Baía de Todos os Santos: aspectos humanos

Carlos Caroso · Capítulo 9 de 23

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Baía de Todos os Santos: aspectos humanos

A Baía de Todos os Santos na realidade do imaginário da sociedade baiana

A Baía de Todos os Santos na

 

realidade do imaginário da sociedade

 

baiana

 

Fernando Pedrão

 

A sociedade baiana nunca acertou suas contas com sua história e

tem dado reiteradas provas de uma opção para apagar sua

memória. Não surpreende, portanto, que não haja um estudo

sistemático do significado social, econômico e político da Baía de

Todos os Santos. No entanto, para a cultura baiana, ou para a

identidade baiana, a Baía de Todos os Santos é uma referência

totêmica, que liga o modo de viver dos antigos habitantes indígenas

ao modo social do escravismo, com suas relações concretas e seu

imaginário dividido entre o mundo dos dominadores e o dos

dominados. A vida social na orla da baía representa o principal

componente de anomia de um sistema regional que jamais

absorveu toda a sua população e que passou por um prolongado

processo de esvaimento de suas forças produtivas, vindo a

protagonizar um quadro de marasmo que se diferencia de outras

condições de pobreza também crônica na Bahia, por representar

uma condição diferenciada de viver segundo uma escala de tempo

mais lenta. Uma compreensão social histórica da Baía de Todos os

Santos é inseparável de uma outra da região do Recôncavo, que foi

essencial na formação da economia e da sociedade no Estado da

Bahia e veio a constituir a primeira região do Estado no sentido

estrito desse termo. O Recôncavo é uma realidade histórica que se

refere ao fértil crescente em torno da Baía de Todos os Santos,

marcada pela desembocadura dos rios Paraguaçu, Jaguaribe e

Subaé, com diversos outros rios desde o rio da Dona ao Traripe e

ao Joanes. Sucessivas intervenções administrativas de delimitação

e subdivisão da região têm apenas tumultuado e obstruído a compreensão do problema social, econômico e político que é o

único que interessa estudar.

 

O significado social histórico da Baía de Todos os Santos não se

desprende de suas características físicas, mas estas são uma

poderosa indicação do modo como se percebe a história e como se

passa de ambientes aparentemente contínuos para situações de

vida precárias, de um espaço essencialmente representativo de

baianidade, para a de um espaço representante da presença

internacional do capital. O imaginário pré-capitalista esteve

representado pela baía coberta de saveiros enquanto a imagem do

capitalismo passou a ser definida pela baía repleta de navios

cargueiros, com eventuais cruzeiros de luxo. Atividades que não se

tocam com a vida dos baianos. Se as canoas de madeira maciça

ainda são iguais às dos tupinambás, não há relação significativa

entre os movimentos de vida social organizada sobre bases locais e

os usos desse modo de transporte na nova organização social.

Dada a virulência da instalação desses novos artefatos da

internacionalidade, é notável como se encontram outros usos – e

não residuais – dos velhos sistemas de equipamento, que

respondem pela sobrevivência da maioria dos moradores das terras

baixas do entorno da baía. Ao lado da baía onde convivem as

embarcações de lazer de grupos de alta renda, prossegue a pesca

artesanal antiga na maior parte dos recantos que não são

acessíveis ao tráfego moderno.

 

Neste ensaio pretendo trazer um argumento pouco comum, qual

seja, de que a compreensão e o tratamento dados pela sociedade

baiana à Baía de Todos os Santos se explicam por um fundamento

ideológico que assinala a diferença fundamental entre a atual

sociedade de classes e as formas anteriores de estruturação social,

que abrangem os vários momentos do processo colonial e os da

sociedade urbana e industrial de classes. A chave da explicação do

quadro atual é o esgotamento econômico da sociedade pós-

escravista, que se arrastou desde o fim do escravismo e se

acentuou com o fechamento do mercado europeu ao início da

Primeira Guerra Mundial. O fechamento do mercado europeu significou a desvalorização das terras e a instalação de um

ambiente de marasmo, que passou a condicionar as expectativas

sobre o futuro da região. Adiante, os proprietários de terras foram

beneficiados pelas pesquisas de petróleo que levaram a Petrobras a

comprar terras desde a década de 1950. O passo seguinte desse

processo tem sido a transferência de royalties vultosos a prefeituras

despreparadas para gerir esses recursos e dominadas por

mecanismos eleitorais espúrios, tal como se tornou o caso notório

de São Francisco do Conde, onde uma elevada renda per capita

coincide com os maiores índices de desemprego do Estado.

 

Os ulteriores realinhamentos da estrutura social da região deram-se

no vazio deixado pelo fim daquela sociedade patrimonial. As

tentativas de planejamento da década de 1950, concretamente pelo

Plano de Desenvolvimento para a Bahia – Plandeb (1960-1963)1 –,

lançaram sementes de novas iniciativas, como o Centro Industrial de

Aratu e o Complexo Petroquímico de Camaçari, que transferiram o

foco da relação regional de Salvador, da Baía de Todos os Santos

para a sub-região de Camaçari, e iniciaram um processo de

desvalorização social e econômica da região do Recôncavo. Esse

movimento não foi impedido pela implantação da Refinaria

Landulpho Alves Mataripe (RLAM), essencial ao novo contexto

industrial, que, entretanto se tornou um polo de influência decisivo

na economia baiana desde então. 2 A RLAM criou uma nova

discriminação espacial na região, com efeitos espaciais restritos e

formação de emprego e renda em Salvador. Enquanto o

planejamento estadual propunha a formação de um eixo econômico

Salvador – Feira de Santana, com a construção de um distrito

industrial em Feira e outro no bairro de São Caetano em Salvador,

formava-se, de fato, uma separação entre um Recôncavo norte

receptor de investimentos e um Baixo Recôncavo direcionado para

a pobreza crônica e transformado em gerador de mão de obra

barata para a construção civil e para serviços domésticos. A força

de trabalho do Recôncavo volta a estar subordinada a ocupações

temporárias, tal como era quando do estudo pioneiro de Costa Pinto

(1958). A última mão de tinta nesse cenário foi a mudança do

sistema de transportes, em que a escolha do rodoviarismo – a BR-116 em 1967 e a BR-101 em 1972 – excluía de comunicações as

populações ribeirinhas do Recôncavo, dependentes de meios

artesanais de transporte, e fechava, em 1967, o porto de São Roque

do Paraguaçu. Cachoeira foi condenada ao esquecimento enquanto

Feira de Santana despontava como principal entroncamento

rodoviário na relação com o Sertão, apesar de enfrentar o descaso

pelo centro industrial do Subaé e os repetidos fracassos no

planejamento do baixo Paraguaçu, principalmente representados

pela represa de Pedra do Cavalo. 3 As estradas inter-regionais

criaram novas redes de conexões, alentando a expansão de cidades

como Itabuna, Jequié e Conquista, criando uma linha de articulação

interna do Recôncavo que desvaloriza a Baía de Todos os Santos.

 

A desativação das estradas de ferro foi um golpe que atingiu

profundamente a economia baiana em seu conjunto, mas que

passou despercebido pelo discurso superficial de atrair empresas

para o Estado e pela burocratização do planejamento. O

planejamento estadual de visão estatal foi substituído por uma

gestão privatizante da coisa pública, que canalizou os recursos

estaduais para subsidiar empresas, muitas das quais emigraram tão

logo captaram os subsídios do Estado e da Sudene.4 O subsídio ao

capital foi a linha mestra da política econômica estadual, desde o

modelo tripartite da implantação do Polo de Camaçari a vantagens

sutis do sistema de financiamento do Fundo de Investimentos do

Nordeste (FINOR). Com o passar do tempo tornou-se subsídio ao

grande capital internacionalizado.

 

Trata-se, portanto, de ancorar historicamente o questionamento

ideológico da modernização concentradora de capital. O

fundamento do questionamento ideológico surge por meio das

diferenças entre a visão do império colonial, a da sociedade local

mercantil-escravista, a da sociedade pós-escravista latifundista 5 e a

que se forma hoje, sobre pressupostos de uma sociedade de classe

e da integração da região da Baía de Todos os Santos na economia

baiana em seu conjunto. A orla da baía foi objeto de subdivisões

que distinguem as funções da parte norte ocupada pela produção

petroleira, a parte central onde se encontram os municípios mais ativos e onde surgiram alguns empreendimentos de lazer e a parte

sul, que continuou sendo a mais pobre. A orla da baía também foi

reorganizada em função de condições de acesso, em que é preciso

distinguir a ocupação privatizada de ilhas por parte de políticos e por

capitais privados de difícil identificação e a ocupação remanescente

de situações anteriores. Hoje, praticamente, as margens do rio

Paraguaçu e até os pontos de atracadouro estão privatizados, assim

como a exploração dos próprios atracadouros e em grande parte

como benesses do sistema político.

 

Não há como ignorar que amplos setores do corpo social que

permanecem numa economia precária extrativista hoje estão

integrados em um sistema de relações de classe, por mais que em

seus locais de residência não haja empregos assalariados. A pesca

artesanal é uma forma de produzir mercadoria em que o valor de

consumo retido pelos pescadores é uma proporção ínfima do valor

de troca gerado, que é retirado através do sistema de

comercialização. O artesanato da região, que é realizado em

condições precárias e gera produtos de baixa qualidade participa do

mesmo sistema, utilizando meios de transporte também artesanais.

Uma observação decisiva sobre esta parte do problema social de

ocupação e renda é que a bolsa família entrou a desestimular essas

atividades fortemente exploradas de baixa renda, incitando os

beneficiados a não trabalharem. A contradição se aprofunda quando

se toma em conta o problema de alcoolismo que,

reconhecidamente, incide nessa população.

 

Uma crítica histórica do sistema desigualmente modernizado torna

necessário examinar a formação de classes e o bloqueio dos

mecanismos de ascensão e mobilidade positiva, pelo que se

divisam diferentes níveis de relações conflitivas de classe, no campo

do trabalho empregado, no do trabalho ocupado precariamente e no

do trabalho empregado mediante privilégios. Torna-se aqui

necessário considerar situações de relações de classe que se

reorganizam sob o patrimonialismo criado pelo sistema político.

O reconhecimento desse fundo ideológico equivale a admitir uma

identidade que sempre foi negada – a de um corpo social

segmentado, definido pela presença do componente dominado –

justamente porque esse reconhecimento implicaria em desqualificar

a ruptura social fundamental da escravidão.6 A identidade se forma

mediante o reconhecimento de um outro específico que faz parte

dominada da sociedade local, constituída de pobres e excluídos em

geral. Com a desvalorização da economia do Recôncavo, a orla da

Baía de Todos os Santos continuou abrigando uma população

constituída de vários grupos de excluídos, desde os de Salvador no

subúrbio até os de Jaguaribe.

 

A imagem da Baía de Todos os Santos divide-se entre a de ser um

lugar onde se vive e de um lugar para ser explorado. Esta divisão se

manteve igualmente para os capitais internacionais e para os que

constituíram a economia regional baiana. A questão fundamental foi

a transformação dos recursos naturais em valor de troca, em função

de certas equações tecnológicas e de encontrar mercado para as

opções de empreendimento que surgiram e determinaram o

engajamento de trabalho. Qual, entretanto, seria a relação entre as

transformações da realidade material da orla da baía e a de sua

imagem? A exploração de recursos para uma economia

internacional sempre prevaleceu sobre a moradia local. Os sinais da

presença da sociedade local surgiram, penosamente, mediante

formas nunca imaginadas na leitura da região como reserva de

recursos.

 

No período colonial esse sistema funcionou com garantia de

mercado externo. O fim da garantia de mercado veio com a

substituição das vendas ao exterior por vendas a um mercado

interno nacional em que os produtores da região revelaram-se

pouco eficientes, incapazes de acompanhar os padrões de

qualidade das indústrias da região da Leopoldina no Rio de Janeiro

e das de São Paulo. Isso apesar de que os capitais instalados na

Bahia em indústrias de bens de consumo, especialmente em

tecelagem, tiveram diversas vantagens sistêmicas, determinadas

pelo apoio do governo provincial. O fim do escravismo marcou as condições em que se realiza a participação no mercado externo, ou

seja, em que aquela economia de empórios comerciais passou a ser

uma participação periférica de um sistema internacionalmente

integrado. Exceto por algumas figuras isoladas, como os Lacerda e

o Barão de Jeremoabo, os escravistas não se adaptaram à

produção industrial, apesar da mecanização da produção com os

engenhos centrais. 7 O empobrecimento da primeira metade do

século XX certamente está ligado a essa falência dos grupos

escravistas e à emigração de capitais formados no sistema antigo e

na produção cacaueira. A tentativa fracassada do governo Calmon

de Góis apenas confirma essa tendência.

 

O fracasso do sistema pós-escravista para se integrar na economia

moderna, basicamente de 1850 a 1914, testemunhou essa

incapacidade da economia agroindustrial tradicional para funcionar

em um sistema de economia de mercado e com trabalho livre, assim

como sua incapacidade para gerar uma cultura escrita e uma

ideologia, capazes de dar unidade ao projeto regional baiano. O

reconhecimento tácito desse fracasso inspirou a política econômica

do governo Góis Calmon. 8 A falta de uma alternativa política ao

controle oligárquico fundado no escravismo aprofundou a visão

local, herdada do controle patrimonial da produção e a visão

capitalista em formação, que passou de um empreendedorismo

arriscado de figuras como Luiz Tarquínio 9 a um ambiente de

empresas apoiadas em acordos celebrados no plano político. A

figura das empresas empreiteiras, que se tornaria central desde o

período da ditadura militar, aparecia com contratos de obras

públicas desde a década de 1940, ainda no Estado Novo.

 

Nesse contexto a indústria têxtil deve ser revista, já que, no

essencial, ela surgiu como um desdobramento urbano da economia

do escravismo. Suas limitações econômicas são inseparáveis de

sua origem política, dado que jamais teve a capacidade de

concorrer fora da região e ficou restrita a um mercado sem

possibilidades de crescimento. O fundamento ideológico da

industrialização baiana tem que ser relido, porque funcionou como

parte do mecanismo de sustentação da estrutura política tradicional. A visão descobrimentista foi uma visão externa da baía como e

enquanto recurso de navegação, que provou ter um significado

internacional, por seu duplo papel na rota da África na carreira das

Índias. 10 A visão colonial foi a de construção de uma entidade local,

que foi produzida mediante um movimento etnocultural que hoje

permite estabelecer uma distância crítica em relação com os

momentos de transformação social mais intensa, que são os do fim

do escravismo, da decadência econômica e da sustentação política

dos remanescentes da ordem anterior, bem como da entrada de

novos contingentes de assalariados até a formação de um corpo

social marginalizado, dependente da reprodução do sistema político

regional em seus moldes mais tradicionais.

 

A visão colonial foi a de um território a ser capturado e submetido ao

modo de exploração do capital mercantil avançado mediante a

implantação de uma forma de produção internacionalizada. Na

prática, deu lugar à formação de uma sociedade colonial complexa,

com diferentes papéis para os integrantes do segmento europeu,

para índios e escravos. Durante o período colonial formaram-se

diversos pontos de vista brasileiros que simplesmente consagraram

a pluralidade das formações regionais. Na segunda metade do

século XIX a região passou por algumas mudanças fundamentais

compreendendo a expansão da cultura fumageira e o melhoramento

da qualidade desse produto e a constituição de um sistema

multimodal de transportes que a integrou com Salvador. Uma outra

tese deste ensaio é que este sistema de transporte foi um fator de

transformação que tornou Salvador o centro privilegiado dos

investimentos da era industrial, desbancando o Recôncavo de

qualquer aspiração nesse sentido.

 

As atividades que se instalaram desde 1950 caíram na mesma

armadilha, de sobreviver com a demanda local e com apoio público,

deixando de aproveitar oportunidades de mercado fora da região. O

direcionamento da indústria na Bahia para operar com garantia de

mercado e com vantagens públicas tem sido um traço dominante

desde as primeiras indústrias às do polo petroquímico. A primeira

indústria têxtil funcionou sobre um mercado regional protegido pela falta de acessibilidade da região e foi repetidas vezes beneficiada

por financiamento público preferencial. O financiamento do Banco

do Nordeste e da Sudene incluiu essa linha de formação de capital

no bojo da modernização do Nordeste. O Centro Industrial de Aratu

(CIA) repetiu essas vantagens em maior escala e com maior

emigração de empresas. O polo petroquímico instalou-se vendendo

uns 80% de sua produção no mercado interno nacional, comprando

gás natural e energia elétrica a preços subsidiados em cerca de

30%. Mais recentemente, destacam-se alguns traços desse sistema

baseado em mobilidade negativa do sistema regional. O primeiro

deles é a série de movimentos de desorganização da economia da

região, desde o desmantelamento do sistema multimodal de

transportes, com o fim da navegação a vela e do porto de São

Roque do Paraguaçu. O segundo é o refluxo de trabalhadores

desempregados da economia industrial, que regressam às zonas

mais pobres acolhendo-se a mecanismos tradicionais de

sobrevivência. Essa questão só pode ser adequadamente apreciada

à luz de uma revisão das transformações do sistema produtivo na

segunda metade do século XX, quando se tornou mais clara a

complexidade dos fatores do marasmo da região em seu conjunto.

 

A principal observação que surge daí é que essa decadência

generalizada decorreu mais de fatores externos que de internos,

configurando-se como contração do mercado. As mesmas restrições

de demanda repetiram-se com um perfil mais nítido na economia

pós-escravista. Falta clareza nas explicações da decadência da

produção açucareira e fumageira entre 1914 e 1950, bem como

sobre posteriores movimentos de reorganização. A perda de

posição do Recôncavo no período colonial foi mais pela qualidade

inferior de seus produtos que por outras causas e as dificuldades do

terreno não tinham sido obstáculo antes, como mostrou Schwartz

(1993). As dificuldades de mercado vieram pelo lado da demanda,

em que os compradores, alemães e holandeses, foram deslocados

pela guerra.

 

A decadência da indústria têxtil e de outras indústrias de bens de

consumo seguiu o mesmo caminho. Não se pode atribuir essa decadência a dificuldades de suprimento de matérias-primas,

porque essas indústrias baianas já tinham resolvido razoavelmente

esses problemas trazendo algodão do sudoeste do Estado e do

Nordeste. O aprofundamento da pobreza significou que o mercado

regional não cresceu a par com as atividades não agrícolas. A orla

da Baía de Todos os Santos continuou abrigando uma numerosa

população que ficou à margem da modernização conservadora.

Longe de declinar, o extrativismo ganhou novos espaços no

suprimento do consumo dos mais pobres e tornou-se funcional para

a sobrevivência de grande parte da população (PEDRÃO, 2001),

absorvendo parte da pressão social do desemprego crônico.

 

Nesse contexto, colocaram-se no Recôncavo algumas poucas

fábricas que tampouco se sustentaram. Na década de 90 fecharam

fábricas de diversos tipos no Recôncavo, ecoando a emigração de

indústrias de Feira de Santana. Nesse momento já as principais

cidades da região – Santo Amaro, Cachoeira, São Félix – não

tinham expressão econômica alguma, passando a região a

funcionar sob a influência principal de Feira de Santana e em menor

grau de Santo Antônio de Jesus. Estudos da indústria na Bahia

(1983) mostraram que uma mesma divisão entre as chamadas

indústrias tradicionais e indústrias dinâmicas corroboram com a

hipótese de que houve uma segmentação do setor industrial,

quebrada apenas por alguns grandes interesses que participam dos

dois lados. Nesse contexto a Baía de Todos os Santos passou a ser

vista como um espaço especial de aproveitamento de recursos, em

que se podem captar novas oportunidades econômicas junto com

uma reorganização econômica e social de atividades tradicionais,

sob a pressão do mercado concentrado em Salvador. A exploração

dos manguezais e a extração de rochas e areia tornaram-se

subsidiárias da expansão urbana de Salvador em paralelo com a

intensificação do uso de terminais especializados de carga e com

uma movimentação de cargas internacionais. A habilitação do porto

de Aratu foi seguida da do terminal de Suape e do da Ford.

Possíveis opções de aproveitamento turístico, conquanto

criativas11, esbarram em dificuldades técnicas, que vão desde a pouca navegabilidade da baía até a precariedade de suas

instalações portuárias.

 

A Baía de Todos os Santos torna-se um valor de troca de novas

opções econômicas, políticas e tecnológicas que estão

representadas por novas gerações de empreendimentos, na

agroindústria marinha e em nova geração de produção canavieira. A

população do Recôncavo abastece Salvador de mão de obra pouco

qualificada para a construção civil, para trabalhos domésticos e a

região passa a depender de transferências de renda, desde

aposentadorias e pensões a bolsa família. No realinhamento do

sistema econômico pós-escravista a funcionalidade da orla da Baía

de Todos os Santos esvaiu-se junto com o transporte artesanal e

grande parte de seu funcionamento passa a ser de fundeamento de

navios à espera de carga e descarga. A presença da Petrobras e do

setor petróleo em geral torna-se determinante nos movimentos de

valorização e de desvalorização dos espaços, nas transferências de

renda.

 

Depois de décadas de atraso, apesar de uma realização inferior aos

planos originais, a represa de Pedra do Cavalo passou a

desempenhar um papel na oferta de água e introduziu modificações

importantes nos movimentos de águas que se combinaram com os

efeitos de assoreamento de outros rios como o Subaé, reduzindo

mais ainda a escassa navegabilidade da baía.

 

Todos esses movimentos atingem a condição social dos habitantes

da orla da Baía de Todos os Santos e com suas possibilidades de

acesso a novas oportunidades de emprego e renda. É uma

população que sempre esteve inferiorizada, restrita ao extrativismo

(PEDRÃO, 2001), com mobilidade escassa ou nula. A situação se

agravou desde a segunda metade da década de 1980, quando

minguou a capacidade de absorção de migrantes na metade norte

do próprio Recôncavo. Surgem no Recôncavo empreendimentos em

produção mineral, que acontecem em um ambiente marcado pela

perda de importância do novo povoamento da ilha de Itaparica para

veraneio e lazer. Falta uma nova avaliação do emprego atual e do potencial de ocupação remunerada, à luz dos novos investimentos

no setor petroleiro e na reorganização dos sistemas de transportes,

assim como falta uma nova avaliação do quadro atual e do potencial

da economia da mineração no Recôncavo, que terá impacto indireto

no quadro de ocupações.

 

Mas o debate se renova frente às novas condições para que se

construa uma visão de totalidade da região do Recôncavo com a

baía. Há uma questão central relativa à relação entre esfera pública

e esfera privada, em conjunto com definições do manejo social dos

problemas do ambiente. Para que se alcancem progressos

significativos nesses campos será necessária uma mobilização de

ação conjunta dos municípios da região. A atividade das

universidades públicas poderá ter um papel decisivo nesse contexto,

contribuindo para revelar os protagonismos locais e confrontá-los

com a rede de influências externas. A presença de atividades

consistentes de ensino e pesquisa pode inverter o movimento

crônico de emigração de talentos e revelar a baía com seu

significado social, histórico, econômico e cultural.

 

Referências

 

ARAUJO, Tatiana Brito, Os engenhos centrais e a produção

açucareira no Recôncavo Baiano. Salvador: FIEB, 2002.

 

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Bahia, uma proposta de política industrial. Salvador, 1983.

 

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BARICKMAN, B. J. A Bahian counterpoint. California: Stanford,

1998.

LAPA, José Roberto Amaral. A Bahia na carreira da Índia. São

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PEDRÃO, Fernando. O extrativismo na periferia da produção.

História Econômica e História das Empresas, São Paulo, v. 4, n. 2,

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Recôncavo. In: BRANDÂO, Maria (Org.). Recôncavo, sociedade e

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_____. O Recôncavo baiano na origem da indústria de

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Roberto Amaral (Org.). História Econômica da Independência e do

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SCHWARTZ, Stuart. Segredos internos. Rio de Janeiro: Companhia

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Santos. Salvador: Casa de Jorge Amado, 2000.

 

SILVA, J.F. Graziano (Coord.). Estrutura agrária e produção de

subsistência na agricultura brasileira. São Paulo: Hucitec, 1978.

 

1 Os principais estudos regionais da época foram realizados pelo

Instituto de Economia e Finanças da Bahia (IEFB), que deu suporte

de pesquisas ao planejamento da Comissão de Planejamento

Econômico e pelo Laboratório de Geomorfologia da UFBA.

Pesquisas sobre a organização da indústria na Bahia e sobre a

economia dos saveiros foram feitas pelo IEFB, assim como sobre a

produção cacaueira na Bahia. Os estudos do IEFB sobre o produto

interno bruto (1939-1958) sustentaram o planejamento e mostraram

a fragilidade da produção rural baiana. O planejamento industrial

ficou imobilizado por uma atitude passadista de salvar a velha indústria têxtil, herdeira dos capitais escravistas. Daí que uma das

teses importantes sobre a Bahia do período 1946 a 1966 é que um

objetivo não declarado, entretanto essencial da política baiana,

consistiu em salvaguardar os capitais formados no escravismo,

inclusive aqueles que constituíram os dois principais bancos do

Estado. O bloco de poder regional deslocou suas bases, desde a

velha aliança entre o capital mercantil de Salvador e os proprietários

de terras do Recôncavo para uma articulação territorialmente mais

ampla, que permitiu que a Bahia tivesse governadores oriundos do

sertão e tornou decisivo o controle dos votos do interior do Estado

na composição estadual do poder.

 

2 A Refinaria Landulfo Alves foi o foco de um processo de

investimentos no setor petroleiro que sustentou a oferta de gás a

preços subsidiados para o complexo petroquímico de Camaçari.

Com a retomada de investimentos da Petrobras na década de 90, a

refinaria voltou a ocupar um papel estratégico na Bahia. Em 2009 a

Refinaria Landulfo Alves foi responsável por uns 20% da receita

tributária gerada pelo setor industrial na Bahia.

 

3 Estudos realizados pela Secretaria da Cultura, Educação e

Turismo (SCET ) em 1972 e o Estudo Agropecuário do Recôncavo

da mesma época ofereceram subsídios para o planejamento da

bacia do rio Paraguaçu, que foram ignorados pelo governo estadual.

O II Plano Metropolitano de 1982 também aponta na direção de uma

ampliação do espaço regional do planejamento. Entretanto, o

projeto de Pedra do Cavalo, que comprometeu três administrações

estaduais, com custos jamais conhecidos, foi feito atrasado e em

escala reduzida, prejudicando a região de Feira de Santana e ao

Recôncavo. Em 1987, o governo estadual fechou a

Superintendência do Vale do Rio Paraguaçu, que jamais

desempenhou papel significativo, mas cuja extinção confirmava o

desinteresse oficial por essa região.

 

4 Informações extra oficiais indicam que o Desenbanco destinou

cerca de 90% de seus recursos para empresas do Polo

Petroquímico de Camaçari onde ocorreram diversas falências não explicadas, assim como estudos sobre o Centro Industrial de Aratu

mostram a referida migração utilitária.

 

5 Outra tese a ser examinada sobre a sociedade baiana é a que

trata da formação de um sistema recente de grandes propriedades

agropecuárias, muitas vezes extrativistas pecuárias, que se formou

como derivado do anterior sistema mercantil-colonial escravista e

deu lugar a um coronelismo que se apropriou das estruturas

partidárias. As compras de terras por parte de políticos é um traço

essencial dessa nova concentração de poder. Essa metamorfose

política do poder rural permitiu que seus descendentes se

modernizassem no comando de partidos políticos personalistas que

garantiram sua presença na política até hoje. São estruturas de

poder baseadas em família ampla semitribal e usa estratégias de

controle econômico por meio do controle de vantagens do Estado.

Aí se configura o sistema verticalizado: controle de vereadores,

prefeitos em combinação com deputados estaduais e federais. Esse

sistema sobrevive através de legendas partidárias e realiza acordos

utilitários com sindicatos e religiões sem teologia de baixa extração.

A política estadual continua impregnada desse tipo de relações de

poder que elege vários membros de uma família ou que apresenta

uma família como bloco na mecânica partidária.

 

6 A ausência de estudos de classe, ou sua substituição por

devaneios culturais geralmente conservadores por omissão, tem

sido uma marca da inoperância dos planos urbanos e regionais na

Bahia. A contradição entre insistir na existência de uma região

metropolitana e desmontar o planejamento metropolitano, entre

propor ações de caráter regional e manter o isolamento entre as

prefeituras dos municípios, indica uma crise do sistema de

planejamento estadual que perdeu visão de conjunto, empreendeu

alguns programas setoriais significativos, mas não produziu nenhum

plano de desenvolvimento desde a década de 1970. O Conselho de

Desenvolvimento do Recôncavo (CONDER) criado em 1968 foi

transformado em Companhia de Desenvolvimento do Recôncavo e

posteriormente em Companhia de Desenvolvimento Regional,

desentendendo-se de uma vez da problemática dessa região.

7 Sobre esse capítulo é preciso consultar o trabalho de J. Barickman

(1998) e o de Tatiana Araujo (2002) que cobrem a presença dos

engenhos centrais, ao mesmo tempo que mostram suas limitações

enquanto solução para renovar a presença do açúcar baiano no

mercado internacional.

 

8 Ver em Vida econômica e financeira da Bahia. (COMISSÃO DE

PLANEJAMENTO ECONÔMICO, 1978)

 

9 Luiz de Souza, autodenominado Luiz Tarquínio (1844-1903),

fundador do Empório Industrial do Norte, foi um pioneiro da indústria

brasileira e dos conceitos de responsabilidade social da empresa.

 

10 Cabe ver José Roberto Amaral Lapa (1982).

 

11 Lidia Santana (2000) em seu Lazer náutico na Baía de Todos os

Santos explora essas novas possibilidades do velejamento

oceânico, mas as condições de mercado afastaram essa atividade

para o Caribe onde encontra maiores vantagens indiretas.