As Herdeiras de Duna
Folha de Rosto
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 16 partes.
Sem ser mandada, Tamalane ficou ao lado de Duncan, uma de cada lado. A um gesto leve de Sheeana, sentaram.
Bellonda junto dela, Odrade desceu até o nível de Murbella e foi até a mesa. Seringas orais do lado mais afastado estavam prontas para serem erguidas, mas continuavam vazias. Odrade fez um gesto para as seringas e acenou para Bellonda, que saiu por uma porta lateral à procura da Reverenda Madre Suk encarregada da essência de especiaria.
Afastando a mesa da parede dos fundos, Odrade começou a arrumar correias e ajustar almofadas. Movia-se metodicamente, verificando que tudo tivesse sido colocado na pequena prateleira debaixo da mesa. Proteção para evitar que a Agonizada mordesse a língua. Odrade apalpou-a para ver se era bem forte. Murbella tinha mandíbulas musculares.
Murbella observou Odrade trabalhando, calada, tentando não fazer nenhum ruído.
Bellonda voltou com a essência de especiaria e começou a encher as seringas. A essência venenosa tinha um odor pungente
— canela amarga.
Atraindo a atenção de Odrade, Murbella disse: — Estou grata que você esteja supervisionando isso tudo.
— Ela está grata! — Bellonda zombou, sem levantar os olhos do que estava fazendo.
— Deixe isso comigo, Bell. — Odrade concentrou sua atenção em Murbella.
Bellonda não parou, mas algo reservado dominou seus movimentos. Bellonda se eclipsando? Murbella sempre ficava atônita com a maneira das acólitas se apagarem quando entravam na presença da Madre Superiora. Presentes, mas não presentes.
Murbella nunca tinha conseguido isso, mesmo quando saiu do noviciado e entrou no estado avançado. “Bellonda, também?”
Olhando fixo para Murbella, Odrade disse: — Sei as ressalvas que mantém em seu seio, os limites que impõe em seu compromisso conosco.
Tudo bem. Não discuto sobre isso porque, de modo geral, suas ressalvas não são muito diferentes das que nós todas temos.
“Franqueza.”
— A diferença, se quiser saber, está no sentido de responsabilidade. Eu sou responsável por minha Irmandade... tudo dela que ainda sobrevive. É uma responsabilidade profunda, que às vezes olho com um olhar preconceituoso.
Bellonda fungou.
Odrade pareceu não notar enquanto continuava: — A Irmandade Bene Gesserit tem andado um pouco mal desde o Tirano. Nosso contato com as Honradas Madres não melhorou as coisas. As Honradas Madres têm o odor fétido da morte e da decadência, deslizando morro abaixo no grande silêncio.
— Por que me diz tudo isso agora? — Medo na voz de Murbella.
— Porque, de alguma maneira, o pior da decadência das Honradas Madres não atingiu você. Sua natureza espontânea, talvez. Embora isso tenha sido um pouco amortecido desde Gammu.
— Culpa sua!
— Só tiramos um pouco de sua impetuosidade, demos a você um equilíbrio melhor. Pode viver mais e com mais saúde por causa disso.
— Se sobreviver a isto! — Acenou com a cabeça para a mesa atrás dela.
— Equilíbrio, é o que quero que você se lembre, Murbella.
Homeostase. Qualquer grupo que escolhe o suicídio quando tem outras opções faz isso por loucura. Homeostase desembestada.
Quando Murbella olhou para o chão, Bellonda disse: Esteja atenta ao que ela diz, sua tola. Ela está fazendo o máximo para ajudar você.
— Muito bem, Bell. Deixe isso por nossa conta.
Como Murbella continuasse fitando o chão, Odrade exigiu: —
Agora é a Madre Superiora lhe dando uma ordem. Olhe para mim!
A cabeça de Murbella ergueu-se abruptamente e ela olhou dentro dos olhos de Odrade.
Era uma tática que Odrade usava raramente, mas com resultados excelentes. As acólitas podiam ser reduzidas à histeria
com ela e então ensinadas como lidar com sua reação excessiva a emoções. Murbella parecia estar mais zangada do que medrosa.
Excelente! Mas agora estava na hora de ter cuidado. — Você tem reclamado da marcha vagarosa de sua educação — disse Odrade.
— Isso foi feito considerando em primeiro lugar suas necessidades.
Suas professoras principais foram todas escolhidas pela sua estabilidade, nenhuma delas impulsiva. Minhas instruções foram explícitas: “Não lhe dar habilidades demais, depressa demais. Não abrir as comportas dos poderes que podem ser mais do que ela é capaz de controlar.”
— Como você pode saber o que eu posso controlar? —
Ainda zangada. Odrade simplesmente sorriu.
Como Odrade se manteve calada, Murbella pareceu perturbar-se. Será que tinha feito papel de boba na frente da Madre Superiora, Duncan e todas essas outras pessoas? Que humilhação!
Odrade lembrou a si mesma que não era bom tornar Murbella consciente demais de sua vulnerabilidade. Uma tática errada nesse momento. Não havia necessidade de provocá-la. Tinha um sentido aguçado do que era apropriado, acomodando-se às necessidades do momento. Isso era o que temiam que se originasse da motivação de sempre escolher o caminho mais fácil. “Que não seja assim.”
Honestidade completa agora! O último instrumento da educação Bene Gesserit. A técnica clássica que ligava a acólita à professora.
— Estarei a seu lado durante sua Agonia. Se você falhar, eu lamentarei.
— Duncan? — Lágrimas nos olhos.
— Qualquer auxílio que ele puder dar será permitido.
Murbella olhou as filas de bancos e por um breve instante seu olhar cruzou com o de Idaho. Ele se ergueu um pouco, porém a mão de Tamalane em seu ombro o segurou.
“Elas podem matar a minha amada!” Idaho pensou. “Tenho de ficar sentado aqui e ver isso acontecer?” Mas Odrade tinha dito que ele teria permissão de ajudar. “Não há como parar isso agora.
Tenho de confiar em Dar. Mas, deuses das profundezas! Ela não sabe a extensão da minha dor. Se... se...” Fechou os olhos.
— Bell. — A voz de Odrade dava uma sensação de abandono, o gume de uma faca em sua fragilidade.
Bellonda segurou o braço de Murbella e a ajudou a subir à mesa, que balançou um pouco, ajustando-se ao peso.
“Agora sim, é a corredeira”, pensou Murbella.
Teve uma sensação distante de correias sendo apertadas ao seu redor, de movimentação a seu lado.
— Esta é a rotina usual — disse Odrade.
“Rotina?” Murbella tinha detestado as rotinas de se tornar uma Bene Gesserit, todo aquele estudo, ouvindo e reagindo a Instrutoras. Tinha detestado especialmente a necessidade de refinar reações que acreditava serem adequadas, mas não havia como se livrar daqueles olhares vigilantes.
“Adequadas! Que palavra perigosa.”
Esse reconhecimento era precisamente o que elas buscavam. Precisamente a alavanca de que sua acólita precisava.
“Se você o detestar, faça-o melhor ainda. Use sua aversão como guia; focalize exatamente o que lhe falta.”
O fato de que suas professoras compreendiam tão bem seu comportamento, que coisa maravilhosa! Ela queria essa habilidade.
Oh, como a queria!
“Tenho de vencer nisso.”
Era uma coisa que qualquer Honrada Madre poderia invejar.
Viu-se abruptamente com uma espécie de visão dupla: ao mesmo tempo Bene Gesserit e Honrada Madre. Uma percepção assustadora.
A mão de alguém tocou seu rosto, moveu sua cabeça e desapareceu.
“Responsabilidade. Estou prestes a aprender o que elas querem dizer com um novo sentido da História.”
A visão Bene Gesserit da História a fascinava. Como encaravam os passados múltiplos? Seria uma coisa imersa em um esquema maior? A tentação de se tornar uma delas tinha sido extrema.
“Este é o momento de aprender.”
Viu uma seringa oral se posicionar acima de sua boca. A mão de Bellonda a guiava.
— Levamos nosso gral em nossa cabeça — Odrade dissera.
— Leve este gral com carinho se estiver em seu poder.
A seringa tocou seus lábios. Murbella fechou os olhos, mas sentiu dedos abrirem sua boca. Metal frio tocou seus dentes. A voz relembrada de Odrade estava com ela.
“Evite excessos. Corrija demais e sempre terá uma bagunça em suas mãos, a necessidade de fazer correções cada vez maiores.
Oscilação. Os fanáticos são criadores fantásticos de oscilação.”
“Nosso gral. É linear porque cada Reverenda Madre tem a mesma determinação. Vamos perpetuar isso juntas.”
Um líquido amargo derramou-se em sua boca. Murbella engoliu convulsivamente. Nenhuma dor, exceto a sensação cáustica. Perguntou a si mesma se isso era tudo. Seu estômago estava agora apenas ligeiramente aquecido.
Lentamente, tão lentamente que levou vários batimentos do coração para percebê-lo, o calor fluiu para fora. Quando chegou às pontas dos dedos, sentiu o corpo convulsionar. As costas se arquearam acima da mesa acolchoada. Algo macio, mas firme, tomou o lugar da seringa em sua boca.
Vozes. Ouviu-as, e sabia que as pessoas falavam, mas não podia distinguir as palavras.
Ao se concentrar nas vozes, teve consciência de que havia perdido o contato com seu corpo. Em algum lugar, a carne se contorcia e havia dor, mas ela estava longe.
Mão tocou mão e segurou-a firme. Reconheceu o toque de Duncan e de repente lá estava seu corpo e a agonia. Os pulmões doíam quando exalava. Não quando inalava. Aí pareciam flácidos e nunca cheios o bastante. A sensação de presença em carne viva tornou-se um fio fino que se enrolava em muitas presenças. Sentiu os outros ao seu redor, gente demais para o pequeno anfiteatro.
Outro ser humano flutuou em sua visão. Murbella sentiu que estava num veículo de vaivém... no espaço. O veículo era primitivo.
Controles manuais demais. Luzes piscando demais. Uma mulher nos controles, pequena e desarrumada com o suor de seu trabalho.
Tinha cabelos castanhos longos, presos em um coque do qual fios mais claros escapavam e contornavam o rosto magro. Usava uma roupa só, um vestido curto de brilhantes vermelhos, azuis e verdes.
“Maquinaria.”
Havia a percepção da maquinaria monstruosa logo além desse espaço imediato. O vestido da mulher contrastava severamente com a sensação insípida e pesada de maquinaria.
Falou, mas seus lábios não se moveram. — Ouça, você aí! Quando chegar a hora de você tomar conta desses controles, não vire uma destruidora. Estou aqui para ajudar você a evitar as destruidoras.
Sabe disso?
Murbella tentou falar, porém não tinha voz.
— Não se esforce tanto, moça! — a mulher disse. — Estou escutando você.
Murbella tentou desviar a atenção da mulher.
“Que lugar é este?”
Um operador, um armazém gigantesco... fábrica... tudo automático... teias de linhas de realimentação centralizadas nesse espaço minúsculo com seus controles complexos.
Pensando murmurar, Murbella perguntou: — Quem é você?
— E ouviu sua própria voz rugindo. Agonia em seus ouvidos!
— Não tão alto assim! Sou sua guia mohalata, aquela que mantém você afastada das destruidoras.
“Dur que me proteja!” — Murbella pensou. — ”Isto não é um lugar; isto sou eu!”
Ao pensar isso, a sala de controle desapareceu. Era uma migrante no vácuo, condenada a nunca ter sossego, nunca encontrar um momento de refúgio. Tudo, exceto seus pensamentos efêmeros, tornou-se imaterial. Não tinha substância, somente uma fina aderência que reconhecia como consciência.
“Construí a mim mesma da neblina.”
A Outra Memória veio, partes e pedaços de experiências que sabia que não eram suas. Rostos malévolos a olhavam e exigiam sua atenção, mas a mulher nos controles do veículo de vaivém a puxou para longe. Murbella percebeu necessidades, porém não podia colocá-las em forma coerente.
— Essas são vidas em seu passado. — Era a mulher nos controles, mas sua voz tinha uma qualidade desincorporada e vinha de algum lugar desconhecido.
— Somos descendentes de pessoas que fizeram coisas sórdidas — disse a mulher. — Não gostamos de admitir que houve bárbaros entre nossos antepassados. Uma Reverenda Madre tem de admitir isso. Não temos escolha.
Murbella tinha pegado o jeito de só pensar suas perguntas.
“Por que eu preciso...”
— Os vitoriosos procriaram. Somos suas descendentes. A vitória muitas vezes foi conquistada a um elevado preço moral.
Barbarismo não é nem a palavra adequada para algumas das coisas que nossos antepassados fizeram.
Murbella sentiu a mão familiar no seu rosto. “Duncan!” O
toque renovou a agonia. “Oh, Duncan! Você está me machucando.”
Através da dor, sentiu vazios nas vidas que lhe estavam sendo reveladas. Coisas retidas.
— Só o que você é capaz de aceitar agora — disse a voz desincorporada. — O resto vem depois quando estiver mais forte...
se sobreviver.
“Filtro seletivo.” Palavras de Odrade. “A necessidade abre as portas.”Lamúrias persistentes vinham de outras presenças.
Lamentações: “Viu? Viu o que acontece quando você ignora o bom senso?”A agonia aumentou. Não conseguia escapar. Todos os nervos estavam em chamas. Queria chorar, gritar ameaças, implorar ajuda.
Um turbilhão de emoções acompanhava a agonia, mas ela as ignorou. Tudo acontecia em um delgado fio de existência. O fio poderia arrebentar!
“Estou morrendo.”
O fio estava se esticando. Ia arrebentar! Não adiantava resistir. Os músculos não iam obedecer. Provavelmente não tinha mais nenhum músculo. Nem os queria mais. Eram dor. Era um inferno e nunca mais acabaria... nem mesmo se o fio arrebentasse.
As chamas ardiam ao longo do fio, lambendo sua percepção.
Mãos sacudiram seus ombros. “Duncan... não faça isso.”
Cada movimento era uma dor além de tudo que imaginara. Isso merecia ser chamado de Agonia.
O fio não mais se esticava. Estava se retraindo, se comprimindo. Ficou uma coisa pequenina, uma salsicha de dor tão extrema que nada mais existia. A sensação de “ser” tornou-se vaga, translúcida... transparente.
— Está vendo? — A voz da guia mohalata veio de muito longe. “Vejo coisas.”
Não exatamente ver. Uma percepção distante de outros.
Outras salsichas. A Outra Memória envolvida nas peles de vidas perdidas. Estendiam-se atrás dela em uma cauda cujo comprimento não podia determinar. Neblina translúcida. Rompia-se de vez em quando, e ela podia vislumbrar eventos. Não... não eventos propriamente ditos. Memória.
— Compartilhe a testemunha — disse a guia. — Está vendo o que nossos antepassados fizeram. Eles degradam a pior maldição que você pode inventar. Não invente desculpas sobre as necessidades da época! Lembre-se só disso: não há inocentes!
“Feio! Feio!”
Não podia se agarrar a coisa alguma. Tudo se tornava reflexos e neblina rasgada. Em algum lugar havia uma glória que certamente poderia atingir.
“Ausência dessa Agonia.”
Era isso. Como seria glorioso!
Lábios tocaram sua testa, sua boca. “Duncan!” Estendeu os braços. “Minhas mãos estão livres.” Os dedos se enfiaram em cabelos relembrados. “Isto é real!”
A Agonia recuou. Só então compreendeu que tinha atravessado uma dor tão terrível que não havia palavras para descrevê-la. Agonia? Queimara a psique e a remodelara. Uma pessoa havia afundado e outra emergia.
“Duncan!” Abriu os olhos e lá estava o rosto dele diretamente acima. “Ainda o amo? Ele está aqui. É uma âncora à qual me agarrei nos piores momentos. Mas será que o amo? Ainda estou equilibrada?”
Nenhuma resposta.
Odrade falou de algum lugar fora de vista. — Tirem essas roupas dela. Toalhas. Está encharcada. E tragam um manto apropriado!
Ouviu sons de movimentação, depois mais uma vez Odrade:
— Murbella, você fez isso da maneira mais difícil, estou contente de ver.
Que exaltação em sua voz. Por que estava tão contente?
“Onde está o sentido de responsabilidade? Onde está o gral que devo sentir em minha cabeça? Responda-me, alguém!”
Mas a mulher nos controles do veículo de vaivém tinha sumido.“Só resto eu. E recordo atrocidades que poderiam intimidar uma Honrada Madre.” Vislumbrou o gral então, e não era uma
“coisa”, e sim uma pergunta: como pôr as balanças em equilíbrio?
Nosso deus do lar é isso que transmitimos de geração a geração: nossa mensagem para a humanidade se ela amadurecer.
A coisa mais próxima que temos de uma deusa do lar é uma Reverenda Madre fracassada — Chenoeh ali, em seu nicho.
— Darwi Odrade
Idaho pensava em suas habilidades Mentat como um refúgio agora. Murbella ficava com ele sempre que os deveres de ambos permitiam — ele com o desenvolvimento de suas armas e ela recobrando forças enquanto se adaptava a sua nova posição.
Não mentiu para ele. Não tentou lhe dizer que não sentia algo diferente entre eles. Mas ele sentia o afastamento dela, elástico sendo esticado até o limite.
— Minhas Irmãs foram ensinadas a não divulgar os segredos do coração. Aí está o perigo que percebem no amor. Intimidades perigosas. As sensibilidades mais profundas embotadas. Não dê a alguém um bastão com o qual possa lhe bater.
Pensava que suas palavras fossem tranqüilizantes para ele, mas ele ouvia a discussão interior. “Seja livre! Corte os laços que a peiam.”Ele a via muitas vezes nesses dias nos espasmos de Outra Memória. Palavras lhe escapavam no meio da noite.
— Dependências... alma de grupo... cruzamento de percepção viva... Oradoras Peixes...
Ela não hesitava em compartilhar parte disso. — O
cruzamento? Qualquer um pode sentir pontos de nexo nas interrupções naturais da vida. Morte, diversões, pausas acidentais entre eventos poderosos, nascimentos...
— O nascimento como interrupção?
Estavam na cama dele, até o crono escurecido... mas isso não os escondia dos televigias, é claro. Outras energias alimentavam a curiosidade da Irmandade.
— Nunca pensou no nascimento como uma interrupção?
Uma Reverenda Madre acha isso divertido.
“Divertido! Afastando-se... afastando-se...”
Oradoras Peixes, essa era a revelação que as Bene Gesserit absorveram com fascinação. Tinham tido suspeitas, mas Murbella lhes deu a confirmação. A democracia das Oradoras Peixes havia se tornado a autocracia das Honradas Madres. Nada de dúvidas.
— A tirania da minoria disfarçada na máscara da maioria —
dizia Odrade, exultante. — Queda da democracia. Ou derrubada por seus próprios excessos, ou corroída pela burocracia.
Idaho podia ouvir o Tirano nesse pronunciamento. Se é que a história tinha padrões repetitivos, aqui estava um. Um rufo de tambor de repetição. Primeiro, uma lei de Serviço Público mascarada na mentira de que era a única maneira de corrigir os excessos demagógicos e o empreguismo. Depois, o acúmulo de poder em lugares que os eleitores não podiam tocar. E finalmente, a aristocracia.
— As Bene Gesserit podem ser as únicas a criarem o júri todo-poderoso — disse Murbella. — Os júris não são populares com os legalistas. Júris opõem-se à lei. Podem ignorar os juizes.
Riu na escuridão. — Evidência! O que é evidência exceto o que lhe é permitido perceber? É isso que a Lei tenta controlar: realidade cuidadosamente manipulada.
Palavras para distraí-lo, palavras para demonstrar seus novos poderes Bene Gesserit. As palavras dela não fizeram o menor efeito.
“Ela fala assim de memória.”
Viu que isso incomodava Odrade quase tanto quanto o consternava. Murbella não notava nenhuma dessas reações.
Odrade tentara tranqüilizá-lo. — Todas as novas Reverendas Madres passam por um período de adaptação. Maníaco às vezes. Pense no solo novo sob seus pés, Duncan!
“Como posso deixar de pensar nisso?”
— Primeira lei da burocracia — Murbella falou para a escuridão. “Você não distrai minha atenção, amor.”
— Cresça até os limites da energia disponível. — Sua voz estava realmente maníaca. — Use a mentira de que os impostos resolvem todos os problemas. — Virou-se para ele na cama, mas não por amor. — As Honradas Madres fizeram esse jogo todo! Até um sistema de previdência social para acalmar as massas, mas tudo ia para seu próprio banco de energia.
— Murbella!
— O quê? — Surpresa com o tom duro da voz dele. “Ele não sabia que estava falando com uma Reverenda Madre?”
— Eu sei tudo isso, Murbella. Qualquer Mentat sabe.
— Está querendo que eu cale a boca? — Zangada.
— Nossa tarefa é pensar como nosso inimigo — ele disse.
— Temos um inimigo em comum, não é?
— Está zombando de mim, Duncan.
— Seus olhos são alaranjados?
— A melange não permite isso e você sabe... Oh.
— As Bene Gesserit precisam da sua sabedoria, mas você tem de cultivá-la). — Ele acendeu um globo luminoso e viu sua cólera. Não inesperada e não realmente Bene Gesserit.
“Híbrida.”
A palavra saltou em sua mente. Era vigor híbrido? A Irmandade esperaria isso de Murbella? As Bene Gesserit surpreendiam você às vezes. Encontrava-as frente a frente em estranhos corredores, olhos fixos, rostos mascarados daquele jeito delas e, por trás das máscaras, reações desusadas fermentando.
Era aí que Teg aprendera a fazer o inesperado. Mas isso? Idaho pensou que poderia vir a ter aversão a essa nova Murbella.
Ela viu isso nele, naturalmente. Continuava aberto para ela como para mais ninguém.
— Não me odeie, Duncan. — Não suplicando, mas algo muito magoado atrás das palavras.
— Nunca odiarei você. — Mas apagou a luz.
Aconchegou-se a ele quase da mesma maneira que antes da Agonia. “Quase.” A diferença o dilacerou.
— As Honradas Madres vêem as Bene Gesserit como competidoras no poder — disse Murbella. — Não é só porque os homens que seguem minhas ex-Irmãs são fanáticos, é que se tornam incapazes de uma autodeterminação por causa de seu vício.
— É assim que nós somos?
— Ora, Duncan.
— Quer dizer que posso comprar essa mercadoria em qualquer loja?
Ela optou por presumir que ele estivesse falando dos temores das Honradas Madres. — Muitas os abandonariam se pudessem. —
Virando-se para ele impetuosamente, exigiu uma reação sexual.
Seu abandono o chocou. Como se fosse talvez a última vez que ela poderia sentir tal êxtase.
Depois, ele sentiu-se exausto.
— Espero que esteja grávida outra vez — ela murmurou. —
Ainda precisamos de nossos bebês.
“Precisamos. A necessidade das Bene Gesserit. Não mais elas precisam/’
Dormiu e sonhou que estava no arsenal da nave. Era um sonho com toques de realidade. A nave continuava a ser uma fábrica de armas como realmente havia se tornado. Odrade estava falando com ele no arsenal do sonho. — Tomo decisões por necessidade, Duncan. É muito pouco provável que você fuja e seja possuído de fúria assassina.
— Sou Mentat demais para isso! — Como soava cheia de auto-importância a sua voz de sonho! “Estou sonhando e sei que estou sonhando. Por que estou no arsenal com Odrade?
Uma lista de armas desenrolou-se diante de seus olhos.
Atômicas. (Viu grandes aparelhos explosivos e poeira atômica.)
Artilharia-laser. (Não havia como contar os diversos modelos.)
Bacteriológicas.
A lista foi interrompida pela voz de Odrade. — Podemos presumir que os contrabandistas se concentram como sempre em coisas pequenas que vendem a um bom preço.
— Pedrassuaves, é claro. — Ainda cheio de importância.
“Não sou assim!”
— Armas assassinas — ela disse. — Planos e especificações para novos dispositivos.
— O roubo de segredos profissionais é um item importante para contrabandistas. “Estou insuportável!”
— Há sempre remédios e as doenças que necessitam deles
— ela disse. “Onde ela está? Posso ouvi-la, mas não a vejo.” — As Honradas Madres sabem que nosso universo abriga vilãos que não hesitariam em semear o problema antes de fornecer a solução? —
”Vilãos? Nunca uso essa palavra.”
— Tudo é relativo, Duncan. Queimaram Lâmpadas e mataram brutalmente quatro milhões de nossos melhores membros.
Acordou e sentou na cama. “Especificações para novos dispositivos!” Ali estava, em detalhes delicados, o modo de miniaturar geradores Holzmann. Dois centímetros, nada mais. E
muito mais barato! “Como fora isso contrabandeado em minha mente?”Levantou-se com cuidado, sem acordar Murbella, e procurou um manto. Ouviu-a fungar ao se dirigir à sala de trabalho.
Sentado à mesa de comando, copiou o desenho da sua mente e estudou-o. Perfeito! Englobamento com certeza. Transmitiu para os Arquivos com um sinal para a atenção de Odrade e Bellonda.
Com um suspiro, recostou-se e examinou o desenho mais uma vez. Ele sumiu, voltando à lista do sonho. “Estou sonhando ainda? Não!” Estava sentindo a cadeira, podia tocar a mesa, ouvir o zumbido do campo indutor. “Os sonhos fazem isso.”
A lista produziu armas cortantes e perfuradoras, incluindo algumas destinadas a introduzir venenos ou bactérias em carne inimiga.Projéteis.
Perguntou a si mesmo como poderia parar a lista e estudar os detalhes.
“Está tudo em sua mente!”
Humanos e outros animais procriados para ataque rolaram à frente de seus olhos, escondendo a mesa de comando e sua projeção. “Futares? Como é que os Futares entraram lá? O que sei sobre os Futares?”
Disruptores substituíram os animais. Armas para embotar a atividade mental ou interferir com a própria vida. “Disruptores?
Nunca ouvira esse nome antes.”
Os disruptores deram lugar a “buscadores” gravidade-zero destinados a procurar alvos específicos. “Esses eu conheço.”
Depois, explosivos, incluindo os que espalham venenos e armas bacteriológicas.
Simuladores, para projetar alvos falsos. Teg os usara.
Energizantes vieram depois. Tinha um arsenal particular deles: maneiras, de aumentar a capacidade de suas tropas.
Abruptamente, a rede trêmula de sua visão substituiu a lista de armas que se desenrolava, e ele viu o casal idoso no jardim.
Olharam-no ferozmente. A voz do homem tornou-se audível. —
Pare de nos espionar!
Idaho agarrou os braços da cadeira e inclinou-se à frente, mas a visão desapareceu antes que pudesse estudar os detalhes.
“Espionando?”
Sentiu um resíduo da lista na mente, não mais visível, mas uma voz contemplativa... masculina.
— As defesas muitas vezes têm de assumir as características das armas de ataque. Algumas vezes, porém, sistemas simples podem desviar as armas mais devastadoras.
“Sistemas simples!” Riu alto. — Miles! Diabos, onde está você, Teg? Estou com suas naves de ataque disfarçadas! Iscas infladas! Vazias exceto por uma miniatura de um gerador Holzmann e uma arma-laser. — Acrescentou isso a suas transmissões para os Arquivos.
Quando terminou, perguntou mais uma vez a si mesmo sobre as visões. “Influenciando meus sonhos? Que ligação foi essa que eu fiz?” Todos os minutos livres que tinha desde que se tornara o Mestre de Armas de Teg, ligava para os registros dos Arquivos.
Tinha que haver algum indício naquela acumulação maciça!
Ressonâncias e a teoria taquiana prenderam sua atenção por algum tempo. A teoria taquiana figurava no desenho original de Holzmann. “Tecs” é como Holzmann tinha chamado sua fonte de energia.Um “sistema de ondas” que ignorava os limites da velocidade da luz. A velocidade da luz obviamente não limitava naves da dobra do espaço. Tecs?
— Funciona porque funciona — Idaho resmungou. — Fé.
Como qualquer outra religião.
Os Mentats enfurnavam grande quantidade de dados aparentemente insignificantes. Tinha um depósito marcado “Tecs” e começou a repassá-lo, sem resultado satisfatório.
Nem mesmo os Navegadores da Corporação professavam saber como guiavam naves da dobra do espaço. Os cientistas Ixianos faziam máquinas para duplicar as habilidades do Navegador, porém não podiam definir o que faziam.
— As fórmulas de Holzmann são confiáveis.
Ninguém declarava entender Holzmann. Apenas usavam suas fórmulas porque funcionavam. Era o “éter” das viagens espaciais. Você dobrava o espaço. Um instante estava aqui e no próximo instante estava a inúmeros parsecs de distância.
“Alguém lá fora descobriu outra maneira de usar as teorias de Holzmann!” Foi uma completa Projeção Mentat. Sabia sua precisão pelas novas perguntas que produziu.
As divagações da Outra Memória de Murbella o assediavam, embora reconhecesse nelas ensinamentos básicos Bene Gesserit.
“O poder atrai os corruptíveis. O poder absoluto atrai os absolutamente corruptíveis. Esse é o perigo da burocracia entrincheirada para a população sujeita. Mesmo o empreguismo é preferível porque os níveis de tolerância são mais baixos, e os corruptos podem ser jogados fora periodicamente. A burocracia entrincheirada raramente pode ser tocada, exceto pela violência.
Cuidado quando o Serviço Público e os Militares dão-se as mãos!”
A conquista das Honradas Madres.
Poder por amor ao poder... uma aristocracia produzida por uma linhagem desequilibrada.
Quem eram aquelas pessoas que vira? Fortes o bastante para eliminar Honradas Madres. Sabia que era um dado de Projeção.
Idaho achou essa percepção profundamente perturbadora.
Honradas Madres fugitivas! Bárbaras, porém ignorantes, como todos os invasores mesmo antes dos Vândalos. Movidas por ganância impulsiva, assim como por qualquer outra força. “Tomem o ouro romano!” Filtravam todas as distrações da consciência. Era uma ignorância estupeficadora que só vacilava quando uma civilização mais sofisticada se insinuava em...
Abruptamente, viu o que Odrade estava fazendo.
“Deuses das profundezas! Que plano frágil!”
Pressionou as palmas das mãos contra os olhos e forçou-se a não gritar de angústia. “Deixe-as pensarem que estou cansado.”
Mas por ter visto o plano de Odrade, viu também que ia perder Murbella... de uma maneira ou de outra.
Quanto se pode confiar nas bruxas? Nunca! O lado escuro do universo mágico pertence às Bene Gesserit e devemos rejeitá-las.
— Tylwyth Wajf, Mestre dos Mestres
A grande Sala Social da não-nave, com suas arquibancadas e a plataforma elevada em uma extremidade, estava cheia de Irmãs Bene Gesserit, um número que nunca antes havia comparecido a uma assembléia. A Sede da Irmandade quase parará essa tarde porque poucas queriam mandar substitutos por procuração, e decisões importantes não podiam ser delegadas ao quadro de subalternas. Reverendas Madres de mantos negros dominavam a reunião em seus agrupamentos isolados próximo ao palco, mas a sala era um remoinho de acólitas em seus mantos debruados de branco e havia até as que haviam se registrado recentemente.
Bandos de mantos brancos assinalando as acólitas mais jovens estavam espalhados em pequenos grupos unidos para apoio mútuo.
Todas as outras haviam sido excluídas pelas Instrutoras de Convocação.
O ar estava pesado com hálitos perfumados de melange e tinha aquela característica úmida e reusada que o ar adquire quando a maquinaria de refrigeração está sobrecarregada. Odores do almoço recente, forte em alho, flutuavam na atmosfera como um intruso não-convidado. Isso e as estórias que se espalhavam pela sala aumentavam a tensão.
A maioria prestava atenção à plataforma elevada e à porta lateral por onde a Madre Superiora deveria entrar. Mesmo enquanto conversavam com as companheiras ou passeavam pela sala, ficavam olhando o lugar onde sabiam que alguém iria entrar em breve e criar modificações profundas em suas vidas. A Madre Superiora não as chamaria todas à grande Sala Social prometendo notícias importantes se não houvesse algo que podia abalar os alicerces das Bene Gesserit.
Bellonda precedeu Odrade na sala, subindo à plataforma com aquele bamboleio beligerante que a identificava mesmo à distância.
Odrade veio cinco passos atrás de Bellonda. Depois vinham conselheiras sênior e assistentes. Entre elas, Murbella de manto negro (ainda aturdida pela Agonia de apenas duas semanas atrás).
Dortujla mancava logo atrás de Murbella com Tam e Sheeana ao lado. No final dessa procissão vinha Streggi carregando Teg nos ombros. Houve murmúrios excitados quando ele apareceu. Machos raramente participavam de assembléias, mas todo mundo na Sede da Irmandade sabia que esse era o ghola de seu Mentat Bashar, vivendo agora no quartel com o que restava dos militares Bene Gesserit.
Vendo as filas maciças da Irmandade, Odrade teve uma sensação de vazio. Algum patriarca tinha dito tudo, ela pensou.
“Qualquer idiota sabe que um cavalo pode correr mais rápido que outro.” Muitas vezes, em reuniões menores aqui nessa imitação de um estádio, fora tentada a citar esse conselho; mas sabia que o ritual tinha também melhores objetivos.
“Aqui estamos reunidas. Nossa espécie.”
A Madre Superiora e suas acompanhantes moveram-se como um feixe estranho de energia através da multidão até a plataforma, sua posição de eminência na borda da arena.
A Madre Superiora nunca era sujeita às escaramuças das massas de assembléias. Nunca recebia cotoveladas nas costelas ou pisadelas de vizinhos. Nunca era forçada a se mover como as outras em uma espécie de movimento de lesma composto de corpos comprimidos em uma proximidade indesejada.
“Assim chegou César. Polegares para baixo para todo o espetáculo!” Falou para Bellonda: — Vamos começar.
Mais tarde, iria se perguntar por que não havia designado alguém para se apresentar nesse ritual e pronunciar palavras portentosas. Bellonda amaria a posição proeminente e, por isso, nunca deveria tê-la. Mas talvez houvesse alguma Irmã de nível mais baixo que ficaria encabulada pela elevação e obedeceria somente por lealdade, por aquela necessidade básica de fazer o que a Madre Superiora ordenasse.
“Deuses! Se há algum de vocês por aqui, por que permite que sejamos esses carneirinhos?”
Ali estavam, Bellonda preparando-as para ela. “Os batalhões das Bene Gesserit.” Não eram realmente batalhões, mas Odrade muitas vezes imaginava as Irmãs enfileiradas, catalogando-as por função. “Aquela ali é chefe de esquerda. Aquela outra é capitão-general. Essa aqui é um simples sargento e aqui está uma mensageira.”
As Irmãs ficariam insultadas se soubessem dessa sua esquisitice. Ela a mantinha bem escondida atrás de uma atitude de
“distribuição comum de tarefas”. Você podia designar tenentes sem chamá-los de tenentes. Taraza fizera o mesmo.
Bell estava lhes dizendo agora que a Irmandade talvez tivesse que fazer uma nova adaptação a seu prisioneiro Tleilaxu.
Palavras amargas para Bell: — Passamos pelo cadinho, Tleilaxu e Bene Gesserit, e saímos mudados. De certa maneira, mudamos uns aos outros.
“Sim, somos como rochas friccionadas umas contra as outras por tanto tempo que cada uma adota parte da forma conformista exigida pela outra. Mas a rocha original ainda está lá no âmago!”
A audiência estava começando a ficar inquieta. Sabiam que isso era preliminar, apesar da mensagem oculta nessas insinuações sobre Tleilaxu. Preliminar e de importância relativa. Odrade aproximou-se de Bellonda, fazendo sinal para que fosse breve.
— Aqui está a Madre Superiora.
“Como é difícil extinguir velhos padrões. Será que Bell acha que não me reconhecem?”
Odrade falou em tons imperiosos, quase na Voz.
— Foram praticados atos que requerem que me encontre no Entroncamento com a liderança das Honradas Madres, um encontro do qual posso não sair viva. Provavelmente não sobreviverei. Esse encontro será parcialmente para distrair a atenção. Estamos prestes a puni-las.
Odrade esperou que os comentários cessassem, ouvindo tanto anuência quanto dissidência nos murmúrios. Interessante.
Aquelas que concordavam estavam mais perto do palco e mais longe, entre as novas acólitas. Dissidência de acólitas mais avançadas? Sim. Conheciam o aviso: “Não ousamos alimentar aquele fogo.”
Modulou a voz, deixando que os transmissores remotos a levassem àquelas nas arquibancadas mais altas. — Antes de ir, Compartilharei com mais de uma Irmã. Os dias de hoje requerem essa precaução.
— Seu plano? — O que vai fazer? — Perguntas surgiam de toda parte em voz alta.
— Simularemos um ataque a Gammu. Isso deve levar as Honradas Madres ao Entroncamento. Aí tomaremos o Entroncamento e, espero, capturaremos a Rainha Aranha.
— O ataque será enquanto estiver lá? — Essa pergunta veio de Garimi, uma Instrutora de aspecto sério, diretamente abaixo de Odrade. — É esse o plano. Estarei transmitindo minhas observações aos atacantes. — Odrade gesticulou para Teg nos ombros de Streggi. — O Bashar comandará pessoalmente o ataque.
— Quem irá com você? — Sim. Quem você vai levar? —
Não havia como não perceber a ansiedade nessas vozes. Então, a notícia não havia se espalhado ainda pela Sede da Irmandade...
— Tam e Dortujla — disse Odrade.
— Quem vai Compartilhar com você? — Garimi novamente.
“Claro!Essa é a questão política mais importante. Quem sucederá à Madre Superiora?” Odrade ouviu movimentos nervosos atrás dela.
“Bellonda excitada? Você não, Bell. Já sabe disso.”
— Murbella e Sheeana — disse Odrade. — E mais uma se as Instrutoras quiserem nomear uma candidata.
As Instrutoras formaram pequenos grupos de consulta, gritando sugestões de um grupo para outro, mas não submeteram nenhum nome. Alguém tinha uma pergunta, porém: — Por que Murbella?
— Quem conhece melhor as Honradas Madres? — Odrade perguntou. Isso as fez calar.
Garimi aproximou-se do palco e olhou para Odrade com um olhar penetrante. “Não tente enganar uma Reverenda Madre, Darwi Odrade!” — Depois de nosso ataque simulado a Gammu, estarão ainda mais alertas e reforçadas no Entroncamento. O que a faz pensar que poderemos conquistá-las?
Odrade se afastou e fez sinal para Streggi se aproximar com Teg. Teg tinha observado o desempenho de Odrade com fascinação. Agora olhou para Garimi. Era atualmente Instrutora Chefe de Indicações, e sem dúvida havia sido escolhida para falar por um grupo de Irmãs. Ocorreu a Teg que essa posição ridícula nos ombros de uma acólita havia sido planejada por Odrade por outras razões que não as que havia mencionado.
“Para colocar meus olhos mais próximos do nível dos adultos ao meu redor... mas também para lembrar-lhes do meu tamanho menor, para tranqüilizá-los de que uma Bene Gesserit (se bem que simplesmente uma acólita) ainda controla meus movimentos.”
— Não vou entrar em todos os detalhes das armas no momento — ele disse. “Diabos de voz fininha!” Mas conseguira sua atenção. — Mas vamos nos empenhar em mobilidade, chamarizes que destruirão grande parte da área ao seu redor se o raio de uma arma laser os atingir... e vamos englobar o Entroncamento com dispositivos que revelem os movimentos de suas não-naves.
Quando continuaram a olhá-lo fixamente, disse: — Se a Madre Superiora confirmar meu conhecimento anterior do Entroncamento, conheceremos intimamente a posição de nossos inimigos. Não deve ter havido modificações significativas. Não se passou bastante tempo.
“Surpresa e o inesperado. O que mais poderiam esperar de seu Mentat Bashar?” Olhou fixo para Garimi, desafiando-a a proclamar mais dúvidas quanto à sua capacidade militar.
Ela fez outra pergunta. — Devemos assumir que Duncan Idaho o aconselha quanto a armas?
— Quando você tem o melhor, seria idiotice não usá-lo — ele disse. — Mas ele vai acompanhá-lo como Mestre de Armas?
— Ele prefere não deixar a nave e vocês todas sabem por quê. Qual é o significado dessa pergunta?
Havia-a dobrado e silenciado e ela não gostara. Um homem não deveria poder manobrar uma Reverenda Madre assim!
Odrade avançou e pôs a mão no braço de Teg. —
Esqueceram que este ghola é nosso leal, amigo Miles Teg? —
Encarou rostos específicos na multidão, escolhendo aqueles que tinha certeza que observavam os televigias e sabiam que Teg era seu pai, movendo o olhar de rosto a rosto com lentidão deliberada que não podia ser mal interpretada.
“Alguma de vocês tem a ousadia de gritar nepotismo! Então olhem mais uma vez sua folha a nosso serviço!”
Os sons de Convocação tornaram-se novamente consoantes com outras graciosidades que esperavam das assembléias.
Terminou a dissonância vulgar de vozes existentes disputando a atenção. Agora adaptaram a fala aos moldes do canto gregoriano, embora não chegasse a ser um canto. As vozes moviam-se e fluíam juntas. Odrade sempre achava isso extraordinário. Ninguém dirigia a harmonia. Acontecia porque eram Bene Gesserit. Naturalmente.
Essa era a única explicação de que necessitavam. Acontecia porque tinham prática de se ajustarem umas às outras. A dança de seus movimentos do dia-a-dia continuava em suas vozes. Sócias, apesar de discórdias transitórias.
“Vou sentir falta disso.”
— Nunca é suficiente fazer predições precisas de acontecimentos aflitivos — disse. — Quem sabe isso melhor que nós? Há alguém entre nós que não tenha aprendido a lição do Kwisatz Haderach?
Não havia necessidade de entrar em pormenores. Predições funestas não alterariam seu curso. Isso manteve Bellonda calada.
As Bene Gesserit eram esclarecidas. Não pessoas obtusas que atacavam o portador de más notícias. Desprezar o mensageiro? (Quem poderia esperar algo de útil de alguém assim?) Isso deveria ser evitado a todo custo. “Silenciaremos mensageiros desagradáveis, achando que o silêncio profundo da morte apaga a mensagem?” As Bene Gesserit eram sábias demais para isso! “A morte torna a voz do profeta mais alta ainda. Os mártires são realmente perigosos.”
Odrade observou a consciência reflexiva espalhar-se pela sala, até as arquibancadas mais altas.
“Estamos ingressando em tempos difíceis, Irmãs, e temos de aceitar isso. Até Murbella sabe. E sabe agora por que eu estava, tão ansiosa para fazer dela uma irmã. Todas sabemos, de uma maneira ou de outra.”
Odrade virou-se e olhou para Bellonda. Nenhum desapontamento. Bell sabia por que não estava entre as escolhidas.
“É nosso melhor caminho, Bell. Infiltrar. Pegá-las antes que sequer suspeitem o que estamos fazendo.”
Olhando para Murbella, Odrade viu percepção respeitosa.
Murbella estava começando a receber as primeiras remessas de bons conselhos da Outra Memória. O período maníaco havia passado e estava até voltando a sentir uma certa “ternura” por Duncan. Com o tempo, talvez... O treinamento Bene Gesserit garantia que iria julgar a Outra Memória por si mesma. Nada na postura de Murbella dizia: — Guardem a porcaria de seus conselhos! — Tinha comparações históricas e não podia fugir à sua mensagem evidente.
“Não marche nas ruas com outras que compartilham seus preconceitos. Altos gritos geralmente são os mais fáceis de ignorar.
— Olhe, olhe só para elas, gritando feito loucas! Você vai querer se juntar à sua causa?”
“Eu lhe disse, Murbella: agora julgue você mesma. Para criar mudanças procure posições vantajosas e use-as. Cuidado com becos sem saída. Ofertas de altas posições são uma distração
comum alardeada àqueles que marcham. As posições vantajosas não estão todas em altos postos. Estão muitas vezes em centros econômicos e de comunicações e, se não souber isso, um alto posto é inútil. Até tenentes podem alterar nosso rumo. Não alterando relatórios, mas enfurnando ordens indesejáveis. Bell retém ordens até quando acha que não têm mais efeito. Às vezes dou-lhe ordens exatamente para isso: para que faça seu joguinho de demora. Sabe disso, porém continua fazendo esse jugo. Saiba isso, Murbella! E depois de Compartilharmos, estude meu desempenho com muito cuidado.
A harmonia fora conseguida, mas a um preço. Odrade fez sinal de que a Convocação havia terminado, sabendo muito bem que nem todas as perguntas tinham sido respondidas ou mesmo feitas. Mas as perguntas não-feitas seriam filtradas através de Bell, onde teriam o tratamento mais apropriado.
As mais alertas das Irmãs não fariam perguntas. Já tinham visto seu plano.
Ao sair da Grande Sala Social, Odrade sentiu que aceitava um compromisso total com as escolhas que tinha feito, reconhecendo uma hesitação prévia pela primeira vez. Havia razões de lástima, mas só Murbella e Sheeana talvez as vissem.
Andando atrás de Bellonda, Odrade pensou “nos lugares onde nunca irei, as coisas que nunca verei, exceto como reflexos na vida de outra”.
Era uma forma de nostalgia centralizada nas Dispersões e isso amenizou sua dor. Havia coisas demais para uma só pessoa ver lá fora. Mesmo a Bene Gesserit com suas memórias acumuladas não poderia jamais esperar captá-las todas, não com cada mínimo detalhe interessante. Tinham de voltar aos grandes desenhos. O Quadro Vasto, o Fluxo Principal. “As especialidades da minha Irmandade.” Aqui estavam os essenciais que os Mentats usavam: padrões, movimentos de correntes e o que essas correntes transportavam, aonde iam. Conseqüências. Não mapas, mas os fluxos.“Pelo menos preservei elementos-chave de nossa democracia monitorada por júri em sua forma original. Talvez me
agradeçam por isso algum dia.”
Procure a liberdade e ficará prisioneiro de seus desejos.
Procure a disciplina e encontrará sua liberdade.
— O Coda
— Quem esperava que a maquinaria do ar quebrasse?
O Rabino fez a pergunta sem se dirigir a ninguém especialmente. Estava sentado em um banquinho baixo, agarrando um rolo de pergaminho ao peito. O rolo havia sido reforçado por artifícios modernos, mas era velho e frágil. Não sabia que horas eram. Provavelmente o meio da manhã. Eles haviam ingerido há pouco tempo uma comida que poderia ser chamada de café da manhã. — Eu esperava.
Parecia que ele estava se dirigindo ao rolo de pergaminho. —
A Páscoa veio e se foi e nossa porta estava fechada.
Rebecca veio e ficou em pé perto dele. — Por favor, Rabino.
Como isso vai ajudar Joshua em seu trabalho?
— Não fomos abandonados — o Rabino disse para o rolo de pergaminho. — Nós é que nos escondemos. Quando não podemos ser encontrados por estranhos, como poderia alguém nos procurar e ajudar?Olhou abruptamente para Rebecca, parecendo uma coruja atrás dos óculos. — Você nos trouxe o mal, Rebecca?
Ela entendeu o que queria dizer. — Os estranhos sempre acham que há algo abominável nas Bene Gesserit — ela disse.
— Então agora eu, seu Rabino, sou um estranho!
— Isso é alienar-se, Rabino. Falo do ponto de vista da Irmandade que me fez ajudar. O que elas fazem é muitas vezes maçante. Repetitivo, mas não nefando.
— Eu a fiz ajudar? Sim, fiz isso. Perdoe-me, Rebecca. É
minha culpa o mal se juntar a nós.
— Rabino! Pare com isso. Elas são um clã ampliado. E
apesar disso, mantêm um individualismo sensível. Um clã ampliado não significa nada para você? Será que minha dignidade o ofende?
— Vou-lhe dizer, Rebecca, o que me ofende. Por minha mão você aprendeu a seguir livros diferentes de... — Ergueu o rolo de pergaminho como se fosse um cacete.
— Livro nenhum, Rabino. Oh, elas têm um Coda mas é só uma coleção de lembretes, às vezes úteis, às vezes para serem descartados. Adaptam sempre o Coda às necessidades atuais.
— Há livros que não podem ser “adaptados”, Rebecca!
Olhou-o fixamente sem esconder sua consternação. Era assim que ele via a Irmandade? Ou seria o medo falando?
Joshua veio ficar junto dela, as mãos cheias de graxa, manchas pretas na testa e nas faces. — Sua sugestão estava certa.
Está funcionando de novo. Por quanto tempo, não sei. O problema é que... — Você não sabe qual é o problema — o Rabino interrompeu.
— O problema mecânico, Rabino — disse Rebecca. — Esse campo de não-câmara distorce a maquinaria.
— Não poderíamos ter trazido maquinaria sem atrito — disse Joshua. — Revelaria demais, sem mencionar o custo.
— Não é só sua maquinaria que foi distorcida.
Joshua olhou para Rebecca, levantando as sobrancelhas. “O
que há de errado com ele?” Então Joshua também confiava em percepções Bene Gesserit. Isso ofendia o Rabino. Seu rebanho buscava orientação em outros lugares.
O Rabino a surpreendeu então. — Acha que estou com ciúmes, Rebecca?
Ela abanou a cabeça negativamente.
— Você demonstra talentos — disse o Rabino — que outros imediatamente usam. Sua sugestão consertou a maquinaria?
Esses... esses Outros lhe disseram o que fazer?
Rebecca encolheu os ombros. Esse era o antigo Rabino, que não deveria ser desafiado em sua própria casa.
— Eu deveria elogiar você? — perguntou o Rabino. — Você tem poder? Agora vai nos governar?
— Ninguém, muito menos eu, jamais sugeriu isso, Rabino.
— Estava ofendida e não se incomodava de demonstrá-lo.
— Perdoe-me, filha. Isso é o que vocês chamam de irreverência.
— Não preciso de seus elogios, Rabino. E é claro que perdôo. — Seus Outros têm algo a dizer sobre isso?
— As Bene Gesserit dizem que o medo de elogios vem de uma antiga proibição de elogiar seu filho porque isso atraía a ira dos deuses.Ele abaixou a cabeça. — Às vezes, um pouco de sabedoria. Joshua parecia encabulado. — Vou tentar dormir. Tenho de descansar. — Dirigiu um olhar significativo à área da maquinaria, de onde vinha um rumor fanhoso.
Foi em direção ao lado escuro da sala, tropeçando em um brinquedo de criança.
O Rabino botou a mão no banco a seu lado. — Sente-se, Rebecca.
Ela sentou.
— Estou receoso por você, por nós, por tudo que representamos. — Acariciou o rolo de pergaminho. — Fomos leais
por tantas gerações. — Seu olhar varreu a sala. — E nem sequer temos um quorum aqui.
Rebecca enxugou as lágrimas dos olhos. — Rabino, está fazendo mau juízo da Irmandade. Elas só querem aperfeiçoar os humanos e seus governos.
— É isso que dizem.
— É isso que eu digo. O governo, para elas, é uma forma de arte. Acha isso engraçado?
— Você desperta minha curiosidade. Essas mulheres estão iludindo a si mesmas com sonhos de sua própria importância?
— Elas se consideram cães vigilantes.
— Cães?
— Cães vigilantes, alertas para quando uma lição possa ser ensinada. É isso que buscam. Nunca tente ensinar uma lição a alguém que não possa absorvê-la.
— Sempre esses bocadinhos de sabedoria. — Ele parecia triste. — E elas se governam artisticamente?
— Consideram-se um júri com poderes absolutos que nenhuma lei pode vetar.
Sacudiu o rolo de pergaminho em frente ao rosto dela. — Foi isso que pensei!
— Nenhuma lei “humana”, Rabino.
— Você me diz que essas mulheres que fazem religiões à vontade acreditam em... em um poder maior que elas.
— A crença delas não concordaria com a nossa, Rabino, mas não acredito que seja nociva.
— O que é essa... essa crença?
— Elas chamam de “Tendência niveladora”. Vêem isso geneticamente e como instinto. Pais brilhantes tendem a ter filhos mais perto da média, por exemplo.
— Uma tendência. E “isso” é uma crença?
— É por isso que evitam proeminência. São conselheiras, até mesmo fazedoras de reis em certas ocasiões, mas não querem estar no alvo.
— Essa tendência... elas acreditam que haja um Fazedor de Tendências?
— Não presumem que exista. Somente que há esse movimento observável.
— Então o que fazem com essa tendência?
— Tomam precauções.
— Na presença de Satã, é o que acho!
— Elas não se opõem à corrente, mas parecem só atravessá-la, fazendo com que trabalhe a seu favor, usando os remoinhos.
— Ohhh!
— Os mestres de navegação antigos compreendiam isso muito bem, Rabino. A Irmandade tem o que, na verdade, são cartas marítimas atuais que lhes dizem o que evitar e onde concentrar seus maiores esforços.
Ele acenou novamente com o rolo. — Isto aqui não é uma carta atual.
— Está interpretando mal, Rabino. Conhecem as falácias das máquinas esmagadoras. — Lançou um olhar para a maquinaria esforçando-se para trabalhar. — Elas nos vêem em correntes que a maquinaria não pode arrostar.
— Essas pequenas sabedorias. Não sei, filha. Meter-se em política eu aceito. Mas em assuntos sagrados...
— Uma tendência niveladora, Rabino. Influência da massa em inovadores brilhantes que saem do rebanho e produzem coisas novas. Mesmo quando a novidade nos ajuda, a tendência pega o inovador.
— Quem pode dizer o que nos ajuda, Rebecca?
— Estou apenas dizendo aquilo em que elas acreditam.
Vêem impostos como evidência da tendência, tirando energia livre que poderia criar mais coisas novas. Uma pessoa sensibilizada detecta isso, dizem.
— E essas... essas Honradas Madres?
— São parte da configuração. Um governo de poder fechado, concentrado em tornar todos os que o desafiam potencialmente ineficazes. Exclua os muito vivos. Inteligência embotada.
Um leve bip veio da área da maquinaria. Joshua tinha passado por eles antes que pudessem se levantar. Inclinou-se sobre a tela que revelava o que se passava na superfície.
— Voltaram — disse. — Vejam! Estão cavando nas cinzas diretamente acima de nós.
— Encontraram-nos? — O Rabino parecia quase aliviado.
Joshua observava a tela.
Rebecca colocou a cabeça junto da dele, estudando os cavadores — dez homens com o olhar sonhador daqueles que foram unidos a Honradas Madres.
— Só cavam ao acaso — disse Rebecca, empertigando-se.
— Tem certeza? — Joshua ficou de pé e olhou seu rosto, buscando uma confirmação secreta.
Qualquer Bene Gesserit poderia ver isso.
— Veja você mesmo. — Fez um gesto para a tela. — Estão indo embora. Vão para o chiqueiro-sligo agora.
— É o lugar deles — resmungou o Rabino.
As escolhas exeqüíveis acontecem num cadinho de erros informativos. Conseqüentemente, a Inteligência aceita a falibilidade.
E quando não se conhecem escolhas absolutas (infalíveis), a Inteligência se arrisca com dados limitados, numa arena onde os erros não são apenas possíveis, mas necessários. — Darwi Odrade A Madre Superiora não tomou simplesmente uma barcaça espacial que estivesse de saída e transferiu-se para uma não-nave
qualquer. Havia planos, providências, estratégias — contingências sobre contingências.
Levou oito dias febris. A distribuição do tempo com Teg tinha de ser precisa. As conversas com Murbella consumiram horas. Ela tinha de saber o que enfrentaria.
“Descubra seu calcanhar-de-aquiles, Murbella, e terá tudo nas mãos. Fique na nave de observação enquanto Teg ataca, mas esteja atenta.”
Odrade recebeu conselho detalhado de todos que poderiam ajudar. Então veio o implante de sinais vitais criptografados para transmitir suas observações secretas. Uma não-nave e uma barcaça de longo alcance tinham de ser readaptadas, com a tripulação escolhida por Teg.
Bellonda murmurou e resmungou, até que Odrade interveio.
— Você está desviando minha atenção! É isso que pretende? Enfraquecer-me? — Era já manhã alta, quatro dias antes da partida e estavam temporariamente sozinhas no gabinete. O
tempo era claro, porém inusitada-mente frio para a estação, e o ar tinha um toque de ocre causado por uma tempestade de areia que assolara a Central na noite anterior.
— A Convocação foi um erro! — Bellonda precisava dar seu golpe de despedida.
Odrade viu-se respondendo com aspereza a Bellonda, que se tornara cáustica demais: — Necessária!
— Para você, talvez! Está dando adeus à família. Mas nos deixa aqui, lavando a roupa uma da outra.
— Você veio aqui só para reclamar da Convocação?
— Não gostei de seu mais recente comentário sobre as Honradas Madres! Deveria ter nos consultado antes de espalhar...
— Elas são parasitas, Bell! Era tempo de deixar isso claro: um conhecido ponto fraco. E o que faz um corpo afligido por parasitas? — Odrade disse isso com um largo sorriso.
— Dar, quando você adota essa... essa pose pseudo-humorística, tenho vontade de estrangulá-la!
— Você o faria sorrindo, Bell?
— Maldita seja, Dar! Um destes dias...
— Não temos mais muitos dias juntas, Bell, e isso é o que a está consumindo. Responda à minha pergunta.
— Responda-a você!
— O corpo acolhe bem uma limpeza periódica dos parasitas.
Até os viciados sonham com a liberdade.
— Ahhhhhhh. — O Mentat se revelou nos olhos de Bellonda.
— Você acha que o vício das Honradas Madres pode ser tornado doloroso?
— Apesar de sua terrível incapacidade para o humor, você ainda consegue funcionar.
Um sorriso cruel curvou a boca de Bellonda.
— Consegui diverti-la — Odrade disse.
— Deixe-me discutir isso com Tam. Ela tem uma cabeça melhor para estratégia. Embora... o Compartilhar tenha-a amolecido.
Depois que Bellonda saiu, Odrade recostou-se e riu silenciosamente. “Amoleceu! Não amoleça amanhã, Dar, quando Compartilhar. O Mentat tropeça na lógica e perde o coração. Ela vê o processo e preocupa-se com o fracasso. O que faremos se... Nós abrimos janelas, Bell, e deixamos entrar o bom senso. Até mesmo hilaridade. Põe mais assuntos sérios em perspectiva. Pobre Bell, minha Irmã defeituosa. Sempre alguma coisa para ocupar seu nervosismo.”
Na manhã da partida, Odrade saiu da Central enredada em seus pensamentos — num humor introspectivo, preocupada com o que aprendera quando Compartilhara com Murbella e Sheeana.
“Estou sendo auto-indulgente.”
Isso não oferecia nenhum alívio. Seus pensamentos estavam enquadrados pela Outra Memória e por um fatalismo quase cínico.
“Abelhas-Mestras enxameando?”
Isso fora sugerido a respeito das Honradas Madres.
“Mas Sheeana? E Tam aprova?”
Havia aí mais do que uma Dispersão.
“Não posso segui-la ao seu lugar selvagem, Sheeana. Minha tarefa é produzir ordem. Não posso arriscar o que você ousou. Há muitas espécies de arte. A sua me causa aversão.”
Ajudou-a absorver as vidas da Outra Memória de Murbella.
Seu conhecimento era uma poderosa alavanca sobre as Honradas Madres, mas estava repleto de matizes inquietantes.
“Não o hipnotranse. Elas usam indução celular, um subproduto de suas malditas Sondas-T! Compulsão inconsciente!
Como é tentador usá-la em nosso benefício. Mas é aí que as Honradas Madres são mais vulneráveis — um enorme conteúdo de inconsciência trancado por suas próprias decisões. A solução de Murbella apenas enfatiza seu perigo para nós.”
Chegaram à Plataforma de Aterrissagem em meio a um vendaval que as golpeou quando saíram do carro. Odrade tinha proibido uma caminhada através do que havia restado dos pomares e das vinhas.
Partindo pela última vez? A pergunta estava nos olhos de Bellonda, quando disse adeus. Na carranca preocupada de Sheeana.
“A Madre Superiora aceita minha decisão?
“Provisoriamente, Sheeana. Provisoriamente. Mas não preveni Murbella. Assim... talvez eu compartilhe a opinião de Tam.”
Dortujla, na vanguarda do grupo de Odrade, estava absorta.
“Compreensível. Ela esteve lá... e assistiu à cena de suas Irmãs devoradas. Coragem, Irmã! Ainda não fomos derrotadas.”
Apenas Murbella tinha aparecido para enfrentar a situação, mas estava antecipando o encontro de Odrade com a Rainha Aranha.“Terei preparado a Madre Superiora o suficiente? Será que ela sabe bem o perigo que corre?”
Odrade afastou esses pensamentos. Havia coisas a fazer na travessia. As Honradas Madres podiam ser analisadas quase fora da realidade, mas o verdadeiro confronto ocorreria como viesse —
um desempenho de jazz. Ela gostava da idéia do jazz, embora a música a distraísse com seu antigo sabor e seus mergulhos no desvario. Entretanto, o jazz falava da vida. Nunca dois desempenhos idênticos. Os músicos reagiam ao que recebiam dos outros: jazz.