As Herdeiras de Duna

Frank Herbert · Capítulo 2 de 3 · parte 3/16

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As Herdeiras de Duna

Folha de Rosto

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 16 partes.

— Talvez tenha sido o mesmo para nós dois.

— Você não pode culpar os Tleilaxu e eu não posso culpar as Honradas Madres.

Tamalane entrou no gabinete e afundou-se na cadeira-cão, ao lado de Bellonda. — Vejo que isso a interessa também. — Fez um gesto para as figuras projetadas.

Odrade desligou o projetor.

— Estive inspecionando nossos tanques axlotl — disse Tamalane. — Esse maldito Scytale tem sonegado informação vital.

— Não há falha em nosso primeiro ghola, há? — Bellonda interpelou.

— Nada que nossos Suks possam encontrar.

Odrade falou num tom suave: — Scytale tem de conservar alguns trunfos para negociar.

Ambos os lados tinham uma fantasia comum: Scytale estava pagando às Bene Gesserit por terem-no salvo das Honradas Madres e lhe dado refúgio na Sede. Mas todas as Reverendas Madres que o estudaram sabiam que algo mais dirigia o último Mestre Tleilaxu.

“Espertos, muitos espertos, os Bene Tleilax. Muito mais espertos do que suspeitamos. E eles nos sujaram com seus tanques axlotl. A própria palavra ‘tanque’ — um outro de seus engodos. Nós imaginamos vasilhames de fluido amniótico, cada tanque sendo o centro de complexa maquinaria de duplicar (de modo sutil, discreto e controlável) os trabalhos do útero. O tanque está aí, muito bem!

Mas vejam o que contém.”

A solução Tleilaxu era direta: use o original. A natureza já o aperfeiçoou através de eras. Tudo o que os Bene Tleilaxu precisam

fazer é adicionar seus próprios sistemas de controle, seu modo pessoal de multiplicar a informação armazenada na célula.

“A linguagem de Deus”, era como Scytale a chamava. “A linguagem de Shaitan era um nome mais apropriado.”

Retroalimentação. A célula dirigida em seu próprio útero. Isso era mais ou menos o que um ovo fertilizado fazia, de alguma forma.

Os Tleilaxu simplesmente o aperfeiçoaram.

Odrade deixou escapar um suspiro, provocando olhares penetrantes de suas companheiras. “Novas preocupações da Madre Superiora?”

“As revelações de Scytale me perturbam. E o que essas revelações têm feito a nós. Oh, como fugimos da ‘degradação’.

Depois, racionalizações. ‘ Se não houver outro meio.’ Se isto produzir os gholas de que necessitamos tanto. Poderemos encontrar voluntárias, com certeza. Foram encontradas!

Voluntárias!”

— Você está distraída! — Tamalane resmungou. Lançou os olhos para Bellonda, começou a dizer algo, depois pensou melhor.

O rosto de Bellonda tornou-se suave, um acompanhamento freqüente para seus humores mais sombrios. Sua voz era pouco mais que um sussurro gutural. — Chamo a atenção veemente sobre a necessidade de eliminarmos Idaho. E quanto àquele monstro Tleilaxu...

— Por que você faz essa sugestão com eufemismo? —

Tamalane interpelou.

— Mate-o, então! E o Tleilaxu deve ser submetido a todo tipo de persuasão que nós...

— Parem com isso, vocês duas! — Odrade ordenou.

Ela pressionou as mãos sobre a testa e, olhando fixamente para a janela em arco, viu a chuva de gelo lá fora. O Controle Meteorológico estava cometendo mais erros. Não se podia culpá-los, mas não havia nada que os humanos odiassem mais do que o imprevisível. “Nós queremos ‘o que é natural’. O que quer que isso signifique.”

Quando tais pensamentos se apossavam de Odrade, ela suspirava por uma existência restrita à ordem que lhe agradava: um

passeio ocasional nos pomares. Gostava disso em todas as estações. Uma noite tranqüila com os amigos, troca de idéias em conversas profundas, com aqueles por quem tinha simpatia. “Afeição?” Sim. A Madre Superiora tinha essa ousadia — amor à companhia, mesmo. E boas refeições, com bebidas escolhidas por seu sabor acentuado. Ela queria isso, também. Como era bom brincar com o paladar. E mais tarde... sim, mais tarde — uma cama aquecida com um companheiro gentil, tão sensível às suas necessidades como ela às dele.

A maior parte dessas coisas não era possível, naturalmente.

Responsabilidade! Que palavra imensa! Como queimava!

— Estou ficando com fome — disse Odrade. — Querem que eu mande servir o almoço aqui?

Bellonda e Tamalane olharam-na com surpresa. — São somente 11:30h — queixou-se Tamalane.

— Sim ou não? — insistiu Odrade.

Bellonda e Tamalane trocaram um olhar entre si. — Como quiser — disse Bellonda.

Havia um ditado na Bene Gesserit — do conhecimento de Odrade —, que a Irmandade funcionava melhor quando o estômago da Madre Superiora estava satisfeito. Isso pesara na balança.

Odrade ligou o intercomunicador com sua cozinha particular.

— Almoço para três, Duana. Algo especial. Escolha você.

O almoço, quando veio, apresentava como atração principal um prato que Odrade apreciava de modo especial. Vitela ao forno.

Duana realçou-o com um toque delicado de ervas, um pouquinho de alecrim para dar sabor à vitela, os legumes cozidos ao ponto.

Magnífico.

Odrade saboreou cada pedacinho. As outras duas arrastavam-se na refeição, da colher à boca, mecanicamente.

“Será esta uma das razões pelas quais eu sou a Madre Superiora e elas não?”

Enquanto uma acólita tirava a mesa, Odrade voltou-se para uma de suas perguntas favoritas: — Qual é o mexerico do momento entre as acólitas?

Ela se lembrava que em seus dias de acólita tinha dependido das palavras das mulheres mais velhas, esperando grandes verdades e conseguindo, na maioria das vezes, tagarelices a respeito da Irmã tal e os mais recentes problemas da Instrutora X.

Ocasionalmente, entretanto, as barreiras caíam, e circulavam informações importantes.

— Um grande número de acólitas fala de sua vontade de sair em nossa Dispersão — disse Tamalane numa voz rascante. —

Ratos em navio a pique, é o que digo.

— Tem havido um grande interesse nos Arquivos ultimamente — disse Bellonda. — As Irmãs que têm mais visão vêm buscar confirmação — se uma determinada acólita tem o sangue de Siona ou não.

Odrade achou isso interessante. Sua ancestral comum Atreides, da época do Tirano, eras atrás, Siona Ibn Fuad al-Seyefa Atreides, tinha legado a seus descendentes essa capacidade de esconder-se dos investigadores prescientes. Todas as pessoas que andavam abertamente na Sede compartilhavam essa proteção ancestral.

— Um sinal marcante? — Odrade perguntou. — Elas duvidam de que as pessoas em questão sejam protegidas?

— Querem ter a certeza — Bellonda rosnou. E agora posso voltar a Idaho? Ele tem e não tem a marca genética. Isso me preocupa. Por que algumas de suas células não têm a marca de Siona? O que os Tleilaxu fizeram?

— Duncan conhece o perigo e ele não é suicida — Odrade disse. — Não sabemos o que ele é — Bellonda se queixou.

— Provavelmente um Mentat, e todas nós sabemos o que isso significa — Tamalane disse.

— Compreendo por que conservamos Murbella — disse Bellonda. — Informação valiosa. Mas Idaho e Scytale...

— Basta! — Odrade dardejou. — Cães-de-guarda podem ladrar demais! Bellonda aceitou isso de má vontade. “Cães-de-guarda.” O termo das Bene Gesserit para o controle constante por parte das Irmãs, a fim de garantir que não se caísse na frivolidade.

Muito penoso para as acólitas, mas apenas uma outra parte da vida para as Reverendas Madres.

Odrade tinha explicado isso uma tarde a Murbella, quando as duas estavam numa câmara de entrevista decorada em cinza, na não-nave. Ambas muito próximas, encarando-se frente a frente.

Olhos no mesmo nível. Bastante informais e íntimas. A não ser pelo conhecimento de todos aqueles televigias ao redor.

— Cães-de-guarda — Odrade disse, respondendo a uma pergunta de Murbella. — Isso quer dizer que nos criticamos mutuamente. Não lhes dê importância maior do que têm. Raramente importunamos. Uma simples palavra pode bastar.

Murbella, demonstrando desgosto em seu rosto oval, com seus olhos verdes espaçados bem atentos, obviamente pensou que Odrade se referia a um sinal comum, uma palavra ou ditado que as Irmãs usavam em tais situações.

— Que palavra?

— Qualquer palavra, maldição. O que for apropriado. É como um reflexo mútuo. Compartilhamos um “tique” comum, que não existe para nos aborrecer. Nós o acolhemos porque nos ajuda a manter os pés no chão.

— E vocês me vigiarão se eu me tornar uma Reverenda Madre? — Queremos nossos cães-de-guarda. Seríamos mais fracas sem eles.

— Parece opressivo.

— Não somos da mesma opinião.

— Acho repelente. — Ela olhou para as lentes cintilantes do teto. — Como esses malditos televigias.

— Tomamos conta do que é nosso, Murbella. Uma vez que se é uma Bene Gesserit, tem-se a garantia de uma manutenção para a vida toda.

— Um nicho confortável. — Seu tom era caçoísta.

Odrade falou suavemente. — Algo bastante diferente. Você é desafiada pela vida inteira. Deve retribuir à Irmandade no limite máximo de suas capacidades.

— Cães-de-guarda!

— Estamos sempre atentas umas às outras. Algumas de nós, em posições de poder, são autoritárias às vezes, até mesmo familiares, mas somente até o ponto cuidadosamente calculado para as exigências daquele momento.

— Nunca realmente calorosas ou ternas, não?

— Essa é a regra.

— Afeição, talvez, mas não amor?

— Já lhe disse da regra. — E Odrade podia ver a reação claramente no rosto de Murbella: “Aí está! Elas vão exigir que eu abra mão de Duncan!”

— Então não há amor entre as Bene Gesserit. — Que tom triste era o seu. Ainda havia esperança para Murbella.

— Acontecem amores — Odrade disse. — Porém minhas Irmãs os tratam como aberrações.

— Então o que sinto por Duncan é aberração?

— E as Irmãs tentarão curá-la.

— Curar! Aplicar a terapia correta aos aflitos!

— O amor é considerado um sinal de decadência nas Irmãs.

— Vejo sinais de decadência em vocês!

Como se seguisse seus pensamentos, Bellonda arrastou Odrade para fora do devaneio. — Essa Honrada Madre nunca se comprometerá conosco! — Enxugou um pouco do molho do almoço no canto da boca. — Estamos perdendo tempo, tentando ensinar-lhe nosso modo de ser.

“Pelo menos Bellonda não estava mais chamando Murbella de prostituta”, pensou Odrade. “Era um progresso.”

Todos os governos sofrem de um problema recorrente: o Poder atrai as personalidades patológicas. Não que o Poder corrompa; ele é magnético aos corruptíveis. Essas pessoas tendem a se embriagar com a violência, uma condição de que ficam logo dependentes.

— Missionária Protectiva Texto QIV (dicto) Rebecca ajoelhou-se no chão de azulejo amarelo, como lhe tinham ordenado fazer, não ousando erguer os olhos para a Grande Honrada Madre sentada tão acima, tão perigosa. Por duas horas Rebecca tinha esperado aqui, quase no centro de uma sala gigante, enquanto a Grande Honrada Madre e suas acompanhantes almoçavam, servidas por atendentes obsequiosas. Ela prestou atenção às maneiras das atendentes com cuidado, e procurou imitá-las.

Suas órbitas ainda doíam, em função dos transplantes que o Rabino a tinha feito realizar há menos de um mês atrás. Estes olhos mostravam a íris azul e a esclerótica branca, não dando pista da Agonia de Especiaria do passado. Era uma defesa temporária. Em menos de um ano novos olhos iriam traí-la com seu azul total.

Ela considerava a dor nos olhos como o menor de seus problemas. Um implante orgânico alimentava-a com doses de melange, a intervalos regulares, ocultando sua dependência. O

suprimento estava calculado para durar aproximadamente sessenta dias. Se essas Honradas Madres a retivessem mais do que isso, ela seria mergulhada em tal agonia, que a original pareceria branda em comparação. O perigo mais imediato era o shere, administrado junto com a especiaria. Se essas mulheres o detectassem, certamente teriam suspeitas.

“Você está indo bem. Seja paciente.” Era a Outra Memória da gente de Lâmpadas. A voz soou gentilmente em sua cabeça. O tom

era de Lucilla, mas ela não podia ter certeza.

Tornara-se uma voz familiar naqueles meses, desde a Partilha, quando tinha se anunciado como “Porta-voz do seu Mohalata”. “Essas prostitutas não podem atingir nosso nível de conhecimento. Lembre-se disso para lhe dar coragem.”

A presença dos Outros Interiores, que não diminuíam em nada sua atenção sobre o que acontecia à sua volta, tinha-a enchido de respeito. “Nós chamamos isso de simulfluxo”, tinha falado o Porta-voz. O simulfluxo multiplica sua consciência.” Quando ela tentou explicar isso ao Rabino, ele reagiu encolerizado.

— Você foi contaminada por pensamentos impuros!

Eles tinham estado no estúdio do Rabino tarde da noite. —

Roubando tempo dos dias que nos cabem — dizia ele. O estúdio era uma sala subterrânea, com as paredes revestidas de velhos livros, cristais ridulianos, pergaminhos. A sala estava protegida de sondas pelos melhores dispositivos Ixianos, aperfeiçoados por seu próprio povo.

Ela tinha permissão para sentar-se ao lado de sua mesa em tais ocasiões, enquanto ele se recostava numa velha cadeira. Um globo de luz, colocado em posição baixa ao lado dele, lançava uma antiga luz amarela em seu rosto barbudo, fazendo reluzir os óculos que usava quase como um emblema do ofício.

Rebecca simulou confusão. — Mas o senhor disse que éramos obrigados a salvar este tesouro de Lâmpadas. As Bene Gesserit não foram honestas conosco?

Viu a preocupação nos olhos dele. — Você ouviu Levi falando ontem, sobre as perguntas que se fazem aqui. Por que a bruxa Bene Gesserit veio até nós? Isso é o que eles perguntam.

— Nossa estória é consistente e plausível — Rebecca protestou. — As Irmãs, nos ensinaram caminhos que nem a Revelação da Verdade pode penetrar.

— Não sei... Não sei. — O Rabino sacudiu a cabeça tristemente. — O que é uma mentira? O que é a verdade? Nós nos condenamos com nossas próprias bocas?

— É ao massacre que resistimos, Rabino! — Isso geralmente fortalecia a resolução dele.

— Cossacos! Sim, você está certa, filha. Tem havido cossacos em todas as eras, e nós não fomos os únicos a sentir seus pontapés e suas espadas, quando eles entravam na cidade com a morte nos corações.

Era estranho, pensou Rebecca, como ele conseguia dar a impressão de que esses acontecimentos eram de ocorrência recente e que seus olhos os tinham visto. Perdoar, nunca. Esquecer, jamais. Lídiche foi ontem. Que coisa poderosa havia na memória de Israel Secreto. Massacre! Quase tão poderoso em sua continuidade como aquelas presenças Bene Gesserit que ela carregava na consciência. Quase. Era a isso que o Rabino resistia, pensou.

— Temo que você nos tenha sido tirada — disse o Rabino.

— O que foi que eu lhe fiz? O que foi que eu fiz? E tudo em nome da honra.

Ele olhou para os instrumentos que registravam, na parede do estúdio, a força acumulada à noite pelos moinhos de eixo vertical localizados em toda a fazenda. Os instrumentos diziam que as máquinas estavam zumbindo lá fora, estocando energia para o amanhã. Isso era um presente das Bene Gesserit: liberdade dos Ix.

Independência. Que palavra singular.

Sem olhar para Rebecca, ele disse: — Acho e sempre achei muito difícil essa coisa de Outra Memória. A memória deveria trazer sabedoria, mas não traz. A sabedoria está na maneira de comandarmos a memória e aplicarmos nosso conhecimento.

Voltou-se, o rosto entre as sombras, e olhou para ela. — O

que é que diz essa consciência dentro de você? Isso que você considera como a presença de Lucilla?

Rebecca pôde ver que lhe agradava pronunciar o nome da Reverenda Madre. Se Lucilla podia falar através de uma filha de Israel Secreto, então ainda vivia, e não tinha sido traída.

Baixou seu olhar enquanto falava. — Ela diz que temos imagens, sensações e sons interiores que nos vêm quando ordenados ou surgem conforme a necessidade.

— Necessidade, sim! E o que é isso, a não ser relatos dos sentidos da carne, que podem ter estado onde não deveriam, e feito coisas ofensivas?

“Outros corpos, outras memórias”, Rebecca pensou. Tendo-o experimentado, ela sabia que não podia nunca abandoná-lo por sua livre e espontânea vontade. “Talvez eu tenha realmente me tornado uma Bene Gesserit. Naturalmente é isso o que ele teme.”

— Vou lhe dizer uma coisa — disse o Rabino. — Esta

“interseção crucial de consciência da vida”, como elas dizem, isso não é nada, a menos que você saiba como suas próprias decisões atingem a vida dos outros, como fios que partem de você.

— Ver nossas ações nas reações dos outros, sim, essa é a maneira como as Irmãs a consideram.

— Isso é sabedoria. O que elas procuram, segundo essa senhora?

— Influência sobre o amadurecimento da humanidade.

— Mmmmm. E ela acha que os acontecimentos estão além de seus sentidos, não além de sua influência. Isso é quase.sábio.

Mas maturidade... ahhh, Rebecca. Será que interferimos num plano mais alto? É um direito humano impor limites à natureza de Jeová?

Acho que Leto II entendeu isso. Essa senhora em você o nega.

— Ela diz que ele era um abominável tirano.

— E era, mas houve tiranos sábios antes dele e, sem dúvida, haverá outros depois de nós.

— Elas o chamam de Shaitan.

— Ele tinha os próprios poderes de Satã. Compartilho o medo delas a esse respeito. Mais que um ser presciente, ele era um vínculo. Fixava a forma do que via.

— Isso é o que fala a Reverenda Madre. Mas ela diz que o que ele preservou foi o ideal da Irmandade.

— De novo, elas são quase sábias.

Um grande suspiro fez estremecer o Rabino que, uma vez mais, olhou para os instrumentos na parede. “Energia para o amanhã.”

Voltou sua atenção para Rebecca. Ela estava mudada, não pôde deixar de perceber. Tornara-se muito semelhante às Bene Gesserit. Era compreensível. Sua mente estava repleta de toda aquela gente de Lâmpadas. Mas elas não eram porcos gadarenos

para serem jogadas ao mar, com seu diabolismo. “E eu não sou outro Jesus.”

— E o que elas lhe dizem sobre a Madre Superiora Odrade

— que ela muitas vezes pragueja contra suas Arquivistas e seus Arquivos? Que coisa! Os Arquivos não são como os livros em que preservarmos nossa sabedoria?

— Então eu sou uma Arquivista, Rabino?

A pergunta o confundiu, mas também iluminou o problema.

Ele sorriu. — Vou lhe dizer uma coisa, filha. Reconheço ter uma certa afinidade com essa Odrade. Há sempre algo mal-humorado em relação aos Arquivistas.

— Isso é sabedoria, Rabino? — Com que timidez ela fez a pergunta!

— Acredite, minha filha, é. Com que cuidado o Arquivista suprime a menor parcela de julgamento. Uma palavra após a outra.

Que arrogância!

— Como eles julgam que palavras devem usar, Rabino?

— Ahhh, vejo que alcançou uma certa compreensão, filha.

Mas essas Bene Gesserit não atingiram a sabedoria, e é seu ideal que as impede.

Ela podia ler em seu rosto. “Ele tenta me encher de dúvidas sobre essas vidas que carrego.”

— Deixe-me dizer-lhe algo sobre as Bene Gesserit — ele disse. Nada lhe veio à mente, então. Nenhuma palavra, nenhum conselho sábio. Isso não lhe acontecia há anos. Havia um único caminho a seguir; falar com o coração.

— Talvez elas tenham caminhado por demais na estrada de Damasco sem o raio ofuscante da iluminação, Rebecca. Ouço dizer que agem em benefício da humanidade. Seja como for, não consigo ver isso nelas, nem acredito que o Tirano tenha visto.

Quando Rebecca começou a replicar, ele a interrompeu com uma das mãos erguida. — Amadurecer a humanidade? Esse é o seu ideal? Não é o fruto maduro que é arrancado e comido?

No chão da Grande Sala da Junção Rebecca lembrava-se dessas palavras, vendo seu protótipo, não nas vidas que ela conservava, mas nas ações de suas captoras.

A Grande Honrada Madre tinha acabado de comer. Enxugou as mãos no vestido de uma atendente.

— Deixe que ela se aproxime — disse.

A dor lancetou o ombro esquerdo de Rebecca, e ela cambaleou para a frente, sobre os joelhos. Aquela que chamavam de Logno viera por trás, furtiva como um caçador, e dera uma estocada de aguilhão na carne da prisioneira.

O riso ecoou pela sala.

Rebecca vacilou e, mantendo-se um pouco à frente do aguilhão, chegou ao pé dos degraus que levavam à Grande Honrada Madre, onde o ferro a interrompeu.

— Abaixe-se! — Logno enfatizou o comando com uma outra estocada. Rebecca caiu de joelhos, e olhou fixamente para a frente, na direção dos espelhos dos degraus. Os azulejos amarelos mostravam pequenos arranhões. De algum modo, essas falhas a reanimaram.

— Deixe-a, Logno. Quero respostas, não gritos. — E

virando-se para Rebecca: — Olhe para mim, mulher!

Rebecca ergueu os olhos e encarou a face da morte. Um rosto tão medíocre e, no entanto, quanta ameaça. Feições tão... tão uniformes. Quase feiosas. Uma pequena figura. Isso aumentou a sensação de perigo que sentia. Que poderes deve ter a mulherzinha, para comandar essa gente terrível!

— Sabe por que está aqui? — A Grande Honrada Madre interpelou. Rebecca usou seu tom mais. obsequioso. — Disseram-me, ó Grande Honrada Madre, que a senhora desejava que eu relatasse o conhecimento da Revelação da Verdade e outros assuntos de Gammu.

— Você foi casada com um Revelador da Verdade! — Era uma acusação.

— Ele está morto, Grande Honrada Madre.

— Não, Logno — As palavras eram dirigidas à assistente, que investiu com o aguilhão. — Esta infeliz não conhece nossos métodos. Agora, fique de pé aí ao lado, Logno, onde eu não seja perturbada por sua impetuosidade.

— Você me dirigirá a palavra somente para responder, ou quando eu ordenar, infeliz! — a Grande Honrada Madre gritou.

Rebecca encolheu-se.

O Porta-voz sussurrou em sua cabeça — “Isso era quase a Voz. Esteja em guarda.”

— Você já conheceu alguém, entre aquelas que dão a si mesmas o nome de Bene Gesserit?

“Realmente agora!” — Qualquer um já encontrou as bruxas, Grande Honrada Madre.

— O que sabe delas?

“Então é por isso que me trouxeram aqui.”

— Somente o que ouvi, Grande Honrada Madre.

— Elas são corajosas?

— Diz-se que elas sempre evitam riscos, Grande Honrada Madre.“Você é digna de nós, Rebecca. Esse é o padrão das prostitutas. A bolinha rola para baixo em sua própria canaleta. Elas pensam que você não gosta de nós.”

— As Bene Gesserit são ricas?

— Acho que as bruxas são pobres perto de vocês, Honrada Madre — disse Rebecca.

— Por que diz isso? Não fale apenas para me agradar!

— Mas, Honrada Madre, as bruxas poderiam enviar uma grande nave de Gammu até aqui, somente para me trazer? E onde elas estão agora? Elas se escondem de vocês.

— Sim, onde elas estão? Rebecca deu de ombros.

— Você estava em Gammu quando um homem chamado Bashar nos pôs em fuga? — perguntou a Honrada Madre.

“Ela sabe que você estava.” — Eu estava lá, Grande Honrada Madre, e ouvi estórias. Mas não acredito nelas.

— Acredite no que eu lhe disser para acreditar, infeliz! Que estórias você ouviu?

— Que ele se movia com uma velocidade invisível para os olhos. Que ele matou muitas... pessoas apenas com as mãos. Que ele roubou uma não-nave e fugiu para a Dispersão.

— Acredite que ele fugiu, infeliz. “Veja como ela tem medo.

Não consegue esconder o tremor.”

— Fale da Revelação da Verdade — ordenou a Honrada Madre. — Grande Honrada Madre, eu não compreendo a Revelação da Verdade. Conheço apenas as palavras de meu Sholem, meu marido. Posso repeti-las, se desejar.

A Grande Honrada Madre considerou o oferecimento, olhando ao redor, para suas ajudantes e conselheiras, que começavam a mostrar sinais de aborrecimento. “Por que ela simplesmente não mata essa infeliz?”

Rebecca, vendo a violência dos olhos que a encaravam em tons de laranja, recolheu-se. Pensou em seu marido, em seu nome carinhoso, Shoel, agora, e suas palavras a confortaram. Ele tinha mostrado o “talento peculiar” quando ainda criança. Alguns o chamavam de instinto, mas Shoel nunca usou essa palavra. —

Confie em suas entranhas. Isso é o que meus professores sempre diziam.Era uma expressão tão realista que, segundo ele, afastava os que procuravam “o mistério esotérico”.

— Não existe segredo— — dissera Shoel. — É treino e trabalho árduo, como qualquer outra coisa. Você exercita o que eles chamam petit perception, a capacidade de detectar pequenas variações nas reações humanas.

Rebecca podia ver tais pequenas reações naquelas que a estavam olhando de cima. “Elas me querem morta. Por quê?”

O Porta-voz tinha um conselho. “Os grandes gostam de mostrar seu poder sobre os outros. Ela não faz o que os outros querem, mas o que acha que eles não querem.”

— Grande Honrada Madre — aventurou Rebecca —, a senhora é tão rica e poderosa. Certamente deve ter um lugar de criada, onde eu possa servi-la.

— Você quer entrar para o meu serviço? “Que sorriso feroz!”

— Isso me faria muito feliz, Grande Honrada Madre.

— Não estou aqui para fazê-la feliz.

Logno deu um passo à frente. — Então faça-nos feliz, Dama.

Deixe-nos divertir um pouco com...

— Silêncio! “Ahhh, isso foi um erro, chamá-la pelo seu nome íntimo aqui na frente dos outros.”

Logno recuou, e quase deixou cair o ferro.

A Grande Honrada Madre baixou os olhos para Rebecca, fixando-a com seus lampejos laranja. — Você voltará à sua mísera existência em Gammu, infeliz. Não vou matá-la. Isso seria uma misericórdia. Tendo visto o que nós poderíamos lhe dar, viva sua vida sem isso.

— Grande Honrada Madre! — Logno protestou. — Temos suspeitas de que...

— Eu tenho suspeitas sobre você, Logno. Mandem-na de volta e viva! Ouviu? Acha-nos incapazes de encontrá-la, se por acaso for preciso?

— Não, Grande Honrada Madre.

— Estamos de olho em você, infeliz — disse a Grande Honrada Madre. “Isca! Ela pensa em você como algo que lhe permitirá capturar caça maior.

Que interessante. Ela usa a cabeça, apesar de sua natureza violenta. Então foi assim que chegou ao poder.”

Durante todo o caminho de volta a Gammu, confinada em alojamentos fedorentos de uma nave que um dia serviu à Corporação, Rebecca considerou sua situação. Certamente essas prostitutas não tinham esperado que ela se enganasse a respeito de seu intento. Mas... talvez tenham. Subserviência, bajulação. “Elas se regalam com essas coisas.”

Sabia que á idéia tinha vindo tanto da Revelação da Verdade de Shoel quanto das conselheiras de Lâmpadas.

— Você reúne uma porção de pequenas observações, percebidas, mas nunca levadas à consciência —, Shoel dissera. —

Cumulativamente, elas lhe dizem coisas, mas não em linguagem usada comumente. A linguagem não é necessária.

Ela tinha achado isso uma das coisas mais estranhas que já ouvira. Mas isso foi antes da Agonia. Na cama, à noite, encorajada

pela escuridão e pelo toque amoroso da carne, tinha agido sem palavras, mas compartilhara palavras também.

— A linguagem lhe impõe obstáculos — tinha dito Shoel. —

O que você faz é aprender a ler suas próprias reações. Às vezes, podem-se descobrir palavras para descrevê-las... às vezes... não.

— Sem palavras? Nem mesmo para as perguntas?

— Você quer palavras, não é? Quais são elas? Confiança.

Crença. Verdade. Honestidade.

— São palavras boas, Shoel.

— Mas não chegam ao ponto. Não dependa delas.

— Então, você depende do quê?

— De minhas próprias reações interiores. Eu interpreto a mim mesmo, não a pessoa à minha frente. Sempre conheço uma mentira, porque fico com vontade de virar as costas ao mentiroso.

— Então é assim que você faz! — Bateu em seu braço nu.

— Outros reagem de outra forma. Sei de uma pessoa que conhecia uma mentira, porque tinha vontade de colocar seu braço no do mentiroso e fazer uma caminhada com ele, confortando-o.

Você pode pensar que é tolice, mas funciona.

— Acho que é muito sábio, Shoel. — Era a voz do amor. Ela não sabia realmente o que ele queria dizer.

— Meu amor precioso — disse ele, embalando-a em seu braço. — Os Reveladores da Verdade têm um Senso da Verdade que, uma vez desperto, funciona o tempo todo. Por favor, não me diga que sou sábio, quando é o amor que fala por você.

— Desculpe-me, Shoel. — Ela gostava do cheiro de seu braço, e enterrou a cabeça na dobra, fazendo-lhe cócegas. — Mas quero saber tudo o que você sabe.

Ele mudou sua cabeça para uma posição mais confortável. —

Sabe o que meu professor da Terceira Série dizia? “Não saiba nada!

Aprenda a ser totalmente inocente.”

Ela estava atônita. — Absolutamente nada?

— Você se aproxima de tudo como se fosse uma lousa limpa, nada em cima ou dentro de você. O que quer que surja é escrito lá por si mesmo.

Ela começou a perceber. — Nada para interferir.

— Correto. Você é o selvagem ignorante original, completamente sem sofisticação, até o ponto em que volta à sofisticação última. Você a encontra sem procurá-la, pode-se dizer.

— Agora, isso é sábio, Shoel. Aposto que você era o melhor aluno que eles já tiveram, o mais inteligente e o...

— Eu achava que era uma tolice sem fim.

— Não!

— Até que um dia senti uma pequena contração. Não era o movimento de um músculo ou algo que alguém pudesse perceber.

Apenas... uma contração.

— Onde era?

— Em nenhum lugar que eu pudesse descrever. Mas meu professor do Quarto Grau tinha me preparado para isso. “Tome essa coisa com delicadeza. Gentilmente.” Um dos alunos pensou que ele estava falando de suas mãos reais. Oh, como nós rimos.

— Isso foi cruel. — Tocou seu queixo, e sentiu o começo da barba escura. Era tarde, mas ela não sentia sono.

— Acho que foi. Mas quando a contração veio, eu a conheci.

Nunca tinha sentido isso antes. Estava surpreso, também, porque conhecendo-a, eu sabia que tinha estado lá o tempo todo. Era familiar. Era a minha contração do Senso da Verdade.

Ela achou que podia sentir o Senso da Verdade se mexendo dentro de si. O sentimento de magia em sua voz despertou alguma coisa. — Era meu, então — disse ele. — Pertencia a mim e eu pertencia a ele. Nunca mais haveria separação.

— Como deve ser maravilhoso. — Havia um respeito temeroso e uma inveja em sua voz.

— Não! Há muita coisa nisso que eu detesto. Ver as pessoas desta forma é como vê-las estripadas, as entranhas penduradas para fora.

— Isso é nojento!

— Sim, mas há compensações, amor. São as pessoas que encontramos, pessoas que são como lindas flores oferecidas por uma criança inocente. Inocência. Minha própria inocência responde,

e meu Senso da Verdade é fortalecido. Isso é o que você faz por mim, meu amor.

A não-nave das Honradas Madres chegou a Gammu, e fizeram Rebecca descer para a Plataforma de Aterrissagem no carregamento de lixo. Lançaram-na para fora ao lado dos detritos e excrementos da nave, mas ela não se importou. “Em casa! Estou em casa, e Lâmpadas sobrevive.”

Contudo o Rabino não partilhou de seu entusiasmo.

Uma vez mais, eles sentaram-se em seu estúdio, mas agora ela se sentia mais familiarizada com a Outra Memória, muito mais confiante. Ele podia ver isso.

— Você está mais que nunca parecida com elas! É impuro.

— Rabino, nós todos temos ancestrais impuros. Tenho a sorte de conhecer alguns dos meus.

— O que é isso? O que você está dizendo?

— Todo nós somos descendentes de pessoas que fizeram coisas ruins, Rabino. Não gostamos de pensar em bárbaros em nosso passado, mas eles estão lá.

— Que conversa!

— As Reverendas Madres podem lembrar-se de todos eles, Rabino. Lembre-se, são os vitoriosos que fazem a raça.

Compreende?

— Nunca a ouvi falar com tanta ousadia. O que aconteceu com você, filha?

— Eu sobrevivi, sabendo que, às vezes, paga-se um preço moral pela vitória.

— O que é isso? São palavras más.

— Más? Barbarismo não é nem mesmo a palavra adequada para certas maldades de nossos ancestrais. Os antepassados de todos nós, Rabino.

Viu que o tinha magoado, e sentiu que suas palavras eram cruéis, mas não podia parar. Sendo o homem honrado que era, como ele poderia escapar da verdade que ela lhe dizia?

Falou mais suavemente, mas suas palavras cortaram-no ainda mais fundo. — Rabino, se o senhor compartilhasse o testemunho de algumas das coisas que a Outra Memória me forçou

a saber, haveria de procurar novas palavras para definir o mal. Há ações de nossos antepassados que aviltam o pior rótulo que se possa imaginar.

— Rebecca... Rebecca... Sei de necessidades de...

— Não use desculpas a respeito de “necessidades dos tempos”. Um Rabino sabe muito bem. Quando ficamos sem senso moral? É que às vezes não ouvimos.

Ele colocou as mãos no rosto, balançando para frente e para trás na velha cadeira, que estalava dolorosamente.

— Rabino, sempre o amei e respeitei. Vivi a Agonia por sua causa. Compartilhei Lâmpadas pelo senhor. Não negue o que aprendi com isso.

Ele abaixou as mãos. — Não nego, filha. Mas permita-me a minha dor.

— Entre todas as compreensões, Rabino, a mais imediata e importante é que não há inocentes.

— Rebecca!

— Culpado não é bem a palavra, Rabino, mas nossos antepassados fizeram coisas pelas quais é preciso pagar.

— Isso eu entendo, Rebecca. É um equilíbrio que...

— Não me diga que compreende, quando eu sei que não. —

Ela levantou-se e fixou-lhe o olhar de cima para baixo. — Não se trata de um livro de contas que se põe em dia. Até que ponto do passado o senhor poderia ir?

— Rebecca, sou o seu Rabino. Não deve falar assim, especialmente comigo.

— Quanto mais longe se vai, Rabino, piores são as atrocidades e mais alto o preço. O senhor não pode ir tão longe, mas eu sou obrigada a isso.

Voltando-se, ela o deixou ignorando a súplica em sua voz, o modo doloroso como ele pronunciou seu nome. Quando fechou a porta, ouviu-o dizer: — O que fizemos? Israel, ajude-a.

Redigir a História é em grande parte um processo de diversão. A maioria dos relatos históricos distrai a atenção das influências secretas que se escondem por trás dos grandes acontecimentos.

— O Bashar Teg

Quando entregue a si mesmo, Idaho com freqüência explorava sua não-nave prisão. Havia tanto que ver e aprender sobre este artefato ixiano. Era uma caverna de maravilhas.

Fez uma pausa em sua agitada caminhada desta tarde, através de seus alojamentos, e olhou para os pequenos televigias embutidos na luzidia superfície de uma porta. Elas o estavam observando. Tinha a estranha sensação de estar vendo a si mesmo através desses olhos intrometidos. O que pensariam as Irmãs, quando olhavam para ele? O atarracado menino-ghola da há muito destruída Fortaleza de Gammu tinha se tornado um homem magro: pele morena e cabelos escuros, mais longos agora do que quando entrara nessa não-nave, no último dia de Duna.

Os olhos Bene Gesserit espreitavam por debaixo da pele.

Estava certo de que elas suspeitavam que ele era um Mentat, e temia como isso podia ser interpretado. Como poderia um Mentat esperar esconder o fato das Reverendas Madres indefinidamente?

Tolice! Sabia que elas já suspeitavam dele a respeito da Revelação da Verdade.

Acenou para os televigias e disse: — Estou inquieto. Acho que vou explorar.

Bellonda detestava quando ele tomava essa atitude jocosa com referência à vigilância. Não gostava que ele andasse pela nave e não tentava disfarçar seu desagrado. Idaho podia ver a pergunta não-formulada e suas feições ameaçadoras sempre que se defrontava com ele: “Está procurando um meio de fugir?”

“E exatamente o que estou fazendo, Bell, mas não do modo que você suspeita.”

A não-nave lhe apresentava limites fixos: o campo de força exterior, que ele não podia penetrar, certas áreas de maquinaria, onde a propulsão (assim lhe disseram) tinha sido temporariamente desativada, alojamentos da guarda (ele podia ver o interior de alguns, mas não tinha permissão para entrar), o arsenal, a seção reservada ao Tleilaxu prisioneiro, Scytale. De vez em quando encontrava Scytale numa das barreiras, e eles se espreitavam mutuamente através do campo silenciador que os mantinha à parte.

Então, havia a barreira da informação — seções de Registros da Nave que não respondiam a suas perguntas, e respostas que seus guardas não davam.

Dentro desses limites, havia uma existência de coisas para ver e aprender, mesmo uma existência de trezentos Anos Padrão, aproximadamente, que ele poderia esperar viver.

“Se as Honradas Madres não nos encontrarem.”

Idaho via-se como a caça que elas procuravam, dando-lhe ainda mais importância que às mulheres da Sede da Irmandade.

Não tinha ilusões a respeito do que as caçadoras lhe fariam. Elas sabiam que ele estava aqui. Os homens que ele treinava em dependência sexual e que enviava para persegui-las — esses homens espicaçavam as caçadoras.

Quando as Irmãs conhecessem sua capacidade Mentat, saberiam imediatamente que sua mente continha as memórias da existência de mais de um ghola. “O original não tinha esse talento.”

Elas suspeitariam de que ele era um Kwisatz Haderach latente. Veja como racionavam sua melange. Estavam visivelmente aterrorizadas em repetir o erro que tinham cometido com Paul Atreides e seu filho Tirano. Três mil e quinhentos anos de cativeiro.

Mas lidar com Murbella exigia uma consciência Mentat.

Iniciava cada encontro com ela sem esperar alcançar respostas, fosse no momento ou mais tarde. Era uma abordagem tipicamente Mentat: concentrar-se nas perguntas. Os Mentats acumulavam perguntas do mesmo modo que os outros acumulavam respostas.

As perguntas criavam seus próprios padrões e sistemas. Isso produzia as mais importantes formas. Você olhava para seu universo através de padrões autocriados — todos compostos de imagens, palavras e rótulos (temporários), todos misturados em impulsos sensórios, que refletiam suas construções internas, do mesmo modo que a luz saltava das superfícies brilhantes.

O professor Mentat original de Idaho tinha formado as palavras temporárias para essa primeira tentativa de construção: —

Observe os movimentos consistentes contra sua tela interna.

Desta primeira imersão hesitante nos poderes Mentat, Idaho pôde traçar o crescimento de uma sensibilidade a mudanças, em suas observações, sempre tornando-se Mentat.

Bellonda era sua prova mais severa. Ele tinha horror ao seu olhar penetrante e às suas perguntas cortantes. Mentat sondando Mentat. Recebia suas investidas delicadamente, com reserva e paciência. “Bem, o que você está procurando?”

Como se ele não soubesse.

Usava a paciência como máscara. Mas o medo vinha naturalmente, e não havia mal nenhum em mostrá-lo. Bellonda não escondia seu desejo de vê-lo morto.

Idaho aceitava o fato de que logo as vigias veriam uma única fonte possível para as habilidades que ele era forçado a usar.

As habilidades reais de um Mentat estavam nessa construção mental que eles chamavam “a grande síntese”. Exigia uma paciência que os não-Mentats não podiam nem imaginar que fosse possível. As escolas Mentat a definiam como perseverança. Você era um rastreador primitivo, capaz de interpretar minúsculos sinais, pequenas perturbações no ambiente e de segui-las até onde elas o levassem. Ao mesmo tempo, permanecia aberto a amplos movimentos dentro e ao redor de si. Isso produzia a inocência, a

postura Mentat básica, semelhante à dos Reveladores da Verdade, mas muito mais devastadora.

— Estamos abertos para o que quer que o universo faça —

seu primeiro instrutor tinha dito. — Sua mente não é um computador; é um instrumento de respostas, regulado para qualquer coisa que seja mostrada pelos sentidos.

Idaho sempre reconhecia quando os sentidos de Bellonda estavam abertos. Ficava de pé, com o olhar levemente voltado para o interior, e ele sabia que poucos preconceitos habitavam sua mente. Sua defesa estava na falha básica de Bellonda: abrir os sentidos exigia um idealismo que lhe era desconhecido. Ela não fazia as melhores perguntas, e isso o intrigava. Odrade seria capaz de usar um Mentat com falhas? Isso não combinava com suas outras ações.

“Procuro as perguntas que formam as melhores imagens.”

Fazendo isso, você nunca pensava em si mesmo como inteligente, como a pessoa que tinha a fórmula para a solução. Você permanecia tão receptivo às novas perguntas como aos novos padrões. Testar, retestar, fazer e refazer. Um processo constante, nunca interrompido, nunca inteiramente satisfatório. Era sua própria pavana particular, semelhante àquela dos outros Mentats, mas levava sempre sua postura pessoal única e suas próprias etapas.

“Nunca se é realmente um Mentat. E por isso que nós o chamamos de Meta Sem Fim.” As palavras de seus professores estavam escritas a fogo em sua consciência.

À medida que ele acumulava observações sobre Bellonda, veio a valorizar o ponto de vista daqueles grandes Mestres Mentat que o tinham ensinado. As Reverendas Madres não dão os melhores Mentats.

Nenhuma Bene Gesserit pareceu capaz de libertar-se completamente do vínculo absoluto que alcançava na Agonia da Especiaria: lealdade à sua Irmandade.

Seus professores o tinham advertido contra os absolutos.

Eles criavam uma falha séria em um Mentat.

— Tudo que você faz, tudo que você percebe ou diz é experimentado. Não há dedução final. Nada tem fim, até a morte, e

talvez nem mesmo aí, porque cada vida cria ondulações intermináveis. A indução salta interiormente, e você se torna sensível a ela. A dedução implica as ilusões dos absolutos.

Estilhace a verdade a pontapés.

Quando as perguntas de Bellonda tocavam seu relacionamento com Murbella, ele percebia vagas respostas emocionais. “Divertimento? Ciúme?” Ele podia aceitar divertimento (e até ciúme) em relação às fortes exigências sexuais dessa dependência mútua. “Será que o êxtase é assim tão formidável?”

Ele vagava pelos aposentos nessa tarde, sentindo-se deslocado, como se ainda fosse novo aí e não os estivesse aceitando como sua casa. “É a voz da emoção.”

Durante os anos de sua prisão, esses alojamentos tinham adquirido a aparência de uma habitação. Esta era a sua caverna, a antiga suíte de supercarga: grandes salas de paredes levemente curvas — quarto de dormir, biblioteca, escritório, sala de estar, banheiro de azulejos verdes com sistemas de limpeza seca e hidráulica, e um grande salão de prática, que ele compartilhava com Murbella, para os exercícios físicos.

Os aposentos tinham uma coleção única de artefatos e marcas da sua presença: a cadeira linga, colocada bem no ângulo de sua mesa de comando, e o projetor ligando-o aos sistemas da nave, os registros ridulianos na mesinha baixa. E havia as marcas da ocupação — aquela mancha escura na mesa de trabalho.

Alimento derramado que tinha deixado sua marca indelével.

Dirigiu-se agitado para o quarto de dormir. A luz estava reduzida. Sua capacidade de identificar as coisas familiares aplicava-se também aos odores. Havia um cheiro de saliva na cama

— o resíduo da colisão sexual da noite anterior.

“Essa era a palavra adequada: colisão.”

O ar da não-nave — filtrado, reciclado e suavizado —

freqüentemente o aborrecia. Nenhuma saída dessa confusão para o exterior permanecia aberta por muito tempo. Às vezes, ele sentava-se silenciosamente, fungando, esperando um leve traço de ar que não tivesse sido ajustado às exigências da prisão.

“Há um modo de escapar!”

Saiu de seus alojamentos, desceu o corredor, tomou a calha de descida rápida no fim da passagem, e emergiu no nível inferior da nave.

“O que estará acontecendo realmente lá fora, nesse mundo a céu aberto?”

O pouco que Odrade lhe contava sobre os acontecimentos enchia-o de apreensão e dava-lhe o sentimento de ter caído numa armadilha. “Sem ter para onde correr! Estarei certo em compartilhar meus medos com Sheeana? Murbella simplesmente riu. —

Protegerei você, amor. As Honradas Madres não me farão mal. —

Outro sonho falso.”

“Mas Sheeana... Com que rapidez ela tinha entendido a linguagem das mãos e entrado no espírito de sua conspiração.

Conspiração? Não... Duvido que alguma Reverenda Madre aja contra suas Irmãs. Até mesmo Lady Jessica voltou para elas no fim.

Não peço a Sheeana que aja contra sua Irmandade, somente que nos proteja contra a loucura de Murbella.”

O imenso poder das caçadoras fazia com que só se pudesse prever a destruição. Um Mentat precisaria apenas olhar para sua violência destruidora. Elas também traziam algo mais, algo que tinha a ver com as questões da Dispersão, lá fora. O que eram esses Futares que Odrade mencionava tão casualmente? Parte humanos, par te feras? Essa tinha sido a suspeita de Lucilla. “E onde estava Lucilla?”

Num instante ele se achou no Grande Porão, o espaço de carga quilométrico, onde tinham transportado o último gigantesco verme da areia de Duna, trazendo-o para a Sede da Irmandade. A área ainda tinha o cheiro de especiaria e areia, enchendo sua mente com os tempos passados e os mortos longínquos. Sabia porque vinha com tanta freqüência ao Grande Porão, às vezes até sem pensar, como agora. Ele o repelia e atraía, ao mesmo tempo. A ilusão de espaço ilimitado, com traços de poeira, areia e especiaria trazia-lhe a nostalgia de liberdades perdidas. Mas havia um outro lado. Era aqui que aquilo sempre lhe acontecia.

“O que acontecerá hoje?”

Sem nenhum aviso, o sentido de estar no Grande Porão se desfazia. Então... a rede vislumbrada vagamente num céu incandescente. Tinha consciência de que não “via” realmente uma rede, quando a visão aparecia. Sua mente interpretava o que os sentidos não podiam definir.

“Uma rede bruxuleante, ondulando como um infinito boreal.”

Então a rede se partia, e ele via duas pessoas — homem e mulher. Como pareciam comuns e, ao mesmo tempo, extraordinários. Uma avó e um avô em roupas antigas: macacão de peitilho para o homem e um longo vestido com um lenço de cabeça para a mulher. Trabalhando num jardim de flores. Pensou que seria mais uma ilusão. “Estou vendo isso, mas não é realmente o que vejo.” Eles sempre o viam, no fim. Ouvia suas vozes: — Lá está ele, de novo, Marty — dizia o homem, chamando a atenção da mulher para Idaho.

— Fico pensando como ele pode ver, estando do outro lado?

— Marty perguntou uma vez. — Parece impossível.

— Ele se expandiu numa camada muito fina, eu acho. Será que conhece o perigo?

“Perigo.” Essa era a palavra que sempre o arrancava da visão. — Não está em sua mesa de comando, hoje?

Apenas por um instante, Idaho pensou que fosse a visão, a voz dessa mulher estranha, mas então compreendeu que era Odrade. Sua voz soou bem atrás de si. Ele rodopiou e viu que tinha esquecido de fechar o alçapão. Ela o tinha seguido até o Porão, espreitando-o silenciosamente, evitando a areia espalhada que poderia ter chiado sob seus pés e traído sua presença. Parecia cansada e impaciente. “Por que ela acha que eu estaria em minha mesa?”Como se respondesse à pergunta não-formulada, ela disse:

— Encontro-o em seu consolo tantas vezes, ultimamente. O que está procurando, Duncan?

Ele sacudiu a cabeça sem falar. “Por que me sinto em perigo de repente?”

Era um sentimento raro, na companhia de Odrade. Entretanto podia lembrar-se de outras ocasiões. Uma vez, quando ela tinha olhado fixamente para suas mãos no campo de sua mesa de comando. “Medo associado à minha mesa. Será que revelo minha fome Mentat de informações? Por acaso adivinham que foi lá que escondi meu eu secreto?”

— Não tenho nenhuma privacidade? — Irritação e ataque.

Ela sacudiu a cabeça devagar, como quem diz: — Você pode fazer melhor que isso.

— Esta é a sua segunda visita hoje — acusou.

— Devo dizer que está com boa aparência, Duncan. — Mais circunlóquios.

— É isso que suas vigias dizem?

— Não seja mesquinho. Vim bater um papo com Murbella.

Ela disse que você estaria aqui embaixo.

— Acho que você sabe que Murbella está grávida novamente. — Odrade estaria tentando apaziguá-la?

— Pelo que estamos muito gratas. Vim dizer-lhe que Sheeana quer vê-lo novamente.

“Por que Odrade traria essa notícia?”

Suas palavras trouxeram-lhe imagens da menina abandonada de Duna, que se tornara uma completa Reverenda Madre (a mais jovem de todos os tempos, era o que diziam).

Sheeana, sua confidente, lá fora observando o último verme da areia gigante. Teria ele se perpetuado, finalmente? Por que o interesse de Odrade pela visita de Sheeana?

— Sheeana quer discutir o Tirano com você. Viu a surpresa que isso produziu.

— O que eu poderia acrescentar ao conhecimento de Sheeana a respeito de Leto II? — interpelou. — Ela é uma Reverenda Madre.

— Você conheceu os Atreides intimamente. “Ahhh. Ela está caçando o Mentat.”

— Mas você disse que ela queria discutir Leto, e não é seguro pensar nele como Atreides.

— Oh, mas ele era. Tornado mais poderoso que qualquer outro antes dele, mas um de nós, de qualquer forma.

“Um de nós!” Queria lembrá-lo de que ela, também, era Atreides. Cobrando seu interminável débito com a família!

— Assim diz você.

— Não acha que deveríamos parar com esse jogo tolo?

Foi tomado de súbita cautela. Viu que ela percebia isso. Essa detestável sensibilidade das Reverendas Madres. Olhou-a fixamente, não ousando falar, mas sabendo que mesmo isso deixava transparecer mais do que desejava.

— Achamos que você se recorda de mais que uma existência de ghola. — E como ele não tivesse dado resposta: —

Vamos, vamos, Duncan! Você é um Mentat?

Pelo modo como ela falou, tanto uma acusação como uma pergunta, ele soube que a dissimulação tinha acabado. Era quase um alívio.

— E se for?

— Os Tleilaxu misturaram as células de mais de um ghola Idaho, quando o criaram.

“Ghola Idaho!” Ele se recusava a pensar em si mesmo como essa abstração. — Por que Leto é, de repente, tão importante para você? — A resposta não representava uma fuga em admiti-lo.

— Nosso verme transformou-se em truta da areia.

— Elas estão crescendo e se propagando?

— Aparentemente.

— A menos que vocês as contenham ou as eliminem, a Sede da Irmandade poderá tornar-se um outro Duna.

— Você planejou isso, não?

— Leto e eu, juntos.

— Então você se lembra de muitas vidas. Fascinante. Isso faz de você uma pessoa semelhante a nós. — Como era firme o seu olhar! — Muito diferente, eu acho. “Tenho de afastá-la dessa direção!”

— Você alcançou as lembranças durante seu primeiro encontro com Murbella?

“Quem teria pensado nisso? Lucilla? Ela estava lá, e podia ter adivinhado, confiando suas suspeitas às Irmãs.” Ele tinha que esclarecer o assunto mortal.

— Não sou outro Kwisatz Haderach!

— Não é? — Objetividade estudada. Ela permitiu que isso se revelasse, uma crueldade, ele pensou.

— Você sabe que não! — Ele estava lutando pela vida, e sabia disso. Não tanto com Odrade, mas com as outras que vigiavam e examinavam os registros dos televigias.

— Conte-me a respeito de suas memórias em série. — Era uma ordem da Madre Superiora. Não havia como escapar.

— Conheço essas... vidas. É como se fosse uma única existência.

— Essa acumulação poderia ser muito valiosa para nós, Duncan. Você também se lembra dos tanques axlotl?

A pergunta enviou seu pensamento para as sondagens nebulosas que o fizeram imaginar coisas estranhas sobre os Tleilaxu — grandes elevações de carne humana suavemente visíveis aos olhos imperfeitos do recém-nascido, imagens nebulosas e desfocadas, quase-memórias da emersão pelos canais do nascimento. Como isso podia combinar com “tanques”?

— Scytale nos forneceu o conhecimento para fazermos nosso próprio sistema axlotl — Odrade disse.

Sistema? Palavra interessante. — Isso significa que vocês também duplicam a produção de especiaria Tleilaxu?

— Scytale pede mais do que estamos dispostas a lhe dar.

Mas a especiaria virá a seu tempo, de um modo ou de outro.

Odrade ouviu-se falar firmemente e perguntou-se se ele perceberia a incerteza. “Pode ser que não tenhamos tempo de fazê-lo.”

— As Irmãs que vocês dispensaram estão em dificuldades

— disse ele, dando-lhe uma pequena prova da consciência Mentat.

— Vocês estão tirando do estoque para fornecer-lhes, e as reservas podem chegar ao fim.

— Elas têm nosso conhecimento axlotl e as trutas da areia.

A possibilidade de incontáveis Dunas sendo reproduzidos num universo infinito chocou-o a ponto de silenciá-lo.

— Elas tentarão resolver o problema do suprimento de melange com os tanques, com os vermes ou ambos — disse ela.

Nisso podia ser sincera. Tratava-se de uma expectativa estatística.

Um entre os grupos dispersos das Reverendas Madres deveria consegui-lo.

— Os tanques — disse ele. — Tenho... sonhos estranhos. —

Quase tinha dito “preocupações”.

— E bem deveria. — Em poucas palavras, ela lhe contou como a carne da mulher era incorporada.

— Para fazer a especiaria também?

— Achamos que sim.

— Repugnante!

— Não seja imaturo — ela repreendeu.

Em tais momentos, ele a detestava intensamente. Uma vez ele a censurara pelo modo como as Reverendas Madres se retraíam da “corrente comum das emoções humanas”, e ela tinha dado uma resposta idêntica.

“Imaturo?”

— E provavelmente sem remédio — ele disse. — Uma infeliz falha em meu caráter.

— Está pensando em debater moralidade comigo?

Ele pensou ter percebido irritação em sua voz. — Nem mesmo ética. Funcionamos sob normas diferentes.

— Normas são geralmente desculpas para se ignorar a compaixão.

— Será que estou ouvindo um longínquo eco de consciência numa Reverenda Madre?

— Deplorável. Minhas Irmãs me mandariam para o exílio se pensassem que eu era dirigida pela consciência.

— Você pode ser estimulada, não governada.

— Muito bem, Duncan. Gosto muito mais quando você é abertamente Mentat.

— Não confio em seu gosto.

Seu riso soou alto. — Como é parecido com Bell!

Ele fixou-lhe um olhar estúpido. Seu riso tinha-o mergulhado no conhecimento súbito do modo de escapar de suas carcereiras, livrar-se das constantes manipulações Bene Gesserit e viver sua própria vida. A saída não estava na maquinaria, mas nas falhas da Irmandade. Os absolutos pelos quais elas acreditavam tê-lo cercado e preso — aí estava a saída!

“E Sheeana sabe! Essa é a isca com que ela acena para mim.” Como Idaho não falasse, Odrade disse: — Conte-me sobre as outras vidas.

— Errado. Penso nelas como uma vida contínua.

— Sem mortes?

Ele respondeu de forma silenciosa. Memórias em série: as mortes eram tão informativas como as vidas. Morto tantas vezes pelo próprio Leto!

— As mortes não interrompem minhas memórias.

— Uma estranha forma de imortalidade — ela disse. — Você sabe que os Mestres Tleilaxu se divertiam, não sabe? Mas você —

o que eles esperavam conseguir, misturando vários gholas numa só carne? — Pergunte a Scytale.

— Bell tinha certeza de que você era um Mentat. Ela ficará encantada.

— Acho que não.

— Providenciarei para que fique. Puxa! Tenho tantas perguntas, que não sei por onde começar. — Ela o estudou, com a mão esquerda sob o queixo.

“Perguntas?” Exigências Mentat fluíram na mente de Idaho.

Deixou que as perguntas que tinha feito a si mesmo tantas vezes se movimentassem, formando padrões. “O que os Tleilaxu procuravam em mim?” Eles não podiam ter incluído células de todos os gholas nesta encarnação. Entretanto... ele tinha todas as memórias. Que elo cósmico acumulou todas essas vidas num único self?. Seria essa a pista para as visões que o tinham assaltado no Grande Porão? Meias memórias formaram-se em sua mente: seu corpo em fluido morno, alimentado por tubos, massageado por máquinas,

sondado e questionado por observadores Tleilaxu. Sentiu respostas sussurrantes de eus semi-adormecidos. As palavras não tinham significado. Era como se estivesse ouvindo uma língua estrangeira de seus próprios lábios, mas ele sabia que era o Galach comum.

O alcance que reconhecia nas ações dos Tleilaxu enchia-o de medo e admiração. Eles investigavam um cosmo que ninguém tinha ousado tocar, a não ser as Bene Gesserit. O fato de terem sido movidos por razões egoístas não diminuía seus feitos. Os infindáveis renascimentos dos Mestres Tleilaxu eram uma recompensa digna dessa ousadia.

Dançarinos Faciais para copiar qualquer vida, qualquer mente. O âmbito do sonho Tleilaxu era tão espantoso quanto as façanhas das Bene Gesserit.

Scytale reconhece memórias dos tempos do Muad’Dib —

disse Odrade. — Vocês poderiam trocar idéias, qualquer dia.

— Essa espécie de imortalidade é um instrumento de barganha — preveniu ele. — Ele poderia vendê-la para as Honradas Madres?

— É possível. Vamos. Vamos voltar a seus alojamentos.

No gabinete, Odrade fez um gesto para que ele ocupasse a cadeira em sua mesa de comando, e Idaho se perguntou se ela ainda estava atrás de seus segredos. Ela curvou-se sobre ele para manipular os controles. O projetor opaco produziu a cena de um deserto com o horizonte de dunas ondulantes.

— A Sede da Irmandade? — ela disse. — Uma larga faixa ao longo de nosso equador.

A excitação o tomou. — Trutas da areia, você disse. Mas há novos vermes?

— Sheeana espera-os em breve.

— Eles exigem uma grande quantidade de especiaria como catalisador.

— Nós investimos uma grande quantidade de melange lá fora. Leto lhe contou a respeito do catalisador, não foi? Que mais você se lembra dele?

Continuar: parte 4 de 16