirando-a ao solo, contra o qual esmagou-lhe a cabeça. Sem se deter, fez uma pirueta, quase decapitando a Honrada Madre da direita com o pé esquerdo, enquanto esmagava a garganta de outra, do lado esquerdo, com a mão direita. Tudo estava terminado no tempo de duas batidas de coração.

Examinando a cena sem se mostrar ofegante (“para mostrar-lhes como foi fácil, Irmãs”), Murbella teve uma sensação de choque e reconhecimento do inevitável. Odrade jazia no chão na frente de Elpek, que obviamente tinha tomado partido sem hesitação. A posição torcida do pescoço e a aparência flácida do corpo denunciavam que ela estava morta.

— Ela tentou interferir — Elpek disse.

Tendo assassinado uma Reverenda Madre, Elpek esperava que Murbella (uma Irmã, afinal) a aplaudisse. Mas Murbella não agiu como se esperava. Ajoelhou ao lado de Odrade e pôs a cabeça contra a da morta, ficando lá um tempo interminável.

As Honradas Madres sobreviventes trocaram olhares indagadores, mas não ousaram se mover.

“O que é isso?”

Mas estavam imobilizadas pelas capacidades aterrorizantes de Murbella.

Quando já tinha todo o passado recente de Odrade, todas as novas experiências acrescentadas ao Compartilhar anterior, Murbella ergueu-se.

Elpek viu a morte em seus olhos e deu um passo atrás, antes de tentar defender-se. Ela era perigosa, mas não era páreo para esse demônio de manto negro. Estava terminado com a mesma brusquidão chocante que tinha levado Logno e suas assistentes: um pontapé na laringe. Elpek estatelou-se por cima de Odrade.

Uma vez mais, Murbella estudou as sobreviventes, depois ficou um momento olhando para o corpo de Odrade.

“De certo modo, fui eu que fiz isso, Dar. E você!”

Sacudiu a cabeça para os lados, absorvendo as conseqüências.

“Odrade está morta. Viva a Madre Superiora! Viva a Grande Honrada Madre! E possam os deuses nos proteger a todos.”

Deu atenção, então, ao que devia ser feito. Essas mortes tinham criado um débito enorme. Murbella tomou fôlego. Era um outro nó górdio.

— Libertem Teg — disse. — Limpem tudo aqui o mais rápido possível. Mandem alguém trazer-me um manto adequado!

Era a Grande Honrada Madre dando ordens, mas as que se movimentaram para lhe obedecer sentiam a Outra nela.

A que trouxe um manto vermelho decorado com pedrassuaves formando dragões segurou-o com deferência, à distância. Uma mulher grande, de ossos pesados e rosto quadrado.

Olhos cruéis.

— Segure-o para mim — Murbella disse, e quando a mulher tentou tirar vantagem da proximidade para atacá-la, atirou-a ao chão com violência. — Vai tentar de novo?

Desta vez não houve truques.

— Você é o primeiro membro do meu Conselho — Murbella disse. — Seu nome?

— Angelika, Grande Honrada Madre. — ”Veja! Sou a primeira a chamá-la pelo seu devido título. Recompense-me.”

— Sua recompensa é que eu a promovo, e permito que viva.

Uma resposta adequada a uma Honrada Madre. Aceita como tal.

Quando Teg se aproximou, esfregando os braços onde o shigafio o machucara, algumas Honradas Madres tentaram prevenir Murbella.

— Sabe o que este pode...

— Ele servirá a mim, agora — interrompeu. Então, usando o tom jocoso de Odrade: — Não está certo, Miles?

Ele lhe deu um sorriso pesaroso, um velho com rosto de criança. — Tempos interessantes, Murbella.

— Dar gostava de maçãs. Providencie isso.

Ele assentiu. Levá-la para um cemitério-pomar. Não que os apreciados pomares da Bene Gesserit fossem durar muito no deserto. Entretanto, valia a pena perpetuar algumas tradições, enquanto fosse possível.

O que os Acidentes Sagrados ensinam? Seja elástico. Seja forte. Esteja pronto para a mudança, para o novo. Reúna muitas experiências e julgue-as pela natureza constante de nossa fé.

— Doutrina Tleilaxu

Dentro do tempo originalmente previsto por Teg, Murbella reuniu sua comitiva de Honradas Madres e voltou à Sede da Irmandade. Esperava enfrentar alguns problemas, e as mensagens que enviou à sua frente preparavam terreno para as soluções.

“Trago Futares para atrair Treinadores. As Honradas Madres temem uma arma biológica da Dispersão que as transformou em vegetais, cuja origem pode estar ligada aos Treinadores.

“Preparem-se para manter o Rabino e seu grupo na não-nave. Honrem seu sigilo. E removam as minas protetoras da nave!”

(Isso foi enviado por uma Instrutora mensageira.) Ficou tentada a perguntar por seus filhos, mas essa atitude era não-Gesserit. Algum dia... talvez.

Logo na chegada, foi obrigada a acomodar Duncan, e isso confundiu as Honradas Madres. Eram tão maldosas quanto as Bene Gesserit. — O que há de tão especial num homem?

Não havia mais motivo para que ficasse na nave, mas ele recusava-se a deixá-la. — Tenho um mosaico mental para completar: uma peça que não se pode mover, um comportamento extraordinário, e uma participação voluntária em seu sonho. Preciso encontrar os limites para testar. É o que está faltando. Mas sei como encontrá-los. Harmonize-se. Não pense. Faça-o.

Não fazia sentido. Ela era indulgente, embora ele estivesse mudado. Havia uma estabilidade nesse novo Duncan, que ela aceitava como desafio. Com que direito ele assumia esse ar de auto-satisfação? Não... não era auto-satisfação. Era mais uma aparência de estar em paz com uma decisão. E ele recusava-se a compartilhá-la!

— Aceitei muita coisa. Você deve fazer o mesmo.

Murbella tinha de reconhecer que isso descrevia o que ela estava fazendo.

Na sua primeira manhã, depois da volta, acordou de madrugada e foi para o gabinete. Vestindo um manto vermelho, sentou-se na cadeira da Madre Superiora e convocou Bellonda.

Bell ficou de pé a uma extremidade da mesa. Ela sabia. O

plano tornou-se claro na execução. Odrade tinha-lhe imposto um débito também. Portanto, o silêncio: avaliando como pagar.

“Servindo a esta Madre Superiora, Bell! É assim que você paga. Nenhum desvio destes acontecimentos nos Arquivos os colocará na perspectiva adequada. A ação se faz necessária.”

Bellonda falou, finalmente. — A única crise que eu poderia considerar comparável a esta é o advento do Tirano.

Murbella reagiu bruscamente. — Segure a língua, Bell, a menos que tenha algo útil a dizer!

Bellonda tomou a reprimenda com calma (uma reação atípica). — Dar tinha mudanças em mente. Era isso que ela esperava?

Murbella suavizou o tom. — Modificaremos a história depois.

Este é o primeiro capítulo.

— Más notícias. — Essa era a velha Bellonda.

— Faça entrar o primeiro grupo. Seja cautelosa. Elas representam o Alto Conselho da Grande Honrada Madre.

Bell retirou-se para cumprir as ordens.

“Ela sabe que tenho todo o direito a esta posição. Todas sabem. Não há lugar para uma votação!”

Agora era a hora da arte histórica da política que tinha aprendido com Odrade.

“Em todas as coisas, você deve parecer importante.

Nenhuma decisão menor deve passar por suas mãos, a não ser ações discretas chamadas ‘favores’, para conseguir a lealdade de alguns.”Todas as recompensas vindas de cima. Não era uma boa política para a Bene Gesserit, mas o grupo que ia entrar na sala estava familiarizado com a Grande Honrada Madre Protetora; aceitariam “novas necessidades políticas”. Temporariamente. Era sempre temporário, especialmente com as Honradas Madres.

Bell e os cães vigilantes sabiam que ela levaria bastante tempo pondo isso em ordem. “Mesmo com habilidades Bene Gesserit amplificadas.”

Isso iria exigir uma atenção extremamente exigente de todas elas. E a primeira coisa era o olhar penetrante da inocência.

“É isso que as Honradas Madres perderam, e precisamos restaurá-lo, antes que elas se enfraqueçam no meio a que pertencemos.”

Bellonda introduziu o Conselho, e retirou-se silenciosamente.

Murbella esperou até que estivessem sentadas. Uma mistura: algumas aspirantes ao poder supremo. Angelika estava lá, sorrindo graciosamente. Outras esperando (não ousavam ter esperança ainda), mas juntando tudo o que podiam.

— Nossa Irmandade estava agindo com estupidez —

Murbella acusou. Percebeu as que tomaram isso com irritação. —

Vocês poderiam ter matado o ganso!

Elas não entenderam. Contou-lhes a fábula, que ouviram com a devida atenção, mesmo quando ela acrescentou: — Não entendem a necessidade desesperada que temos de cada uma

dessas bruxas? Somos tão mais numerosas, que ensinar-nos representará para cada uma delas um fardo imenso!

Consideraram o fato e, embora amargo, foram forçadas a aceitá-lo, pejo que ela dizia.

Murbella insistiu no alvo. — Não apenas sou sua Grande Honrada Madre... Alguém tem dúvidas?

Ninguém questionou.

— ...mas sou a Madre Superiora das Bene Gesserit. Elas têm pouquíssimas alternativas, a não ser confirmar-me no cargo.

Duas delas começaram a protestar, mas Murbella cortou logo: — Vocês não têm força bastante para impor-lhes a sua vontade. Teriam que matar todas elas. A mim, porém, elas obedecerão.

As duas continuaram resmungando, mas Murbella as arrasou: — Comparadas a mim, com tudo o que aprendi delas, vocês todas são umas pobres infelizes! Alguém me desafia?

Ninguém desafiou, mas os olhares laranja estavam presentes.

— Vocês são crianças sem conhecimento do que podem tornar-se — disse. — Voltariam, indefesas, a encarar os das muitas faces? Gostariam de tornar-se vegetais?

Isso prendeu seu interesse. Estavam acostumadas a esse tom com as antigas comandantes. O assunto as interessava agora.

Era difícil aceitá-lo de alguém tão jovem... Entretanto... as coisas que tinha feito! Também a Logno e suas assistentes!

Murbella viu-as engolir a isca.

“Fertilização. Este grupo a levará consigo. Vigor híbrido.

Somos fertilizadas para nos tornarmos mais fortes. E florescer. E

semear? Era melhor não se deter nisso. As Honradas Madres não verão isso, até que sejam quase Reverendas Madres. Então olharão para trás tão zangadas como eu fiquei. Como podíamos ter sido tão burras?”

Ela viu a submissão tomar forma nos olhos das conselheiras.

Haveria uma lua-de-mel. As Honradas Madres seriam crianças numa loja de doces. Só gradualmente o inevitável se tornaria claro para elas. Então, já teriam caído na armadilha.

“Como eu caí. Não pergunte ao oráculo o que você pode conseguir. Essa era a armadilha. Cuidado com o verdadeiro adivinho! Gostaria de três mil e quinhentos anos de tédio?”

A Odrade Interior desaprovou.

“Dê algum crédito ao Tirano. Não podia ter sido apenas tédio.

Foi mais como um Navegador da Corporação escolhendo sua passagem nas dobras do espaço. O Caminho Dourado. Um Atreides pagou pela sua sobrevivência, Murbella.”

Murbella sentiu-se oprimida. O pagamento do Tirano foi-lhe jogado às costas. “Não lhe pedi que fizesse isso por mim.”

Odrade não podia deixar isso passar. “Ele o fez, contudo.”

“Desculpe-me, Dar. Ele pagou. Agora, eu devo pagar.”

“Então você é uma Reverenda Madre, finalmente!”

As conselheiras tinham-se tornado impacientes sob seu olhar.

Angelika decidiu falar por elas. — Afinal, fui a primeira escolhida.

“Veja essa aí. Uma chama de ambição nos olhos.”

— Que reação está nos pedindo para ter com essas bruxas?

— Assustada com a própria ousadia. A Grande Honrada Madre não era também uma bruxa agora?

Murbella falou suavemente: — Vocês vão tolerá-las, sem oferecer-lhes nenhum tipo de violência.

Angelika sentiu-se encorajada pelo tom suave de Murbella. —

É uma decisão da Grande Honrada Madre ou...

— Basta! Eu podia ensangüentar o chão desta sala com todas vocês! Querem experimentar?

Elas não queriam.

— E se eu lhes disser que quem fala é a Madre Superiora?

Vocês perguntarão se eu tenho uma política para resolver o problema. Direi: política? Ah, sim. Tenho uma política para coisas sem importância, como pragas de insetos. Essas coisas sem importância pedem uma política. Quanto às da sua espécie, livro-me delas facilmente. Moitas, antes de perceberem que foram machucadas! Essa é a minha resposta à presença da poluição. Há poluição nesta sala?

Era uma linguagem que elas reconheciam: a chibata da Grande Honrada Madre aliada à capacidade de matar.

— Vocês são o meu Conselho — disse Murbella. — Espero sabedoria de sua parte. O mínimo que posso fazer é fingir que vocês são sábias.

Simpatia divertida de Odrade: “Se esse é o jeito com que as Honradas Madres recebem e aceitam as ordens, não haverá necessidade de muita análise de Bell.”

Os pensamentos de Murbella se afastaram. “Não sou mais uma Honrada Madre.”

O passo dado de uma ordem para outra era tão recente que ela achou desconfortável seu desempenho como Honrada Madre.

Suas adaptações eram uma metáfora do que aconteceria com suas antigas Irmãs. Um novo papel, e ela não o fazia bem. A Outra Memória estimulava uma longa associação consigo, como essa nova pessoa. Não se tratava de transubstanciação mística, meramente novas capacidades.

“Meramente?”

A mudança foi profunda. Será que Duncan entendia isso?

Doeu-lhe que ele possivelmente nunca compreendesse essa nova Murbella.

“Isso é o resíduo de meu amor por ele?”

Retraiu-se de suas perguntas, não querendo uma resposta.

Sentia-se repelida por alguma coisa que ia mais fundo do que estava disposta a penetrar.

“Haverá decisões obrigatórias, que meu amor poderá impedir.

Decisões a favor da Irmandade, não a meu favor. É para isso que aponta o meu medo.”

As necessidades imediatas a restauraram. Dispensou suas conselheiras, prometendo dor e morte se elas não aprendessem as novas restrições.

A seguir, as Reverendas Madres devem ser ensinadas a ter uma nova diplomacia: não estreitar amizade com ninguém — nem mesmo entre si. Isso se tornaria mais fácil com o tempo. As Honradas Madres deslizando para os modos Bene Gesserit. Um dia, não haveria mais Honradas Madres; somente Reverendas Madres, com reflexos aperfeiçoados e um conhecimento maior da sexualidade.

Murbella sentia-se obcecada por palavras que tinha ouvido, mas não aceitara até esse momento: — As coisas que faremos pela sobrevivência da Bene Gesserit não têm limites.

“Duncan verá isso. Não posso esconder dele. O Mentat não se prenderá a uma idéia fixa do que eu era antes da Agonia. Ele abre a mente como eu abro uma porta. Ele vai examinar sua rede.

— O que eu peguei agora?”

Foi isso que aconteceu com Lady Jessica? A Outra Memória trouxe Jessica permeada da trama e urdidura do Compartilhar.

Murbella desembaraçou-se um pouco, e desfilou conhecimentos mais antigos.

“Lady Jessica herege? Uma conduta imprópria no cargo?”

Jessica tinha mergulhado no amor, assim como Odrade mergulhara no mar e as ondas daí resultantes não engolfaram a Irmandade.

Murbella sentia que isso a levava aonde não queria ir. A dor apertava-lhe o peito.

“Duncan, ohhh, Duncan!” Escondeu o rosto nas mãos. “Dar, ajude-me. Que devo fazer?”

“Nunca pergunte por que você é uma Reverenda Madre.”

“Preciso! A progressão está clara na minha memória e...”

‘ ‘É uma seqüência. Pensar nela como causa e efeito afasta-a da totalidade.’’

“Tao?”

“Mais simples: Você está aqui.”

“Mas a Outra Memória vai para trás, para trás e...”

“Imagine que são pirâmides — entrelaçadas.”

“Apenas palavras!”

“Seu corpo ainda está funcionando?”

“Estou sofrendo, Dar. Você não tem mais corpo e não adianta...”

“Ocupamos nichos diferentes. As dores que senti não são as suas dores. Minhas alegrias não são as suas.”

“Não quero sua compreensão! Ohh, Dar! Por que nasci?”

“Você nasceu para perder Duncan?”

“Dar, por favor!”

“Então você nasceu e agora sabe que isso nunca é suficiente. Então se tornou uma Honrada Madre. Que mais podia fazer? Ainda não é suficiente? Agora você é uma Reverenda Madre.

Pensa que basta? Nunca será suficiente enquanto viver.”

“Está me dizendo que devo sempre ir além de meus limites.”

“Ora! Não se tomam decisões nessa base. Você não o ouviu?

Não pense; faça-o. Você vai escolher o caminho fácil? Por que deveria sentir-se triste quando encontra o inevitável? Se é tudo o que você pode ver, limite-se a aperfeiçoar a raça!”

“Maldição! Por que fez isso comigo?”

“Isso o quê?”

“Fez-me ver a mim e às minhas antigas Irmãs desse jeito!”

“Que jeito?”

“Com os diabos! Você sabe o que quero dizer!

“Antigas Irmãs, você disse?”

“Oh, você é traiçoeira.”

“Todas as Reverendas Madres são traiçoeiras.”

“Você nunca pára de ensinar!”

“É isso que eu faço?”

“Como eu era inocente! Perguntar a você o que faz realmente.”

“Você sabe tanto quanto eu. Esperamos a humanidade amadurecer. O Tirano apenas lhes deu tempo para crescer, mas agora precisam de cuidados.”

“O que o Tirano tem a ver com a minha dor?”

“Que mulher tola! Você fracassou na Agonia?”

“Sabe que não.”

“Pare de tropeçar no óbvio.”

“Cadela!”

“Prefiro bruxa. Qualquer das duas é preferível a prostituta.”

“A única diferença entre a Bene Gesserit e as Honradas Madres é o mercado. Vocês se casaram com a nossa Irmandade.”

“Nossa Irmandade?”

“Vocês se reproduziram pelo poder! No que isso é diferente de...”

“Não distorça os fatos, Murbella. Mantenha os olhos na sobrevivência.”

“Não me diga que você não tinha poder.”

“Uma autoridade temporária sobre as pessoas com o propósito de sobrevivência.”

“Sobrevivência novamente!”

“Numa Irmandade que promove a sobrevivência dos outros.

Como a mulher casada que dá à luz crianças.”

“Então isso se reduz à procriação.”

“Essa é uma decisão individual: a família e o que a cerca. O

que deleita a vida e faz a felicidade?”

Murbella começou a rir. Deixou cair as mãos e abriu os olhos, dando com Bellonda que estava lá, observando.

— É sempre uma tentação para uma nova Reverenda Madre

— Bellonda disse. — Bater um papo com a Outra Memória. Quem era desta vez? Dar?

Murbella as sentiu.

— Não confie em nada do que elas lhe dão. É um conhecimento, e você deve julgar por si.

“Exatamente as palavras de Odrade. Olhe para as cenas há muito vividas através dos olhos dos mortos. Que espreita notável!”

— Você pode perder-se aí por horas seguidas — Bellonda disse. — Procure restringir-se. Esteja certa de onde pisa. Uma mão para você e outra para o barco.*

* A expressão em inglês One hand for your self and one for the ship tem como correspondente em português “Um olho no padre, outro na missa”. (N. da T.) ‘

Aí estava de novo! O passado aplicado ao presente. Como a Outra Memória tornava rica a vida cotidiana.

— Isso passa — Bellonda disse. — Torna-se um chapéu velho depois de um tempo. — Ela pôs um relatório em frente de Murbella.

“Chapéu velho! Uma mão para você e outra para o barco.

Tanta coisa certa nas expressões.”

Murbella recostou-se na cadeira linga para examinar o relatório de Bellonda, imaginando-se de repente na expressão de Odrade: “A Rainha Aranha no centro de sua teia.” A teia podia estar um pouco esfiapada nesse momento, mas ainda estava lá, para agarrar as coisas a serem digeridas. Bastava um sinal de disparo e lá vinha Bell correndo, as mandíbulas mexendo-se com antecipação. As palavras de arranque eram “Arquivos” e “Análise”.

Vendo Bellonda sob essa luz, Murbella percebeu a sabedoria nos métodos em que Odrade a tinha empregado, as falhas tão valiosas como os pontos fortes. Quando Murbella terminou o relatório, Bellonda ainda estava lá, de pé, numa atitude característica.

Murbella reconhecia que Bellonda considerava todos os que a convocavam como pessoas que não estavam à altura, que apelavam para os Arquivos por razões frívolas e tinham de ser postos nos eixos. Frivolidade: a bête noire de Bellonda. Achou isso divertido.

Manteve seu divertimento disfarçado, enquanto apreciava Bellonda. A forma de lidar com ela era ser escrupulosa. Nada a subtrair de seus pontos fortes. Este relatório era um modelo de concisão e pertinência de argumento. Manifestava seus pontos de vista com pouca retórica, apenas o suficiente para revelar suas próprias conclusões.

— Você se diverte em me convocar? — perguntou.

“Está mais esperta do que antes! Será que a convoquei? Não exatamente nessas palavras, mas ela sabe quando é necessária.

Diz que aqui nossas Irmãs devem ser modelos de docilidade. A Madre Superiora pode ser qualquer coisa que deseje ser, mas não o resto da Irmandade.”

Murbella tocou o relatório. — Um ponto de partida.

— Então comece antes que suas amigas achem o centro de televigias. — Bellonda sentou-se na cadeira-cão com uma confiança familiar. — Tam foi-se, mas eu poderia mandar buscar Sheeana.

— Onde ela está?

— Na nave. Estudando uma coleção de vermes no Grande Porão. Diz que qualquer uma de nós pode ser ensinada a controlá-los.

— Valioso se for verdadeiro. Deixe-a. E Scytale?

— Continua na nave. Suas amigas ainda não o acharam.

Estamos mantendo-o em segredo.

— Vamos continuar com isso. Ele é um poderoso instrumento de barganha. E elas não são minhas amigas, Bell.

Como estão o Rabino e seu grupo?

— Bem instalados, mas preocupados. Sabem que as Honradas Madres estão aqui.

— Mantenha-os em segredo.

— E estranho. Uma voz diferente, mas estou ouvindo Dar.

— Um eco na sua cabeça. Bellonda riu de verdade.

— Agora, aqui está o que você deve espalhar entre as Irmãs.

Agimos com extrema delicadeza, ao mesmo tempo que nos mostramos como pessoas para se admirar e emular. — “Vocês, Honradas Madres, podem não querer viver como nós, mas podem aprender nossos pontos fortes.”

— Ahhhhh.

— Isso tudo vem a dar na propriedade. As Honradas Madres são possuídas pelas coisas. — “Quero aquele lugar, aquela bugiganga, aquela pessoa.” Pegue o que quiser. Use até fartar-se.

— Enquanto nós vamos pelo caminho, admirando o que vemos. — E aí está nossa falha. Não nos entregamos facilmente.

Medo de amor e afeição! Ser senhor de si tem sua própria ambição.

— “Vê o que possuo? Você não pode tê-lo, a menos que siga meus métodos!” Nunca tomem essa atitude com as Honradas Madres.

— Está me dizendo que devemos amá-las?

— De que outro modo podemos fazê-las admirar-nos? Essa foi a vitória de Jessica. Quando ela entregou, entregou tudo. Tanta coisa refreada pelos nossos métodos e então, a onda esmagadora: tudo entregue. É irresistível.

— Não fazemos concessões com essa facilidade.

— Nem elas.

— Esse é o modo das suas origens burocráticas!

— Ainda assim, é um solo de treinamento para seguir o caminho de menor resistência.

— Você está me confundindo, Da... Murbella.

— Eu disse que deveríamos fazer concessões? As concessões nos enfraquecem, e sabemos que há problemas que as concessões não resolvem, decisões que temos de tomar, mesmo que sejam amargas.

— Fingir que as amamos?

— É um começo.

— Será uma união infame, essa junção de Bene Gesserit com Honradas Madres.

— Sugiro que Compartilhemos o máximo possível. Podemos perder gente, enquanto as Honradas Madres estiverem aprendendo.

— Um casamento no campo de batalha.

Murbella ergueu-se, pensando em Duncan na nave como o vira pela última vez. Lá estava ela finalmente, sem mistérios para ninguém. Uma massa de maquinaria inusitada, estranhamente grotesca. Uma selvagem aglomeração de protuberâncias e ressaltos, sem nenhum propósito aparente. Era difícil imaginá-la erguendo-se por sua própria energia, enorme como era, desaparecendo no espaço.

“Desaparecendo no espaço!”

Ela viu a forma do mosaico mental de Duncan.

“Uma peça que não pode se mover! Harmonize-se... Não pense; faça-o.”

Com uma brusquidão que a gelou, conheceu sua decisão.

Quando se pensa em tomar nas mãos a determinação de seu destino, esse é o momento em que se pode ser esmagado. É

preciso cautela. Levar em conta as surpresas. Quando criamos, há sempre outras forças em ação.

— Darwi Odrade

— Mova-se com extremo cuidado — Sheeana o tinha avisado. Idaho não achava que precisava de avisos, mas de qualquer modo, apreciou a idéia.

A presença das Honradas Madres na Sede da Irmandade facilitava sua tarefa. Elas deixavam as Instrutoras da nave, assim como outras guardas, nervosas. As ordens de Murbella mantinham as suas antigas Irmãs fora da nave, porém todos sabiam que o inimigo estava presente. Os retransmissores mostravam uma corrente aparentemente interminável de navetas vomitando Honradas Madres na Plataforma. A maioria das recém-chegadas parecia curiosa a respeito da monstruosa nave ali pousada, mas ninguém desobedecia à Grande Honrada Madre.

— Não enquanto ela for viva — Idaho murmurava, onde as Instrutoras pudessem ouvi-lo. — Elas têm uma tradição de assassinar suas líderes para substituí-las. Quanto tempo Murbella poderá agüentar-se?

Os televigias faziam o seu trabalho por ele. Sabia que seus resmungos se espalhariam pela nave.

Sheeana veio a ele em seu gabinete logo depois, e fez uma demonstração de censura. — O que está tentando fazer, Duncan?

Você está perturbando as pessoas.

— Volte para seus vermes!

— Duncan!

— Murbella está fazendo um jogo perigoso !Ela é tudo que se interpõe entre nós e o desastre.

Ele já tinha manifestado sua preocupação a Murbella. Não era novo para as vigilantes, mas o reforço fez com que todos os que o ouviam ficassem irritados — os monitores de televigia nos Arquivos, as guardas da nave, todos.

Exceto as Honradas Madres. Murbella as estava mantendo afastadas dos Arquivos de Bellonda.

— Há tempo para isso mais tarde — disse.

Sheeana tinha sua deixa. — Duncan, ou bem você pára de alimentar nossas preocupações ou nos diz o que devemos fazer.

Você é um Mentat. Funcione para nós.

“Ahhh, o Grande Mentat desempenha para que todos vejam.”

— O que vocês devem fazer é óbvio, mas não me diz respeito. Não posso deixar Murbella.

“Mas posso ser levado embora.”

Agora era a vez de Sheeana. Ela o deixou, e foi espalhar sua nova marca de mudança.

“Temos a Dispersão como exemplo.”

Pela noite, todas as Reverendas Madres da nave estavam neutralizadas, e ela lhe deu um sinal de mão de que poderiam dar o próximo passo.

“Elas seguirão o que eu fizer.”

Sem querer, a Missionária tinha preparado o cenário para a ascendência de Sheeana. A maioria das Irmãs conhecia o poder latente que havia nela. Perigoso. Mas presente.

O poder não utilizado era como uma marionete com cordões visíveis, que ninguém segurava. Uma atração irresistível: “Eu poderia fazê-lo dançar.”

Alimentando o logro, ele chamou Murbella.

— Quando a verei?

— Duncan, por favor. — Mesmo na projeção, ela parecia atormentada.

— Estou ocupada. Você conhece as pressões. Estarei fora em poucos dias.

— A projeção mostrou as Honradas Madres no fundo, franzindo o cenho a esse estranho comportamento de sua líder.

Qualquer Reverenda Madre poderia ler em suas faces.

“A Grande Honrada Madre amoleceu? Isso é apenas um homem!”

Quando desligou, Idaho enfatizou o que todos os monitores da nave tinham visto. — Ela está em perigo! Será que não percebe?

“E agora, Sheeana, é com você.”

Sheeana tinha a chave para reinstalar os controles de vôo da nave. As minas tinham sido retiradas. Ninguém poderia destruir a nave no último minuto, com um sinal para explosivos ocultos. Havia somente a carga humana a considerar. Teg principalmente.

“Teg verá minhas escolhas. Os outros — o grupo do Rabino e Scytale — terão que se arriscar conosco.”

Os Futares nas celas de segurança não o preocupavam.

Animais interessantes, mas sem importância no momento. Quanto a Scytale, deu-lhe apenas um pensamento de passagem. O pequeno Tleilaxu permanecia sob os olhos das guardas, que não relaxavam sua vigilância independente de suas outras preocupações.

Foi para a cama com um nervosismo que tinha uma pronta explicação para qualquer cão vigilante dos arquivos. “Sua preciosa Murbella está em perigo.” E ela estava em perigo, mas ele não podia protegê-la. “Minha própria presença é um perigo para ela agora.” Levantou-se de madrugada e voltou ao arsenal, desmontando uma fábrica de armamentos. Sheeana o encontrou lá, e pediu-lhe que se juntasse a ela na seção de guarda.

Um punhado de Instrutoras o cumprimentou. A líder que tinham escolhido não o surpreendeu. Garimi. Tinha ouvido a respeito de seu desempenho na Convocação. Suspeitosa.

Preocupada. Pronta a fazer seu próprio jogo. Era uma mulher de rosto grave. Alguns diziam que ela raramente sorria.

— Desviamos os televigias desta sala — Garimi disse. —

Eles nos mostram fazendo uma refeição e questionando você sobre armas.Idaho sentiu um nó no estômago. O pessoal de Bell localizaria rapidamente uma simulação. Especialmente uma projeção falsificada dele.

Garimi respondeu à sua desaprovação. — Temos aliados nos Arquivos.

Sheeana disse: — Estamos aqui para perguntar se deseja deixar a nave antes de escaparmos.

Sua surpresa era verdadeira.

“Ficar para trás?”

Ele não havia considerado essa hipótese. Murbella não era mais sua. Havia quebrado o vínculo. Ela não aceitava isso. Ainda não. Mas aceitaria na primeira vez que tivesse que tomar uma decisão, pondo-o em perigo pela causa Bene Gesserit. Agora, ela simplesmente ficava longe dele mais tempo que o necessário.

— Você vai Dispersar? — perguntou, olhando para Garimi.

— Salvaremos o que pudermos. Votar com os pés, como era chamado antigamente. Murbella está subvertendo a Bene Gesserit.

Havia um argumento não pronunciado, que ele esperava que as vencesse. Desacordo com o jogo de Odrade.

Idaho respirou fundo. — Vou com vocês.

— Sem arrependimentos — preveniu Garimi.

— Isso é estúpido — disse, dando saída a seu pesar reprimido. Garimi não teria sido surpreendida por essa resposta, partindo de uma Irmã. Idaho a chocou, e ela teve que esperar alguns segundos para se recuperar. A honestidade a compelia.

— Naturalmente que é. Desculpe-me. Está certo de que não quer ficar? Devemos-lhe a oportunidade de tomar sua própria decisão.

“Os melindres da Bene Gesserit com aqueles que a serviam lealmente.”

— Irei com vocês.

A tristeza que viam em seu rosto não era simulada. Mostrou-a abertamente, quando voltou à mesa de comando. “A posição que me foi designada.”

Não tentou esconder suas ações, quando codificou os circuitos de Identificação da nave.

“Aliados nos Arquivos.”

Os circuitos começaram a coriscar nas projeções — fitas coloridas com uma conexão interrompida nos sistemas de vôo. O caminho em volta dessa ruptura era visível após alguns momentos de estudo. As observações Mentat tinham sido preparadas para isso. “Múltiplos através do núcleo.”

Idaho sentou-se e esperou.

A subida foi um momento atordoante de vácuo, que parou abruptamente quando estavam afastados da superfície o suficiente para engatar os campos nulos e entrar nas dobras do espaço.

Idaho observou sua projeção. Lá estavam eles: o velho casal em seu jardim! Ele viu a rede bruxuleante à sua frente, o homem fazendo gestos na direção dela, sorrindo com total satisfação. Eles se moviam numa retransmissão transparente, que revelava os circuitos de nave por trás. A rede tornou-se maior — não linhas, mas fitas mais grossas que os circuitos projetados.

Os lábios do homem formaram as palavras, mas não havia som. “Nós esperávamos vocês.”

As mãos de Idaho foram para a mesa de comando, dedos em leque no campo comunicador para se apoderar dos elementos necessários do controle de circuito. Sem tempo para sutilezas.

Ruptura total. Ele estava no núcleo em um segundo. Daí, era simples descarregar segmentos inteiros. A navegação em primeiro lugar. Ele viu a rede começar a ficar delgada, o olhar de surpresa no rosto do homem. Os campos nulos vinham a seguir. Idaho sentiu a nave dando guinadas nas dobras do espaço. A rede inclinou-se, tornando-se alongada com os dois observadores escorçados e adelgaçados. Idaho apagou os circuitos de memória estelar, levando com eles seus próprios dados.

A rede e os observadores desapareceram.

“Como eu soube que eles estariam lá?”

Ele não tinha resposta, a não ser uma certeza enraizada nas repetidas visões.

Sheeana não ergueu o olhar quando ele a encontrou no painel provisório de controle de combate, nos alojamentos das guardas. Estava curvada sobre o painel, com o olhar fixo consternado. A projeção logo acima mostrava que tinham emergido das dobras do espaço. Idaho não reconheceu nenhum dos padrões estelares visíveis, mas já esperava por isso.

Sheeana girou e olhou para Garimi que estava de pé a seu lado. — Perdemos toda a armazenagem de dados!

Idaho bateu na testa com o indicador. — Não, não perdemos.

— Mas levará anos para recuperar os dados essenciais! —

Sheeana protestou. — O que aconteceu?

— Somos uma nave não identificável num universo não identificável — Idaho disse. — Não é o que queríamos?

Não há segredo no equilíbrio. Basta sentir as ondas.

— Darwi Odrade

Murbella sentiu que tinha-se passado um século desde que reconhecera a decisão de Duncan.

“Desaparecer no espaço! Deixar-me!”

O invariável sentido de tempo adquirido na Agonia dizia-lhe que tinham-se passado apenas alguns segundos, mas ela achou que soubera desde o início.

Ele deve ser detido!

Estava se dirigindo ao painel de comunicações, quando a Central começou a estremecer. O tremor continuou por um tempo interminável e diminuiu devagar.

Bellonda ergueu-se. — O que....

— A não-nave da Plataforma acaba de levantar vôo —

Murbella disse. Bellonda aproximou-se do painel de comunicações, mas Murbella a deteve.

— Já foi.

“Ela não deve ver minha dor.”

— Mas quem... — Bellonda ficou quieta. Tinha sua própria avaliação das conseqüências, e viu o mesmo que Murbella.

Murbella suspirou. Tinha todas as blasfêmias da História à sua disposição e não queria nenhuma.

— No almoço, comerei em minha sala de refeições particular com as conselheiras, e quero que você esteja presente — Murbella disse. — Mande Duana preparar ostras, novamente.

Bellonda começou a protestar, mas tudo o que conseguiu dizer foi: — De novo?

— Lembra-se de que jantei sozinha lá embaixo, ontem à noite? — Murbella retomou seu lugar.

“A Madre Superiora tem obrigações!”

Havia mapas a mudar, rios a seguir e Honradas Madres a domesticar.

“Algumas ondas a derrubam, Murbella. Mas você se levanta de novo e continua. Cai sete vezes, levanta oito. Você pode se equilibrar em superfícies estranhas.”

“Eu sei, Dar. Participação voluntária em seu sonho.”

Bellonda ficou olhando para ela, até que Murbella disse: —

Fiz minhas conselheiras sentarem-se a uma certa distância, ontem à noite. Foi estranho — somente as duas mesas no refeitório inteiro.

“Por que continuo esta conversa vazia? Que desculpas eu tenho para meu comportamento extraordinário?”

— Ficamos nos perguntando por que nenhuma de nós tinha permissão para entrar em nosso próprio refeitório — Bellonda disse.

— Para salvar suas vidas! Mas você devia ter visto o interesse delas. Eu li seus lábios. Angelika disse: — Ela está comendo uma espécie de ensopado. Eu a vi dando ordens à cozinheira. Que mundo maravilhoso, este aqui! Precisamos experimentar esse prato que ela pediu.

— Amostras — Bellonda disse. — Sei. — E então: — Sabia que Sheeana levou o quadro de Van Gogh de... seu quarto de dormir?“Por que isso dói?”

— Notei que não estava lá.

— Disse que o estava tomando emprestado para seu quarto na nave. Os lábios de Murbella comprimiram-se.

“Malditos! Duncan e Sheeana! Teg, Scytale.... todos eles foram embora, e não há meio de segui-los. Mas ainda temos os tanques axlotl e células de Idaho de nossos filhos. Não é o mesmo.... mas parecido. Ele pensa que escapou!”

— Você está bem, Murbella? — Havia preocupação na voz de Bell. “Você me preveniu sobre coisas violentas, Dar, e eu não prestei atenção.”

— Depois do almoço levarei minhas conselheiras num giro de inspeção pela Central. Diga à minha acólita que quero suco de maçã antes de deitar.

Bellonda saiu, resmungando. Isso era mais próprio dela. “Que orientação você me dá agora, Dar?”

“Você quer orientação? Uma excursão com roteiro de sua própria vida? Foi por isso que eu morri?”

“Mas eles levaram o Van Gogh também!”

“É disso que você vai sentir falta?”

“Por que o levaram, Dar?”

Um riso cáustico foi a resposta, e Murbella ficou grata por ninguém ouvir.

“Você não percebe o que ela pretende?”

“O esquema da Missionária!”

“Oh, mais do que isso. É a fase seguinte: Muad’Dib ao Tirano, às Honradas Madres, a nós, a Sheeana.... ao que mais? Você não consegue ver? A coisa está bem aí, na ponta da língua. Aceite como se estivesse engolindo uma bebida amarga.”

Murbella estremeceu.

“Viu? O remédio amargo do futuro de Sheeana? Antigamente pensávamos que todo remédio tinha de ser amargo para fazer efeito. Nenhum poder de cura no que era doce.”

“Tem de acontecer, Dar?”

“Alguns sufocam com esse remédio. Mas os sobreviventes podem criar padrões interessantes.”

Os opostos emparelhados definem os seus desejos e esses desejos os aprisionam.

— O Açoite Zensunni — Você deliberadamente os deixou escapar, Daniel!

A velha esfregou as mãos na frente manchada de seu avental de jardinagem. Era uma manhã de verão, as flores se abrindo, os pássaros chamando das árvores próximas. Havia uma aparência embaciada no céu, um brilho amarelo próximo ao horizonte.

— Ora, Marty, não foi deliberado — Daniel disse. Ele tirou seu chapéu porkpie e esfregou a moita espetada de cabelos grisalhos, antes de repô-lo. — Ele me surpreendeu. Eu sabia que ele nos via, mas não suspeitei que ele visse a rede.

— E eu tinha escolhido um planeta tão bom para eles —

Marty disse. — Um dos melhores. Um verdadeiro teste para suas habilidades.

— Não adianta se lamentar agora — Daniel disse. — Eles estão onde não podemos alcançá-los. No entanto, ele estava tão frágil, que eu esperava pegá-lo com facilidade.

— Eles tinham um Mestre Tleilaxu também — Marty disse.

— Eu o vi quando estavam sob a rede. Eu gostaria tanto de estudar outro Mestre.

— Não vejo por quê. Sempre assobiando para nós, sempre nos obrigando a pisoteá-los. Não gosto de tratá-los assim, e você sabe por quê. Se não fosse por eles...

— Eles não são deuses, Daniel....

— Nem nós.

— Acho que você os deixou escapar. Você é tão aflito para podar suas roseiras!

— De qualquer modo, o que você teria dito ao Mestre? —

Daniel perguntou.

— Eu ia fazer uma brincadeira, quando ele perguntasse quem éramos. Eles sempre perguntam isso. Eu ia dizer: “O que você esperava, o próprio Deus, com uma barba ondulante?”

Daniel riu. — Teria sido engraçado. Eles têm tanta dificuldade em aceitar que os Dançarinos Faciais possam ser independentes.

— Não vejo por quê. É uma conseqüência natural. Eles nos deram o poder de absorver as memórias e experiências de outras pessoas. É só juntar o suficiente e...

— São as personas que pegamos, Marty.

— O que seja. Os Mestres deveriam ter sabido que juntaríamos um número suficiente deles, algum dia, para tomarmos nossas próprias decisões sobre nosso próprio futuro.

— E o deles?

— Oh, eu teria pedido desculpas depois de colocá-lo em seu lugar. Você pode controlar tanto os outros, não é, Daniel?

— Quando você fica com esse ar, Marty, eu vou podar minhas roseiras. — Ele voltou para uma fila de arbustos com folhas verdes e flores negras tão grandes como sua cabeça.

Marty chamou-o: — Se reunirem um numero suficiente de pessoas, terão uma esfera de conhecimento, Daniel! É o que eu lhe teria dito. E aquelas Bene Gesserit na nave! Eu lhes teria dito quantas delas eu tenho. Já notou como parecem alienadas quando percebem que as espreitamos?

Daniel curvou-se sobre suas rosas negras.

Ela o encarou, com as mãos nos quadris.