As Herdeiras de Duna

Frank Herbert · Capítulo 2 de 3 · parte 6/16

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As Herdeiras de Duna

Folha de Rosto

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 16 partes.

— Pretendo tornar as Honradas Madres conscientes de sua mortalidade.

— Assim como faz comigo!

Seria satisfação, essa expressão em seus olhos?

— Scytale. “Como era suave sua voz.” As pessoas que são assim alertadas realmente prestam atenção. Elas o ouvem. —

Lançou um rápido olhar à bandeja. — Deseja alguma coisa especial?

Ele empertigou-se como pôde. — Uma pequena bebida estimulante. Ajuda-me a pensar.

— Naturalmente. Providenciarei para que seja mandada imediatamente. — Voltou sua atenção da alcova para o aposento principal do alojamento. Ele observava onde ela se detinha, seu olhar mudando de lugar para lugar, de item para item.

“Tudo em seu lugar, bruxa. Não sou um animal numa caverna. As coisas precisam estar dispostas adequadamente, de modo que eu possa encontrá-las sem pensar. Sim, aqueles são tabletes estimulantes, ao lado da cadeira. Assim, eu uso tabletes.

Mas evito o álcool, percebeu?”

O estimulante que foi mandado tinha o gosto de uma erva amarga, que ele levou um momento para identificar. Casmina. Um fortificante do sangue geneticamente modificado, originário da farmacopéia de Gammu.

Será que ela pretendia lembrá-lo de Gammu? Essas bruxas eram tão cheias de rodeios!

Ridicularizando-o sobre a questão de economia. Sentia o ferrão da zombaria enquanto fazia a volta no fim do corredor e continuava seu exercício numa rápida caminhada de retorno a seus alojamentos. Qual era a cola que mantinha unido o Antigo Império?

Muitas coisas, grandes e pequenas, mas principalmente razões econômicas. Linhas de conexão geralmente consideradas como conveniências. E o que as impedia de se destruírem umas às outras? A Grande Convenção. — Se você fizer explodir qualquer um, nós nos reuniremos para explodir você.

Ele parou do lado de fora de sua porta, despertado por um pensamento. Era isso? Como poderia haver castigo suficiente para deter os ambiciosos powindah? Tinha se tornado uma cola composta de coisas intangíveis? A censura de seus companheiros? E se seus companheiros não evitassem nenhuma obscenidade?

Você poderia fazer qualquer coisa. E isso significava alguma coisa a respeito das Honradas Madres. Com toda certeza.

Ansiava por uma sala de sagra, onde pudesse despir sua alma. “O Yaghist desapareceu. Serei o último Masheikh?”

Seu peito parecia vazio. Respirar representava um esforço.

Talvez fosse melhor negociar mais abertamente com as mulheres de Shaitan.“Não! E o próprio Shaitan que está me tentando!”

Entrou em seus aposentos com uma disposição disciplinar.

“Devo fazê-las pagar. Fazê-las pagar caro. Muito, muitíssimo caro.” Cada vez que dizia a palavra caro dava um passo em direção a sua cadeira. Quando se sentou, pegou automaticamente um tablete estimulante. Logo sentiu sua mente movimentando-se a alta velocidade, pensamentos se acumulando numa ordem maravilhosa.

“Elas não sabem como conheço bem a nave ixiana. Está aqui, na minha cabeça.”

Passou a hora seguinte imaginando como registraria esses momentos, quando chegasse a hora de contar aos companheiros seu triunfo sobre os powindah. “Com a ajuda de Deus!”

Seriam palavras brilhantes, cheias de drama e das tensões de sua provação. A História, afinal, era sempre escrita pelos vencedores.

Dizem que a Madre Superiora não pode descuidar-se de nada — um aforismo sem sentido, até que se perceba sua outra significação: sou a serva de todas as minhas Irmãs. Elas observam sua criada com olhos críticos. Não posso perder tempo demais com assuntos de ordem geral ou trivialidades. A Madre Superiora deve dar demonstrações de ação inspirada, do contrário um sentido de inquietação se instala até nos cantos mais longínquos de nossa ordem.

— Darwi Odrade

Algo do que Odrade chamava de “meu eu servidor”

caminhava com ela pelos saguões da Central esta manhã, fazendo da atividade um substituto para sua prática diária de exercícios na sala de educação física. “Um servidor desapontado!” Não gostava do que estava vendo.

“Estamos por demais enredadas em nossas dificuldades, quase incapazes de separar problemas insignificantes dos de maior importância.”

O que tinha acontecido à consciência de todas elas?

Embora algumas o negassem, Odrade sabia que existia uma consciência Bene Gesserit. Mas elas a tinham torcido e reformulado de uma forma quase irreconhecível.

Sentia-se relutante em interferir nisso. Decisões tomadas em nome da sobrevivência, a Missionária (suas intermináveis discussões jesuíticas) — todos divergiam de algo que exigia muito mais do julgamento humano. O Tirano sabia disso.

Ser humano, essa era a questão. Mas antes que se pudesse sê-lo, era preciso senti-lo nas entranhas.

Não havia respostas clínicas! Chegava a ser de uma simplicidade ilusória, cuja natureza complexa se mostrava quando aplicada.

“Como eu.”

A pessoa olhava para seu interior e encontrava quem e o que achava que era. Nada mais poderia servir.

“Então o que sou eu?”

— “Quem faz a pergunta?” — Era uma espetada da Outra Memória.

Odrade riu alto, e uma Instrutora que passava — chamada Praska — olhou-a surpresa. A Madre Superiora acenou para ela e disse: — É bom estar viva. Lembre-se disso.

Praska deu um débil sorriso e foi cuidar de seus afazeres.

“Então, quem pergunta: o que sou?”

Pergunta perigosa. Fazê-la colocava-a num universo onde nada era inteiramente humano. Nada parecia adequar-se a essa coisa indefinida que procurava. Todos à sua volta, palhaços, animais selvagens e marionetes reagiam ao puxar dos cordões. Ela percebia os cordões que a faziam mover-se.

Continuou pelo corredor na direção do tubo que a levaria a seus aposentos.

“Cordões.” O que se originava com o ovo? “Falamos muito da mente em seu começo. Mas o que eu era, antes que as pressões do viver me dessem forma?”

Não era suficiente procurar algo “natural”. Nada de “O Nobre Selvagem”. Ela já vira muitos em sua existência. Os cordões que os dirigiam eram bem visíveis a uma Bene Gesserit.

Sentia, dentro de si, a compulsão de fazer coisas.

Especialmente forte, hoje. Era uma força a que ela às vezes desobedecia ou evitava. Era uma espécie de feitor que lhe dizia:

“Fortaleça seus talentos. Não deslize suavemente na corrente.

Nade! O que não se usa, se perde.”

Com uma sensação ofegante, próxima ao pânico, compreendeu que mantinha sua humanidade com esforço, e chegara quase a perdê-la.

“Venho tentando seriamente pensar como uma Honrada Madre! Manipular e controlar todos os que eu puder. E tudo em nome da sobrevivência da Bene Gesserit!”

Bell dizia que não havia limites no que a Irmandade pudesse fazer para preservar a Bene Gesserit. Não deixava de haver uma certa verdade nisso, mas era basicamente uma ostentação.

Existiam coisas que realmente uma Reverenda Madre não faria para salvar a Irmandade.

“Nós não poríamos obstáculos ao Caminho Dourado do Tirano.”A sobrevivência do gênero humano tinha precedência sobre a Irmandade. “Do contrário nosso ideal de maturidade humana não teria sentido.”

Mas, oh, os perigos da liderança numa espécie tão ansiosa para que lhe digam o que fazer. Como sabiam pouco das coisas que criavam com suas exigências. Os líderes cometem erros. E estes, ampliados pelo número dos que os seguem sem questionamento, levavam inevitavelmente a grandes desastres.

“Comportamento típico dos lemingues.”*

* Lemingue: mamífero encontrado no norte da Europa e da América do Norte. A espécie é conhecida por seu suicídio em massa. Os animais atiram-se aos milhares do alto de penhascos em direção ao mar. onde nadam até morrerem de exaustão. (N. da T.) Era correto que as Irmãs a observassem com cuidado. Todos os governos precisavam ficar sob suspeita durante seu período de poder, inclusive o da própria Irmandade. “Não confiem em nenhum governo! Nem mesmo no meu!”

Estão me vigiando agora mesmo. Escapa muito pouco às minhas Irmãs. Saberão meu plano a tempo.

Era necessário fazer uma constante purificação mental para defrontar-se com seu grande poder sobre a Irmandade. “Não procurei esse poder. Foi lançado sobre mim.” E pensou: “O poder atrai os passíveis de corrupção. Deve-se suspeitar de todos os que o procuram.” Sabia que havia muita probabilidade de que tais

pessoas fossem suscetíveis à corrupção, ou já estivessem inteiramente perdidas.

Fez uma nota mental para escrever e transmitir um memorando Coda aos Arquivos. (Que Bell se impaciente com isso!)

— Devemos conferir poder sobre nossos assuntos apenas àqueles que estiverem relutantes em aceitá-lo, e então somente sob condições que aumentem essa relutância.

“Descrição perfeita da Bene Gesserit!”

— Você está bem, Dar? — Era a voz de Bellonda da porta do tubo, ao lado de Odrade. — Você parece... estranha.

— Estava só pensando em algo que tenho de fazer. Você está saindo? Bellonda encarou-a, quando trocaram os lugares.

Odrade entrou no campo de transporte do tubo e foi levada velozmente para longe desse olhar indagador.

Chegando ao gabinete, viu sua mesa repleta de tarefas que suas assistentes achavam que só ela poderia resolver.

“Política”, lembrou, enquanto sentava-se e se preparava para assumir as responsabilidades. Tam e Bell tinham ouvido claramente no outro dia, mas suspeitavam apenas vagamente do que teriam de suportar. Estavam preocupadas e cada vez mais vigilantes. “Como deveriam.”

Quase qualquer assunto tinha elementos políticos, pensou. À

medida que se estimulavam as emoções, as forças políticas apareciam de modo crescente em primeiro plano. Isso denunciava a mentira que havia na antiga tolice a respeito de “separação entre a Igreja e o Estado”. Nada mais suscetível ao fogo emocional do que a religião.

“Não admira que desconfiemos das emoções.”

Não todas as emoções, naturalmente. Somente aquelas às quais não se pudesse escapar em momentos de necessidade: amor, ódio. Um pouco de raiva, às vezes, mas sob rédea curta. Essa era a crença da Irmandade. Completa tolice!

O Caminho Dourado do Tirano tornou esse erro não mais tolerável. Deixou a Bene Gesserit numa perpétua estagnação. Não se podia servir até o Infinito!

A repetida pergunta de Bellonda não tinha resposta. — O que ele realmente queria que fizéssemos? — “Em que ações ele estava nos manipulando? (Como manipulamos os outros!)”

“Por que procurar significado onde não há nenhum?”

Caminho Dourado! Uma trilha deixada na imaginação. “O

Infinito não está em lugar nenhum!” E a mente finita deve ser recusada. Aí era onde os Mentats encontravam projeções mutáveis, sempre produzindo mais perguntas que respostas. Era o ideal vazio daqueles que, com o nariz próximo ao círculo interminável, procuravam “uma única resposta para todas as coisas”.

“Procurando sua própria espécie de deus.”

Achava difícil censurá-los. A mente recuava ao defrontar-se com o infinito. O Vazio! Os alquimistas de todas as eras pareciam catadores de trapos curvados sobre as trouxas, dizendo: — Deve haver ordem em algum lugar aqui. Se eu insistir, tenho certeza de que vou encontrá-la.

E o tempo todo, a única ordem era aquela que eles mesmos criavam.

“Ahh, Tirano, seu brincalhão! Você viu isso. Você disse: —

Criarei uma ordem para que a sigam. Aqui está o caminho, vêem?

Não, não olhem! Esse é o caminho do Rei Nu (uma nudez visível apenas às crianças e aos loucos). Mantenham a atenção onde eu indicar. Este é meu Caminho Dourado. Não é um lindo nome? E

tudo o que há e tudo o que poderá haver.”

“Tirano, você foi outro palhaço. Mostrando-nos um interminável reciclar de células a partir daquela bola de lama solitária e perdida em nosso passado comum.”

“Você sabia que o universo humano nunca poderia ser mais que comunidades e um fraco elemento de ligação entre nós quando fôssemos para a Dispersão. Uma tradição de nascimento comum tão longínqua no passado que as imagens que dela têm os descendentes estão, em sua maioria, distorcidas. As Reverendas Madres possuem o original, mas não podemos impô-lo à força àqueles que não o desejam. Vê, Tirano? Nós ouvimos você: —

Deixem que peçam! Só então...”

“E foi por isso que você nos preservou, seu Atreides bastardo! É por isso que tenho de trabalhar.”

Apesar do perigo que isso representava para seu senso de humanidade, sabia que continuaria a insinuar-se nos métodos das Honradas Madres. “Preciso pensar como elas.”

O problema das caçadoras: compartilhado tanto pelo predador como pela presa. Não exatamente a agulha no palheiro.

Mais uma questão de rastrear através de um terreno tomado de coisas familiares e desconhecidas. Os logros da Bene Gesserit asseguravam que as familiares causariam pelo menos tanta dificuldade como as desconhecidas, às Honradas Madres.

“Mas o que elas fizeram por nós?”

A comunicação interplanetária funcionava em favor dos que eram perseguidos. Era limitada pela economia durante milênios.

Existente quase que só entre Pessoas Importantes e Negociantes.

Importante significava o que sempre significara: ricos, poderosos; banqueiros, funcionários, mensageiros. Militares. “Importante”

rotulava muitas categorias — negociantes, artistas do palco, pessoal médico, técnicos especializados, espiões e outros especialistas.

Não era muito diferente dos dias dos Mestres Mason da velha Terra.. Principalmente uma diferença em números, qualidade e sofisticação. Os limites eram transparentes para alguns, como sempre foram.

Achou importante fazer revisões ocasionais, à procura de falhas.A grande massa da humanidade vinculada ao planeta falava do “silêncio do espaço”, para dizer que não podiam arcar com o custo desse tipo de viagem ou comunicação. A maioria das pessoas sabia que as notícias recebidas através dessa maneira eram manipuladas por interesses especiais. Sempre tinha sido assim.

Na superfície de um planeta, o terreno e a fuga à radiação denunciada ditavam os sistemas de comunicação usados: tubos, mensageiros, linhas de luz, neurocursores e muitas trocas. O sigilo e a codificação eram importantes nos próprios planetas e não somente entre eles.

Odrade via isso como um sistema que as Honradas Madres poderiam interceptar se encontrassem um ponto de entrada. As caçadoras teriam de começar decifrando o sistema; mas, então, onde se originava a trilha que conduzia à Sede da Irmandade?

Não-naves impossíveis de serem rastreadas, máquinas ixianas, Navegadores da Corporação — todos contribuíam para o manto de silêncio entre os planetas, a não ser por uns poucos privilegiados. Que as caçadoras não tenham ponto de partida!

Foi uma surpresa quando uma idosa Reverenda Madre, de um planeta usado como castigo pela Bene Gesserit, surgiu no gabinete da Madre Superiora pouco antes da hora do almoço. Os Arquivos a identificaram: “Nome: Dortujla. Enviada anos atrás a uma punição especial por infração imperdoável.” A Memória dizia que tinha sido algum tipo de caso amoroso. Odrade não procurou saber de detalhes, mas alguns foram mencionados, de qualquer forma.

(Bellonda interferindo novamente!) Tinha havido manifestações emocionais de revolta na época em que Dortujla fora banida.

Tentativas infrutíferas por parte do amante para impedir a separação.

Odrade lembrou-se de comentários sobre a desgraça. — O

crime de Jessica! Uma grande parte da informação valiosa era recebida através de mexericos. Em que diabo de lugar ela tinha sido colocada? Deixe! Isso não era importante no momento. As perguntas essenciais agora eram: “Por que ela está aqui? Por que arriscaria uma viagem que podia conduzir as caçadoras até nós?”

Perguntou a Streggi, quando esta anunciou sua chegada. Ela não sabia: — Diz que só revelará seus motivos à senhora, Madre Superiora.

— Somente a mim? — Odrade quase riu, considerando o constante controle (supervisão era um termo mais adequado) sobre cada ação sua. — Essa Dortujla não disse por que está aqui?

— As pessoas que me mandaram interrompê-la, Madre Superiora, disseram que a senhora devia vê-la.

Odrade apertou os lábios. O fato de que a Reverenda Madre banida tivesse penetrado até esse ponto atiçou sua curiosidade.

Com persistência, ela poderia cruzar barreiras comuns, mas estas

não eram assim. A razão de sua vinda já tinha sido revelada. Outros a ouviram e passaram-na adiante. Era evidente que Dortujla não tinha usado de artifícios Bene Gesserit para persuadir suas Irmãs.

Isso só lhe traria rejeição imediata. Não havia tempo para esse tipo de tolices! Então ela tinha observado a corrente de comando. Sua ação revelava uma estimativa cuidadosa, uma mensagem dentro da mensagem que trazia, fosse ela qual fosse.

— Traga-a.

Dortujla tinha envelhecido suavemente em seu longínquo planeta. Revelava sua idade principalmente em rugas não muito profundas ao redor da boca. Seu capuz escondia o cabelo, mas os olhos emergiam brilhantes e alertas.

— Por que está aqui? — O tom de Odrade sugeria que só seria aceitável algo extremamente importante.

A estória de Dortujla era bastante objetiva. Ela e três outras Reverendas Madres tinham falado com um grupo de Futares da Dispersão. Estes tinham investigado o cargo de Dortujla e pediram-lhe que levasse uma mensagem à Sede da Irmandade. Ela havia filtrado o pedido através da Revelação da Verdade, lembrando à Madre Superiora que, mesmo no exílio, podia existir algum talento.

Julgando a mensagem verdadeira, e tendo suas Irmãs concordado, Dortujla agira com rapidez não destituída de cautela.

— Partida imediata em nossa própria não-nave — foi sua maneira de dizê-lo. A nave era pequena, semelhante à de um contrabandista.

— Basta uma pessoa para operá-la.

A essência da mensagem era fascinante. Os Futares desejavam aliar-se às Reverendas Madres, em oposição às Honradas Madres. O tamanho da força que comandavam era difícil de avaliar, segundo Dortujla.

— Recusaram-se a dizer, quando perguntei.

Odrade tinha conhecimento de muitas estórias sobre Futares.

Assassinos das Honradas Madres? Havia motivos para se acreditar nisso, mas as ações dos Futares eram confusas, especialmente nos relatos de Gammu.

— Quantos no grupo?

— Dezesseis Futares e quatro Treinadores. É assim que eles se chamavam: Treinadores. E dizem que as Honradas Madres têm uma arma perigosa, que só pode ser usada uma vez.

— Você apenas mencionou os Futares. Quem são esses Treinadores? E o que é isso a respeito de uma arma secreta?

— Deixei de mencioná-los. Parecem ser humanos, dentro de variáveis observadas na Dispersão: três homens e uma mulher.

Quanto à arma, não quiseram acrescentar nada.

— Parecem humanos?

— Isso mesmo, Madre Superiora. De início, tive a estranha impressão de que eram Dançarinos Faciais. Mas nenhum dos critérios se aplicou. Feromônios negativos. Gestos, expressões —

tudo negativo.

— Apenas a primeira impressão?

— Não posso explicá-la.

— E quanto aos Futares?

— Correspondem às descrições. Humanos na aparência exterior, mas com uma indiscutível ferocidade. Origem felina, eu diria. — Assim me disseram.

— Eles falam, mas usam um Galach abreviado. Jatos de palavras, me pareceram. “Quando comer?”, “Você boa moça”,

“Cocar cabeça”, “Sentar aqui?”. Parecem reagir imediatamente às ordens dos Treinadores, mas não têm medo deles. Tive a impressão de que há respeito e afeto mútuos entre Futares e Treinadores.

— Considerando os riscos, por que achou estas informações bastante importantes para trazê-las aqui?

— São pessoas da Dispersão. Seu oferecimento de aliança é uma abertura para os locais onde se originaram as Honradas Madres. — Você deve ter-lhes perguntado sobre elas, naturalmente.

E sobre as condições na Dispersão.

— Não houve respostas.

O fato, simplesmente relatado. Não se podia olhar com desdém essa Irmã banida, não importa que nuvens ela carregasse sobre o seu passado. Havia mais perguntas a fazer. Odrade

observou as respostas atentamente, detendo-se na velha boca semelhante a uma fruta seca, abrindo-se e fechando-se rosada.

Alguma coisa nos anos de serviço de Dortujla, em seus longos anos de penitência, talvez a tivesse suavizado, mas deixaram o núcleo de dureza Bene Gesserit intocado. Ela falou com hesitação natural. Seus gestos eram gentilmente fluidos. Olhava para Odrade com bondade. (Aí estava a falha que suas irmãs condenavam: o cinismo Bene Gesserit posto em cheque.) Dortujla interessava a Odrade. Era alguém que falava de Irmã para Irmã, com uma mente forte e bem constituída por trás das palavras. Uma mente temperada pela adversidade durante o tempo de seu cargo punitivo. Fazendo o que podia para compensar aquele deslize da juventude. Não fazia nenhuma tentativa de contemporizar ou de mostrar-se a par dos assuntos correntes. Um relato restrito ao essencial, deixando ver que tinha, tanto quanto possível, uma consciência das necessidades. Obediente às decisões da Madre Superiora e cautelosa em relação à perigosa visita, mas ainda assim achando que “vocês devem ter essa informação”.

— Estou convencida de que não se trata de uma armadilha.

Sua conduta estava acima de reprovação. Olhar direto, com o rosto e olhos serenos, sem nenhum intuito de ocultar nada. Uma Irmã poderia ler sua máscara para uma avaliação adequada. Ela agia com um sentido de urgência. Tinha sido tola um dia, mas não era mais.

Qual era o nome de seu planeta-castigo?

O projetor em sua mesa o forneceu: Buzzell.

Esse nome trouxe um sentimento de alerta a Odrade.

Buzzell! Seus dedos oscilaram na mesa de comando, confirmando lembranças. Buzzell: principalmente oceano. Frio. Muito frio. Ilhas estéreis, do tamanho de uma não-nave. As Bene Gesserit consideraram Buzzell, um dia, um lugar de castigo. Lição objetiva:

— Cuidado, menina, ou nós a mandaremos para Buzzell. — Odrade lembrou-se de outra característica, então: pedrassuaves. Buzzell era um local onde tinham naturalizado um monopeda do mar, Cholister, cuja carapaça, quando friccionada, produzia tumores maravilhosos, uma das mais valiosas jóias do universo.

Pedrassuaves.

Dortujla estava usando uma delas, apenas visível junto à gola. À luz do gabinete, tomava o aspecto de uma mistura de verde-mar profundamente brilhante e malva. Era maior que uma órbita humana, exibindo-se como uma declaração de riqueza. Em Buzzell, provavelmente, dava-se pouco valor a essas pedras. Era fácil apanhá-las nas praias.

Pedrassuaves. Isso era significativo. Pelo projeto Bene Gesserit,

Dortujla

tinha

negociações

freqüentes

com

contrabandistas. (Veja-se sua posse daquela não-nave.) Isto devia ser abordado com cuidado. Independente da discussão de Irmã para Irmã, tratava-se ainda da Madre Superiora e de uma Reverenda Madre em punição.

Contrabando. Um crime grave para as Honradas Madres e outros que não tinham se defrontado com a realidade das leis inexeqüíveis. As Dobras do Espaço não mudaram nada em relação ao contrabando; tornaram, quando muito, mais fáceis as intrusões.

Minúsculas não-naves. Até que ponto era possível construí-las em tamanho reduzido? Uma lacuna no conhecimento de Odrade, imediatamente corrigida pelos Arquivos: — 140m de diâmetro.

Portanto, pequenas o bastante, pedrassuaves eram uma carga que apresentava atração natural. As Dobras do Espaço constituíam uma barreira decisiva: qual o valor de um carregamento em relação ao tamanho e à massa? Podiam-se gastar muitos Solares para transportar material pesado. Pedrassuaves — magnéticas para os contrabandistas. Tinham interesse especial para as Honradas Madres, também. Simples economia? Sempre um grande mercado. Tão atraente para os contrabandistas como a melange, agora que a Corporação mostrava-se liberal em relação a ela. A Corporação sempre estocara grandes produções de especiaria em depósitos dispersos e (sem dúvida) inúmeros esconderijos.

“Eles pensam que podem comprar imunidade das Honradas Madres!” Mas isso oferecia algo que poderia ser transformado em vantagem, Odrade sentia.

Em sua fúria selvagem, as Honradas Madres tinha destruído Duna, a única fonte natural conhecida de melange. Ainda sem pensar nas conseqüências (estranho, isso), elas eliminaram os Tleilaxu, cujos tanques axlotl tinham inundado o Antigo Império com a especiaria.

“E temos criaturas capazes de recriar Duna. Também temos, possivelmente, o único Mestre Tleilaxu vivo. Trancado na mente de Scytale está o meio de transformar os tanques axlotl em uma cornucópia de melange. Se conseguirmos que ele nos revele como.”

O problema imediato era Dortujla. A mulher comunicou suas idéias com uma consciência que lhe dava crédito. Tanto os Treinadores como os Futares, disse ela, estavam perturbados por algo que não queriam revelar. Dortujla tinha agido bem, não tentando usar com eles os métodos de persuasão Bene Gesserit.

Não havia indicação de como o pessoal da Dispersão poderia reagir.

Mas o que os perturbava?

— Alguma outra ameaça não representada pela Honradas Madres — sugeriu a exilada. Ela não arriscava outras conclusões, mas a possibilidade estava presente e devia ser considerada.

— O essencial é que eles querem propor uma aliança — disse Odrade.

— Uma causa comum para um problema comum, era como se podia dizer. Apesar do Senso da Verdade, Dortujla aconselhava somente uma cautelosa exploração da oferta.

Por que ir a Buzzell, afinal? Seria porque as Honradas Madres o tinham poupado ou julgaram-no insignificante em seu furioso arrastão?

— Pouco provável — Dortujla disse.

Odrade concordava. Dortujla, não importa quão comprometida sua posição original, comandava agora uma propriedade valiosa e, muito mais importante, era uma Reverenda Madre com uma não-nave que podia levá-la à Madre Superiora.

Conhecia a localização da Sede da Irmandade. Naturalmente um conhecimento inútil para as caçadoras. Elas sabiam que uma Reverenda Madre preferia matar-se a trair esse segredo.

Problemas compreendiam mais problemas. Mas antes, um pouco de confraternização. Dortujla tinha interpretado com exatidão os motivos da Madre Superiora. Odrade mudou o rumo da conversa para assuntos pessoais.

Foi uma boa idéia. Dortujla estava claramente divertida, mas disposta a falar.

As Reverendas Madres em postos isolados tendiam a ter o que as Irmãs chamavam de “outros interesses”. Em eras anteriores eram denominados passatempos, mas a atenção que se devotava a esses interesses era em geral muito grande. Odrade achava a maioria dos interesses desse tipo tediosos, mas achou significativo que Dortujla chamasse os seus de passatempo. “Ela colecionava moedas, então?”

— De que tipo?

— Tenho duas gregas primitivas, em prata, e um perfeito óbolo de ouro.

— Autênticos?

— São verdadeiros. — Isso significava que tinha feito uma exploração pessoal na Outra Memória para autenticá-los.

Fascinante. Exercia suas capacidades de um modo fortalecedor, mesmo com seu passatempo. A história interior e a exterior coincidiam.

— Tudo isso é muito interessante, Madre Superiora — disse Dortujla finalmente. — Aprecio a confirmação de que ainda somos Irmãs, e acho seu interesse em pinturas antigas um passatempo paralelo ao meu. Mas ambas sabemos dos motivos pelos quais arrisquei-me a vir até aqui.

— Os contrabandistas.

— Naturalmente. As Honradas Madres não podem ter deixado de constatar minha presença em Buzzell. Os contrabandistas não resistem a propostas vantajosas. Devemos partir do princípio de que eles tiraram proveito de seu conhecimento a respeito de Buzzell, das pedrassuaves e de uma Reverenda Madre residente, com servidores. E não podemos nos esquecer de que os Treinadores me encontraram.

“Maldição”, Odrade pensou. “Dortujla é a espécie de conselheira que gostaria de ter perto de mim. Eu me pergunto quantos outros tesouros semelhantes estão lá fora, escondidos, por motivos mesquinhos? Por que tantas vezes pomos de lado nossos próprios talentos? Essa é uma fraqueza antiga, que a Irmandade ainda não exorcizou.”

— Acho que aprendemos algo valioso sobre as Honradas Madres — disse Dortujla.

Não havia necessidade de acenar em concordância. Esse era o ponto essencial do que tinha trazido Dortujla à Sede. As vorazes caçadoras vinham enxameando para o Antigo Império, matando e queimando onde quer que suspeitassem a presença das Bene Gesserit. Mas não tinham tocado Buzzell, embora devessem conhecer sua localização.

— Por quê? — Odrade perguntou, dando voz ao que tinham na mente.

— Nunca destrua o próprio ninho.

— Acha que elas já estão em Buzzell?

— Ainda não.

— Mas acredita que Buzzell é um lugar que elas querem.

— Projeção primária.

Odrade simplesmente fitou-a. Então ela cultivava um outro passatempo! Vasculhava a Outra Memória, revivia e aperfeiçoava talentos aí depositados. Quem poderia culpá-la? O tempo devia arrastar-se em Buzzell.

— Uma conclusão Mentat — acusou Odrade.

— Sim, Madre Superiora. — Seu tom era muito brando. As Reverendas Madres podiam investigar a Outra Memória somente com a permissão da Sede, e unicamente se contassem com a orientação e o apoio de companheiras Irmãs. Então Dortujla permanecia uma rebelde. Seguia seus próprios desejos, do mesmo modo que agira com seu amante proibido. Bom! A Bene Gesserit precisava dessas rebeldes.

— Elas querem Buzzell intacto — disse Dortujla.

— Um mundo aquático?

— Daria um habitat adequado para servos anfíbios. Não os Futares ou Treinadores. Estudei-os com atenção.

A evidência sugeria um plano das Honradas Madres para introduzir o trabalho escravo, talvez com anfíbios, para coletar pedrassuaves. As Honradas Madres podiam ter escravos anfíbios.

O conhecimento que produziu os Futares poderia criar muitas formas de vida consciente.

— Escravos, um perigoso desequilíbrio — Odrade disse.

Dortujla demonstrou, pela primeira vez, uma emoção mais forte, uma reação profunda que transformou-lhe a boca numa linha apertada.

Era um padrão há muito reconhecido pela Bene Gesserit: o fracasso inevitável da escravidão e da peonagem. Criava-se um reservatório de ódio. Inimigos implacáveis. Não se tinha esperança de exterminar todos esses inimigos, nem se ousava tentar. Tempere seus esforços com a percepção certa de que a opressão tornará seus inimigos mais fortes. Os oprimidos terão sua vez, e que Deus ajude o opressor, quando esse dia chegar. Era uma faca de dois gumes. O oprimido sempre aprendia com o opressor e o copiava.

Quando os papéis se invertiam, o palco estava armado para outra rodada de vingança e violência. E os lugares eram trocados repetidamente, até a náusea.

— Será que elas não vão amadurecer jamais? — Odrade perguntou. Dortujla não possuía a resposta, mas tinha uma sugestão imediata: — Preciso retornar a Buzzell.

Odrade considerou a observação. Uma vez mais, a exilada Reverenda Madre estava mais adiantada do que a Madre Superiora.

Por muito desagradável que fosse essa decisão, ambas sabiam que era a atitude. Os Futares e os Treinadores retornariam. Mais importante, com um planeta que as Honradas Madres desejavam, havia uma grande probabilidade de que os visitantes da Dispersão tivessem sido observados. As Honradas Madres seriam obrigadas a manifestar-se, e essa manifestação poderia revelar muito a seu respeito.

— Naturalmente, elas acham que Buzzell é a isca de uma armadilha — disse Odrade.

— Eu poderia fazer saber que fui banida por minhas Irmãs —

disse Dortujla. — Pode ser verificado.

— Usar a si mesma como isca?

— Madre Superiora, que tal se elas fossem tentadas a participar de uma conferência?

— Conosco? “Que idéia espantosa!”

— Sei que a história delas não conta com negociações razoáveis, mas mesmo assim...

— É brilhante! Mas vamos tornar a idéia mais sedutora.

Digamos que eu esteja convencida de que preciso levar-lhes uma proposta de sujeição da Bene Gesserit.

— Madre Superiora!

— Não tenho intenção alguma de me entregar. Mas que outra forma melhor de fazê-las falar?

— Buzzell não é um bom lugar para um encontro. Nossas instalações são muito precárias.

— Elas estão com a força no Entroncamento. Se sugerissem esse local para o encontro, você poderia deixar-se persuadir?

— Isso requer um planejamento cuidadoso, Madre Superiora.

— Oh, muito cuidadoso. — Os dedos de Odrade adejaram sobre as teclas da mesa. — Sim, hoje à noite — disse, respondendo a uma pergunta visível, e então dirigiu-se a Dortujla por sobre a mesa atulhada: — Quero que se aviste com meu Conselho e outras pessoas antes de retornar. Nós a instruiremos em detalhe, mas dou-lhe minha garantia pessoal de que terá liberdade de ação. O

importante é conseguir que elas concordem com um encontro no Entroncamento... e espero que saiba o quanto me desagrada usá-la como isca.

Como Dortujla permanecesse mergulhada em seus pensamentos e não respondesse, Odrade disse: — Elas podem ignorar nossas propostas iniciais e eliminá-la. Entretanto, você é a única isca de que dispomos.

Dortujla mostrou que ainda tinha senso de humor. — Não gosto muito da idéia de balançar num anzol, Madre Superiora. Por favor, segure firme essa linha. — Levantou-se e, com um olhar

preocupado para a mesa de Odrade, disse: — A senhora tem tanto a fazer, e temo ter ocupado seu tempo além da hora do almoço.

— Almoçaremos juntas, aqui, Irmã. No momento, você é muito mais importante do que qualquer outra coisa.

Todos os estados são abstrações.

— Octun Politicus Arquivos BG

Lucilla procurou ter cuidado em não aceitar um sentimento demasiado familiar a respeito desta sala de cor verde-ácido e da constante presença da Grande Honrada Madre. Este era o Entroncamento, fortaleza daquelas que procuravam o extermínio da Bene Gesserit. Era o inimigo. Dia dezessete.

O relógio mental infalível que se tinha instalado em sua mente durante a Agonia da Especiaria dizia-lhe que já estava adaptada aos ritmos circadianos do planeta. Despertar pela madrugada. Nenhuma indicação de quando seria alimentada. A Honrada Madre a tinha confinado a uma única refeição por dia.

E sempre aquele Futar na jaula. Um lembrete: “Vocês ambos em jaulas. É assim que tratamos os animais perigosos. Podemos deixá-los sair, ocasionalmente, para esticar as pernas e nos dar prazer, mas depois disso, para a jaula de novo.”

Quantidades mínimas de melange na comida. Não por parcimônia com sua riqueza. Uma pequena demonstração “do que

poderia ser seu, se você fosse ao menos razoável”.

“A que horas ela virá hoje?”

As aparições da Grande Honrada Madre não tinham horário preestabelecido. Aparições ao acaso para confundir a prisioneira?

Provavelmente. Deveria haver outras exigências para o emprego do tempo de uma comandante. Encaixe o animalzinho perigoso no seu horário, onde for possível.

“Posso ser perigosa, senhora Aranha, mas não sou seu animalzinho.”

Lucilla sentiu a presença de dispositivos exploradores, coisas que eram mais do que um estímulo para os olhos. Eles examinavam dentro da carne, procurando armas escondidas, examinando o funcionamento dos órgãos. “Será que ela tem implantes estranhos?

E quanto a órgãos adicionais, cirurgicamente acrescentados ao corpo?”“Nada disso, senhora Aranha. Confiamos nas coisas que vêm com o nascimento.”

Lucilla conhecia o maior perigo imediato para si — que ela se sentisse inadequada ao ambiente. Suas captoras a mantinham em terrível desvantagem, mas não tinham destruído suas capacidades Bene Gesserit. Podia optar pela morte antes que o shere em seu corpo estivesse esgotado ao ponto de levá-la à traição. Ela ainda tinha sua mente... e a tribo de Lâmpadas.

O painel do Futar abriu-se, e sua jaula deslizou para fora.

Então a Rainha Aranha estava a caminho. Exibindo ameaças adiante de si, como de costume. “Vinha cedo, hoje. Mais cedo do que nunca.”

— Bom dia, Futar — Lucilla falou com uma cadência alegre e melodiosa. O Futar olhou-a, mas não disse nada.

— Você deve odiar essa jaula — Lucilla disse.

— Não gostar jaula.

Ela já tinha percebido que essas criaturas possuíam certo grau de facilidade lingüística, mas seu alcance ainda a iludia.

— Imagino que ela o mantém faminto, também. Gostaria de me comer?

— Comer — Clara demonstração de interesse.

— Desejaria ser sua Treinadora.

— Você Treinadora?

— Você me obedeceria se eu fosse uma?

A pesada cadeira da Rainha Aranha ergueu-se do esconderijo no chão. Nem sinal dela, mas era de se supor que tivesse ouvido a conversa. O Futar olhou para Lucilla com uma peculiar intensidade.

— Os Treinadores mantêm vocês na jaula e com fome?

— Treinador? — Evidente inflexão de pergunta.

— Quero que você mate a Grande Honrada Madre. — Isso não seria surpresa para elas.

— Matar Dama!

— E comê-la.

— Dama veneno. — Desanimado. “Ooooh. Não é uma informação interessante?”

— Ela não é venenosa. Sua carne é igual à minha.

O Futar aproximou-se, dentro dos limites da jaula. Com a mão esquerda, baixou o lábio inferior. Havia a forte vermelhidão de uma cicatriz, com aparência de queimadura.

— Ver veneno — ele disse, deixando cair a mão.

“Imagino como ela teria feito isso?” Não havia cheiro de veneno na Honrada Madre. Carne humana e uma droga com base de adrenalina para produzir os olhos laranja em resposta à irritação... e àquelas outras respostas reveladas por Murbella. Uma sensação de absoluta superioridade.

Até onde ia a compreensão de um Futar? — Era veneno amargo?

O Futar fez uma careta e cuspiu.

“Ação mais rápida e mais poderosa que palavras.”

— Você odeia Dama? Ele exibiu os caninos.

— Tem medo dela? Sorriso.

— Então por que não a mata?

— Você não Treinadora.

“É necessário o comando de um Treinador!”

A Grande Honrada Madre entrou e afundou-se numa cadeira.

Lucilla colocou a voz na cadência melodiosa: — Bom-dia, Dama. — Não lhe dei permissão para me chamar assim. — Voz baixa, com um início de pintas de laranja nos olhos.

— O Futar e eu estávamos tendo uma conversa.

— Sei. — Mais laranja nos olhos. — E se você o estragou para mim...

— Mas, Dama...

— Não me chame assim! — Fora da cadeira, com os olhos em chamas laranja.

— Por favor, sente-se — disse Lucilla. — Isso não é maneira de conduzir um interrogatório. — Sarcasmo, uma arma perigosa. —

Disse ontem que desejava continuar nossa discussão sobre política.

— Como sabe que horas são? — Sentando-se de novo, mas com os olhos ainda flamejando.

— Todas as Bene Gesserit têm essa capacidade. Podemos sentir os ritmos de qualquer planeta depois de algum tempo no local. — Um talento estranho.

— Qualquer um pode fazer isso. Uma questão de estar sensibilizado.

— Eu poderia aprendê-lo? — O laranja estava perdendo a força. — Eu disse qualquer um. Você ainda é humana, não é? —

“Uma pergunta ainda não inteiramente respondida.”

— Por que diz que vocês, bruxas, não têm governo?

“Quer mudar de assunto. Nossas capacidades a preocupam.”

— Não foi isso que eu disse. Não temos governo convencional.

— Nem mesmo um código social?

— Não existe essa coisa chamada código social para atender a todas as necessidades. Um crime numa sociedade pode ser uma exigência moral em outra.

— As pessoas sempre têm governo. — O laranja completamente apagado. “Por que isso a interessa tanto?”

— As pessoas têm política. Eu lhe disse ontem. Política: a arte de parecer sincero e completamente aberto ao mesmo tempo em que se oculta tanto quanto possível.

— Então vocês, bruxas, ocultam coisas.

— Não disse isso. Quando se diz “política”, isso é uma advertência para nossas Irmãs.

— Não acredito em você. Os humanos sempre criam alguma forma de...

— Acordo?

— Uma palavra tão boa quanto qualquer outra! — “Isso a irrita.” Como Lucilla não acrescentasse nenhuma outra resposta, a GrandeHonrada Madre inclinou-se para a frente. — Você está escondendo coisas!

— Não é meu direito ocultar-lhe o que poderia ajudá-las a nos derrotar? — “Essa é uma boa isca!”

— Acho que sim! — Recostando-se com um olhar de satisfação.

— Entretanto, por que não divulgá-lo? Vocês pensam que os nichos de autoridade estarão sempre lá para serem preenchidos, e não sabem o que isso revela sobre minha Irmandade.

— Oh, conte-me, por favor. — “Sarcasmo pesado.”

— Vocês acreditam que tudo isso está de acordo com instintos que remontam aos tempos tribais e além. Chefes e Maiores. A Mãe Misteriosa e o Conselho. E anterior a isso, o Homem Forte (ou a Mulher), que providenciava para que todos fossem alimentados e protegidos pelo fogo à entrada da caverna.

— Isso faz sentido. “Faz mesmo?”

— Oh, concordo. A evolução das formas está claramente exposta.

— Evolução, bruxa! Uma coisa em cima da outra. “Evolução.

Vê como ela se agarra a palavras-chave?”

— É uma força que pode ser mantida sob controle, fazendo-a depender de si mesma.

“Controle! Veja o interesse que você despertou. Ela adora essa palavra.”

— Então vocês fazem leis como qualquer um!

— Regulamentos, talvez, mas não é tudo temporário?

Intensamente interessada. — Naturalmente.

— Mas sua sociedade é administrada por burocratas que sabem que não podem aplicar a mais leve imaginação ao que fazem. — Isso é importante? — “Realmente perplexa. Olhe sua carranca!”

— Somente para vocês, Honrada Madre.

— Grande Honrada Madre! — “Como ela é sensível!”

— Por que não permite que eu a chame de Dama?

— Não somos íntimas. ‘

— O Futar é íntimo?

— Pare de mudar de assunto!

— Quer escovar dente — disse o Futar.

— Quieto! — “Realmente furiosa.”

O Futar sentou-se nos quartos, mas não ficou intimidado. A Grande Honrada Madre voltou seu olhar laranja para Lucilla. — E

quanto aos burocratas?

— Eles não têm vez para manipulações, porque essa é a forma pela qual seus superiores engordam. Quando não se vê diferença entre a lei e o regulamento, ambos têm a força da lei.

— Não vejo diferença. — “Ela não sabe o que está revelando.”

— As leis exprimem o mito da mudança forçada. Um futuro novo e brilhante acontecerá em função desta ou daquela lei. As leis impõem o futuro. Acredita-se que os regulamentos dêem força ao passado.

— Acredita-se? — “Ela não gosta dessa palavra, também.”

— Em ambos os exemplos, a ação é ilusória. Como designar um comitê para estudar um problema. Quanto mais pessoas no grupo, mais idéias preconcebidas serão aplicadas ao problema.

“Cuidado! Ela está pensando sobre o assunto, aplicando-o a si mesma.” Lucilla ajustou seu tom de voz ao nível mais razoável. —

Vocês vivem em função de um passado exagerado e tentam entender um futuro não identificado.

— Não acreditamos na presciência. — “Sim, ela acredita! Finalmente. E por isso que nos mantém vivas.”

— Por favor, Dama. Há sempre algo desequilibrado no limitar-se a um reduzido círculo de leis’.

“Tenha cuidado! Ela não reagiu quando você a chamou de Dama.” A cadeira da Grande Honrada Madre rangeu a um movimento seu. — Mas as leis são necessárias!

— Necessárias? Isso é perigoso.

— De que modo?

“Vá devagar. Ela se sente ameaçada.”

— As leis e as regras que são necessárias impedem as pessoas de se adaptarem. Inevitavelmente, tudo acaba por se quebrar. É como os banqueiros, pensando que podem comprar o futuro. — ”O poder para mim! Os descendentes que vão para o inferno!” — O que é que os descendentes fazem por mim?

“Não o diga! Olhe para ela. Está reagindo com a loucura habitual. Dê-lhe mais um gostinho.”

— As Honradas Madres originaram-se como terroristas.

Primeiro, burocratas, e o terror como arma de sua escolha.

— Quando está em suas mãos, use-a. Mas nós éramos rebeldes. Terroristas? Isso é caótico demais.

“Ela gosta dessa palavra, caos. Define tudo que é exterior.

Ela nem ao menos pergunta como você conhece suas origens.

Aceita nossas misteriosas capacidades.”

— Não é estranho, Dama... — ”Não houve reação; continue.”... o modo como os rebeldes logo caem nos antigos padrões, quando são vitoriosos? Não é tanto uma armadilha no

caminho de todos os governos, mas uma desilusão à espera de qualquer um que chegue ao poder.

— Ah! E eu pensei que você me diria alguma coisa nova.

Nós conhecemos essa: O poder corrompe. O poder absoluto corrompe absolutamente.

— Errado, Dama. Algo mais sutil, mas muito mais universal.

O poder atrai os corruptíveis.

— Você ousa acusar-me de corrupção? “Observe os olhos!”

— Eu? Acusá-la? A única que pode acusá-la é você mesma.

Eu simplesmente lhe dei a opinião das Bene Gesserit.

— O que não me diz nada!

— Entretanto, acreditamos que haja uma moralidade acima de qualquer lei, que deve permanecer vigilante quanto a qualquer tentativa de estabelecer um regulamento imutável.

“Você usou as duas palavras numa única sentença e ela não percebeu.”

— O poder sempre funciona, bruxa. Essa é a lei.

— E os governos que se perpetuam muito tempo sob essa crença sempre se tornam acumpliciados com a corrupção.

— Moralidade!

“Ela não é muito boa em mostrar-se sarcástica, especialmente quando está na defensiva.”

— Tentei realmente ajudá-la, Dama. As leis são perigosas para todos, sejam eles inocentes ou culpados. Não importa que a pessoa se acredite poderosa ou desamparada. Não têm compreensão humana nem dentro, nem a respeito de si mesmas.

— Não existe essa coisa chamada compreensão humana!

“Nossa pergunta está respondida. Não são humanas. Fale a seu lado inconsciente. Ela está inteiramente aberta.”

— As leis precisam sempre de interpretações. Os que agem compelidos pela lei não têm abertura para a compaixão. Não há liberdade para agir. A lei é a lei.

— É. — “Muito defensiva.”

— Essa é uma idéia perigosa, especialmente para os inocentes. As pessoas conhecem isso instintivamente, e se ressentem com essas leis. Fazem pequenas coisas, em geral em

nível inconsciente, para incapacitar “a lei” e aqueles que lidam com essa tolice.

— Como ousa chamá-la de tolice? — Quase levantando da cadeira, mas voltando a sentar-se.

— Oh, sim. E a lei, personificada por todos aqueles cuja subsistência depende dela, torna-se indignada quando ouve palavras como as minhas.

— Perfeitamente, bruxa! — “Mas ela não a mandou ficar calada.” — Mais lei — diz você. — Precisamos de mais lei! Então vocês fazem novos instrumentos de não-compaixão e, incidentalmente, novos nichos de emprego para aqueles que se alimentam do sistema.

— Sempre foi e sempre será assim.

— Errado, novamente. É um rondo, que gira e gira até que fere a pessoa ou o grupo errado. Aí vem a anarquia. O caos. — “Vê como ela pula?” — Rebeldes, terroristas, explosões crescentes de devastadora violência. Um” jihad! E tudo porque vocês criaram algo inumano.

“Mão no queixo, olhe só!”

— Como foi que nos afastamos tanto da política, bruxa? Era essa sua intenção?

— Não nos afastamos nem uma fração de milímetro!

— Suponho que vá me dizer que vocês, bruxas, praticam uma forma de democracia.

— Com uma vigilância que vocês não podem imaginar.

— Tente comigo. — “Ela pensa que você vai lhe contar um segredo. Conte-lhe um.”

— A democracia é suscetível de ser afastada do caminho por fazer desfilar bodes expiatórios diante do eleitorado. Pegue os ricos, os gananciosos, os criminosos, o líder estúpido e assim por diante ad nauseam.

— Vocês pensam como nós. — ”Céus! Ela quer desesperadamente que sejamos como ela.”

— Disse que vocês são burocratas que se rebelaram.

Conhecem a falha. Uma burocracia desequilibrada, mais pesada em

cima do que embaixo, que o eleitorado não pode alcançar, sempre se expande até os limites de energia do sistema. Arranque essa energia dos idosos, dos aposentados, de qualquer um.

Especialmente daqueles que outrora se diziam classe média, porque é aí que a maior parte da energia tem origem.

— Vocês se consideram... classe média?

— Não nos classificamos sob nenhuma forma fixa. Mas a Outra Memória nos revela as falhas da democracia. Imagino que vocês têm alguma forma de serviço civil para as “ordens inferiores”.

— Tomamos conta de nós. — “Esse é um eco desagradável.”

— Então sabem como isso dilui o voto. Sintoma principal: as pessoas não votam. O instinto lhes diz que é inútil.

— A democracia é uma idéia obtusa, de qualquer modo!

— Concordo. Propensa à demagogia. É uma doença à qual os sistemas eleitorais são vulneráveis, entretanto, os demagogos são fáceis de identificar. Gesticulam muito e falam com o ritmo do púlpito, utilizando palavra^ que ressoam com fervor religioso e sinceridade crente. “Ela está rindo!”

— A sinceridade de fachada, que não tem nada por trás, exige muita prática, Dama. E a prática sempre pode ser detectada.

— Pelas Reveladoras da Verdade?

“Vê como ela se inclina para a frente? Nós a pegamos de novo.” — Por qualquer um que interprete os sinais: Repetição.

Grande esforço para manter sua atenção nas palavras. Não se deve prestar atenção às palavras. Observe o que a pessoa faz. Desse modo aprendem-se os motivos.

— Então vocês não têm uma democracia. “Conte-me mais segredos Bene Gesserit.”

— Mas nós temos.

— Pensei que tivesse dito...

— Nós a protegemos bem, prestando atenção às coisas que acabei de descrever. O perigo é grande, mas a recompensa também o é.

— Sabe o que me revelou? Que vocês são um bando de tolas! — Boa moça! — o Futar disse.

— Cale-se, ou eu o mando de volta para o rebanho.

— Dama não boa.

— Vê o que fez, bruxa? Estragou-o!

— Imagino que haja outros. “Ohhhh. Olhe esse sorriso.”

Lucilla harmonizou-se com o sorriso com precisão, espaçando suas respirações no ritmo das dela. “Vê como somos parecidas? Naturalmente eu tentei feri-la. Você não faria o mesmo em meu lugar?”

— Então vocês sabem obrigar a democracia a fazer o que querem. — Expressão de regozijo.

— A técnica é muito sutil, mas fácil. Cria-se um sistema em que a maioria das pessoas está insatisfeita, vaga ou profundamente.

“É assim que ela pensa. Observe seu aceno em concordância a suas palavras.”

Lucilla manteve-se no ritmo do movimento de concordância da Honrada Madre. — Isso desenvolve sentimentos difusos de ódio vingador. Aí fornecem-se alvos para essa raiva, conforme a necessidade.

— Uma tática diversiva.

— Prefiro considerá-la uma distração. Não dê tempo para perguntas. Enterre seus erros sob mais leis. Transita-se na ilusão. É

a técnica das touradas.

— Oh,sim! Isso é bom! — ”Ela está quase alegre. Dê-lhe mais imagens de touradas.”

— Agite a capa. Eles arremetem, e ficam confusos quando percebem que não há toureiro por trás. Isso embrutece o eleitorado tanto quanto o touro. Menos pessoas usarão o voto inteligentemente na próxima vez.

— E é por isso que o fazemos!

“Nós o fazemos! Será que ela se ouve?”

— Aí você insulta o eleitorado. Faz com que se sintam culpados. Torna-os embrutecidos. Alimenta-os. Diverte-os! Não exagere!

— Oh, não! Nunca exagere.

— Faça-os saber que a fome os espera se não entrarem na linha. Mostre-lhes os aborrecimentos causados aos que fazem balançar os botes. “Obrigada, Madre Superiora. É uma imagem adequada.”

— Vocês não deixam que o touro pegue de vez em quando um matador?

— Naturalmente. Pum! Pegamos um! Aí você espera que o entusiasmo diminua.

— Eu sabia que vocês não permitiam uma democracia!

— Por que não quer me acreditar? “Está desafiando o destino!”

— Porque você teria de permitir votação aberta, júris, juizes e...

— Nós as chamamos de Instrutoras. Uma espécie de Júri de Todos. “Agora você a confundiu.”

— E nenhuma lei... nenhum regulamento, como quer que vocês o chamem?

— Não lhe disse que os definimos separadamente?

Regulamento — passado. Lei — futuro.

— Vocês restringem essas... essas Instrutoras, de algum modo! — Elas podem chegar à decisão que quiserem, do modo que um júri funcionaria. A lei que se dane!

— Essa é uma idéia muito perturbadora. “Ela está de fato perturbada. Veja como seus olhos estão sem expressão.”

— A primeira regra da nossa democracia: nenhuma lei que restrinja o poder do júri. Essas leis são absurdas. É assombroso como os humanos podem ser obtusos quando agem em grupos pequenos, voltados para seus próprios interesses.

— Você está me chamando de obtusa, não está? “Cuidado com o laranja.”

— Parece haver uma regra da natureza que diz que é quase impossível para os grupos que atendem seus próprios interesses agir esclarecidamente.

— De forma esclarecida! Eu sabia!

“Esse é um sorriso perigoso. Tenha cuidado.”

— Significa fluir com as forças da vida, ajustando suas ações de modo que a vida possa continuar.

— Com a maior quantidade de felicidade para o maior número, naturalmente.

“Depressa! Fomos espertas demais! Mude de assunto!”

— Esse era um elemento que o Tirano não considerou em seu Caminho Dourado. Ele não considerou a felicidade, somente a sobrevivência da humanidade.

“Dissemos para mudar de assunto. Olhe para ela! Está furiosa!” A Grande Honrada Madre afastou a mão do queixo. — E eu ia convidá-la para fazer parte de nossa ordem, fazê-la uma de nós. Libertá-la. “Tire-a disso! Depressa!”

— Não fale — disse a Grande Honrada Madre. — Nem abra a boca. “Já está feito!”

— Você ajudaria Logno ou uma das outras e ela ficaria em meu lugar! — Olhou para o Futar agachado. — Comer, querido?

— Não comer boa moça.

— Então vou jogar sua carcaça para o rebanho!

— Grande Honrada Madre...

— Eu lhe disse para não falar! Você teve a ousadia de chamar-me de Dama.

Lucilla teve uma visão nublada da mulher pulando da cadeira.

A porta da jaula escancarou-se, batendo com força na parede.

Tentou esquivar-se, mas o shigafio restringia seus movimentos. Não chegou a ver o pontapé que lhe esmagou as têmporas.

No momento de sua morte, a consciência de Lucilla foi penetrada por um grito de raiva — a tribo de Lâmpadas dando vazão a emoções sufocadas por muitas gerações.

Há pessoas que nunca participam. A vida lhes acontece. Dão um jeito de arranjar-se com pouca coisa além de uma cega persistência, e resistem com raiva ou violência a tudo que poderia afastá-las das rancorosas ilusões da segurança.

— Alma Mavis Ta aza

De lá pra cá, de cá pra lá. O dia inteiro, de lá pra cá. Odrade mudava de um registro dos televigias para outro, procurando, indecisa, inquieta. Primeiro olhava para Scytale, depois para o jovem Teg com Duncan e Murbella, em seguida fixava o olhar para fora da janela enquanto pensava no último relatório de Lâmpadas enviado por Burzmali.

Quando poderiam tentar a restauração das memórias do Bashar? E o ghola, uma vez reintegrado, obedeceria?

“Por que a falta de notícias do Rabino? Deveríamos iniciar a Extremis Progressiva, compartilhando entre nós o máximo possível?” O efeito sobre o moral seria devastador.

Os registros eram projetados acima da mesa, enquanto as assistentes e conselheiras entravam e saíam. Interrupções necessárias. Assine isto. Aprove aquilo. Devemos diminuir a melange deste grupo?

Bellonda estava lá, sentada à mesa. Tinha parado de perguntar o que Odrade procurava e simplesmente observava com aquele olhar fixo, inabalável. Sem piedade.

Tinham discutido sobre a possibilidade de uma nova população de vermes da areia na Dispersão restaurar a influência maligna do Tirano. Esse sonho interminável em cada espectro do verme ainda preocupava Bell. Mas os números populacionais, por si só, revelavam que o domínio do Tirano sobre seu destino tinha terminado.

Tamalane tinha estado lá mais cedo, procurando um registro de Bellonda. Revigorada por um novo acervo nos Arquivos, esta lançara-se numa diatribe às mudanças de população da Irmandade e ao esgotamento de recursos.

Odrade olhou pela janela agora que o crepúsculo se espalhava pela paisagem. Estava escurecendo gradativamente, em nuances quase imperceptíveis. Quando anoiteceu por completo, ela tomou consciência das luzes lá longe, nas casas da plantação.

Sabia que estavam acesas há mais tempo, mas tinha a sensação de que era a noite que as criava. Algumas se apagavam de vez em quando, conforme as pessoas se movimentavam pelos aposentos.

“Onde não houver pessoas — não há necessidade de luz. Não desperdice energia.”

As luzes que piscavam tomaram-lhe a atenção por um momento. Uma variação da velha questão da árvore caindo na floresta: haveria som, se ninguém ouvisse? Odrade era partidária da idéia de que as vibrações existiam independentes de serem registradas por um sensor.

“Haverá sensores secretos seguindo nossa Dispersão? Que novos talentos e que invenções os Primeiros Dispersos usam agora?”Bellonda já se mantivera em silêncio por tempo suficiente. —

Dar, você está transmitindo sinais que nos preocupam pela Sede da

Irmandade.

Odrade aceitou a observação sem comentários.

— O que quer que esteja fazendo, está sendo interpretado como indecisão. — ”Como Bell parecia triste.” — Grupos importantes estão discutindo a possibilidade de substituí-la. As Instrutoras estão votando.

— Somente as Instrutoras?

— Dar, você realmente acenou a Praska, no outro dia, e lhe disse que era bom estar viva?

— Isso mesmo.

— O que anda fazendo?

— Reavaliando. Nenhuma notícia de Dortujla?

— Já me perguntou isso uma dúzia de vezes, hoje! —

Bellonda fez um gesto para a mesa de trabalho. — Você continua revendo o último relatório de Burzmali a respeito de Lâmpadas. Há alguma coisa que deixamos passar?

— Porque nossas inimigas se agarram a Gammu?

Responda-me, Mentat.

— Não tenho dados suficientes, você bem sabe!

— Burzmali não era Mentat, mas sua descrição dos acontecimentos apresenta uma força persistente, Bell. Bem, afinal ele era o aluno favorito do Bashar. É compreensível que mostre características de seu mestre.

— Diga logo, Dar. O que vê no relatório?

— Ele preenche um vazio. Não completamente, mas... é torturante o modo como se refere a Gammu. Muitas forças econômicas têm ligações importantes no local. Por que esses fios não foram cortados por nossas inimigas?

— Elas estão no mesmo sistema, obviamente.

— E se fizéssemos um ataque total a Gammu?

— Ninguém quer fazer negócios em ambientes violentos. É

isso que quer dizer?

— Em parte.

— Muitos dos grupos desse sistema econômico provavelmente gostariam de mudar-se. Um outro planeta, uma outra população subserviente.

— Por quê?

— Poderiam fazer previsões com mais confiabilidade.

Aumentariam as defesas, naturalmente.

— Nessa aliança que percebemos, Bell, eles redobrariam os esforços para nos encontrar e destruir.

— Com certeza.

O comentário conciso forçou Odrade a afastar os pensamentos. Ergueu o olhar para as montanhas coroadas de neve, brilhando à luz das estrelas. Os ataques viriam dessa direção?

O golpe desse pensamento poderia ter embotado um intelecto menos privilegiado. Mas Odrade não precisava de nenhuma Litania Contra o Medo para manter a cabeça fria. Tinha uma fórmula mais simples.

Continuar: parte 7 de 16