As Herdeiras de Duna
Folha de Rosto
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 16 partes.
— Impossível. — Um olhar feroz cor de laranja.
— Acha que não sabemos como vocês foram impelidas de volta para cá por seus inimigos?
“Meu lance mais perigoso.”
Odrade observou o efeito de suas palavras. A carranca sombria da Dama não foi sua única resposta. O laranja desapareceu, deixando seus olhos como uma discrepância estranhamente suave no rosto ameaçador.
Odrade assentiu, como se a Dama tivesse respondido. —
Poderíamos deixá-las vulneráveis àqueles que as atacam, aos que as conduziram a este beco sem saída.
— Acha que nós...
— Nós sabemos.
“Pelo menos, agora eu sei.”
O conhecimento dava-lhe, ao mesmo tempo, alegria e medo.
“O que existe lá, que subjuga essas mulheres?”
— Estamos simplesmente reunindo forças antes...
— Antes de retornar a uma arena onde têm certeza de que serão aniquiladas.. . onde não podem contar com números
esmagadores.
A voz da Dama recaiu no Galach macio, que Odrade tinha dificuldade de compreender. — Então eles foram a vocês... e fizeram sua oferta. Que tolas são, por confiarem em...
— Não disse que confiamos.
— Se Logno lá atrás... — aceno de cabeça indicando a auxiliar na sala — ... a ouvisse falar-me assim, você estaria morta em menos tempo do que eu levaria para avisá-la.
— Tenho sorte de estarmos apenas nós duas aqui.
— Não confie na possibilidade de eu levar isso muito adiante. Odrade olhou para a construção por sobre o ombro. As alterações no projeto da Corporação eram visíveis: uma longa fachada de janelas, muita madeira exótica e pedras decorativas.
“Riqueza.”
Ela estava lidando com a riqueza em um extremo difícil de imaginar.
Nada do que a Dama quisesse, nada que pudesse ser proporcionado pela sociedade que lhe era subserviente, seria negado. Nada, a não ser voltar à Dispersão.
Até que ponto a Dama se entregava à fantasia de que seu exílio pudesse ter fim? E qual era a força que tinha mandado esse poder de volta ao Antigo Império? Por que aqui? Odrade não ousava perguntar.
— Continuaremos esta conversa em meus aposentos — a Dama disse.
“No covil da Rainha Aranha, finalmente!”
Os alojamentos da Dama eram, de certa forma, um enigma.
Não ricamente acarpetado. Ela chutou as sandálias ao entrar, ficando descalça. Odrade fez o mesmo.
“Veja a calosidade na parte de fora dos pés! Armas perigosas conservadas em bom estado.”
Não apenas o chão macio, mas a sala inteira intrigava Odrade. Uma janela pequena dando para o bem cuidado jardim botânico. Nada suspenso nas paredes, nem mesmo quadros.
Nenhuma decoração. A grade de um respiradouro lançava sombras listradas acima da porta por onde tinham entrado. Uma outra porta à
direita. Outro respiradouro. Dois sofás cinza-claro. Duas mesinhas em negro brilhante. Uma outra mesa grande, em tons dourados, com uma tênue luz verde na superfície, indicando um campo de controle. Odrade identificou o contorno retangular de um projetor embutido na mesa.
“ Ahhh, este é o seu gabinete de trabalho. Estamos aqui para trabalhar?”
Havia uma concentração refinada no lugar. As distrações tinham sido eliminadas com cuidado. Que distrações a Dama aceitaria?
“Onde estão as salas decoradas? Ela tem de viver num ambiente que lhe seja próprio. Não se pode sempre formar barreiras para rejeitar coisas que impressionam desfavoravelmente a psique.
Quando se deseja conforto verdadeiro, a casa não pode estar disposta de um modo que ataque a pessoa, especialmente com relação a ataques ao inconsciente. Isso é verdadeiramente perigoso, mas ela tem o poder de dizer ‘Sim’.”
Era uma antiga compreensão Bene Gesserit. Procuravam-se as pessoas que podiam dizer “Sim”. Nunca se preocupe com subalternos que somente podem dizer “Não”. Procurava-se aquele que podia fazer um acordo, assinar um contrato, pagar uma promessa. A Rainha Aranha não dizia “Sim” freqüentemente, mas tinha o poder de fazê-lo, e sabia disso.
“Eu devia ter compreendido, quando ela me puxou de lado.
Deu-me o primeiro sinal quando permitiu que eu a chamasse de Dama. Teria sido precipitada, dando início ao ataque de Teg de um modo que não posso interromper? Tarde demais para reflexões tardias. Sabia disso quando lhe dei liberdade.
“Mas que forças poderemos atrair?”
Odrade tinha registrado o padrão dominante da Rainha Aranha. As palavras e os gestos podiam fazê-la recolher-se, aniquilando-se na consciência intensa das batidas de seu próprio coração.
“O drama tem de continuar.”
A Dama estava fazendo algo com as mãos no campo verde, na superfície da mesa dourada. Estava concentrada nisso,
ignorando Odrade de um modo que era ao mesmo tempo um insulto e um cumprimento.
“Você não vai interferir, bruxa, porque esse não é seu melhor interesse e você sabe disso. Além do mais, você não é importante o suficiente para me distrair.”
A Dama parecia agitada.
“O ataque a Gammu teria sido bem-sucedido? Os refugiados estarão começando a chegar?”
Um olhar feroz cor de laranja focalizou Odrade. — Seu piloto acabou de se destruir juntamente com a nave, para não se submeter à inspeção. O que vocês trouxeram?
— Nós mesmas.
— Há um sinal que vem de você!
— Dizendo a minhas companheiras se estou viva ou morta.
Você já sabia disso. Alguns de nossos ancestrais queimavam suas naves antes de um ataque. Não há retirada possível.
Odrade falava com cuidado intenso, ajustando o tom e o compasso às respostas da Dama. — Se eu for bem-sucedida, você providenciará meu transporte. Meu piloto era um Cyborg, e o shere não podia protegê-lo de suas sondas. Tinha ordens de matar-se caso caísse em suas mãos.
— Dando-nos coordenadas a respeito de seu planeta. — O
laranja diminuiu nos olhos da Dama, mas ela ainda se mostrava perturbada. — Não sabia que seu povo lhe obedecia a esse ponto.
“Como você os domina sem aprisioná-los sexualmente, bruxa? A resposta não está clara? Temos poderes secretos.”
“Cuidado, agora”, Odrade disse para si mesma. “Uma abordagem metódica, alerta a novas exigências. Deixe-a pensar que escolhemos um método de reação e nos atemos a ele. Quanto ela sabe a nosso respeito? Ela não sabe nem mesmo que a Madre Superiora pode ser uma boa isca, um chamariz para conseguir informações vitais. Isso nos torna superiores? Nesse caso, o treinamento superior pode sobrepujar a velocidade e o número superiores?”
Odrade não tinha resposta.
A Dama sentou-se atrás da mesa dourada, deixando Odrade de pé. Havia uma sensação de aninhar-se nesse movimento. Ela não saía muito desse lugar. Esse era o verdadeiro centro de sua teia. Todas as coisas que ela pensava precisar estavam aqui.
Trouxera Odrade a esta sala porque era um inconveniente estar em outro lugar. Sentia-se pouco à vontade em outros ambientes, talvez mesmo ameaçada. A Dama não cortejava o perigo. Tinha feito isso outrora, mas fora há muito tempo, uma experiência abandonada em algum lugar, no passado. Agora queria apenas sentar-se aqui num casulo seguro e bem organizado, onde podia manipular os outros.
Odrade achou essas observações uma afirmação bem-vinda das deduções Bene Gesserit. A Irmandade sabia como explorar esse poder.
— Não tem mais nada a me dizer? — a Dama perguntou.
“Ganhe tempo.”
Odrade arriscou uma pergunta. — Estou extremamente curiosa em saber por que concordou com o encontro.
— Por que está curiosa?
— Parece tão... tão em desacordo com vocês.
— Nós determinamos o que é adequado para nós! —
Bastante questionadora.
— Mas qual é o seu interesse em nós?
— Pensa que as achamos interessantes?
— Talvez até nos achem notáveis, porque é assim que as encaramos. Uma expressão satisfeita apareceu, de modo fugitivo, no rosto da Dama.
— Eu sabia que ficariam fascinadas conosco.
— O que é exótico interessa-se pelo exótico — Odrade disse. Isso trouxe um sorriso sagaz aos lábios da Dama, o sorriso de alguém cujo bichinho de estimação fez algo inteligente.
Levantou-se e dirigiu-se à janela. Chamando Odrade para seu lado, fez um gesto para um grupo de árvores adiante dos arbustos floridos e falou naquela inflexão macia, tão difícil de acompanhar.
Algo fez soar um alarme interior. Odrade entrou em simulfluxo, pesquisando a fonte. Alguma coisa no quarto da Rainha
Aranha? Havia uma falta de espontaneidade, combinada com muito do que a Dama fazia. Então, tudo isso tinha sido planejado para criar um efeito. Cuidadosamente articulado.
“Esta será realmente minha Rainha Aranha? Ou haverá uma outra, mais poderosa, observando-nos agora?”
Odrade explorou essa idéia, pondo os pensamentos rapidamente em ordem. Era um processo que oferecia mais perguntas que respostas, uma taquigrafia mental semelhante à dos Mentats. Separe o que é relevante e faça emergir a base latente (mas em ordem). A ordem era, geralmente, um produto da atividade humana. O caos existia como matéria-prima, de onde se extraía a ordem. Essa era a abordagem Mentat, que propiciava não-verdades inalteradas, mas uma notável alavanca para a tomada de decisão: reunião ordenada de informações num sistema não isolado.
Chegou a uma Projetiva.
“Elas se realizam no caos! Preferem essa condição! Viciadas em adrenalina!”
Então a Dama era a Dama, a Grande Honrada Madre. Eterna padroeira, eterna superiora.
“Não existe nenhuma outra maior nos observando. Mas a Dama acredita que isto seja uma negociação. Chega-se a pensar que ela nunca fez isso antes. Precisamente!”
A Dama tocou um ponto abaixo da janela, onde não havia nenhuma marca visível, e a parede deslocou-se, mostrando que a janela era simplesmente um artifício engenhoso. Abria-se para uma varanda alta, revestida de azulejos verde-escuro. Dava vista para plantações muito diferentes daquelas que se observavam pela janela. Aqui o caos estava preservado, a terra inculta deixada a seu próprio destino e tornada mais evidente pelos jardins ordenados que se viam à distância. Sarças, árvores caídas, arbustos espessos. E
além: filas criteriosamente espaçadas do que pareciam ser legumes e verduras, com ceifadoras automáticas passando de cá para lá, deixando o solo escalvado atrás de si.
“Amor ao caos, verdadeiramente!”
A Rainha Aranha sorriu e dirigiu-se à varanda.
Quando se aproximou, Odrade uma vez mais foi interrompida pelo que viu. Uma decoração no parapeito à sua esquerda. Uma figura em tamanho natural, feita de uma substância quase etérea, toda cheia de planos leves e superfícies curvas.
Quando olhou melhor, Odrade percebeu que a intenção era representar uma figura humana. Homem ou melhor? Em algumas posições, homem; em outras, mulher. Fios delgados, quase invisíveis (parecia shigafio) a mantinham suspenso de um tubo levemente curvo, preso a um globo translúcido. As extremidades inferiores da figura quase tocavam a superfície granulada da base de sustentação.
Odrade fixou o olhar, cativada.
“Por que isso me lembra ‘O Vácuo’ de Sheeana?”
Quando o vento a movimentava, a obra parecia dançar, recaindo às vezes num andar gracioso, depois uma curta pirueta e voltas rápidas com a perna estendida.
— Chama-se o “Mestre de Bale” — a Dama disse. —
Conforme o vento, ele atira os pés bem alto. Já o vi correr tão graciosamente como um maratonista. Às vezes só faz pequenos movimentos feios, agitando os braços como se estivesse segurando armas. Belo e feio — é tudo o mesmo. Acho que o artista não lhe deu o nome apropriado. “Ser Desconhecido” teria sido melhor.
“Belo e feio — tudo o mesmo. Ser Desconhecido.”
Isso é que era terrível a respeito da obra de Sheeana.
Odrade sentiu um calafrio de medo. — Quem foi o artista?
— Não tenho a menor idéia. Uma de minhas predecessoras trouxe-o de um planeta que destruímos. Por que isso a interessa?
“É a coisa selvagem que ninguém governa.” Mas disse: —
Acredito que nós duas estejamos procurando uma base para um entendimento, tentando encontrar semelhanças entre nós.
Isso trouxe de volta o laranja em seus olhos. — Vocês podem tentar nos compreender, mas nós não temos necessidade de entendê-las.
— Nós duas viemos de sociedades de mulheres.
— E perigoso pensar em nós como suas ramificações.
“Mas o depoimento de Murbella diz que são. Formadas na Dispersão pelas Oradoras Peixes e as Reverendas Madres in extremis!”
Muito ingênua e sem enganar ninguém, Odrade perguntou:
— Por que é perigoso?
O riso da Dama não revelava divertimento. Era vingativo.
Odrade sentiu um novo surto de medo.
O que se exigia aqui era mais que uma investigação-exame Bene Gesserit. Essas mulheres estavam acostumadas a matar, quando irritadas. Um reflexo. E a Dama demonstrara isso quando falara a sua ajudante. E agora, dera sinais de que havia limites para sua tolerância.
“Entretanto, a seu modo, ela está tentando negociar. Exibe suas maravilhas mecânicas, seus poderes, suas riquezas. Nenhuma oferta de aliança. Sejam humildes servas, bruxas, nossas escravas, e perdoaremos muito. Para conseguir o último dos Milhões de Planetas? Mais do que isso, certamente, mas um número interessante.”
Com uma nova cautela, Odrade reformulou sua abordagem.
As Reverendas Madres caíam no padrão adaptativo com muita facilidade. “Sou, naturalmente, muito diferente de você, mas cedo, em benefício do acordo.” Isso não funcionaria com as Honradas Madres. Elas não aceitariam nada que sugerisse a inexistência de seu controle absoluto. O fato de permitir a Odrade tanta latitude era uma declaração da superioridade da Dama sobre suas Irmãs.
Uma vez mais, a Dama falou de seu modo imperioso.
Odrade ouvia. Era estranho que a Rainha Aranha pensasse que o que havia de mais atraente nas coisas proporcionadas pela Bene Gesserit fosse a imunidade a doenças.
“Teria sido essa a forma de ataque que as expulsou para cá?”
Sua sinceridade era ingênua. Nada de cansativos check-ups periódicos para detectar habitantes secretos em sua carne. Às vezes não tão secretos. Repulsivamente perigosos, até. Mas a Bene Gesserit acabaria com tudo isso e seria devidamente recompensada.
“Que agradável.”
Ainda o tom vingativo em cada palavra. Odrade surpreendeu-se pensando: Vingativo? Não exatamente. Algo existente em nível mais profundo.
“Inconscientemente estão ciumentas do que perderam quando romperam conosco!”
Era um outro padrão que fora estilizado!
As Honradas Madres recaíam em maneirismos repetitivos.
“Maneirismos que abandonamos há muito.”
Isso era muito mais que uma recusa em reconhecer as origens Bene Gesserit. Era uma remoção de lixo.
“Deixe cair o seu lixo onde quiser. Os subalternos o recolherão. Ela está mais preocupada com seu próximo objeto de consumo do que com o fato de estar sujando seu próprio ninho.”
O defeito da Honrada Madre era maior do que se supunha.
Muito mais mortais a si mesmas e a tudo que controlavam. E elas não podiam encarar o fato, porque, para elas, não estava lá.
“Nunca existiu.”
A Dama permanecia um paradoxo intocável. Não lhe passava pela cabeça nenhuma possibilidade de aliança. Ela parecia brincar com a idéia, mas apenas para testar o inimigo.
“Eu estava certa em desatrelar Teg.”
Logno entrou no gabinete com uma bandeja, onde repousavam dois copos altos, quase totalmente cheios de um líquido dourado. A Dama pegou um, cheirou-o e tomou um gole com uma expressão satisfeita.
“Que brilho maldoso era esse nos olhos de Logno?”
— Experimente um pouco deste vinho — a Dama disse, fazendo um gesto a Odrade. — E de um planeta do qual nunca ouviu falar, tenho certeza, mas onde concentramos os elementos necessários para produzir a uva dourada perfeita para o perfeito vinho dourado.
Odrade foi surpreendida por essa antiga associação dos humanos com sua preciosa bebida. O deus Baco. Bagos fermentados nos arbustos ou nos recipientes tribais.
— Não tem veneno — a Dama disse, ao ver a hesitação de Odrade. — Asseguro-lhe. Matamos quando é necessário, mas não
somos estúpidas. Guardamos a matança espalhafatosa para as massas. E não a considero uma representante das massas.
A Dama riu de seu próprio humor. A familiaridade elaborada era quase grosseira.
Odrade pegou o copo que lhe era oferecido e provou-o.
— É uma coisa que alguém planejou para nos agradar — a Dama disse, com a atenção fixa em Odrade.
Um único gole era suficiente. Os sentidos de Odrade detectaram uma substância estranha, cujo propósito da levou várias batidas de coração para identificar.
“Para anular o shere que me protege das sondas.”
Ajustou o metabolismo para tornar a droga inofensiva, e depois anunciou o que tinha feito.
A Dama dirigiu um olhar feroz a Logno. — É por isso que nenhuma dessas coisas funciona com as bruxas! E você nunca suspeitou! — A raiva era uma força quase física, dirigida à infeliz auxiliar. — É um dos sistemas de imunidade com que combatemos as doenças — Odrade disse.
A Dama arremessou o copo no chão. Levou algum tempo para readquirir a compostura. Logno afastou-se devagar, segurando a bandeja quase como um escudo.
“Então a Dama fez mais do que esgueirar-se em direção ao poder. Suas Irmãs a consideram mortal. E assim devo considerá-la.”
— Alguém pagará por este esforço inútil — a Dama disse.
Seu sorriso não era agradável.
“Alguém.
“Alguém fez o vinho. Alguém fez a figura dançante. Alguém pagará. A identidade não era importante, somente o prazer ou a necessidade de retribuição. Subserviência.”
— Não interrompa meus pensamentos — a Dama disse.
Dirigiu-se ao parapeito e deteve o olhar no Ser Desconhecido, obviamente para recompor a postura de negociação.
Odrade voltou a atenção para Logno. O que era essa vigilância continuada, essa atenção absorta fixada na Dama? Não
era mais um simples medo. Subitamente, ela parecia extremamente perigosa.
“Veneno!”
Odrade tinha tanta certeza como se a ajudante tivesse gritado a palavra.
“Não sou eu o seu alvo. Ainda não. Ela aproveitou esta oportunidade para fazer seu lance no poder.”
Não havia necessidade de olhar para a Dama. O momento de sua morte era visível no rosto de Logno. Voltando-se, Odrade confirmou-o. A Dama era um volume no chão, abaixo do Ser Desconhecido.
— Você me chamará de Grande Honrada Madre — Logno disse. — E aprenderá a me agradecer por isso. Ela (apontando para o monte vermelho no canto da varanda) pretendia traí-la e exterminar seu povo. Eu tenho outros planos. Não sou daquelas que destroem uma arma útil no momento de nossa maior necessidade.
Batalha? Há sempre um desejo de espaço para respirar, motivando-a em algum lugar.
— O Bashar Teg
Murbella observava a luta para tomar o Entroncamento com uma indiferença que não refletia seus sentimentos. Ficava no comando central de sua não-nave, rodeada por um círculo de Instrutoras, mantendo a atenção fixa na transmissão de projeções dos televigias de solo.
Havia batalhas por volta de todo o Entroncamento —
explosões de luz no escuro, erupções cinzentas durante o dia. Um grande combate dirigido por Teg centrado na “Cidadela” — uma elevação gigantesca projetada pela Corporação com uma nova torre próxima da extremidade. Embora os sinais vitais de Odrade tivessem parado abruptamente nas transmissões, relatórios anteriores confirmavam que a Grande Honrada Madre estava lá.
A necessidade de observar à distância ajudava o senso de imparcialidade de Murbella, mas ainda assim ela sentia a excitação.
“Tempos interessantes!”
Esta nave transportava uma carga preciosa. Os milhões de Lâmpadas estavam sendo Compartilhados e preparados para Dispersão numa suíte comumente reservada para a Madre Superiora. A Irmã inculta com sua carga de Memória tinha prioridade dominante aqui.
“O Ovo de Ouro, com toda a certeza!”
Murbella pensou nas vidas que estavam sendo arriscadas naquela suíte. Preparando-se para o pior. Não havia falta de voluntárias, e a ameaça representada pelo conflito do Entroncamento minimizava a necessidade do veneno da especiaria para inflamar o Compartilhar, reduzindo o perigo. Qualquer um nesta nave podia sentir o tudo-ou-nada na jogada de Odrade. Reconhecia-se a ameaça iminente da morte. Era necessário Compartilhar!
A transformação de uma Reverenda Madre em conjuntos de lembranças passadas entre as Irmãs a um custo perigoso não possuía mais aquela aura de mistério para Murbella, mas assim mesmo ela estava cheia de reverência pela responsabilidade. A coragem de Rebecca... e de Lucilla!... exigia admiração.
“Milhões de Vidas de Lembranças! Todas concentradas no que a Irmandade denominava Extremis Progressiva, de duas em duas, depois de quatro em quatro, de dezesseis em dezesseis, até
que cada uma possuísse todas elas e qualquer sobrevivente pudesse preservar a acumulação preciosa.”
O que elas estavam fazendo nos aposentos da Madre Superiora tinha um pouco desse sabor. O conceito não mais aterrorizava Murbella, mas, ainda assim, não era comum. As palavras de Odrade davam algum conforto.
“Uma vez que você tenha se adaptado ao fardo da Outra Memória, tudo o mais entra numa perspectiva que é completamente familiar, como se você sempre a tivesse conhecido.”
Murbella reconhecia que Teg estava preparado para morrer em defesa dessa consciência múltipla que era a Irmandade da Bene Gesserit.
“Posso fazer menos?”
Teg, não mais um enigma completamente, permanecia um objeto de respeito. A Odrade Interior amplificava isso com lembretes de suas explorações, então: “Imagino como estarei me saindo lá.
Pergunte.”
O comando dizia: — Nenhuma palavra. Mas suas transmissões podem ter sido bloqueadas por interferência na energia.Eles sabiam quem tinha feito a pergunta. Estava expresso no rosto de todos.
“Ela possui Odrade!”
Murbella focalizou novamente a batalha na Cidadela.
Suas próprias reações a surpreendiam. Tudo estava colorido pelo desgosto histórico diante da repetição do absurdo da guerra, mas mesmo assim esse espírito exuberante se regozijando pelas capacidades recém-adquiridas da Bene Gesserit.
As forças das Honradas Madres tinham boas armas, ela percebeu, e os abafadores de absorção de calor de Teg estavam sendo atacados, mas mesmo enquanto ela assistia a isso, o perímetro defensivo caiu. Podia ouvir gritos lamentosos quando um grande destruidor projetado por Idaho abriu caminho saltando por entre as árvores altas, nocauteando os defensores à esquerda e à direita.
A Outra Memória forneceu-lhe uma comparação peculiar. Era como um circo. As naves aterrissando, vomitando sua carga humana.
“No centro da arena! A Rainha Aranha! Atos nunca vistos anteriormente por olhos humanos!”
A persona de Odrade deu-lhe uma sensação de divertimento.
“Que tal isto para a união da Irmandade?”
“Você está morta aí, Dar? Deve estar. A Rainha Aranha vai culpá-la e ficará furiosa.”
Viu, na alameda de ataque de Teg, árvores projetando as sombras compridas da tarde. Um convite à cobertura. Ele ordenou a seu pessoal que se desviasse. Ignorem as avenidas convidativas.
Usem os caminhos de abordagem difícil.
A Cidadela ficava num jardim botânico gigantesco, onde árvores estranhas misturavam-se a arbustos ainda mais estranhos em meio a plantações prosaicas, tudo espalhado como se tivesse sido lançado aí pela mão de uma criança dançarina.
Murbella achou a metáfora do circo atraente. Dava uma perspectiva ao que ela testemunhava.
Anúncios em sua mente.
“Lá adiante, animais dançantes, defensores da Rainha Aranha, todos obrigados a obedecer! E na Arena Um, o acontecimento principal, supervisionado por nosso Mestre da Arena, Miles Teg! Seu pessoal faz coisas misteriosas. Aqui está o talento!”
Tinha aspectos de uma batalha encenada no Circo Romano.
Murbella gostou da alusão. Tornava a observação mais rica.
“Aproximam-se torres de batalha cheias de soldados em armaduras. Eles lutam. Chamas cortam o céu. Corpos caem.”
Mas estes eram corpos verdadeiros, dores verdadeiras, mortes reais. A sensibilidade Bene Gesserit forçou-a a lamentar a perda. “Isto será igual ao que aconteceu a meus pais quando foram apanhados no ataque?” As metáforas da Outra Memória desapareceram. Ela então viu o Entroncamento do modo como Teg o via, provavelmente. Violência sangrenta, familiar na memória, mas mesmo assim, nova. Via os atacantes avançando, ouvia-os.
Uma voz de mulher, destacada pelo choque: — Aquele arbusto gritou para mim!
Outra voz, de homem: — Não há meios de se descobrir de onde vêm. Essa coisa pegajosa queima a pele.
Murbella ouvia a ação na parte afastada da Cidadela, mas tornava-se assustadora bem em volta da posição de Teg. Ela via suas tropas moverem-se rapidamente pelas sombras, aproximando-se da torre. Lá estava Teg nos ombros de Streggi. Ele deteve o olhar por um momento na fachada à sua frente a meio quilômetro de distância. Escolheu a projeção que tinha o mesmo ponto de vista.
Havia movimento atrás das janelas.
Onde estariam as misteriosas armas de último recurso que as Honradas Madres tinham a fama de possuir?
“O que ele fará agora?”
Teg tinha perdido seu Pod* de Comando num golpe de laser fora da área principal de conflito. O pod estava caído atrás dele e Teg, a cavalo nas costas de Streggi, erguia-se num canteiro de arbustos de camuflagem, alguns ainda fumegantes. Tinha perdido seu painel de comunicações junto com o pod, mas ainda retinha o cinto comunicador, embora estivesse parcialmente inutilizado devido à perda dos amplificadores do pod. Os especialistas em comunicações agachavam-se ao redor, agitando-se porque tinham perdido o contato direto com a ação.
* Um compartimento destacável, numa espaçonave, para abrigar pessoal ou instrumentos. (N. da T.)
A batalha além dos edifícios tornou-se mais ruidosa. Ele ouvia gritos ásperos, o sibilar agudo dos combustores e o zumbido mais baixo das grandes armas laser, misturados aos pequenos zip-zaps das armas manuais. Em algum lugar à sua esquerda, ouviu um som áspero que ele reconheceu como o de uma blindagem pesada com problemas. O rangido denunciava a agonia do metal. O sistema de energia estava danificado. Arrastava-se pelo chão, provavelmente fazendo desordem nos jardins.
Haker, o ajudante pessoal de Teg, vinha esquivando-se pela alameda atrás do Bashar.
Streggi percebeu primeiro sua presença, voltando-se sem avisar, forçando Teg a olhar para o homem. Haker, escuro e musculoso, com espessas sobrancelhas (molhadas de suor, agora), parou diretamente na frente de Teg e falou, antes de recobrar completamente o fôlego:
— Temos os últimos redutos sob controle, Bashar.
Haker elevou a voz para sobrepor-se aos sons da batalha e ao zumbido acima de seu ombro esquerdo, um grasnado de conversas em voz baixa — a urgência da batalha mantida em tons moderados.
— O perímetro afastado? — Teg interpelou.
— Desimpedido em meia hora, não mais. Deveria sair daqui, Bashar. A Madre Superiora disse que o mantivéssemos afastado de perigos desnecessários.
Teg fez um gesto indicando seu pod inutilizado. — Por que não tenho um comunicador de reserva?
— Os dois aparelhos de reserva foram destruídos pelo mesmo fogo, quando estavam sendo entregues.
— Estavam juntos?
Haker percebeu a irritação. — Sim, senhor, eles estavam...
— Um equipamento importante não pode ser enviado em conjunto. Vou saber quem desobedeceu as minhas ordens. — A pequena voz produzida pelas cordas vocais ainda imaturas continha mais ameaça que um grito.
— Sim, Bashar. — Estritamente obediente, e nenhum sinal por parte dele de que o erro fosse seu.
“Maldição!” — Quando chegarão os substitutos?
— Em cinco minutos.
— Traga meu pod de reserva o mais depressa que puder. —
Teg tocou o pescoço de Streggi com o joelho.
Haker falou antes que ela pudesse voltar-se. — Bashar, eles pegaram o de reserva também. Já mandei vir outro.
Teg reprimiu um suspiro. Essas coisas costumavam acontecer em combate, mas ele não gostava de depender de
comunicadores primitivos. — Ficaremos aqui. Consiga mais transmissores individuais. — Esses, pelo menos, eram feitos em série. Haker olhou a vegetação em torno. — Aqui?
— Não gosto da aparência desses edifícios lá adiante.
Aquela torre comanda a área. E eles devem ter acesso pelo subsolo. Eu teria.
— Não há nada na...
— O plano da minha lembrança não inclui aquela torre.
Traga os detectores de som para verificar o solo. Quero nosso plano elaborado em minúcias, com informação segura.
O transmissor de Haker deu sinal de vida com uma voz dominante: — Bashar! O Bashar pode atender?
Streggi transportou-o para perto de Haker sem que lhe fosse mandado. Teg pegou o transmissor, assobiando seu código, enquanto o segurava.
— Bashar, está uma confusão aqui na Plataforma. Uma centena deles tentou subir e foi de encontro à nossa tela. Não há sobreviventes.
— Algum sinal da Madre Superiora ou de sua Rainha Aranha?
— Negativo. Não podemos dizer. Quero dizer, está uma verdadeira confusão. Quer que eu lhe mande uma visão por tela?
— Mande-me um despacho. E continue procurando Odrade!
— Digo-lhe que ninguém sobreviveu aqui, Bashar. Houve um clique e um zumbido baixo, depois uma outra voz: — Despacho.
Teg tirou de sob o queixo o codificador de impressão de voz e gritou algumas ordens. — Faça avançar uma nave batedora sobre a Cidadela. Coloque a cena da Plataforma de Aterrissagem e de seus outros desastres em transmissão aberta. Todos os grupos.
Certifique-se de que todos possam ver. Anuncie que não há sobreviventes na Plataforma.
O duplo clique de receber-confirmar interrompeu a ligação.
Haker disse: — Acha mesmo que pode aterrorizá-las?
— Eduque-as. — Ele repetiu as palavras de despedida de Odrade: “Sua educação tem sido tristemente abandonada.”
O que teria acontecido a Odrade? Tinha certeza de que ela deveria estar morta, talvez a primeira baixa aqui. Ela esperara isso.
Morta, mas não perdida, se Murbella pudesse conter sua impetuosidade.
Odrade, nesse momento, tinha Teg inteiramente visível, do ponto em que ela estava, na torre. Logno silenciara as transmissões de seus sinais vitais com um escudo contra-sinalizador, e trouxera-a para a torre logo após a chegada dos primeiros refugiados de Gammu. Ninguém questionou a supremacia da antiga auxiliar. Uma Grande Honrada Madre morta e outra viva era simplesmente algo muito familiar.
Esperando ser morta a qualquer instante, Odrade ainda reunia informações, enquanto subia num nultubo com guardas. O
tubo era um artefato da Dispersão, um pistão transparente dentro de um cilindro também transparente. Havia poucas paredes obstruindo os andares por onde passavam. Eram principalmente vistas de áreas de moradia e maquinaria esotérica, que Odrade supunha ter propósitos militares. Demonstração exagerada de conforto e a quietude aumentando à medida que subiam.
“O poder se eleva física e psicologicamente.”
Aqui elas estavam, no topo. Uma parte do tubo cilíndrico projetou-se para fora e uma guarda empurrou-a com rudeza sobre um chão acarpetado espessamente.
“O gabinete de trabalho que a Dama mostrou lá embaixo era outra montagem.”
O sigilo era evidente. O equipamento e o mobiliário aqui teriam sido quase irreconhecíveis, não fosse pelo conhecimento de Murbella. Assim, os outros centros de ação eram para exibição.
Aldeias Potemkin construídas para a Reverenda Madre.
“Logno mentiu a respeito das intenções da Dama. Esperava-se que eu saísse incólume... sem levar nenhuma informação útil.”
Que outras mentiras desfilariam à sua frente?
Logno e todas as guardas, com exceção de uma, dirigiram-se a uma mesa de comando à direita de Odrade. Girando sobre um pé, Odrade olhou em volta. Este era o centro verdadeiro. Estudou-o com cuidado. Lugar estranho. Possuía uma aura sanitária. Tratado
com produtos químicos, para a limpeza. Nenhuma contaminação por bactéria ou vírus. Nada estranho no sangue. Tudo depurado como um mostruário de iguarias finas. E a Dama mostrou interesse na imunidade a doenças conseguida pela Bene Gesserit. Havia guerra bacteriológica na Dispersão.
“Elas querem uma única coisa de nós!”
E uma única Reverenda Madre simplesmente já as deixaria satisfeitas, caso pudessem extorquir-lhe informações.
Um quadro completo de oficiais Bene Gesserit teria de examinar os fios dessa teia para ver aonde ela os levaria.
“Se vencermos.”
A mesa de operações onde Logno concentrava a atenção era menor do que as do mostruário. Manipulação por campo digital. O
capacete numa mesinha ao lado de Logno era menor e transparente, revelando um emaranhado de sondas, como tentáculos.
“Shigafio, sem dúvida.”
O capacete mostrava bastante afinidade com as Sondas-T da Dispersão, que Teg e os outros haviam descrito. Essas mulheres possuiriam mais maravilhas tecnológicas? Devem possuir.
Uma brilhante parede atrás de Logno, janelas à sua esquerda, dando para uma sacada, uma vista distante do Entroncamento lá fora com movimento de tropas e blindagem.
Reconheceu Teg à distância, uma figura nas costas de um adulto, mas não deu nenhum sinal de que vira algo extraordinário.
Continuou seu estudo vagaroso. Uma porta para uma passagem com outro nultubo parcialmente visível numa área separada bem à sua esquerda. Mais azulejos verdes no chão desse lugar. Funções diferentes nesse espaço.
Uma súbita explosão de ruídos irrompeu além da parede.
Odrade identificou alguns. As botas de soldados produziam um som característico nos azulejos. Ruge-ruge de tecidos exóticos. Vozes.
Distinguiu as inflexões das Honradas Madres respondendo entre si em tom chocado.
“Estamos vencendo!”
Esperava-se que houvesse um choque quando o invencível era rebaixado. Estudou Logno. Seria um mergulho no desespero?
“Se for, ainda poderei sobreviver.”
O papel de Murbella poderia ser modificado. Bem, isso podia esperar. As Irmãs tinham sido instruídas sobre o que fazer no caso de serem vitoriosas. Nem elas nem ninguém mais na força de ataque seria rude com uma Honrada Madre — de modo erótico ou qualquer outro. Duncan tinha preparado os homens, expondo inteiramente os perigos da cilada sexual.
“Não se arrisquem a fazer nenhum cativeiro. Não despertem novos antagonismos.”
A nova Rainha Aranha revelava-se agora como alguém ainda mais estranho do que Odrade suspeitara. Logno deixou a mesa de comando e aproximou-se de Odrade. — Vocês venceram esta batalha. Somos seus prisioneiros.
Não havia laranja em seus olhos. Odrade passou rapidamente o olhar pelas mulheres que tinham sido suas guardas.
Expressões vazias, olhos claros. Era assim que elas demonstravam desespero? Não parecia certo. Logno e as outras não revelavam nenhuma resposta emocional prevista.
“Tudo mantido em segredo?”
Os acontecimentos das horas precedentes deveriam criar uma crise emocional. Logno não deu sinal dela. Nenhuma crispação reveladora de nervo ou músculo. Talvez uma preocupação casual, e isso era tudo.
“Uma máscara Bene Gesserit!”
Tinha de ser inconsciente, alguma coisa automática, inflamada pela derrota. Então elas não aceitavam a derrota realmente.
“Estamos ainda presentes nelas. Latentes... porém ainda arraigadas! Não é de admirar que Murbella quase tenha morrido. Ela se defrontou com seu próprio passado genético como uma proibição suprema.”
— Minhas companheiras — Odrade disse. — As três mulheres que vieram comigo. Onde estão?
— Mortas. — A voz de Logno era tão sem vida como a palavra. Odrade sentiu por Suipol. Tam e Dortujla tinham vivido vidas longas e proveitosas, mas Suipol... morta sem nunca ter Compartilhado. “Outra de valor que se perde. Que lição amarga!”
— Identificarei os responsáveis, se desejar vingar-se —
Logno disse. “Lição dois.”
— A vingança é para as crianças e os retardados emocionalmente. Um pequeno retorno do laranja aos olhos de Logno.A autodesilusão humana tomava muitas formas, lembrou-se Odrade. Consciente de que a Dispersão produziria o inesperado, armara-se adequadamente com um distanciamento protetor que lhe permitiria avaliar novos lugares, novas coisas e novas pessoas.
Sabia que seria forçada a colocar muitas coisas em diferentes categorias para servi-la ou para desviar ameaças. Tomou a atitude de Logno como uma ameaça.
— Não parece perturbada, Grande Honrada Madre.
— Outros me vingarão. — Sem inflexões, muito serena.
As palavras eram ainda mais estranhas que sua tranqüilidade. Ela escondia algo sob esse disfarce contido, pequenos fragmentos revelados agora em movimentos vacilantes despertados pela observação de Odrade. Coisas profundas e intensas, mas enterradas. Estava tudo lá dentro, mascarado como uma Reverenda Madre o faria. Logno parecia não ter poder algum e, no entanto, falava como se nada de essencial tivesse mudado.
“Sou sua prisioneira, mas isso não faz nenhuma diferença.”
Ela estaria realmente sem poder? Não! Mas essa era a impressão que queria transmitir e todas as outras Honradas Madres à sua volta espelhavam essa reação.
“Está nos vendo? Impotentes, a não ser pela lealdade de nossas Irmãs e os seguidores que se vincularam a nós.”
As Honradas Madres estariam confiantes a esse ponto a respeito de suas legiões vingadoras? Isso seria possível somente se elas não tivessem nunca sofrido uma derrota desse tipo. Entretanto, alguém as tinha expulsado para o Antigo Império, para os Milhões de Planetas.
Teg encontrou Odrade e suas prisioneiras enquanto procurava um lugar para avaliar a vitória. A batalha sempre exigia essa análise posterior, especialmente sob o comando de um Mentat.
Esta, mais do que qualquer outra na sua experiência, exigia dele um teste comparativo. O conflito não se alojaria na memória até que fosse avaliado e compartilhado, tanto quanto possível, com aqueles que dependiam dele. Era seu padrão invariável e ele não se preocupava com o que pudesse revelar sobre si. Alguém que rompesse a ligação com os interesses entrelaçados podia preparar-se para a derrota.
“Preciso de um lugar tranqüilo para juntar os fios desta batalha e fazer um resumo preliminar.”
Em sua opinião, um dos mais difíceis problemas da batalha era conduzi-la de modo a não liberar a selvageria humana. Um ditado Bene Gesserit. A guerra deve ser conduzida para trazer à tona o melhor naqueles que sobreviveram. Quanto mais distante o soldado estivesse da carnificina, mais difícil se tornava fazê-lo. Essa era a razão por que Teg sempre tentava remover-se para a cena de combate e examiná-la pessoalmente. Se você não visse a dor, poderia facilmente causar uma dor ainda pior, sem refletir. Esse era um padrão das Honradas Madres. Mas suas dores tinham sido infligidas em casa. Como elas reagiriam?
Tinha essa pergunta em mente quando saiu do tubo, com seus ajudantes, e viu Odrade se defrontando com um grupo de Honradas Madres.
— Aqui está nosso Comandante, o Bashar Teg — Odrade disse, fazendo um gesto para apontá-lo.
As Honradas Madres encararam Teg.
“Uma criança, montada nos ombros de um adulto? Este é o comandante delas?”
— Ghola — Logno murmurou.
Odrade falou a Haker. — Leve estas prisioneiras a algum lugar próximo, onde possam ficar à vontade.
Haker não se moveu, até que Teg assentisse, e então, delicadamente, fez um sinal para que as prisioneiras o precedessem em direção à área ladrilhada à esquerda. A dominância de Teg não
passou despercebida às Honradas Madres. Olharam-no de um modo ameaçador, enquanto obedeciam ao convite de Haker.
“Homens dando ordens a mulheres!”
Com Odrade a seu lado, Teg tocou o pescoço de Streggi com o joelho, e foram para a sacada. Havia uma singularidade na cena que ele levou um momento para identificar. Vira muitas cenas de combate de postos de observação muito altos, a maioria delas de um tóptero de reconhecimento. Esta sacada estava fixa no espaço, dando-lhe uma sensação de imediação. Estavam aproximadamente a uns cem metros acima dos jardins botânicos onde grande parte do feroz combate tinha sido travada: Muitos corpos se esparramavam num abandono final — bonecos abandonados por alguma criança.
Reconheceu alguns uniformes de suas tropas, e sentiu uma pontada.
“Eu poderia ter feito alguma coisa para evitar isso?”
Conhecera este sentimento muitas vezes, e chamava-o
“Culpa de Comando”. Mas esta sensação era diferente, não simplesmente na singularidade encontrada em cada batalha, mas no modo em que ela o aborrecia. Achou que era em parte pela paisagem, um lugar mais adequado a festas ao ar livre, agora despedaçado pelo antigo padrão da violência.
Animaizinhos e pássaros estavam retornando, nervosamente, furtivos depois da perturbação de toda aquela barulhenta intrusão humana. Pequenas criaturas peludas, de rabo comprido, farejavam os mortos e fugiam em disparada para o alto das árvores, sem nenhuma razão aparente. Pássaros coloridos despontavam da folhagem protetora ou esvoaçavam pelo local — linhas de pigmentação indistinta, que se tornavam camuflagem quando eles mergulhavam abruptamente sob as folhas. Davam um toque emplumado à cena, tentando restaurar aquela pseudotranqüilidade que os observadores humanos tomavam por paz, nesse tipo de cenário. Teg via mais longe. Em sua vida de pré-ghola tinha sido criado em meio à vida selvagem: perto de fazendas, mas na imediação de animais selvagens, além das terras cultivadas. Aí não havia tranqüilidade.
Com essa observação ele reconheceu o que tinha golpeado sua consciência. Considerando o fato de que eles tinham tomado de assalto uma posição defensiva bem guarnecida, ocupada por defensores poderosamente armados, o número de mortos lá embaixo era extremamente pequeno. Ele não tinha visto nada que explicasse isso, desde que entrara na Cidadela. Elas teriam sido apanhadas em desequilíbrio? Suas perdas no espaço eram uma coisa — a capacidade que ele tinha de ver as naves de defesa produzira uma vantagem devastadora. Mas este complexo tinha posições preparadas, onde os defensores poderiam ter se retraído e tornado o assalto mais difícil. O desmoronamento da resistência das Honradas Madres fora abrupto e agora continuava inexplicável.
“Eu estava errado em deduzir que elas reagiram à exibição de seus desastres.”
Olhou rapidamente para Odrade. — Aquela Grande Honrada Madre lá dentro. Ela deu o comando para interromper a defesa?
— É o que suponho.
Uma resposta cautelosa e típica de uma Bene Gesserit. Ela, também, estava submetendo a cena a uma observação cuidadosa.
Sua suposição seria uma explicação razoável para a brusquidão com que os defensores depuseram as armas?
“Por que o fariam? Para impedir maior derramamento de sangue?” Dada a insensibilidade que as Honradas Madres geralmente demonstravam, isso era pouco provável. A decisão fora tomada por motivos que o intrigavam.
“Uma armadilha?”
Agora que estava pensando nisso, havia outras coisas estranhas na cena de combate. Nenhum dos costumeiros chamados por parte dos feridos, nenhuma correria em busca de maças e cuidados médicos. Ele podia ver Suks movimentando-se por entre os corpos. Isso, pelo menos, era familiar, mas cada corpo que examinavam era deixado no lugar onde tinha caído.
“Todos mortos? Nenhum ferido?”
Ele experimentou a garra do medo. Não era um sentimento incomum em combate, mas ele aprendera a interpretá-lo. Algo
profundamente errado. Os ruídos, as coisas dentro de sua perspectiva, os cheiros — tudo assumiu uma nova intensidade.
Sentiu-se vivamente sintonizado, um animal predatório na floresta, conhecendo seu terreno, mas consciente de algo intrusivo, que precisava ser identificado, sob pena de torná-lo a caça, em vez de o caçador. Registrou os arredores em um nível diferente de consciência, interpretando-se ao mesmo tempo, procurando os padrões estimuladores que tinham alcançado esta reação.
— Existe algo muito errado aqui — Odrade disse.
Ele ergueu a mão, exigindo silêncio. Mesmo nesta torre, cercado por tropas vitoriosas, sentia-se exposto a uma ameaça que seus sentidos tumultuados não conseguiam revelar.
“Perigo!”
Estava certo disso. O desconhecimento o enchia de frustração. Recorreu a cada fragmento de seu treinamento para impedir-se de cair em fuga nervosa.
Cutucando Streggi para virar, Teg gritou uma ordem a um ajudante que estava na porta da sacada. Este ouviu com atenção e correu para obedecer. Precisamos conseguir o número de mortos.
Quantos feridos comparados aos mortos? Relatórios sobre as armas capturadas. Urgente!
Quando voltou a observar a cena, viu outro detalhe perturbador, uma estranheza fundamental que seus olhos tinham tentado relatar. Havia pouquíssimo sangue naqueles corpos tombados com o uniforme das Bene Gesserit. Esperava-se que as mortes em combate mostrassem a evidência suprema da humanidade ordinária — o fluxo rubro que escurecia em exposição, mas sempre deixava sua marca indelével naqueles que o viam.
Carnificina sem sangue era algo desconhecido e, na guerra, o desconhecimento tinha uma tradição de trazer extremo perigo.
Falou a Odrade suavemente. — Elas têm uma arma que ainda não descobrimos.
Não se apressem em revelar julgamentos. O julgamento oculto é, muitas vezes, mais poderoso. Pode orientar reações cujos
efeitos são percebidos somente quando é tarde demais para desviá-los.
— Conselho Bene Gesserit às Postulantes Sheeana sentia o cheiro dos vermes à distância: os traços de canela da melange misturados à pederneira e ao enxofre, o inferno cercado de cristal dos grandes comedores de areia de Rakis. Mas ela percebia esses pequenos descendentes somente porque existiam lá fora em tão grande número.
“São tão pequenos.”
Tinha sido um dia quente ali na Estação de Observação do Deserto e agora, à tardinha, ela sentia prazer no interior artificialmente fresco. Havia um ajuste tolerável de temperatura em seus velhos aposentos, embora a janela oeste tivesse sido deixada aberta. Sheeana aproximou-se e olhou a areia fulgurante.
A memória lhe disse como seria esta vista à noite: brilho de estrelas no ar seco, fraca iluminação nas ondas de areia que alcançavam um horizonte curvo e escuro. Lembrou-se das luas de Rakis e sentiu sua falta. Estrelas apenas não satisfaziam sua herança Fremen.
Tinha pensado nesse lugar como um retiro, local e tempo para pensar sobre o que estava acontecendo com sua Irmandade.
‘Tanques axlotl, Cyborgs e agora isto.”
O plano de Odrade não representava mais um mistério desde que tinham Compartilhado. Uma jogada? E se desse certo?
“Saberemos talvez amanhã e, então, o que nos tornaremos?”
Ela reconhecia um magnetismo na Estação do Deserto, mais do que um lugar para considerar as conseqüências. Tinha caminhado sob o sol causticante hoje, provando a si mesma que ainda podia atrair os vermes com sua dança, emoção expressa em ação. “A Dança da Conciliação. Minha linguagem para os vermes.”
Tinha dançado em volteios de dervixe numa duna até que a fome arruinasse seu transe de memória. E pequenos vermes se
espalhavam em volta numa vigilância embasbacada, chamas relembradas dentro de estruturas de dentes de cristal.
“Mas por que tão pequenos?”
As palavras dos investigadores explicavam mas não satisfaziam. — “É a umidade.”
Sheeana lembrava-se do gigantesco Shai-hulud de Duna, “O
Velho do Deserto”, grande o bastante para engolir fábricas de especiarias, superfícies redondas tão duras como plasteel. Mestres em seu próprio domínio. O deus e o diabo nas areias. Ela percebia o potencial do alto de sua janela.
“Por que o Tirano escolheu uma existência simbiótica num verme?”Esses pequenos vermes transportariam seu sonho interminável?
As trutas da areia habitavam este deserto. Era só aceitá-las como uma nova pele e ela poderia seguir o caminho do Tirano.
“Metamorfose. O Deus Dividido.”
Ela conhecia a fascinação que isso representava.
“Terei coragem?”
Lembranças de seus últimos momentos de ignorância inundaram-na — pouco mais de oito anos na época, o mês do Igat, em Duna.
“Não Rakis. Duna, como meus ancestrais o chamavam.”
Não era difícil lembrar-se da criança que tinha sido: pele morena, cabelo castanho estriado de dourado. Caçadora de melange (porque essa era uma tarefa das crianças) correndo livre no deserto junto a outros companheiros de infância. Como as lembranças eram queridas!
Mas a memória tinha seu lado sombrio. Concentrando a atenção nas narinas, uma garota detectou odores intensos — uma massa de pré-especiaria.
“A Explosão!”
A explosão de melange trazia Shaitan. Nenhum verme da areia podia resistir a uma florescência de especiaria em seu território. “Você comeu tudo, Tirano, aquela miserável coleção de choupanas e telheiros que chamávamos de ‘lar’, juntamente com todos os meus amigos e minha família. Por que me poupou?”
Que raiva sacudira aquela criança delgada. Tudo que amava levado pelo verme gigante, que recusou suas tentativas de sacrificar-se em suas chamas e carregou-a para as mãos dos sacerdotes de Rakis e depois para a Bene Gesserit.
“Ela conversa com os vermes, e eles a poupam.”
— Aqueles que me pouparam não são poupados por mim —
Isso foi o que dissera a Odrade.
“E agora Odrade sabe o que devo fazer. Não se pode subjugar a coisa selvagem, Dar. Ouso chamá-la de Dar agora que você está dentro de mim.”
Nenhuma resposta.
Haveria uma pérola da consciência de Leto II em cada um dos novos vermes da areia? Seus ancestrais Fremen insistiam nisso. Alguém lhe deu um sanduíche. Walli, a acólita sênior assistente, que assumira o comando da Estação do Deserto.
“Por minha insistência, quando Odrade me promoveu para o Conselho. Mas não simplesmente porque Walli conhecia minha imunidade ao cativeiro sexual das Honradas Madres. E não porque ela é sensível às minhas necessidades. Falamos uma linguagem secreta, Walli e eu.”
Os grandes olhos de Walli não eram mais entradas para sua alma. Eram barreiras veladas, dando prova de que já sabia como impedir olhares perscrutadores; uma pigmentação azul-clara que logo seria azul total se sobrevivesse à Agonia. Quase albina, e uma linha genética questionável de procriação. A pele de Walli reforçava esse julgamento: pálida e sardenta. Uma pele que se via como uma superfície transparente. Não se focalizava a pele propriamente, mas o que estava sob ela: carne rosa, tingida de sangue, desprotegida ante o sol do deserto. Somente aqui na sombra Walli podia expor essa superfície sensível a olhos indagadores.
“Por que ela, no comando sobre nós?”
“Porque é em quem eu mais confio para fazer o que deve ser feito.” Sheeana comeu o sanduíche distraidamente, enquanto voltava a atenção para a paisagem de areia. O planeta inteiro assim, um dia. Outro Duna? Não... parecido, mas diferente. Quantos lugares iguais a este estamos criando num universo infinito?
Pergunta insensata.
Uma extravagância do deserto pôs um pequeno ponto negro à distância. Sheeana apertou os olhos. Ornitóptero. Foi se tornando maior e depois menor. Percorrendo a areia. Inspecionando.
“O que estamos verdadeiramente criando aqui?”
Quando olhava para as dunas invadidas, tinha a sensação de arrogância.
“Veja minhas obras, humano diminuto, e desespere-se.”
“Mas nós fizemos isto, minhas Irmãs e eu.”
“Fizeram?”
— Estou sentindo uma nova secura no calor — Walli disse.
Sheeana concordou. Não havia necessidade de falar. Dirigiu-se à grande mesa de trabalho enquanto ainda tinha luz do dia para estudar o topomapa estendido lá fora: bandeirinhas espetadas, o fio verde nos percevejos, exatamente como ela projetara.
Odrade a questionara uma vez: — É realmente preferível a uma projeção?
— Tenho necessidade de tocá-lo. Odrade aceitara.
As projeções perdiam o interesse. Distantes demais da terra.
Não se podia passar um dedo por uma projeção e dizer: — Vamos lá. — Um dedo numa projeção era um dedo no vazio.
“Os olhos nunca são suficientes. O corpo precisa sentir o mundo.” Sheeana sentiu a pungência de uma respiração masculina, um odor mofado de exercício. Ergueu a cabeça e viu um jovem moreno de pé na porta, pose e olhar arrogantes.
— Oh — disse. — Pensei que estivesse sozinha, Walli.
Voltarei mais tarde.
Lançou um olhar penetrante a Sheeana e se foi.
“Há muitas coisas que o corpo precisa sentir para conhecer.”
— Sheeana, por que está aqui? — Walli perguntou.
“Você, que está tão ocupada no Conselho, o que procura?
Não confia em mim?”
— Vim para pensar sobre o que a Missionária ainda acha que posso fazer. Elas vêem uma arma — os mitos de Duna. Bilhões rezam a mim: “A Criatura Sagrada, que conversou com o Deus Dividido”.
— Bilhões não é um número adequado — Walli disse.
— Mas dá uma medida da força que minhas Irmãs vêem em mim. Esses adoradores acreditam que eu morri com Duna. Tornei-me “um poderoso espírito no panteão dos oprimidos”.
— Mais que uma missionária?
— O que poderia acontecer, Walli, se eu aparecesse nesse universo expectante, com um verme a meu lado? A potencialidade de tal coisa enche algumas de minhas Irmãs de esperança e receios. — Receios eu compreendo.
“De fato. A própria espécie de implante que o Muad’Dib e seu filho Tirano soltaram sobre a humanidade incauta.”
— Por que elas pensam até mesmo nisso? — Walli insistiu.
— Tendo a mim como ponto de apoio, que alavanca elas teriam para mover o universo!
— Mas como poderiam controlar essa força?
— Esse é que é o problema. Algo tão inerentemente instável.
As religiões não são nunca inteiramente controláveis. Mas algumas Irmãs acham que podem visar uma religião construída à minha volta. — E se seu alvo for pobre?
— Elas dizem que as religiões de mulheres sempre fluem mais profundamente.
— Verdade? — Questionando uma fonte superior.
Sheeana era obrigada a assentir. A Outra Memória o confirmava.
— Por quê?
— Porque dentro de nós a vida se renova.
— Isso é tudo? — Duvidando abertamente.
— As mulheres freqüentemente suportam a aura de oprimidas. Os humanos dispensam uma compreensão especial para com aqueles que estão embaixo. Eu sou uma mulher e se as Honradas Madres querem ver-me morta, então devo ser abençoada.
— Você fala como se concordasse com a Missionária.
— Quando se é um dos perseguidos, considera-se qualquer caminho de fuga. Sou reverenciada. Não posso ignorar o potencial.
“Nem o perigo. Então meu nome tornou-se uma luz brilhante na escuridão da opressão das Honradas Madres. Como é fácil a transformação dessa luz em uma chama destruidora!”
Não... o plano que ela e Duncan tinham imaginado era melhor. Escapar da Sede da Irmandade. Era uma armadilha mortal, não só por causa de seus habitantes, como pelos sonhos Bene Gesserit.
— Ainda não entendo por que você está aqui. Pode ser que não sejamos mais perseguidas.
— Pode ser?
— Mas por que logo agora?
“Não posso falar abertamente porque as vigilantes saberiam.”
— Tenho essa fascinação pelos vermes. É em parte porque um de meus antepassados liderou a migração original para Duna.
“Você se lembra disso, Walli. Falamos a respeito uma vez lá fora, na areia, sem ninguém por perto para ouvir. E agora você sabe por que vim visitar a Estação.
— Lembro-me de você ter dito que ela era uma verdadeira Fremen.
— E uma Mestra Zensunni.
“Conduzirei minha própria migração, Walli. Mas precisarei de vermes que só você pode fornecer. E precisa ser feito rapidamente.
Os relatórios do Entroncamento solicitam velocidade com insistência. E as primeiras naves logo retornarão. Hoje à noite... amanhã. Tenho medo do que elas possam trazer.”
— Ainda está interessada em levar alguns vermes de volta à Central, onde poderá estudá-los melhor?
“Oh, sim, Walli! Você se lembra mesmo.”
— Poderia ser interessante. Não tenho muito tempo para essas coisas, mas qualquer conhecimento adquirido poderá ajudar-nos. — Será muito úmido para eles lá.
— O grande Porão da não-nave na Plataforma poderia ser reconvertido num deserto-laboratório. Areia, atmosfera controlada.
Os requisitos essenciais estão lá, desde a época em que trouxemos o primeiro verme.
Sheeana relanceou o olhar para a janela oeste. Pôr-do-sol.
Gostaria de voltar lá novamente e caminhar na areia.
“As primeiras naves retornarão hoje à noite?”
— Naturalmente, Reverenda Madre. — Walli afastou-se, deixando livre o caminho para a porta.
Sheeana falou quando estava saindo. — A Estação do Deserto terá de ser mudada em breve.
— Estamos preparados.
O sol mergulhava no horizonte quando Sheeana saiu pela porta em arco na extremidade da comunidade. Caminhou para o deserto iluminado pelas estrelas, explorando com seus sentidos, como fazia quando criança. Ahhh, lá estava a essência de canela.
Os vermes estavam próximos.
Fez uma pausa e, afastando-se do último brilho do sol, em direção ao nordeste, colocou as palmas das mãos estendidas acima e abaixo dos olhos, no antigo método Fremen, confinando a vista e a luz. Olhava por essa estrutura horizontal. Tudo o que caísse do céu deveria passar por essa fresta estreita.
“Hoje à noite? Elas virão logo depois do escurecer, para adiar o momento das explicações. Uma noite inteira de reflexão.”
Ela esperou com paciência Bene Gesserit.
Um arco de fogo desenhou uma linha fina acima do horizonte norte. Outro. E outro. Estavam se posicionando diretamente para a Plataforma de Aterrissagem.
Sheeana sentiu o coração bater acelerado.
“Chegaram!”
E qual seria sua mensagem para a Irmandade? “Guerreiros de regresso ou refugiados?” A diferença seria pequena, dada a
evolução do plano de Odrade.
Ela saberia pela manhã.
Sheeana abaixou as mãos, e descobriu que estava tremendo.
Respiração profunda. A Litania.
Agora ela caminhava no deserto, usando o passo da areia, lembrado de Duna. Tinha quase esquecido de como os pés se arrastavam. Como se carregassem um peso extra. Os músculos raramente usados eram chamados a funcionar, mas o andar ao acaso, uma vez aprendido, nunca era esquecido.
“Antes nunca sonhei que pudesse voltar a andar assim algum dia.” Se as vigilantes detectassem esse pensamento, poderiam ficar intrigadas a respeito de sua Sheeana.
Era uma falha sua, pensou. Tinha crescido nos ritmos da Sede da Irmandade. Este planeta falava-lhe em um nível subterrâneo. Sentia a terra, as flores e todas as coisas vivas como se fossem parte de si. E agora, aqui estava o movimento, algo numa linguagem de um planeta diferente. Percebia o deserto se modificando e isso, também, era uma língua estranha. Deserto.