As Herdeiras de Duna

Frank Herbert · Capítulo 2 de 3 · parte 2/16

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As Herdeiras de Duna

Folha de Rosto

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 16 partes.

Por que ela teria invocado essa imagem logo agora?

Em razão das três pessoas lá aprisionadas — Scytale, o último Mestre Tleilaxu sobrevivente; Murbella e Duncan Idaho, o par sexualmente aprisionado, ambos tão presos pelo seu mútuo vínculo como pela não-nave.

“Nada simples, nenhum deles.”

Raramente havia explicações simples para qualquer empreendimento das Bene Gesserit. A não-nave com seu conteúdo mortal poderia ser apenas classificada como um esforço dos mais

importantes. Dispendioso. Muito dispendioso em energia, mesmo na sua qualidade de recurso de prontidão.

A aparência de distribuição parcimoniosa em toda essa despesa denotava crise de energia. Uma das preocupações de Bell.

Podia-se senti-la em sua voz, mesmo quando se mostrava mais objetiva: — Já estamos nos ossos, e nada para cortar! — Todas as Bene Gesserit sabiam que os olhos vigilantes da Contabilidade estavam sobre elas nesses dias, numa atitude crítica em relação à dissipação do vigor da Irmandade.

Bellonda entrou na sala em passos largos, sem se fazer anunciar, com um rolo de registros de cristal riduliano sob o braço esquerdo. Caminhava como se odiasse o solo, batendo o pé com força sobre ele, como se dissesse: Tome aí! E mais! Mais esse!

Batendo no chão por ele ser culpado de estar sob seus pés.

Odrade sentiu um aperto no peito quando viu o olhar de Bellonda. Os registros foram atirados sobre a mesa com um sonoro

“plaft”. — Lâmpadas — disse Bellonda, e havia agonia em sua voz.

Odrade não precisou abrir o rolo. “A água sangrenta da Filha do Mar acaba de tornar-se realidade.”

— Sobreviventes? — Sua voz soou tensa.

— Nenhum. — Bellonda despencou na cadeira-cão que mantinha ao lado da mesa de Odrade.

Tamalane entrou nesse momento e sentou-se atrás de Bellonda. Ambas pareciam atingidas.

“Nenhum sobrevivente.”

Odrade permitiu-se um estremecimento lento, que foi do peito até as solas dos pés. Não se importava que as outras vissem essa reação reveladora. Esta sala tinha visto comportamentos piores das Irmãs. — Quem relatou?

— As notícias vieram através de nossos espiões CHOAM e tinham a marca especial. O Rabino forneceu a informação, não há a menor dúvida.

Odrade não sabia como responder. Lançou um olhar para a larga janela em arco, atrás de suas companheiras, vendo um suave

alvoroço de flocos de neve. Sim, as notícias merecidamente combinavam com o inverno, que comandava suas forças lá fora.

As irmãs da Sede estavam descontentes com a súbita entrada do inverno. A Meteorologia tinha sido forçada pelas necessidades a deixar a temperatura cair precipitadamente. Não houve o declínio gradual para o inverno, nenhuma gentileza para com as coisas que crescem, que agora tinham de passar pela dormência enregelante. O frio aumentava três ou quatro graus a cada noite. Façam tudo dentro de uma semana mais ou menos, e mergulhem-nas todas no gelo aparentemente interminável.

“Frio para combinar com as notícias sobre Lâmpadas.”

Um dos resultados dessa mudança de tempo era o nevoeiro.

Ela podia vê-lo dissipando-se, quando a breve lufada de neve terminou. Tempo muito confuso. Puseram o ponto de orvalho próximo à temperatura do ar, e o nevoeiro rolou para os pontos úmidos restantes. Levantava-se do chão em névoas de tule que vagavam pelos pomares sem folhas como um gás venenoso.

“Absolutamente nenhum sobrevivente?”

Bellonda sacudiu a cabeça de lado a lado em resposta ao olhar inquiridor de Odrade.

Lâmpadas — urna jóia na rede de planetas da Irmandade, terra da escola mais premiada, mais outra bola de cinzas sem vida, outra fusão endurecida. E o Bashar Alef Burzmali, com toda sua selecionada força de defesa. “Todos mortos?”

— Todos mortos — disse Bellonda.

Burzmali, o aluno favorito do Bashar Teg, morto, e nada se ganhou com isso. Lâmpadas — a maravilhosa biblioteca, os professores brilhantes, os primeiros alunos... tudo perdido.

— Até mesmo Lucilla? — Odrade perguntou. A Reverenda Madre Lucilla, vice-chanceler de Lâmpadas, tinha sido instruída a fugir ao primeiro sinal de problema, levando consigo tudo o que pudesse guardar na Outra Memória.

— Os espiões disseram que todos foram mortos — Bellonda insistiu. Era um sinal desalentador para as Bene Gesserit sobreviventes: — Vocês poderão ser as próximas!

Como podia uma sociedade humana ser anestesiada a tal brutalidade? Era o que Odrade se perguntava. Ela visualizou a notícia, na hora do café, em alguma base das Honradas Madres: —

Destruímos outro planeta dos Bene Gesserit. Dez milhões de mortos, dizem. Isso completa seis planetas este mês, não é mesmo? Passe o creme, por favor, querida.

Quase petrificada de horror, Odrade pegou o relatório e deu uma rápida olhada. “Veio do Rabino, sem dúvida alguma.” Depôs o relatório suavemente, e olhou para suas Conselheiras.

Bellonda — velha, gorda e rubicunda. Arquivista Mentat, usando óculos para ler, agora, sem dar importância ao que isso poderia revelar a seu respeito. Mostrou seus dentes rombudos numa larga careta que dizia mais que palavras. Tinha visto a reação de Odrade ao relatório. Bell poderia brigar mais uma vez pela retaliação na mesma moeda. Podia-se esperar essa atitude por parte de alguém que era valorizado por sua violência natural. Era preciso lançá-la de volta ao hábito Mentat, onde poderia ser mais analítica.

“A seu modo, Bell está certa”, pensou Odrade. “Mas ela não vai gostar do que tenho em mente. Preciso ser cautelosa com o que digo agora. É cedo demais para revelar meu plano.”

— Há certas circunstâncias em que a violência pode aplacar a violência — Odrade disse. — Devemos considerar essa questão cuidadosamente.

“É isso! A observação evitaria a explosão de Bellonda.”

Tamalane mexeu-se levemente na cadeira. Odrade olhou para a mulher mais velha. Tam, composta aí, em sua máscara de crítica paciência. Cabelos de neve acima da face estreita: a aparência de uma sabedoria de muitos anos.

Viu, através da máscara de extrema severidade de Tam, a atitude reveladora de seu desagrado por tudo que via e ouvia.

Em contraste com a suave superfície da carne de Bell, havia uma solidez óssea em Tamalane. Ela ainda se mantinha em forma, seus músculos tão bem tonificados quanto era possível. Em seus olhos, porém, estava presente algo que desmentia isso: “uma sensação de retirada, aí, retraindo-se da vida”. Oh, ela observava ainda, mas a retirada final já fora iniciada. A afamada inteligência de Tamalane torna-se uma espécie de perspicácia, mais confiante em decisões e observações passadas do que nas coisas que ela via no presente imediato.

“Precisamos começar a preparar uma substituição. Será Sheeana, eu acho. Sheeana é perigosa para nós, mas demonstra ser uma grande promessa. E Sheeana foi iniciada em Duna.”

Odrade fixou o olhar nas sobrancelhas revoltas de Tamalane.

Elas tendiam a pender num desalinho que escondia as pálpebras.

“Sim. Sheeana para substituir Tamalane.”

Conhecedora dos problemas complexos que tinham a resolver, Tam aceitaria a decisão. No momento de anunciar o fato, Odrade sabia que apenas teria de chamar sua atenção para a enormidade da crise que atravessavam.

“Sentirei sua falta, maldição.”

Não se pode conhecer a História, a menos que se conheça como os líderes seguem seu curso. Todo líder exige que os estranhos perpetuem sua liderança. Examinem minha carreira: fui líder e estranho. Não pensem que simplesmente criei uma Igreja-

Estado. Essa era minha função como líder, e copiei modelos históricos. As artes bárbaras de meu tempo revelam-me como estranho. Poesia favorita: épica. Ideal dramático popular: heroísmo.

Dançarinos: totalmente abandonados. Estimulantes para fazer com que as pessoas sentissem o que eu lhes tirei. E o que foi que lhes tirei? O direito de escolher um papel na História.

— Leto II (O Tirano) Tradução Vether Bebe

“Vou morrer!”, Lucilla pensou.

“Por favor, queridas Irmãs, não deixem que isso aconteça antes que eu passe o precioso fardo que carrego na mente!”

“Irmãs!”

A idéia de família era raramente expressa entre as Bene Gesserit, mas existia. Num sentido genético, elas eram relacionadas. E em razão da Outra Memória, freqüentemente sabiam como. Não tinham necessidade de termos como “prima em segundo grau” ou “tia-avó”. Viam o parentesco como um tecelão vê o pano. Sabiam como a urdidura e a trama criavam o tecido.Uma palavra mais adequada que Família era o tecido das Bene Gesserit que formava a Irmandade, mas era o antigo instinto de Família que fornecia a urdidura.

Agora, Lucilla pensava em suas irmãs somente como Família. A Família precisava daquilo que carregava.

“Fui uma tola procurando refúgio em Gammu!”

Mas sua não-nave avariada não conseguiria arrastar-se mais longe. Que extravagância diabólica essa, a das Honradas Madres!

O ódio que isso implicava a enchia de terror.

Espalhar armadilhas mortais nas vias de fuga ao redor de Limpadas, deixando o perímetro das Dobras do Espaço semeado de não-globos, cada um contendo um projetor de campo e uma arma laser para disparar quando em contato. Quando o laser atingia o gerador Holzmann do não-globo, uma reação em cadeira liberava a energia nuclear. Bzzzz no campo de armadilhas, e uma explosão devastadora espalhava-se silenciosamente através da pessoa.

Dispendioso, mas eficiente! Um número suficiente de explosões

desse tipo, e até mesmo uma gigantesca Nave da Corporação tornar-se-ia um estropiado destroço no vácuo. O sistema de análise defensiva de sua nave tinha penetrado a natureza da armadilha somente quando já era tarde demais, mas ela tivera sorte, supunha.

Não se sentia afortunada, enquanto olhava para fora da janela do segundo andar de uma isolada casa de fazenda, em Gammu. A janela estava aberta, e a brisa da tarde carregava o inevitável cheiro de óleo, uma coisa suja na fumaça de um fogo lá fora. Os Harkonem tinham deixado sua marca oleosa tão profundamente neste planeta que talvez nunca fosse removida.

Seu contato aqui era um médico aposentado Suk, mas ela o conhecia como muito mais, algo tão secreto que somente um número limitado de irmãs partilhava disso na Bene Gesserit. O

conhecimento estava numa classificação especial: “Os segredos dos quais não falamos, nem mesmo entre nós, porque isso nos faria mal. Os segredos que não passamos de Irmã para Irmã quando partilhamos nossas vidas, porque não há caminho aberto. Os segredos que não ousamos saber, até que surja uma necessidade!”

Lucilla tinha esbarrado nele em função de uma observação velada de Odrade.

— Sabe de uma coisa interessante a respeito de Gammu?

Mmmmmmmm. Existe lá uma sociedade inteira unida pela idéia de todos comerem alimentos consagrados. Um costume trazido por imigrantes nunca totalmente integrados. Isolam-se, mostram desagrado quanto à procriação fora do grupo, esse tipo de coisa.

Acendem o habitual detrito mítico, naturalmente: cochichos, rumores. Serve para isolá-los ainda mais. Precisamente o que eles querem.Lucilla sabia de uma antiga sociedade que se encaixava perfeitamente nessa descrição. Estava curiosa. A sociedade que tinha em mente chegara ao fim logo depois da Segunda Migração Interespacial. Uma consulta judiciosa aos Arquivos aguçou sua curiosidade ainda mais. Estilos de vida, descrições de rituais religiosos encobertos pelos rumores — especialmente os candelabros — e a guarda de feriados especiais, uma proscrição do trabalho nessas ocasiões. E eles não estavam apenas em Gammu!

Certa manhã, aproveitando um período incomum de calma, Lucilla entrou na sala de trabalho para verificar sua “suposição projetiva”, algo que não era tão confiável quanto um equivalente Mentat, mas que era mais que uma teoria.

— Você tem um novo encargo para mim, acho eu.

— Vejo que andou consultando os arquivos.

— Pareceu-me uma atividade proveitosa neste momento.

— Fazendo associações?

— Uma suposição. “Essa sociedade secreta em Gammu —

eles são judeus, não são?”

— Você pode ter necessidade de informações especiais devido ao lugar para onde pretendemos designá-la. — Seu tom era extremamente casual.

Lucilla afundou na poltrona-cão de Bellonda, sem convite.

Odrade pegou um buril, rabiscou numa folha descartável e passou-a a Lucilla de um modo que a escondia dos televigias.

Lucilla percebeu a intenção e curvou-se sobre a mensagem, segurando-a bem atrás do escudo formado por sua cabeça.

— Sua suposição está correta. Você deve preferir morrer a revelá-la. Esse é o preço da cooperação deles, uma grande prova de confiança. — Lucilla destruiu a mensagem.

Odrade usou identificação de olhos e de palma para descerrar um painel na parede atrás de si. Removeu um cristal riduliano e entregou-o a Lucilla. Estava quente, mas ela sentiu um calafrio. O que poderia ser tão secreto? Odrade tirou o capacete de segurança de sob a mesa e girou o eixo na posição.

Lucilla deixou cair o cristal no receptáculo com a mão trêmula e puxou o capacete sobre a cabeça. Imediatamente as palavras se formaram em sua mente, e ela reconheceu sotaques extremamente antigos: — As pessoas que chamaram sua atenção são os judeus.

Eles tomaram uma decisão defensiva há eras passadas. A solução para os massacres recorrentes era desaparecer da vista do público.

As viagens espaciais tornaram isso não só possível, como atraente.

Esconderam-se em inúmeros planetas — sua própria Dispersão —

e provavelmente têm planetas onde somente seu povo vive. Isso não significa que eles tivessem abandonado as práticas

antiqüíssimas nas quais se especializaram por necessidade de sobrevivência. A antiga religião seguramente persiste, embora um pouco alterada. É provável que um rabino dos tempos antigos não se sinta deslocado diante do candelabro do Sabá de uma casa judia moderna. Mas seu sigilo é tal, que você poderia trabalhar a vida inteira ao lado de um judeu e nunca suspeitar do fato. Eles o chamam de “Cobertura Completa”, embora conheçam seus perigos.

Lucilla aceitou isso sem questionar. Isso que era tão secreto seria reconhecido como perigoso por qualquer um que ao menos suspeitasse de sua presença. “Do contrário, por que eles manteriam um segredo tão grande? Porquê?”

O cristal continuou a despejar segredos em sua consciência.

— Diante da ameaça de descoberta, eles têm uma reação padrão:

“Nós procuramos a religião de nossas raízes. É um renascimento, trazendo o que há de melhor em nosso passado.”

Lucilla conhecia esse padrão. Havia sempre “renovadores malucos”. Isso era garantido para aplacar a maior parte da curiosidade. — Eles? Oh, são mais um bando de restauradores!

— O sistema de dissimulação (continuava o cristal) não teve sucesso conosco. Temos nossa própria herança judia bem documentada e um fundo da Outra Memória para nos revelar as razões do sigilo. Não interferimos na situação até que eu, Madre Superiora durante e após a batalha de Corrino (antiqüíssimo, de fato), vi que nossa Irmandade necessitava de uma sociedade secreta, um grupo que compreendesse nossas solicitações de ajuda. Lucilla sentiu um impulso de ceticismo. Solicitações? A antiga Madre Superiora tinha antecipado o ceticismo. — De vez em quando fazemos exigências que eles não podem evitar. Mas eles também fazem as suas.

Lucilla sentiu-se imersa na mística dessa sociedade oculta.

Era mais que ultra-secreta. Suas desajeitadas indagações nos Arquivos tinham suscitado rejeições, na maioria das vezes. —

Judeus? O que é isso? Oh, sim uma antiga seita. Procure você mesma. Não temos tempo para pesquisas ociosas sobre religião.

O cristal tinha mais a divulgar: — Os judeus acham divertido, e às vezes espantoso, o que interpretam como sendo nossa

imitação deles. Nossos registros de procriação dominados pela linha feminina para controlar o padrão de acasalamento são vistos como judeus. Você será judia somente se sua mãe for judia.

O cristal finalizou: — A diáspora será lembrada. Guardar este segredo envolve nossa mais profunda honra. Lucilla ergueu o capacete da cabeça.

— Você é uma excelente escolha para uma tarefa muito delicada em Lâmpadas — Odrade tinha dito, recolocando o cristal em seu esconderijo. “Isto é passado, e provavelmente morto. Veja ao que me trouxe a missão delicada de Odrade!”

Do lugar onde estava na casa de fazenda de Gammu, Lucilla percebeu que um grande carro de transporte de mercadorias tinha entrado no local. Havia um alvoroço de atividade lá embaixo. Os trabalhadores vinham de todos os lados para lançar no carro reboques cheios de verduras. Ela sentia o aroma penetrante dos talos cortados.

Lucilla não se moveu da janela. Seu anfitrião tinha lhe fornecido vestimentas locais — um longo vestido pardo de uso diário e um lenço de cabeça azul-brilhante para conter seu cabelo cor de areia. Era preciso não fazer nada que chamasse indevida atenção para si. Tinha visto outras mulheres pararem para observar o trabalho da fazenda. Sua presença aqui poderia ser tomada como curiosidade.

Era um grande carro transportador, com os suspensores funcionando sob o peso dos produtos já empilhados em seções articuladas. O operador mantinha-se de pé numa cabine transparente na parte dianteira, com as mãos na alavanca de direção, olhos dirigidos para a frente. Com as pernas bem separadas, ele se inclinava sobre a rede de suportes da rampa, encostando o quadril na barra de força. Era um homem grande, de face escura e enrugada, o cabelo estriado de cinza. Seu corpo era uma extensão da máquina — orientando o pesado movimento.

Lançou um olhar rápido, mas penetrante a Lucilla, quando passou, desviando-o a seguir para o caminho que levava à vasta área de carregamento delimitado pelos edifícios abaixo da janela.

“Embutido na máquina”, ela pensou. Isso evidenciava o modo como os humanos se adequavam às coisas que faziam. Lucilla sentiu uma força debilitante nesse pensamento. Se você se integra demasiado a uma única coisa, as outras capacidades se atrofiam.

“Nós nos tornamos o que fazemos.”

Imaginou-se de repente como o operador de uma grande máquina, em nada diferente do homem da transportadora.

A grande máquina, passando por ela, fez a volta para fora do pátio, sem que o operador lhe dirigisse outro olhar. Ele já a tinha visto uma vez. Por que olhar de novo?

Seus anfitriões tinham feito uma sábia escolha deste esconderijo, pensou. Uma área escassamente povoada, com trabalhadores confiáveis na vizinhança e pouca curiosidade entre as pessoas que passavam. O trabalho duro aplacava a curiosidade.

Tinha percebido a característica da área quando foi trazida para o local. Já era noite, e as pessoas caminhavam pesadamente para casa. Pode-se medir a densidade urbana de uma área pelo momento em que o trabalho pára. Deitar cedo é uma característica de regiões fracamente povoadas. A atividade noturna revela que as pessoas permanecem inquietas, crispadas, tendo a consciência interior de outras ativas e vibrantes nas proximidades.

“O que me trouxe a este estado introspectivo?”

Há muito tempo, no primeiro retiro da Irmandade, antes das piores violências das Honradas Madres, Lucilla tinha experimentado dificuldade em aceitar a idéia de que “alguém lá fora está nos perseguindo com a intenção de nos matar”.

Massacre! Foi esse o nome que o Rabino usou antes de sair aquela manhã “para ver o que posso fazer por você”.

Sabia que ele tinha escolhido a palavra do fundo de uma antiga e amarga memória, mas nunca, desde sua primeira experiência em Gammu antes desta perseguição, Lucilla tinha experimentado um tal confinamento, em circunstâncias que não podia controlar.

“Eu era uma fugitiva, então.”

A presente situação da Irmandade apresentava algumas semelhanças com aquilo que tinham sofrido sob o domínio do

Tirano, com a diferença que o Imperador-Deus obviamente (em retrospecto) nunca teve intenção de exterminar as Bene Gesserit, apenas de dominá-las. E

certamente as dominou!

“Onde estará esse maldito Rabino?”

Ele era um homem grande e veemente, com óculos fora de moda. Uma face larga, queimada pelo sol. Poucas rugas, a despeito da idade que ela podia perceber em sua voz e seus movimentos. Os óculos chamavam a atenção para olhos castanhos fundos, que a olhavam com intensidade peculiar.

— Honradas Madres — ele dissera (bem aqui, neste quarto de paredes nuas do andar superior), quando ela explicou sua difícil situação.

— Oh, Senhor! Isso é complicado.

Lucilla tinha esperado essa resposta e, mais do que isso, percebeu que ele sabia.

— Há um Navegador da Corporação em Gammu, auxiliando na sua busca — disse ele. — É um dos Edrics, muito poderoso, segundo me disseram.

— Tenho sangue de Siona. Ele não pode me ver.

— Nem a mim, nem a ninguém do meu povo, pela mesma razão. Nós, judeus, nos ajustamos a muitas necessidades, você sabe. — Esse Edric é apenas um gesto — ela disse. — Pode fazer muito pouco.

— Mas eles o trouxeram. Temo que não haja um modo de fazê-la sair do planeta com segurança.

— Então, que podemos fazer?

— Veremos. Meu povo não é inteiramente impotente, compreende? Lucilla reconheceu sinceridade e preocupação em relação a ela. Ele falou calmamente sobre o modo de resistir aos agrados sexuais das Honradas Madres, “fazendo isso discretamente, de forma a não provocá-las”.

— Farei uns contatos discretos.

Ela sentiu-se estranhamente confortada com isso. Havia, muitas vezes, algo friamente remoto e cruel em relação a cair nas

mãos das profissões médicas. Uma coisa a tranqüilizou, entretanto: o conhecimento de que os Suks eram condicionados a se manterem alertas às necessidades de outros, oferecendo compaixão e apoio.

(Todas as coisas que podem desmoronar numa emergência.) Concentrou seus esforços em recuperar a calma, focalizando a atenção no mantra pessoal que tinha obtido na “educação solo para a morte”.

“Se eu tiver que morrer, devo passar adiante minha lição transcendental. Devo partir com serenidade.”

Isso ajudou, mas sentia ainda um tremor. O Rabino tinha saído há muito tempo. Algo estava errado.

“Seria aceitado confiar nele?”

Apesar de um crescente sentido de condenação, Lucilla forçou-se a praticar a candidez Bene Gesserit, enquanto revia seu encontro com o Rabino. Suas Instrutoras chamavam isso de “a inocência que acompanha naturalmente a inexperiência, uma condição freqüentemente confundida com ignorância”. Dentro dessa candidez, todas as coisas fluem. Parecia-se com o desempenho Mentat. A informação era admitida sem prejulgamentos. “Você é um espelho no qual se reflete o universo. Esse reflexo é tudo que você vivência. As imagens saltam ao encontro dos seus sentidos.

Hipóteses se levantam. Importante, mesmo quando errado. É o caso excepcional, onde mais de um erro pode levar a decisões confiáveis.

— Somos seus fiéis servidores — o Rabino tinha dito.

Era uma afirmação que, com toda a certeza, alertava uma Reverenda Madre.

As explicações do cristal de Odrade se mostraram inadequadas de repente. “Quase sempre é o lucro.” Aceitava isso como um pensamento cínico, mas oriundo de uma vasta experiência. Tentativas de extirpá-lo do comportamento humano sempre se quebravam nas rochas da aplicação. Sistemas comunistas e socializantes somente mudavam os instrumentos de medir os lucros. Enormes burocracias gerenciais. A máquina de contar é que era o poder.

Lucilla preveniu-se de que as manifestações eram sempre as mesmas. Veja esta extensa fazenda do Rabino! Retiro de aposentadoria de um Suk? Ele tinha visto algo do que estava por trás do domicílio: criados, alojamentos mais ricos. E deve haver mais. É sempre a mesma coisa, não importa o sistema: os melhores alimentos, belas amantes, viagens sem limites, magníficas instalações de férias.

“É muito cansativo, para quem já viu isso tudo tantas vezes como eu.”

Sabia que sua mente estava se agitando nervosamente, mas sentiu-se impotente para impedi-lo. “Sobrevivência. O próprio alicerce do sistema de demanda é sempre a sobrevivência. E eu ameaço a sobrevivência do Rabino e de seu povo.”

Ele a tinha adulado. “Sempre tome cuidado com aqueles que nos adulam, aninhando-se em todo esse poder que se espera que tenhamos. Como é lisonjeiro encontrar multidões de criados esperando ansiosos para cumprir nossas ordens! Que total fraqueza nos vem daí.”

“O erro das Honradas Madres.”

“O que estará provocando a demora do Rabino?”

Estaria ele vendo quanto era possível conseguir pela Reverenda Madre Lucilla?

Uma porta bateu lá embaixo, fazendo estremecer o chão sob seus pés. Ela ouviu passos apressados na escada. Como eram primitivos! O Rabino entrou, trazendo um cheiro rico de melange.

Deteve-se de pé, na porta, avaliando o ânimo da hóspede.

— Perdoe-me o atraso, cara senhora. Fui convocado para um interrogatório com Edric, o Navegador da Corporação.

Isso explicava o odor da especiaria. Os Navegadores eram banhados para sempre no gás laranja da melange, tendo suas feições freqüentemente anuviadas pelos vapores. Lucilla podia visualizar o pequeno v da boca e a saliência do nariz de um Navegador. A boca e o nariz pareciam pequenos em seu rosto gigantesco, com as têmporas pulsando. Ela sabia como o Rabino devia ter-se sentido ameaçado pela cantilena ululante daquela voz, com sua tradução simultânea mecânica para o Galach impessoal.

— O que ele queria?

— Veio à sua procura.

— Ele...

— Ele não sabe ao certo, mas tenho certeza de que suspeita de nós. No entanto, suspeita de todo mundo.

— Seguiram-no?

— Não seria necessário. Podem me encontrar quando quiserem.

— O que faremos? — Sabia que estava falando depressa demais, alto demais.

— Cara senhora... — Adiantou-se três passos, e ela viu a transpiração em sua testa e nariz. Medo. Podia sentir-lhe o cheiro.

— Bem, o que é?

— A concepção econômica que existe por trás das atividades das Honradas Madres — nós a achamos bem interessante.

Suas palavras cristalizaram os medos de Lucilla. “Eu sabia!

Ele está me vendendo!”

— Como vocês, Reverendas Madres, bem o sabem, há sempre lacunas nos sistemas econômicos.

— Sim? — Isso era profundamente cansativo.

— A supressão incompleta de negociação em qualquer mercadoria sempre aumenta os lucros dos negociantes, especialmente os dos distribuidores mais antigos. — Sua voz hesitante era um aviso.

— Essa é a ilusão de pensar que se pode controlar narcóticos indesejados, interrompendo-os nas fronteiras.

O que ele estaria tentando lhe dizer? Suas palavras descreviam fatos elementares, conhecidos até pelas acólitas. Lucros extras eram sempre usados para abrir caminhos seguros através dos guardas da fronteira, muitas vezes comprando-se os próprios guardas.

“Será que ele comprou os criados das Honradas Madres? Na certa não acredita que o possa fazer com segurança.”

Esperou enquanto ele compunha seus pensamentos, obviamente formando uma apresentação que acreditava poder ter a

aceitação dela.

Por que ele chamou sua atenção para os guardas da fronteira? Isso era certamente o que tinha feito. Os guardas dispunham sempre de uma racionalização imediata para trair seus superiores, naturalmente: “Se eu não fizer, alguém o fará”.

Ousou ter esperança.

O Rabino limpou a garganta. Era evidente que encontrara as palavras que queria, e tinha-as colocado em ordem.

— Não acredito que haja um meio de tirá-la de Gammu com vida. Ela não esperava uma condenação tão rude. Mas os...

— A informação que carrega, esse é um outro caso — ele disse. Então era isso que estava por trás de toda essa conversa sobre fronteiras e guardas!

— Você não entende. Rabino. Minha informação não é apenas um punhado de palavras e alguns avisos. — Bateu com um dedo na testa. — Aqui há muitas vidas preciosas, todas elas experiências insubstituíveis, aprendizado tão vital que...

— Ahhh, mas eu entendo muito bem, cara senhora. Nosso problema é que a senhora não entende.

“Sempre essas referências ao entendimento!”

— É da sua honra que eu dependo neste momento — ele disse. “Ahhh, a legendária honestidade e confiabilidade das Bene Gesserit, uma vez dada a nossa palavra!”

— Sabe que eu preteriria morrer a traí-los — ela disse.

Ele estendeu as mãos abertas num gesto desamparado. —

Confio nisso plenamente, cara senhora. A questão não é de traição, mas de algo que nós nunca revelamos à sua Irmandade.

— O que está tentando me dizer? — falou bem categórica, quase com a Voz (que ela tinha sido prevenida a não usar com aqueles judeus).

— Preciso exigir-lhe uma promessa. Tenho de ter sua palavra de que não se voltará contra nós em razão do que estou para lhe revelar. É necessário prometer-me que aceitará minha solução para nosso dilema.

— Às cegas?

— Somente porque lhe peço, e lhe asseguro que nós honramos nosso compromisso com sua Irmandade.

Ela lançou-lhe um olhar penetrante, tentando ver através da barreira erguida entre eles. Suas reações podiam ser lidas na superfície, mas o mistério oculto sob seu comportamento inesperado permanecia obscuro.

O Rabino esperou que a mulher atemorizada tomasse sua decisão. As Reverendas Madres sempre o deixavam embaraçado.

Ele sabia qual devia ser sua escolha e tinha pena dela. Viu que ela podia ler a piedade em sua expressão. Sabiam tanto e tão pouco.

Seus poderes eram manifestos. E seu conhecimento de Israel Secreto tão perigoso!

“Contudo nós lhes devemos isso. Ela não é uma das Escolhidas, mas dívida é dívida. Honra é honra. Verdade é verdade.”

A Bene Gesserit tinha protegido Israel Secreto em muitas horas de necessidade. E um massacre era algo que seu povo conhecia sem precisar de muitas explicações. O massacre era inerente à psique de Israel Secreto. E graças ao Inefável, o povo escolhido nunca esqueceria. Não mais do que poderia perdoar.

A recordação mantida viva no ritual diário (com ênfase periódica nas partilhas comunais) lançou uma auréola ardente sobre o que o Rabino sabia que devia fazer. E aquela pobre mulher! Ela também tinha caído na cilada das memórias e das circunstâncias.

“Para o caldeirão! Nós ambos!”

— Tem a minha palavra — Lucilla disse.

O Rabino voltou-se para a única porta do aposento e a abriu.

Havia lá uma mulher idosa num longo vestido castanho. A um aceno do Rabino, ela entrou. Seu cabelo tinha a cor da madeira antiga, fortemente preso num coque para trás. A face chupada e enrugada era escura como uma amêndoa seca. Os olhos, porém! Azul total! E

que dureza de aço revelavam...

— Esta é Rebecca, uma de nós — o Rabino disse. — Como pode ver, estou certo, ela fez uma coisa perigosa.

— A Agonia — Lucilla murmurou.

— Rebecca o fez há muito tempo atrás, e nos tem servido bem. Agora, ela a servirá.

Lucilla tinha de ter certeza. — Sabe compartilhar?

— Nunca fiz isso, senhora, mas sei como se faz. —

Aproximou-se de Lucilla enquanto falava, e parou quando estavam quase se tocando.

Inclinaram-se para a frente até que as testas se tocassem.

Suas mãos afastaram-se e procuraram mutuamente os ombros.

Ao se fecharem suas mentes, Lucilla lançou um pensamento projetivo: “Isto deve destinar-se a minhas Irmãs!”

— Eu lhe prometo, cara senhora.

Não podia haver fraude nessa total mistura de mentes, nessa sinceridade máxima movida pela morte certa e iminente ou pela venenosa essência da melange, que os antigos Fremem denominavam, muito adequadamente, “a pequena morte”. Lucilla aceitou a promessa de Rebecca. A selvagem Reverenda Madre dos Judeus comprometeu a vida nessa garantia. Mais uma coisa! Lucilla ofegou, quando percebeu isso. O Rabino tinha a intenção de vendê-la às Honradas Madres. O motorista do transportador de produtos era um agente, vindo para confirmar que realmente havia uma mulher com a descrição de Lucilla na fazenda.

A sinceridade de Rebeca não lhe deu saída: — É a única maneira pela qual podemos nos salvar e manter nossa credibilidade.

Então era por isso que o Rabino a fizera pensar em guardas e intermediários. “Hábil. Muito hábil. E eu aceitei tudo, como ele sabia que eu faria.”

Não se pode manipular um fantoche com um único cordão.

— O Açoite Zensunni

A Reverenda Madre Sheeana estava de pé no estrado de escultura, em seu estúdio, as mãos cobertas por fresadoras em garras, como luvas exóticas. Através de seu trabalho, o sensiplaz negro na plataforma vinha tomando forma por quase uma hora. Ela sentia-se próxima da realização criadora projetada de um lugar selvagem dentro de si. A intensidade da força criativa fez sua pele tremer, e ela imaginou se as pessoas que passavam no corredor à sua direita não a perceberiam. A janela norte do estúdio tinha um brilho laranja provocado pelo pôr-do-sol do deserto.

Prester, a assistente mais antiga de Sheeana na Estação de Observação do Deserto, detivera-se na porta há alguns minutos, mas todos na estação sabiam que era melhor não interromper Sheeana quando ela estava trabalhando.

Dando um passo para trás, Sheeana afastou da testa, com as costas da mão, uma mecha de seu cabelo estriado de dourado. O

plaz negro estava à sua frente como um desafio, suas curvas e planos “quase” se encaixando na forma que ela tinha sentido interiormente.

“Venho aqui para criar quando meus temores são maiores”, pensou.Esse pensamento abafou o impulso criador, e ela redobrou os esforços para completar a escultura. Suas mãos revestidas com as limadoras mergulhavam e apanhavam o plaz, e a forma negra reagia a cada interferência, como uma onda conduzida por um vento insano.A luz procedente da janela norte declinava, e os automáticos a compensavam, das extremidades do teto, com um brilho amarelo-acinzentado, mas não era a mesma coisa. Não era a mesma coisa!

Sheeana afastou-se do trabalho. Mais próximo... mas não o bastante. Ela quase podia tocar a forma dentro de si e senti-la lutando para nascer. Mas não estava dando certo. Um golpe rápido de sua mão direita reduziu o plaz a uma bolha negra sobre a plataforma.

Maldição!

Descalçou as fresadoras e deixou-as cair na prateleira ao lado do estrado. O horizonte, visível da janela oeste, ainda mostrava uma faixa laranja. Desfazendo-se depressa, assim como se desfazia seu impulso criador.

Andando a passos largos para a janela do pôr-do-sol, ainda teve tempo de ver a volta da última equipe de busca do dia. Suas luzes de aterrissagem eram como vaga-lumes em movimento para os lados do sul, onde uma planície temporária tinha se instalado no caminho das dunas que avançavam. Pelo modo vagaroso como os tópteros desciam, ela podia ver que não tinham encontrado nenhuma florescência de especiaria ou outros sinais de que os vermes da areia estavam afinal se desenvolvendo a partir das trutas da areia lá plantadas.

“Sou guardiã de vermes da areia que poderão nunca aparecer.”

A janela devolveu-lhe um reflexo escuro de suas feições.

Podia ver onde a Agonia da Especiaria tinha deixado suas marcas.

A esguia e morena menina desamparada de Duna tinha se tornado uma mulher alta e austera. Mas seu cabelo castanho ainda insistia em escapar da touca apertada na nuca. E ela podia perceber a rebeldia em seus olhos totalmente azuis. Os outros também podiam, e esse é que era o problema, fonte de alguns de seus medos.

Parecia não haver meios de interromper a Missionária em sua preparação para a nossa Sheeana.

Se os vermes gigantes se desenvolvessem — Shai-hulud retornaria! E a Missionária Protectiva da Bene Gesserit estava pronta para lançá-la sobre a humanidade que, sem desconfianças, estava preparada para a adoração religiosa. O mito tornado real...

do mesmo modo que ela tentava transformar em realidade aquela escultura negra.

Sagrada Sheeana! O Imperador-Deus é seu escravo! Vejam como os vermes da areia lhe obedecem! Leto está de volta!

Isso influenciaria as Honradas Madres? Provavelmente. Elas, pelo menos, falaram muito sobre o Imperador-Deus. usando o seu nome de Guldur.

Não que fosse provável que elas seguissem o comando da

“Sagrada Sheeana”, a não ser na questão das explorações sexuais. Sheeana sabia que seu comportamento sexual, considerado abusivo até mesmo pelos padrões da Bene Gesserit, era uma forma de protesto contra esse papel que a Missionária tentava lhe impor. A desculpa de que ela simplesmente aprimorava os homens treinados em domínio sexual por Duncan Idaho era apenas... uma desculpa.

“Bellonda suspeita.”

A Mentat Bell era um constante perigo para as Irmãs que saíam da linha. E essa era a principal razão pela qual Bell mantinha seu poder no alto Conselho da Irmandade.

Sheeana afastou-se da janela e atirou-se sobre a colcha laranja e âmbar que cobria seu catre. Bem à sua frente havia um grande desenho em branco e preto de um verme gigante suspenso sobre uma minúscula figura humana.

“É assim que eles eram, e talvez não voltem a ser nunca mais. O que eu estava tentando dizer com este desenho? Se soubesse, talvez pudesse terminar a escultura de plaz.”

Tinha sido perigoso desenvolver uma linguagem de mãos com Duncan. Mas havia coisas que a Irmandade não podia saber —

ainda não.

“Pode haver uma saída para nós dois.”

Mas para onde iriam? Era um universo cercado pelas Honradas Madres e por outras forças. Um universo de planetas dispersos, povoados principalmente por humanos que apenas queriam viver suas vidas em paz — aceitando a orientação Bene Gesserit em alguns lugares, sofrendo sob a repressão das Honradas Madres em muitas regiões, principalmente esperando governar a si mesmos da melhor forma possível — o perene sonho da democracia. E depois, havia sempre os imprevistos. E sempre a lição das Honradas Madres! Murbella revelava indícios de que as Oradoras Peixes e as Reverendas Madres in extremis formaram as Honradas Madres. A democracia das Oradoras Peixes transformara-se na autocracia das Honradas Madres! As pistas eram numerosas demais para serem ignoradas. Mas por que elas teriam enfatizado compulsões inconscientes com suas Sondas-T, com indução celular e perícia sexual?

Onde está o mercado que aceitará nossos instáveis talentos?

Este universo não mais possuía um mercado único. Podia-se circunscrever uma espécie de rede de trabalhos extremamente imprecisa, baseada em antigas concessões e acordos temporários.

Odrade tinha dito uma vez: — Parece um vestido velho, remendado e esfiapado nas pontas.

A compacta rede comercial da CHOAM não existia mais.

Consistia agora de tímidos fragmentos e algumas partes reunidas por laços muito frágeis. As pessoas tratavam essa coisa remendada com desprezo, suspirando sempre pelos bons tempos de antigamente.

“Que tipo de universo nos aceitaria simplesmente como fugitivos e não como a Sagrada Sheeana e seu consorte?”

Não que Duncan fosse um consorte. Esse tinha sido o plano original das Bene Gesserit: Liguem Sheeana a Duncan. Nós ò controlamos e ele a controlará.

Murbella cortou o plano. “E foi uma boa coisa para nós dois.

Quem precisa de uma obsessão sexual?” Mas Sheeana era forçada a admitir que abrigava sentimentos estranhamente confusos em relação a Duncan Idaho. A linguagem das mãos, o toque. E o que poderiam dizer a Odrade, quando ela se intrometesse? Não se, mas quando.“Conversamos sobre maneiras de Duncan e Murbella escaparem de você, Madre Superiora. Falamos sobre o modo de recuperar as memórias de Teg. Discutimos nossa própria rebelião particular contra a Bene Gesserit. Sim, Darwi Odrade! Sua antiga aluna tornou-se uma rebelde contra você.”

Sheeana reconhecia seus sentimentos confusos a respeito de Murbella, também.

“Ela domesticou Duncan onde eu poderia ter falhado!”

A Honrada Madre cativa era um estudo fascinante... e divertido, às vezes. Havia os engraçados versos burlescos de sua autoria, afixados na parede da sala de jantar das Acólitas.

Ei, Deus! Espero que esteja aí.

Quero que ouça minha prece.

Essa imagem esculpida na minha prateleira; É realmente você ou apenas eu mesma?

Bem, de qualquer modo, aqui vai:

Por favor, mantenha-me alerta.

Ajude-me a superar meus piores erros,

Faça isso por nós dois,

Como um exemplo de perfeição

Para as Instrutor as da minha seção;

Ou simplesmente pelo seu próprio Céu,

Como o pão,pelo seu próprio fermento.

Por qualquer motivo que se apresente,

Por favor, aja por mim e por você.

O subseqüente confronto com Odrade, apreendido pelos televigias, tinha sido uma linda coisa de se ver. A voz de Odrade estranhamente aguda:

— Murbella, você?

— Temo que sim. — Nenhuma contrição de sua parte.

— Teme? — Ainda estridente.

— Por que não? — Bastante desafiadora.

— Você graceja a respeito da Missionária. Não proteste. Era essa a sua intenção.

— Elas são umas malditas pretensiosas!

Sheeana sentia uma grande afinidade quando refletia sobre esse confronto. A rebeldia de Murbella era um sintoma. Que coisas estarão fermentando, antes que sejamos forçados a notá-las?

“Eu lutei desse mesmo jeito contra essa perpétua disciplina que a fará mais forte, criança.”

Como era Murbella, quando criança? Quais as pressões que lhe deram forma? A vida era sempre uma reação às pressões.

Alguns se entregavam a distrações fáceis e eram por elas moldados: poros inchados e avermelhados pelos excessos. Baco olhando-os de esguelha. O desejo dando forma a suas feições. Uma Reverenda Madre conhecia isso por observação milenar. “Somos moldados pela pressão, quer resistamos a ela ou não.” Pressões e formas — essa era a vida. “E eu crio novas pressões pelo meu desafio secreto.”

Dado o atual estado de alerta da Irmandade em relação a todas as ameaças, a conversa de mãos com Duncan era provavelmente fútil. Sheeana inclinou a cabeça e olhou para a bolha negra na banca de escultura.

“Mas eu não desisto. Hei de criar minha própria declaração de vida. Minha própria vida. Malditas Bene Gesserit!”

“E perderei o respeito de minhas Irmãs.”

Havia algo antigo no modo como elas eram sujeitas a uma respeitosa conformidade. Tinham ido buscar essa atitude em seu passado mais remoto, trazendo-a à tona regularmente para aperfeiçoá-la e fazer os reparos necessários, exigidos pelo tempo em todas as criações humanas. E aí estava ainda hoje, mantida numa reverência sem palavras.

“Portanto, você é uma Reverenda Madre, e por nenhum outro julgamento isso será verdade.”

Sheeana soube, então, que seria forçada a testar essa coisa antiga em seus limites, provavelmente quebrando-a. E aquela forma negra de plaz, procurando emergir desse lugar selvagem em seu interior, era somente um elemento daquilo que sabia ser imperioso fazer. Tivesse ela o nome de rebelião ou qualquer outro, a força em seu peito não podia ser negada.

Limite-se a observar, e deixará de compreender o que é essencial em sua própria vida. O objeto pode ser formulado deste modo: viva a melhor vida que puder. A vida é um jogo, cujas regras você aprende se mergulhar nele e jogá-lo completamente. Do contrário você se desequilibra, continuamente surpreso com as mudanças nas jogadas. Os não-jogadores sempre lamentam e se queixam de que a sorte sempre os ignora. Recusam-se a ver que podem criar um pouco de sua própria sorte.

— Darwi Odrade

— Já examinou o último informe dos televigias sobre Idaho?

— Bellonda perguntou.

— Mais tarde, mais tarde! — Odrade sabia que estava se sentindo irritadiça, e que isso se manifestava na resposta que deu à pergunta pertinente de Bellonda.

Atualmente, as pressões oprimiam a Madre Superiora cada vez mais. Ela sempre tinha procurado encarar suas obrigações com uma atitude de amplo interesse. Quanto mais coisas a interessassem, tanto mais abrangente seria seu exame e isso, com certeza, lhe traria mais informações úteis. Usar os sentidos aperfeiçoava-os. Substância, isso era o que seus interesses perscrutadores desejavam. Substância. Era como ir à caça para saciar uma fome profunda.

Mas seus dias estavam se tornando cópias desta manhã.

Seu gosto por inspeções pessoais era bem conhecido, mas as paredes do escritório aprendiam. Ela precisava estar onde pudesse ser alcançada. Não apenas alcançada, mas capaz de despachar comunicações e pessoas no mesmo instante.

“Maldição. Hei de conseguir tempo. Tenho de conseguir!”

Mais que qualquer outra coisa, era a pressão do tempo.

Sheeana dizia: — Caminhamos em círculos sobre dias emprestados.

Muito poético! Mas de pouca ajuda, em face das exigências pragmáticas. Era forçoso ter o maior número possível de células Bene Gesserit dispersas antes do machado cair. Nada mais tinha

essa prioridade. O tecido das Bene Gesserit estava sendo rasgado, enviado a destinos que ninguém na Sede podia conhecer. Às vezes, Odrade via esse fluxo como trapos e resíduos. Eles estavam adejando em suas não-naves, com um estoque de trutas da areia em seus porões, tradições Bene Gesserit, aprendizado e recordações como guias. Mas a Irmandade tinha feito isso há muito tempo atrás, na primeira Dispersão, e ninguém voltou ou enviou qualquer mensagem. Ninguém. Ninguém. Somente as Honradas Madres voltaram. Se elas foram Bene Gesserit algum dia, eram agora uma terrível distorção, cegamente suicida.

“Seremos, algum dia, inteiras outras vez?”

Odrade olhou para o trabalho em sua mesa: mais gráficos de seleção. Quem vai e quem fica? Havia pouco tempo para fazer uma pausa e respirar fundo. A Outra Memória de sua predecessora, Taraza, assumiu um caráter de “Eu avisei! Vê o que eu tive de enfrentar?”

“E cheguei a perguntar um dia se haveria lugar na cúpula.”

Poderia haver lugar no topo (como ela gostava de dizer às acólitas), mas dificilmente haveria tempo suficiente.

Quando pensava na população não-Bene Gesserit, grandemente passiva, “lá fora”, Odrade às vezes sentia inveja. As ilusões eram-lhes permitidas. Que consolo. Podia-se fingir que a vida era eterna, que amanhã seria melhor, que os deuses no céu cuidavam de nós.

Afastou-se desse deslize com asco de si mesma. O olho desanuviado era melhor, não importa o que visse.

— Examinei os últimos informes sobre Idaho — disse, olhando através da mesa para a paciente Bellonda.

— Ele tem instintos interessantes — Bell disse.

Odrade pensou nisso. Os televigias por toda a não-nave deixavam passar muito pouco. A teoria do Conselho a respeito do ghola Idaho tornava-se a cada dia menos uma teoria e mais uma convicção. Quantas recordações das vidas em série de Idaho continha esse ghola?

— Tam está levantando dúvidas sobre seus filhos —

continuou. — Terão talentos perigosos?

Isso era de se esperar. As três crianças que Murbella tinha dado a Idaho na não-nave tinham sido removidas no nascimento.

Todas elas estavam sendo observadas com cuidado, enquanto se desenvolviam. Teriam elas essa fantástica velocidade de reação que as Honradas Madres exibiam? Cedo ainda para dizer. Era uma coisa que se desenvolvia na puberdade, segundo Murbella.

A Honrada Madre cativa aceitou a remoção de seus filhos com uma resignação irritada. Idaho, entretanto, demonstrou pouca reação. Estranho. Alguma coisa lhe daria uma visão mais ampla da procriação? Quase uma perspectiva Bene Gesserit?

— Outro programa de procriação das Bene Gesserit — ele observou com sarcasmo.

Odrade deixou fluir seus pensamentos. Seria mesmo uma atitude Bene Gesserit que elas viam em Idaho? A Irmandade dizia que ligações emocionais eram antigos detritos — importantes para a sobrevivência humana em sua época, mas não mais necessários no plano Bene Gesserit.

“Instintos.”

Coisas que vinham com o ovo e o esperma. Muitas vezes vitais e sonoras: — Isto é a espécie falando a você, burro!

Amores... descendência... fomes... Todos esses motivos inconscientes para forçar um comportamento específico. Era perigoso imiscuir-se em tais assuntos. As Madres Procriadoras sabiam disso, mesmo quando o faziam. O Conselho debatia o assunto periodicamente e ordenava uma observação cuidadosa das conseqüências.

— Você examinou os informes. Essa é toda a resposta que consigo? — Um tom bastante queixoso, partindo de Bellonda.

A projeção de tanto interesse para Bellonda era a de Idaho questionando Murbella sobre as técnicas das Honradas Madres para promover a dependência sexual. “Por quê?” Suas capacidades paralelas tinham vindo do condicionamento Tleilaxu impresso em suas células no tanque axlotl. As habilidades de Idaho tinham se originado como um modelo inconsciente semelhante aos instintos, mas os resultados eram indistinguíveis do efeito das Honradas

Madres: o êxtase, amplificado até a remoção de todo traço de razão, e o aprisionamento de suas vítimas à fonte de tais recompensas.

Murbella chegou somente até aí na exploração verbal de suas capacidades. Uma fúria residual óbvia de que Idaho a tivesse viciado com as mesmas técnicas que lhe tinham ensinado a usar.

— Murbella se fecha quando Idaho questiona os motivos —

Bellonda disse.

“Sim, eu já tinha percebido.”

— Eu podia matá-lo, e você sabe disso! — Murbella tinha dito. O informe projetado mostrara ambos na cama, nos alojamentos de Murbella na não-nave, tendo acabado de saciar seu vício mútuo. O suor reluzia na carne nua. Murbella estava deitada com uma toalha azul na testa, seus olhos verdes olhando fixamente para os televigias. Parecia encarar diretamente seus observadores.

Pontinhos laranja nos olhos. Nódoas de ódio, provocadas pelo estoque residual do substituto da especiaria que as Honradas Madres usavam. Ela agora estava na dieta de melange — sem sintomas adversos.

Idaho estava deitado a seu lado, o cabelo em desalinho em volta do rosto, num acentuado contraste com o travesseiro branco sob a cabeça. Os olhos estavam cerrados, mas as pálpebras vibravam. Magro. Não estava comendo bem, apesar dos pratos tentadores que lhe mandava a cozinheira pessoal de Odrade. Os molares, muito altos, eram fortemente delineados. O rosto se tornara fundo nesses anos de prisão.

A ameaça de Murbella era sustentada por sua habilidade física, sabia Odrade, mas era psicologicamente falsa. “Matar seu amante? Pouco provável!”

Bellonda raciocinava na mesma linha. — O que ela estava fazendo quando demonstrou sua velocidade física? Já vimos isso antes. — Ela sabe que nós observamos.

Os televigias mostraram Murbella pulando da cama, desafiando sua fadiga pós-coito. Mo vendo-se com velocidade indistinta (muito mais rápida que qualquer coisa que as Bene

Gesserit já tinham alcançado), ela deu um chute com o pé direito, interrompendo o golpe a um fio de cabelo da cabeça de Idaho.

A seu primeiro movimento, Idaho abriu os olhos. Observou sem medo, sem recuar.

“Esse golpe! Fatal se fosse certeiro.” Bastava que você visse essa coisa uma vez, para temê-la. Murbella movimentava-se sem recorrer ao córtex central. Como um inseto, um ataque deflagrado pelos nervos ao ponto da ignição muscular.

— Veja! — Murbella baixou seu pé e fixou o olhar no amante.

Idaho sorriu.

Observando a cena, Odrade lembrou-se de que a Irmandade tinha três crianças de Murbella, todas do sexo feminino. As Mestras Procriadoras estavam entusiasmadas. Com o tempo, as Reverendas Madres nascidas desta linha poderiam igualar essa capacidade das Honradas Madres. “Dentro de um tempo que provavelmente não teremos.” Mas Odrade compartilhava o entusiasmo das Mestras Procriadoras. Que velocidade! Acrescente-se a isso o treinamento neuromuscular, os grandes recursos pranabindu da Irmandade! O que isso podia criar permanecia sem palavras dentro dela.

— Ela fez isso para nós, não para ele — disse Bellonda.

Odrade não estava certa. Murbella se ressentia da observação constante sobre si, mas estava acomodada à situação.

Muitas de suas ações obviamente ignoravam as pessoas atrás dos televigias. O informe projetado mostrou-a retornando a seu lugar na cama, ao lado de Idaho.

— Restringi o acesso a essa projeção — disse Bellonda. —

Algumas acólitas estão ficando perturbadas.

Odrade assentiu. “Dependência sexual.” Esse aspecto das capacidades das Honradas Madres criava murmúrios perturbadores na Bene Gesserit, principalmente entre as acólitas. Muito sugestivo.

E a maioria das Irmãs da Sede sabia que apenas a Reverenda Madre Sheeana, entre elas, praticava algumas das técnicas, desafiando o temor generalizado de que isso pudesse enfraquecê-las.

“Nós não devemos nos tornar Honradas Madres!” Bellonda estava sempre dizendo isso. “Mas Sheeana representa um significativo fator de controle. Ela nos ensina a respeito de Murbella.”

Uma tarde, pegando Murbella sozinha em seus alojamentos na não-nave e obviamente descansada, Odrade tinha tentado uma pergunta direta. — Antes de Idaho, nunca nenhuma de vocês sentiu-se tentada a, digamos, participar da brincadeira?

Murbella recuou com orgulho irritado. — Ele me pegou por acidente! “O mesmo tipo de raiva que ela mostrou diante das perguntas de Idaho.”

Lembrando-se disso, Odrade inclinou-se sobre a mesa e fez projetar o registro original.

— Veja até que ponto ela se zanga — Bellonda disse. —

Uma proibição hipnótica contra responder a essas perguntas.

Apostaria minha reputação nessa hipótese.

— É o que será revelado na Agonia da Especiaria — disse Odrade. — Se algum dia ela chegar a isso!

— Supõe-se que o hipnotranse seja segredo nosso.

Bellonda ruminou sobre a óbvia conclusão. “Até hoje não houve Irmã que tivesse voltado da Dispersão original.”

Estava escrito bem grande em suas mentes: “Teriam as renegadas Reverendas Madres criado as Honradas Madres?” Muita coisa sugeria isso. Então por que elas recorreram à escravização sexual dos homens? A tagarelice histórica de Murbella não convencia. Tudo a esse respeito ia contra o ensinamento da Bene Gesserit.

— Temos que aprender — Bellonda insistiu. — Saber tão pouco é muito perturbador.

Odrade reconhecia a preocupação. Em que medida essa capacidade era um chamariz? Bem grande, pensou. As acólitas queixavam-se de sonhar que estavam se tornando Honradas Madres. Com razão Bellonda se preocupava.

Criar ou provocar essas forças irrefreáveis podia construir fantasias carnais de enorme complexidade. Podiam-se conduzir populações inteiras através de seus desejos, suas projeções fantasiosas.

“Aí estava o terrível poder que as Honradas Madres ousavam utilizar.” Se escapasse a notícia de que tinham a chave do êxtase cego, a metade da batalha estava ganha para elas. A simples idéia de que essa coisa existia já era o começo da rendição. As pessoas do nível de Murbella nessa outra Irmandade podiam não compreender, mas as que estavam na cúpula... Seria possível que elas simplesmente usassem este poder sem se incomodar com sua força mais profunda ou mesmo sem suspeitar dela?

“Se esse fosse o caso, como poderiam nossas primeiras Dispersas terem sido atraídas para este beco sem saída?”

Anteriormente, Bellonda tinha oferecido sua hipótese: Honrada Madre com a cativa Reverenda Madre feita prisioneira nessa primeira Dispersão. — Bem-vinda, Reverenda Madre. Gostaríamos que testemunhasse uma pequena demonstração de nossos poderes. — Interlúdio de demonstração sexual seguida por uma exibição de velocidade física. Então —

retirada da melange e injeção de um substituto com base de adrenalina adicionado à droga hipnótica. Nesse transe hipotético, a Reverenda Madre seria sexualmente impressa.

Isso, aliado à agonia seletiva da retirada da melange (sugeria Bell), poderia fazer a vítima negar suas origens.

“Que os fados nos ajudem! Seriam as Honradas Madres todas Reverendas Madres? Ousaremos testar essa hipótese em nós mesmas? O que podemos aprender sobre isso com aquele casal na não-nave?”

Duas fontes de informação estavam lá, sob os olhos vigilantes da Irmandade, mas a chave ainda estava por ser encontrada.

“Homem e mulher não mais como parceiros reprodutores, não mais um consolo e um apoio um para o outro. Algo novo tinha sido adicionado. As apostas tinham ficado mais altas.”

Na projeção, Murbella disse algo que chamou a atenção total da Madre Superiora.

— Nós, Honradas Madres, fizemos isso a nós mesmas! Não podemos culpar ninguém.

— Ouviu isso? — Bellonda interpelou.

Odrade sacudiu a cabeça asperamente, querendo toda a sua atenção voltada para essa troca de palavras.

— Você não pode dizer o mesmo de mim — Idaho objetou.

— Essa é uma desculpa vazia — acusou Murbella. — Então você foi condicionado pelos Tleilaxu para pegar numa cilada a primeira Impressora que encontrasse!

— E matá-la — Idaho corrigiu. — Isso é o que eles pretendiam.

— Mas você nem mesmo tentou me matar. Não que você pudesse.

— Foi aí que... — Idaho calou-se com um rápido olhar involuntário para os televigias.

— O que ele estava a ponto de dizer? — Bellonda arremeteu. — Temos que descobrir!

Mas Odrade continuou sua observação silenciosa do par prisioneiro. Murbella demonstrava um surpreendente insight. —

Pensa que me pegou por algum acidente no qual você não estava envolvido?

— Exatamente.

— Mas há algo em você que aceitou tudo isso.

Simplesmente você não acompanhou o condicionamento. Você fez o máximo que podia.

Um olhar interior velou os olhos de Idaho. Inclinou a cabeça para trás, esticando os músculos do peito.

— Essa é uma expressão Mentat — Bellonda acusou.

Todas as analistas de Odrade sugeriram isso, mas elas tinham ainda que arrancar uma admissão de Idaho. Se ele era um Mentat, por que reter a informação?

“Pelas outras coisas implícitas nessa capacidade. Ele nos teme, e com razão.”

Murbella falou com desprezo. — Você improvisou e aperfeiçoou o que os Tleilaxu lhe fizeram. Havia algo em você que não fez nenhum tipo de queixa!

— Esse é o modo como ela lida com seus próprios sentimentos culpados — disse Bellonda. — Ela não acredita nem um pouco que seja verdade, do contrário ele não teria sido capaz de pegá-la.Odrade franziu os lábios. A projeção mostrou Idaho divertido.

Continuar: parte 3 de 16