As Herdeiras de Duna
Folha de Rosto
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 16 partes.
— Ele me matou tantas vezes que é doloroso recordá-lo.
Ela tinha os registros de Dar-es-Balat sobre Duna, que confirmavam o fato. — Matou-o mesmo, eu sei. Jogou-o fora quando você não era mais útil?
— Às vezes eu correspondia às expectativas e tinha direito a uma morte natural.
— O Caminho Dourado valia a pena?
“Nós não entendemos seu Caminho Dourado nem as fermentações que o produziram.” Idaho reproduziu o pensamento como resposta a Odrade.
— Interessante escolha de palavras. Um Mentat pensa nas eras do Tirano como fermentações.
— Que estouraram na Dispersão.
— Levadas também pelos Tempos da Fome.
— Acha que ele não antecipou a Fome?
Ela não respondeu, silenciada pela perspectiva Mentat de Idaho. “O Caminho Dourado: a humanidade irrompendo no universo... nunca mais confinada a um único planeta e suscetível de um único destino. Não mais todos os ovos na mesma cesta.”
— Leto pensava na humanidade como um único organismo
— ele disse.
— Mas ele nos incluiu em seu sonho contra nossa vontade.
— Vocês, Atreides, sempre fazem isso.
“Vocês, Atreides!” — Então você já nos pagou seu débito?
— Eu não disse isso.
— Pode avaliar meu dilema atual, Mentat?
— Há quanto tempo as trutas da areia estão trabalhando?
— Mais que oito Anos Padrão.
— Com que rapidez o nosso deserto está se desenvolvendo?
“Nosso deserto! “Ela fez um gesto para a projeção.— É mais que o triplo do que era, antes das trutas da areia.
— Tão rápido!
— Sheeana espera ver pequenos vermes qualquer dia.
— Eles costumam não aparecer antes de atingir dois metros, mais ou menos.
— É o que ela diz.
Ele falou num tom pensativo: — Cada um como uma pérola da consciência de Leto em seu “sonho sem fim”.
— Foi o que ele disse, e ele nunca mentia sobre essas coisas. — Suas mentiras eram mais sutis. Como as das Reverendas Madres. — Você nos acusa de mentir?
— Por que Sheeana deseja me ver?
— Mentats! Vocês pensam que suas perguntas são respostas. — Odrade sacudiu a cabeça numa imitação de tristeza.
— Ela deve aprender o máximo possível sobre o Tirano como o centro de adoração religiosa.
— Deuses das profundezas! Porquê?
— O culto de Sheeana se espalhou. Está em todo o Antigo Império e além, levado pelos sacerdotes sobreviventes de Rakis.
— De Duna — ele corrigiu. — Não pense nesse planeta como Arrakis ou Rakis. Anuvia a mente.
Ela aceitou sua correção. Ele estava totalmente Mentat agora, e Odrade esperou pacientemente.
— Sheeana falava com os vermes da areia em Duna — ele disse. — Eles respondiam. — Ele encarou seu olhar inquiridor. —
De volta a seus velhos truques com a Missionária Protectiva, hein?
— O Tirano é conhecido como Dur e Guldur na Dispersão —
disse ela, alimentando sua inocência Mentat.
— Você tem uma tarefa perigosa para ela. Ela sabe?
— Sabe, e você poderia torná-la menos perigosa.
— Então abra seu sistema de informação para mim.
— Sem limites? — Ela sabia o que Bell diria disso!
Ele assentiu, incapaz de se permitir a esperança de que ela concordasse. “Será que ela suspeita com que desespero eu desejo isso?” Havia uma dor no local onde ele mantinha seu conhecimento de como poderia escapar. “Ilimitado acesso à informação. Ela vai pensar que eu desejo a ilusão da liberdade.”
— Você será meu Mentat, Duncan?
— Que escolha eu tenho?
— Vou discutir seu pedido com o Conselho e lhe darei uma resposta. “A porta de saída estará aberta?”
— Devo pensar como uma Honrada Madre — ele disse, argumentando para os televigias e as vigilantes que examinariam seu pedido.
— Quem poderia fazê-lo melhor do que alguém que vive com Murbella? — Odrade perguntou.
A corrupção vale-se de infinitos disfarces. — Thu-Zen Tleilaxu
“Elas não sabem o que penso nem o que sou capaz de fazer”, pensou Scytale. “Suas Reveladoras da Verdade não podem me penetrar.” Isso, pelo menos, ele havia salvo do desastre — a
arte do engodo, aprendida com seus impecáveis Dançarinos Faciais.Ele movimentava-se suavemente por sua área da não-nave, observando, catalogando, avaliando. Cada olhar seu pesava pessoas ou lugares através de uma mente treinada para procurar falhas.Cada Mestre Tleilaxu soubera que algum dia Deus poderia dar-lhe uma tarefa para testar seu compromisso.
“Pois bem!” Esta era uma tarefa e tanto. As Bene Gesserit, que alegavam compartilhar sua Grande Crença, juravam falso. Eram impuras. Ele não tinha mais companheiros que o purificassem em seu retorno de lugares estranhos. Tinha sido atirado no universo powindah, feito prisioneiro pelas servas de Shaitan, caçado pelas prostitutas da Dispersão. Mas nenhum desses agentes do mal conhecia seus recursos. Nenhum deles suspeitava de como Deus o ajudaria nesta situação extrema.
“Eu me purifico, Deus!”
Quando as mulheres de Shaitan arrancaram-no das mãos das prostitutas, prometendo-lhe refúgio e “toda assistência”, ele as reconhecera como falsas.
“Quanto maior o teste, maior a minha fé.”
Há apenas alguns minutos ele tinha observado, através da tênue barreira, o passeio matinal de Duncan Idaho pelo longo corredor. O campo de força que os mantinha separados impedia a passagem ‘do som, mas Scytale via moverem-se os lábios de Idaho, e entendeu seu praguejar. “Pode amaldiçoar-me, ghola, mas nós o fizemos e ainda poderemos usá-lo.”
Deus tinha introduzido um Acidente Sagrado no plano dos Tleilaxu para este ghola, mas Deus sempre tinha desígnios mais amplos. O dever dos fiéis era encaixar-se nos planos de Deus, e não exigir que Ele seguisse os projetos humanos.
Scytale submeteu-se ao teste, renovando sua sagrada promessa. Isso foi feito sem palavras, no antigo método Bene Tleilax do “s’tori”. — Para se atingir o “s’tori”, não é necessário compreender. Ele existe sem palavras, até mesmo sem um nome.
A mágica de seu Deus era sua única ponte. Scytale sentia isso profundamente. Como o mais jovem Mestre do mais alto kehl, ele soubera, desde o início, que seria escolhido para este trabalho supremo. Esse conhecimento era uma de suas forças, e ele via isso toda vez que se olhava no espelho. “Deus concebeu-me para enganar os powindah!” Sua aparência delgada e infantil era formada de uma pele cinzenta, cujos pigmentos metálicos bloqueavam a ação perscrutadora das sondas. Sua forma diminuta confundia as pessoas que o viam, e ocultava os poderes acumulados em uma série de encarnações ghola. Somente as Bene Gesserit eram portadoras de memórias mais antigas, mas ele sabia que o mal as conduzia.
Scytale esfregou o peito, lembrando-se do segredo ali escondido, com tal habilidade que nem mesmo uma cicatriz era visível no local. Todos os Mestres carregavam esse recurso —
cápsula de nulentropia preservando as células-sementes de uma multidão: Mestres companheiros do kehl central, Dançarinos Faciais, técnicos e outros, que seriam de grande atrativo para as mulheres de Shaitan... e para muitos powindah fracos! Paul Atreides e sua amada Chani estavam lá. (Oh, como tinha sido difícil revistar as roupas dos mortos para encontrar células esparsas!) O Duncan Idaho original estava lá com outros servidores dos Atreides — os Mentats Thufir Hawat, Gurney Halleck, o Fremen Naib Stilgar... criados potenciais em número suficiente para povoar o universo dos Tleilaxu.
O prêmio dos prêmios, no tubo de nulentropia, eram aqueles que ele ambicionava trazer à existência, e cuja mera lembrança fazia-o perder o fôlego: Dançarinos Faciais perfeitos! Perfeitos imitadores. Registros perfeitos da persona da vítima. Capazes de enganar até mesmo as bruxas Bene Gesserit. Nem o shere podia impedi-los de capturar a mente de outrem.
Considerava o tubo como seu máximo poder de barganha.
Ninguém devia ter conhecimento dele. Por enquanto, Scytale catalogava falhas.
Estava encantado com a quantidade de lacunas existentes na defesa da não-nave. Em suas múltiplas vidas ele tinha colecionado
talentos, do mesmo modo que outros Mestres, seus companheiros, colecionavam futilidades interessantes. Era sempre considerado sério demais, mas agora encontrara o tempo e o lugar para a vingança.
O estudo das Bene Gesserit sempre o atraíra. E através dos tempos, tinha adquirido um cabedal de conhecimentos sobre elas.
Sabia que havia mitos e informações distorcidas, mas a fé nos propósitos de Deus davam-lhe certeza de que sua perspectiva pessoal serviria à Grande Crença, não obstante os rigores da Sagrada Prova.
Parte de seu catálogo sobre as Bene Gesserit, ele denominava “Peculiaridades”, em função da freqüente observação:
— Isso é uma peculiaridade delas!
As “peculiaridades” o fascinavam.
Era uma peculiaridade delas tolerar, nos outros, o comportamento grosseiro, que não fosse ameaçador, uma atitude que elas não aceitariam em si mesmas. “Os padrões Bene Gesserit são mais elevados.” Scytale tinha ouvido isso até mesmo por parte de antigos companheiros já falecidos.
— Temos o dom de ver a nós mesmas como os outros nos vêem — Odrade disse uma vez.
Scytale incluiu a observação entre as “peculiaridades”, mas as palavras de Odrade não estavam de acordo com a Grande Crença. Somente Deus via seu “eu” mais profundo. A ostentação de Odrade soava como arrogância.
— Elas não dizem mentiras ocasionais. A verdade lhes é mais conveniente.
Ele, muitas vezes, questionou-se sobre isso. A própria Madre Superiora citava-o como uma regra da Bene Gesserit. Ainda havia o fato de que as bruxas pareciam ter uma perspectiva cínica da verdade. Ela ousava alegar que era Zensunni. “Que verdade? De quem? Modificada de que modo? Em que contexto?”
Ambos tinham se reunido na tarde anterior, em seus aposentos na não-nave. Ele pedira “uma troca de idéias sobre problemas mútuos”, seu eufemismo para negociação. Estavam
sozinhos, anão ser pelos televigias e pelas idas e vindas das vigilantes Irmãs.
Seus aposentos eram bastante confortáveis: três salas com paredes de plaz num verde repousante, uma cama macia, cadeiras adaptadas para seu tamanho reduzido.
Esta era uma não-nave ixiana, e ele tinha certeza de que suas carcereiras não suspeitavam o quanto ele sabia a seu respeito. “Tanto quanto os Ixianos.” Máquinas ixianas em toda parte, mas nenhum Ixiano à vista. Ele duvidava que houvesse um único deles na Sede da Irmandade. As bruxas eram famosas por cuidarem, elas próprias, da manutenção.
Odrade movia-se e falava suavemente, observando-o com cuidado. “Elas não são impulsivas.” Era o que geralmente se ouvia.
Fez perguntas sobre seu conforto, e pareceu preocupada com ele.
Ele olhou rapidamente à volta da sala de estar.
— Não vejo Ixianos por aqui.
Odrade franziu os lábios com desagrado.
— Foi para isso que você solicitou uma conversa?
“Naturalmente que não, bruxa! Estou simplesmente praticando minhas artes de distração. Você não esperaria que eu mencionasse coisas que quisesse esconder. Então por que eu iria chamar sua atenção sobre os Ixianos, quando sei que é improvável que haja perigosos intrusos soltos em seu malfadado planeta?
Ahhh, a tão louvada ligação que nós, os Tleilaxu, mantivemos com os Ixianos por tanto tempo. Vocês sabem disso! Vocês puniram os Ix memoravelmente, mais de uma vez.”
Os tecnocratas de Ix poderiam hesitar em irritar as Bene Gesserit, pensou ele, mas seriam extremamente cuidadosos em não provocar a ira das Honradas Madres. A presença dessa não-nave indicava um comércio secreto, mas o preço deve ter sido enorme, e os circunlóquios, excepcionais. Detestáveis essas prostitutas da Dispersão. Elas próprias poderiam precisar dos Ix, pensou ele. E
estes poderiam desafiar secretamente as prostitutas, para fazerem acordos com as Bene Gesserit. Mas os limites eram apertados, e havia muitas oportunidades de traição.
Esses pensamentos o confortavam, enquanto negociava.
Odrade, de humor instável, perturbou-o várias vezes com silêncios, durante os quais ela fixava-lhe o olhar naquele inquietante jeito Bene Gesserit.
O que estava em jogo era muito — nada menos que a sobrevivência para cada um deles, e sempre em questão essa coisa sutil: ascendência, controle do universo humano, perpetuação de seus próprios métodos, como o padrão dominante.
“Dê-me uma pequena abertura que eu possa expandir”, pensou Scytale. “Dê-me meus próprios Dançarinos Faciais. Meus criados, que cumpram minhas ordens diretamente.”
— É pouca coisa que tenho a pedir — disse. — Procuro meu conforto pessoal, meus próprios criados.
Odrade continuou a olhá-lo fixamente, na maneira ponderada das Bene Gesserit que parecia sempre tirar uma a uma todas as máscaras e ver profundamente dentro do outro.
“Mas tenho máscaras que você não penetrou.”
Podia perceber que ela o achava repulsivo — o modo como seu olhar detinha-se seqüencialmente em cada uma de suas feições. Sabia o que ela estava pensando. “Uma figura de elfo, com uma face estreita e olhos travessos. Bico-de-viúva.” Seu olhar desceu um pouco mais: “Boca pequena, com dentes aguçados e caninos pontudos.”
Scytale sabia que era uma figura saída das mais perigosas e inquietantes mitologias da humanidade. Odrade estaria se perguntando: “Por que os Bene Tleilaxu escolheram esta aparência física específica, quando seu controle de genética poderia proporcionar-lhes um aspecto mais imponente?”
Pela simples razão que isso a perturba, vil powindah!
Pensou imediatamente em outra “peculiaridade”: — As Bene Gesserit raramente semeiam a maldade.
Scytale tinha visto a conseqüência suja de muitas ações Bene Gesserit. “Veja o que aconteceu em Duna! Reduzido a cinzas porque vocês, mulheres de Shaitan, escolheram o solo sagrado para desafiar as prostitutas. Até mesmo os espectros de nosso Profeta elas levaram como prêmio. Todos mortos!”
E ele mal ousava contemplar suas próprias perdas. Nenhum planeta Tleilaxu tinha escapado ao destino de Duna. “As Bene Gesserit causaram isso!” E ele tinha de suportar sua tolerância —
um refugiado que contava apenas com Deus para dar-lhe forças.
Ele perguntou a Odrade sobre a maldade semeada èm Duna.
— Você só a encontra quando estamos in extremis.
— É por isso que atraíram a violência das prostitutas? Ela recusou-se a discutir isso.
Um dos falecidos companheiros de Scytale tinha dito: — As Bene Gesserit andam em linha reta. Você pode achá-las complexas, mas quando se olha atentamente, seu método se simplifica.
Esse companheiro e todos os outros tinham sido massacrados pelas prostitutas. Sua única sobrevivência jazia nas células da cápsula de nulentropia. Era tudo o que restava da sabedoria de um Mestre morto!
Odrade queria mais informação técnica sobre os tanques de axlotl. Ohhh, como ela ordenava bem suas perguntas!
Negociavam a sobrevivência, e cada partícula tinha um grande peso. O que recebera por seus pequenos e dosados fragmentos de informações sobre os tanques axlotl? Odrade levava-o para fora da nave ocasionalmente agora. Mas, tanto quanto a nave, o planeta inteiro era uma prisão para ele. Aonde poderia ir, sem que as bruxas o encontrassem?
O que elas estariam fazendo com seus próprios tanques axlotl? Ele não estava certo nem mesmo quanto a isso. As bruxas mentiam com tal facilidade!
Seria errado fornecer-lhes conhecimento, ainda que limitado?
Compreendia agora que tinha lhes dado muito mais que os simples detalhes biotécnicos aos quais ele se restringira. Elas definitivamente concluíram como os Mestres tinham criado uma imortalidade limitada — sempre um substituto de ghola sendo desenvolvido nos tanques. Isso, também, estava perdido! Ele desejava gritar-lhe todas essas coisas em sua raiva frustrada.
“Perguntas... perguntas óbvias.”
Ele desviava-se de suas perguntas com prolixos argumentos sobre “minha necessidade de Dançarinos Faciais como criados, e
minha própria mesa de controle do sistema da nave”.
Odrade permanecia ardilosamente inflexível, tentando obter mais conhecimentos sobre os tanques. — A informação para produzir melange a partir dos tanques poderia levar-nos a ser mais liberais com nossos hóspedes.
“Nossos tanques! Nossos hóspedes!”
Essas mulheres eram como uma parede de plasteel. Não haveria tanques para seu uso pessoal, pensou Scytale. ‘Todo o poder dos Tleilaxu perdido.” Era um pensamento cheio de pesarosa autopiedade. Recobrou-se, entretanto, com a idéia de que Deus o estava testando em seus recursos. “Elas pensam que me têm preso numa armadilha.” Mas as restrições lhe doíam. Se a possibilidade de Dançarinos Faciais como criados estava afastada, muito bem.
Ele teria outros criados. Não Dançarinos Faciais.
Scytale sentia a mais profunda angústia de suas muitas vidas quando pensava em seus Dançarinos Faciais perdidos — seus escravos mutáveis. “Malditas sejam essas mulheres e sua pretensão de que compartilham a Grande Crença! Acólitas e Reverendas Madres onipresentes, sempre bisbilhotando por toda parte. Espiãs! E televigias aonde quer que se fosse. Opressivo.”
Logo que chegara à Sede da Irmandade, tinha percebido uma certa reserva em suas carcereiras, uma privacidade que se tornou intensa quando ele começou a investigar o trabalho da ordem. Mais tarde, reconheceu essa atitude como um círculo fechado, no qual elas se reuniam para enfrentar qualquer tipo de ameaça externa. “O que é nosso, é nosso. Você não pode entrar!”
Ele via nisso uma postura parental, uma perspectiva materna da humanidade: — Comportem-se, ou nós os puniremos! — E as punições Bene Gesserit eram certamente algo a ser evitado.
Enquanto Odrade continuava a exigir mais do que ele estava disposto a fornecer, Scytale fixou a atenção numa “peculiaridade”
que lhe parecia, sem nenhuma dúvida, verdadeira: “Elas não podem amar.” Com o que era forçado a concordar. Nem amor nem ódio eram puramente racionais. Ele pensava nessas emoções como uma fonte escura, ensombrecendo tudo ao redor, um jorro primitivo que se espargia sobre seres humanos desavisados.
“Como fala essa mulher!” Ele a observava, sem ouvi-la propriamente. Quais eram as falhas das Bene Gesserit? Seria uma fraqueza o fato de evitarem a música? Quem sabe teriam medo de seu efeito secreto sobre as emoções? A aversão parecia ser fortemente condicionada, mas os condicionamentos nem sempre tinham sucesso. Em suas muitas vidas ele notara que as bruxas pareciam gostar de música. Quando perguntou a Odrade, ela se tornou bastante veemente, e ele suspeitou que fosse uma demonstração deliberada para iludi-lo.
— Não podemos nos permitir distrações!
— Vocês nunca repetem grandes desempenhos musicais na memória? Disseram-me que antigamente...
— De que serve a música executada em instrumentos que não são mais conhecidos pela maioria das pessoas?
— Hein? Que instrumentos são esses?
— Onde se encontraria um piano? “Ainda essa falsa irritação.” — Instrumentos terríveis de se afinar e ainda mais difíceis de tocar.
“Que beleza de protesto.” — Nunca ouvi falar desse...
desse... piano, foi o que disse? É como o baliset?
— Primos distantes. Mas poderia somente ser afinado numa tonalidade aproximada. Uma idiossincrasia do instrumento.
— Por que você citou em especial esse... esse piano?
— Porque às vezes acho uma pena que não o tenhamos mais. Produzir perfeição a partir da imperfeição é, afinal de contas, a mais alta forma de. arte.
“Perfeição a partir da imperfeição!” Ela estava procurando distraí-lo com palavras zensunni, alimentando a ilusão de que essas bruxas compartilhavam sua Grande Crença. Ele tinha sido prevenido muitas vezes a respeito dessa característica da negociação com as Bene Gesserit. Elas se aproximavam de tudo através de um ângulo oblíquo, revelando somente no último instante o que realmente queriam. Mas sabia o que estavam querendo desta vez. Odrade desejava todo o seu conhecimento e procurava não pagar nada. Mesmo assim, como eram tentadoras suas palavras.
Scytale sentiu um profundo cansaço. Suas palavras encaixavam-se tão bem na alegação de que as Bene Gesserit apenas procuravam aperfeiçoar a sociedade humana. Então ela pensava que podia ensiná-lo! Outra “peculiaridade”: — Elas se vêem coma professoras.
Quando ele expressou dúvida sobre essa alegação, ela disse: — Naturalmente nós criamos pressões nas sociedades sob nossa influência. Fazemos isso para que possamos dirigir essas pressões.
— Acho isso contraditório — queixou-se ele.
— Ora, Mestre Scytale! É um padrão muito comum. Os governos geralmente fazem isso para produzir violência contra alvos escolhidos. Vocês mesmos o fizeram! E veja aonde isso os levou.
Então ela ousa dizer que os Tleilaxu é que atraíram esta calamidade sobre si!
— Nós seguimos a lição do Grande Mensageiro — disse ela, reproduzindo, em islamiyat, as palavras do Profeta Leto II. Elas soaram estranhas em seus lábios, mas ele foi tomado de surpresa.
Ela sabia como todos os Tleilaxu veneravam o Profeta.
“Mas já ouvi essas mulheres chamarem-no de Tirano!” Ainda falando o islamiyat, ela interpelou: — Não era sua meta afastar a violência, produzindo uma lição valiosa para todos? “Ela brinca a respeito da Grande Crença?”
— É por isso que nós o aceitamos — disse. — Ele não seguia nossas regras, mas agia em função de nossa meta.
Odrade ousava dizer que “ela” aceitava o Profeta!
Não a desafiou, embora a provocação fosse grande. Uma coisa delicada, essa visão de uma Reverenda Madre sobre si mesma e seu comportamento. Suspeitava que elas reajustavam constantemente essa perspectiva, nunca a deixando ir longe demais, em nenhuma direção. Nem amor-próprio, nem ódio a si mesmas. Confiança, sim. Uma confiança insana. Mas isso não exigia nem ódio nem amor. Apenas uma cabeça fria, todo julgamento pronto a ser corrigido, exatamente como ela dizia.
Raramente se faziam elogios. “Um trabalho bem-feito? Bem, que mais você esperava?”
— O treinamento Bene Gesserit fortalece o caráter. — Essa era a peculiaridade mais conhecida na Sabedoria Popular.
Tentou iniciar uma discussão com ela sobre isso. — As Honradas Madres não têm o mesmo tipo de condicionamento? Veja Murbella!
— Generalidades — é isso o que quer, Scytale? “Haveria um tom divertido em suas palavras?”
— Uma colisão entre dois sistemas de condicionamento.
Não seria essa uma boa forma de examinar esse confronto? —
aventurou-se ele.
— E o mais poderoso sairá vencedor, naturalmente. — Seu desprezo era evidente!
— Não é assim que funciona sempre? — A irritação não estava muito controlada.
— Deve uma Bene Gesserit lembrar a um Tleilaxu que as sutilezas são um outro tipo de arma? Vocês não praticam formas de enganar? Uma fraqueza simulada, para desviar a atenção dos inimigos e levá-los a ciladas? Vulnerabilidades podem ser criadas.
“Naturalmente! Ela sabe que os Tleilaxu têm exercido a mentira por muitas eras, criando uma imagem de tolices absurdas.”
— Então é assim que vocês esperam lidar com nossos inimigos?
— Pretendemos puni-los, Scytale. Que determinação implacável! Coisas recentes aprendidas sobre as Bene Gesserit encheram-no de receios.
Odrade, levando-o para uma caminhada bem protegida, no frio inverno fora da nave (instrutoras corpulentas a apenas um passo atrás), parou, a fim de observar uma pequena procissão que vinha da Central. Cinco mulheres Bene Gesserit, duas delas acólitas, reconhecidas por seus trajes debruados de branco, e outras três em vestes inteiramente cinzentas, que ele ainda não conhecia.
Conduziam uma carreta para um dos pomares. Soprava um vento frígido, arrancando folhas secas de seus galhos escuros. A carreta levava um fardo envolto numa mortalha branca. Um corpo? Parecia, pelo formato.
Interrogada, Odrade brindou-o com um relato das práticas funerárias das Bene Gesserit.
Quando havia um corpo para ser enterrado, isso era feito com a presteza casual que ele testemunhava agora. Nenhuma Reverenda Madre jamais teve um obituário, ou desejou rituais prolongados. Sua memória não viveria através de suas Irmãs?
Começou a argumentar que isso era irreverente, mas ela o cortou. — Dado o fenômeno da morte, todas as ligações na vida são temporárias. Nós modificamos isso, de algum modo, na Outra Memória. Vocês fizeram algo semelhante, Scytale. E nós incorporamos algumas de suas capacidades a nossas caixas de truques. Oh, sim. Essa é a forma como consideramos esse conhecimento. Ele simplesmente modifica o padrão.
— Uma prática irreverente!
— Não há nada de irreverente nisso. Elas vão para a terra, onde, pelo menos, podem tornar-se fertilizante. — E ela continuou a descrever a cena sem lhe dar oportunidade de mais protestos. Seguiam essa rotina que ele via agora. Uma grande escavadora mecânica, levada para o pomar, abriu um fosso adequado na terra. O cadáver, envolto no tecido barato, foi sepultado verticalmente, e plantaram uma árvore em cima. Os pomares eram dispostos em forma de grade, com um cenotáfio num canto, onde se registravam os locais dos sepultamentos. Viu o monumento fúnebre quando ela o apontou, uma forma verde e quadrada de uns três metros de altura.
— Acho que o corpo está sendo sepultado mais ou menos no 21-C — ela disse, observando a escavadora trabalhando enquanto o grupo esperava, encostado na carreta. — Esse vai fertilizar uma macieira. — Parecia perversamente feliz.
Enquanto observavam a retirada da máquina e a inclinação da carreta para fazer o corpo escorregar para dentro do buraco, Odrade começou a cantarolar.
Scytale estava surpreso. — Você disse que as Bene Gesserit evitavam a música.
— E somente uma velha canção.
As Bene Gesserit permaneciam um enigma e, mais do que nunca, ele percebeu a fragilidade das “peculiaridades”. Como se podia negociar com pessoas cujos padrões não seguiam um caminho aceitável? Bastava pensar que as entendia, e elas viravam-se numa outra direção. “Elas não tinham peculiaridades!” A tentativa de entendê-las despedaçava seu sentido de ordem. Tinha certeza de que não recebera nada de Concreto nessa barganha. Um pouco mais de liberdade que, na realidade, era ilusão de liberdade. Nada do que ele realmente queria lhe era dado por essa bruxa impassível!
Era uma tortura tentar dar sentido ao que ele conhecia das Bene Gesserit. Havia, por exemplo, a alegação de que elas prescindiam de sistemas burocráticos e manutenção de registros. A não ser pelos Arquivos de Bellonda, naturalmente, mas cada vez que ele os mencionava, Odrade dizia: — Que os céus nos protejam! — Ou algo semelhante.
— Como vocês se mantêm sem funcionários nem registros?
— ele perguntava agora. Estava profundamente intrigado.
— Quando é preciso fazer uma coisa, nós a fazemos.
Sepultar uma Irmã? — Ela apontou para a cena do pomar, onde se usavam as pás e a terra era socada sobre a sepultura.
— É assim que as coisas são feitas, e há sempre alguém por perto que é responsável por elas. Cada um sabe de si.
— Quem... quem é responsável por este insalubre...?
— Não é insalubre! É parte de nossa educação. As Irmãs fracassadas geralmente fazem a supervisão. Quem faz o trabalho são as acólitas.
— Elas não... quero dizer, não é desagradável para elas?
Irmãs fracassadas, você disse. E acólitas. Isso parece mais uma punição do que..;
— Punição! Ora, vamos, Scytale. Sempre a mesma cantilena. É só o que sabe dizer? — Ela apontou para o grupo funerário. — Depois do período de aprendizado, todo o nosso pessoal aceita seus trabalhos com boa vontade.
— Mas não há... ahhh, burocracia...
— Não somos tolas!
Novamente, ele não entendeu, mas ela respondeu à sua muda perplexidade.
— Com certeza você sabe que as burocracias tornam-se aristocracias vorazes, após atingirem o poder de comando.
Ele teve dificuldade em perceber seu ponto. Aonde ela quereria levá-lo?
Como ele permaneceu silencioso, ela disse: — As Honradas Madres têm todas as marcas da burocracia. Ministra disto, Grande Honrada Mãe daquilo, algumas posições de poder e um grande número de funcionárias abaixo. Já estão repletas de apetites imaturos. Como predadores vorazes, elas não se detêm no modo como exterminam a presa. Uma estreita relação: reduza o número daqueles de quem você se alimenta e fará sua própria estrutura despedaçar-se.
Ele achou difícil acreditar que as bruxas realmente vissem as Honradas Mães desse jeito, e o dissessem.
— Se você sobreviver, Scytale, verá minhas palavras concretizadas. Grandes gritos de raiva dessas mulheres irracionais diante da necessidade de diminuir. Muito esforço novo para extorquir o máximo de cada presa. Capturem mais! Espremam-nas ainda mais! Isso significará extermínio mais rápido, apenas. Idaho diz que elas já estão no estágio de fenecimento.
“O ghola diz isso? Então ela o estava usando como Mentat!”
— De onde
vocês tiraram essas idéias? Com certeza elas não vêm do seu ghola. —
“Continuem pensando que ele é seu!”
— Ele simplesmente confirmou nossa suposição. Um exemplo da Outra Memória nos alertou.
— Oh! — Essa coisa de Outra Memória o incomodava.
Estariam elas falando a verdade? Recordações de suas próprias múltiplas vidas eram de enorme valor. Ele pediu confirmação.
— Nós nos lembramos da relação entre um animal chamado coelho-da-neve e um gato predatório com o nome de lince. A população dos linces multiplicava-se para perseguir a população
dos coelhos, e então a superalimentação reduziu os predadores a tempos de fome e uma severa e gradual supressão.
— Um termo interessante, supressão.
— Descreve bem o que desejamos para as Honradas Madres. Quando seu encontro terminou (sem nenhum ganho para ele), Scytale achava-se mais confuso que nunca. Era esse o verdadeiro intento dessas mulheres? Maldita bruxa! Ele não conseguia ter certeza de nada do que ela dissera.
Quando retornou a seus aposentos na não-nave, Scytale ficou por um longo tempo olhando, através da barreira, para o comprido corredor onde Idaho e Murbella às vezes passavam, a caminho da sala de exercícios, que ele imaginava ser uma larga porta lá embaixo. Sempre saíam de lá suando e respirando fortemente.
Nenhum de seus colegas prisioneiros apareceu, embora ele tivesse se demorado no local por mais de uma hora.
“Ela usa o ghola como Mentat! Isso quer dizer que ele deve ter acesso à mesa de comando do sistema da nave. Com toda a certeza, ela não privaria seu Mentat dessas informações. Tenho que dar algum jeito de conseguir que nos encontremos a sós, esse ghola e eu. Sempre há a linguagem sibilante que imprimimos em todos os gholas. Não devo parecer ansioso demais. Uma pequena concessão na barganha, talvez. Uma reclamação de que meus alojamentos são acanhados. Eles podem ver como me desgasto na prisão.”
A educação não é substituto para a inteligência. Essa ilusória qualidade define-se apenas parcialmente pela capacidade de resolver enigmas. A definição verdadeiramente se realiza na criação de novos problemas — reflexos do que transmitem os sentidos.
— Texto Mentat Um (dicto)
Eles conduziram Lucilla para ser introduzida à presença da Grande Honrada Madre numa jaula tubular — uma jaula dentro de outra. Uma rede de shigafio confinava-a ao centro da coisa.
— Eu sou a Grande Honrada Madre — cumprimentou-a a mulher na pesada cadeira negra. “Mulher pequena, malha colante vermelho-dourado.” — A jaula é para protegê-la, caso se lembre de usar a Voz. Nós somos imunes, e essa imunidade toma a forma de um reflexo que mata. Uma boa quantidade de suas Irmãs tem morrido dessa forma. Conhecemos a Voz e a usamos. Lembre-se disso quando eu soltá-la da jaula. Acenou para dispersar os criados que a tinham trazido. — Vão! Vão!
Lucilla olhou à volta da sala. Sem janelas. Quase quadrada.
Iluminada por alguns globos luminosos prateados. Paredes verde-
ácido. Um cenário típico de interrogatório. Era em algum lugar alto.
Eles tinham trazido sua jaula em um nultubo pouco antes do amanhecer.
Um painel atrás da Grande Honrada Madre afastou-se para o lado com um estalido e uma jaula menor deslizou para dentro do aposento sobre um mecanismo oculto. Essa jaula era quadrada, e nela erguia-se o que ela pensou a princípio ser um homem despido, até que ele se voltou e olhou para ela.
“Futar!” Tinha uma face larga e os caninos à mostra.
— Cocar costas — disse o Futar.
Sim, querido, eu cocarei suas costas depois.
Quer comer — disse o Futar, que lançou um olhar penetrante a Lucilla.
Mais tarde, querido.
O Futar continuou a estudar Lucilla. — Você, Treinador? —
perguntou.
— Naturalmente que ela não é uma Treinadora!
— Quer comer — ele insistiu.
— Mais tarde, eu disse! Por enquanto, sente aí e faça um ronrom para mim.
O Futar agachou-se em sua jaula, e um som retumbante saiu de sua garganta.
— Eles não são uma graça, quando ronronam? — A Grande Honrada Madre obviamente não esperava uma resposta.
A presença do Futar intrigou Lucilla. Ao que se sabia, essas coisas deviam caçar e matar as Honradas Madres. Entretanto, esse estava enjaulado.
— Onde o capturou? — Lucilla perguntou.
— Em Gammu — Ela não percebeu o que tinha revelado.
“E aqui é o Entroncamento”, Lucilla pensou. Ela o tinha reconhecido pela barcaça espacial na noite anterior.
O Futar parou de ronronar.
— Comer — resmungou.
Lucilla gostaria de comer alguma coisa. Eles não a tinham alimentado durante três dias e ela era forçada a suprimir as pontadas de fome. Pequenos goles de água de um garrafão deixado
na jaula ajudavam, mas ele estava quase vazio. As criadas que o tinham trazido riram de seu pedido de comida.
— Os Futares gostam de carne magra!
Era a falta de melange que a incomodava mais. Começara a sentir as primeiras dores da retirada essa manhã.
“Logo terei de matar-me.”
A tribo de Lâmpadas suplicou-lhe que resistisse. “Seja corajosa. Que será de nós se a Reverenda Madre selvagem nos falhar?”“Rainha Aranha. É assim que Odrade chama essa mulher.”
A Grande Honrada Madre continuou a estudá-la, com a mão no queixo. Era um queixo fraco. Numa face sem traços positivos, o negativo atraía o olhar.
— Vocês perderão no fim, sabe disso — falou a terrível mulher. — Assobiando no escuro — disse Lucilla, e então teve que explicar a expressão.
A Grande Honrada Madre demonstrou um interesse polido.
“Que interessante.”
— Qualquer uma de minhas assistentes a teria matado imediatamente por ter dito isso. Esta é uma das razões pela qual estamos sozinhas. Fico curiosa em saber por que você diria tal coisa. Lucilla lançou um olhar para o Futar agachado. — Os Futares não acontecem do dia para a noite. São criados geneticamente a partir de reprodutores selvagens, com um único propósito.
— Cuidado! — Os olhos da Grande Honrada Madre lançavam chamas laranja.
— Gerações de desenvolvimento entraram na criação dos Futares — disse Lucilla.
— Nós os caçamos para o nosso prazer.
— E o caçador se torna a caça.
A Grande Honrada Madre ficou de pé num pulo, os olhos completamente laranja. O Futar agitou-se e começou a choramingar.
Isso acalmou a mulher. Devagar, ela voltou a sentar-se. Gesticulou
com uma das mãos para o Futar enjaulado. — Está bem, querido.
Logo você comerá e eu cocarei suas costas.
O Futar parou de ronronar.
— Então você pensa que viemos para cá como refugiadas.
Sim. Não o negue.
— Os vermes quase sempre voltam — Lucilla disse.
— Vermes? Você se refere àquelas monstruosidades que destruímos em Rakis?
Era tentador espicaçar esta Honrada Madre e despertar sua reação dramática. Se ela fosse suficientemente amedrontada, com certeza poderia matar.
“Por favor, Irmã!” — Suplicava a tribo de Lâmpadas. —
“Resista.” “Pensam que posso fugir deste lugar?” Isso as silenciou, a não ser por um débil protesto. “Lembre-se! Nós somos como a antiga boneca, que caía sete vezes e erguia-se oito.” Veio-lhe a imagem embaladora de uma pequena boneca vermelha, rosto com um sorriso de Buda e as mãos cruzadas sobre a grande barriga.
— Você está obviamente se referindo aos espectros do Deus-Imperador — disse Lucilla. — Eu tinha outra coisa em mente.
A Grande Honrada Madre levou um certo tempo considerando a observação. O laranja foi desaparecendo de seus olhos. “Ela está brincando comigo”, Lucilla pensou. “Pretende matar-me e dar-me de comer ao seu bichinho de estimação.”
“Mas pense na informação tática que você poderia fornecer se escapássemos!”
“Nós!” Mas não havia intenção de evitar a exatidão de tal protesto. Elas tinham trazido sua jaula da barcaça quando ainda era dia. O acesso ao covil da Rainha Aranha era bem planejado em termos de dificultar a aproximação, mas o planejamento divertia Lucilla. Planos muito antigos, fora de moda. Locais estreitos nas vias de chegada, com torres de observação projetando-se do solo como cogumelos de um cinza opaco, aparecendo em lugares apropriados em seu micélio. Curvas fechadas em pontos críticos.
Nenhum veículo terrestre poderia lidar com essas curvas em alta velocidade. Havia uma referência a isso na crítica de Teg ao
Entroncamento, lembrou-se. Defesas sem sentido. Bastava que se trouxesse equipamento pesado, ou que se atravessassem essas instalações grosseiras de outro modo, e tudo estaria isolado.
Ligados subterraneamente, é lógico, mas isso podia ser destruído por explosivos. Era só ligá-los, cortar a conexão com a fonte, e eles cairiam pouco a pouco. “Sem a preciosa energia correndo pelos tubos, idiotas!” Havia um visível senso de segurança, e as Honradas Madres o conservavam. Para sua tranqüilidade! Seus defensores devem gastar uma grande quantidade de energia em dispositivos sem utilidade, para dar a essas mulheres um falso senso de segurança.
“Os corredores! Lembre-se dos corredores.”
Sim, os corredores deste gigantesco edifício eram enormes, o que havia de melhor para alojar os colossais tanques em que os Navegadores da Corporação eram forçados a viver quando estavam em terra. Sistemas de ventilação na parte de baixo, ao longo de todos eles, para retirar e recuperar o gás melange derramado. Ela podia imaginar alçapões abrindo e fechando com estrondo, provocando reverberações incômodas. Os homens da corporação nunca pareceram incomodar-se em fazer grande barulho. Linhas de transmissão de energia para suspensores móveis eram como grossas serpentes negras dando voltas nas passagens e entrando em todas as salas que ela tinha visto. Não impediriam um Navegador de bisbilhotar em qualquer lugar que quisesse.
Muitas das pessoas que ela vira usavam orientadores de pulso. Até as Honradas Madres. Então elas se perdiam aí. Tudo isso sob um único teto gigante, com torres fálicas. As novas residentes achavam-no atraente. Totalmente isoladas do brutal ambiente externo (onde nenhuma das pessoas importantes vai, a não ser para destruir coisas ou para observar os escravos em seu divertido trabalho e lazer). Através de quase tudo ela tinha percebido uma pobreza que denotava uma despesa mínima de manutenção. “Elas não estão mudando muito. O plano de Teg é ainda preciso.”
“Vê como suas observações poderiam ser valiosas?”
A Grande Honrada Madre foi sacudida de seu devaneio.
— É possível que eu lhe permita viver. Desde que você satisfaça minha curiosidade.
— Como sabe que eu não reagiria à sua curiosidade com um jato de pura merda?
A vulgaridade divertia a Grande Honrada Madre. Ela quase riu. Aparentemente ninguém a advertira do perigo que havia quando uma Bene Gesserit recorria à vulgaridade. A motivação para isso era por certo algo infeliz. “Não posso usar a Voz, hein? Ela pensa que é o meu único recurso?” A Grande Honrada Madre tinha demonstrado, em palavras e ações, o suficiente para dar a qualquer Reverenda Madre um domínio seguro sobre ela. Os sinais do corpo e da fala sempre transmitiam mais informação do que era necessário para a compreensão. Havia informação extra inevitável para servir de exemplo.
— Você nos acha atraentes? — perguntou a Grande Honrada Madre. “Pergunta estranha.” — Todas as pessoas da Dispersão possuem um certo atrativo. — “Deixe que ela pense que eu já vi muitos deles, inclusive seus inimigos.” — Vocês são exóticas, no sentido em que são estranhas e novas.
— E nossa perícia sexual?
— Aí existe uma aura, naturalmente. Excitante e magnética para alguns.
— Mas não para você.
“Ataque o queixo!” Era uma sugestão da tribo. “Por que não?”
— Estive estudando o seu queixo, Grande Honrada Madre.
— Esteve? — Surpresa.
— É obviamente o queixo da sua infância, e essa lembrança da juventude deveria orgulhá-la.
“Nem um pouco satisfeita, mas incapaz de demonstrá-lo.
Atinja de novo o queixo.”
— Aposto que seus amantes beijam seu queixo com freqüência — disse Lucilla.
Zangada, agora, e ainda incapaz de desabafar. “Ameace-me, sim? Avise-me para não usar a Voz!”
— Beijar queixo — disse o Futar.
— Eu disse mais tarde, querido. Agora fique quieto!
“Descontando no pobre bichinho.”
— Mas você tem perguntas que deseja fazer-me — disse Lucilla. A própria doçura. Um outro sinal de cautela para os conhecedores. “Eu sou uma das que põem açúcar em tudo. Que bom! Como é agradável estar com você! Não é lindo? Você foi tão esperta em conseguir tão barato! Fácil. Rápido. Escolha seu próprio advérbio.”
A Grande Honrada Madre levou um momento compondo-se.
Percebia que fora colocada em posição desvantajosa, mas não podia dizer como. Disfarçou com um sorriso enigmático, e então: —
Mas eu disse que a soltaria. — Pressionou algo ao lado de sua cadeira e uma parte da gaiola tubular moveu-se para o lado, levando consigo a rede de shigafio. No mesmo instante uma cadeira baixa ergueu-se de um painel diretamente à sua frente, sem desviar-se nem um passo.
Lucilla sentou-se na cadeira, os joelhos quase tocando os da inquisidora. “Pés. Lembre-se de que elas matam com os pés.” Ela flexionou os dedos, percebendo que tinha mantido as mãos crispadas em punhos. Maldita tensão!
— Você precisa comer e beber — disse a Grande Honrada Madre. Apertou um outro dispositivo ao lado da cadeira. Uma bandeja veio até Lucilla — um prato, uma colher, um copo cheio de um líquido vermelho. “Exibindo seus brinquedos.”
Lucilla pegou o copo.
“Veneno? Cheire antes.”
Ela provou uma amostra da bebida. Chá estimulante e melange! “Estou faminta.”
Lucilla retornou o copo vazio à bandeja. O estimulante em sua língua tinha o forte sabor da melange. “O que ela está fazendo?
Cortejando-me?” Lucilla sentiu um fluxo de alívio provocado pela especiaria. O prato continha feijões em molho picante. Ela comeu tudo, depois de experimentar o primeiro bocado para descobrir se havia aditivos indesejados. Alho no molho. Ela se deteve uma mínima fração de segundo na Memória deste ingrediente —
tempero acessório da cozinha refinada, específico contra lobisomens, tratamento potente contra a flatulência.
— Acha nossa comida agradável?
Lucilla enxugou o queixo. — Muito bom. Cumprimentos pelo seu chef. — ”Nunca cumprimente o cozinheiro numa casa particular.
Os cozinheiros podem ser substituídos. A anfitriã é insubstituível.” —
O alho deu um toque excelente.
— Andamos estudando alguma coisa da biblioteca resgatada de Lâmpadas. — Com exultação maligna: — Vê o que perdeu? —
Tão pouca coisa de interesse enterrada em todo aquele blablablá.
“Será que ela quer que você seja sua bibliotecária?” Lucilla esperou em silêncio.
— Algumas de minhas assistentes acham que pode haver pistas sobre o ninho de suas Irmãs lá, ou, pelo menos, um meio de eliminá-las rapidamente. Tantas línguas!
“Ela precisa de uma tradutora? Seja estúpida!”
— O que lhe interessa?
— Muito pouco. Quem precisaria de relatos sobre o Jihad Butleriano?
— Eles destruíram bibliotecas, também.
— Não me trate com superioridade!
“Ela é mais viva do que pensávamos. Continue mostrando-se estúpida.”
— Pensei que eu é que era objeto de paternalismo.
— Ouça-me, bruxa! Você pensa que pode ser impiedosa na defesa de seu ninho, mas não entende o que é ser impiedosa.
— Acho que você ainda não me disse como posso satisfazer sua curiosidade.
— É a sua ciência que nós queremos, bruxa! — Colocou a voz num tom mais baixo. — Sejamos razoáveis. Com a sua ajuda nós poderíamos atingir a utopia.
“E conquistar todos os seus inimigos e chegarão orgasmo todas as vezes.”
— Você acha que a ciência detém as chaves da utopia?
— E a da melhor organização de nossos negócios.
“Lembre-se: A burocracia eleva a conformidade... Diga, em vez disso, eleva a ‘estupidez fatal’ ao status de religião.”
— Paradoxo, Grande Honrada Madre. A ciência deve ser inovadora. Isso traz mudanças. É por isso que a ciência e a burocracia vivem numa guerra constante.
“Ela conhece suas raízes?”
— Mas pense no poder! Pense no que você poderia controlar! “Ela não sabe.”
Os pressupostos da Honrada Madre a respeito de controle fascinavam Lucilla. Vocês controlavam seu universo; não entravam em equilíbrio com ele. Olhavam para fora, nunca para dentro. Vocês não treinavam para perceber suas próprias respostas sutis; produziam músculos (forças, poderes) para superar tudo o que fosse definido como obstáculo. Essas mulheres seriam cegas?
Como Lucilla não falasse, a Honrada Madre disse: —
Encontramos muitas coisas na biblioteca sobre os Bene Tleilaxu.
— Vocês se ligaram a eles em muitos projetos, bruxa.
Projetos múltiplos: como anular a invisibilidade de uma não-nave, como penetrar os segredos da célula viva, sua Missionária Protectiva e uma coisa chamada “A Linguagem de Deus”.
Lucilla deu um sorriso forçado. Elas temiam que houvesse um verdadeiro deus lá fora, em algum lugar? “Dê-lhe um gostinho.
Seja sincera.”
— Não nos unimos aos Tleilaxu em nada. Seu povo interpretou mal o que encontrou. Vocês se preocupam em ser paternalizadas? Como acha que Deus se sentiria a respeito?
Plantamos religiões protetoras para nos ajudarem. Essa é a função da Missionária. Os Tleilaxu têm apenas uma religião.
— Vocês organizam religiões?
— Não exatamente. A abordagem organizacional da religião é sempre apologética. Nós não fazemos apologia.
— Você está começando a me cansar. Por que encontramos tão pouco sobre o Deus-Imperador? “Ataque!”
— Talvez seu povo o tenha destruído.
— Ahhh, então vocês têm mesmo interesse nele. “Assim como você, senhora Aranha!”
— Pensei, Grande Honrada Madre, que Leto II e seu Caminho Dourado eram objetos de estudos em mitos de seus
centros acadêmicos.
“Isso foi cruel!”
— Não temos centros acadêmicos!
— Acho surpreendente seu interesse por ele.
— Interesse casual, nada mais.
“E esse Futar brotou de um carvalho atingido por um raio!”
— Nós chamamos seu Caminho Dourado de “caça aos papéis”. Ele os soprou para os ventos infinitos e disse: Vêem? Lá vão eles. Isso é a Dispersão.
— Alguns preferem chamá-la de a Busca.
— Ele podia realmente predizer o futuro? É isso que interessa a vocês?
“Na mosca!”
A Grande Honrada Madre tossiu na mão.
— Dizemos que Muad’Dib criou um futuro. Leto II o des-criou. — Mas se eu pudesse saber....
— Por favor, Grande Honrada Madre! As pessoas que exigem que o oráculo faça a predição de suas vidas realmente querem saber onde o tesouro está escondido.
— Mas naturalmente!
— Conhecer todo o seu futuro, e não ter mais nada que a surpreenda? É isso?
— Exatamente.
— Vocês não querem o futuro, vocês querem que o agora se estenda para sempre.
— Eu não diria melhor.
— E você disse que eu a aborrecia!
— O quê?
“Laranja em seus olhos. Cuidado.”
— Nunca mais nenhuma surpresa? O que poderia ser mais aborrecido?
— Ahhh... Bem! Mas não é isso que quero dizer.
— Então, temo dizer que não entendo o que vocês querem, Grande Honrada Madre.
— Não importa. Voltaremos a isso amanhã. “Prorrogação!”
A Grande Honrada Madre levantou-se. — Volte para sua jaula. — Comer? — O Futar parecia melancólico.
— Tenho uma comida excelente para você lá embaixo, querido. Depois, vou cocar suas costas.
Lucilla entrou na jaula, que se fechou com um choque. A Grande Honrada Madre jogou uma almofada em sua direção. —
Use-a para proteger-se do shigafio. Vê como posso ser gentil?
O Futar em sua jaula deslizou para dentro da parede, e o espaço foi coberto pelo painel.
— Eles ficam tão agitados quando estão com fome — disse a Grande Honrada Madre. — Abriu a porta da sala e voltou-se para contemplar Lucilla por um momento. — Você não será perturbada.
Recusei permissão para qualquer um que deseje entrar aqui.
Muitas das coisas que fazemos naturalmente tornam-se difíceis apenas quando tentamos transformá-las em matéria do intelecto. É possível saber tanto a respeito de um assunto, que isso nos torne totalmente ignorantes.
— Texto Mentat Dois (dicto)
Periodicamente, Odrade ia jantar com as acólitas e suas Instrutoras-Vigilantes, as sentinelas mais imediatas nessa prisão-mente, de onde muitas não seriam nunca libertadas.
O que as acólitas pensavam e diziam realmente informava as profundezas da consciência da Madre Superiora a respeito do funcionamento da Sede da Irmandade. Elas respondiam a partir de suas disposições e de seus pressentimentos de uma forma mais direta do que as Reverendas Madres. As Irmãs já formadas tinham se especializado em não serem vistas sob seus aspectos menos favoráveis. Não tentavam esconder o que era essencial, mas qualquer uma poderia caminhar num pomar ou junto a uma porta e ficar fora da visão das vigilantes.
Mas não as acólitas.
Ultimamente havia pouco tempo de folga na Central. Mesmo as salas de refeições tinham fluxos constantes de ocupantes, independente da hora. Os turnos de trabalho eram escalonados e tornava-se fácil para uma Reverenda Madre ajustar seu ritmo circadiano às mudanças de rotina. Odrade, entretanto, não podia perder energia com esses ajustes. No jantar, ela parou na porta do Salão das Acólitas e percebeu o súbito silêncio.
Até pelo modo como levavam o alimento à boca revelava-se alguma coisa. Aonde iam os olhos quando os pauzinhos se dirigiam para a boca? Essa que apunhalava os bocados, mastigava-os superficialmente e os engolia convulsivamente era digna de observação. Estava antecipando problemas. E aquela outra lá adiante que olhava cada porção como se procurasse veneno escondido? Uma mente criativa por trás desses olhos. Seria bom testá-la para um cargo de maior sensibilidade.
Odrade entrou no salão.
O chão assemelhava-se a um tabuleiro de xadrez, plaz preto e branco, virtualmente à prova de riscos e arranhões. As acólitas diziam que era para ser usado como um jogo pelas Reverendas Madres: — Coloque-se uma de nós aqui e outra lá, outras ainda na linha central — o vencedor leva todas.
Odrade sentou-se perto do canto de uma mesa ao lado das janelas que davam para o lado oeste. As acólitas fizeram espaço para ela, em movimentos discretos.
Este salão era parte da construção mais antiga da Sede.
Construído em madeira, com vigas em vão livre acima, traves pesadas de enorme espessura, com acabamento em negro sem brilho. Tinham cerca de 25m de comprimento sem emenda. Havia na Sede um bosque de carvalhos geneticamente preparados, buscando o sol em plantações muito cuidadas. Árvores de no mínimo 30m, sem um único galho e de mais de 2m de diâmetro.
Tinham sido plantadas quando a sala fora construída, substituições para as vigas que se tornassem enfraquecidas pelo tempo.
Novecentos Anos-Padrão, era o que as traves deveriam durar.
Com que cuidado as acólitas ao redor da Madre Superiora a observavam, sem ao menos parecer que olhavam diretamente para ela.
Odrade voltou-se para observar as janelas oeste ao pôr-do-sol. “Poeira novamente.” A expansão intrusa do deserto inflamava o sol da tarde fazendo-o brilhar como uma brasa distante que podia explodir a qualquer momento num incêndio incontrolável.
Odrade suprimiu um suspiro. Pensamentos como esse recriavam seu pesadelo: “O abismo... a corda bamba.” Sabia que se fechasse os olhos seria capaz de ver-se oscilar na corda. A caçadora com o machado estava mais próxima!
As acólitas a seu lado mexeram-se nervosamente, como se percebessem sua inquietação. Talvez a tivessem sentido. Odrade ouviu o movimento dos tecidos, e isso arrancou-a de seu pesadelo.
Tinha-se sensibilizado quanto a uma nova nota nos sons da Central.
Havia um rangido por trás dos movimentos mais rotineiros — uma cadeira arrastada às suas costas... e o abrir e fechar da porta da cozinha. Um ruído irritante de areia raspada. As equipes de limpeza reclamavam da areia e da “maldita poeira”.
Odrade atentou, lá fora, para a fonte dessa irritação: o vento sul. Um nevoeiro baço, algo entre bronze e cor de terra, cerrava uma cortina no horizonte. Depois do vento, a poeira de seus depósitos seria encontrada nos cantos dos edifícios e nas encostas
dos morros. Havia no ar um aroma de sílica, um cheiro alcalino que irritava as narinas.
Voltou os olhos para a mesa, onde a refeição estava sendo servida.Odrade viu-se apreciando essa mudança em relação às refeições rápidas em sua sala de trabalho e em seu refeitório particular. Quando comia lá, sozinha, as acólitas traziam a comida tão silenciosamente e tiravam a mesa com tanta eficiência, que ela se surpreendia em ver a refeição acabada. Aqui, comia-se em meio ao alvoroço e à conversa. Em seus aposentos, a cozinheira-chefe, Duana, às vezes entrava, dizendo: — Não está comendo o suficiente. — Geralmente Odrade dava atenção a essas observações. As vigilantes tinham sua utilidade.
A refeição de hoje era sligoporco em molho de soja e melado, uma quantidade mínima de melange, um toque de manjericão e limão. Vagens cozidas ai dente e pimentões. Suco de uva vermelho-escuro para beber. Ela provou uma porção de sligoporco com antecipação e achou-o passável, um pouco cozido demais para seu gosto. A cozinheira das acólitas não estava muito distante do ideal.
“Então por que o sentimento de estar cansada de refeições desse tipo?”
Sua hipersensibilidade identificou os aditivos. Este alimento não se destinava apenas a repor as energias da Madre Superiora.
Alguém lá na cozinha tinha pedido sua lista de nutrição diária e ajustado o prato de acordo com ela.
“A comida é uma cilada”, pensou. “Mais apegos.” Ela não gostava da maneira astuciosa como as cozinheiras da Sede ocultavam as coisas que punham na comida “para o bem dos comensais”. Elas sabiam, naturalmente, que uma Reverenda Madre podia identificar ingredientes e ajustar o metabolismo dentro de seus limites. Estavam observando-a exatamente agora, imaginando o que a Madre Superiora estaria achando do cardápio.
Enquanto comia, ouvia os que estavam à sua volta. Ninguém a importunava — nem física nem vocalmente. Os sons tinham voltado quase ao que eram antes da sua entrada. A tagarelice
sempre mudava o tom ligeiramente quando ela entrava, e depois continuava, num volume mais baixo.
Uma pergunta não formulada estava em todas as mentes ao seu redor: “Por que ela está aqui esta noite?”
Odrade percebeu um discreto temor respeitoso nos comensais próximos, uma reação que a Madre Superiora às vezes utilizava em seu benefício. Respeito com uma ponta de perspicácia.
As acólitas murmuravam entre si (assim diziam as Instrutoras): —
Ela está com Taraza. — Elas queriam dizer que Odrade possuía sua última predecessora como Primária. Ambas constituíam um par histórico, estudo obrigatório para as postulantes.
“Dar e Tar”, quase uma lenda.
Até mesmo Bellonda (a nossa velha maldosa Bell) aproximava-se de Odrade de um modo oblíquo por esse motivo.
Poucos ataques frontais, pouca gritaria em seus argumentos de acusação. Taraza era reconhecida por ter salvo a Irmandade. Isso silenciava grande parte da oposição. Taraza tinha dito que as Honradas Madres eram essencialmente bárbaras, e que sua violência, embora não pudesse ser totalmente afastada, poderia ser orientada para demonstrações sangrentas. Os acontecimentos tinham mais ou menos confirmado isso.
“Você estava correta até um certo ponto, Tar. Nenhuma de nós pôde avaliar o alcance de sua violência.”
Taraza, numa habilidade digna de um toureiro na arena, tinha representado as Honradas Madres em tais episódios de massacre, que o universo estava repleto de mordazes defensores potenciais de suas brutalizadas vítimas.
“Como poderei defender-nos?”
Não era tanto que os planos de defesa fossem inadequados.
Eles podiam tornar-se irrelevantes.
“Isso, naturalmente, é o que procuro. Devemos nos purificar e ficar prontas para um esforço supremo.”
Bellonda tinha olhado a idéia com desprezo. — Para a nossa morte? É para isso que devemos nos purificar?
Bellonda se sentiria ambivalente quando descobrisse o que a Madre Superiora planejava.Bellonda odiosa aplaudiria. A Bellonda
Mentat discutiria um adiamento “até um momento mais propício”.
“Mas procurarei meu próprio caminho, independente do que pensem minhas Irmãs.”
E muitas Irmãs achavam Odrade talvez a mais estranha Madre Superiora que já tinham aceitado. Elevada mais pelo lado esquerdo que pelo direito. “A Primária de Taraza. Eu estava lá quando você morreu, Tar. Ninguém mais para recolher sua persona.
Elevação por acidente?”
Muitas desaprovavam Odrade. Mas quando surgia a oposição, vinha de volta a idéia de “a Primária de Taraza — a melhor Madre Superiora de nossa história”.
Engraçado! A Taraza Interior era a primeira a rir e perguntar:
“Por que você não lhes conta os meus erros, Dar? Especialmente o modo como eu a julguei erradamente.”
Odrade refletia enquanto mastigava. “Estou atrasada para uma visita a Sheeana. Tão cedo, e já o vento sul no deserto.
Sheeana deve estar preparada para substituir Tam.”
A paisagem em mudança assomou a seus pensamentos.
Mais que 1.500 anos de ocupação Bene Gesserit na Sede da Irmandade. “Nossas marcas por toda parte.” Não apenas em bosques, vinhas e pomares especiais. Que efeito deve estar produzindo na mente coletiva ver essas mudanças tomarem conta de sua terra familiar.
A acólita sentada ao lado de Odrade pigarreou discretamente. Teria intenção de dirigir-se à Madre Superiora? Um acontecimento inusitado. A jovem continuou a comer sem falar.