As Herdeiras de Duna

Frank Herbert · Capítulo 2 de 3 · parte 10/16

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As Herdeiras de Duna

Folha de Rosto

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 16 partes.

“Um inseto esboçado à sua própria semelhança por um robô louco.”Quando estavam voando, Streggi, mais uma vez sentada ao lado de Odrade, perguntou: — Vamos ver vermes da areia?

— É possível. Mas não há nenhuma notícia deles ainda.

Streggi recostou-se no assento, desapontada com a resposta, mas sem poder aproveitar para fazer outra pergunta. A verdade podia ser perturbadora; às vezes, e tinham expectativas tão altas investidas nessa jogada evolucionária, pensou Odrade.

“Senão, por que destruir tudo que amávamos na Sede?

Simulfluxo se intrometeu com uma imagem de um letreiro antigo no arco de uma entrada estreita de um prédio de tijolos rosados: HOSPITAL PARA DOENÇAS INCURÁVEIS.

Era lá que a Irmandade se encontrava? Ou será que toleraram fracassos demais? Havia uma finalidade na Outra Memória intrusa.

“Fracassos?”

Odrade pesquisou: “Se for o caso, devemos pensar em Murbella como uma Irmã.” Não que a cativa Honrada Madre fosse um fracasso incurável. Mas era uma desajustada e estava sendo submetida a treinamento profundo em idade avançada.

Como estavam todas quietas ao seu redor, olhando a areia varrida pelo vento — dunas parecendo baleias cedendo às vezes o lugar a pequenas ondas secas. O sol do início da tarde apenas

começara a dar luz lateral suficiente para definir a vista próxima. A poeira obscurecia o horizonte à frente.

Odrade encolheu-se no assento e dormiu. “Já vi isso antes.

Sobrevivi a Duna.”

A agitação de descerem e circularem sobre o Centro de Observação do Deserto de Sheeana acordou-a.

“Centro de Observação do Deserto. Estamos nessa de novo.

Não lhe demos um nome, realmente... da mesma forma que não demos um nome a este planeta. Sede da Irmandade! Que tipo de nome é esse? Centro de Observação do Deserto! Descrição, mas não um nome. “Ênfase no temporário.”

Ao descerem, viu a confirmação de suas idéias. A impressão de habitações temporárias era intensificada pela aspereza espartana de todas as articulações. Nenhuma suavidade, nenhuma curva nas conexões. “Isso liga aqui e aquilo encaixa lá.” Tudo ligado com conectores retiráveis.

Aterrissaram aos solavancos, o piloto dizendo: — Aqui estão, e folgo em vê-las pelas costas.

Odrade foi imediatamente para o quarto reservado para ela e chamou Sheeana. Acomodações temporárias: outro cubículo espartano com um catre duro. Duas cadeiras dessa vez. Uma janela se abria para o oeste, no deserto. A natureza temporária dessas acomodações a irritava. Tudo aqui podia ser desmontado em horas e levado embora. Lavou o rosto no banheiro ao lado, aproveitando os movimentos ao máximo. Dormira em posição confinada no tóptero e o corpo estava reclamando.

Refrescada, foi até a janela, grata pela inclusão dessa torre no plano de construção: dez andares, e este era o nono. Sheeana ocupava o andar de cima, um posto de observação para fazer o que o nome do lugar descrevia. Enquanto esperava, Odrade fez as preparações necessárias. “Abra a mente. Descarte as idéias preconcebidas.” As primeiras impressões, quando Sheeana chegasse, deveriam ser vistas com olhos inocentes. Os ouvidos não deveriam estar preparados para uma voz especial. O nariz não deveria esperar odores familiares. “Escolhi esta. Eu, sua primeira professora, sou capaz de errar.” Odrade voltou-se, a um som vindo

da porta. Streggi. — Sheeana acabou de voltar do deserto, e está com seu pessoal. Ela pede que a Madre Superiora a encontre nos aposentos superiores, que são mais confortáveis.

Odrade acenou com a cabeça.

Os aposentos de Sheeana no andar de cima ainda tinham aquela aparência pré-fabricada. Abrigo rápido à frente do deserto.

Um quarto grande, seis ou sete vezes maior que o cubículo de hóspedes, mas era ao mesmo tempo sala de trabalho e quarto de dormir. Janelas de dois lados — oeste e norte. Odrade ficou impressionada com a mistura de funcional e não-funcional.

Sheeana conseguira fazer de seus aposentos um reflexo dela mesma. Um catre padrão Bene Gesserit tinha sido coberto com uma colcha alegre, laranja e castanho. Um desenho preto sobre branco de um verme da areia, de frente, com todos os dentes de cristal à mostra, preenchia uma parede. Sheeana o desenhara, confiando na Outra Memória e em sua infância em Duna para guiarem sua mão.

Revelava algo sobre Sheeana, que não tinha tentado uma representação mais ambiciosa — em cores, talvez, e no cenário tradicional do deserto. Só o verme, e uma sugestão de areia embaixo dele, uma figura humana minúscula no primeiro plano, vestindo um manto. “Ela mesma?”

Um controle admirável e a lembrança constante da razão de estar ali. Uma impressão profunda de natureza.

“A natureza não produz má arte?”

Era um pronunciamento muito fluido para ser aceito.

“O que queremos dizer com natureza?”

Tinha visto florestas “naturais” atrozes: árvores quebradiças que pareciam ter sido imersas em pigmento verde imperfeito e deixadas à beira da tundra para secar em feias paródias. Repelente.

Difícil de imaginar árvores assim como tendo alguma finalidade. E

vermes-cegos... pele amarela pegajosa. Onde estava a arte neles?

Uma parada temporária na viagem da evolução para outro lugar.

Será que a intervenção dos humanos sempre fazia uma diferença? Sligos! A Bene Tleilaxu tinha produzido algo revoltante.

Admirando o desenho de Sheeana, Odrade decidiu que certas combinações ofendiam sentidos humanos específicos. Sligos

como alimento eram deliciosos. Combinações feias tocavam experiências antigas. As experiências decidiam.

“Coisa ruim!”

“Grande parte do que consideramos ARTE atende o desejo de tranqüilidade. Não me ofenda! Sei o que posso aceitar.”

Como esse desenho tranqüiliza Sheeana?

“Verme da areia: poder cego guardando riquezas escondidas.

Maestria em beleza mística.”

Haviam dito que Sheeana brincava sobre seu encargo. —

Sou pastora de vermes que talvez nunca existam.

E mesmo que aparecessem, levaria anos até que algum alcançasse o tamanho indicado pelo desenho. Seria a voz dela saindo da figura minúscula em frente ao verme?

— Isso virá com o tempo.

O cheiro de melange penetrou no quarto, mais forte que de costume nos aposentos de uma Reverenda Madre. Odrade lançou um olhar inquiridor pela mobília: cadeiras, mesa de trabalho, iluminação de globos luminosos fixos — tudo colocado onde funcionaria melhor. Mas o que era aquele monte de plaz preto de formato esquisito no canto do quarto? Mais uma obra de Sheeana?

Os aposentos eram apropriados para Sheeana, Odrade decidiu. Pouco mais que o desenho para relembrar suas origens, mas a vista das janelas poderia ser de Dar-es-Balat, nas profundezas das terras áridas de Duna.

Um pequeno ruído sussurrante na entrada alertou Odrade.

Virou-se e lá estava Sheeana. Quase tímida a maneira como olhou da porta antes de ingressar na presença da Madre Superiora.

Movimento como palavras: “Então veio aos meus aposentos.

É bom. Alguém podia ter sido descuidado com meu convite.”

Os sentidos alertados de Odrade vibraram com a presença de Sheeana. A mais jovem Reverenda Madre de todos os tempos.

Sempre se pensava na

“Pequena e Quieta Sheeana”. Não era sempre quieta nem era pequena, mas o apelido pegou. Não parecia um camundongo, mas muitas vezes ficava quietinha como um roedor aguardando à

beira do campo que o fazendeiro se afastasse. E então o camundongo saía correndo para pegar o grão caído.

Sheeana entrou no quarto e parou a menos de um passo de Odrade. — Estamos separadas há muito tempo, Madre Superiora.

A primeira impressão de Odrade foi estranhamente confusa.

“Franqueza e fingimento?”

Sheeana ficou de pé, quieta e receptiva.

Essa descendente de Siona Atreides tinha desenvolvido um rosto interessante sob a patina Bene Gesserit. Maturidade trabalhando de acordo com os desígnios Atreides e da Irmandade.

Marcas de muitas decisões tomadas com firmeza. A esbelta criança abandonada de pele escura e cabelos castanhos estriados de sol tornara-se essa Reverenda Madre de porte nobre. Pele ainda escura, de longas horas ao ar livre. Cabelos ainda com mechas claras. Os olhos, porém — o inflexível azul total que dizia: “Já passei pela Agonia.”

“O que é que sinto nela?”

Sheeana viu a expressão no rosto de Odrade (ingenuidade Bene Gesserit!) e percebeu que era a confrontação há tanto temida.

“Não pode haver defesa, exceto a minha verdade, e espero que ela não vá até uma confissão completa!”

Odrade observou sua ex-aluna com extremo cuidado, todos os sentidos aguçados.

“Medo! O que sinto? Alguma coisa quando ela falou?” A firmeza da voz de Sheeana tinha se formado sobre o instrumento poderoso que Odrade antecipara no primeiro encontro. A índole original de Sheeana (índole tipicamente Fremen!) tinha sido refreada e reorientada. O núcleo vingativo fora serenado. Sua capacidade de amar e odiar, rigidamente controlada.

“Por que tenho a impressão de que ela quer me abraçar?”

De repente Odrade sentiu-se vulnerável.

“Essa mulher penetrou minhas defesas. Não há maneira de excluí-la totalmente nunca mais.”

Lembrou-se da conclusão de Tamalane: “É uma dessas pessoas que se fecha em uma concha. Lembra-se da Irmã

Schwangyu? É assim, mas melhor ainda. Sheeana sabe aonde está indo. Temos de vigiá-la com cuidado. Sangue Atreides, sabe?

“Também sou Atreides, Tam.”

“Não pense que jamais esquecemos isso! Pensa que ficaríamos imóveis se a Madre Superiora decidisse procriar por sua conta? Há limites para nossa tolerância, Dar.”

— Tem razão, esta visita está bem atrasada, Sheeana.

O tom de Odrade alertou Sheeana. Olhou-a com a expressão que a Irmandade chamava de “BG plácida”, provavelmente não havia nada mais plácido no universo, nada que mascarasse mais completamente o que acontecia por detrás. Não era só uma barreira, era o nada. Qualquer coisa nessa máscara seria transgressão. Isso, por si só, era traição. Sheeana compreendeu imediatamente, e respondeu com uma risada.

— Sabia que viria sondar! A conversa de mãos com Duncan, certo? — “Por favor, Madre Superiora! Aceite isso.”

— Tudo, Sheeana.

— Ele quer que alguém os salve se as Honradas Madres atacarem.

— Só isso? — “Ela pensa que sou idiota?”

— Não. Quer informações sobre nossas intenções... e o que estamos fazendo para enfrentar a ameaça das Honradas Madres.

— O que você lhe disse?

— Tudo que podia. “A verdade é minha única arma. Tenho de distraí-la!”

— Você está do lado dele, Sheeana?

— Sim!

— Eu também.

— Mas Tam e Bell não?

— Minhas informantes me dizem que Bell agora o tolera.

— Bell? Tolerante?

— Você a julga mal, Sheeana. É uma falha em você. —

”Está escondendo alguma coisa. O que você fez, Sheeana?”

— Sheeana, acha que poderia trabalhar com Bell?

— Porque eu a provoco? — “Trabalhar com a Bell? O que quer dizer com isso? Não Bell como chefe daquele desgraçado

projeto Missionária!”

Um ligeiro sorriso se esboçou nos cantos da boca de Odrade.

“Outra travessura? Podia ser isso?”

Sheeana era o assunto mais falado nos refeitórios da Central.

Histórias de como mexia com as Mestras Procriadoras (especialmente Bell) e relatos elaboradamente detalhados de seduções aumentados com comparações a Honradas Madres vindas de Murbella temperavam mais que a comida. Odrade ouvira parte da última façanha há dois dias atrás. — Ela disse: “Usei o método deixe-que-ele-se-porte-mal. Muito eficaz para homens que pensam que estão levando você para o mau caminho.”

— Provocar? É isso que você faz, Sheeana?

— Uma frase apropriada: dar nova forma, indo contra a inclinação natural. — No momento em que pronunciou as palavras, Sheeana percebeu que tinha cometido um erro.

Odrade sentiu uma advertência silenciosa. “Dar nova forma?”

Seus olhos se dirigiram para a estranha massa preta no canto. Olhou-a com uma fixidez que a surpreendeu. Ela absorvia a vista.

Sondou procurando coerência, algo que lhe “falasse”. Nada respondeu, nem mesmo quando sondou até seus limites. “E é essa a sua finalidade!”

— Seu nome é “Vácuo” — disse Sheeana.

— Sua obra? — ”Por favor, Sheeana. Diga que é de outra pessoa. Quem fez isso foi para um local aonde não posso ir.”

— Fiz isso uma noite há mais ou menos uma semana.

“Plaz negro é a única matéria a que você dá nova forma?” —

Um comentário fascinante sobre arte em geral.

— E não sobre arte específica?

— Tenho um problema com você, Sheeana. Você alarma algumas das Irmãs. — “E a mim. Há um lugar selvagem em você que não conseguimos encontrar. Os marcadores de genes Atreides que Duncan nos disse para procurar estão em suas células. O que lhe deram?”

— Alarmo minhas Irmãs?

— Especialmente quando se lembram que você é a pessoa mais moça a viver a Agonia.

— Com exceção das Abominações.

— É isso que você é?

— Madre Superiora! — ”Nunca me magoou de propósito, a não ser como uma lição.”

— Você se submeteu à Agonia como um ato de desobediência.

— Não preferia dizer que fui contra conselhos amadurecidos? — ”Humor às vezes a distrai.”

Prester, a acólita assistente de Sheeana, aproximou-se da porta e bateu de leve na parede ao lado até chamar sua atenção. —

Pediu que lhe avisasse imediatamente assim que as equipes de busca voltassem.

— O que disseram? “Alívio na voz de Sheeana?”

— A equipe oito quer que olhe suas análises exploratórias.

— Sempre querem isso!

Sheeana falou com frustração forçada. — Quer olhar as análises comigo, Madre Superiora?

— Vou esperar aqui.

— Não vai demorar.

Quando saíram, Odrade dirigiu-se à janela que dava para o oeste: uma vista clara sobre os telhados do novo deserto. Pequenas dunas. Quase o pôr-do-sol e o calor seco que tanto lembrava Duna.

“O que Sheeana está escondendo?”

Um rapaz, pouco mais que um menino, estava tomando banho de sol num telhado vizinho, deitado de costas em um colchão verde-mar com uma toalha dourada sobre o rosto. Sua pele era de um dourado aquecido pelo sol combinando com a toalha e com os pêlos do púbis. Uma brisa tocou o canto da toalha e a tirou do lugar.

A mão lânguida se ergueu e arrumou-a de novo.

“Como pode estar à-toa? Trabalhador noturno?

Provavelmente.”

A ociosidade não era encorajada e isso era uma provocação.

Odrade sorriu para si mesma. Qualquer um seria desculpado se deduzisse que era um trabalhador noturno. Ele podia estar confiado nisso. O segredo era não ser visto por aqueles que sabiam o contrário.

“Não vou perguntar. A inteligência merece alguma recompensa. E, afinal de contas, ele podia ser um trabalhador noturno.”

Levantou os olhos. Uma nova configuração emergia aqui: ocasos exóticos. Faixa estreita de alaranjado ao longo do horizonte, mais grossa onde o sol acabava de mergulhar abaixo da terra. Azul prateado acima do alaranjado, ficava mais escuro no alto. Vira isso muitas vezes em Duna. Explicações meteorológicas que não queria explorar. Era melhor deixar os olhos observarem essa beleza transitória; melhor permitir aos ouvidos e à pele sentirem a quietude súbita que desceu sobre essa terra na escuridão rápida depois que o alaranjado desapareceu.

Vagamente, viu o rapaz pegar o colchão e a toalha e sumir atrás de um exaustor.

Som de alguém correndo no corredor atrás dela. Sheeana entrou quase sem fôlego. — Encontraram uma massa de especiaria a trinta quilômetros a nordeste daqui! Pequena, mas compacta!

Odrade não ousou ter esperança. — Poderia ser uma acumulação do vento?

— Não é provável. Mandei vigiarem vinte e quatro horas por dia. — Sheeana olhou a janela onde Odrade estava. “Ela viu Trebo.

Talvez...”

— Perguntei a você antes, Sheeana, se poderia trabalhar com Bell. Era uma pergunta importante. Tam está ficando muito velha e deve ser substituída em breve. Tem de haver um voto, é claro. — Eu? — Era completamente inesperado.

— Minha primeira escolha. — “Imperativo agora. Quero você perto, onde possa vigiá-la.”

— Mas pensei... quer dizer, o plano da Missionária...

— Isso pode esperar. E tem de haver outra pessoa que possa servir de pastora dos vermes... se aquela massa de especiaria for o que esperamos.

— Ah? Sim... muitas pessoas, mas ninguém que... Não quer que eu verifique se os vermes ainda me respondem?

— O trabalho no Conselho não deve interferir com isso.

— Eu... pode ver que estou espantada.

— Eu diria chocada. Diga-me, Sheeana, o que realmente interessa você atualmente?

“Sondando ainda. Trebo, ajude-me agora!” — Certificar-me de que o deserto está crescendo bem. — “A verdade!” — E minha vida sexual, é claro. Viu o rapaz no telhado vizinho? Trebo, mais um que Duncan me mandou para polir.

Mesmo depois que Odrade saiu, Sheeana ficou pensando por que essas palavras tinham produzido tanto divertimento. Mas a Madre Superiora tinha sido desviada.

Nem havia necessidade de desperdiçar a sua posição de retaguarda a verdade: Discutimos a possibilidade de eu imprimir Teg e assim reconstituir as memórias do Bashar.”

Evitada a confissão completa. “A Madre Superiora não descobriu que eu tinha achado uma maneira de reativar nossa não-nave prisão e retirar o detonador das minas que Bellonda colocou nela.” Nenhum adoçante encobrirá certas formas de amargor. Se tiver sabor amargo, cuspa fora. É isso que faziam nossos mais antigos ancestrais.

— O Coda

Murbella acordou durante a noite para continuar um sonho, embora acordada e ciente do que a rodeava: Duncan dormindo a seu lado, um ruído leve de maquinaria, a crono-projeção no teto.

Ultimamente insistia na presença de Duncan à noite, medrosa quando sozinha. Ele culpava a quarta gravidez.

Sentou na beira da cama. O quarto estava fantasmagórico na luz fraca do crono. As imagens do sonho persistiam.

Duncan resmungou e virou em sua direção. Um braço lançou-se sobre suas pernas.

Sentiu que essa intrusão mental não era sonho, mas tinha algumas características oníricas. Os ensinamentos Bene Gesserit faziam isso. Eles e suas infernais sugestões sobre Scytale e... e tudo mais! Precipitavam um movimento que ela não podia controlar.

Essa noite, estava perdida em um mundo insano de palavras.

A causa era clara. Aquela manhã Bellonda soubera que Murbella falava nove línguas í dirigira a acólita suspeitosa para um caminho mental chamado “Herança lingüística”. Mas a influência de Bell nessa loucura noturna não permitia i fuga.

Pesadelo. Era uma criatura microscópica presa em um lugar enorme que ecoava onde letras gigantes apareciam onde quer que olhasse: “Reservatório de Dados”. Palavras animadas com mandíbulas careteiras e tentáculos assustadores a rodeavam.

Feras predatórias e ela era sua presa!

Acordada e sabendo que estava sentada na beira da cama com o braço de Duncan jogado sobre as pernas, ainda via as feras.

Elas a empurravam para trás. Sabia que estava indo para trás, embora seu corpo não se movesse. Impeliam-na em direção a uma terrível catástrofe que não podia ver. A cabeça não virava! Não só via essas criaturas (bloqueavam parte do quarto de dormir), mas também as ouvia em uma cacofonia de suas nove línguas.

“Vão me fazer em pedaços!”

Embora não pudesse se virar, sentiu o que havia atrás dela: mais dentes e garras. Ameaças em toda parte! Se a acuassem, eles a atacariam e estaria perdida.

“Liquidada. Morta. Vítima. Cativa torturada. Caça legal.”

O desespero a envolveu. Por que Duncan não acordava e a salvava? Seu braço era um peso morto, parte da força que a segurava, permitindo que essas criaturas a dirigissem para sua armadilha bizarra. Estremeceu. O suor escorria do corpo. Que palavras horríveis! Uniam-se em combinações gigantescas. Uma criatura com presas afiadas veio direto para ela e viu mais palavras na abertura negra entre suas mandíbulas.

“Veja acima.”

Murbella começou a rir. Não podia se controlar. “Veja acima.

Liquidada. Morta. Vítima...”

O riso acordou Duncan. Sentou-se, acendeu um globo luminoso suave, e olhou para ela. Como estava descabelado depois daquela colisão sexual.

Sua expressão oscilou entre diversão e aborrecimento por ter sido acordado. — Por que está rindo?

O riso diminuiu, transformando-se em arquejos. As costelas doíam. Teve medo de que o sorriso que ele começava a esboçar provocasse um novo espasmo. — Oh... oh, Duncan! Colisão sexual! Ele sabia que esse era o termo que usavam para o vício que os unia, mas por que isso a fazia rir?

A expressão confusa de Duncan pareceu-lhe cômica.

Entre arquejos, ela disse: — Mais duas palavras. — E teve que cobrir a boca com a mão para evitar outra explosão.

— O quê?

A voz dele era a coisa mais engraçada que já tinha ouvido.

Estendeu a mão para ele e sacudiu a cabeça.

— Ohhhh... ohhh...

— Murbella, o que há de errado com você? Só podia continuar sacudindo a cabeça.

Ele tentou um sorriso. Murbella acalmou-se e encostou-se nele. — Não!

— Quando a mão direita dele deslizou: — Só quero ficar perto. — Veja que horas são. — Apontou com o queixo para a projeção no teto.

— Quase três.

— Foi tão engraçado, Duncan.

— Então me conte.

— Quando tiver fôlego.

Deitou-a no travesseiro. — Até parecemos um casal de velhos. Histórias engraçadas no meio da noite.

— Não, meu querido, somos diferentes.

— Uma questão de proporção, nada mais.

— Qualidade — ela insistiu.

— O que foi tão engraçado?

Contou sobre o pesadelo e a influência de Bellonda.

— Zensunni. Uma técnica muito antiga. As Irmãs a usam para liberar você de conexões traumáticas. Palavras que detonam respostas inconscientes.

O medo retornou.

— Murbella, por que está tremendo?

— As professoras Honradas Madres nos avisaram que coisas horríveis aconteceriam se caíssemos em mãos Zensunni.

— Besteira! Passei pela mesma coisa como Mentat.

Essas palavras evocaram outro fragmento de sonho. Uma fera com duas cabeças. As duas bocas abertas. Palavras lá dentro.

À esquerda, “Uma palavra” e à direita, “leva à outra”.

A hilaridade substituiu o medo. Declinou sem risos.

— Duncan!

— Mmmmmmmmmm. — Distância Mentat no som.

— Bell disse que a Bene Gesserit usa palavras como armas

— Voz. “Instrumentos de controle”, foi como as chamou.

— Uma lição que você deve aprender quase por instinto.

Nunca vão confiar em você para treinamento mais profundo até que aprenda isso.

“E não confiarei em você depois disso.”

Rolou para longe dele e olhou para os televigias reluzindo no teto em redor da projeção da hora.

“Ainda estou no noviciado.”

Estava ciente de que suas professoras a discutiam em particular. Conversas eram suspensas quando ela se aproximava.

Olhavam-na de uma certa maneira especial, como se fosse um espécime interessante.

A voz de Bellonda baralhava sua mente.

Gavinhas de pesadelo. Já no meio da manhã e o suor de seus esforços cheirando mal em suas narinas. A noviça obediente a três passos da Reverenda Madre. A voz de Bell:

— Nunca seja uma especialista. Isso vai prendê-la.

“Tudo isso porque perguntei se não havia palavras para guiar a Bene Gesserit.”

— Duncan, por que misturam ensinamentos mentais e físicos?— A mente e o corpo reforçam um ao outro. — Sonolento.

“Diabos! Ele vai dormir de novo.”

Sacudiu o ombro de Duncan. — Se as palavras são tão sem importância, por que falam tanto de disciplinas?

— Padrões — murmurou. — Palavra feia.

— O quê? — Sacudiu-o com mais força.

Ele virou de costas, movendo os lábios: — Disciplina igual a padrões igual a um mau caminho a seguir. Dizem que somos todos criadores naturais de padrões... acho que significa “ordem” para elas.

— E por que isso é tão ruim?

— Dá aos outros uma alavanca para nos destruir ou nos capturar em... em coisas que não mudaremos.

— Você está errado quanto à mente e o corpo.

— Hmmmmmmmmm?

— São pressões que acorrentam um ao outro.

— Não foi isso que eu disse? Ei! Vamos conversar ou dormir ou o quê?

— Nada de “o quê”. Hoje não. Ele suspirou fundo.

— Não estão querendo melhorar minha saúde — ela disse.

— Ninguém disse que estavam.

— Isso vem mais tarde, depois da Agonia. — Sabia que ele detestava ser lembrado desse teste fatal, mas não era possível evitá-lo. A possibilidade tomava conta de sua mente.

— Muito bem! — Ele sentou, ajeitou o travesseiro e recostou-se para estudá-la. — O que está acontecendo?

— São tão incrivelmente espertas com suas palavras-armas!

Ela trouxe Teg a você e disse que você era totalmente responsável por ele.— Não acredita?

— Ele pensa em você como um pai.

— No fundo não.

— Não, mas... você pensava isso do Bashar?

— Quando reconstituiu minhas memórias? Sim.

— Vocês são dois órfãos intelectuais, sempre procurando pais que não existem. Ele não tem a menor idéia do quanto você vai magoá-lo.

— Isso tende a dividir a família.

— Então você detesta o Bashar nele e está contente porque vai magoá-lo.

— Não disse isso.

— Por que ele é tão importante?

— O Bashar? Um gênio militar. Sempre fazendo o inesperado. Confunde os inimigos aparecendo onde nunca esperam que ele esteja.

— Qualquer pessoa não pode fazer isso?

— Não da maneira que ele faz. Inventa táticas e estratégias.

Assim! — Estalando os dedos.

— Mais violência. Igual às Honradas Madres.

— Nem sempre. O Bashar tem fama de ganhar sem batalhas.

— Já vi as histórias.

— Não confie nelas.

— Mas você acabou de dizer...

— As histórias focalizam confrontações. Há alguma verdade nisso, mas ela esconde coisas mais persistentes que acontecem apesar de revoluções.

— Coisas persistentes?

— Que história diz respeito à mulher na plantação de arroz conduzindo um búfalo da índia à frente do arado, enquanto o marido está em alguma parte, provavelmente recrutado, carregando uma arma? — Por que isso é persistente e mais importante que...

— Os bebês em casa precisam de comida. O homem está fora, nessa loucura eterna? Alguém tem de arar a terra. Ela é a verdadeira imagem da persistência humana.

— Você parece tão amargo... acho isso estranho.

— Considerando minha “história” militar?

— Sim, isso, a ênfase Bene Gesserit em... em seu Bashar e tropas de elite e...

— Você acha que são só mais umas pessoas cheias de importância indo adiante com a violência que lhes é tão importante?

Vão passar bem por cima da mulher com o arado?

— E por que não?

— Porque muito pouco lhes escapa. Os violentos “passam”

pela mulher com o arado e raramente vêem que tocaram a realidade básica. Uma Bene Gesserit nunca deixaria isso escapar.

— Porquê?

— As pessoas cheias de importância têm visão limitada porque andam em uma realidade-morte. A mulher e o arado são uma realidade-vida. Sem uma realidade-vida não haveria a humanidade. Meu Tirano viu isso. As Irmãs o abençoam por isso, mesmo enquanto o amaldiçoam.

— Então você é um participante voluntário no sonho delas.

— Acho que sim. — Parecia espantado.

— E está sendo completamente honesto com Teg?

— Ele pergunta, eu lhe dou respostas sinceras. Não acredito em fazer violência à curiosidade.

— E é completamente responsável por ele?

— Não foi isso exatamente que ela disse.

— Ahhhhhhhh, meu amor. Não “exatamente” o que ela disse.

Você chama Bell de hipócrita e não inclui Odrade. Duncan, se você soubesse...

— Já que estamos ignorando os televigias, fale!

— Mentirosas, fraudulentas, viciosas...

— Ei! A Bene Gesserit?

— Elas têm aquela velha desculpa: a Irmã A faz isso, então se eu fizer não há mal nenhum. Dois crimes se cancelam.

— Que crimes?

Ela hesitou. “Devo lhe dizer? Não. Mas espera alguma resposta.” — Bell está muito contente porque os papéis estão invertidos entre você e Teg! Está aguardando ansiosamente a dor dele. — Talvez devêssemos desapontá-la. — Viu que era um erro ter dito isso assim que falou. “Cedo demais.”

— Justiça poética! — Murbella estava encantada. “Distraia-os!” — Não estão interessadas em justiça. Imparcialidade sim.

Elas têm essa homilia: “Aqueles que são julgados devem aceitar a imparcialidade desse julgamento.”

— Então condicionam você a aceitar seu julgamento.

— Há sempre uma brecha em qualquer sistema.

— Sabe, querido, as acólitas aprendem muitas coisas.

— É por isso que são acólitas.

— O que quero dizer é que falamos umas com as outras.

— Nós? Você, uma acólita? Você é uma prosélita!

— O que quer que eu seja, tenho ouvido histórias. O seu Teg pode não ser o que parece.

— Mexericos de acólitas.

— Há histórias que vêm de Gammu, Duncan.

Olhou-a fixamente. “Gammu? Não podia pensar nesse nome, só no original: Giedi Prime, o buraco infernal dos Harkonnen.”

Ela interpretou seu silêncio como um convite para prosseguir.

— Dizem que Teg se movia tão rápido que a vista não podia acompanhá-lo, que ele...

— E provável que ele mesmo tenha lançado esse boato.

— Algumas Irmãs acreditam. Estão adotando uma atitude de esperar-para-ver. Querem precauções.

— Não aprendeu nada sobre Teg em suas preciosas “histórias”? Seria típico dele começar esses rumores. Tornar as pessoas cautelosas.

— Mas lembre-se de que eu estava em Gammu nessa época. As Honradas Madres ficaram muito contrariadas. Furiosas.

Alguma coisa deu errado.

— Claro. Teg fez o inesperado. E as surpreendeu. Roubou uma de suas não-naves. — Deu uma pancadinha na parede junto dele. — Esta aqui.

— A Irmandade tem suas coisas proibidas, Duncan. Estão sempre me dizendo que espere a Agonia. Tudo ficará claro! Que vão todas para o inferno!

— Parece que estão preparando você para os ensinamentos da Missionária. Planejar religiões para fins específicos e populações selecionadas.

— Você não vê nada de errado nisso?

— Moralidade. Não discuto isso com as Reverendas Madres.

— Por que não?

— As religiões soçobram nesse rochedo. BGs não soçobram. “Duncan, se você soubesse a moralidade delas!” — Elas ficam irritadas porque você sabe tanto sobre elas.

— Bell só queria me matar por causa disso.

— Não acha que Odrade é tão ruim quanto ela?

— Que pergunta! — “Odrade? Uma mulher aterrorizadora, se você contemplar suas habilidades. Atreides, além disso. Conheci Atreides e Atreides. Esta é Bene Gesserit em primeiro lugar. Teg é o ideal Atreides.”

— Odrade me disse que confia em sua lealdade aos Atreides.

— Sou leal à honra Atreides, Murbella. — “E tomo minhas próprias decisões morais — sobre a Irmandade, sobre essa criança que confiaram aos meus cuidados, sobre Sheeana e... e sobre minha amada.”

Murbella inclinou-se para ele, o seio roçando seu braço, e murmurou no ouvido dele: — Às vezes sinto que podia matar qualquer uma delas ao meu alcance!

“Será que ela pensa que não podem ouvi-la?” Aprumou-se, arrastando-a com ele. — O que provocou você?

— “Ela” quer que trabalhe Scytale.

“Trabalhar alguém.” Eufemismo de Honradas Madres. “Ora, por que não? Ela trabalhou muitos homens antes de esbarrar comigo.” Mas teve a reação de um marido antigo. E não só isso...

Scytale? Um diabo de Tleilaxu?

— Madre Superiora? — Tinha de ter certeza.

— A mesma, a única. — Quase alegre agora que tinha desabafado.

— Qual é a sua reação?

— Ela diz que a idéia foi sua.

— Minha... De jeito nenhum! Sugeri que podíamos tentar arrancar informações dele, mas...

— Ela diz que é comum para as Bene Gesserit, assim como para as Honradas Madres. Vá procriar com este aqui. Seduza aquele ali. Um dia normal de trabalho.

— Perguntei sobre “sua” reação.

— Revoltada.

— Por quê? — “Conhecendo seu passado...”

— É a você que eu amo, Duncan, e... e meu corpo é... é para lhe dar prazer... assim como você...

— Somos um velho casal e as bruxas estão tentando nos separar.As palavras despertaram nele uma visão clara de Lady Jessica, amante de seu há longo tempo falecido Duque e mãe de Maud’Dib. “Amei aquela mulher. Ela não me amava, mas...” A

expressão que via agora nos olhos de Murbella, tinha visto Jessica olhar o Duque assim: amor cego, inabalável.

Em que as Bene Gesserit não confiavam. Jessica tinha sido mais branda que Murbella. Mas de cerne duro. E Odrade... era dura desde o início. Toda de plasteel.

E quanto às ocasiões em que suspeitara que ela compartilhava emoções humanas? O modo como falou do Bashar quando souberam que o velho estava morto em Duna.

“Ele era meu pai, você sabe.”

Murbella arrancou-o de seu devaneio. — Você pode compartilhar o sonho delas, seja lá o que for, mas...

— Cresçam, humanos!

— O quê?

— Esse é o sonho delas. Começarem a agir como adultos e não como crianças zangadas no recreio da escola.

— Mamãe é que sabe o que é melhor para você?

— Sim... acho que sabe.

— É mesmo assim que você as vê? Mesmo quando as chama de bruxas?

— É uma boa palavra. As bruxas fazem coisas misteriosas.

— Não acredita que seja o treinamento longo e severo, e mais a especiaria e a Agonia?

— O que tem a crença a ver com isso? O desconhecido cria sua própria mística.

— Mas você não acha que elas induzem as pessoas a fazerem o que elas querem por astúcia?

— Claro que sim!

— Palavras como armas, Voz, Impressoras...

— Nenhuma tão bela quanto você.

— O que é a beleza, Duncan?

— Há estilos de beleza, claro.

— Exatamente o que ela diz. “Estilos baseados em raízes procriadoras enterradas tão fundo em nossa psique que não ousamos arrancá-las.” —

Então pensaram em mexer com isso, Duncan.

— E ousariam qualquer coisa?

— Ela diz: “Não vamos distorcer nossa progênie em algo que julgamos ser não-humano.” Elas julgam, elas condenam.

Ele pensou nas figuras alienígenas em sua visão. Dançarinos Faciais. E perguntou: — Como o Tleilaxu amoral? Amoral — não humano.

— Quase posso ouvir as engrenagens rodando na cabeça de Odrade. Ela e suas Irmãs vigiam, escutam, modelam cada reação, tudo calculado.

“É isso que você quer, meu amor?” Sentiu que não havia saída. Ela estava certa e estava errada. Os fins justificando os meios? Como poderia justificar perder Murbella?

— Acha que são amorais? — perguntou.

Foi como se ela não tivesse ouvido. — Sempre se perguntando o que devem dizer em seguida para obter a resposta desejada.

— Que resposta? — Será que ela não ouvia a sua dor?

— Nunca se sabe até que seja tarde demais! — Virou-se e olhou para ele. — Exatamente como Honradas Madres. Sabe como as Honradas Madres me pegaram?

Não pôde reprimir a consciência de como os vigilantes iriam ouvir avidamente as próximas palavras de Murbella.

— Pegaram-me nas ruas depois de uma varredura das Honradas Madres. Acho que a varredura foi por minha causa. Minha mãe era uma mulher belíssima, mas era muito velha para elas.

— Uma varredura? — “Os vigilantes gostariam que eu perguntasse.”

— Atravessam uma área e as pessoas desaparecem.

Nenhum corpo, nada. Famílias inteiras somem. É explicado como castigo porque as pessoas conspiram contra elas.

— Que idade você tinha?

— Três... talvez quatro anos. Estava brincando com umas amigas num lugar aberto embaixo de umas árvores. De repente, ouvimos uma barulheira e gritos. Escondemo-nos num buraco atrás de umas rochas.

Ele sentiu-se preso à visão do drama.

— A terra tremeu. — Seu olhar se interiorizou ao relembrar.

— Explosão. Após certo tempo ficou quieto e espiamos para fora. A esquina onde era minha casa tinha virado um grande buraco.

— Você ficou órfã?

— Eu me lembro de meus pais. Ele era um homem grande e forte. Acho que minha mãe era empregada em algum lugar. Usavam uniforme para esse tipo de emprego e me lembro dela de uniforme.

— Como pode ter certeza que seus pais morreram?

— A varredura é tudo» que sei com certeza, mas é sempre a mesma coisa. Havia muita gritaria e pessoas correndo. Ficamos apavoradas.

— Por que pensa que a varredura foi por sua causa?

— Elas fazem esse tipo de coisa.

“Elas.” Que vitória os vigilantes iam considerar só naquela palavra.Murbella estava ainda afundada na memória. — Acho que meu pai recusou se render a uma Honrada Madre. Isso era considerado muito perigoso. Um homem grande, bonito... forte.

— Então você as odeia?

— Por quê? — Realmente surpresa com a pergunta. — Se não fosse isso, nunca teria sido uma Honrada Madre.

Essa insensibilidade o chocou. — Então valeu a pena!

— Amor, você é contra o que me trouxe para junto de você?

“Touché! ” — Mas não gostaria que tivesse acontecido de outra forma?

— Aconteceu.

Que absoluto fatalismo. Nunca suspeitara isso nela. Seria o condicionamento das Honradas Madres ou algo que as Bene Gesserit tinham feito?

— Você foi só uma aquisição valiosa para seus estábulos.

— Certo. Sedutoras, era como nos chamavam. Recrutamos machos valiosos.

— Foi o que você fez.

— Paguei o investimento delas mais que em dobro.

— Você imagina como é que as Irmãs vão interpretar isso?

— Não faça uma tempestade num copo d’água.

— Então está pronta para “trabalhar” Scytale?

— Não disse isso. As Honradas Madres me manipularam sem meu consentimento. As Irmãs precisam de mim e querem me usar da mesma maneira. Meu preço pode ser alto demais.

A voz custou a passar pela garganta seca. — Preço?

Olhou-o fixamente. — Você, você é apenas parte do meu preço. Nada de trabalhar Scytale. E mais daquela famosa franqueza delas sobre a razão por que precisam de mim.

— Cuidado, amor. Elas podem lhe dizer.

Olhou-o com uma expressão quase Bene Gesserit. — Como pode restaurar as memórias de Teg sem dor?

“Diabos!” Logo agora, que pensou que estava livre daquele descuido. Nenhuma saída. Podia ver em seus olhos que ela adivinhava.

Murbella confirmou isso. — Já que eu não concordei, tenho certeza que discutiu isso com Sheeana.

Só pôde acenar com a cabeça. Sua Murbella tinha ido mais longe na Irmandade do que suspeitara. E sabia como as múltiplas memórias ghola dele haviam sido restauradas por sua “impressão”.

Viu-a de repente como uma Reverenda Madre e teve vontade de gritar. — Como é que isso faz você diferente de Odrade? — ela perguntou.

— Sheeana foi treinada como Impressora. — As palavras soaram ocas logo que as pronunciou.

— E isso é diferente de meu treinamento? — Acusando. A raiva subiu nele. — Você ia preferir a dor? Como Bell?

— Você prefere a derrota da Bene Gesserit? — Voz macia como seda. Ouviu a distância no tom de voz, como se ela já tivesse se recolhido à posição fria de observação da Irmandade. Estavam congelando sua linda Murbella! Ainda havia aquela vitalidade nela.

Isso o dilacerava. Ela emitia uma aura de saúde, especialmente na gravidez. Vigor e prazer de viver ilimitados. Reluzia nela. As Irmãs iam pegar isso e abafar. Ela ficou quieta sob o escrutínio dele.

Desesperado, ele pensou no que poderia fazer.

— Esperava que estivéssemos sendo mais abertos um com o outro ultimamente — ela disse. Outra sondagem Bene Gesserit.

— Discordo de muitos de seus atos, mas não desconfio dos motivos delas — ele disse.

— Conhecerei seus motivos se sobreviver à Agonia.

Ele ficou muito quieto, encarando a possibilidade de que não sobrevivesse. A vida sem Murbella? Um vazio escancarado mais profundo do que jamais tinha imaginado. Nada em suas muitas vidas se comparava com isso. Sem decisão consciente, estendeu a mão e acariciou as costas dela. Pele tão macia e, no entanto, tão resiliente.

— Amo você demais, Murbella. Essa é a minha Agonia. Ela tremeu com esse contato.

Ele se sentiu nadando em sentimentalismo, construindo uma imagem de tristeza até que se lembrou das palavras de um professor Mentat sobre “bebedeiras emocionais”.

“A diferença entre sentimento e sentimentalismo é fácil de ver. Quando você evita matar o bichinho de estimação de alguém na estrada coberta de gelo, isso é sentimento. Se, para se desviar do bichinho, você mata pedestres, isso é sentimentalismo.”

Ela pegou a mão que a acariciava e levou-a aos lábios.

— Palavras mais corpo é mais que qualquer um dos dois —

ele murmurou.

Suas palavras a mergulharam de novo no pesadelo, mas agora ela foi com gana, consciente de palavras como instrumentos.

Estava cheia de um prazer especial face à experiência e disposta a rir de si mesma.

Ao exorcizar o pesadelo, ocorreu-lhe que nunca tinha visto uma Honrada Madre rir de si mesma.

Segurando a mão dele, olhou para Duncan. Um piscar Mentat de pálpebras. Será que ele sabia a experiência que ela acabava de ter? Liberdade! Não era mais uma questão de como ela fora confinada e forçada em canais inevitáveis pelo passado. Pela primeira vez desde que aceitara a possibilidade de se tornar uma Reverenda Madre, ela vislumbrou o que isso poderia significar.

Sentiu temor e choque.

“Nada mais importante que a Irmandade?”

Falavam de um juramento, algo mais misterioso que as palavras da Instrutora na iniciação das acólitas.

“Meu juramento às Honradas Madres foi só palavras. Um juramento às Bene Gesserit pode ser mais.”

Lembrou-se de Bellonda resmungando que os diplomatas eram escolhidos por sua habilidade em mentir. — Você seria um diplomata, Murbella?

Não era questão de que juramentos eram feitos para serem quebrados. Como isso era infantil! Ameaça comum na escola: — Se você quebrar sua promessa, eu quebro a minha! Nha, nha, nhaaaaaa!

Era inútil se preocupar com juramentos. Muito mais importante era encontrar aquele lugar dentro de si mesmo onde a liberdade vivia. Era um lugar onde algo sempre estava à escuta.

Segurando a mão de Duncan contra os lábios, murmurou: —

Elas escutam. Oh, como escutam.

Não entre em nenhum conflito contra fanáticos, a não ser que possa remover seu estopim. Oponha uma religião a outra somente se suas provas (milagres) forem incontestáveis ou se conseguir se

entrosar de tal maneira que os fanáticos o aceitem como inspirado pelos deuses. Essa há muito tem sido a barreira à ciência adotando o manto de revelação divina. A ciência é obviamente obra do homem. Os fanáticos (e muitos são fanáticos em uma matéria ou outra) devem conhecer sua posição, mas ainda mais importante, devem reconhecer quem sussurra em seu ouvido.

— Missionária Protectiva Ensino Primário O fluxo do tempo incomodava Odrade tanto quanto a consciência constante de que as caçadoras se aproximavam. Os anos passavam tão depressa, que os dias se tornavam um borrão.

Dois meses de argumentos para conseguir a aprovação de Sheeana como sucessora de Tam!

Bellonda passara a ficar de guarda de dia, quando Odrade estava ausente como estivera hoje, instruindo um novo remanescente Bene Gesserit que estava sendo mandado para a Dispersão. O Conselho continuava isso, mas com relutância. A sugestão de Idaho de que era uma estratégia inútil causara ondas de choque na Irmandade. As instruções agora incluíam novos planos de defesa para “o que vocês encontrarem”.

Quando Odrade entrou na sala de trabalho no fim da tarde, Bellonda estava sentada à mesa. As faces pareciam inchadas e os olhos tinham aquela expressão dura que adquiriam quando ela queria reprimir a fadiga. Com Bell aqui, o resumo do dia incluiria comentários acerbos.

— Aprovaram Sheeana — disse, empurrando um pequeno cristal para Odrade. — Foi o apoio de Tam que conseguiu isso. E a nova cria de Murbella vai nascer dentro de oito dias, “dizem” os Suks. Bell não tinha muita fé nos médicos Suk.

“Nova cria?” Como podia ser tão infernalmente impessoal sobre a vida! Odrade sentiu o pulso bater rápido com a idéia.

“Quando Murbella se recuperar do parto — a Agonia. Ela está pronta.”

— Duncan está muito nervoso — disse Bellonda, levantando da cadeira. “Agora é Duncan! Esses dois estão ficando extremamente familiares.” Bell não tinha terminado. — E antes que pergunte, nenhuma notícia de Dortujla.

Odrade sentou-se atrás da mesa e equilibrou o cristal-relatório na palma da mão. A acólita de confiança de Dortujla, agora Reverenda Madre Fintil, não arriscaria a viagem de não-nave ou qualquer outro dos estratagemas que haviam preparado só para agradar uma Madre Superiora. Nenhuma notícia significava que a isca continuava lá... ou tinha sido desperdiçada.

— Já disse a Sheeana que ela foi confirmada? — Odrade perguntou.

— Deixei isso para você. Ela está atrasada com o relatório diário de novo. Não é certo para um membro do Conselho.

Então Bell ainda desaprovava a nomeação.

As mensagens diárias de Sheeana tinham se tornado repetitivas. “Nenhum sinal de vermes. Massa de especiaria ainda intata.”Tudo em que tinham esperanças estava em terrível suspensão. E as fantasmagóricas caçadoras se aproximavam. As tensões se acumulavam. Explosivas.

— Você já viu aquela comunicação entre Duncan e Murbella várias vezes — disse Bellonda. — Era isso que Sheeana estava escondendo? E se fosse, por quê?

— Teg era meu pai.

— Que delicadeza! Uma Reverenda Madre tem escrúpulos em imprimir o ghola do pai da Madre Superiora!

— Ela foi minha aluna pessoal, Bell. Preocupa-se comigo de uma maneira que você nem pode perceber. Além disso, não é só um ghola, é uma criança.

— Precisamos ter certeza a respeito dela!

Odrade viu o nome se formar nos lábios de Bellonda, mas permanecer mudo. “Jessica.”

“Mais uma Reverenda Madre com falhas?” Bell estava certa, precisavam ter certeza sobre Sheeana. “Minha responsabilidade.” Uma visão da escultura negra de Sheeana tremulou na percepção de Odrade.

— O plano de Idaho tem alguma atração, mas... — Bellonda hesitou.Odrade falou: — É uma criança muito nova, com o crescimento incompleto. A dor da restauração usual de memória poderia aproximar-se da Agonia. Poderia aliená-lo. Mas isso...

— Controlá-lo com uma Impressora, isso eu aprovo. Mas e se isso não restaurar suas memórias?

— Ainda temos o plano original. E “teve” esse efeito em Idaho. — Diferente para ele, mas a decisão pode aguardar. Você está atrasada para seu encontro com Scytale.

Odrade balançou o cristal na mão. — Sumário diário?

— Nada que você já não tenha visto muitas vezes. — Vindo de Bell, era quase uma demonstração de preocupação.

— Vou trazê-lo aqui. Mande Tam ficar esperando, e você venha mais tarde sob um pretexto qualquer.

Scytale quase se acostumara a esses passeios fora da nave e Odrade observou isso em sua maneira despreocupada quando saíram do transportador ao sul da Central.

Era mais do que um passeio e ambos sabiam disso, porém ela tornara essas excursões regulares, planejando que a repetição o tranqüilizasse.

“Rotina. Tão útil em certas ocasiões.”

— Bondade sua me trazer nesses passeios — disse Scytale, olhando-a de lado. — O ar é mais seco do que me lembrava. Aonde vamos esta tarde?

“Como seus olhos eram miudinhos quando semicerrados contra o sol.”

— À minha sala de trabalho. — Fez sinal com a cabeça para os anexos da Central a cerca de meio quilômetro ao norte. Fazia frio sob o céu claro de primavera e as cores quentes dos telhados, as luzes se acendendo na sua torre, acenando com a promessa de alívio do vento gelado que acompanhava quase todos os ocasos nesses dias.

Com atenção periférica, Odrade observava cuidadosamente o Tleilaxu ao seu lado. Quanta tensão! Sentia isso também em Reverendas Madres guardiãs e acólitas logo atrás, todas encarregadas de vigilância especial por Bellonda.

“Precisamos desse monstrinho e ele sabe disso. E ainda não sabemos a extensão das habilidades dos Tleilaxu! Que talentos ele terá acumulado? Por que sonda com tanta displicência evidente um contato com seus companheiros de prisão?”

Os Tleilaxu fizeram o ghola-Idaho, lembrou a si mesma.

Teriam escondido coisas secretas nele?

— Sou um mendigo batendo à sua porta, Madre Superiora

— disse naquela voz lamurienta e maliciosa. — Nossos planetas em ruínas, meu povo assassinado. Por que vamos aos seus aposentos?

— Para barganhar num ambiente mais agradável.

— Sim, é muito abafado na nave. Mas não entendo por que sempre deixamos o carro tão longe da Central. Por que vamos a pé? — Gosto de andar.

Scytale olhou as plantações em volta. — Agradável, mas muito frio, não acha?

Odrade lançou um olhar para o sul. As encostas do sul estavam plantadas com uvas, os cumes e as faces mais frias do norte reservados para pomares. Vinífera melhorada, a desses vinhedos. Desenvolvida por jardineiros Bene Gesserit. Videiras velhas, raízes que “iam até o inferno” onde (segundo velhas superstições) roubavam água das almas em chamas. A vinícola era subterrânea, assim como a armazenagem e as cavernas de envelhecimento. Nada para desfigurar uma paisagem de videiras bem cuidadas em fileiras regulares, as plantas bem distanciadas para permitirem a colheita e a passagem de equipamento de cultivo.

“Agradável para ele?” Duvidava que Scytale visse alguma coisa de agradável. Estava nervoso como queria que estivesse, perguntando a si mesmo: “Por que ela realmente quer que eu ande neste meio rústico?”

Irritava muito Odrade que não ousassem usar persuasões Bene Gesserit mais fortes nesse homenzinho. Mas concordava com a advertência que dizia que se esses esforços falhassem, não teriam uma segunda oportunidade. Os Tleilaxu tinham demonstrado que morreriam antes de revelar conhecimentos secretos (e sagrados).

— Várias coisas me intrigam — disse Odrade, andando com cuidado para não pisar numa pilha de aparas de videiras. — Por que insiste em ter seus próprios Dançarinos Faciais antes de aceder a nossos pedidos? E que interesse é esse em Duncan Idaho?

— Cara senhora, não tenho companheiros em minha solidão. Isso responde às duas perguntas. — Esfregou distraído o peito onde a cápsula de nulentropia estava escondida.

“Por que esfrega esse lugar com tanta freqüência?” Era um gesto que a intrigava e aos analistas também. “Nenhuma cicatriz, nenhuma inflamação da pele. Talvez fosse um hábito que vinha da infância. Mas isso tinha sido há tanto tempo! Uma falha nesta reencarnação?” Ninguém sabia. E a pele cinzenta tinha uma pigmentação metálica que resistia aos instrumentos de sondagem.

Certamente ele tinha sido sensibilizado a raios mais pesados e saberia se os instrumentos fossem usados. Não... agora tudo era diplomacia. “Maldito monstrinho!”

Scytale estava pensando: será que essa fêmea powindah tinha algum sentimento natural com o qual pudesse jogar? “As peculiaridades” eram ambivalentes nessa questão.

— O Wekht de Jandola não existe mais — disse. — Bilhões dos nossos assassinados por essas prostitutas. Até os limites mais longínquos do Yaghist fomos destruídos e só resto eu.

“Yaghist”, ela pensou. “Terra dos não-governados.” Era uma palavra reveladora em islamiyat, a língua Bene Tleilaxu.

Nessa língua, ela disse: — A mágica do nosso Deus é a nossa única ponte.

Mais uma vez ela pretendia compartilhar sua Grande Crença, o ecumenismo Sufi-Zensunni que gerara os Bene Tleilaxu. Ela falava a língua impecavelmente, sabia as palavras apropriadas, mas

ele via falsidades. “Chama o Mensageiro de Deus de’ Tirano’ e desobedece aos preceitos mais básicos!”

Onde é que essas mulheres se reuniam em kehl para sentir a presença de Deus? Se realmente falassem a Língua de Deus, já saberiam o que procuravam dele com essas barganhas grosseiras.

Ao subirem a última encosta para a plataforma da central, Scytale invocou o auxílio de Deus. “Os Bene Tleilaxu chegaram a isso! Porque nos deu essa provação? Somos os últimos legalistas do Shariat e eu, o último Mestre de meu povo, tenho de buscar respostas em você, Deus, quando você não mais pode me falar em kehl.” Mais uma vez em islamiyat impecável, Odrade disse: — Você foi traído pelo seu próprio povo, aqueles que você mandou para a Dispersão. Não tem mais irmãos Malik, somente irmãs.

“Então onde está sua sala sagra, embusteira powindah?

Onde está o lugar profundo e sem janelas onde só irmãos podem entrar?” — Isso é novidade para mim — ele disse. — Irmãs Malik?

Essas duas palavras sempre negaram uma a outra. As Irmãs não podem ser Malik.

— Waff, seu antigo Mahai e Abdl, tinha problemas com isso.

E levou seu povo quase à extinção.

— Quase? Sabe de algum sobrevivente? — Não pôde conter a excitação na voz.

— Nenhum Mestre... mas ouvimos falar de alguns Domei e todos em mãos das Honradas Madres.

Parou onde a aresta de um prédio cortaria a vista do sol se pondo nos próximos passos e, ainda na língua secreta dos Tleilaxu, disse: — O sol não é Deus.

“O amanhecer e o ocaso adamam o Mahai!”

Scytale sentiu a fé vacilando ao segui-la em uma passagem arqueada entre dois prédios achaparrados. As palavras dela eram apropriadas, mas só o Mahai e Abdl deveriam pronunciá-las. Na passagem sombreada, os passos de sua escolta ecoando perto, Odrade o confundiu dizendo: — Por que você não disse as palavras

apropriadas? Não é o último Mestre? Isso não faz de você o Mahai e Abdl? — Não fui escolhido pelos irmãos Malik. — Soou fraco, mesmo para ele.

Odrade chamou o campo elevatório e parou à entrada do tubo. Em detalhes de Outra Memória, achou kehl e seu direito de ghufran familiares — palavras murmuradas à noite por amantes de mulheres há muito mortas. “E então nós...” “E então se dissermos essas palavras sagradas...” Ghufran! Aceitação e readmissão de alguém que tinha se aventurado entre os powindah, que voltava suplicando perdão pelo contato com os inconcebíveis pecados de alienígenas. “Os Masheikh reuniram-se em kehl e sentiram a presença de seu Deus!”

A entrada do tubo abriu-se. Odrade fez sinal para que Scytale e dois guardas fossem à frente. Quando ele passava, ela pensou:

“Alguma coisa vai acontecer em breve. Não podemos continuar com esse jogo até o fim que ele deseja.”

Tamalane estava de pé junto à janela em arco, de costas para a porta, quando Odrade e Scytale entraram na sala de trabalho. A luz do pôr-do-sol inclinava-se abruptamente sobre os telhados. O brilho desapareceu então, e deixou atrás uma sensação de contraste, a noite mais escura por causa daquela última luminosidade ao longo do horizonte.

Na penumbra leitosa, Odrade acenou para que os guardas se afastassem, notando sua relutância. Bellonda os mandara ficar, obviamente, mas não desobedeceriam à Madre Superiora. Indicou uma cadeira-cão perto dela e esperou que ele sentasse. Ele olhou com desconfiança para Tamalane antes de sentar, mas disfarçou dizendo: — Por que não há nenhuma luz?

— É um interlúdio relaxante — ela disse. “E sei que a escuridão o incomoda!”

Ficou um momento atrás da mesa, identificando pedaços luminosos na penumbra, o lustro de artefatos colocados em sua volta para fazer disso o seu cenário: o busto de Chenoeh há muito morta em seu nicho ao lado da janela, e na parede à direita, uma paisagem pastoral das primeiras migrações humanas no espaço,

uma pilha de cristais ridulianos na mesa e um reflexo prateado de seu escriba-luz concentrando a iluminação fraca das janelas.

“Eleja está bem assado.”

Tocou uma placa na mesa de comando. Globos luminosos colocados estrategicamente nas paredes e no teto se acenderam.

Tamalane virou na hora certa, com o manto produzindo um sussurro deliberado. Ficou dois passos atrás de Scytale, a imagem do mistério agourento Bene Gesserit.

Scytale contorceu-se ligeiramente com o movimento de Tamalane, e depois ficou quieto. A cadeira-cão era grande demais para ele e parecia uma criança sentado nela.

Odrade disse: — As irmãs que salvaram você disseram que comandava uma não-nave no Entroncamento preparando-se para o primeiro salto nas dobras do espaço quando as Honradas Madres atacaram. Você estava indo para sua nave em um deslizador, disseram, e se desviou um segundo antes das explosões. Detectou os atacantes?

— Sim. — Relutância na voz.

— E sabia que poderiam localizar a não-nave pela sua trajetória. Então fugiu, deixando seus irmãos para serem destruídos.

Ele falou com a amargura total de uma testemunha trágica:

— Antes, quando estávamos rumando para fora de Tleilax, vimos o ataque começar.

Nossas explosões visando destruir tudo que tivesse valor para as atacantes e as incendiárias do espaço criaram o holocausto.

Fugimos também, então.

— Mas não diretamente para o Entroncamento.

— Elas tinham estado antes de nós em todos os lugares que procuramos. Ficaram com as cinzas, mas eu tinha nossos segredos.

“Devo lembrá-la de que ainda tenho algo de valor para negociar!” Bateu com um dedo na cabeça.

— Você procurou refúgio na Corporação ou no CHOAM no Entroncamento — ela disse. — Foi sorte sua que nossa nave espiã estivesse lá para pegá-lo, antes que o inimigo pudesse reagir.

— Irmã... — ”Como essa palavra era difícil!”... se você realmente é minha irmã em kehl, por que não me fornece

Dançarinos Faciais como serviçais?

— Ainda há segredos demais entre nós, Scytale. Por exemplo, por que você estava saindo de Bandalong quando veio o ataque?“Bandalong!”

O nome da grande cidade Tleilaxu constringiu-lhe o peito e pensou que sentia a cápsula de nulentropia pulsar, como se procurasse soltar o precioso conteúdo. “Bandalong perdida. Nunca mais poder ver a cidade de céus de cornalina, nunca mais sentir a presença de irmãos, do paciente Domei e...”

— Está se sentindo mal? — Odrade perguntou.

— Estou doente com o que perdi! — Ouviu um ruído de tecido atrás dele e sentiu Tamalane se aproximar. Como era opressivo este lugar! — Por que ela está atrás de mim?

Continuar: parte 11 de 16