As Herdeiras de Duna

Frank Herbert · Capítulo 2 de 3 · parte 14/16

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As Herdeiras de Duna

Folha de Rosto

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 16 partes.

“Alimente-nos com jazz.”

As viagens pelo ar e pelo espaço geralmente não tinham nada a ver com o tempo. Abriam o caminho à força de interferências transitórias. Dependem da Meteorologia para providenciar janelas de lançamento através das tempestades e da cobertura das nuvens. Os planetas desertos eram uma exceção, e teriam de ser introduzidos nas equações da Sede muito em breve. Muitas mudanças, inclusive a volta às práticas mortuárias dos Fremen. O

reaproveitamento da água e da potassa dos corpos.

Odrade falava a respeito, enquanto esperavam ser transportadas para a nave. Essa vasta faixa de terra seca e ardente expandindo-se ao redor do equador do planeta começaria logo a gerar ventos perigosos. Um dia, haveria tempestades coriólis: um alto-forno do interior do deserto, com velocidades de centenas de quilômetros por hora. Duna tinha visto ventos de mais de 700km por hora. Até as barcaças espaciais tomavam conhecimento de tal força. As viagens espaciais estariam sujeitas aos constantes caprichos das condições da superfície. E a frágil carne humana deveria procurar encontrar qualquer abrigo que pudesse.

“Como sempre fizemos.”

A sala de estar da Plataforma era antiga. Construída em pedra, seu principal material de construção. Cadeiras-linga espartanas e mesas baixas de plaz moldado eram mais recentes.

Não se podia deixar de observar a economia, mesmo para a Madre Superiora.

A barcaça chegou num redemoinho de poeira. Nada de tolices de pára-choques suspensores. Seria uma subida rápida, com acelerações gravitacionais desconfortáveis, mas a altura não seria suficiente para machucar a carne.

Odrade sentiu-se quase separada do corpo quando fez suas últimas despedidas, e transformou a Sede da Irmandade num triunvirato de Sheeana, Murbella e Bellonda. Uma palavra final: —

Não interfiram com Teg. E não quero que nada de mal aconteça a Duncan. Ouviu bem, Bell?

Com toda essa maravilhosa tecnologia de que dispunham, não podiam, ainda assim, impedir que a espessa tempestade de areia as cegasse quando levantaram vôo. Odrade fechou os olhos e

aceitou o fato de que não teria uma última visão de baixo nível do seu amado planeta. Acordou com o baque surdo da nave atracando.

O carro-bala esperando no corredor logo adiante da barreira. Uma travessia agitada aos alojamentos. Tamalane, Dortujla e a acólita servente mantinham silêncio, respeitando o desejo da Madre Superiora de estar com seus pensamentos.

Os aposentos, pelo menos, eram familiares, o padrão das naves Bene Gesserit: uma pequena sala de estar, que era ao mesmo tempo destinada às refeições, em plaz de um verde-claro uniforme; um quarto de dormir de dimensões menores, com paredes da mesma cor e um único catre duro. Conheciam as preferências da Madre Superiora. Odrade relanceou os olhos para o sanitário usiforme, com banho e vaso. Instalações padrão. Os aposentos ao lado, para Tamalane e Dortujla, eram semelhantes. Haveria tempo mais tarde para se olharem as readaptações da nave.

Tudo o que era necessário estava lá. Inclusive elementos discretos de apoio psicológico: cores suaves, móveis familiares, um cenário planejado de modo a não perturbar seus processos mentais.

Ela deu as ordens de partida antes de retornar à sala de estar.

A refeição a esperava numa mesa baixa — frutazul, doce e suculenta, uma deliciosa pasta amarela no pão, especialmente para restaurar suas energias. Muito bom. Observou a acólita designada para servi-la, no trabalho discreto de arrumar os pertences da Madre Superiora. Por um segundo, seu nome fugiu à mente de Odrade.

Logo depois lembrou-se: Suipol. Uma coisinha escura, com um rosto calmo e redondo e atitudes tranqüilas. “Não uma das mais brilhantes, mas de garantida eficiência.”

De repente ocorreu a Odrade que essas atribuições tinham um elemento empedernido em si. “Uma pequena comitiva, para não ofender as Honradas Madres. E ter um mínimo de perdas.”

— Já desempacotou minhas coisas, Suipol?

— Sim, Madre Superiora. — Muito orgulhosa por ter sido escolhida para esta importante missão. Via-se pelo seu andar, quando saiu.

“Há coisas que você não pode desempacotar para mim, Suipol. Carrego-as na cabeça.”

Nenhuma Bene Gesserit da Sede da Irmandade jamais tinha deixado o planeta, sem levar consigo uma certa dose de chauvinismo. Os outros lugares nunca eram tão belos, tão tranqüilos nem tão agradáveis como lugar de moradia.

“Mas isso se referia à Sede que existia antes.”

Era um aspecto da transformação do deserto que ela nunca tinha visto dessa forma. A Sede da Irmandade estava removendo a si própria. Indo embora, para nunca mais, pelo menos não no período da vida daqueles que a conheciam agora. Era como ser abandonada por um pai amado — com desdém e maldade.

“Você não é mais importante para mim, criança.”

No processo de tornar-se uma Reverenda Madre, elas eram ensinadas que as viagens podiam oferecer um desvio tranqüilo para repouso. Odrade tinha a firme intenção de tirar proveito disso, e avisou suas companheiras logo depois de comerem. — Poupem-me os detalhes.

Através de Suipol, convocou Tamalane e falou-lhe em seu próprio ritmo conciso: — Vistorie os consertos e relate-me o que for necessário. Leve Dortujla.

— Essa aí tem uma boa cabeça. — Era um alto elogio, vindo de Tam. — Quando tivermos acabado, isolem-me tanto quanto possível. Durante uma boa parte da travessia, Odrade envolveu-se nas correias do catre e ocupou-se do que podia ser chamado de testamento ou últimos desejos.

“Quem seria a testamenteira?”

Murbella era sua escolha pessoal, principalmente depois do Compartilhar com Sheeana. No entanto, a menina de Duria era ainda uma forte candidata, caso esta aventura no Entroncamento falhasse.

Alguns achavam que qualquer Reverenda Madre serviria, se a responsabilidade recaísse sobre seus ombros. Mas não nestes tempos. Não com a cilada armada. Provavelmente as Honradas Madres não evitariam a armadilha.

“Se é que as julgamos corretamente. E as informações de Murbella revelam que fizemos o possível. Aí está a entrada para as

Honradas Madres, e oh, como ela parecerá convidativa. Elas não verão o beco sem saída, a não ser quando já estiverem bem dentro dele. Tarde demais! “Mas se falharmos?”

Os sobreviventes (se houvesse algum) olhariam Odrade com desprezo. “Muitas vezes senti-me diminuída, mas nunca um objeto de desprezo. Embora as decisões que tomei possam não ser nunca aceitas por minhas Irmãs. Pelo menos, não me desculpo... nem mesmo com aquelas com quem Compartilhei. Elas sabem que minha resposta vem de uma escuridão anterior ao alvorecer da humanidade. Qualquer uma de nós pode agir futilmente ou mesmo cometer uma grande tolice. Mas meu plano tem possibilidade de dar-nos a vitória. Não’ sobreviveremos’, simplesmente. Nosso ideal exige que sejamos persistentes com união. Os humanos precisam de nós! Às vezes, eles necessitam de religiões. Outras, precisam apenas saber que suas crenças são tão vazias como suas esperanças de nobreza. Nós somos a fonte. Quando se removem as máscaras, é isso que fica: nosso Nicho.”

Sentiu, então, que essa nave a estava levando para o abismo. Cada vez mais próxima da horrível ameaça.

“Sou eu quem vai ao machado; não ele a mim.” Não se pensava em exterminar esse inimigo. Desde que a Dispersão aumentara a população humana, isso não tinha mais sido possível.

Uma falha nos esquemas das Honradas Madres.

O bip agudo e o pisca-pisca laranja que assinalavam a chegada arrancaram-na de seu repouso. Livrou-se, com certa dificuldade, das correias de segurança e, tendo Tam, Dortujla e Suipol logo atrás de si, seguiu um guia até a barreira de transporte, onde uma barcaça espacial de longo alcance estava presa ao frontispício da nave. Odrade pôde vê-la nos dispositivos exploradores da antepara. Incrivelmente pequena!

— Serão apenas dezenove horas — dissera Duncan. — Mas é a distância máxima a que ousamos trazer a não-nave. É certo que elas têm sensores nas dobras do espaço bem em volta do Entroncamento.

Bell, desta vez, estava de acordo. “Não arrisque a nave. Ela está lá para traçar os esquemas das defesas exteriores de receber

suas transmissões, não simplesmente para levar a Madre Superiora.” A barcaça era o sensor dianteiro, assinalando o que encontrasse.

“E eu sou o sensor extremo, um corpo frágil com instrumentos delicados.”

Havia setas de orientação na barreira. Odrade ia à frente. Atravessaram um pequeno tubo em queda livre. Ela viu-se numa cabina surpreendentemente luxuosa. Suipol, saltando logo atrás, reconheceu-a e subiu um ponto na estima de Odrade.

— Era uma nave de contrabandista.

Alguém esperava por elas. Um homem, pelo cheiro, mas um capacete opaco de piloto — cheio de conectores — escondia-lhe a face. — Entrem todos e atem-se com as correias. Uma voz de homem, dentro dessa instrumentação. “Teg o escolheu. Será o melhor de todos.”

Odrade escorregou para um assento atrás da portinhola de aterrissagem e viu as grossas saliências do equipamento de teia enrolado. Ouviu as outras obedecerem ao comando do piloto.

— Todas seguras? Permaneçam com as correias até que eu diga o contrário. — Sua voz vinha de um alto-falante flutuante atrás de seu assento, no comando da direção.

Ouviu-se o som do umbigo — bap! Odrade sentiu movimentos moderados, mas a visão no retransmissor a seu lado mostrou a não-nave retrocedendo a uma velocidade notável.

Desapareceu num piscar de olhos.

“Cuidando de seus negócios, antes que alguém venha investigar.

A barcaça tinha uma velocidade surpreendente. Os dispositivos exploradores davam notícia de estações planetárias e barreiras de transição a mais de 18 horas de distância, mas os pontos cintilantes que as identificavam eram visíveis somente porque tinham sido aumentados. Uma abertura no explorador dizia que as estações seriam visíveis a olho nu em pouco mais de 12

horas.

A sensação de movimento cessou abruptamente, e Odrade não mais sentiu a aceleração que seus olhos denunciavam. “Cabine suspensora. Tecnologia ixiana para um campo nulo deste tamanho.”

Onde Teg a teria adquirido?

“Não é necessário que eu saiba. Por que relatar à Madre Superiora onde está localizada cada plantação de carvalho?”

Observou os contatos do sensor começarem dentro de uma hora e, silenciosamente, agradeceu a Duncan por sua astúcia.

“Estamos começando a conhecer essas Honradas Madres.”

O modelo defensivo do Entroncamento era evidente, mesmo sem análise dos dispositivos de exploração. Planos sobrepostos!

Bem como Teg tinha predito. Com o conhecimento do espaçamento das barreiras, o pessoal de Teg poderia tecer um outro globo ao redor do planeta.

“Com toda certeza não é assim tão simples.”

Seriam as Honradas Madres tão confiantes em seu poder esmagador a ponto de ignorar precauções elementares?

A Estação Planetária Quatro começou a chamar quando estavam a menos de três horas da partida. — Identifiquem-se!

Odrade pôde perceber um “ou então...” nesse comando. A resposta do piloto obviamente surpreendeu os observadores. —

Vocês vêm numa naveta de contrabandistas?

“Então elas a reconhecem. Teg está certo, mais uma vez.”

— Estou me preparando para destruir o equipamento sensor da direção da nave — anunciou o piloto. — Isso nos dará maior impulso. Certifiquem-se de que todas estão bem presas.

A Estação Quatro percebeu. — Por que estão aumentando a velocidade?

Odrade inclinou-se para a frente. — Repita o contra-sinal e diga que nosso grupo está fatigado pela longa permanência em local restrito. Acrescente que estou equipada com um transmissor de sinais vitais para alertar meu povo, caso eu morra.

“Elas não vão encontrar o código! Como Duncan fora esperto.

E Bell não estava surpresa com o que ele escondera no sistema da nave? Mais romantismo!”

O piloto retransmitiu suas palavras. Veio a ordem de volta: —

Reduzam a velocidade e limitem-se a essas coordenadas para a aterrissagem. Estamos assumindo o controle da sua nave neste ponto. O piloto tocou um campo amarelo em sua mesa. — Do jeito que o Bashar disse que fariam. — Um tom de satisfação em sua voz. Ergueu o capacete e voltou-se.

Odrade ficou chocada.

“Cyborg!”

O rosto era uma máscara de metal com duas cintilantes bolas de prata no lugar dos olhos.

“Entramos em terreno perigoso.”

— Não lhe contaram? — ele perguntou — Não tenha pena.

Eu estava morto, e isto me devolveu a vida. É Clairby, Madre Superiora. E quando eu morrer, desta vez, isso me dará vida como ghola. “Maldição! Estamos negociando numa moeda que pode nos contradizer. Tarde demais para mudar. E esse era o plano de Teg.

Mas... Clairby?

A barcaça aterrissou com uma suavidade que revelava o magnífico controle da Estação Quatro. Odrade soube o momento, porque a paisagem bem delineada visível no explorador não se moveu mais. O campo nulificado foi desligado e ela sentiu a gravidade. Abriu-se a portinhola diretamente à sua frente. A temperatura era agradavelmente aquecida. Barulho lá fora. Crianças divertindo-se em jogos competitivos?

Com a bagagem flutuando atrás de si, ela subiu um pequeno lance de escadas e viu que, de fato, o barulho vinha de um grande grupo de crianças num campo das proximidades. Todas do sexo feminino, em final de adolescência. Estavam lançando, de um lado para o outro, uma bola suspensora, gritando e falando alto enquanto jogavam.

“Encenação dirigida a nós?”

Pareceu-lhe que sim. Haveria possivelmente duas mil jovens naquele campo.

“Veja quantas recrutas vêm por aí!”

Ninguém a cumprimentou, mas Odrade viu uma estrutura familiar no fim de uma alameda pavimentada à sua esquerda.

Tratava-se obviamente de um artefato da Corporação Espacial aumentada com uma torre recente. Falava da torre enquanto relanceava em volta, dando ao transmissor implantado informações sobre uma mudança na planta de Teg. No entanto, ninguém que algum dia tivesse visto edifícios da Corporação poderia enganar-se a respeito desse lugar.

Então este era igual a outros planetas do Entroncamento. Em algum lugar dos registros da Corporação haveria, sem dúvida, um número de série e um código para ele. Há tanto tempo sob seu controle, antes das Honradas Madres, que nesses primeiros momentos de desembarque, em contato com o solo, tudo a seu redor parecia apresentar as características da Corporação. Até mesmo o campo de jogos — projetado para os encontros ao ar livre dos Navegadores, em seus recipientes de gás de melange.

A característica da Corporação: era composta de tecnologia ixiana e projeto dos Navegadores — construções envolvendo espaço no modo mais conservador de energia, caminhos diretos; poucas pistas deslizadoras. Eram dispendiosas, e somente os que estavam ligados à gravidade precisavam delas. Não havia flores plantadas nas proximidades da Plataforma de Aterrissagem. Eram suscetíveis de destruição acidental. E aquela tonalidade cinza permanente — não prateada, mas opaca como a pele dos Tleilaxu.

A estrutura à sua esquerda era uma grande forma bojuda com protuberâncias, algumas redondas e outras angulares. Não fora uma hospedaria luxuosa. Pequenos cantos opulentos, naturalmente, mas esses eram raros, construídos para pessoas muito importantes, principalmente inspetores da Corporação.

“Mais uma vez Teg está certo. As Honradas Madres apoderaram-se das estruturas existentes, remodelando o mínimo possível. Uma torre!”

Odrade lembrou-se então: “Este não é apenas um outro mundo, mas uma outra sociedade, com seu próprio agente adesivo social.” Tinha percebido isso a partir de seu Compartilhar com Murbella, mas achava que ainda não havia penetrado naquilo que

mantinha as Honradas Madres unidas. Com certeza não apenas a sede de poder.

— Caminharemos — disse, e dirigiu-se pela alameda pavimentada em direção à estrutura gigantesca.

“Adeus, Clairby. Faça explodir sua nave o quanto antes. Será a nossa primeira grande surpresa para as Honradas Madres.”

A grande construção assomou mais alta à sua aproximação.

A coisa mais surpreendente para Odrade, sempre que ela via uma dessas construções funcionais, era que alguém tinha tido um enorme cuidado em planejá-la. Detalhes intencionais em tudo, embora às vezes fosse necessário descobri-los. O orçamento determinava a qualidade rebaixada em muitas escolhas, sendo dada preferência à durabilidade, em detrimento do luxo ou do apelo visual. Concessão, e como toda concessão, não satisfazia ninguém.

Os tesoureiros, sem dúvida, tinham reclamado do preço, e os ocupantes atuais podiam ainda sentir-se irritados com as falhas.

Não importa. A coisa era substância tangível. Devia ser usada agora. Uma outra concessão.

A sala de espera era menor do que esperava. Algumas mudanças interiores. Somente aproximadamente seis metros de comprimento e talvez quatro metros de largura. O balcão de recepção estava à direita de quem entrava. Odrade mandou que Suipol registrasse o grupo e indicasse que o resto da comitiva esperaria na área aberta, a uma considerável distância um do outro.

A traição ainda não tinha sido inteiramente descartada.

Dortujla obviamente a esperava. Parecia resignada.

Odrade fez uma cuidadosa inspeção e comentou sobre o ambiente. Cheio de televigias, mas o resto...

Cada vez que entrava num desses lugares tinha a sensação de estar num museu. A Outra Memória dizia-lhe que hospedarias desse tipo não haviam mudado consideravelmente durante eras.

Mesmo nos tempos antigos, encontravam-se exemplos. Um lampejo do passado nos lustres — gigantescos objetos resplandecentes, imitando dispositivos elétricos, porém equipados com globos luminosos. Dois deles dominavam o teto como espaçonaves imaginárias, descendo do espaço com esplendor.

Havia mais vislumbres do passado, que poucas pessoas desta era perceberiam. O arranjo da área da recepção atrás de aberturas em grade, o espaço para esperar com sua mistura de assentos e iluminação inconveniente, letreiros indicando a direção de serviços — restaurantes, salas de narcóticos, bares de encontros, instalações para exercícios e natação, salas de automassagem e similares. Somente a língua e a escrita tinham mudado, em relação aos tempos de outrora. Se a linguagem fosse conhecida, os letreiros seriam reconhecíveis aos primitivos anteriores à era espacial. Esta era uma parada temporária.

Repleto de instalações de segurança. Algumas tinham a aparência de artefatos de Dispersão. Ix e a Corporação nunca desperdiçaram ouro em televigias e sensores.

Havia uma dança frenética de criados-robôs no recinto da recepção — movimento para lá e para cá, limpeza, reconhecimento de detritos, orientação de recém-chegados. Um grupo de quatro Ixianos precedeu a comitiva de Odrade. Ela prestou-lhes bastante atenção. Cheios de auto-importância, ao mesmo tempo que receosos.

A seus olhos Bene Gesserit, as pessoas de Ix eram sempre reconhecíveis, independente dos disfarces. A estrutura básica de sua sociedade coloria seus indivíduos. Exibiam uma atitude hogbenesca em relação à sua ciência: que as exigências econômicas e políticas determinavam a pesquisa que era permissível. Isso revelava que a ingenuidade inocente dos sonhos sociais ixianos tornara-se a realidade do centralismo burocrático —

uma nova aristocracia. Assim levados a um declínio que não seria interrompido por nenhuma acomodação que esse grupo ixiano pudesse fazer com as Honradas Madres.

“Independente do resultado de nossa disputa, Ix está no fim.

Pode-se testemunhar que não tem havido inovações ixianas durante séculos.”

Suipol voltou. — Pedem que esperemos por um acompanhante.

Odrade resolveu iniciar as negociações imediatamente, com uma conversa que visava atingir Suipol, os televigias e as ouvintes

em sua não-nave.

— Suipol, você notou aqueles Ixianos na nossa frente?

— Sim, Madre Superiora.

— Preste bem atenção neles. São produto de uma sociedade em extinção. É ingênuo esperar que qualquer burocracia faça bom uso de quaisquer inovações brilhantes. As burocracias fazem outro tipo de perguntas. Sabe quais são?

— Não, Madre Superiora. — Palavras ditas depois de um olhar perscrutador em volta.

“Ela sabe! Mas está vendo o que estou fazendo. Que garota!

Eu a subestimei.”

— São perguntas típicas, Suipol: Quem recebe o crédito?

Quem será culpado se houver problemas? Mudará a estrutura de poder, custando-nos empregos? Ou tornará algum departamento secundário mais importante?

Suipol assentiu, atendendo à deixa, mas seu olhar aos televigias parecia um pouco óbvio demais. Não importa.

— Essas perguntas políticas — disse Odrade —

demonstram como as razões da burocracia se opõem diretamente à necessidade de adaptar-se à mudança. A capacidade de adaptação é uma exigência primordial para a sobrevivência.

“Hora de falar diretamente às nossas anfitriãs.”

Voltou a atenção para cima, visando um televigia proeminente no lustre. — Observe esses Ixianos. Sua “mente num universo determinista” deu lugar à “mente num universo ilimitado”

onde qualquer coisa pode acontecer. A anarquia criativa é o caminho para a sobrevivência neste universo.

— Obrigada pela aula, Madre Superiora.

“Deus a abençoe, Suipol.”

— Depois de todas as suas experiências conosco — Suipol disse eles com toda certeza não põem em dúvida nossa mútua lealdade.

“Que o Destino a conserve! Essa aí está pronta para a Agonia, e talvez nem chegue a conhecê-la.”

Odrade só podia concordar com a conclusão da acólita. A obediência aos métodos Bene Gesserit vinha de dentro, daqueles

detalhes constantemente controlados que mantinham sua própria casa em ordem. Não era uma visão filosófica, mas pragmática do livre-arbítrio. Qualquer reivindicação que a Irmandade pudesse ter no sentido de abrir seu próprio caminho num universo hostil jazia na adesão escrupulosa à lealdade mútua, um acordo forjado na Agonia. A Sede da Irmandade e suas poucas restantes subsidiárias eram sementeiras de uma ordem fundada em compartilhar e no Compartilhar. Não baseada na inocência. Isso fora perdido há muito tempo. Era firmemente estabelecida na consciência política e numa perspectiva da história independente de outras leis e costumes.

— Não somos máquinas — Odrade disse, relanceando o olhar pelos autômatos ao redor. — Sempre confiamos nas relações pessoais, sem saber nunca aonde elas nos levarão.

Tamalane aproximou-se de Odrade. — Não acha que elas deveriam enviar-nos um recado, pelo menos?

— Já nos enviaram, Tam, colocando-nos numa hospedaria de segunda classe. E eu dei a resposta.

Basicamente, todas as coisas são conhecidas, porque as pessoas querem acreditar que as conhecem.

— Koan Zensunni

Teg respirou profundamente. Gammu estava diretamente em frente, exatamente onde seus navegadores disseram que estaria quando eles emergissem das Dobras do Espaço. Ele observava isso no painel da estação de comando da nave capitania, ao lado de uma atenta Streggi.

Ela não estava satisfeita em vê-lo de pé, em vez de acomodar-se em seus ombros. Sentia-se sem função, em meio à parafernália militar. Seu olhar permanecia voltado para os campos multiprojetores do centro da estação de comando. Auxiliares entravam e saíam com eficiência dos suspensores aerodinâmicos e dos campos em vestimentas esotéricas, sabendo o que estavam fazendo. Ela possuía apenas uma idéia muito vaga dessas funções.

O painel de comunicações para transmitir as ordens de Teg ficava sob suas mãos, erguido nos suspensores. O campo de comando formava um leve brilho azulado em volta de suas mãos. A correia prateada em forma de ferradura que o ligava à força de ataque pendia-lhe levemente dos ombros, numa posição familiar, embora fosse muito maior em relação a seu pequeno corpo do que as antigas conexões de sua vida anterior.

Ninguém à sua volta questionava mais que esse era o famoso Bashar num corpo de criança. Aceitavam suas ordens com imediata aquiescência.

O sistema de alvo parecia comum a essa distância: um sol e seus planetas cativos. Mas o planeta Gammu, no foco central, não era comum. Aí Idaho tinha nascido, aí seu ghola fora treinado, aí foram restauradas suas memórias.

“E aí eu fui modificado.”

Teg não tinha explicação para o que descobrira em si, sob a tensão de sobreviver em Gammu. Velocidade física que esgotara sua carne e uma capacidade de ver as não-naves, de localizá-las

num campo imaginário como um bloco do espaço reproduzido na mente.Ele suspeitava de um afloramento selvagem dos genes Atreides. Tinham-se identificado nele células impressoras, mas não o seu propósito. Era a herança Bene Gesserit na qual as Madres Procriadoras tinha interferido durante eras. Havia pouca dúvida de que elas considerassem essa capacidade como algo potencialmente perigoso para a Irmandade. Poderiam usá-la, mas certamente ele perderia a liberdade.

Afastou da mente essas reflexões.

— Lancem as armadilhas.

“Ação!”

Teg percebeu-se assumindo uma postura familiar. Havia uma sensação de elevar-se a uma superioridade restauradora, quando o planejamento chegava ao fim. As teorias tinham sido articuladas, as alternativas cuidadosamente exploradas e os subordinados distribuídos, inteiramente instruídos. Os principais chefes de equipes tinham registrado Gammu na memória — onde se poderia contar com o auxílio de guerrilheiros, cada orifício de pino, cada ponto forte conhecido e quais estradas de acesso eram mais vulneráveis.

Tinha-os prevenido especialmente quanto aos Futares. A possibilidade de que feras humanóides fossem aliados não poderia ser subestimada. Os rebeldes que tinham ajudado o ghola Idaho a escapar de Gammu insistiram que esses humanóides foram criados para caçar e matar as Honradas Madres. Conhecendo-se os relatos de Dortujla e de outros, era possível quase ter pena das Honradas Madres, a não ser pelo fato de que não se devia desperdiçar piedade com aqueles que não a demonstravam em relação aos demais.O ataque estava tomando a forma planejada — naves de reconhecimento fazendo uma obstrução de armadilhas e pesados aviões-base movendo-se para a posição de ataque. Teg tornou-se agora o que considerava “o instrumento de meus instrumentos”. Era difícil determinar o que comandava e o que respondia.

“Agora, a parte delicada.”

Devia-se temer o inesperado. Um bom comandante devia manter isso em mente, com firmeza. Havia sempre o inesperado.

As armadilhas aproximavam-se do perímetro defensivo. Ele via as não-naves inimigas e os sensores das dobras do espaço —

pontos brilhantes distribuídos através de sua consciência. Teg superimpôs isso às posições de sua força. Toda ordem que ele dava devia parecer originar-se de um plano de batalha que todos compartilhavam.

Sentiu-se agradecido por Murbella não ter-se juntado a ele.

Qualquer Reverenda Madre poderia perceber seu engodo. Mas ninguém tinha questionado a ordem de Odrade para que Murbella esperasse com seu grupo a uma distância segura.

“Madre Superiora em potencial. Proteja-a bem.”

A demolição explosiva de armadilhas começou com uma demonstração ao acaso de relâmpagos ao redor do planeta.

Inclinou-se para a frente, fixando o olhar nas projeções.

— Lá está o padrão!

Não existia tal padrão, mas suas palavras construíam a crença, e os pulsos se aceleravam. Ninguém questionava que o Bashar tivesse percebido vulnerabilidade nas defesas. Suas mãos voavam no painel de comunicações, enviando adiante as naves num espetáculo chamejante que coalhava o espaço atrás de si com fragmentos do inimigo.

— Tudo certo. Lá vamos nós!

Ele alimentou o curso de nave capitania diretamente na Navegação e depois voltou a atenção total para o Controle de Fogo.

Explosões silenciosas pontilhavam o espaço ao redor, enquanto a nave capitania recolhia os sobreviventes ao perímetro dos guardiães de Gammu.

— Mais armadilhas — ordenou.

Globos de luz branca piscaram nos campos de projeção.

A atenção na baía de comando concentrada nos campos, não em seu Bashar. “O inesperado!” Teg, famoso por isso, estava confirmando sua reputação, com justiça.

— Acho tudo isso estranhamente romântico — Streggi disse.

“Romântico?” Não havia romance nisso. O tempo para tal tinha passado e ainda estava por vir. Uma certa aura poderia rodear os planos de violência. Ele podia aceitá-lo. Os historiadores criavam sua própria marca de drama-cum-romance. Mas agora? Este era o tempo de adrenalina! O romance distraía as pessoas das necessidades. Tinha-se que ser frio interiormente, traçando uma linha divisória nítida e forte entre a mente e o corpo.

Enquanto movia as mãos no campo do painel de comunicação, Teg compreendeu o que tinha levado Streggi a falar.

Algo primitivo a respeito da morte e da destruição que estavam sendo criadas aqui. Este era um momento extraído da ordem normal. Uma volta perturbadora aos antigos padrões tribais.

Ela sentia um tam-tam no peito e vozes entoando: — Matar!

Matar! Matar!

A visão de Teg das não-naves guardiãs mostrava os sobreviventes fugindo em pânico.

“Bom! O pânico tem uma forma de se espalhar e enfraquecer os inimigos.”

— Lá está o Baronato.

Idaho dera-lhe o antigo nome Harkonnen para a cidade que se expandia em volta de seu centro negro gigantesco de plasteel.

— Desceremos na Plataforma ao norte.

Pronunciou as palavras, mas as ordens foram dadas pelas mãos. “Depressa, agora!”

Por um breve espaço de tempo, quando vomitavam as tropas, as não-naves eram visíveis e numerosas. Ele estava no controle de todos os elementos da força que respondiam a seu painel, e a responsabilidade era enorme.

— Isto é apenas uma simulação. Entramos e saímos depois de infligir sérios danos. Nosso verdadeiro alvo é o Entroncamento.

O aviso de Odrade na hora da partida estava presente na memória: — As Honradas Madres devem receber uma lição como nunca tiveram antes. Ataquem-nos e vocês serão duramente feridas. Se nos pressionarem, a dor poderá ser enorme. Elas já ouviram a respeito dos castigos Bene Gesserit. São notórios. Sem

dúvida a Rainha Aranha riu-se desdenhosa. Faça-a engolir seu desdém.

— Abandonar a nave!

Este era o momento vulnerável. O espaço acima estava limpo de ameaças, mas lanças de fogo vindas do leste formavam um arco interno. Seus atiradores podiam lidar com isso. Concentrou-se na possibilidade de que as não-naves inimigas voltassem num ataque suicida. As projeções da baía de comando mostraram que naves e aviões-base em grande número eram despejados dos porões. A força de choque, uma elite encouraçada sobre suspensores, tinha já o perímetro seguro.

Lá iam os televigias portáteis para estender seu campo de observação e transmitir os detalhes íntimos da violência.

Comunicação, a chave do comando responsivo, mas também a fonte de destruição sangrenta.

— Tudo desimpedido!

O sinal ressoou pela baía.

Ele ergueu-se da Plataforma e voltou à posição de total invisibilidade. Agora, somente os comunicadores davam aos defensores uma pista de sua posição, porém isso estava disfarçado pelas transmissões de falsas pistas.

A projeção mostrou o retângulo monstruoso do antigo centro Harkonnen. Tinha sido construído como um bloco de metal absorvente de luz para prender escravos. A elite vivera nas mansões ajardinadas lá em cima. As Honradas Madres tinham retornado a construção à sua antiga opressão.

Três de suas grandes naves batedoras apareceram.

— Limpem o topo dessa coisa! — ordenou. — Limpem completamente a área, mas causem o menor dano possível à estrutura.

Sabia que suas palavras eram supérfluas, mas falava para relaxar. Todos na força de ataque sabiam de sua intenção.

— Relatórios de transmissão — ordenou.

A informação começou a fluir da conexão em forma de ferradura, em seus ombros. Ele ligou na linha secundária. Os televigias mostraram seus homens desimpedindo o perímetro. A

batalha no espaço e em terra estava inteiramente sob controle por 50 quilômetros, pelo menos. Estavam indo bem, melhor do que esperara. Então as Honradas Madres mantinham sua artilharia pesada fora do planeta, não antecipando um ataque assim ousado.

Uma atitude familiar, e ele tinha que agradecer a Idaho pela previsão.

“Elas têm a cegueira do poder. Acham que a proteção pesada é para o espaço, e somente o armamento leve é indicado para a batalha em terra. As armas pesadas são trazidas para a terra conforme a necessidade. Não há sentido em conservá-las no planeta. Exigem energia demais. Além disso, a consciência de todo esse material lá em cima tem um efeito apaziguante sobre as populações cativas.”

Os conceitos de Idaho a respeito de armamento eram devastadores.

“Tendemos a fixar a mente naquilo que pensamos que sabemos. Um projétil é um projétil, mesmo quando miniaturizado para conter veneno ou bactérias.”

A inovação no equipamento projetivo aperfeiçoou a mobilidade. Embutidos nos uniformes sempre que possível. E Idaho tinha trazido de volta o escudo com sua temível destruição quando atingido por um raio de arma laser. Escudos sobre suspensores escondidos no que parecia serem soldados (mas que na realidade eram uniformes inflados) espalhavam-se adiante das tropas. O fogo da arma laser sobre eles produzia explosões atômicas que destruíam vastas áreas.

“O Entroncamento será assim fácil?”

Teg duvidava. A necessidade forçava uma rápida adaptação a novos métodos.

“Eles poderiam ter escudos no Entroncamento em dois dias.”

E nenhuma inibição sobre como empregá-los.

Os escudos tinham dominado o Antigo Império, ele sabia, em função daquele conjunto de palavras estranhamente importante chamado “Grande Convenção”. As pessoas honestas não faziam mau uso das armas de sua sociedade feudal. Se alguém desonrasse a Convenção, seus companheiros se voltariam contra

ele, unidos na violência. Mais do que isso, houvera a “Face”

intangível, que alguns chamavam de “Orgulho”.

“Face! Minha posição no bando.”

Mais importante para alguns do que a própria vida.

— Está nos custando muito pouco — Streggi disse.

Ela estava se tornando praticamente uma analista de batalha, e banal em demasia, para o gosto de Teg. Streggi estava querendo dizer que estavam perdendo poucas vidas, mas talvez falasse mais verdade do que sabia.

— “É difícil imaginar que o trabalho seja feito por dispositivos baratos” — dissera Idaho. — “Mas essa é uma arma poderosa.”

Se suas armas custassem apenas uma pequena fração da energia gasta pelo inimigo, você teria uma alavanca possante que podia

prevalecer

contra

possibilidades

aparentemente

esmagadoras. Prolongando o conflito, esgotaria a substância do inimigo. Ele caía porque o controle da produção e dos trabalhadores estava perdido.

— Podemos começar a retirada — ele disse, afastando-se das projeções, enquanto repetia a ordem com as mãos. — Quero relatórios das baixas assim que... — Interrompeu o que dizia e voltou-se ante um distúrbio repentino.

“Murbella?”

Sua imagem repetia-se em todos os campos da baía. Sua voz soou alto: — Porque está negligenciando os relatórios de seu perímetro? — Ela passou por cima de seu painel, e as projeções mostraram um comandante de campo surpreendido no meio de uma sentença: — ... ordens, terei que negar seu pedido.

— Repita — Murbella disse.

As feições suadas do comandante de campo voltaram-se para seu televigia móvel. O sistema de comunicação compensou, e ele parecia olhar diretamente nos olhos de Teg.

— Repetindo: Tenho aqui uns pretensos refugiados pedindo asilo. Seu líder diz que tem um acordo pelo qual a Irmandade deveria honrar seu pedido, mas sem ordens...

— Quem é ele?

— Ele se dá o nome de Rabino.

Teg virou-se para retomar o controle do painel. — Não conheço nenhum...

— Espere! — Murbella intrometeu-se no painel. “Como ela pode fazer isso?”

Novamente sua voz soou pela baía. — Traga o Rabino e seu grupo para a nave principal. Depressa. — Silenciou a transmissão do perímetro.

Teg estava ofendido, mas em desvantagem. Escolheu uma das múltiplas imagens e fixou-lhe o olhar. — Como ousa interferir?

— Porque você não dispõe das informações necessárias. O

Rabino está no seu direito. Prepare-se para recebê-lo com honras.

— Explique-se.

— Não! Não é preciso que saiba. Mas foi acertado, de minha parte, tomar essa decisão, quando vi que você não estava respondendo.

— Esse comandante estava numa área diversiva! Sem importância para...

— Mas o pedido do Rabino tem prioridade.

— Você é tão ruim como a Madre Superiora!

— Talvez pior. Agora ouça-me! Recolha esses refugiados na nave principal. E prepare-se para me receber.

— Em absoluto! Fique onde está.

— Bashar! Há algo a respeito de seu pedido que exige a atenção de uma Reverenda Madre. Ele diz que está em perigo porque deu asilo temporário à Reverenda Madre Lucilla. Aceite isso ou saia. — Então deixe-me pôr meu pessoal a bordo e retroceder primeiro. Nós nos encontraremos quando tudo estiver desimpedido.

— Concordo. Mas trate os refugiados com cortesia.

— Agora, saia das minhas projeções. Você me tirou a visão e isso foi uma tolice!

— Você está com tudo sob controle, Bashar. Durante este hiato, uma outra nave aceitou quatro Futares. Vieram pedir que nós os levássemos aos Treinadores, mas dei ordens para prendê-los.

Trate-os com extremo cuidado.

As projeções da baía retomaram as cenas da batalha. Teg mais uma vez chamou sua força. Estava fervendo, e levou tempo para recuperar ó senso de comando. Murbella sabia como tinha minado sua autoridade? Ou ele deveria tomar isso como uma medida da importância que ela atribuía aos refugiados?

Quando a situação estava segura, ele entregou o controle da baía a um auxiliar e, montado nos ombros de Streggi, foi ver esses refugiados importantes. O que haveria de tão vital a respeito deles para que Murbella arriscasse interferir?

Eles estavam no porão de uma nave transportadora de tropas, um grupo compacto, mantido em separado por um comandante cauteloso.

“Quem sabe o que pode estar escondido entre esses desconhecidos?”

O Rabino, identificável pela deferência que lhe era demonstrada pelo comandante de campo, estava de pé, com uma mulher vestida de castanho, próximos a seu povo. Era pequeno, barbudo, e usava um solidéu branco. A luz fria fazia-o parecer antigo. A mulher protegia os olhos com a mão. O Rabino estava falando, e suas palavras tornaram-se audíveis à aproximação de Teg. A mulher estava sob ataque verbal!

— O orgulhoso será rebaixado!

Sem remover a mão da posição defensiva, a mulher disse: —

Não estou orgulhosa do que carrego.

— Nem dos poderes que esse conhecimento possa trazer-lhe? Fazendo pressão com o joelho, Teg ordenou a Streggi que parasse a uns dez passos da cena. Seu comandante relanceou-lhe um olhar, mas permaneceu na posição, pronto a agir defensivamente se houvesse necessidade.

“Bom homem.”

A mulher curvou a cabeça ainda mais baixo, e pressionou a mão contra os olhos enquanto falava: — Não recebemos conhecimento que podemos usar no serviço divino?

— Filha! — O Rabino se mantinha rigidamente ereto. — O

que quer que possamos aprender para servir melhor nunca será

uma grande coisa. Tudo que chamamos conhecimento, mesmo o que possa abarcar tudo que um coração humilde pode conter, não seria mais que uma semente nos sulcos.

Teg sentiu-se relutante em interferir. “Que modo arcaico de se expressar.” O par o fascinava. Os outros refugiados ouviam o diálogo com atenção arrebatada. Apenas o comandante de campo parecia indiferente, mantendo sua atenção nos estranhos e dando de vez em quando um sinal de mão aos auxiliares.

A mulher mantinha a cabeça respeitosamente abaixada e a mão protetora nos olhos, mas continuava defendendo-se. — Mesmo uma semente perdida nos sulcos pode produzir vida.

Os lábios do Rabino apertaram-se numa linha severa: —

Sem água e cuidado, o que significa sem a bênção e a palavra, não há vida.Um grande suspiro fez estremecer os ombros da mulher, mas ela se manteve naquela posição estranhamente submissa quando respondeu: — Rabino, eu ouço e obedeço. Entretanto, devo honrar este conhecimento que foi lançado sobre mim, porque contém a própria admoestação que acabou de me fazer.

O Rabino pôs uma das mãos em seu ombro. — Então entregue-o àqueles que o querem, e que nenhum mal a persiga.

O silêncio revelou que a discussão tinha terminado. Deu sinal a Streggi para avançar. Antes que ela pudesse mover-se, Murbella passou à frente e acenou ao Rabino, enquanto mantinha o olhar sobre a mulher.

— Em nome da Bene Gesserit e de nosso débito, desejo-lhe boas-vindas e ofereço-lhe asilo — Murbella disse.

A mulher de castanho abaixou a mão e Teg viu o brilho de lentes de contato. Ergueu a cabeça, então, e ouviram-se sons ofegantes à sua volta. Seus olhos tinham o azul total do vício da especiaria, mas apresentavam também a força interior que marcava aquelas que tinham sobrevivido à Agonia.

Murbella identificou-a imediatamente. “Uma Reverenda Madre selvagem !” Não se tinha conhecimento de nenhuma, desde os tempos dos Fremen de Duna.

A mulher fez-lhe uma reverência. — Chamo-me Rebecca. E

estou cheia de alegria por estar aqui. O Rabino pensa que sou uma tola, mas tenho uma prenda de ouro, pois trago-lhe Lâmpadas: sete milhões, seiscentos e vinte e dois mil e quatorze Reverendas Madres, todas suas, por direito.

As respostas representam um controle perigoso do universo.

Podem parecer sensatas e, no entanto,não explicar nada.

— O Açoite Zensunni

Como a espera pelo acompanhamento prometido se prolongasse, Odrade sentiu-se primeiro irritada, depois divertida.

Finalmente, começou a seguir os robôs do saguão, interferindo em seus movimentos. A maioria deles era de pequena estatura, e nenhum parecia humanóide.

“Funcionais. A marca registrada dos servomecanismos ixianos. Pequenos acompanhamentos muito, muito atarefados para uma estada no Entroncamento ou seu equivalente em algum lugar.”

Eram tão comuns, que poucas pessoas os notavam. Como não eram capazes de lidar com uma interferência deliberada, reduziram-se a zumbir em imobilidade.

— “As Honradas Madres têm pouco ou nenhum senso de humor. Eu sei, Murbella, eu sei. Mas será que elas receberão meu recado?”

Dortujla obviamente recebeu. Saiu de seu recolhimento observando aquelas extravagâncias com um largo sorriso. Tam olhava com desaprovação, mas com certa tolerância. Suipol estava encantada. Odrade foi obrigada a impedi-la de imobilizar as máquinas.

“Deixe que eu faço o antagonismo, criança. Sei o que está à minha espera.” Quando ela certificou-se de que tinha mostrado seu ponto de vista, tomou posição sob um dos lustres.

— Ouça-me, Tam.

Tamalane obedientemente colocou-se à sua frente com expressão atenta.

— Já notou, Tam, que os saguões modernos tendem a ser bem pequenos? Tamalane olhou ao redor.

— Os saguões antigamente eram grandes — disse. — A fim de proporcionar um sentimento de espaço para os poderosos, e impressionar os outros com sua importância, naturalmente.

Tamalane captou o espírito de encenação e disse: — Hoje em dia você já é importante, se conseguir viajar.

Odrade olhou para os robôs imobilizados, espalhados pelo saguão. Alguns zumbiam e agitavam-se. Outros esperavam quietos que alguém ou alguma coisa restaurasse a ordem.

A auto-recepcionista, um tubo fálico de plaz negro com um único cintilante televigia, saiu da parte de trás de sua gaiola e abriu caminho entre os robôs parados, a fim de se defrontar com Odrade.

— Está muito úmido hoje. — Tinha uma voz feminina sentimental. — Não sei o que a Meteorologia está pretendendo.

Odrade dirigiu-se a Tamalane por cima da máquina. — Por que elas têm de programar esses dispositivos mecânicos para simular pessoas amistosas?

— É obsceno — Tamalane concordou. Ela empurrou com os ombros a auto-recepcionista, que girou para detectar a fonte da interferência, mas não fez nenhum outro movimento.

Odrade conscientizou-se, de repente, de que tinha atingido a força que movera o Jihad Butleriano — a motivação da turba.

“Meu próprio preconceito!”

Analisou o mecanismo à sua frente. Estaria esperando instruções ou será que ela devia dirigir-se diretamente à coisa?

Quatro outros robôs entraram na sala com a bagagem do grupo empilhada sobre eles.

“Todas as nossas coisas cuidadosamente revistadas, tenho certeza. Procurem onde quiserem. Não carregamos nenhuma pista

de nossas legiões.”

Os quatro dispararam junto à parede, e encontraram o caminho impedido pelos que estavam paralisados. Diante disso, estacionaram, esperando que esse singular estado de coisas tivesse solução. Odrade sorriu-lhes. — Lá vão os sinais dos visitantes escondendo nossos “eus” secretos.

“Escondendo e secreto.”

Palavras para aborrecer as vigilantes.

“Vamos,Tam! Você conhece o truque. Confunda esse enorme conteúdo de inconsciência, desperte sentimentos de culpa que elas sejam incapazes de reconhecer. Provoque agitação como eu fiz com os robôs. Alerte-as. Quais são os poderes reais dessas bruxas Bene Gesserit?”

Tamalane pegou a deixa. “Visitantes e ‘eus’ secretos.”

Explicou as palavras, visando os televigias, como se estivesse falando com uma criança. — O que transportamos quando deixamos o ninho? Você é daqueles que tentam levar tudo? Ou se restringe ao necessário?

“O que as vigilantes classificariam de necessário? Artigos de toalete e roupas laváveis ou descartáveis? Armas? Elas as procuraram em nossa bagagem. Mas as Reverendas Madres costumam não carregar armas visíveis.”

— Que lugar feio — Dortujla disse, juntando-se a Tamalane e entrando no jogo. — Você chega a pensar que é de propósito.

“Ahhh, suas vigilantes asquerosas. Observem Dortujla.

Lembram-se dela? Por que teria retornado, quando sabe o que poderiam causar-lhe? Lançá-la aos Futares? Vejam como ela nem se incomoda!”

— Apenas uma passagem, Dortujla — disse Odrade. — A maioria das pessoas nunca desejaria este lugar como ponto de destino. Um inconveniente, e os pequenos desconfortos servem simplesmente para lembrar esse fato.

— Uma escala, e nunca será mais que isso, a menos que seja completamente reconstruído — Dortujla disse.

Elas ouviram? Odrade dirigiu um olhar de total compostura ao televigia escolhido.

“Esta feiúra denota intenção. Ela nos diz: proporcionaremos algo para o estômago, uma cama, um lugar para evacuar a bexiga e os intestinos, um lugar para realizar os pequenos rituais de manutenção exigidos pela carne, mas você deverá ir embora depressa, porque tudo o que realmente queremos é a energia que você deixa atrás de si.”

A auto-recepcionista acercou-se de Tamalane e Dortujla, tentando uma vez mais fazer contato com Odrade.

— Quer nos enviar a nossos aposentos imediatamente? —

Odrade disse, encarando o olho ciclópico.

— Imagine! Como fomos desatenciosas!

Onde elas foram buscar essa voz caramelada? Repulsiva.

Mas Odrade já estava a caminho da saída em menos de um minuto, com a bagagem nos robôs na frente, Suipol logo atrás, seguida por Tamalane e Dortujla.

Havia um ar de abandono em uma ala, claramente visível, quando elas passaram. Isso significaria que o tráfego no Entroncamento tinha diminuído? Interessante. As persianas estavam baixadas ao longo de todo o corredor. Escondendo algo?

Na obscuridade, ela percebeu poeira no chão e nas saliências, com poucos vestígios de instrumentos de limpeza. Ocultando o que havia atrás das janelas? Pouco provável. Tinham sido fechadas há algum tempo.Ela percebeu um padrão naquilo que estava sendo mantido.

Pouquíssimo tráfego. O efeito das Honradas Madres. Quem ousava circular muito, quando era mais seguro enterrar-se e rezar para não ser notado por perigosos malfeitores? As vias de acesso aos aposentos particulares da elite estavam sendo conservadas.

Somente os melhores estavam sendo mantidos no melhor.

“Quando os refugiados de Gammu chegarem, haverá lugar para eles.”

No saguão, um robô dera a Suipol um orientador de pulso. —

Para encontrar seu caminho, mais tarde. — Uma esfera azul com uma flecha amarela flutuante, apontando para o caminho escolhido.

— Toca um sininho, quando se chega ao local desejado.

O sino do orientador soou.

“E onde chegamos?”

Um outro lugar que as hospedeiras tinham equipado com

“todo o luxo” ao mesmo tempo em que o mantinham repulsivo.

Salas assoalhadas de amarelo suave, paredes cor de malva e teto branco. Não havia cadeiras-cão. Devia-se agradecer por isso, embora a ausência denotasse economia e não cuidado com a preferência dos hóspedes. As cadeiras-cão exigiam manutenção e um staff dispendioso. Ela viu o estofamento com tecido de permaflox. E por trás do tecido percebeu a elasticidade do plástico.

Tudo confeccionado nas outras cores da sala.

A cama era um pequeno choque. Alguém tinha levado a solicitação de um colchão duro muito ao pé da letra. Superfície plana de plaz negro sem acolchoado. Nenhuma roupa de cama.

Suipol, vendo isso, começou a fazer objeções, mas Odrade silenciou-a. Apesar dos recursos Bene Gesserit, o conforto era às vezes deixado de lado. Faça o trabalho! Essa era sua primeira ordem. Se a Madre Superiora tivesse que dormir ocasionalmente numa superfície dura, sem coberta, isso seria feito em nome do dever. Além disso, as Bene Gesserit tinham meios de se ajustar a esses pequenos contratempos. Odrade preparou-se para enfrentar esse desconforto, consciente de que, se objetasse, poderia deparar-se com outro insulto deliberado.”Deixe que elas acrescentem isto a esse conteúdo inconsciente e se preocupem com ele.”

A convocação veio enquanto ela estava inspecionando o resto dos aposentos, demonstrando uma preocupação mínima e um divertimento ostensivo. Uma voz esganiçada soou através dos respiradouros no teto, quando Odrade e suas companheiras apareceram na sala de estar comum: — Retornem ao saguão onde estará à sua espera a pessoa que as escoltará até a Grande Honrada Madre.

— Irei sozinha — Odrade disse, silenciando as objeções.

Uma Honrada Madre vestida de verde esperava numa cadeira frágil, entre o corredor e o saguão. Sua face era construída como uma parede de castelo — pedra sobre pedra. A boca era uma comporta, através da qual ela inalava um líquido por um canudo transparente, que se tingia de roxo. Cheiro de açúcar na bebida. Os

olhos pareciam armas espreitando sobre trincheiras. Nariz: um declive sobre o qual os olhos enviavam seu ódio. Queixo: fraco.

Esse queixo não era necessário. Um adendo. Algo deixado de uma construção anterior. Podia-se ver a criança nele. E o cabelo: escurecido artificialmente num castanho cor de lama. Sem importância. Olhos, nariz e boca, esses eram os traços importantes.

A mulher permaneceu vagarosa, insolente, enfatizando o favor que fazia simplesmente por tomar conhecimento de Odrade.

— A Grande Honrada Madre concorda em vê-la.

Voz pesada, quase masculina. O orgulho estava tão cristalizado, que transparecia em todas as suas ações. Um bloco de preconceito imóvel. Sabia tantas coisas, que era uma exibição ambulante de ignorância e medo. Odrade percebeu nela uma demonstração perfeita da vulnerabilidade das Honradas Madres.

Ao fim de muitas voltas e corredores, todos eles limpos e brilhantes, chegaram a uma sala comprida — com o sol entrando por uma fila de janelas, e uma sofisticada mesa de comando militar numa extremidade; projeções de mapas de terra e de espaço. O

centro da teia da Rainha Aranha? Odrade tinha dúvidas. A mesa de comando era óbvia demais. Um pouco diferente do design da Dispersão, mas sem deixar dúvidas quanto ao propósito. Os campos que os humanos podiam manipular tinham limites físicos, e um capacete para intercomunicação mental não podia ser outra coisa, embora tivesse uma colossal forma oval e uma cor peculiar de amarelo sujo.

Varreu a sala com o olhar. Pouco mobiliada. Algumas cadeiras lingas e mesinhas, uma grande área aberta onde (presumivelmente) as pessoas podiam aguardar ordens. Nenhuma desordem. Esse devia ser um centro de ação.

“Cause impressão na bruxa!”

As janelas de uma parede comprida revelavam um pátio lajeado e jardins adiante. Isso tudo era uma montagem!

“Onde está a Rainha Aranha? Onde dorme? Qual é a aparência de sua toca?”

Duas mulheres entraram por uma porta em arco, vindas do pátio. Ambas usavam mantos vermelhos com arabescos cintilantes

e formas de dragão. Alguns fragmentos de pedrassuaves como enfeite.Odrade manteve silêncio, tomando cuidado até depois das apresentações da acompanhante, que pronunciou um mínimo de palavras e retirou-se apressadamente.

Sem as informações de Murbella, Odrade teria tomado por comandante a figura alta que se erguia ao lado da Rainha Aranha.

Mas era a pequena. Fascinante.

“Essa aí simplesmente não subiu ao poder. Ela se esgueirou pelas frestas. Um dia, as Irmãs se depararam com o fato consumado. Lá estava ela, firmemente instalada no centro. E quem poderia fazer objeções? Dez minutos depois de deixá-la você teria dificuldade em lembrar-se do alvo de suas objeções.”

As duas mulheres examinaram Odrade com igual intensidade.

“Muito bem. É necessário neste momento.”

A aparência da Rainha Aranha era mais que uma surpresa.

Até esse momento, as Bene Gesserit não tinham conseguido nenhuma descrição física sua. Somente projeções passageiras, construções imaginárias baseadas em fragmentos esparsos de testemunhas. Finalmente, aqui estava ela. Uma mulher pequena.

Supostos músculos de aço visíveis sob a malha vermelha embaixo do manto. Rosto oval, facilmente esquecível, com olhos suaves onde dançavam pontinhos laranja.

“Amedrontada, e por isso mesmo irritada, sem conseguir, entretanto, detectar os motivos de seu medo. Tudo que ela tem como alvo sou eu. O que ela pensa conseguir de mim?”

A auxiliar era diferente: na aparência, muito mais perigosa.

Cabelo dourado, cuidadosamente penteado numa touca, nariz levemente adunco, lábios finos, pele esticada sobre as maçãs do rosto. E esse olhar venenoso.

Odrade examinou uma vez mais os traços da Rainha Aranha: um nariz que se teria dificuldade em descrever um minuto após deixá-la.

“Reto? Sim, de algum modo.”

As sobrancelhas combinavam com o cabelo cor de palha. A boca se abria para tornar-se visivelmente cor-de-rosa e quase desaparecia quando fechada. Era um rosto em que se tinha dificuldade para encontrar um foco central, de modo que a face inteira ficava indistinta.

— Então você é a líder da Bene Gesserit.

Uma voz niveladamente baixa. Um Galach com inflexões estranhas e sem jargão. No entanto, percebia-se que estava bem na ponta da língua. Havia truques lingüísticos aí. O conhecimento de Murbella enfatizava isso.”Elas têm algo parecido com a Voz. Não igual ao que vocês me deram, mas há outras coisas que elas fazem, uma espécie de truque de palavras.”

“Truque de palavras.”

— Como devo chamá-la?

— Ouvi dizer que me chama de Rainha Aranha. —

Pontinhos laranja dançando maldosamente nos olhos.

— Aqui, no centro de sua teia, e considerando seus grandes poderes, temo dizer que devo confessá-lo.

— Então é isso que nota — meus poderes! — Vaidosa.

A primeira coisa que Odrade realmente notara fora o perfume da mulher. Ela estava banhada em algum cheiro violento.

“Destinado a cobrir feromônios?”

Prevenida sobre a capacidade Bene Gesserit de julgar, tendo por base dados minúsculos de percepção? Talvez. Era perfeitamente possível que ela preferisse esse perfume. Esse preparado odioso tinha um indefinível traço de flores exóticas. Algo de sua terra natal?

A Rainha Aranha pôs a mão no queixo inexpressivo. — Pode chamar-me de Dama.

A companheira objetou. — Esta é a última inimiga nos Milhões de Planetas!

“Então é assim que elas pensam sobre o Antigo Império.”

A Dama levantou a mão pedindo silêncio. Tão casual e tão reveladora. Odrade viu, nos olhos da ajudante, um brilho que lembrava Bellonda. A maldade estava vigilante e procurando lugares para atacar.

— A maioria é obrigada a chamar-me de Grande Honrada Madre — a Dama disse. — É uma honra que estou lhe conferindo.

— Fez um gesto na direção da porta em arco atrás de si. —

Caminharemos lá fora, apenas as duas, enquanto conversamos.

Nenhum convite; era uma ordem.

Odrade parou ao lado da porta para olhar um mapa que estava à mostra. Preto e branco, pequenas linhas de caminhos e contornos irregulares com rótulos em Galach. Eram os jardins além do pátio lajeado, identificações de plantações. Odrade curvou-se para estudá-lo, enquanto a Dama esperava com uma tolerância divertida. Sim, árvores e arbustos esotéricos, muito poucos com frutas comestíveis. O orgulho da posse, e o mapa estava aqui para enfatizá-lo.

No pátio, Odrade disse: — Notei seu perfume.

A Dama foi lançada em memórias do passado e sua voz apresentava notas sutis quando respondeu.

“Impressor de identidade floral de sua própria planta flamejante. Imagine! Mas ela está ao mesmo tempo triste e irritada quando pensa nisso. E se pergunta por que chamei atenção sobre isso.” — De outro modo a planta não teria me aceitado — disse a Dama. “Escolha interessante do tempo verbal.”

O Galach com inflexões não era difícil de entender. Ela obviamente adaptava inconscientemente ao ouvinte.

“Bom ouvido. Gasta alguns segundos observando e ouvindo, e depois faz adaptações para ser compreendida. Uma forma de arte muito antiga, que a maioria dos humanos adota rapidamente.”

Odrade via as origens como uma coloração protetora.

“Não querem ser tomadas por estranhas.”

Uma característica ajustável, introduzida nos genes. As Honradas Madres não a tinham perdido, mas era uma vulnerabilidade. As tonalidades inconscientes não eram completamente encobertas, e revelavam muita coisa.

A despeito de sua vaidade espalhafatosa, a Dama era inteligente e autodisciplinada. Era um prazer chegar a essa conclusão. Certos circunlóquios eram desnecessários.

Odrade parou acompanhando a Dama, na extremidade do pátio. Estavam quase ombro a ombro, e a Madre Superiora, olhando o jardim lá fora, foi atingida por sua aparência quase Bene Gesserit.

— Diga o que tem para falar — a Dama disse.

— Que valor eu tenho como refém? Ferocidade laranja!

— Obviamente, já fez a si mesma esta pergunta — Odrade disse. — Continue. — O laranja diminuindo.

— A Irmandade tem três substituições para mim. — Odrade fixou-lhe o olhar mais penetrante de que era capaz. — É possível enfraquecer-nos mutuamente de forma que destruiriam a ambas.

— Poderíamos aniquilá-la como se mata um inseto!

“Cuidado com o laranja!”

Odrade não foi desviada por avisos vindos do interior. — Mas a mão que nos matasse infeccionaria e, no fim, a doença a consumiria. “Não poderia ser melhor explicado sem detalhes específicos.”

Continuar: parte 15 de 16