As Herdeiras de Duna

Frank Herbert · Capítulo 2 de 3 · parte 7/16

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As Herdeiras de Duna

Folha de Rosto

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 16 partes.

“Encare seus medos, do contrário eles lhe subirão pelas costas.”Sua atitude era direta. As coisas mais aterrorizantes do universo originavam-se na mente humana. O pesadelo (o cavalo branco da extinção da Bene Gesserit) possuía tanto a forma mítica como a real. A caçadora com o machado podia atingir a mente ou a carne. Mas ninguém escapava aos terrores da mente.

“Encare-os, então!”

Com o que ela se defrontava nessa escuridão? Não a caçadora sem rosto com o machado, nem a queda no abismo desconhecido (mas visível ao seu pequeno talento), mas as muito palpáveis Honradas Madres e quaisquer que fossem seus aliados.

“E não ouso usar nem mesmo seus diminutos poderes prescientes para nos orientar. Eu poderia trancar nosso futuro numa forma imutável. O Muad’Dib e seu Tirano fizeram isso e o Tirano levou 3.500 anos para nos libertar.”

Luzes móveis a meia distância chamaram-lhe a atenção. Os jardineiros estavam trabalhando até tarde, continuando a podar os pomares como se as veneráveis árvores fossem viver para sempre. Os ventiladores trouxeram-lhe um cheiro de fumaça das fogueiras onde as aparas dos pomares estavam sendo queimadas. Muito atentos a esses detalhes, os jardineiros da Bene Gesserit. Nunca se deviam deixar galhos secos soltos que pudessem atrair parasitas

para as árvores vivas. Tudo limpo e arranjado. Planejado com antecedência. Conserve seu habitat. Este momento é parte da eternidade.

“Nunca se devem deixar galhos secos espalhados?”

“E Gammu? Galhos secos?”

— O que existe nos pomares que a fascina tanto? —

Bellonda quis saber.

Odrade respondeu sem se voltar. — Eles me restauram.

Há apenas duas noites ela saíra para uma caminhada lá, em meio ao tempo frio e estimulante, com um toque de neblina junto ao chão. Os pés agitavam as folhas. Um leve cheiro de adubo composto onde uma chuva esparsa tinha se instalado em depressões mais aquecidas. Um cheiro de pântano, que não deixava de ser agradável. A vida em seu fermento habitual, mesmo nesse nível. Acima, galhos nus erguiam-se rígidos contra o céu estrelado. Na verdade, deprimente, se comparado à primavera ou à estação da colheita. Mas belo em seu fluxo. A vida uma vez mais esperando pelo chamado à ação.

— Não está preocupada com as Instrutoras? — Bellonda perguntou.

— Como será a votação, Bell?

— Muito reservada.

— As outras as seguirão?

— Há preocupação com suas decisões. Conseqüências.

Bell era muito boa nisso: muitas informações em poucas palavras. Grande parte das decisões Bene Gesserit era tomada com base num labirinto triplo: Eficácia, Conseqüências e (mais vital) Quem Pode Realizar as Ordens? Combinavam-se ações e pessoas com muito cuidado e uma atenção precisa aos detalhes. Isso tinha uma grande influência sobre a Eficácia, e esta, por sua vez, comandava as Conseqüências. Uma boa Madre Superiora podia atravessar os labirintos de decisão em questão de segundos. Havia vivacidade na Central, então. Os olhos brilhavam. E comentava-se por todo lado que “Ela agiu sem hesitação”. Isso criava confiança entre as acólitas e outras alunas. As Reverendas Madres

(especialmente as Instrutoras) esperavam para avaliar as Conseqüências.

Odrade falava para seu reflexo na janela como para Bellonda.

— Mesmo a Madre Superiora precisa de tempo.

— Mas o que a prende nesse tumulto?

— Está me pressionando, Bell?

Bellonda retraiu-se na cadeira-cão como se Odrade a tivesse empurrado.

— É extremamente difícil ter paciência nos dias de hoje —

ela disse. — Mas a escolha do momento certo influencia minhas escolhas.

— O que pretende fazer com nosso novo Teg? Essa é a pergunta que precisa ser respondida.

— Se nossos inimigos saíssem de Gammu, para onde iriam, Bell? — Você os atacaria nesse lugar?

— Só um pequeno empurrão.

Bellonda falou suavemente. — É perigoso alimentar essa idéia. — As Honradas Madres não negociam!

— Mas seus aliados, sim, acho eu. Acha que iriam para...

digamos, o Entroncamento?

— O que há de tão interessante nesse local?

— As Honradas Madres estão lá baseadas. E nosso amado Bashar mantém na memória um dossiê do lugar.

— Ohhhhhh. — Era tanto um suspiro como uma palavra.

Tamalane entrou na sala, permanecendo de pé e silenciosa até que Odrade e Bellonda lhe dessem atenção.

— As Instrutoras apóiam a Madre Superiora. — Tamalane ergueu um dedo em garra. — Por um voto!

Odrade suspirou. — Diga-nos, Tam, a Instrutora que eu cumprimentei no corredor, Praska, qual foi sua posição?

— Votou a seu favor.

Odrade dirigiu um sorriso forçado a Bellonda. — Espalhe espiãs e agentes, Bell. Precisamos levar as caçadoras a aceitar uma reunião conosco no Entroncamento.

“Bell deduzirá meu plano pela manhã.”

Quando Bellonda e Tamalane saíram, resmungando entre si, demonstrando preocupação na voz, Odrade dirigiu-se para seus aposentos particulares. O corredor estava guardado pelas habituais acólitas e servidoras das Reverendas Madres. Algumas acólitas sorriam para ela. Então, já sabiam da votação. Outra crise tinha passado.

Odrade passou pela sala de estar, a caminho do quarto de dormir, onde se estendeu no catre completamente vestida. Um globo luminoso banhava o aposento com um amarelo pálido. Seu olhar moveu-se do mapa do deserto para a pintura de Van Gogh, na parede ao lado do catre.

“Chalés em Cordeville.”

Um mapa melhor que aquele que marca o crescimento do deserto, pensou. “Lembre-se, Vincent, de onde vim e do que ainda posso fazer.”

O dia a tinha esgotado. Havia ultrapassado a fadiga e penetrado num lugar onde a mente prendia-se em círculos fechados.

Responsabilidades!

Elas a encurralavam, e ela sabia que podia ser muito desagradável quando assediada pelas obrigações. Forçada a gastar energia simplesmente para manter uma aparência de calma. “Bell observou isso em mim.” Era enlouquecedor. A Irmandade era cortada a cada passagem, tornada quase sem efeito.

Fechou os olhos e imaginou-se dialogando com uma Honrada Madre do alto comando. “Velha... encharcada de poder.

Musculosa. Forte e com aquela ofuscante velocidade que elas possuem.” Não havia face, mas o corpo visualizado estava lá, em sua mente.

Formando silenciosamente as palavras, Odrade falou à figura sem rosto.

— É difícil para nós deixá-las cometer seus próprios erros.

Os professores sempre acham isso penoso. Sim, nós nos consideramos professoras. Não tanto de indivíduos como da espécie. Oferecemos lições para todos. Estarão certas se virem o Tirano em nós.

A imagem em sua mente não deu resposta.

Como as professoras exerciam o magistério, se não podiam sair do esconderijo? Burzmali morto, o ghola Teg ainda uma incerteza. Sentiu pressões invisíveis convergindo para a Sede da Irmandade. Os cordões as prendiam com firmeza. E em algum lugar dessa teia, uma comandante sem rosto das Honradas Madres armava o bote.

Rainha Aranha.

Sua presença era conhecida pelas ações de sua força policial. Bastava que um fio dessa teia tremesse numa cilada, para que as atacantes se arremessassem sobre as vítimas enredadas em violência insana, sem ligar para o número de mortos em sua própria linha, ou quantos teriam sido chacinados.

Alguém comandava a busca: a Rainha Aranha.

“Será que ela é sã, pelos nossos padrões? Para que perigos terríveis terei enviado Dortujla?”

As Honradas Madres estavam além da megalomania. Faziam com que o Tirano parecesse um pirata ridículo em comparação. Leto II, pelo menos, tivera conhecimento daquilo que as Bene Gesserit sabiam: como se equilibrar na espada, consciente de que seria mortalmente ferido se escorregasse dessa posição. “O preço que se paga por deter tal poder.” As Honradas Madres ignoravam o destino inevitável, abatendo e açoitando à sua volta, como um gigante em paroxismos de terrível histeria.

Nada havia jamais se oposto a elas com sucesso, e elas escolheram responder agora, com a raiva assassina dos frenéticos.

Histeria por escolha. Deliberada.

“Por que deixamos nosso Bashar em Duna, para usar sua lastimável força numa defesa suicida? Não se sabia quantas Honradas Madres ele matara. E Burzmali na morte de Lâmpadas.

Com certeza, as caçadoras sentiram seu ferrão. Para não falar dos homens treinados por Idaho e enviados para disseminarem as técnicas de escravidão sexual das Honradas Madres. E para outros homens!”

Isso era suficiente para provocar tanta raiva? Possivelmente.

Mas o que dizer das estórias de Gammu? Teria Teg exibido um talento novo que as aterrorizava?

“Se restaurarmos as memórias do Bashar, teremos de observá-lo com muito cuidado.”

Seria possível restringi-lo a uma não-nave?

O que, na verdade, provocou uma reação tão intensa nas Honradas Madres? Eles queriam sangue. Nunca dê más notícias a essa gente. Não era de admirar que suas policiais agissem com tamanho frenesi. Uma pessoa poderosa que estivesse assustada poderia matar o portador de informações desagradáveis. Nunca traga más notícias. É melhor morrer na batalha.

Os súditos da Rainha Aranha iam além da arrogância. Muito além. Não havia censura possível. Seria como repreender uma vaca por comer capim. A vaca se justificaria simplesmente olhando para você com olhos dementes, como que perguntando: — Não é isso que se espera que eu faça?

“Conhecendo as prováveis conseqüências, porque nós as provocamos? Não somos o tipo de pessoa que cutuca um objeto redondo e cinzento com uma vara e acaba descobrindo que se trata de um ninho de vespas. Sabíamos o que estávamos atacando.

Ninguém questionou o plano de Taraza.”

A Irmandade defrontava-se com um inimigo cuja política deliberada era a violência histérica. — Atacaremos com fúria.

E o que aconteceria se as Honradas Madres fossem dolorosamente derrotadas? No que se transformariam suas reações histéricas?

“Tenho medo disso.”

A Irmandade teria a coragem de alimentar esse fogo?

“Temos que fazê-lo!”

A Rainha Aranha redobraria os esforços para encontrar a Sede. A violência seria intensificada em um nível ainda mais repulsivo. E então? As Honradas Madres suspeitariam de todos serem simpáticos à Bene Gesserit? Poderiam voltar-se contra seus próprios aliados? Imaginariam elas a possibilidade de ficarem

sozinhas num universo vazio de vida consciente? Muito provavelmente, a idéia nunca tinha alcançado suas mentes.

“Qual é o seu aspecto, Rainha Aranha? Como você pensa?”

Murbella disse que não conhecia sua comandante suprema, nem mesmo as subcomandantes de sua Ordem Hormu. Mas fazia uma descrição sugestiva dos aposentos de uma subcomandante. O

que uma pessoa chama de casa? Com quem convive para compartilhar as pequenas homilias da vida?

Muitos de nós escolhemos companheiros e ambientes que nos reflitam.

Murbella fez um curioso relato: — Uma de suas criadas pessoais levou-me à área reservada. Exibindo-se, demonstrando que tinha acesso ao sanctum. A área comum era organizada e limpa, mas os quartos particulares estavam desarrumados — roupas espalhadas, potes de creme abertos, camas desfeitas, comida ressecada em pratos no chão. Perguntei por que não tinha limpado a desordem. Ela disse que não era seu serviço. A encarregada da limpeza era do turno da noite.

“Vulgaridades secretas.”

Essa devia ter uma mente de acordo com esse tipo de exibição.

Os olhos de Odrade se abriram e focalizaram o quadro de Van Gogh. “Minha escolha.” Produzia tensões, no longo período da história humana, que a Outra Memória não poderia criar. “Você me mandou uma mensagem, Vincent. E por sua causa não cortarei minha orelha... ou enviarei inúteis mensagens de amor àqueles que não ligam. É o mínimo que posso fazer para honrá-lo.”

O quarto de dormir tinha um odor familiar, a fragrância picante de cravos. O perfume floral preferido de Odrade. As atendentes o mantinham como um background odorífico.

Mais uma vez fechou os olhos, e seus pensamentos voltaram à Rainha Aranha. Achava que o exercício dava uma outra dimensão à mulher sem rosto.

Murbella dizia que uma comandante das Honradas Madres precisava apenas dar uma ordem para que trouxessem qualquer coisa que pedisse.

— Qualquer coisa?

E Murbella descrevia exemplos conhecidos: parceiros sexuais com deformações, doces enjoativos, orgias emocionais inflamadas por desempenhos de extraordinária violência.

— Estão sempre procurando extremos.

Relatos de espiãs e agentes recheavam as estórias que Murbella contava com uma certa admiração.

— Todos dizem que elas têm direito a governar.

“Essas mulheres evoluíram a partir de uma burocracia autocrática.”

Muita evidência o confirmava. Murbella falava de aulas de História que diziam como as primitivas Honradas Madres levaram a efeito pesquisas para adquirir domínio sobre suas populações

“quando a taxação tornou-se por demais ameaçadora para as governantes”.

“Um direito de governar?”

Não parecia a Odrade que essas mulheres insistissem em tal direito. Não. Assumiam que isso não devia nunca ser discutido.

Nunca! Não havia decisões erradas. Não se consideravam as conseqüências. Isso nunca acontecia.

Odrade sentou-se no catre, sabendo que tinha encontrado o insight que procurava.

“Nunca se cometem erros.”

Era necessária uma enorme inconsciência para abrigar essa idéia. Uma pequena consciência, então, observando um universo em tumulto que elas próprias criaram!

“Ohhhh, adorável!”

Chamou a atendente da noite, uma acólita de primeiro nível e pediu chá de melange com um perigoso estimulante, algo para ajudá-la a retardar as exigências de sono do corpo. Mas a um alto preço. A acólita hesitou antes de obedecer. Retornou num momento, com uma caneca fumegante numa pequena bandeja.

Odrade tinha decidido há muito tempo que o chá de melange feito com a profunda água fria da Sede tinha um gosto que afetava o psiquismo. O estimulante amargo não permitia que ela sentisse o gosto revigorante e espicaçava-lhe a consciência. A notícia se espalharia através das observadoras. “Preocupação, grande preocupação.” As Instrutoras fariam outra votação?

Sorveu o chá lentamente, dando ao estimulante tempo para agir. “Mulher condenada rejeita seu último jantar. Bebe chá.”

Em poucos instantes pôs de lado a caneca vazia e pediu roupas quentes. — Vou dar uma volta nos pomares. — A atendente não fez comentários. Todos sabiam que ela, muitas vezes, ia caminhar lá, mesmo à noite.

Em poucos minutos estava na passagem estreita e cercada que conduzia a seu pomar favorito, iluminando o caminho com um miniglobo ligado por um pequeno cordão ao ombro direito. Um pequeno rebanho de gado negro da Irmandade chegou até a cerca a seu lado e olhou-a enquanto passava. Ela olhou os focinhos úmidos, inalou o cheiro rico de alfafa no vapor da respiração e fez uma pausa. As vacas fungaram e sentiram o feromônio que lhes dizia para aceitá-la. Voltaram a comer a forragem empilhada junto à cerca pelos vaqueiros.

Voltando as costas ao gado, Odrade olhou as árvores sem folhas da pastagem. O miniglobo desenhava um círculo de luz amarela que enfatizava a desolação do inverno.

Pouca gente entendia por que esse lugar a atraía. Não bastava dizer que os pensamentos atribulados encontravam calma aí. Mesmo no inverno, com o gelo esmagando-se sob os pés. Este pomar era um silêncio duramente conseguido entre as tempestades.

Apagou o miniglobo e deixou que os pés seguissem o caminho familiar na escuridão. De vez em quando olhava de relance para a luz das estrelas, definida pelos galhos sem folhas. “Tempestades.”

Via aproximar-se uma que meteorologista algum podia antecipar. Tempestades geram tempestades. Raiva gera raiva. Vingança gera vingança. Guerras geram guerras.”

O velho Bashar tinha sido um mestre em quebrar esses círculos. O ghola teria o mesmo talento?

Que jogo perigoso.

Odrade olhou de novo para o gado, uma bolha escura de movimento e vapor, iluminado pela luz das estrelas. Tinha se

juntado para provocar o calor e ela ouviu um rangido familiar quando ruminavam.

“Devo ir para o deserto, no sul. Ficar frente a frente com Sheeana. As trutas da areia desenvolvem-se. Por que não há vermes?”

Falou alto para o gado agrupado junto à cerca: — Comam seu capim. É a sua função.

Se alguma das vigilantes tivesse oportunidade de ouvir a observação, Odrade sabia que teria que explicar-se seriamente.

“Mas esta noite eu pude ver através do coração de nossas inimigas. E tive pena delas.”

Para conhecer bem uma coisa, teste seus limites. É somente quando forçada além da tolerância que se revela sua verdadeira natureza.

— O Código Amtal

Não se apóie apenas na teoria quando sua vida estiver em jogo.

— Comentário Bene Gesserit

Duncan Idaho estava de pé no centro da sala de práticas da não-nave, a três passos do menino-ghola. Muito próximos, à sua volta, havia sofisticados instrumentos de treinamento, alguns exaustivos, outros perigosos.

A criança parecia cheia de confiança e admiração esta manhã.

“Será que o compreendo melhor porque eu, também, sou um ghola? Uma suposição discutível. Esse aí foi criado de um modo muito diferente daquele que foi planejado para mim. Planejado! O

termo preciso.”

A Irmandade copiara tanto quanto possível a infância do Teg original. Até mesmo um querido companheiro mais novo, no lugar do irmão há muito perdido. E Odrade lhe dando o ensinamento profundo! Como fizera a mãe de Teg.

Idaho lembrava-se do idoso Bashar, cujas células tinham produzido esta criança. Um homem pensativo, usando comentários que mereciam atenção. Com apenas um pequeno esforço lembrou-se de seus modos e suas palavras.

— O verdadeiro guerreiro compreende o inimigo melhor que o amigo. Uma cilada perigosa, quando se permite que a compreensão conduza à identificação, como acontecerá naturalmente, se for deixada sem orientação.

Era difícil imaginar a mente, por trás dessas palavras, latente em algum lugar nessa criança. O Bashar tinha sido muito perspicaz, ensinando sobre identificação nos velhos tempos da Fortaleza de Gammu.

“Afinidade com o inimigo — uma fraqueza tanto da polícia como dos exércitos. As mais perigosas são as afinidades inconscientes, fazendo com que se preserve o inimigo intacto, porque ele é sua justificativa para existir.”

— Senhor?

Como poderia essa vozinha de flauta transformar-se nos tons de comando do velho Bashar?

— O que é?

— Por que está aí, parado, olhando para mim?

— Eles chamavam o Bashar de “Velha Confiabilidade”. Sabia disso? — Sim, senhor. Estudei a estória de sua vida.

Seria “Jovem Confiabilidade” agora? Por que Odrade desejaria suas memórias originais restauradas tão cedo?

— Por causa do Bashar, a Irmandade inteira tem estado escavando a Outra Memória, revendo suas perspectivas históricas.

Elas lhe contaram?

— Não, senhor. É importante que eu saiba? A Madre Superiora disse que o senhor treinaria meus músculos.

— Lembro que você gostava de beber Danian Marinete, um conhaque muito especial.

— Sou jovem demais para beber, senhor.

— Você era um Mentat. Sabe o que isso significa?

— Saberei quando recuperar a memória, não?

Nada do respeitoso senhor. Chamando a atenção do professor pela demora indesejada.

Idaho sorriu, e recebeu de volta um sorriso aberto. Uma criança cativante. Era fácil demonstrar-lhe natural afeição.

— Cuidado com ele — dissera Odrade. — É um sedutor.

Lembrou-se da instrução de Odrade, antes de trazer o menino.

— Uma vez que todo indivíduo, basicamente, responde a seu eu — disse — a formação desse eu exige, de nossa parte, cuidado e atenção máximos.

— Isso é necessário com um ghola?

Tinham estado sentados na sala de estar, nessa noite, tendo Murbella como uma ouvinte fascinada.

— Ele se lembrará de tudo que você lhe ensinar.

— Então faremos uma edição crítica do original.

— Cuidado, Duncan. Quando se traumatiza uma criança com um acontecimento desagradável, quando se ensina a ela que não confie em ninguém, cria-se um suicida — a curto ou a longo prazo, isso não faz a mínima diferença.

— Você se esquece de que conheci o Bashar?

— Não se lembra, Duncan, do tempo anterior à restauração de suas memórias?

— Eu sabia que o Bashar podia fazê-lo, e achava que ele era a minha salvação.

— E é assim que ele o vê. É uma forma especial de confiança.

— Serei honesto com ele.

— Você pode achar que age com honestidade, mas aconselho-o a se examinar profundamente toda vez em que se vir

frente a frente coma confiança dele.

— E se eu cometer erros?

— Nós corrigiremos, se for possível. — Ela relanceou os olhos para os televigias e fixou-os nele de novo.

— Sei que estará nos vigiando.

— Não deixe que isso o iniba. Não estou procurando deixá-lo constrangido. Apenas cauteloso. E lembre-se de que minha Irmandade tem métodos de cura muito eficientes.

— Serei cuidadoso.

— Talvez você se lembre que era o Bashar quem dizia: “A ferocidade com que atacamos nossos inimigos é sempre temperada pela lição que esperamos ensinar.”

— Não consigo pensar nele como um inimigo. O Bashar era um dos melhores homens que já conheci.

— Excelente. Coloco-o em suas mãos.

E aqui estava o menino na sala de exercícios, sentindo-se algo mais que impaciente com as hesitações de seu mestre.

— Senhor, faz parte da lição ficar aqui, simplesmente? Sei que às vezes...

— Fique quieto.

Teg assumiu uma atenção militar. Ninguém lhe tinha ensinado isso. Veio de suas memórias originais. Idaho ficou subitamente fascinado por esse lampejo do Bashar.

“Elas sabiam que me pegariam desse jeito.”

Nunca subestime a persuasão Bene Gesserit. Era possível encontrar-se fazendo coisas para elas sem saber que se agia sob pressão. Sutis e execráveis! Havia compensações, naturalmente.

Vivia-se numa época interessante, enquanto durava a antiga maldição/bênção. No todo, decidiu Idaho, ele preferia épocas interessantes, mesmo esta época.

Ele respirou fundo. — Restaurar suas memórias originais vai causar-lhe dor — física e mental. De certa forma, as dores mentais são piores. É meu dever prepará-lo para isso.

Ainda em posição atenta. Nenhum comentário.

— Começaremos sem armas, usando uma lâmina imaginária na mão direita. Esta é uma variação das “cinco atitudes”. Cada

resposta surge antes da necessidade. Deixe cair os braços e relaxe.

Movendo-se por trás de Teg, Idaho segurou firmemente o braço do menino abaixo do cotovelo, e demonstrou os primeiros movimentos.

— Todo atacante é uma pena flutuante num caminho infinito.

Quando ele se aproxima, é desviada e afastada. Sua resposta é como um sopro de ar levando a pena embora.

Idaho ficou de lado e observou enquanto Teg repetia os movimentos, corrigindo de vez em quando com um golpe forte num músculo mal posicionado.

— Deixe que seu corpo realize o aprendizado — dizia quando Teg perguntava por que ele tinha feito aquilo.

Durante um dos períodos de descanso, Teg quis saber o que Idaho queria dizer com “dores mentais”.

— Você tem limites impostos por sua natureza de ghola protegendo as memórias originais. No momento adequado, algumas dessas lembranças voltarão, inundando-o. E nem todas serão agradáveis.

— A Madre Superiora disse que o Bashar restaurou suas memórias.

— Deuses das profundezas, garoto! Por que você continua dizendo o Bashar? Era você!

— Mas ainda não conheço isso.

— No seu caso, há um problema. Para que um ghola reviva, deve haver as lembranças da morte. Mas as células que lhe deram origem não transportam essa lembrança.

— Mas o... Bashar está morto.

— O Bashar! Sim, está morto. Você deve sentir isso onde dói mais e saber que você é o Bashar.

— Pode mesmo devolver-me essa lembrança?

— Se você puder suportar a dor. Sabe o que eu lhe disse quando você devolveu-me as memórias? — Atreides! Vocês são todos infernalmente iguais.

— Você... me odiava?

— Sim, e você estava desgostoso consigo mesmo pelo que tinha feito a mim. Isso lhe dá uma idéia do que tenho de fazer?

— Sim, senhor. — Muito baixo.

— A Madre Superiora diz que não devo trair sua confiança...

entretanto, você traiu a minha.

— Mas restaurei suas memórias?

— Vê como é fácil pensar em si mesmo como o Bashar?

Você ficou chocado. E, voltando à sua pergunta, sim, você restaurou minhas memórias.

— É tudo o que quero.

— Assim diz você.

— A Madre Superiora disse que você é um Mentat. O fato de que eu também sou Mentat poderá ajudar?

— Pela lógica, sim. Mas nós, Mentats, temos um ditado que diz que a lógica se move às cegas. E estamos conscientes de que existe uma lógica capaz de jogá-lo fora do ninho para o caos.

— Sei o que quer dizer caos. — Muito orgulhoso de si.

— Assim você o diz.

— E confio em você.

— Ouça-me! Somos servos das Bene Gesserit. As Reverendas Madres não construíram sua ordem baseadas na confiança.

— Não devo confiar na Madre Superiora?

— Dentro de limites que você irá aprender a valorizar. Por enquanto, previno-o de que as Bene Gesserit trabalham sob um sistema de desconfiança organizada. Elas já lhe ensinaram a respeito de democracia?

— Sim, senhor. É onde se vota...

— É onde se desconfia de todos que têm poder sobre os outros! As Irmãs o conhecem bem. Não confie demais.

— Então não devo confiar em você, também?

— A única confiança que pode colocar em mim é que farei o possível para restaurar suas lembranças.

— Então não me incomodo com a dor. — Olhou para os televigias, demonstrando na expressão o conhecimento de seu propósito. — Elas se incomodam que você diga essas coisas a seu respeito?

— Seus sentimentos não dizem respeito a um Mentat, a não ser como informação.

— Isso é um fato?

— Os fatos são frágeis. Um Mentat pode se enredar neles.

Excesso de informações confiáveis . É como a diplomacia. É

necessário ter algumas mentiras para chegar a suas projeções.

— Estou... confuso. — Usou a palavra com hesitação, não muito seguro de que era a que desejava.

— Disse isso uma vez à Madre Superiora. Ela respondeu: —

Tenho me comportado mal.

— Não é seu papel... confundir-me?

— A menos que sirva para ensinar. — E como Teg ainda se mostrasse perplexo, Idaho disse: — Deixe-me contar-lhe uma estória.Teg imediatamente sentou-se no chão, revelando com isso que Odrade usava essa técnica freqüentemente. Bom. Ele já era receptivo.

— Em uma de minhas vidas tive um cachorro que detestava mariscos.

— Já comi mariscos. Vêm do Grande Mar.

— Sim, bem, meu cachorro detestava mariscos porque um deles teve a ousadia de cuspir-lhe no olho. O cheiro é horrível. Mas pior ainda, a cuspida veio de um inocente buraco na areia. O

marisco não estava visível.

— Que é que seu cachorro fazia? — Inclinando-se para a frente, com a mão no queixo.

— Desenterrava o ofensor e o trazia para mim. — Idaho sorriu. — Primeira lição: não deixe que o desconhecido lhe cuspa no olho. Teg riu e bateu palmas.

— Mas veja a coisa do ponto de vista do cachorro. Vá atrás de quem cuspiu! Então — recompensa gloriosa: o dono fica satisfeito.

— Seu cachorro desencavou mais mariscos?

— Toda vez que íamos à praia. Ia rosnando à procura de cuspidores e o dono os jogava fora para sempre — conchas vazias

com pedaços de carne pendurados.

— Você os comia.

— Veja as coisas do ponto de vista do cachorro. Os cuspidores têm o castigo merecido. Ele tem um meio de livrar o mundo de seres ofensivos, e o dono fica satisfeito.

Teg demonstrou sua inteligência brilhante: — As Irmãs nos consideram cachorros?

— De certa forma. Nunca se esqueça disso. Quando voltar a seu quarto, procure no dicionário o significado de lese majesté.

Ajuda a entender nosso relacionamento com nossos donos.

Teg olhou para os televigias e depois para Idaho, mas não disse nada.

Idaho ergueu o olhar para a porta atrás de Teg: — A estória era para você também.

Teg deu um pulo, voltando-se, na expectativa de ver a Madre Superiora. Mas era apenas Murbella.

Estava encostada ao lado da porta.

— Bell não vai gostar de vê-lo falar da Irmandade desse jeito. — Odrade me deu carta branca. — Olhou para Teg. — Já perdemos muito tempo com estórias! Deixe-me ver se seu corpo aprendeu alguma coisa.

Uma estranha excitação tomou conta de Murbella quando entrou na área de treinamento e viu Duncan com o menino.

Observou-o por um momento, consciente de que o estava vendo sob uma nova luz, quase Bene Gesserit. A instrução da Madre Superiora transparecia na sinceridade de Duncan ao lidar com Teg.

Uma sensação estranhíssima, esta nova consciência, como se ela tivesse se afastado um pouco mais de suas antigas companheiras.

O sentimento de perda era pungente.

Surpreendeu-se sentindo falta de coisas inusitadas da antiga vida. Não a caçada nas ruas, procurando novos homens para escravizar e trazer para o domínio das Honradas Madres. Os poderes derivados da criação de viciados sexuais tinham perdido o sabor sob o ensinamento Bene Gesserit e a experiência com

Duncan. Reconhecia, entretanto, ter perdido um elemento desse poder: o sentimento de pertencer a uma força que nada podia deter.

Era, ao mesmo tempo, abstrato e específico. Não as repetidas conquistas, mas a expectativa da vitória inevitável que vinha em parte da droga que compartilhava com as Irmãs Honradas Madres. À medida que a necessidade diminuiu com a mudança para a melange, via o antigo vício sob uma perspectiva diferente. As químicas Bene Gesserit, localizando a adrenalina substituta a partir de amostras de seu sangue, podiam fornecer-lhe a droga, se ela o desejasse. Mas ela sabia que não queria mais. Uma outra retirada a atormentava. Não os homens cativos, mas o distanciamento de seus poderes. Algo dentro dela dizia que isso tinha acabado para sempre. Nunca voltaria a experimentá-lo. O novo conhecimento mudara seu passado.

Tinha rondado os corredores entre seus aposentos e a sala de exercícios esta manhã, querendo observar Duncan com o menino, temerosa de que sua presença pudesse interferir. Essa ronda era uma coisa que fazia freqüentemente hoje em dia, depois das práticas mais extenuantes com uma professora Reverenda Madre. Nesses momentos os pensamentos das Honradas Madres estavam muito presentes em sua mente.

Não podia fugir a esse sentimento de perda. Era um vazio tal, que ela se perguntava se alguma coisa poderia preenchê-lo, de algum modo. A sensação era pior do que a de estar envelhecendo.

Envelhecer como uma Honrada Madre oferecia certas compensações. Os poderes dessa Irmandade tinham uma tendência para crescer rapidamente com a idade. Não era isso. Era um sentimento de perda absoluta.

“Fui derrotada.”

As Honradas Madres nunca se defrontavam com a derrota.

Murbella viu-se forçada a isso. Sabia que as Honradas Madres eram, às vezes, assassinadas pelos inimigos. Mas estes sempre pagavam por isso. Era a lei: planetas inteiros devastados para pegar um ofensor.

Murbella sabia que as Honradas Madres estavam caçando a Sede da Irmandade. Por uma questão de antigas lealdades, estava

consciente de que deveria ajudá-las. O ponto comovente de sua derrota estava no fato de que não desejava que as Bene Gesserit pagassem o preço lembrado.

“As Bene Gesserit são muito valiosas.”

Eram infinitamente valiosas para as Honradas Madres.

Murbella duvidava que qualquer outra Honrada Madre ao menos suspeitasse disso.

Vaidade.

Esse era o julgamento que vinculava às antigas Irmãs. “E a mim mesma, quando era uma delas.” Um orgulho terrível. Tinha surgido de sua subjugação durante tantas gerações, antes de ganharem sua própria ascendência.

Murbella tinha tentado transmitir isso a Odrade, fazendo um relato minucioso da História ensinada pelas Honradas Madres.

— O escravo dá um péssimo senhor — disse Odrade.

Murbella compreendia que havia um padrão antigo que ela aceitara outrora, mas rejeitava agora, e não poderia explicar inteiramente a mudança.

“Deixei para trás todas essas coisas, que hoje seriam infantis para mim.”

Duncan, uma vez mais, tinha interrompido os exercícios.

Tanto professor como aluno estavam transpirando muito, ofegantes e tentando recobrar o fôlego. Trocavam olhares estranhos entre si.

“Conspiração?”

O menino parecia extraordinariamente maduro.

Lembrou-se do comentário de Odrade: — A maturidade impõe seu próprio comportamento. Uma de nossas lições — torne esses imperativos conscientes. Modifique os instintos.

“Elas têm me modificado e o farão ainda mais.”

Podia ver a mesma coisa acontecendo no comportamento de Duncan com o menino ghola.

— Esta é uma atividade que cria muitas pressões nas sociedades que influenciamos — dissera Odrade. — Que nos força a constantes adaptações.

“Mas como elas poderão ajustar-se a minhas antigas Irmãs?”

Odrade revelou um sangue-frio característico, quando defrontada com a pergunta.

“Enfrentamos ajustes importantes em função de nossas atividades passadas. Era a mesma coisa no tempo do Tirano.

“Ajustes?”

Duncan estava falando com o menino. Murbella aproximou-se para ouvi-los.

— Já conhece a estória do Muad’Dib? Bem. Você é um Atreides, e isso subentende falhas.

— Isso quer dizer erros, senhor?

— Com os diabos, é isso mesmo! Nunca escolha um caminho simplesmente porque ele lhe oferece a oportunidade de um gesto dramático.

— Foi assim que morri?

“Ele tinha feito a criança pensar em seu antigo eu na primeira pessoa.”

— Seja você o juiz. Mas sempre foi uma franqueza Atreides.

Coisas atraentes, os gestos. Morrer nos chifres de um touro, como fez o avô do Muad’Dib. Um grande espetáculo para seu povo.

Matéria de estórias durante gerações! Ainda se podem ouvir algumas partes da estórias, mesmo depois de eras passadas.

— A Madre Superiora me contou essa estória.

— Sua verdadeira mãe também, provavelmente.

A criança estremeceu. — Tenho um sentimento esquisito quando você fala em minha mãe verdadeira. — Havia temor na voz infantil. — Sentimentos esquisitos são uma coisa; esta lição é outra.

Estou falando sobre algo com um rótulo permanente: “O Gesto Desiano.” Era costume falar “Atreidesiano”, mas esse nome é muito incômodo.

Uma vez mais a criança tocou o núcleo de sua consciência amadurecida. — Mesmo a vida de um cachorro tem seu preço.

Murbella prendeu a respiração, num lampejo de como seria

— uma mente adulta num corpo infantil. Desconcertante.

— Sua mãe de nascimento era Janet Roxbrough dos Lernaeus Roxbroughs — disse Idaho. — Era uma Bene Gesserit.

Seu pai era Loschy Teg, um agente comercial de CHOAM. Daqui a pouco vou mostrar-lhe o quadro favorito do Bashar, de sua casa em Lernaeus. Quero que o conserve consigo e o estude Pense nele como seu lugar favorito.

Teg acenou afirmativamente, mas a expressão de seu rosto mostrava que estava com medo.

Seria possível que o grande Guerreiro Mentat tivesse conhecido o medo? Murbella sacudiu a cabeça. Tinha um conhecimento intelectual do que Duncan estava fazendo, mas sentia lacunas nos relatos. Isso era algo que ela nunca poderia experimentar. Qual seria o sentimento de despertar para uma nova vida, mantendo intactas as lembranças de uma outra? Muito diferente da Outra Memória das Reverendas Madres, pensava.

— A mente em seu começo — era como Duncan dizia. —

Despertar seu Verdadeiro Eu. Senti que estava mergulhando num universo mágico. Minha consciência era um círculo, e então um globo. Aí caí em transe — tudo a meu redor tinha uma qualidade fracamente luminosa. Nada era real. Isso passou, e achei que tinha perdido a única realidade. Minha mesa era de novo uma mesa.

Ela tinha estudado o manual Bene Gesserit “Sobre o Despertar das Memórias Originais de um Ghola.” Duncan estava divergindo das instruções. Por quê?

Ele deixou Teg e se aproximou de Murbella.

— Tenho que falar com Sheeana — disse ao passar por ela.

— Deve haver um modo melhor.

A compreensão imediata é geralmente uma resposta-reflexo, e a mais perigosa forma de entendimento. Lança uma tela opaca sobre a capacidade de aprender. Os precedentes de julgamento da

lei funcionam desse modo, atulhando o caminho de becos sem saída. Fique de sobreaviso. Não entenda nada. Toda compreensão é temporária.

— Fixe Mentat (adacto)

Idaho, sentado sozinho em sua mesa de comando, deparou-se com um lançamento que ele mesmo tinha introduzido nos Sistemas da Nave em seus primeiros dias de prisão, e achou-se inundado (aplicou a palavra depois) de atitudes e consciência sensorial daquele tempo. Era o anoitecer de um decepcionante dia na não-nave. Ele estava de volta lá, esticado entre o então e o agora, do modo em que as vidas em série de ghola ligavam esta encarnação a seu nascimento original.

Imediatamente, viu o que viera a chamar de “a rede” e o casal idoso definido por linhas cruzadas, corpos visíveis através de uma luz trêmula formada de fios coloridos — verde, azul, dourado e um prateado tão brilhante que doía nos olhos.

Percebia nessas pessoas uma estabilidade divina e algo bastante comum. A palavra ordinário veio-lhe à mente. A já familiar paisagem de jardim estendia-se por trás deles: arbustos de flores (rosas, pensou), gramados ondulantes, altas árvores.

O casal retribuía seu olhar com uma intensidade que o fazia sentir-se nu.

Um novo poder na visão! Não estava mais restrita ao Grande Porão, um ímã de compulsão crescente, puxando-o para lá tão freqüentemente que sabia que as vigilantes estavam de sobreaviso.

“Será ele um outro Kwisatz Haderach?”

Havia um nível de suspeita por parte da Bene Gesserit, além do qual ele não poderia ir, sem ser eliminado. E elas o estavam vigiando bem agora!

Perguntas, especulações preocupadas. A despeito disso, ele não conseguia desviar-se da visão.

Por que esse casal idoso parece tão familiar? Alguém de seu passado? Família?

O folhear Mentat de suas lembranças não produziu nada que se adequasse à especulação. Rostos redondos. Queixos reduzidos.

Gordas papadas. Olhos escuros. A rede obscurecia sua cor. A mulher usava um longo vestido azul e verde que lhe ocultava os pés. Um avental branco manchado de verde cobria o vestido, desde o amplo colo até abaixo da cintura. Ferramentas de jardinagem pendiam das alças do avental. Carregava uma pá na mão esquerda.

Tufos de cabelo grisalho escapavam do lenço verde, e espalhavam-se em volta dos olhos, enfatizando as linhas marcadas pelo riso.

Tinha uma aparência de... avó.

O homem combinava com ela, como se ambos fossem criados pelo mesmo artista, para fazer um par. Macacão de peitilho sobre o estômago saliente. Sem chapéu. Os mesmos olhos escuros brilhando em reflexos. O cabelo, cortado rente, era espetado e grisalho.

Ele tinha a expressão mais bondosa que Idaho já vira. Vincos de sorriso, voltados para cima, nos cantos dos lábios, e equilibrava, na palma direita estendida, o que parecia ser uma bola de metal. A bola emitia um assobio penetrante, que fazia com que Idaho tapasse os ouvidos com as mãos. Isso não abafou o som, que diminuiu aos poucos, por si só. Ele abaixou as mãos.

“Rostos tranqüilizadores.” O pensamento despertou as suspeitas de Idaho, porque agora reconhecia a familiaridade.

Pareciam um pouco com Dançarinos Faciais, até no nariz arrebitado.

Inclinou-se para a frente, mas a visão manteve a distância. —

Dançarinos Faciais — sussurrou.

A rede e o casal idoso desapareceram.

Foram substituídos por Murbella em malha de exercício de um negro reluzente. Teve que estender o braço e tocá-la, para acreditar que ela de fato estava lá.

— Duncan, o que foi? Você está todo suado.

— Acho... que é alguma coisa que esses malditos Tleilaxu plantaram em mim. Continuo vendo... Acho que são Dançarinos Faciais. Eles... eles estavam olhando para mim bem agora... um assobio. Doeu.

Ela relanceou para os televigias, mas não pareceu preocupada. Isso era uma coisa que as Irmãs podiam saber sem representar perigo imediato... a não ser para Scytale, possivelmente.

Agachou-se ao lado dele e pôs a mão no seu braço. —

Alguma coisa que eles fizeram com seu corpo nos tanques?

— Não!

— Mas você disse...

— Meu corpo não é simplesmente uma parte da nova bagagem para esta viagem. Tem toda a química e a substância que sempre tive. Minha mente é que está diferente.

Isso a inquietou. Conhecia a preocupação das Bene Gesserit a respeito de talentos selvagens. — Maldito Scytale!

— Vou descobrir tudo — ele disse.

Fechou os olhos e ouviu Murbella erguer-se. Sua mão despregou-se do braço dele.

— Talvez não devesse fazê-lo, Duncan. Sua voz soava longínqua.

“Memória. Onde eles guardavam a coisa secreta? Nas profundezas das células originais?” Até esse momento ele tinha considerado sua memória como um instrumento Mentat. Podia evocar suas próprias imagens de antigos momentos em frente de espelhos. Bem de perto, examinando uma ruga da idade. Olhando uma mulher atrás de si — dois rostos no espelho e sua face cheia de perguntas.

Faces. Uma sucessão de máscaras, diferentes perspectivas dessa pessoa chamada eu. Faces ligeiramente desequilibradas.

Cabelos às vezes grisalhos, às vezes os caracóis negros de sua vida atual. Às vezes humorístico, outras grave, procurando interiormente sabedoria para enfrentar um novo dia. Em algum lugar nisso tudo uma consciência que observava e deliberava. Alguém que fazia escolhas. Os Tleilaxu tinham interferido nisso.

Idaho sentiu o sangue pulsando forte e sabia que o perigo estava presente. Era isso que ele estava destinado a experimentar...

mas não pelos Tleilaxu. Tinha nascido com ele.

“Isto é o que significa estar vivo.”

Nenhuma lembrança de outras vidas, nem as coisas que os Tleilaxu lhe tinham feito modificavam em nada sua mais profunda consciência.

Abriu os olhos. Murbella ainda estava perto, mas sua expressão estava velada. “Então é assim que ela será, quando se tornar uma Reverenda Madre.”

Não gostou da mudança.

— O que acontece quando as Bene Gesserit falham?

Como ela não respondesse, ele acenou com a cabeça. “Sim.

É a pior suposição. A Irmandade indo para o esgoto. E você não deseja isso, minha amada.”

Podia vê-lo em seu rosto quando ela voltou-se e o deixou.

Olhando para os televigias, ele disse: — Dar, preciso falar com você, Dar.

Não houve resposta de nenhum dos mecanismos à sua volta.

Ele não esperava, também. Entretanto, sabia que podia falar com ela, e que Odrade teria de ouvi-lo.

— Tenho examinado nosso problema pelo outro lado —

disse. E imaginou o ruído diligente dos gravadores registrando o som de sua voz nos cristais ridulianos. — Tenho penetrado na mente das Honradas Madres. Sei que cheguei lá. Repercutiu em Murbella.

Isso as alertaria. Ele tinha sua própria Honrada Madre. Mas ter não era bem a palavra. Ele não tinha Murbella. Nem mesmo na cama. Eles tinham um ao outro. Tão casados como pareciam estar as pessoas da visão. Era isso o que ele tinha visto? Duas pessoas mais velhas treinadas sexualmente pelas Honradas Madres?

— Estou pensando em outro assunto, agora — disse. —

Como superar as Bene Gesserit.

Isso lançava o desafio.

— Episódios — disse. Uma palavra que Odrade gostava de usar. — É assim que devo ver o que está nos acontecendo.

Pequenos episódios. Mesmo a pior suposição deve ser examinada contra esse background. A Dispersão tem uma magnitude que reduz a dimensão de tudo que fazemos.

Aí estava! Isso demonstrava seu valor para as Irmãs. Punha as Honradas Madres numa melhor perspectiva. Elas estavam de volta ao Antigo Império. Companheiras nessa redução feita pela Dispersão. Sabia que Odrade veria. Bell a faria ver.

Em algum lugar do Universo Infinito, um júri tinha dado um veredicto contra as Honradas Madres. A lei e seus administradores não tinham prevalecido para as caçadoras. Suspeitou que sua visão lhe tinha mostrado dois dos jurados. E se fossem Dançarinos Faciais, não seriam os de Scytale. Aquelas duas pessoas por trás da trêmula rede não pertenciam a ninguém, a não ser a si próprias.

As maiores falhas de governo nascem do medo de efetuar mudanças internas radicais mesmo quando obviamente necessárias.

— Darwi Odrade

Para Odrade, a primeira melange da manhã era sempre diferente. O corpo reagia como um esfomeado agarrando um fruto doce. Depois vinha a restauração lenta, penetrante e dolorosa.

Esse era o aspecto assustador do vício da melange.

Ficou de pé junto à janela do quarto de dormir, esperando que o efeito passasse. Notou que a Meteorologia havia conseguido mais uma chuva matinal. A paisagem fora lavada, tudo estava imerso em névoa romântica, os contornos indistintos, e reduzidos a essências, como velhas memórias. Abriu a janela. Um ar frio e úmido soprou-lhe no rosto, envolvendo-a em recordações, como alguém que veste uma roupa familiar.

Respirou fundo. O cheiro após a chuva! Recordou o essencial da vida, ampliado e suavizado por água caindo, mas essa chuva era

diferente. Deixava um cheiro de pederneira que sentia no paladar.

Odrade não gostava disso. A mensagem não era de algo lavado, limpo, e sim da vida ressentida, querendo que parasse toda a chuva, e fosse trancada em algum lugar. Essa chuva não mais suavizava e trazia a plenitude. Possuía a consciência inevitável de mudança.

Odrade fechou a janela. Encontrou-se logo de volta ao cheiro familiar de seus aposentos, e o aroma constante de shere proveniente dos implantes dosados exigidos em todos que conhecessem a localização da Sede da Irmandade. Ouviu Streggi entrar, e o leve roçar dos mapas do deserto sendo mudados. „

Um som eficiente nos movimentos de Streggi. Semanas de convívio confirmaram a primeira opinião de Odrade. Confiável. Não era brilhante, mas era extremamente sensível às necessidades da Madre Superiora. Veja como seus movimentos são silenciosos. Se a sensibilidade de Streggi fosse transferida para as necessidades do jovem Teg, teriam a altura e mobilidade por ele requeridas. Um cavalo? Muito mais.

A assimilação de melange de Odrade alcançou o ponto culminante e entrou em declínio. O reflexo de Streggi na janela mostrava que estava aguardando instruções. Sabia que esses momentos eram dedicados à especiaria. Na fase em que se encontrava, deveria estar ansiosa pelo dia em que ingressasse nessa intensificação misteriosa.

“Desejo que se dê bem.”

A maioria das Reverendas Madres seguia os ensinamentos, e raramente pensava na especiaria como sendo um vício. Odrade sabia todas as manhãs exatamente o que era. Tomavam a especiaria durante o dia atendendo às solicitações do corpo, de acordo com os padrões do treinamento inicial: dose mínima, só o bastante para aguçar o sistema metabólico e levá-lo ao máximo de desempenho. As necessidades biológicas entrosam-se melhor com melange. A comida tem melhor sabor. Fora um acidente ou assalto fatal, vive-se muito mais do que sem melange. Mas é um vício.

Uma vez o corpo restaurado, Odrade piscou os olhos e observou Streggi. A curiosidade sobre o longo ritual matinal era

evidente. Dirigindo-se à imagem de Streggi na janela, Odrade disse:

— Você aprendeu sobre a retirada de melange?

— Sim, Madre Superiora.

Apesar dos avisos para não espalhar o conhecimento do caráter vicioso da droga, este estava sempre presente na consciência de Odrade, e ela sentia os ressentimentos acumulados.

A preparação mental como acólita (impressa com grande força na Agonia) fora corroída pela Outra Memória e pela acumulação do tempo. A advertência: “A retirada remove um elemento essencial de sua vida, e se ocorrer no final da meia-idade, pode matá-la.” Como isso era irrelevante agora.

— A retirada significa muito para mim — disse Odrade. —

Sou uma dessas para quem a melange matinal é dolorosa. Tenho certeza que lhe disseram que isso acontece.

— Sinto muito, Madre Superiora.

Odrade estudou o mapa. Mostrava uma ponta mais comprida de deserto alongando-se para o norte, e um alargamento pronunciado de terras áridas para o sudeste da Central, onde Sheeana tinha sua estação. Em seguida, voltou a contemplar Streggi, que observava a Madre Superiora com mais interesse.

“Assustada com a idéia do lado mau da especiaria!”

— A singularidade da melange é raramente levada em consideração em nossa época — disse Odrade. — Todos os narcóticos antigos que os humanos usaram, exceto a especiaria, têm um fator extraordinário em comum. Todos encurtaram a vida e causaram dor.

— Assim nos disseram, Madre Superiora.

— Mas provavelmente não lhe disseram que um fato de domínio pode ser obscurecido pela nossa preocupação com as Honradas Madres. Existe nos governos uma ganância de energia (sim, mesmo no nosso), que pode jogá-la numa armadilha. Se você me servir, sentirá isso em suas entranhas, porque todas as manhãs me verá sofrer. Deixe o conhecimento dessa armadilha fatal penetrar em seu íntimo. Não se torne uma traficante insensível, presa a um sistema que substitui a vida por uma morte indiferente, como fazem as Honradas Madres. Lembre-se: podem-se cobrar

impostos sobre narcóticos aceitáveis, a fim de pagar salários ou criar empregos para funcionários irresponsáveis.

Streggi pareceu confusa. — Mas a melange prolonga nossa vida, melhora a saúde, e desperta o apetite para...

Foi interrompida pelo aspecto severo de Odrade.

“Perfeitamente de acordo com o Manual das Acólitas!”

— Tem esse outro lado, Streggi, que você vê em mim. O

Manual das Acólitas não mente. Mas a melange é um narcótico e nós somos viciadas.

— Sei que não é de efeito suave para todo mundo, Madre Superiora. Mas disse que as Honradas Madres não a usam.

— O substituto que usam em lugar da melange traz alguns benefícios, exceto o de evitar as agonias da retirada e a morte. É

um viciador paralelo.

— E a prisioneira?

— Murbella costumava usá-lo, e agora usa melange. São permutáveis. Interessante?

— Eu... imagino que vamos aprender mais sobre isso. Notei, Madre Superiora, que nunca se refere a elas como prostitutas.

— Como as acólitas fazem? Ah, Streggi, Bellonda está sendo uma influência má. Oh, reconheço as pressões. — Streggi ensaiou um protesto. — As acólitas sentem a ameaça. Olham a Sede e imaginam que é sua fortaleza, para a longa noite das prostitutas.

— E mais ou menos assim, Madre Superiora — Uma grande hesitação.

— Streggi, este planeta é somente mais outro lugar temporário. Hoje iremos para o sul e convenceremos vocês disso.

Por favor, procure Tamalane e diga-lhe que tome as providências que já discutimos para nossa visita a Sheeana. Não comente isso com ninguém mais.

— Sim, Madre Superiora. Quer dizer que vou acompanhá-la?

— Quero você ao meu lado. Diga àquela que você está treinando que agora está encarregada de meu mapa.

Quando Streggi saiu, Odrade pensou em Sheeana e Idaho.

“Ela quer falar com ele, e ele quer falar com ela.”

A análise dos televigias registrara que esses dois conversavam às vezes por sinais manuais, escondendo a maior parte dos movimentos com os próprios corpos. Parecia uma linguagem Atreide antiga de batalha. Odrade reconhecia uma parte, mas não o bastante para determinar o conteúdo. Bellonda queria uma explicação de Sheeana. — Segredos! — Odrade era mais cautelosa. — Deixe que continuem um pouco. Talvez surja alguma coisa interessante.

“O que é que Sheeana quer?”

O que quer que Duncan pensasse, dizia respeito a Teg. Criar a dor necessária para que Teg recuperasse suas memórias originais era o que Duncan não queria fazer.

Odrade notara isso, quando interrompera Duncan em sua mesa de comando no dia anterior.

— Você está atrasada, Dar. — Sem levantar os olhos do que estava fazendo. “Atrasada? A noite apenas começara.”

Vinha chamando-a de Dar com freqüência há vários anos, uma ferroada, um indício de que não gostava de viver como peixe em aquário. A ferroada irritou Bellonda, que criticou “sua infernal familiaridade”. Ele chamava Bellonda de “Bell”, naturalmente.

Duncan era generoso com suas agulhadas.

Lembrando-se disso, Odrade parou, antes de entrar na sala de trabalho. Duncan dera um murro no balcão junto à mesa de comando. — Tem de haver uma coisa melhor para Teg!

“Uma coisa melhor? O que ele está pensando?”

Um movimento no corredor do outro lado da sala de trabalho interrompeu o fluxo de pensamentos. Streggi, voltando de Tamalane. A jovem entrou na Sala de Plantão das Acólitas. “Dando instruções a sua substituta sobre o mapa do deserto.”

Uma pilha de registros do Arquivo aguardava Odrade em sua mesa. “Bellonda!” Odrade encarou a pilha. Por mais que tentasse delegar trabalho, havia sempre esse resíduo organizado que suas conselheiras insistiam em submeter à Madre Superiora. A maior parte desse novo lote era conseqüência da exigência de Bellonda de “sugestões e análises”.

Odrade manipulou a mesa de comando. — Bell!

A voz de uma escrivã dos Arquivos respondeu: — Madre Superiora?

— Mande Bell aqui! Quero que esteja aqui, à minha frente, o mais depressa possível para aquelas pernas gordas!

Levou menos de um minuto. Bellonda postou-se em frente à mesa de trabalho como uma acólita que tivesse sido repreendida.

Todas conheciam esse tom de voz da Madre Superiora.

Odrade tocou a pilha sobre a mesa e tirou abruptamente a mão, como se tivesse recebido um choque. — Em nome de Shaitan, o que é isso tudo?

— Achamos que era importante.

— Acha que tenho de ver tudo e qualquer coisa? Onde estão as anotações dos pontos principais? É muita negligência, Bell! Não sou uma idiota, nem você. Mas isso... vendo isso...

— Delego tudo que...

— Delega? Olhe isso aqui! O que tenho de ver, e o que posso delegar? Não tem nenhuma anotação!

— Vou providenciar imediatamente para que seja corrigido.

— E vai mesmo, Bell. Porque Tam e eu vamos hoje para o sul, uma inspeção sem avisar, e uma visita a Sheeana. E enquanto estiver fora, você vai sentar em minha cadeira. Vamos ver se vai gostar desse dilúvio diário!

— Vai ficar em contato?

— Usarei uma linha de luz e um comunicador Áudio-V todo o tempo. Bellonda respirou aliviada.

— Sugiro, Bell, que volte aos Arquivos e deixe alguém encarregado de assumir a responsabilidade. Vocês estão começando a agir como verdadeiras burocratas. Só querem se defender!

— Os barcos de verdade balançam, Dar.

Bell, tentando ser engraçada? Nem tudo estava perdido!

Odrade moveu a mão sobre o projetor e lá estava Tamalane, no Hall de Transportes. — Tam?

— Sim? — Sem desviar a atenção de uma lista de tarefas.

— Quando podemos partir?

— Dentro de umas duas horas.

— Chame quando estiver pronta. Oh, Streggi vai conosco.

Arranje lugar para ela. — Odrade apagou a projeção antes que Tamalane pudesse responder.

Odrade sabia que havia muito a fazer. Tam e Bell não eram os únicos motivos de preocupação da Madre Superiora.

“Restam-nos dezesseis planetas... e isso incluindo Buzzell, um lugar que decididamente está em perigo. Só dezesseis!” Afastou esse pensamento. Não tinha tempo para isso.

“Murbella. Será que devo chamá-la e... Não. Isso pode esperar. O novo Conselho de Instrutoras? Bell pode tomar conta disso. Dispersão de comunidades?”

A transferência de pessoal para uma nova Dispersão forçara consolidações. “Ficar à frente do deserto!” Era deprimente, e não se achava capaz de enfrentar isso hoje. “Fico sempre inquieta antes de uma viagem.”

De repente, Odrade saiu correndo da sala de trabalho e percorreu os corredores, observando o desempenho de suas protegidas, parando no vão das portas, notando o que as estudantes estavam lendo, como se comportavam nos eternos exercícios prana-bindu.

— O que está lendo? — perguntou a uma jovem acólita de segundo grau em frente a um projetor na sala semi-escura.

— Os diários de Tolstoi, Madre Superiora.

O brilho malicioso nos olhos da acólita dizia: “Tem as palavras dele diretamente na Outra Memória?” A pergunta estava ali, bem na ponta da língua dela! Estavam sempre experimentando esses gambitos tolos quando a encontravam a sós.

— Tolstoi era um nome de família! — Odrade retrucou. —

Como mencionou diários, presumo que esteja se referindo ao Conde Leo Nikolaievich.

— Sim, Madre Superiora. — Envergonhada e ciente da censura. Acalmando-se, Odrade citou para a jovem: — “Não sou um rio, sou a rede.” Ele disse isso em Iasnaia Poliana quando tinha só 11 anos. Não vai encontrar essas palavras nos diários, mas provavelmente são as palavras mais importantes que jamais pronunciou.

Odrade virou as costas antes que a acólita pudesse lhe agradecer. “Sempre ensinando!”

Desceu, então, até as cozinhas principais e as inspecionou, passando o dedo nas bordas internas das panelas para ver se estavam gordurosas, notando a maneira cautelosa até do cozinheiro-chefe observando seus passos.

A cozinha recendia a bons aromas dos preparativos para o almoço. Havia o ruído revigorante de golpes de facas e coisas sendo misturadas, mas as brincadeiras pararam assim que entrou.

Contornou o longo balcão com cozinheiros atarefados e dirigiu-se à plataforma elevada do cozinheiro-instrutor. Era um homem alto e corpulento, as maçãs do rosto proeminentes, as faces tão vermelhas quanto as carnes sobre as quais presidia. Odrade não tinha dúvida alguma que era um dos grandes mestres de cozinha da História. O nome lhe assentava bem: Plácido Salat.

Ocupava um lugar especial garantido nos pensamentos dela por várias razões, incluindo o fato de que treinara sua cozinheira pessoal. Visitas importantes, nos tempos antes das Honradas Madres, eram levadas para ver a cozinha e provar pratos especiais.

Continuar: parte 8 de 16