As Herdeiras de Duna
Folha de Rosto
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 16 partes.
— Deixe-me apresentar nosso chefe da cozinha, Plácido Salat! Seu bife plácido (com minúscula, a seu pedido) era motivo de inveja de muitos. Quase cru, e servido com um molho de ervas e mostarda picante, que não obscurecia a carne.
Odrade achava o prato por demais exótico, mas nunca dissera nada em voz alta.
Quando Salat lhe deu toda a atenção (após uma ligeira interrupção para corrigir um molho), Odrade disse: — Estou com vontade de comer algo especial, Plácido.
Conhecia o prólogo.Era sempre assim que começava quando queria pedir seu “prato especial”.
— Talvez ostras ensopadas — sugeriu.
“É uma dança”, pensou Odrade. Ambos sabiam o que ela queria. — Excelente! — concordou, e prosseguiu com a performance de praxe. — Mas têm de ser tratadas com carinho,
Plácido, as ostras não podem cozinhar demais. Um pouco de nosso aipo em pó no caldo.
— E talvez um pouquinho de páprica?
— Prefiro sempre assim. Tome muito cuidado com a melange. Só um pinguinho, nada mais.
— Claro, Madre Superiora! — Virou os olhos, horrorizado com a idéia de usar melange demais. — É tão fácil a especiaria predominar.
— Cozinhe as ostras em caldo de mariscos, Plácido. Prefiro que você mesmo faça isso, mexendo devagar até as beiras das ostras começarem a encrespar.
— Nem um segundo a mais, Madre Superiora.
— Esquente um leite bem cremoso em separado. Não deixe que ferva! Plácido demonstrou espanto de que alguém pudesse suspeitar de ele ferver o leite para o ensopado de outras.
— Um pedacinho pequeno de manteiga na travessa em que for servir — disse Odrade. — E despeje o caldo misturado.
— Sem vinho xerez?
— Que bom que você está, pessoalmente, tomando conta de meu prato especial, Plácido. Esqueci do xerez. (A Madre Superiora jamais esquecia alguma coisa, e todos sabiam disso, mas era mais um passo de dança.)
— Três onças de xerez no caldo — disse ele.
— Esquente para dissipar o álcool.
— É claro! Mas não podemos esmagar os temperos. Vai querer croutons ou crackers?
— Croutons, por favor.
Sentada à mesa em uma saleta, Odrade comeu dois pratos de ensopado de ostras, recordando como a Filha do Mar costumava saboreá-lo. Papai a apresentara a esse prato quando mal conseguia levar a colher à boca. Ele mesmo fazia o ensopado, era sua especialidade. Odrade o ensinara a Salat.
Elogiou o vinho.
— Gostei de sua escolha de um Chablis como acompanhamento.
— Um Chablis com personalidade e um ligeiro sabor acre, Madre Superiora. Uma de nossas melhores safras. Realça o sabor das ostras de forma espetacular.
Tamalane a encontrou na saleta. Sempre sabiam onde encontrar a Madre Superiora quando precisavam dela.
— Estamos prontas. — Seria desagrado, aquela expressão no rosto de Tam?
— Onde vamos ficar hoje à noite?
— Eldio.
Odrade sorriu. Gostava de Eldio.
“Tam tratando bem de mim porque estou muito crítica? Talvez possa me divertir um pouco.”
Seguindo Tamalane à estação de transportes, Odrade pensou como era típico da mulher mais velha preferir viajar por tubo.
Viagens na superfície a irritavam. — Quem quer perder tempo na minha idade?
Odrade não gostava de tubos para transporte pessoal.
Sentia-se tão fechada e indefesa! Preferia a superfície ou o ar, e usava tubos somente quando era urgente ser veloz. Não tinha a menor hesitação em usar tubos menores para bilhetes e mensagens. “As mensagens não se importam, desde que cheguem lá.”
Essa idéia sempre lhe trazia à consciência a rede que se adaptava a seus movimentos onde quer que fosse.
Em algum lugar, no coração das coisas (havia sempre um
“coração das coisas”), um sistema automatizado traçava o trajeto das comunicações e assegurava (a maior parte do tempo) que mensagens importantes chegassem a seu destino.
Quando não havia necessidade do Transporte Privado (todo mundo o chamava de TP), podiam-se usar reproduções ou visual por meio de separadores misturados e linhas de luz. Fora do planeta era outro problema, especialmente nessa época de caça. O mais seguro era mandar uma Reverenda Madre com mensagens memorizadas ou implantes distrans. Hoje em dia todos os mensageiros tomavam doses maiores de shere. As sondas-T
podiam ler até uma mente morta que não fosse protegida por shere.
Todas as mensagens para fora do planeta eram criptografadas, mas algum inimigo poderia descobrir a única cobertura que as escondia. Alto risco fora do planeta. Talvez fosse por isso que o Rabino continuava calado.
“Mas por que estou pensando nisso agora?”
— Alguma notícia de Dortujla? — perguntou, quando Tamalane se preparava para entrar na roda de Transporte, onde os outros membros do grupo aguardavam. Tantas pessoas. Por que tantas? Odrade viu Streggi mais à frente, na beira da ponte, falando com uma acólita de Comunicações. Havia pelo menos mais outras seis pessoas de Comunicações nas proximidades.
Tamalane virou-se, evidentemente irritada. — Dortujla! Todo mundo já lhe disse que a avisaremos assim que tivermos alguma notícia! — Só estava perguntando, Tam. Só perguntando.
Documente, Odrade seguiu Tamalane, entrando no Transporte “Eu deveria colocar um monitor na mente e questionar tudo que surgisse “ Havia sempre uma razão forte para as instruções mentais. Essa era a maneira Bene Gesserit, como Bellonda lembrava com freqüência.
Odrade ficou surpresa consigo mesma, entendendo então que estava mais do que farta das maneiras Bene Gesserit.
“Que Bell se preocupe com essas coisas, para variar!” Estava na hora de flutuar, livre, de reagir como um fogo-fátuo às correntes à sua volta.
A Filha do Mar conhecia as correntes.
O tempo não conta a sua passagem. Basta olhar um círculo, par a que isso seja evidente.
— Leto II (O Tirano)
— Veja só! Veja o que aconteceu conosco! — O Rabino gemeu. Estava sentado de pernas cruzadas no frio chão curvo, com o xale cobrindo a cabeça e quase escondendo o rosto.
A sala onde estava era sombria e ecoava pequenos ruídos de maquinaria que faziam com que se sentisse enfraquecido. Se ao menos esse barulho parasse!
Rebecca estava de pé em frente a ele, com as mãos nos quadris, um ar de frustração cansada espelhada no rosto.
— Não fique aí assim! — o Rabino ordenou. Espiou-a por debaixo do xale.
— Se se desesperar, não estaremos perdidos? — ela perguntou.
O som da voz dela o enfureceu, e levou uns momentos para afastar essa emoção indesejada.
“Ela ousa me dar instruções? Mas não foi dito por homens mais sábios que a sabedoria pode vir de uma erva daninha?” Um imenso suspiro o fez estremecer, e deixou cair o xale para os ombros. Rebecca ajudou-o a ficar de pé.
— Uma não-sala — o Rabino resmungou. — Aqui, nos escondemos de... — Dirigiu o olhar para o teto escuro. — Melhor não dizer nada, mesmo aqui.
— Estamos nos escondendo do que não pode ser mencionado — disse Rebecca.
— A porta nem ao menos pode ficar aberta na Páscoa — ele disse. — Como é que o Estranho vai entrar?
— Não queremos certos estranhos — disse ela.
— Rebecca. — Baixou a cabeça. — Você é mais que uma provação e um problema. Essa pequena célula do Israel Secreto compartilha seu exílio porque compreendemos que...
— Pare de dizer isso! Não compreende nada do que aconteceu comigo. Meu problema? — Inclinou-se bem perto dele. —
E permanecer humana estando em contato com todas aquelas vidas passadas.
O Rabino encolheu-se.
— Então você não é mais uma de nós? Agora é uma Bene Gesserit?
— Saberá quando eu for uma Bene Gesserit. Vai me ver olhando para mim mesma como eu me olho.
Ele franziu as sobrancelhas. — O que está dizendo?
— Um espelho olha o quê, Rabino?
— Hmmmmm! Charadas... — Mas um ligeiro sorriso repuxou-lhe os lábios. Um olhar determinado voltou a seus olhos.
Olhou em volta de si. Havia oito deles aqui — mais do que o espaço comportava. “Uma não-sala!” Tinha sido montada a duras penas e
contrabandeada pedaço por pedaço. Tão pequena, 12,5m de comprimento. Ele mesmo medira. O formato de um antigo barril colocado de lado, oval em corte transversal e com tampas semicirculares nas pontas. O teto se erguia a não mais de 1m sobre sua cabeça. O ponto mais alto no centro não excedia 5m e as curvas do chão e do teto faziam parecer que era ainda menos.
Alimentos desidratados e água reciclada. Era com isso que tinham de sobreviver, e por quanto tempo? Um AP talvez, se não fossem encontrados. Não confiava na segurança desse invento. Aqueles ruídos esquisitos na maquinaria.
O dia já estava no fim quando se arrastaram para esse buraco. Lá fora certamente já estava escuro. E onde estava o resto de seu povo? Fugira para qualquer abrigo que pudera encontrar, cobrando dívidas antigas e compromissos honrados por serviços prestados. Alguns iriam sobreviver. Talvez sobrevivessem melhor que esse restinho aqui.
A entrada da não-sala estava escondida embaixo de um depósito de cinzas, com uma chaminé ao lado. O metal que reforçava a chaminé continha fios de cristal riduliano para repassar cenas de fora para o interior. Cinzas! A sala ainda recendia a coisas queimadas, e já começava a adquirir um cheiro de esgoto vindo da pequena câmara de reciclagem. Que eufemismo para um vaso sanitário!
Alguém se aproximou por detrás do Rabino. — O grupo de busca está indo embora. Foi sorte termos sido avisados a tempo.
Era Joshua, que tinha construído essa sala. Era um homem baixo e esbelto, com um rosto triangular que terminava em um queixo fino. Cabelos escuros caíam sobre a testa larga. Tinha olhos castanhos bem separados, que olhavam seu mundo remoendo tudo internamente, o que criava desconfiança no Rabino. “Parece jovem demais para saber tanto sobre tudo isso.”
— Então estão indo embora — disse o Rabino. — Vão voltar.
Aí não vai achar que temos tanta sorte.
— Não vão adivinhar que nos escondemos tão perto da fazenda — disse Rebecca. — O grupo de busca estava pilhando, mais que qualquer outra coisa.
— Ouçam a Bene Gesserit — disse o Rabino.
— Rabino! — Que tom de repreensão na voz de Joshua. —
Não o ouvi dizer muitas vezes que abençoados são aqueles que escondem os defeitos dos outros mesmo de si próprios?
— Todo mundo agora é professor! — o Rabino disse. — Mas quem vai nos dizer o que vai acontecer agora?
Mas tinha que admitir a verdade das palavras de Joshua. “É a angústia de nossa fuga que me perturba. Nossa pequena diáspora.
Mas não estamos nos espalhando de Babilônia. Estamos escondidos em... um porão de proteção contra ciclones!”
A idéia o revigorou. “Os ciclones passam.”
— Quem está encarregado da comida? — perguntou. —
Devemos racionar tudo desde o começo.
Rebecca suspirou de alívio. O Rabino ficava pior nas grandes oscilações, emocional demais, ou intelectual demais. Estava sob controle de novo. Ia ficar intelectual demais em seguida. Isso teria que ser controlado também. A consciência Bene Gesserit lhe dava uma nova perspectiva das pessoas a seu redor. “Nossa suscetibilidade judaica. Olhe os intelectuais!”
Era uma idéia característica da Irmandade. As desvantagens para qualquer pessoa que confiasse muito nos feitos intelectuais eram imensas. Não podia negar toda a evidência da horda de Lâmpadas. A voz dentro de si confrontava com isso sempre que hesitava.
Rebecca quase chegara a gostar de perseguir as fantasias da memória, como as chamava. O conhecimento de épocas anteriores a forçava a negar seu próprio passado. Fora obrigada a acreditar em tantas coisas, que agora as considerava bobas. Mitos e quimeras, impulsos de comportamento extremamente infantil.
“Nossos deuses deveriam amadurecer, como nós.”
Rebecca reprimiu um sorriso. A voz dentro de si fazia isso com ela, muitas vezes — uma cutucada nas costelas, vinda de alguém que sabia que você ia apreciá-la.
Joshua voltara a seus instrumentos. Viu que alguém estava fazendo uma revisão do catálogo do estoque de alimentos. O
Rabino observava isso com sua habitual intensidade. Os outros
haviam se enrolado nos cobertores e estavam dormindo nos catres no lado escuro da sala. Vendo tudo isso, Rebecca reconheceu qual deveria ser sua função. “Evitar o tédio.”
“O mestre de jogos?”
“A não ser que tenha uma sugestão melhor, não tente me falar sobre meu próprio povo, Oradora.”
Seja o que for que pudesse dizer sobre essas conversas interiores, não havia dúvida de que todas as peças estavam ligadas
— o passado com essa sala, essa sala com suas projeções das conseqüências. E isso era uma grande dádiva das Bene Gesserit.
“Não pense no ‘Futuro’. Predestinação? Então o que acontece com a liberdade que lhe é dada quando nasce?”
Rebecca encarou seu próprio nascimento sob outro aspecto.
Isso a tinha lançado em um movimento em direção a um destino desconhecido. Cheio de perigos ocultos e de alegrias. Então, tinha seguido uma curva do rio e encontrado atacantes. A próxima curva poderia revelar uma cachoeira, ou um panorama de beleza pacífica.
E aqui estava o encantamento mágico da presciência, o chamariz a que sucumbiram Muad’Dib e seu filho Tirano. “O oráculo sabe o que virá!” A tribo de Lâmpadas lhe ensinara a não buscar oráculos. O
que era conhecido podia assediá-la mais que o desconhecido. A doçura do que é novo residia em suas surpresas. Será que o Rabino via isso?
“Quem vai nos dizer o que vai acontecer agora?, ele pergunta.
“É isso que quer, Rabino? Não vai gostar do que vai ouvir.
Garanto. Do momento em que o oráculo falar, seu futuro se tornará idêntico a seu passado. Como se lamentaria em seu tédio. Nada de novo, nunca. Tudo velho, naquele instante de revelação.
“Mas não era isso que eu queria!, posso ouvi-lo dizendo.
“Nenhuma brutalidade, nenhuma selvageria, nenhuma calma felicidade nem alegria explosiva pode lhe acontecer inesperadamente. Como um trem-tubo descontrolado em seu túnel, sua vida correrá impetuosa para o momento do confronto final.
Como uma borboleta presa em um carro, baterá as asas contra as paredes e pedirá ao destino que a solte. — Que o tubo mude de
direção, por mágica. Que alguma coisa aconteça! Não deixe que essas coisas horríveis que vi aconteçam!”
De repente, ela viu que esse deveria ter sido o esforço penoso de Muad’Dib. A quem dirigira suas preces?
— Rebecca! — Era o Rabino chamando-a.
Foi até onde ele estava, agora junto do homem mais jovem, olhando o mundo escuro lá fora, revelado pela pequena projeção acima dos instrumentos de Joshua.
— Vem aí uma tempestade — disse o Rabino. — Joshua acha que transformará as cinzas em cimento.
— Isso é bom — ela disse. — É por isso que construímos aqui e deixamos a saída destampada quando entramos.
— Mas como saímos daqui?
— Temos ferramentas para isso — disse ela. — E mesmo sem ferramentas, sempre temos as mãos.
Um princípio básico guia a Missionária Protectiva: instrução propositada das massas. Isso é baseado firmemente em nossa crença de que a finalidade de um argumento deve ser a de mudar a natureza da verdade. Nessas questões, preferimos o uso do poder ao da força.
— O Coda
Para Duncan Idaho, a vida na não-nave adquirira o aspecto de um jogo estranho, desde o advento de sua visão e percepção do comportamento das Honradas Madres. A entrada de Teg no jogo fora uma medida enganadora, não apenas a introdução de mais um jogador.
Ficou de pé junto à mesa de comando essa manhã e reconheceu elementos nesse jogo que eram um paralelo à sua própria infância ghola na Fortaleza Bene Gesserit em Gammu, com o idoso Bashar como guardião-mestre de armas.
Educação. Era uma preocupação fundamental naquela época, como ainda agora. E as guardas, em geral muito discretas na não-nave, mas sempre presentes, como em Gammu. Ou seus dispositivos de espionagem presentes, artisticamente camuflados e em harmonia com a decoração. Havia ficado perito em eludi-las em Gammu. Aqui, com o auxílio de Sheeana, fizera da evasão uma grande arte.
A atividade ao seu redor fora reduzida a um nível baixo.
Guardas não carregavam armas. Mas eram, na maioria, Reverendas Madres com algumas acólitas mais velhas. Não acreditavam que precisassem de armas.
Algumas coisas na não-nave contribuíam para dar uma ilusão de liberdade, principalmente o tamanho e a complexidade. A nave era grande, não podia determinar o tamanho, mas tinha acesso a muitos andares e corredores que se estendiam por mais de mil passos.Tubos e túneis, canos de acesso que o conduziam em cápsulas suspensoras, calhas de descida rápida e ascensores, vestíbulos convencionais e amplos corredores com escotilhas que se abriam assobiando a um toque (ou permaneciam fechadas: Proibido!) — era todo um lugar para ser trancado na memória, tornando-se lá seu próprio terreno, privativo, de maneira muito diferente do que era para as guardas.
A energia necessária a fim de trazer a nave para o planeta e mantê-la era indício de um grande compromisso. A Irmandade não podia calcular o custo em nenhuma das maneiras usuais. O
controlador da tesouraria da Bene Gesserit não lidava somente com tentos monetários. Nada de Solar ou moeda equivalente. Bancavam no povo, em alimentos, em pagamentos devidos às vezes por milênios, pagamentos esses muitas vezes em espécie — tanto materiais quanto lealdades.
“Pague, Duncan! Estamos cobrando sua promissória!”
Essa nave não era só uma prisão. Considerara várias projeções Mentat. Primeira: era um laboratório onde as Reverendas Madres procuravam um meio de anular a capacidade de uma não-nave de confundir os sentidos humanos.
“Um tabuleiro de jogo na não-nave — enigma e colméia.
Tudo isso para guardar três prisioneiros? Não. Tinha de haver outras razões.”
O jogo tinha regras secretas, algumas só podia adivinhar.
Mas achou tranqüilizador quando Sheeana entrou no espírito da coisa. “Sabia que ela teria seus próprios planos. Óbvio quando começou a praticar as técnicas das Honradas Madres. Polindo meus aprendizes!”
Sheeana queria informações íntimas de Murbella e muito mais — suas memórias de pessoas que havia conhecido em suas muitas vidas, especialmente memórias do Tirano.
“E eu quero informações sobre as Bene Gesserit.”
A Irmandade o mantinha em atividade mínima. Frustrando-o para aumentar as habilidades Mentat. Não estava no coração daquele problema maior que pressentia fora da nave. Fragmentos tantalizantes chegavam até ele quando Odrade o deixava vislumbrar a situação difícil da Irmandade, através de suas perguntas.
Suficiente para oferecer novas premissas? Só com acesso a dados que sua mesa de comando se recusava a mostrar.
Era seu problema também, que diabos! Estava em uma cela dentro da cela delas. Todos sem saída.
Odrade estivera em frente dessa mesa de comando numa tarde na semana anterior e afirmara com segurança que as fontes de dados da Irmandade estavam “abertas” para ele. Tinha estado ali mesmo, de costas para o balcão, encostada displicentemente, braços cruzados no peito. Às vezes sua semelhança com Miles Teg adulto era fantástica. Até com relação àquela necessidade (seria uma compulsão?) de ficar em pé enquanto falava. Também não gostava de cadeiras-cão.
Ele sabia que tinha uma compreensão muito vaga de seus motivos e planos. Mas não confiava neles. Não depois de Gammu.
Engodo e isca. Era assim que o tinham usado. Tivera sorte de não ter seguido o caminho de Duna — uma casca morta.
Consumida pelas Bene Gesserit.
Quando ficava irrequieto assim, Idaho preferia esparramar-se na cadeira da mesa de comando. Às vezes sentava ali durante horas, imóvel, a mente tentando abranger as complexidades dos potentes recursos de dados da nave. O sistema podia identificar qualquer ser humano dentro dele. “Portanto tem monitores automáticos.” Tinha que saber quem estava falando, fazendo exigências, assumindo o comando temporário.
“Os circuitos de vôo desafiam minhas tentativas de romper as trancas. Desligados?” Era o que as guardas diziam. Mas a maneira em que a nave identificava quem penetrasse nos circuitos — sabia que aí estava a chave!
Será que Sheeana o ajudaria? Era perigoso confiar demais nela. Às vezes, quando ela o observava na mesa de comando, lembrava-se de Odrade. “Sheeana era discípula de Odrade.” Isso dava o que pensar.
Que interesse elas tinham em seu modo de usar os sistemas da nave? Como se fosse necessário perguntar!
No seu terceiro ano aqui, fizera o sistema esconder dados para ele, e isso com suas próprias teclas. Para frustrar a espionagem dos televigias, fez tudo abertamente. Inserções óbvias para futura recuperação, mas com uma segunda mensagem criptografada. Fácil para um Mentat e útil principalmente como um truque, explorando o potencial dos sistemas da nave. Fizera uma armadilha e mandara os dados para um depósito aleatório, sem esperança de recuperação.
Bellonda desconfiou, mas quando o interrogou, ele apenas sorriu. “Escondo minha história, Bell. Minha série vive como ghola —
todos eles até o original não-ghola. Coisa íntimas de que me lembro sobre essas experiências: um depósito para memórias pungentes.”
Sentado agora à mesa de comando, tinha sentimentos confusos. O encarceramento o exasperava. Apesar do tamanho e da riqueza de sua prisão, não passava de uma prisão. Sabia, já há algum tempo, que era bem provável que pudesse escapar, mas Murbella e seu próprio conhecimento cada vez maior da difícil situação de ambos o impediam. Sentia-se tão preso por seus pensamentos quanto pelo elaborado sistema representado pelas guardas e esse dispositivo monstruoso. A não-nave era um dispositivo, é claro. Uma ferramenta. Uma maneira de se mover invisivelmente em um universo perigoso. Um meio de esconder pessoas e suas intenções até dos prescientes em busca.
Com a perícia acumulada em muitas vidas, olhava a seu redor através de uma tela de sofisticação e ingenuidade. Os Mentats cultivavam a ingenuidade. Pensar que se sabe alguma coisa é a maneira mais segura de se tornar cego. Não era a maturidade que aos poucos ia freando a capacidade de aprender (ensinavam isso aos Mentats), e sim o acúmulo de “coisas que sei”.
Fontes novas de dados que a Irmandade lhe facilitara (se é que podia confiar nelas) despertavam perguntas. Como era organizada a oposição às Honradas Madres na Dispersão? É claro que havia grupos (hesitava em chamá-los de poderes) que caçavam Honradas Madres da mesma maneira que as Honradas Madres caçavam as Bene Gesserit. Matavam, também, se aceitasse a evidência de Gammu.
Futares e Treinadores? Fez uma Projeção Mentat: uma ramificação Tleilaxu na primeira Dispersão realizara manipulações genéticas. Aqueles dois em sua visão: seriam eles que criaram os Futares? Será que aqueles dois eram Dabçarubis Faciais?
Independentes dos Mestres Tleilaxu? As coisas não eram singulares na Dispersão.
Diabos! Precisava ter acesso a mais dados, a fontes potentes. As fontes atuais estavam longe de serem adequadas. Um instrumento de finalidade limitada, a mesa de comando poderia ser adaptada a necessidades muito mais amplas, mas suas adaptações estavam falhas. Precisava lançar-se como um Mentat!
“Acorrentaram-me, e isso foi um erro. Odrade não confia em mim? Ela é uma Atreide, desgraçada! Sabe o que devo a sua família.”“Mais de uma vida e a dívida nunca foi paga!”
Sabia que estava inquieto. Abruptamente, concentrou-se nisso. Inquietação Mentat! Sinal de que estava à beira de uma revelação. Uma Projeção Primária. Alguma coisa que não lhe haviam dito sobre Teg?
Perguntas! Havia perguntas não-formuladas açoitando-o.
“Preciso de perspectiva!” Não necessariamente uma questão de distância. Pode-se adquirir perspectiva do próprio interior, se as perguntas contiverem poucas distorções.
Percebia que em alguma parte das experiências Bene Gesserit (talvez até nos Arquivos tão zelosamente guardados por Bell) jaziam as peças que faltavam. Bell apreciaria isso! Um companheiro Mentat reconheceria a excitação desse momento.
Seus pensamentos eram como peças de mosaico, a maior parte à mão e pronta para ser encaixada. Não era uma questão de soluções.
Podia ouvir seu primeiro professor Mentat, as palavras retumbando em sua mente: “Arranje suas perguntas em equilíbrio e jogue os dados temporários em um ou outro lado da balança. As soluções desequilibram qualquer situação. A falta de equilíbrio revela o que procura.”
Sim! Conseguir a falta de equilíbrio com perguntas sensibilizadas era um ato de malabarismo Mentat.
Alguma coisa que Murbella dissera a noite anterior — o quê?
Estavam na cama dela. Lembrava-se de ter visto a hora projetada no teto: 9:47. E pensara: “Essa projeção usa energia.”
Quase podia sentir o fluxo de energia da nave, esse cercado gigantesco recortado do Tempo. Maquinaria sem atritos para criar a presença mimética que nenhum instrumento podia distinguir do background natural. Exceto agora, quando estava de prontidão, protegida não contra os olhos, mas contra a presciência.
Murbella a seu lado: outra espécie de poder, ambos cientes da força tentando juntá-los. A energia que levava para suprimir
aquele magnetismo mútuo! A atração sexual crescendo, crescendo, crescendo.
“Murbella falando.” É, era isso. Extremamente auto-analítica.
Abordava sua vida com nova maturidade, Bene Gesserit —
consciência exacerbada e confiança de que algo muito forte crescia em seu interior.
Todas as vezes que reconhecia essa mudança Bene Gesserit, ficava triste. “Está mais próximo o dia de nossa separação.”
Mas Murbella falava. — Ela (Odrade era muitas vezes “ela”) fica me pedindo para avaliar meu amor por você.
Lembrando disso, Idaho deixou que se repetisse.
— Tentou o mesmo comigo.
— O que está dizendo?
— “Odi et amo. Excrucior!”
Apoiou-se no cotovelo e olhou para ele. — Que língua é essa? — Uma língua muito antiga que Leto me fez aprender uma vez. — Traduza. — Peremptória. Seu antigo ego de Honrada Madre. — Eu a odeio e a amo. E estou torturado.
— Você me odeia mesmo? — Incrédula.
— O que odeio é estar amarrado dessa maneira, não ser mestre do meu self.
— Você me deixaria se pudesse?
— Quero que a decisão ocorra de momento a momento.
Quero ter o controle dela.
— É um jogo em que uma das peças não pode ser movida.
Era isso! As palavras dela.
Recordando, Idaho não se sentiu exultante, mas como se os olhos tivessem de repente se aberto após um longo sono. “Um jogo em que uma das peças não pode ser movida. Jogo.” Sua visão da não-nave e do que a Irmandade aqui fazia.
Havia mais ainda na troca de palavras.
— A nave é a nossa escola especial — Murbella disse.
Só podia concordar. A Irmandade reforçava suas capacidades Mentat para peneirar dados e expor o que não tinha aparecido. Sentiu onde isso poderia levar e teve um profundo medo.
“Você desobstrui os condutos nervosos. Você bloqueia distrações e devaneios inúteis.”
Você reorientou suas respostas para aquele modo perigoso que todos os Mentats eram ensinados a evitar. Pode perder-se aí.
Levavam os estudantes para ver os vegetais humanos,
“Mentats fracassados”, mantidos vivos para demonstrar o perigo.
Mas como era tentador. Podia-se sentir o poder naquele modo. “Nada escondido. Tudo conhecido.”
Em meio àquele medo, com Murbella virando-se para ele na cama, sentiu as tensões sexuais tornarem-se quase explosivas.
“Ainda não. Ainda não!”
Um deles havia dito mais alguma coisa. O quê? Pensava sobre os limites da lógica como um instrumento para expor os motivos da Irmandade.
— Você procura analisá-los com freqüência? — Murbella perguntou. Extraordinário como fazia isso, dirigindo-se a seus pensamentos ocultos.
Ela negava que lia mentes. — Só leio você, meu ghola. Você é meu, e sabe disso.
— E vice-versa.
— É verdade. — Quase em tom de brincadeira, mas encobrindo algo mais profundo e complexo.
Havia uma cilada em qualquer análise da psique humana e ele disse isso. — Pensar que você sabe por que se comporta de certa maneira lhe dá toda espécie de desculpas para se comportar de maneira extraordinária.
“Desculpas por comportamentos extraordinários!” Mais uma peça para seu mosaico. Mais jogo, mas essas fichas eram culpa e recriminação.
A voz de Murbella era quase sonhadora. — Suponho que se possa racionalizar quase tudo, atribuindo-o a algum trauma.
— Racionalizar coisas como queimar planetas inteiros?
— Há uma espécie de autodeterminação brutal nisso. Ela diz que fazer escolhas definidas firma a psique e dá uma sensação de identidade da qual você pode depender sob estresse. Você concorda, meu Mentat?
— O Mentat não é seu. — A voz não demonstrava força.
Murbella riu e recostou-se no travesseiro. — Você sabe o que as Irmãs querem de nós, meu Mentat?
— Querem nossos filhos.
— Oh, muito mais que isso. Querem nossa participação voluntária em seu sonho.
“Outra peça do mosaico!”
Mas quem, além de uma Bene Gesserit, conhecia esse sonho? As Irmãs eram atrizes, sempre representando, deixando muito pouco do real transparecer através das máscaras. A pessoa real estava atrás de muros e era liberada em pequenas porções conforme necessário.
— Por que ela guarda aquele quadro antigo? — Murbella perguntou. Idaho sentiu os músculos do estômago se contraírem.
Odrade lhe trouxera um registro holográfico do quadro que guardava em seu quarto de dormir, Chalés em Cordeville, de Vincent Van Gogh. Acordando-o na cama, na hora das bruxas, no meio da noite, há quase um mês atrás.
— Você me perguntou sobre minha compreensão da humanidade, e aqui está ela. — Colocando o holograma em frente de seus olhos embaçados de sono. Sentou e olhou a coisa, tentando compreender. O que havia de errado com ela? Odrade parecia tão excitada.
Deixou o holo nas mãos dele enquanto acendia todas as luzes, dando ao quarto uma sensação de formas duras e imediatas, tudo vagamente mecânico, como era de esperar em uma não-nave.
Onde estava Murbella? Tinham ido dormir juntos.
Focalizou o holo e este o tocou de uma maneira indefinível, como se o ligasse a Odrade. “A compreensão dela de sua própria humanidade?” O holo estava frio em suas mãos. Ela o tomou e colocou-o na mesinha-de-cabeceira, onde ele ficou contemplando-o, enquanto ela pegava uma cadeira e se sentava junto a sua cabeça.
Sentada? Alguma coisa a impelia a ficar perto dele!
— Foi pintado por um louco na Velha Terra — ela disse, quase encostando o rosto no dele enquanto ambos olhavam a cópia do quadro. — Veja só isso! Um momento humano encapsulado.
“Em uma paisagem? É, que diabos. Ela tinha razão.” Olhou fixamente o holo. “Que cores maravilhosas!” Não eram só as cores, era o todo.
— A maioria dos artistas modernos ia rir da maneira pela qual ele criou isso — disse Odrade.
“Por que não ficava calada enquanto ele olhava o quadro?”
— Foi um ser humano com uma capacidade máxima de registro — disse Odrade. — A mão humana, o olho humano, a essência humana focalizados na consciência de uma pessoa que testou os limites.
“Testou os limites!” Outra parte do mosaico.
— Van Gogh fez isso com os materiais e o equipamento mais primitivos. — Parecia quase bêbada. — Pigmentos que um homem das cavernas reconheceria! Pintados em um tecido que poderia ter feito com as próprias mãos. Poderia ter feito os instrumentos ele mesmo, de pêlos e ramos de arbustos.
Tocou a superfície do holo e um dedo fez uma sombra sobre as árvores altas. — O nível cultural era baixo para os nossos padrões, mas veja o que ele produziu!
Idaho sentiu que devia dizer alguma coisa, mas as palavras não vinham. Onde estava Murbella? Por que não estava aqui?
Odrade afastou-se, e as palavras seguintes foram gravadas a fogo. — Esse quadro diz que você não pode sufocar a coisa selvagem, a única coisa que acontece entre os humanos, apesar de tudo que possamos fazer para evitá-lo.
Idaho desviou os olhos do holo com um esforço e ficou olhando os lábios de Odrade quando falava.
— Vincent nos disse uma coisa importante sobre nossos companheiros da Dispersão.
“Esse pintor morto há tanto tempo? Sobre a Dispersão?”
— Eles fizeram coisas lá fora e estão fazendo outras que não podemos nem imaginar. Coisas loucas! O tamanho explosivo da população Dispersa garante isso.
Murbella entrou por detrás de Odrade, amarrando o cinto de um roupão branco, descalça. Os cabelos estavam úmidos do chuveiro. Então era lá onde ela tinha estado.
— Madre Superiora? — A voz de Murbella era sonolenta.
Odrade falou por sobre o ombro, sem se virar.
— As Honradas Madres acham que podem antecipar e controlar todas as loucuras. Que bobagem. Não podem nem controlar isso nelas mesmas.
Murbella se aproximou do pé da cama e olhou para Idaho interrogativamente. — Parece que entrei no meio de uma conversa.
— Equilíbrio, aí está a chave — disse Odrade.
Idaho continuou prestando atenção à Madre Superiora.
— Os humanos podem se equilibrar em superfícies estranhas — disse Odrade. — Mesmo em superfícies imprevisíveis.
Chama-se “entrar em sintonia”. Os grandes músicos conhecem isso. Surfistas que costumava ver quando era criança, em Gammu, sabem disso. Algumas ondas o derrubam, mas você está preparado para isso. Sobe de novo e tenta mais uma vez.
Por qualquer razão que não podia explicar, Idaho pensou em outra coisa que Odrade havia dito: — Não temos depósitos no sótão. Reciclamos tudo.
“Reciclagem. Ciclo. Pedaços do círculo. Peças do mosaico.”
Estava caçando ao acaso, e sabia que isso não servia. Não era o caminho Mentat. Mas, reciclagem — então a Outra Memória não era um depósito no sótão, e sim algo que consideravam reciclagem. Queria dizer que usavam o passado somente para mudá-lo e renová-lo.
“Entrar em sintonia.”
Uma alusão estranha da parte de alguém que alegava evitar a música.
Relembrando, sentiu seu mosaico mental. Havia se tornado uma confusão. Nada se ajustava em lugar nenhum. Peças aleatórias, que provavelmente não se encaixavam.
Mas se encaixavam, sim!
A voz da Madre Superiora continuou em sua memória.”Então ainda tem mais.”
— As pessoas que sabem disso vão até o âmago — disse Odrade. — Avisam que você não pode pensar no que está fazendo.
Essa é a maneira certa de fracassar. É só fazer!
“Não pense. Faça.” Pressentiu anarquia. Suas palavras o jogaram de volta a outros recursos, que não o treinamento Mentat.
“Truques Bene Gesserit!” Fazia isso deliberadamente, sabendo o efeito. Onde estava a afeição que às vezes sentia irradiar dela? Poderia se preocupar com o bem-estar de alguém que tratava dessa maneira?
Quando Odrade os deixou (mal notou quando saiu), Murbella sentou na cama e arrumou o roupão sobre os joelhos.
“Os humanos podem se equilibrar em superfícies estranhas.”
Movimento em sua mente: as peças de mosaico tentando encontrar afinidades.
Sentiu uma nova onda no universo. Aquelas duas pessoas estranhas em sua visão? Faziam parte disso. Sabia que era assim sem poder dizer por quê. O que era que as Bene Gesserit declaravam? “Nós modificamos modos antigos e crenças antigas.”
— Olhe para mim! — Murbella disse.
Voz? Não exatamente, mas agora tinha certeza de que ela estava experimentando e que não lhe dissera que estava sendo treinada nessa bruxaria.
Viu o olhar alienígena em seus olhos verdes que lhe diziam que ela estava pensando em suas antigas companheiras.
— Nunca procure ser mais esperto que as Bene Gesserit, Duncan. “Falando para os televigias?”
Não podia ter certeza. Era a inteligência no fundo de seus olhos que o prendia agora. Ele a sentia crescer, como se os professores soprassem um balão e o intelecto de Murbella se expandisse, assim como seu abdômen se expandia com a nova vida. “Voz!” O que estavam fazendo com ela?
Que pergunta estúpida. Sabia o que estavam fazendo.
Estavam levando-a para longe dele, fazendo dela uma Irmã. “Não mais minha amante, minha maravilhosa Murbella.” Uma Reverenda Madre, então, remota, calculando tudo que faz. Uma bruxa. Quem pode amar uma bruxa?
“Eu poderia. E sempre amarei.”
— Elas agarram você pelo seu lado cego e a usam para seus próprios fins — disse.
Podia ver que suas palavras tinham tido efeito. Ela só vira a armadilha depois de armada. As Bene Gesserit eram infernalmente espertas! Tinham conseguido atraí-la para sua cilada dando-lhe pequenos vislumbres de coisas tão magnéticas quanto a força que a unia a ele. Só podia ser enfurecedor para uma Honrada Madre.
“Nós é que apanhamos os outros em armadilhas* Eles não nos apanham!” Mas isso havia sido feito pelas Bene Gesserit.
Estavam numa categoria diferente. Quase Irmãs. Por que negar? E
ela queria as habilidades delas. Queria sair desse treinamento e ter o ensino total que percebia logo além das paredes da nave. Não sabia por que ainda a mantinham em treinamento.
“Sabem que ela ainda se debate na armadilha.”
Murbella deixou cair o roupão e deitou-se na cama ao lado dele. Sem tocá-lo. Mas mantendo aquela sensação armada de proximidade entre os dois corpos.
— De início era intenção delas que eu controlasse Sheeana para elas — ele disse.
— Como você me controla?
— E eu controlo você?
— Às vezes acho que você é um cômico, Duncan.
— Se não puder rir de mim mesmo estou realmente perdido.
— Rir de suas tentativas humorísticas também?
— Essas em primeiro lugar. — Virou-se para ela e segurou o seio esquerdo na palma da mão, sentindo o bico endurecer. — Sabe que eu nunca fui desmamado?
— Nunca em todas aquelas...
— Nem uma vez.
— Devia ter adivinhado. — Um sorriso esboçou-se em seus lábios e de repente ambos estavam rindo, abraçados, dando gargalhadas. No fim Murbella disse: — Dane-se, dane-se, dane-se.
— Dane-se quem? — quando parou de rir e se soltaram, forçando a separação.
— Não é quem, é o quê. Dane-se o destino!
— Acho que o destino não liga a mínima.
— Amo você e não devo fazer isso, se é que vou ser uma Reverenda Madre decente.
Detestava essas divagações tão chegadas à pena de si mesmo. “Então faça uma brincadeira!” — Você nunca foi decente em nada. — Fez uma massagem no abdômen prenhe distendido.
— Eu sou decente!
— Essa palavra foi esquecida quando fizeram você.
Ela empurrou a mão dele e sentou-se para olhá-lo. — As Reverendas Madres não devem nunca amar.
— Eu sei. — “Minha angústia estaria se revelando?”
Ela estava totalmente envolvida em seus próprios problemas.
— Quando eu chegar à Agonia da Especiaria...
— Amor! Não gosto da idéia de agonia associada a você de maneira nenhuma.
— Como posso evitar isso? Já estou na calha. Logo, logo vão me acelerar. Aí irei muito depressa.
Quis virar as costas, mas os olhos dela o detiveram.
— Verdade, Duncan. Estou sentindo isso. De certo modo é como a gravidez. Chega um ponto em que é perigoso demais abortar. A gente tem de ir até o fim.
— Mas nós nos amamos! — Forçando o pensamento de um perigo para outro.
— E elas o proíbem.
Ele olhou os televigias. — Os cães de guarda estão vigiando e eles têm presas.
— Eu sei. Estou falando para elas agora. Meu amor por você não é uma falha. A frieza delas é que é. São iguaizinhas às Honradas Madres!
“Um jogo em que uma das peças não pode ser movida.”
Queria gritar alto, mas as escutas atrás dos televigias ouviriam mais que as palavras faladas..Murbella tinha razão. Era perigoso pensar que se podia burlar as Reverendas Madres.
Alguma coisa velou os olhos que estavam fixos nele. — Que cara estranha você fez de repente. — Reconheceu a Reverenda Madre que ela poderia vir a ser.
“Desvie-se dessa idéia!”
Às vezes ele a distraía com suas estranhas memórias. Ela achava que as encarnações anteriores o tornavam um pouco semelhante a uma Reverenda Madre.
— Já morri muitas vezes.
— Você se lembra? — Sempre a mesma pergunta.
Sacudiu a cabeça, temendo dizer qualquer coisa que pudesse ser interpretada pelos cães de guarda.
“Não das mortes e do novo despertar.”
Isso ficava entorpecido pela repetição. Às vezes nem se dava o trabalho de colocá-los em seu depósito secreto de dados. Não...
eram os incomparáveis encontros com outros humanos, a imensa coleção de identificações.
Essa era uma das coisas que Sheeana dizia que queria dele.
— Minúcias íntimas. E o que todos os artistas querem.
Sheeana não sabia o que estava pedindo. Todos aqueles encontros vivos haviam criado novos significados. Configurações dentro de configurações. Coisas minúsculas adquiriam uma pungência que não tinha esperança de compartilhar com ninguém...
nem mesmo Murbella.
“Um leve toque de mão em meu braço. Um rosto sorridente de criança. As faíscas nos olhos do atacante.”
Coisas mundanas sem conta. Uma voz familiar dizendo: —
Só quero pôr os pés para cima e desabar. Não peça para eu me mexer.Todas se tornaram parte dele. Estavam aglutinadas ao seu caráter. A existência as cimentara inextricavelmente e não podia explicar isso a ninguém.
Murbella falou sem olhar para ele. — Houve muitas mulheres nessas suas vidas?
— Nunca fiz a conta.
— Você as amou?
— Estão mortas, Murbella. Só o que posso prometer é que não há nenhum fantasma ciumento em meu passado.
Murbella apagou os globos luminosos. Ele fechou os olhos e sentiu a escuridão envolvê-lo quando ela se aninhou em seus braços. Abraçou-a apertado, sabendo que ela precisava disso, mas a mente se soltava por vontade própria.
Uma velha recordação produziu o dito de um professor Mentat: “A coisa mais relevante pode se tornar irrelevante no espaço de uma batida cardíaca. Os Mentats devem olhar esses momentos com alegria.”
Não sentiu alegria nenhuma.
Todas aquelas vidas em série continuavam dentro dele, desafiando as relevâncias Mentat. Um Mentat ingressava em seu universo intocado em todos os aspectos. Nada velho, nada de novo, nada fixo em adesivos antigos, nada realmente sabido. Era a rede, e existia somente para examinar o que apanhava.
“O que não escapou? Que espessura de malha eu teria usado dessa vez?”
Era esse o ponto de vista Mentat. Mas era impossível que os Tleilaxu tivessem incluído todas aquelas células ghola-Idaho para recriá-lo. Tinha que haver lacunas na coleção seriada de suas células. Já identificara muitas dessas lacunas.
“Mas não há lacunas em minha memória. Lembro-me de todas elas.”
Ele era uma cadeia ligada fora do Tempo. “É por isso que posso ver as pessoas naquela visão... a rede.” Era a única explicação que a percepção Mentat podia fornecer, e se a Irmandade adivinhasse, ficaria aterrorizada. Não importa quantas vezes ele negasse, diriam: — Outro Kwisatz Haderach! Matem-no!
“Então trabalhe para você mesmo, Mentat!”
Sabia que tinha a maior parte das peças do mosaico, mas elas ainda não se juntavam naquele Ah! Ah! conjunto de perguntas que os Mentats tanto prezavam.
“Um jogo em que uma das peças não pode ser movida.
Desculpas por comportamento extraordinário.
— Querem nossa participação voluntária em seu sonho.
Teste os limites!
Os humanos podem se equilibrar em estranhas superfícies.
Entre em sintonia. Não pense. Faça.”
A melhor arte imita a vida de maneira coerciva. Se imita um sonho, deve ser um sonho da vida. Do contrário, não há lugar algum onde possamos nos ligar. Nossas tomadas não se encaixam.
— Darwi Odrade
Quando viajavam para o sul em direção ao deserto, no início da tarde, Odrade achou que o campo mudara de maneira inquietante desde sua inspeção anterior há três meses. Sentiu-se justificada em ter escolhido veículos terrestres. A vista emoldurada pelo grosso plaz que as protegia da poeira revelava mais detalhes.
“Muito mais seco.”
O grupo mais próximo a ela viajava em um carro relativamente leve — só 15 passageiros, incluindo o motorista.
Suspensores e propulsão a jato sofisticada quando não estavam em contato com a terra. Capaz de 300km por hora em superfície lisa.
Seus acompanhantes (numerosos demais, devido aos cuidados exagerados de Tamalane) seguiam em um ônibus que também levava roupas, alimentos e bebidas para as paradas durante a viagem.Streggi, sentada ao lado de Odrade e atrás do motorista, disse: — Não poderíamos arranjar uma chuvinha aqui, Madre Superiora?
Odrade cerrou os lábios. O silêncio era a melhor resposta.
Tinham saído atrasadas. Todas reunidas na ponte de embarque e prontas para partir quando chegou um recado de Bellonda. Outro relatório de desastre requerendo a atenção pessoal da Madre Superiora no último minuto!
Era uma dessas vezes em que Odrade sentia que o único papel que podia desempenhar era de intérprete oficial. Ir à beira do palco e dizer-lhes o que significava: — Hoje, Irmãs, soubemos que as Honradas Madres destruíram mais quatro planetas nossos.
Estamos ficando menores.
“Somente 12 planetas (incluindo Buzzell) e a caçadora sem face, com machado, está bem mais perto.”
Odrade sentiu o abismo abrindo-se a seus pés.
Bellonda recebera ordens de guardar essa má notícia até um momento mais apropriado.
Odrade olhou pela janela a seu lado. Qual era o momento apropriado para uma notícia dessas?
Estavam viajando em direção ao sul há pouco mais de três horas, a estrada queimada pela geada, deslizando como um verde rio à frente deles. O caminho os levava por entre colinas de carvalhos de cortiça que se estendiam até os horizontes cercados de serras. Os carvalhos cresciam como gnomos em plantações menos regulares que pomares. Fileiras sinuosas serpeavam colinas acima. A plantação original fora disposta nos contornos existentes, meios-terraços agora escondidos pelo longo capim pardo.
— Plantamos trufas aqui — Odrade disse.
Streggi tinha outra má notícia. — Ouvi dizer que as trufas estão com problemas, Madre Superiora. Não tem chovido bastante.
“O fim das trufas?” Odrade hesitou, prestes a chamar uma acólita de Comunicações da parte traseira do veículo para perguntar à Meteorologia se era possível corrigir essa seca.
Olhou para trás, para suas acompanhantes. Três fileiras, quatro pessoas em cada fileira, especialistas para ampliar seus poderes de observação e cumprir ordens. E olhe o ônibus que os seguia! Um dos maiores veículos da Sede. Pelo menos 30m de comprimento! A poeira rodopiava ao seu redor.
Tamalane viajava lá, a mando de Odrade. A Madre Superiora podia ser irascível quando provocada, todas pensaram. Tam havia trazido gente demais, mas Odrade só descobrira isso quando já era tarde para fazer mudanças.
— Não é uma inspeção! É um diabo de uma invasão! “Siga meu exemplo, Tam. Um pouco de drama político. Torne a transição mais fácil.”
Voltou a atenção para o motorista, o único homem no carro.
Clairby, um pequeno e azedo técnico em transportes. Rosto mirrado, pele da cor de terra úmida recém-lavrada. O motorista favorito de Odrade. Rápido, seguro, e cauteloso quanto às limitações de sua máquina.
Alcançaram o topo de uma colina e os sobreiros se tornaram mais esparsos, substituídos à frente por pomares rodeando uma comunidade.
Linda essa luz, pensou Odrade. Prédios baixos de paredes brancas e telhas cor de laranja. Uma rua de acesso, sombreada por
arcos, podia ser avistada bem abaixo na ladeira e, alinhada atrás dela, a alta estrutura central que continha os escritórios de supervisão regional.
A vista tranqüilizou Odrade. A comunidade tinha uma aparência luminosa, abrandada pela distância e por uma neblina que se erguia dos pomares ao redor. Ramos ainda nus aqui nessa região de inverno, mas certamente capazes de pelo menos mais uma colheita.
A Irmandade exigia uma certa beleza em suas redondezas, lembrou a si mesma. Uma maneira de se mimarem que dava suporte aos sentidos sem subtrair nada das necessidades do estômago. Conforto onde possível.... mas não demais!
Alguém atrás de Odrade disse: — Acho que algumas dessas árvores estão começando a brotar.
Odrade olhou com mais cuidado. Sim! Pequenos pontos verdes nos ramos escuros. O inverno cometera um erro aqui. A Meteorologia, lutando para efetuar mudanças de estações, não podia evitar um erro ocasional. O deserto em expansão estava criando, muito cedo, temperaturas altas demais aqui: pequenos trechos aquecidos que faziam as plantas enfolharem e florescerem justamente em hora de uma geada inesperada. O fenecimento de plantações estava ficando freqüente demais.
Um Consultor de Campo desenterrara o termo antigo “veranico” para um relatório ilustrado com projeções de um pomar todo em flor sendo assaltado pela neve. Odrade sentira a memória se agitando com as palavras do Consultor.
“Veranico. Como era apropriado!”
Seus conselheiros compartilhando aquela pequena visão da labuta do planeta reconheciam a metáfora de um congelamento vindo de assalto nos calcanhares de um calor inapropriado: um revivescimento do tempo quente, época em que os saqueadores podiam atormentar seus vizinhos.
Relembrando, Odrade sentiu o frio do machado da caçadora.
“Quando?” Não ousava procurar a resposta. “Não sou uma Kwisatz Haderach!” Sem se virar, Odrade falou a Streggi. — Você já esteve
em Pondrille? — Não era meu centro postulante, Madre Superiora, mas presumo que seja semelhante.
É, essas comunidades eram muito parecidas: na maior parte, estruturas baixas localizadas em lotes ajardinados e pomares, centros escolares para treinamento específico. Era um sistema de seleção para Irmãs futuras, a malha cada vez mais fina quanto mais perto se chegava da Central.
Algumas
dessas
comunidades,
como
Pondrille,
concentravam-se em endurecer suas aprendizes. Mandavam as mulheres por longas horas todos os dias fazerem trabalho braçal. Mãos que cavavam a terra e ficavam manchadas de frutos raramente se esquivariam a trabalhos sujos no futuro. Agora que não estavam mais dentro da poeira, Clairby abriu as janelas. Entrou uma onda de calor. O que a Meteorologia estava fazendo?
Dois edifícios na entrada de Pondrille tinham sido unidos em um andar acima da rua, formando um longo túnel. Só faltava, pensou Odrade, uma porta de ferro corrediça para imitar os portões da cidade na história pré-espaço. Cavalheiros de armadura achariam o calor sombrio dessa entrada familiar. Aberturas de televigias no alto eram certamente lugares onde os guardiões esperavam.
A longa e sombreada entrada da comunidade era limpa, ela viu. O olfato raramente era assaltado por podridão ou outros odores ofensivos nas comunidades Bene Gesserit. Nada de favelas.
Poucos aleijados mancando pelas ruas. Muita carne sadia. Uma boa administração tinha o cuidado de manter feliz uma população sadia.
“Temos os nossos incapacitados, todavia. E nem todos fisicamente.”
Clairby estacionou logo antes da saída da rua sombreada e desceram. O ônibus de Tamalane parou atrás deles.
Odrade tinha pensado que o caminho de entrada aliviasse um pouco o calor, mas a perversidade da natureza tornara o lugar um verdadeiro forno e a temperatura estava ainda mais alta ali.
Ficou contente em sair para a luz clara da praça central onde o suor evaporando de seu corpo lhe deu uns segundos de frescura.
A ilusão de alívio passou abruptamente quando o sol queimou-lhe a cabeça e os ombros. Foi forçada a apelar para o controle metabólico para ajustar o calor do corpo.
Água jorrava em um círculo espelhante na praça central, um espetáculo que breve teria fim.
“Deixe por enquanto. Moral!”
Ouviu suas companheiras seguindo-a, os gemidos usuais de
“ficar sentada tanto tempo na mesma posição”. Uma comissão de recepção podia ser vista vindo às pressas do outro lado da praça.
Odrade reconheceu Tsimpay, a chefe de Pondrille, no furgão. As acompanhantes da Madre Superiora foram até os ladrilhos azuis do chafariz da praça — todas, exceto Streggi, que ficou ao lado de Odrade. O grupo de Tamalane, também, foi atraído pela água em borbotões. Tudo parte integrante de um sonho humano tão antigo que não podia jamais ser completamente descartado, pensou Odrade.“Campos férteis e água aberta — água clara, potável, em que se pode mergulhar o rosto para aliviar a sede.”
E na verdade algumas pessoas de seu grupo estavam fazendo exatamente isso no chafariz. Os rostos brilhavam de umidade.
A delegação de Pondrille parou perto de Odrade pisando ainda os ladrilhos azuis do chafariz da praça. Tsimpay trouxera mais três Reverendas Madres e cinco acólitas mais velhas.
Próximas à Agonia, todas aquelas acólitas, observou Odrade.
Demonstrando a percepção da provação pela firmeza do olhar.
Tsimpay era alguém que Odrade via de vez em quando na Central, onde ia às vezes como professora. Estava com boa aparência: cabelos castanhos tão escuros que pareciam preto-avermelhados nessa luz. O rosto fino era quase sombrio em sua austeridade. As feições culminavam nos olhos muito azuis sob sobrancelhas grossas.
— É um prazer vê-la, Madre Superiora. — Parecia ser sincera.Odrade inclinou a cabeça, um gesto mínimo. “Escutei. Por que está tão contente em me ver?”
Tsimpay entendeu. Apontou para uma Reverenda Madre alta, de faces encovadas, perto dela. — Lembra-se de Fali, nossa Chefe de Pomares? Fali acaba de vir a mim com uma delegação de jardineiras. Uma queixa grave.
O rosto de Fali, marcado pelo ar livre, parecia macilento.
“Trabalho excessivo?”
Tinha lábios finos e um queixo pontudo. Unhas sujas. Odrade notou isso e aprovou. “Não tem medo de cavar a terra também.”
“Delegação de jardineiras.” Então havia um escalonamento de reclamações. Deve ter sido sério. Tsimpay não era de descarregar problemas na Madre Superiora. “
— Fale — disse Odrade.
Lançando um olhar para Tsimpay, Fali começou um relatório detalhado, fornecendo até as habilitações dos líderes da delegação.
Todas pessoas boas, é claro.
Odrade reconheceu o padrão. Tinha havido conferências com relação a essa conseqüência inevitável. Tsimpay comparecera a algumas delas. Como você podia explicar a seu povo que um verme de areia distante (talvez ainda não existente) requeria essa mudança? Como você podia explicar aos fazendeiros que não era questão de “só mais um pouquinho de chuva”, e sim um ponto fundamental das condições meteorológicas do planeta. Mais chuva aqui poderia significar um desvio de ventos de alta altitude. Por sua vez, isso alteraria as condições em outro lugar, causaria sirocos carregados de umidade, onde não só perturbariam, mas poderiam ser perigosos. Muito fácil produzir grandes furacões se inserissem as condições erradas. A meteorologia do planeta não era uma coisa simples para ser tratada com ajustamentos fáceis. “Como exigi em certas ocasiões.” E cada vez, havia uma equação total a ser examinada.
— O planeta dá o último voto — Odrade disse. Era um velho lembrete da falibilidade humana para a Irmandade.
— Duna ainda tem um voto? — Fali perguntou. Mais amargura na pergunta do que Odrade tinha antecipado.
— Estou sentindo calor. Vimos as folhas em seus pomares quando chegamos — disse Odrade. “Sei o que a preocupa, Irmã.”
— Vamos perder parte da colheita este ano — disse Fali.
Acusação em suas palavras: “É culpa sua!”
— O que disse à sua delegação? — Odrade perguntou.
— Que o deserto tem de crescer e que a Meteorologia não pode mais fazer todos os ajustes de que precisamos.
Verdade. A resposta combinada. Inadequada, como a verdade era muitas vezes, mas era só o que tinham agora. Alguma coisa teria que ceder muito em breve. Por enquanto, mais delegações e perdas de colheitas.
— Toma chá conosco, Madre Superiora? — Tsimpay, a diplomata, interferindo. “Está vendo como está escalonando, Madre Superiora? Fali irá agora de volta para suas frutas e legumes. O seu lugar. O recado foi dado.”
Streggi pigarreou.
“Esse hábito infernal tem de parar!” Mas o significado era claro. Streggi estava encarregada do horário. “Temos de ir.”
— Saímos atrasadas — disse Odrade. — Só paramos para esticar as pernas e ver se tinham problemas que não podiam resolver sozinhas.
— Podemos tomar conta das jardineiras, Madre Superiora.
O tom enérgico de Tsimpay dizia muito mais, e Odrade quase sorriu. “Inspecione se quiser, Madre Superiora. Olhe em toda parte.
Encontrará Pondrille em ordem Bene Gesserit.”
Odrade lançou os olhos para o ônibus de Tamalane. Algumas pessoas já estavam voltando para o ar refrigerado. Tamalane estava perto da porta, ao alcance da voz.
— Ouço boas coisas a seu respeito, Tsimpay — disse Odrade. — Você pode se arranjar sem nossa interferência. Não quero de maneira nenhuma me intrometer com uma comitiva que é grande demais. — As últimas palavras bem alto para todos ouvirem.
— Onde vai passar a noite, Madre Superiora?
— Em Eldio.
— Não vou lá há algum tempo, mas ouvi dizer que o mar está bem menor.
— Os sobrevôos confirmam o que ouviu. Não é preciso avisá-las de que estamos indo, Tsimpay. Já sabem. Tivemos de prepará-las para essa invasão.
A Chefe dos Pomares Fali deu um pequeno passo à frente.