As Herdeiras de Duna
Folha de Rosto
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 16 partes.
— Sou a serva de minhas Irmãs e ela está aqui para nos observar.
— Vocês tiraram algumas células de mim, não foi? Estão criando um Scytale substituto em seus tanques!
— Claro que sim. Não pensa que as Irmãs iam deixar o último Mestre terminar aqui, não é?
— Nenhum ghola meu fará qualquer coisa que eu não faria!
— “E não terá nenhum tubo de nulentropia!”
— Sabemos disso. — “Mas o que é que não sabemos?”
— Isso não é barganhar — ele reclamou.
— Você se engana a meu respeito, Scytale. Sabemos quando você mente e quando esconde coisas. Usamos sentidos que os outros não usam.
Era verdade! Detectavam coisas dos odores de seu corpo, pequenos movimentos dos músculos, expressões que não podia controlar. “Irmãs? Essas criaturas eram powindah! Todas elas!”
— Você estava sob a influência de lashkar — ela açulou.
“Lashkar!” Como gostaria de estar, aqui e agora. Dançarinos Faciais guerreiros. Assistentes Domei — eliminando esse mal abominável!
Mas não ousava mentir. A que estava atrás dele provavelmente era uma Reveladora da Verdade. A experiência de muitas vidas lhe dizia que as Reveladoras da Verdade Bene Gesserit eram as melhores.
— Eu comandava uma tropa de khasadares. Buscávamos um rebanho de Futares para nossa defesa.
“Rebanho?” Os Tleilaxu saberiam alguma coisa não revelada à Irmandade sobre os Futares?
— Vocês foram preparados para a violência. As Honradas Madres souberam de sua missão e os interceptaram? Acho isso provável.
— Por que as chama de Honradas Madres? — A voz dele era quase um ganido.
— Porque é assim que elas chamam a si mesmas. — “Muita calma agora. Deixe que ele pague seus próprios pecados.”
“Ela tem razão! Fomos traídos. “Idéia amarga. Agarrou-se a ela, pensando o que deveria responder. “Uma pequena revelação?
Nunca há uma pequena revelação com essas mulheres.”
Um suspiro sacudiu-lhe o peito. A cápsula de nulentropia e seu conteúdo. Sua maior preocupação. Qualquer coisa para lhe dar acesso aos seus próprios tanques de axlotl.
— Descendentes de pessoas que mandamos para a Dispersão voltaram com prisioneiros Futares. Uma mistura de humano e gato, como deve saber. Mas não se reproduziram em nossos tanques. E antes de podermos descobrir a razão, os que tinham sido trazidos a nós morreram. — “Os traidores nos trouxeram só dois! Deveríamos ter desconfiado.”
— Não trouxeram muitos Futares, não foi? Deveriam ter desconfiado que eram iscas.
“Está vendo? É isso que fazem com pequenas revelações!”
— Por que os Futares não caçaram e mataram Honradas Madres em Gammu? — Era a pergunta de Duncan e merecia uma resposta.
— Disseram-nos que nenhuma ordem tinha sido dada. Eles não matam sem ordens. — “Ela sabe isso. Está me testando.”
— Os Dançarinos Faciais também matam sob ordens — ela disse. — Matariam até você se desse a ordem. Não é assim?
— Essa ordem está reservada para manter nossos segredos fora do alcance de inimigos.
— É por isso que você quer seus próprios Dançarinos Faciais? Considera-nos inimigos?
Antes que pudesse compor uma resposta, a figura projetada de Bellonda surgiu acima da mesa, em tamanho natural e parcialmente transluzente, os cristais dos Arquivos dançando atrás dela. — Urgente de Sheeana! — disse Bellonda. — A florescência de especiarias aconteceu. Vermes da areia! — A figura virou e olhou para Scytale, os televigias coordenando seus movimentos perfeitamente. — Então perdeu uma ficha do jogo, Mestre Scytale!
Finalmente temos nossas especiarias! — A figura projetada desapareceu com um “clique” audível e um leve cheiro de ozônio.
— Estão querendo me enganar! — ele falou sem pensar.
Mas a porta à esquerda de Odrade se abriu. Sheeana entrou puxando uma pequena cápsula suspensora de não mais de dois metros. Os lados transparentes repetiam os globos luminosos da sala de trabalho em minúsculas explosões de luz amarela. Alguma coisa se contorcia na cápsula!
Sheeana ficou de lado sem falar, deixando que vissem claramente o conteúdo. Tão pequeno! O verme tinha menos da metade do comprimento da cápsula, mas era perfeito em todos os detalhes, esticado em uma cama baixa de areia dourada.
Scytale não pôde conter um grito sufocado de temor. O
Profeta!A reação de Odrade foi pragmática. Inclinou-se para a cápsula, olhando a boca em miniatura. O sopro chamuscante do fogo interior do grande verme reduzido a isso? Quê imitação minúscula!
Dentes de cristal brilharam ao erguer o segmento frontal.
O verme investigou com a boca à esquerda e à direita. Todos viram atrás dos dentes o fogo em miniatura em sua química alienígena.
— Milhares deles — disse Sheeana. — Vieram a uma florescência de especiaria, como sempre fazem.
Odrade continuou em silêncio. “Conseguimos!” Mas esse era o momento de triunfo de Sheeana. Deixe que ela o aproveite ao máximo. Scytale nunca parecera tão derrotado.
Sheeana abriu a cápsula e tirou o verme, embalando-o como se fosse um bebê. Ficou quietinho em seus braços.
Odrade respirou fundo, com satisfação. “Ela ainda os controla.”
— Scytale — Odrade disse.
Ele não conseguia desviar o olhar do verme.
— Você ainda serve o Profeta? — perguntou Odrade. — Aí está ele! Não sabia como responder. Um fantasma real do Profeta?
Queria negar sua primeira reação de temor, mas seus olhos não lhe permitiam.
Odrade falou mansamente. — Enquanto você estava fora em sua missão tola, sua missão egoísta, nós estávamos servindo o Profeta! Salvamos seu último espectro e o trouxemos aqui. A Sede da Irmandade se tornará outra Duna!
Recostou-se e juntou as pontas dos dedos das duas mãos em arco. Bell estava vendo tudo pelos televigias, é claro. As observações de uma Mentat seriam valiosas. Odrade gostaria que Idaho também estivesse olhando. Mas ele poderia ver um holo.
Estava claro para ela que Scytale tinha visto as Bene Gesserit somente como instrumentos para a restauração de sua preciosa civilização Tleilaxu. Será que essas novas circunstâncias o forçariam a revelar os segredos íntimos de seus tanques? O que ele iria oferecer?
— Preciso de tempo para pensar. — Sua voz tremia.
— Pensar sobre o quê?
Não respondeu, mas continuou a concentrar sua atenção em Sheeana, que estava colocando o pequeno verme de volta na cápsula. Acariciou-o antes de selar a tampa.
— Diga-me, Scytale — insistiu Odrade. — Como pode haver alguma coisa para você reconsiderar? Este é o nosso Profeta! Você diz que serve a Grande Crença. Então sirva-a!
Podia ver os sonhos dele se dissolvendo. “Seus próprios Dançarinos Faciais para imprimir memórias daqueles que mataram, copiando a forma e a maneira de cada vítima.” Nunca tiveram esperanças de lograr uma Reverenda Madre... só acólitas e simples trabalhadoras da Sede... Todos os segredos que esperara
conseguir, perdidos! Perdidos assim como a casca seca queimada dos planetas Tleilaxu.
“Nosso Profeta, ela dissera.” Olhou com expressão arrasada para Odrade, mas sem focalizá-la. “O que devo fazer? Essas mulheres não precisam mais de mim. Mas eu preciso delas!”
— Scytale. — Como falava macio. — A Grande Convenção terminou. Lá fora há um novo universo.
Tentou engolir em seco. Todo o conceito de violência adquirira uma nova dimensão. No Velho Império a Convenção garantira retaliação contra qualquer pessoa que ousasse queimar um planeta atacando do espaço.
— Violência escalonada, Scytale. — A voz de Odrade era quase um murmúrio. — Nós dispersamos cápsulas de fúria.
Focalizou nela. “O que está dizendo?”
— O ódio que está sendo armazenado contra as Honradas Madres — ela disse. — ”Você não é o único a perder, Scytale. Uma vez, quando surgiram problemas em nossa civilização, gritaram: Tragam uma Reverenda Madre! As Honradas Madres impedem isso. E os mitos são reconstituídos. Luz dourada cai sobre nosso passado. Era melhor nos tempos antigos quando as Bene Gesserit podiam nos ajudar. Onde se pode ir para encontrar Revelador as da Verdade confiáveis hoje em dia? Arbitragem? As Honradas Madres nunca ouviram essa palavra! Foram sempre muito polidas, as Reverendas Madres. Isso temos que admitir.
Quando Scytale não respondeu, ela disse: — Pense no que poderia acontecer se essa fúria fosse solta em um Jihad!
Como ele continuasse em silêncio, ela disse: — Você viu.
Tleilaxu, Bene Gesserit, sacerdotes do Deus Dividido, e quem sabe quantos mais — todos caçados como feras selvagens.
— Não podem matar todos nós! — Um grito de angústia.
— Não? Os seus Dispersos uniram-se às Honradas Madres.
Seria esse o refúgio que você buscava na Dispersão?
“Lá se vai mais um sonho: pequenas cápsulas de Tleilaxu, persistentes como feridas supuradas, aguardando o dia do Grande Renascimento de Scytale.”
— As pessoas ficam fortes debaixo de opressão — ele disse, mas suas palavras não tinham força. — Até os Sacerdotes de Rakis estão encontrando buracos para se esconder! — Palavras desesperadas.
— Quem diz isso? Alguns de seus amigos que voltaram? O
silêncio dele era tudo que precisava como resposta.
— Os Bene Tleilaxu mataram Honradas Madres e elas sabem disso — ela disse, pressionando-o. — Só ficarão satisfeitas com sua exterminação.
— E a sua!
— Somos sócios por necessidade, se não por crenças compartilhadas. — Disse isso no mais puro islamiyat e viu a esperança saltar dos olhos dele. “Kehl e Shariat podem ainda adquirir seu velho significado entre as pessoas que compõem seus pensamentos na Língua de Deus.”
— Sócios? — Fraco e extremamente tentativo.
Ela adaptou um novo tom rude. — De muitas maneiras, essa é uma base mais confiável para ação em comum do que qualquer outra. Cada um de nós sabe o que o outro quer. Um desígnio intrínseco: peneire tudo através disso e algo confiável pode ocorrer.
— E o que quer de mim?
— Você já sabe.
— Como fazer os melhores tanques, sim. — Sacudiu a cabeça, claramente incerto. As mudanças implícitas nas exigências dela! Odrade pensou se ousaria ser brusca e áspera, com raiva evidente. Como ele era denso! Mas estava quase em pânico. Velhos valores haviam mudado. As Honradas Madres não eram a única fonte de tumulto. Scytale nem sabia a extensão das mudanças que infestavam seus próprios Dispersos!
— Os tempos estão mudando — Odrade disse. “Mudança, que palavra inquietante” — ele pensou.
— Preciso de meus assistentes Dançarinos Faciais! E de meus próprios tanques! — Quase suplicando.
— Meu Conselho e eu estudaremos isso.
— O que têm para estudar? — Jogando suas próprias palavras nela.
— Você só precisa de sua própria aprovação. Eu preciso da aprovação de outros. — Sorriu para ele com uma expressão severa.
— Portanto você tem tempo para pensar. — Odrade acenou com a cabeça para Tamalane, que chamou os guardas.
— De volta para a não-nave? — falou, já na porta, uma figura diminuta entre os guardas corpulentos.
— Mas hoje você vai de carro até lá. Olhou longamente o verme ao sair.
Quando Scytale e os guardas saíram, Sheeana disse: —
Você fez bem em não pressioná-lo. Ele estava a ponto de entrar em pânico.Bellonda entrou. — Talvez fosse melhor matá-lo.
— Bell! Pegue o holo e veja novamente o nosso encontro.
Dessa vez como Mentat!
Isso a deteve.
Tamalane deu um risinho.
— Você se diverte demais com a derrota de sua irmã, Tam
— disse Sheeana.
Tamalane encolheu os ombros, mas Odrade ficou encantada.
“Não ia mais provocar Bell?”
— Quando falou da Sede da Irmandade se tornar uma outra Duna, foi aí que ele começou a entrar em pânico — disse Bellonda, com voz Mentat distante.
Odrade vira a reação, mas não tinha ainda feito a associação.
Isso era um valor Mentat: padrões e sistemas, erigindo construções.
Bell pressentia um padrão no comportamento de Scytale.
— Pergunto a mim mesma: será a coisa se tornando real mais uma vez? — disse Bellonda.
Odrade viu imediatamente. Uma coisa estranha sobre lugares perdidos. Enquanto Duna tinha sido um planeta conhecido e vivo, existira uma firmeza histórica sobre sua presença no Registro Galáctico. Era possível apontar para uma projeção e dizer: — Lá está Duna. Antigamente chamado Arrakis e depois, Rakis. Duna devido à sua característica de deserto total nos dias de Muad’Dib.
Destrua o lugar, porém, e uma patina mitológica invectiva contra a realidade projetada. Com o tempo, esses lugares tornam-se totalmente míticos. “ Arthur e sua Távola Redonda. Camelot onde só chove à noite. Muito bom Controle de Meteorologia para aqueles tempos!”
Mas agora, um novo Duna aparecera.
— Poder do mito — disse Tamalane.
Ahhhhh, sim. Tam, próxima à despedida final da carne, estaria mais sensível aos mecanismos dos mitos. Mistério e sigilo, instrumentos da Misericórdia, também tinham sido usados em Duna por Muad’Dib e o Tirano. As sementes tinham sido plantadas.
Mesmo com os sacerdotes do Deus Dividido indo para sua própria perdição, os mitos de Duna proliferavam.
— Melange — disse Tamalane.
As outras Irmãs na sala de trabalho entenderam imediatamente o que ela queria dizer. Novas esperanças poderiam ser injetadas na Dispersão Bene Gesserit.
Bellonda disse: — Por que nos querem mortas e não cativas?
Isso sempre me intrigou.
As Honradas Madres talvez não quisessem nenhuma Bene Gesserit viva... só a sabedoria da especiaria, talvez. Mas destruíram Duna. Destruíram os Tleilaxu. Era uma idéia prudente para levar para qualquer confrontação com a Rainha Aranha — se Dortujla tivesse sucesso.
— Nenhum refém útil? — Bellonda perguntou.
Odrade viu a expressão no rosto das Irmãs. Estavam pensando igual, como se tivessem uma mente em comum. As aulas práticas das Honradas Madres, deixando poucos sobreviventes, só tornavam a oposição potencial mais cautelosa. Invocava uma regra de silêncio dentro da qual memórias amargas se tornavam mitos amargos. As Honradas Madres eram como os bárbaros em qualquer época: sangue em vez de reféns. Atacar com malevolência casual.
— Dar está certa — disse Tamalane. — Estávamos procurando aliados muito perto de nós.
— Os Futares não criaram a si próprios — disse Sheeana.
— Aqueles que os criaram esperam nos controlar — disse Bellonda. Ouvia-se o som claro de Projeção Primária em sua voz.
“Foi essa hesitação que Dortujla percebeu nos Treinadores.”
Ali estava e tinham de encará-lo com todos os seus perigos.
Acabava se resumindo em pessoas (como sempre). Pessoas —
contemporâneos. Você aprende coisas valiosas com as pessoas que vivem na sua época e da sabedoria que trazem do seu passado. A Outra Memória não era a única viatura da história.
Odrade sentiu-se como se estivesse voltado para casa, depois de uma longa ausência. Havia uma familiaridade na maneira em que as quatro estavam pensando agora. Era uma familiaridade que transcendia o local. A Irmandade, em si, era o Lar. Não onde se alojavam transitoriamente, mas a associação.
Bellonda colocou isso em palavras. — Receio que estivéssemos trabalhando com objetivos opostos.
— O medo faz isso — disse Sheeana.
Odrade não ousou sorrir. Poderia ser mal interpretada e não queria ter de explicar. “Dê-nos Murbella como Irmã e um Bashar restaurado! E então teremos chance de ganhar!”
Nesse momento, em que se sentia tão bem, o sinal de mensagens deu um clique. Ela lançou um olhar para a superfície das projeções, por puro reflexo, e reconheceu uma crise. Uma coisa tão pequena (relativamente) para precipitar uma crise. Clairby ferido mortalmente num desastre de tóptero. Mortalmente a não ser que...
O “a não ser que” foi soletrado para ela e o resultado era Cyborg.
Suas companheiras viram a mensagem invertida, mas aqui se aprendia a ler informações como em um espelho. Elas sabiam.
“Onde estabeleceremos o limite?”
Bellonda, com seus óculos antigos quando podia ter olhos artificiais ou qualquer outra entre inúmeras próteses, votava com o corpo. “Isso é o que significa ser humano. Tente segurar a juventude e ela ri de você enquanto foge. Melange é o bastante... e talvez demais.”
Odrade reconheceu o que suas próprias emoções estavam lhe dizendo. Mas e quanto à necessidade Bene Gesserit? Bell podia registrar seu voto individual e todas sabiam disso, e até
respeitavam. Mas o voto da Madre Superiora levava a Irmandade com ela. “Primeiro os tanques axlotl e agora isso.”
A necessidade dizia que não podiam perder especialistas do calibre de Clairby. Já tinham muito poucos. Estavam tão espalhados que já apareciam espaços em branco. Cyborg Clairby, porém, e essa foi a cunha de abertura. Os Suks estavam preparados. “Uma medida de precaução” se fosse necessária para alguém insubstituível. “Como a Madre Superiora?” Odrade sabia que tinha aprovado isso com suas habituais reservas cautelosas. Onde estavam essas reservas agora?
Cyborg era uma dessas palavras pot-pourri, também. Onde foi que o acréscimo à carne humana se tornou dominante? Quando o Cyborg deixou de ser humano? Tentações intensificadas — “Só mais um pequeno ajuste.” E era tão fácil ajustar até que o humano-pot-pourri se tornasse incontestavelmente obediente. “Mas...
Clairby?”
Condições extremas diziam: — Faça dele um Cyborg! —
Estaria a Irmandade tão desesperada? Foi forçada a responder afirmativamente.
Aí estava então — a decisão não completamente fora de suas mãos, mas a desculpa fácil à mão. “A necessidade assim o dita.” O Jihad Butleriano deixara sua marca indelével nos humanos.
Batalhado e ganho... por enquanto. E aqui estava outra batalha naquele antigo conflito. Mas agora, a sobrevivência da Irmandade estava em jogo. Quantos especialistas técnicos ainda permaneciam na Sede? Sabia a resposta sem olhar. Não o suficiente.
Odrade inclinou-se para a frente e tocou as teclas de transmissão. — Cyborg — disse.
Bellonda grunhiu. “Aprovação ou desaprovação?” Nunca diria. Essa era a arena da Madre Superiora, e que fosse bem-vinda!
“Quem ganhou esta batalha?” Odrade perguntou a si mesma.
Seguimos uma linha delicada, perpetuando genes Atreides (Siona) em nossa população porque nos ocultam da presciência.
Carregamos o Kwisatz Haderach nessa bolsa! A voluntariosidade criou o Muad’Dib. Os Profetas fazem as predições se realizarem. Ousaremos algum dia ignorar novamente nosso senso Tao e servir uma cultura que odeia o acaso e implora profecias ?
— Summário dos Arquivos (adixto)
Foi logo após o amanhecer que Odrade chegou à não-nave, mas Murbella estava de pé e trabalhando com um mek de treinamento quando a Madre Superiora chegou à sala de exercícios.
Odrade percorrera a pé o último quilômetro, atravessando os anéis de pomares ao redor do campo espacial. As poucas nuvens da noite tinham rareado com a aproximação do amanhecer e se dissipado para revelar um céu cheio de estrelas.
Reconheceu uma alteração delicada da Meteorologia para arrancar mais uma colheita dessa região, mas a chuva cada vez mais rara mal bastava para manter os pomares e pastagens vivos.
Enquanto andava, Odrade foi dominada pela melancolia. O
inverno que acabava de passar tinha sido um silêncio conseguido a duras penas entre tempestades. A vida era um holocausto. Pólen espalhado por insetos ansiosos, frutificação e semeadura seguindo
a flor. Esses pomares eram uma tempestade secreta, cujo poder jazia escondido em fluxos torrenciais de vida. Mas ohhhhh! a destruição. Nova vida acarretava mudanças. A Transformação estava vindo, sempre diferente. Os vermes da areia trariam a pureza do deserto do antigo Duna.
A desolação daquele poder de transformação invadiu sua imaginação. Podia ver essa paisagem reduzida a dunas varridas pelo vento, habitat para os descendentes de Leto II.
E as artes da Sede da Irmandade sofreriam mutações — os mitos de uma civilização substituídos pelos de outra.
A aura desses pensamentos acompanhou Odrade até a sala de exercícios, e influenciou seu estado de espírito enquanto observava Murbella completar um ciclo rápido de exercícios e dar um passo atrás, ofegante.
Um fino arranhão vermelho marcava as costas da mão esquerda de Murbella, onde errara um movimento do grande mek. O
treinador automático estava lá no centro da sala como uma coluna dourada, suas armas retraindo-se e projetando-se rapidamente —
mandíbulas exploradoras de um inseto raivoso.
Murbella vestia malha verde justa e a pele exposta reluzia de suor. Mesmo com a saliência proeminente da gravidez, parecia graciosa. A pele brilhava de saúde. Vinha de dentro, Odrade decidiu, em parte da gravidez, mas algo mais fundamental também.
Isso impressionara Odrade em seu primeiro encontro, uma coisa que Lucilla comentara após capturar Murbella e salvar Idaho de Gammu. Nela, a saúde vivia sob a superfície, como uma lente para focalizar a atenção na corrente de água doce profunda da vitalidade.
“Tem de ser nossa!”
Murbella viu a visita, mas recusou-se a ser interrompida.
“Ainda não, Madre Superiora. Meu bebê vai chegar em breve, mas este corpo tem necessidades que vão continuar.”
Odrade viu então que o mek estava simulando raiva, uma reação programada, acarretada pela frustração de seus circuitos.
Um costume extremamente perigoso!
— Bom dia, Madre Superiora.
A voz de Murbella saiu modulada por seus esforços enquanto se esquivava e se contorcia com aquela velocidade incrível de que dispunha.
O mek golpeava e procurava por ela, os sensores dardejando e zunindo em tentativas de seguir seus movimentos.
Odrade fungou. Falar numa hora dessas aumentava o perigo do mek. Não se arrisca nenhuma distração quando se joga uma partida tão perigosa “Basta!”
Os controles do mek estavam em um painel verde grande na parede à direita da porta. As alterações de Murbella podiam ser vistas nos circuitos — fios pendurados, campos luminosos com os cristais de memória deslocados. Odrade estendeu a mão e parou o mecanismo.
Murbella virou-se para encará-la.
— Por que mudou o circuito? — Odrade perguntou.
— Para a raiva.
— É isso que as Honradas Madres fazem?
— É de pequenino que se torce o pepino? — Murbella massageou a mão ferida. — Mas e se o pepino sabe como é torcido e aprova?
Odrade sentiu uma súbita excitação. — Aprova? Por quê?
— Porque há algo... de grandioso nisso.
— Você segue a alta de sua adrenalina?
— Sabe que não é isso! — Murbella voltou a respirar normalmente. Ficou olhando fixo para Odrade.
— Então o que é?
— É... sentir o desafio de fazer mais do que sempre se achou possível. Você nunca suspeitou que pudesse ser tão... tão capaz, tão proficiente e perfeita em tudo.
Odrade escondeu sua exultação.
“Mens sana in corpore sano. Ela é finalmente nossa!”
Odrade disse: — Mas ao preço que se paga!
— Preço? — Murbella parecia atônita. — Enquanto eu puder, tenho grande prazer em pagar.
— Tome o que quiser e pague?
— É sua cornucópia mágica Bene Gesserit: à medida que me torno mais aperfeiçoada, minha capacidade de pagar aumenta.
— Cuidado, Murbella. Essa cornucópia, como você a chama, pode se transformar na caixa de Pandora.
Murbella conhecia a alusão. Ficou imóvel, olhando fixamente a Madre Superiora. — Oh! — O som apenas escapou.
— A caixa de Pandora liberta distrações poderosas que desperdiçam energias de sua vida. Você fala livremente de estar “no escorregador” e se tornar uma Reverenda Madre, mas ainda não sabe o que isso significa, nem o que queremos de você.
— Então não eram nossas habilidades sexuais que vocês queriam. Odrade avançou oito passos, majestosamente deliberados.
Uma vez que
Murbella começasse esse assunto não haveria como fazê-la parar, a não ser com a solução usual — argumentos suspensos por ordem terminante da Madre Superiora.
— Sheeana dominou facilmente suas habilidades — disse Odrade. — Então vocês vão usá-la naquela criança!
Odrade percebeu seu desagrado. Era um resíduo cultural.
Quando começara a sexualidade humana? Sheeana, aguardando agora nas salas de guarda da não-nave, fora forçada a lidar com ela. “Espero que reconheça a origem de minha relutância e por que fui tão reservada, Madre Superiora.”
“Reconheço que uma sociedade Fremen encheu sua cabeça de inibições antes de a controlarmos!”
Isso restabeleceu a harmonia entre elas. Mas como reorientar essa troca com Murbella? “Devo deixá-la correr enquanto.procuro uma saída.”
Haveria repetição. Questões não-resolvidas surgiram. O fato de que quase todas as palavras que Murbella pronunciava podiam ser antecipadas seria um teste.
— Por que evitam essa maneira testada de dominar os outros agora que dizem que precisam disso para Teg? — Murbella perguntou.
— Escravos, é isso que você quer? — Odrade retrucou.
Com os olhos quase fechados, Murbella considerou isso.
“Será que eu considerava os homens nossos escravos? Talvez.
Produzi neles períodos de abandono loucamente impensados, de entrega a pináculos de êxtase nunca antes sonhados. Fui treinada para lhes dar isso e, portanto, torná-los sujeitos ao nosso controle.”
“Até que Duncan fez o mesmo comigo.”
Odrade viu velarem-se os olhos de Murbella, e reconheceu que havia coisas tão contorcidas na psique dessa mulher, que era difícil descobri-las. “Selvageria correndo onde não podemos alcançar”. Era como se a clareza original de Murbella tivesse sido indelevelmente manchada, e essa marca coberta, e até essa cobertura mascarada. Havia uma aspereza nela que distorcia pensamentos e ações. Camada em cima de camada em cima de camada...
— Você tem medo do que eu posso fazer — disse Murbella.
— Há verdade no que diz — concordou Odrade.
“Honestidade e franqueza — instrumentos limitados agora para serem usados com cuidado.”
— Duncan. — A voz de Murbella saiu inexpressiva com novas habilidades Bene Gesserit.
— Tenho medo do que você compartilha com ele. Acha estranho, a Madre Superiora admitindo ter medo?
— Conheço franqueza e honestidade! — A maneira de usar essas palavras tornava-as repelentes.
— As Reverendas Madres são ensinadas a nunca abandonarem o self. Somos treinadas a não nos sobrecarregarmos dessa maneira com os problemas alheios.
— Isso é tudo?
— Vai mais fundo e tem outras ramificações. Ser Bene Gesserit marca você de sua própria maneira.
— Sei o que está pedindo: escolha Duncan ou a Irmandade.
Conheço seus truques.
— Acho que não.
— Há coisas que eu não farei!
— Todas nós somos coagidas pelo passado. Faço minhas escolhas, faço o que tenho de fazer porque meu passado é diferente do seu. — Vai continuar a me treinar, apesar do que acabei de dizer?
Odrade ouviu isso com a receptividade total que esses encontros com Murbella exigiam, todos os sentidos alertas para coisas não ditas, mensagens que adejavam na ponta das palavras como se fossem cílios tremulando, estendendo-se para entrar em contato com um universo perigoso.
“A Bene Gesserit tem de mudar. E aqui está alguém que poderia nos guiar nessa mudança.”
Bellonda ficaria horrorizada com essa possibilidade. Muitas Irmãs a rejeitariam. Mas ali estava ela.
Quando Odrade permaneceu em silêncio, Murbella disse: —
Treinada. É essa a palavra certa?
— Condicionada. Isso provavelmente é mais familiar para você. — O que você realmente quer é juntar nossas experiências, tornar-me suficientemente parecida com você para podermos criar confiança entre nós. É isso que toda a educação faz.
“Não brinque de erudita comigo, menina!”
— Fluiríamos na mesma corrente, hein, Murbella?
Qualquer acólita de Terceiro-Grau ficaria alerta e cautelosa ao ouvir esse tom na voz da Madre Superiora. Murbella parecia indiferente. — Exceto que não vou desistir dele.
— Isso cabe a você decidir.
— Vocês deixaram Lady Jessica decidir? “A saída desse beco sem saída, afinal.”
Duncan tinha instigado Murbella a estudar a vida de Jessica. “Esperando frustrar-nos!” Holos de seu desempenho tinham provocado análises severas dos registros.
— Uma pessoa interessante — disse Odrade.
— Amor! Depois de todos os seus ensinamentos, seu condicionamento!
— Você não achou o comportamento dela desleal?
— Nunca!
“Delicadamente agora.” — Mas veja as conseqüências: um Kwisatz Haderach... e aquele neto, o Tirano! — “Argumento preferido de Bellonda.”
— O Caminho Dourado — disse Murbella. — Sobrevivência da humanidade.
— Os tempos da Fome e a Dispersão.
“Está vendo isso, Bell? Não importa. Você verá.”
— Honradas Madres! — Murbella disse.
— Tudo por causa de Jessica? — Odrade perguntou. — Mas Jessica retornou ao rebanho e viveu o resto da vida em Caladan.
— Professora de acólitas!
— Um exemplo para elas, também. Vê o que acontece quando alguém nos desafia? — “Desafie-nos, Murbella! Faça-o com mais perícia que Jessica.”
— Às vezes vocês me causam aversão! — A honestidade natural a forçou a acrescentar: — Mas você sabe que eu quero o que vocês têm.
“O que nós temos.”
Odrade recordou seus primeiros encontros com as atrações Bene Gesserit.
Tudo com relação ao corpo feito com precisão extraordinária, os sentidos afiados para detectar os mínimos detalhes, músculos treinados para funcionar com exatidão maravilhosa. Essas habilidades em uma Honrada Madre só podiam acrescentar uma nova dimensão ampliada pela velocidade do corpo.
— Você está jogando o problema de volta para mim — disse Murbella. — Tentando forçar minha escolha, quando já sabe qual é.
Odrade continuou em silêncio. Essa era uma forma de argumento que os antigos Jesuítas tinham quase aperfeiçoado. O
simulfluxo se sobrepunha a padrões de disputas: deixe Murbella convencer-se a si mesma. Dê-lhe apenas cutucadas muito sutis.
Proporcione pequenas desculpas, pelas quais ela possa desenvolver-se.
“Mas segure-se, Murbella, por amor a Duncan!”
— Você é muito esperta, desfilando as vantagens de sua Irmandade para mim — disse Murbella.
— Não estamos numa fila de restaurante.
Um sorriso despreocupado esboçou-se nos lábios de Murbella. — Vou levar um desses e um daqueles ali, e acho que vou querer um daqueles cremosos lá.
Odrade gostou da metáfora, mas os vigilantes onipresentes tinham seu próprio apetite. — Uma dieta que pode matar você.
— Mas vejo suas ofertas exibidas de maneira tão atraente.
Voz! Que coisa maravilhosa vocês inventaram. Tenho esse instrumento fantástico em minha garganta e vocês podem me ensinar a tocá-lo de maneira sublime.
— Agora você pode reger um concerto.
— Quero sua habilidade para influenciar as pessoas ao meu redor! — Para que fim, Murbella? Para os objetivos de quem?
— Se eu comer o que você come, vou ficar dura como você: plasteel do lado de fora e ainda mais dura por dentro?
— É assim que me vê?
— O chef de meu banquete! E tenho de comer o que você me trouxer — para o meu bem e para o seu.
Soava quase maníaca. Uma pessoa estranha. Às vezes parecia a mulher mais desgraçada do mundo, andando de um lado para o outro em seus aposentos como uma fera enjaulada. Aquele brilho insano nos olhos, pintas alaranjadas nas córneas... como agora. — Ainda se recusa a “trabalhar” Scytale?
— Mande Sheeana fazer isso.
— Você a treinará?
— E ela vai usar meu treinamento na criança! -
Encararam-se, entendendo que compartilhavam a mesma idéia. “Não é uma confrontação porque cada uma de nós quer a outra.” — Tenho um compromisso com você pelo que pode me dar
— Murbella disse em voz baixa. — Mas você quer saber se algum dia eu agirei contra esse compromisso?
— Seria capaz de fazer isso?
— Tanto quanto você, se as circunstâncias o exigissem.
— Acha que se arrependerá de sua decisão?
— Claro que sim! — Que pergunta idiota era essa? Todo mundo sempre se arrepende. Murbella disse isso.
— Só estava confirmando sua auto-honestidade. Gostamos do fato de que você não usa cores falsas.
— Vocês encontram cores falsas?
— Certamente.
— Devem ter maneiras de suprimi-las.
— A Agonia faz isso por nós. A falsidade não sobrevive à Especiaria. Odrade sentiu as batidas de Murbella se acelerarem.
— E não vai exigir que eu desista de Duncan? — Muito espinhosa.
— Essa ligação apresenta algumas dificuldades, mas são as suas dificuldades.
— Outra maneira de me pedir que desista dele?
— Aceite a possibilidade, é só isso.
— Não posso.
— Não quer?
— Quero dizer exatamente isso. Sou incapaz.
— E se alguém lhe mostrasse como fazer isso?
Murbella olhou dentro dos olhos de Odrade por longo tempo e depois disse: — Quase disse que isso me libertaria... mas...
— Sim?
— Não poderia ser livre enquanto ele estivesse ligado a mim.
— E isso é uma renúncia à maneira das Honradas Madres?
— Renúncia? Palavra errada. Apenas fui além das minhas ex-Irmãs.
— Ex-Irmãs?
— Ainda são minhas Irmãs, mas são Irmãs de infância.
Lembro-me de algumas com carinho, de outras com intensa aversão. Companheiras de brinquedo, num jogo que não mais me interessa.
— Essa decisão a satisfaz?
— Está satisfeita, Madre Superiora?
Odrade bateu palmas com entusiasmo desenfreado. Como Murbella adquiria rápido as respostas Bene Gesserit!
— Satisfeita? Que diabo de palavra infernal!
Enquanto Odrade falava, Murbella sentiu que se movia como em sonho para a beira de um abismo, incapaz de acordar e evitar a queda. O estômago lhe doía com um vazio secreto e as palavras seguintes de Odrade vieram ecoando da distância.
— A Bene Gesserit é tudo para uma Reverenda Madre.
Nunca poderá esquecer isso.
Tão célere quanto viera, a sensação de sonho passou. As palavras seguintes da Madre Superiora foram frias e imediatas.
— Prepare-se para um treinamento mais avançado. “Até encontrar a Agonia — viva ou morra.”
Odrade ergueu o olhar para os televigias no teto. — Mandem Sheeana aqui. Ela vai começar agora mesmo com sua nova professora.
— Então vai fazer isso! Vai “trabalhar” aquela criança.
— Pense nela como o Bashar Teg — disse Odrade. — Isso ajuda. — ”E não vamos lhe dar tempo para mudar de idéia.”
— Não resisti a Duncan e não posso discutir com você.
— Não discuta nem consigo mesma, Murbella. Não adianta.
Teg foi meu pai, mas tenho de fazer isso.
Até esse momento, Murbella não tinha entendido a força por trás do que Odrade dissera antes. “A Bene Gesserit é tudo para uma Reverenda Madre. Grande Dur, proteja-me! Serei assim também?”
Presenciamos uma fase passageira da eternidade.
Acontecem coisas importantes mas algumas pessoas nem notam.
Os acidentes interferem. Você não está presente aos episódios.
Depende de relatórios. E as pessoas fecham suas mentes. De que valem os relatórios? A História em um noticiário? Pré-selecionado
em uma conferência editorial, digerido e excretado por preconceito?
Os relatos de que você precisa raramente vêm daqueles que fazem a História. Diários, memórias e autobiografias são formas subjetivas de apelo especial. Os Arquivos estão abarrotados desse tipo de material suspeito.
— Darwi Odrade
Scytale notou a excitação dos guardas e de outros quando chegou à barreira no fim do corredor. A movimentação rápida de pessoas, especialmente de manhã tão cedo, o haviam atraído à barreira. Lá ia aquela médica Suk, Jalanto. Reconheceu-a do tempo em que Odrade a tinha mandado vê-lo “porque ele parecia doente”.
“Mais outra Reverenda Madre para me espionar!”
“Ahhhhhhhh, o bebê de Murbella.” Era a razão dessa correria e da Suk.
Mas quem eram todas aquelas outras? Mantos Bene Gesserit em quantidade que nunca vira antes aqui. Não só acólitas.
Reverendas Madres eram mais numerosas que as outras que se agitavam lá embaixo. Lembravam grandes aves de carniça. Lá ia uma acólita, afinal, carregando uma criança nos ombros. Muito misterioso. “Se ao menos tivesse uma ligação com os sistemas da nave!” Encostou-se em uma parede e esperou, mas as pessoas desapareceram em várias escotilhas e portas. Alguns destinos ele podia localizar com bastante certeza, outros eram um mistério.
Pelo Santo Profeta! Lá ia a própria Madre Superiora!
Atravessou uma porta mais larga por onde a maioria das outras havia passado.
Não adiantava perguntar a Odrade quando a visse da próxima vez. Ela o tinha em sua armadilha agora.
“O Profeta está aqui e em mãos powindah!”
Quando ninguém mais apareceu no corredor, Scytale voltou a seus aposentos. O monitor de identificação à porta oscilou à sua passagem, mas forçou-se a não olhar. “A Identificação é a chave.”
Com seus conhecimentos, essa falha no sistema de controle da nave ixiana acenava como uma sirena.
“Quando me mover, não vão me dar muito tempo.”
Seria um ato de desespero, com a nave e seu conteúdo como reféns. Segundos para ser bem-sucedido. Quem sabia quantos painéis falsos haviam sido construídos, quantas escotilhas secretas haveria de onde aquelas mulheres horrorosas poderiam saltar em cima dele. Não ousava arriscar antes de esgotar todos os outros caminhos. Especialmente agora... com o Profeta restaurado.
“Bruxas ardilosas. Que mais teriam mudado nessa nave?”
Uma idéia inquietante. “Será que meus conhecimentos ainda funcionam?”
A presença de Scytale além da barreira não escapara à atenção de Odrade, mas tinha outros assuntos com que se preocupar. A parturição (gostava da palavra pouco usada) de Murbella ocorrera em momento oportuno. Odrade queria um Idaho distraído com ela para a tentativa de Sheeana de restaurar as memórias do Bashar. Idaho ficava muitas vezes perturbado, pensando em Murbella. E Murbella obviamente não podia estar com ele aqui, não agora.
Odrade mantinha uma vigilância prudente em sua presença.
Ele era, afinal de contas, um Mentat.
Encontrara-o novamente à mesa de comando. Ao sair da calha de descida rápida no corredor de acesso a seus aposentos, ouviu o clique de retransmissão e aquele zumbido característico do campo comunicador e viu logo onde o encontraria.
Ele revelou um estado de espírito esquisito, quando o levou para a sala de observação onde iam controlar Sheeana e o menino.
“Preocupação com Murbella? Ou com o que iriam ver em breve?”A sala de observação era comprida e estreita. Três fileiras de cadeiras ficavam de frente para a parede visora comum à sala secreta onde seria feita a experiência. A área de observação estava em uma penumbra cinzenta só com dois minúsculos globos luminosos nos cantos superiores atrás das cadeiras.
Duas Suks estavam presentes... embora Odrade temesse que fossem ineficazes. Jalanto, a Suk que Idaho considerava a melhor, estava com Murbella.
“Demonstre nossa preocupação. Ela é real.”
Cadeiras-linga tinham sido colocadas ao longo da parede visora. Uma escotilha de emergência, com acesso à outra sala, estava bem à mão.
Streggi trouxe o menino pelo corredor de fora, onde ele não veria os observadores e levou-o para a sala. Tinha sido preparada de acordo com instruções de Murbella: um quarto de dormir, objetos pessoais dele, que tinham sido trazidos de seus aposentos, e algumas coisas das salas usadas por Idaho e Murbella.
Uma caverna de animal, pensou Odrade. Tinha um aspecto pobre e surrado, proveniente da desarrumação propositada, muitas vezes encontrada nos aposentos de Idaho: roupas jogadas numa cadeira-linga, sandálias num canto. A esteira era uma que Idaho e Murbella tinham usado. Ao inspecioná-la antes, Odrade havia notado aquele cheiro parecido com saliva, um odor íntimo e sexual.
Isso, também, teria efeito inconsciente em Teg.
“É aqui que as coisas loucas se originam, coisas que não podemos suprimir. Que ousadia, pensar que podemos controlar isso. Mas devemos.”
Quando Streggi despiu o menino e o deixou nu sobre a esteira, Odrade sentiu o pulso acelerar. Puxou a cadeira para a frente, notando que suas companheiras Bene Gesserit faziam o mesmo.“Deus meu”, pensou, “não passamos de voyeurs!”
Esses pensamentos eram necessários no momento, mas sentiu que a degradavam. Perdeu alguma coisa naquela intrusão.
Forma de pensar extremamente não-Bene Gesserit. Mas muito humana!
Duncan adotara um ar estudado de indiferença, um fingimento facilmente reconhecível. Subjetividade demais em seus pensamentos para que funcionasse bem como Mentat. E era precisamente assim que ela o queria agora. Participação Mística.
Orgasmo como energizador. Bell havia reconhecido isso corretamente.
Odrade disse a uma das três Instrutoras, escolhidas pela sua força e ostensivamente aqui como observadoras: — O ghola quer suas memórias originais restauradas, e teme isso profundamente.
Essa é a maior barreira a ser demolida.
— Besteira! — disse Idaho. — Sabe o que temos a nosso favor agora mesmo? A mãe dele era uma de vocês e lhe deu o treinamento profundo. Qual é a possibilidade dela ter deixado de protegê-lo contra suas Impressoras?
Odrade virou-se rápida para ele. “Mentat?” Não, ele estava de volta ao seu passado imediato, revivendo-o e fazendo comparações. Aquela referência a Impressoras, entretanto... Foi assim que a primeira “colisão sexual” com Murbella restaurou memórias de outras vidas ghola? Numa profunda resistência contra impressões?
A Instrutora a que Odrade se dirigira resolveu ignorar essa interrupção impertinente. Lera o material dos Arquivos quando Bellonda a instruíra. Todas as três sabiam que talvez tivessem que matar a criança-ghola. Teria poderes que seriam perigosos para elas? Os vigilantes nada saberiam até que (ou se) Sheeana fosse bem-sucedida.
Odrade disse a Idaho: — Streggi disse a ele por que está aqui. — O que foi que ela disse? — Muito peremptório com a Madre Superiora. As Instrutoras lançaram-lhe um olhar feroz.
Odrade modulou a voz para que saísse suave. — Streggi disse-lhe que Sheeana restauraria suas memórias.
— E o que ele disse?
— Por que Duncan Idaho não faz isso?
— Ela respondeu honestamente?
— Honestamente, mas sem revelar nada. Streggi disse-lhe que Sheeana tinha uma maneira melhor. E que você aprovava.
— Olhe para ele! Não está nem se mexendo. Não vai dizer que vocês o drogaram.
Idaho olhou fixamente as Instrutoras.
— Não ousaríamos. Mas está focalizado interiormente.
Lembra-se da necessidade disso, não é?
Idaho resvalou na cadeira, encolhendo os ombros. —
Murbella continua dizendo: “Ele é só uma criança. É só uma criança.” Sabe que brigamos por isso.
— Achei seu argumento pertinente. O Bashar não era uma criança. É o Bashar que estamos despertando.
Ele ergueu os dedos cruzados. — Espero que sim. Ela recuou, olhando os dedos cruzados. — Não sabia que era supersticioso, Duncan.
— Rezaria para Dur se pensasse que ajudaria.
“Ele se lembra da sua própria dor no novo despertar.”
— Não mostre compaixão — ele murmurou. — Deixe-o consigo mesmo. Mantenha-o focalizado interiormente. Você quer a raiva dele.
Essas palavras eram de sua própria prática.
Abruptamente, disse: — Isso pode ser a coisa mais estúpida que já sugeri. Devia ir e ficar com Murbella.
— Está em boa companhia, Duncan. E não há nada que possa fazer por Murbella neste momento. Olhe! — Teg saltara da esteira e olhava os televigias do teto.
— Ninguém vai vir para me ajudar? — Teg perguntou. Mais desespero em sua voz do que o previsto para esse estágio. — Onde está Duncan Idaho?
Odrade colocou a mão no braço de Idaho quando ele quis se lançar à frente. — Fique onde está, Duncan. Não pode ajudá-lo.
Ainda não.
— Ninguém vai me dizer o que fazer? — A jovem voz tinha um som solitário, agudo. — O que vocês vão fazer?
Era a deixa de Sheeana e ela entrou na sala por uma portinhola escondida atrás de Teg. — Aqui estou. — Usava apenas um roupão transparente azul-claro, que se ajustou em seu corpo quando deu uns passos para enfrentar o menino.
Olhou-a embasbacado. Isso era uma Reverenda Madre?
Nunca havia visto uma com uma roupa assim. — Você vai me devolver minhas memórias? — Dúvida e desespero.
— Vou ajudar você a devolvê-las a si mesmo. — Enquanto falava, despiu o roupão e jogou-o de lado. Flutuou até o chão como uma grande borboleta azul.
Teg a olhou fixo. — O que está fazendo?
— O que pensa que estou fazendo? — Sentou-se ao lado dele e pôs a mão em seu pênis.
A cabeça dele inclinou-se para a frente como se tivesse sido empurrada por trás e ficou olhando a mão dela enquanto uma ereção se formava.
— Por que está fazendo isso?
— Você não sabe?
— Não!
— O Bashar saberia.
Olhou para o rosto dela, tão perto do seu. — Você sabe! Por que não me diz?
— Não sou sua memória!
— Por que está cantarolando assim?
Ela encostou os lábios no pescoço dele. As vibrações de boca fechada estavam claras para as observadoras. Murbella chamava isso de intensificador Jeedback sincronizado à reação sexual. O som ficou mais alto.
— O que está fazendo? — Quase um guincho quando ela o sentou escarranchado em cima dela. Ela oscilou, massageando as costas dele.
— Responda, que diabo! — Um verdadeiro guincho. “De onde viera aquele que diabo?” Odrade pensou. Sheeana deslizou-o para dentro dela. — Aqui está sua resposta! Os lábios dele formaram um “Ohhhhhhhhh” silencioso.
As observadoras viram sua concentração nos olhos de Teg, mas Sheeana o vigiou com outros sentidos também.
“Sinta a tensão das coxas dele, o pulso revelador do nervo vago e especialmente note o escurecimento dos mamilos. Quando conseguir que ele chegue a esse ponto, mantenha-o aí até que suas pupilas se dilatem.”
— Impressora! — O grito de Teg fez as observadoras pularem. Bateu com os punhos nos ombros de Sheeana. Todas elas
na parede visora observavam um lampejo em seus olhos enquanto se retorcia, algo de novo despontando dele.
Odrade ficou de pé. — Alguma coisa deu errado?
Idaho continuou sentado. — O que eu predisse.
Sheeana empurrou Teg para escapar de seus dedos em garra. Ele esparramou-se no chão e rodopiou com uma velocidade que chocou as observadoras. Sheeana e Teg se confrontaram por várias longas batidas do coração. Lentamente, ele empertigou-se, e só então olhou para a parte inferior do corpo. Pouco depois, fixou a atenção no braço esquerdo esticado à sua frente. Seu olhar foi para o teto, para cada uma das paredes, uma após a outra. E de novo, olhou seu corpo.
— O que, nas profundezas do inferno... — Uma voz aguda, infantil, mas estranhamente amadurecida.
— Bem-vindo, ghola-Bashar — disse Sheeana.
— Você estava tentando me imprimir! — Acusação raivosa.
— Acha que minha mãe não me ensinou como evitar isso? — Uma expressão específica inundou seu rosto. — Ghola?
— Alguns preferem pensar em você como clone.
— Quem... Sheeana! — Virou-se rápido, olhando em volta da sala. Esta tinha sido escolhida por seus acessos escondidos, nenhuma portinhola visível. — Onde estamos?
— Na não-nave que você levou a Duna pouco antes de morrer lá. — Seguindo as regras.
— Morto... — Olhou as mãos de novo. As observadoras podiam quase ver os filtros impostos por ghola desaparecerem de suas memórias. — Fui assassinado... em Duna? — Quase lastimoso.
— Heróico até o fim — disse Sheeana.
— Meus... os homens que tirei de Gammu... foram...
— As Honradas Madres fizeram de Duna um exemplo. É
uma bola sem vida. Carbonizada, em cinzas.
A cólera tocou suas feições. Sentou e cruzou as pernas, colocando um punho cerrado em cada joelho. — Sim... Aprendi isso na história... na minha história. — Olhou Sheeana de novo. Ela
continuava sentada na esteira, absolutamente imóvel. Era um mergulho nas memórias que só quem já tinha se submetido à Agonia podia apreciar. O silêncio total era necessário agora.
Odrade murmurou: — Não interfira, Sheeana. Deixe que aconteça. Deixe que ele faça isso sozinho. — Fez um sinal com a mão para as três Instrutoras, que se dirigiram à portinhola de acesso, olhando para ela e não para a sala secreta.
— Acho estranho me considerar um tópico da história —
disse Teg. Voz de criança, mas aquela sensação de maturidade surgindo novamente. Fechou os olhos e respirou fundo.
Na sala de observação, Odrade reclinou-se na cadeira e perguntou: — O que você viu, Duncan?
— Quando Sheeana o empurrou para longe dela, ele virou-se com uma velocidade que nunca vi, exceto em Murbella.
— Mais rápido ainda que ela.
— Talvez... porque seu corpo seja jovem e nós lhe demos treinamento prana-bindu.
— É mais do que isso. Você nos alertou, Duncan. Um elemento desconhecido nos marcadores de células Atreides. —
Olhou para as Instrutoras vigilantes e sacudiu a cabeça. “Não. Ainda não.” — Aquela mãe dele que se dane! Indução hipnótica para bloquear uma Impressora, e ela escondeu isso de nós.
— Mas veja o que ela nos deu — disse Idaho. — Uma maneira mais eficiente de restaurar memórias.
— Devíamos ter visto isso nós mesmas! — Odrade sentiu raiva de si mesma. — Scytale afirma que os Tleilaxu usavam dor e confrontação. Tenho minhas dúvidas. ,
— Pergunte a ele.
— Não é tão simples. Nossas Reveladoras da Verdade não têm certeza dele.
— Ele é opaco.
— Quando foi que você o estudou?
— Dar! Tenho acesso aos registro dos televigias.
— Sei isso, mas...
— Diabos! Fique de olho em Teg! Olhe para ele! O que está acontecendo? Odrade desviou bruscamente a atenção para a
criança sentada.
Teg olhou para os televigias, com uma expressão de tremenda intensidade.
Fora para ele como acordar de um profundo sono no estresse do conflito, a mão de um ajudante o sacudindo. Alguma coisa necessitava de sua atenção! Recordava sentar-se no centro de comando da não-nave, Dar de pé a seu lado com a mão em seu pescoço. “Cocando?” Algo urgente a fazer. O quê? Seu corpo lhe dava a impressão de algo errado. Gammu... e agora estavam em Duna e... Lembrava coisas diferentes: a infância na Sede da Irmandade? Dar como... como... Mais memórias engrenaram.
“Tentaram me imprimir!”
A percepção fluiu ao redor dessa idéia como um rio se espalhando em volta de uma rocha.
— Dar! Você está aí? Você está!
Odrade recostou-se na cadeira e pôs a mão no queixo. “E
agora, o quê?”
— Mãe! — Que tom de acusação!
Odrade tocou uma chapa de transmissão junto a sua cadeira.
— Alô, Miles. Vamos dar um passeio pelos pomares?
— Nada de brincadeiras, Dar. Sei por que você precisa de mim.Mas vou-lhe avisar: a violência projeta as pessoas erradas no poder. Como se você não soubesse isso!
— Ainda leal à Irmandade, Miles, apesar do que acabamos de tentar?
Ele olhou para Sheeana vigilante. — Ainda seu cão obediente. Odrade lançou um olhar acusador para o sorridente Idaho. — Você e suas histórias!
— Muito bem, Miles — não vou fazer mais brincadeiras, mas tenho de saber sobre Gammu. Dizem que você se moveu mais rápido que um raio.
— Verdade. — Tom de voz monótono, indiferente.
— E há pouco...
— Este corpo é pequeno demais para agüentar a carga.
— Mas você...
— Usei tudo em uma explosão e estou morrendo de fome.
Odrade olhou para Idaho. Ele acenou a cabeça. “A verdade.”
Fez sinal para que as Instrutoras saíssem da portinhola. Elas hesitaram antes de obedecer. O que Bell teria dito a elas?
Teg não tinha terminado. — Estou certo, filha? Já que cada indivíduo deve dar contas a si próprio no final, a formação do self exige o máximo cuidado e atenção.
“O diabo da mãe dele ensinou-lhe tudo!”
— Peço desculpas, Miles. Não sabíamos como sua mãe tinha preparado você.
— Quem teve essa idéia? — Olhou para Sheeana enquanto falava. — A idéia foi minha, Miles — Idaho disse.
Isso o sossegou. — Anotado, Duncan. Não é preciso pedir desculpas. — Olhou para os alto-falantes retransmitindo suas vozes.
— Como está o ar aí em cima, Dar? Rarefeito o bastante para você?
“Que idéia idiota!” — ela pensou. “E ele sabe disso. Não está nada rarefeito.” O ar estava espesso com a respiração de todos a seu redor, incluindo os que desejavam compartilhar de sua presença dramática, os que tinham idéias (às vezes a idéia de que seriam melhores que ela na sua posição), os que tinham mãos que ofereciam e mãos que exigiam. Rarefeito! Sentiu que Teg estava tentando lhe dizer alguma coisa. O quê?
“Às vezes tenho de ser a autocrata!”
Ela ouviu a si própria dizendo isso para ele durante um de seus passeios pelos pomares, explicando “autocrata” e acrescentando: “Eu tenho o poder e tenho de usá-lo. Isso me pesa horrivelmente.”
“Você tem o poder, então use-o!” Era isso que esse Mentat Bashar estava lhe dizendo. “Mate-me ou solte-me, Dar.”
Ainda assim, procurou ganhar tempo e sabia que ele iria sentir isso. — Miles, Burzmali está morto, mas manteve uma tropa aqui que ele mesmo treinou. O melhor de...
— Não me amole com detalhes insignificantes! — Que voz de comando! Aguda e esganiçada, mas com tudo que era essencial.
Sem serem mandadas, as Instrutoras voltaram à portinhola.
Odrade acenou para que se fossem, com um gesto zangado. Só aí é que percebeu que tinha chegado a uma decisão.
— Devolvam suas roupas e tragam-no aqui — disse. —
Chamem Streggi. As primeiras palavras de Teg ao sair alarmaram Odrade e a fizeram duvidar se tinha cometido um erro.
— E se eu não quiser batalhar da maneira que você quer?
— Mas você disse...
— Já disse muitas coisas em minhas... vidas. A batalha não reforça o senso moral, Dar.
Ela (e Taraza) tinham ouvido o Bashar falar sobre isso mais de uma vez. “A guerra deixa um resíduo de coma, beba e se divirta que leva inevitavelmente a um colapso moral.”
Correto, mas ela não sabia o que ele tinha em mente com esse lembrete. “Para cada veterano que retorna com um novo senso de destino (‘eu sobrevivi; deve ter sido a intenção de Deus’) muitos outros voltam para casa com amargura mal disfarçada, prontos a escolher o caminho mais fácil porque viram tanto nos esforços de guerra.”Eram palavras de Teg, mas a crença dela.
Streggi entrou apressada, mas antes que pudesse falar, Odrade fez sinal para que ficasse de lado e esperasse em silêncio.
Excepcionalmente, a acólita teve a coragem de desobedecer à Madre Superiora.
— Duncan devia saber que tem outra filha. A mãe e a criança estão vivas e saudáveis. — Olhou para Teg. — Alô, Miles. —
Só aí Streggi foi para a parede dos fundos e ficou lá parada.
“Ela é melhor do que eu esperava”, pensou Odrade.
Idaho relaxou na cadeira, sentindo agora as tensões da preocupação que tinha interferido com sua apreciação do que havia observado.
Teg acenou a cabeça para Streggi, mas falou com Odrade: —
Mais algumas palavras para sussurrar no ouvido de Deus? — Era essencial controlar a atenção delas e contar com que Odrade o reconhecesse. — Se não, estou realmente faminto.
Odrade ergueu um dedo para fazer sinal a Streggi e ouviu a acólita sair.
Sentiu para onde Teg queria dirigir sua atenção e, para confirmar isso, ele disse: — Talvez você tenha realmente criado uma cicatriz dessa vez.
Uma farpa dirigida à alegação da Irmandade de que “Não deixamos cicatrizes se acumularem em nossos passados. As cicatrizes muitas vezes escondem mais do que revelam.”
— Algumas cicatrizes revelam mais do que escondem —
disse. Olhou para Idaho. — Certo, Duncan? — “Um Mentat falando a outro.”
— Creio que me encontro em meio de uma velha discussão
— disse Idaho.
Teg olhou para Odrade. — Vê, filha? Um Mentat conhece uma velha discussão de longe. Vocês se orgulham de saber o que é exigido de vocês a cada momento, mas o monstro agora foi criado por vocês mesmas!
— Madre Superiora! — Isso veio de uma Instrutora que não queria que ela fosse abordada dessa forma.
Odrade a ignorou. Sentiu a mortificação, aguda e impiedosa.
A Taraza Interior lembrou-se da disputa: “Somos formadas por associações Bene Gesserit. De uma maneira estranha, elas nos embotam. Oh, cortamos rápido e profundo quando precisamos, mais isso é outra forma de embotamento.”
— Não quero participar de seu embotamento — disse Teg.
Então ele se lembrava.
Streggi voltou com uma terrina de ensopado, caldo escuro com carne flutuando. Teg sentou no chão e comeu sofregamente.
Odrade ficou calada, seus pensamentos indo para onde Teg os havia mandado. Havia uma concha dura que as Reverendas Madres colocavam à sua volta na qual tudo que vinha de fora (incluindo emoções) batia como projeções. Murbella tinha razão e a Irmandade tinha de reaprender emoções. Se fossem somente observadoras, estariam condenadas.
Dirigiu-se a Teg. — Não vamos lhe pedir que nos embote.
Tanto Teg quanto Idaho ouviram alguma coisa mais na voz dela. Teg pôs a terrina vazia de lado, mas Idaho foi o primeiro a falar. — Cultivado — disse.
Teg concordou. As Irmãs raramente eram impulsivas. As reações delas eram sempre ordenadas, mesmo em tempos de perigo. Iam além do que a maioria das pessoas pensava que fosse cultivada. Eram impelidas não tanto por sonhos de poder como por sua própria visão longa, uma coisa composta de imediação e memória quase limitada. Então Odrade estava seguindo um plano cuidadosamente arquitetado. Teg lançou um olhar para as vigilantes Instrutoras.
— Vocês estavam preparadas para me matar — disse.
Ninguém respondeu. Não havia necessidade. Todas reconheceram a Projeção Mentat.
Teg virou-se e olhou para a sala onde havia recuperado suas memórias. Sheeana tinha ido embora. Mais memórias murmuravam à beira da percepção. Falariam na hora certa. Esse corpo diminuto.
Isso era difícil. E Streggi... Focalizou Odrade. — Você foi mais esperta do que pensava. Mas minha mãe...
— Não creio que ela antecipasse isso — disse Odrade.
— Não... ela não era Atreides a esse ponto.
Uma palavra eletrizante nessas circunstâncias introduziu um silêncio especial na sala. As Instrutoras chegaram mais perto.
“Aquela mãe dele!”
Teg ignorou as Instrutoras. — Respondendo às perguntas que não fizeram, não posso explicar o que aconteceu a mim em Gammu. Minha velocidade física e mental desafia explicações.
Considerando o tamanho e a energia, em uma batida de seu coração eu poderia estar fora desta sala e quase fora da nave.