Baía de Todos os Santos: aspectos humanos
A Baía de Todos os Santos na realidade do imaginário da sociedade baiana
A Baía de Todos os Santos na
realidade do imaginário da sociedade
baiana
Fernando Pedrão
A sociedade baiana nunca acertou suas contas com sua história e
tem dado reiteradas provas de uma opção para apagar sua
memória. Não surpreende, portanto, que não haja um estudo
sistemático do significado social, econômico e político da Baía de
Todos os Santos. No entanto, para a cultura baiana, ou para a
identidade baiana, a Baía de Todos os Santos é uma referência
totêmica, que liga o modo de viver dos antigos habitantes indígenas
ao modo social do escravismo, com suas relações concretas e seu
imaginário dividido entre o mundo dos dominadores e o dos
dominados. A vida social na orla da baía representa o principal
componente de anomia de um sistema regional que jamais
absorveu toda a sua população e que passou por um prolongado
processo de esvaimento de suas forças produtivas, vindo a
protagonizar um quadro de marasmo que se diferencia de outras
condições de pobreza também crônica na Bahia, por representar
uma condição diferenciada de viver segundo uma escala de tempo
mais lenta. Uma compreensão social histórica da Baía de Todos os
Santos é inseparável de uma outra da região do Recôncavo, que foi
essencial na formação da economia e da sociedade no Estado da
Bahia e veio a constituir a primeira região do Estado no sentido
estrito desse termo. O Recôncavo é uma realidade histórica que se
refere ao fértil crescente em torno da Baía de Todos os Santos,
marcada pela desembocadura dos rios Paraguaçu, Jaguaribe e
Subaé, com diversos outros rios desde o rio da Dona ao Traripe e
ao Joanes. Sucessivas intervenções administrativas de delimitação
e subdivisão da região têm apenas tumultuado e obstruído a compreensão do problema social, econômico e político que é o
único que interessa estudar.
O significado social histórico da Baía de Todos os Santos não se
desprende de suas características físicas, mas estas são uma
poderosa indicação do modo como se percebe a história e como se
passa de ambientes aparentemente contínuos para situações de
vida precárias, de um espaço essencialmente representativo de
baianidade, para a de um espaço representante da presença
internacional do capital. O imaginário pré-capitalista esteve
representado pela baía coberta de saveiros enquanto a imagem do
capitalismo passou a ser definida pela baía repleta de navios
cargueiros, com eventuais cruzeiros de luxo. Atividades que não se
tocam com a vida dos baianos. Se as canoas de madeira maciça
ainda são iguais às dos tupinambás, não há relação significativa
entre os movimentos de vida social organizada sobre bases locais e
os usos desse modo de transporte na nova organização social.
Dada a virulência da instalação desses novos artefatos da
internacionalidade, é notável como se encontram outros usos – e
não residuais – dos velhos sistemas de equipamento, que
respondem pela sobrevivência da maioria dos moradores das terras
baixas do entorno da baía. Ao lado da baía onde convivem as
embarcações de lazer de grupos de alta renda, prossegue a pesca
artesanal antiga na maior parte dos recantos que não são
acessíveis ao tráfego moderno.
Neste ensaio pretendo trazer um argumento pouco comum, qual
seja, de que a compreensão e o tratamento dados pela sociedade
baiana à Baía de Todos os Santos se explicam por um fundamento
ideológico que assinala a diferença fundamental entre a atual
sociedade de classes e as formas anteriores de estruturação social,
que abrangem os vários momentos do processo colonial e os da
sociedade urbana e industrial de classes. A chave da explicação do
quadro atual é o esgotamento econômico da sociedade pós-
escravista, que se arrastou desde o fim do escravismo e se
acentuou com o fechamento do mercado europeu ao início da
Primeira Guerra Mundial. O fechamento do mercado europeu significou a desvalorização das terras e a instalação de um
ambiente de marasmo, que passou a condicionar as expectativas
sobre o futuro da região. Adiante, os proprietários de terras foram
beneficiados pelas pesquisas de petróleo que levaram a Petrobras a
comprar terras desde a década de 1950. O passo seguinte desse
processo tem sido a transferência de royalties vultosos a prefeituras
despreparadas para gerir esses recursos e dominadas por
mecanismos eleitorais espúrios, tal como se tornou o caso notório
de São Francisco do Conde, onde uma elevada renda per capita
coincide com os maiores índices de desemprego do Estado.
Os ulteriores realinhamentos da estrutura social da região deram-se
no vazio deixado pelo fim daquela sociedade patrimonial. As
tentativas de planejamento da década de 1950, concretamente pelo
Plano de Desenvolvimento para a Bahia – Plandeb (1960-1963)1 –,
lançaram sementes de novas iniciativas, como o Centro Industrial de
Aratu e o Complexo Petroquímico de Camaçari, que transferiram o
foco da relação regional de Salvador, da Baía de Todos os Santos
para a sub-região de Camaçari, e iniciaram um processo de
desvalorização social e econômica da região do Recôncavo. Esse
movimento não foi impedido pela implantação da Refinaria
Landulpho Alves Mataripe (RLAM), essencial ao novo contexto
industrial, que, entretanto se tornou um polo de influência decisivo
na economia baiana desde então. 2 A RLAM criou uma nova
discriminação espacial na região, com efeitos espaciais restritos e
formação de emprego e renda em Salvador. Enquanto o
planejamento estadual propunha a formação de um eixo econômico
Salvador – Feira de Santana, com a construção de um distrito
industrial em Feira e outro no bairro de São Caetano em Salvador,
formava-se, de fato, uma separação entre um Recôncavo norte
receptor de investimentos e um Baixo Recôncavo direcionado para
a pobreza crônica e transformado em gerador de mão de obra
barata para a construção civil e para serviços domésticos. A força
de trabalho do Recôncavo volta a estar subordinada a ocupações
temporárias, tal como era quando do estudo pioneiro de Costa Pinto
(1958). A última mão de tinta nesse cenário foi a mudança do
sistema de transportes, em que a escolha do rodoviarismo – a BR-116 em 1967 e a BR-101 em 1972 – excluía de comunicações as
populações ribeirinhas do Recôncavo, dependentes de meios
artesanais de transporte, e fechava, em 1967, o porto de São Roque
do Paraguaçu. Cachoeira foi condenada ao esquecimento enquanto
Feira de Santana despontava como principal entroncamento
rodoviário na relação com o Sertão, apesar de enfrentar o descaso
pelo centro industrial do Subaé e os repetidos fracassos no
planejamento do baixo Paraguaçu, principalmente representados
pela represa de Pedra do Cavalo. 3 As estradas inter-regionais
criaram novas redes de conexões, alentando a expansão de cidades
como Itabuna, Jequié e Conquista, criando uma linha de articulação
interna do Recôncavo que desvaloriza a Baía de Todos os Santos.
A desativação das estradas de ferro foi um golpe que atingiu
profundamente a economia baiana em seu conjunto, mas que
passou despercebido pelo discurso superficial de atrair empresas
para o Estado e pela burocratização do planejamento. O
planejamento estadual de visão estatal foi substituído por uma
gestão privatizante da coisa pública, que canalizou os recursos
estaduais para subsidiar empresas, muitas das quais emigraram tão
logo captaram os subsídios do Estado e da Sudene.4 O subsídio ao
capital foi a linha mestra da política econômica estadual, desde o
modelo tripartite da implantação do Polo de Camaçari a vantagens
sutis do sistema de financiamento do Fundo de Investimentos do
Nordeste (FINOR). Com o passar do tempo tornou-se subsídio ao
grande capital internacionalizado.
Trata-se, portanto, de ancorar historicamente o questionamento
ideológico da modernização concentradora de capital. O
fundamento do questionamento ideológico surge por meio das
diferenças entre a visão do império colonial, a da sociedade local
mercantil-escravista, a da sociedade pós-escravista latifundista 5 e a
que se forma hoje, sobre pressupostos de uma sociedade de classe
e da integração da região da Baía de Todos os Santos na economia
baiana em seu conjunto. A orla da baía foi objeto de subdivisões
que distinguem as funções da parte norte ocupada pela produção
petroleira, a parte central onde se encontram os municípios mais ativos e onde surgiram alguns empreendimentos de lazer e a parte
sul, que continuou sendo a mais pobre. A orla da baía também foi
reorganizada em função de condições de acesso, em que é preciso
distinguir a ocupação privatizada de ilhas por parte de políticos e por
capitais privados de difícil identificação e a ocupação remanescente
de situações anteriores. Hoje, praticamente, as margens do rio
Paraguaçu e até os pontos de atracadouro estão privatizados, assim
como a exploração dos próprios atracadouros e em grande parte
como benesses do sistema político.
Não há como ignorar que amplos setores do corpo social que
permanecem numa economia precária extrativista hoje estão
integrados em um sistema de relações de classe, por mais que em
seus locais de residência não haja empregos assalariados. A pesca
artesanal é uma forma de produzir mercadoria em que o valor de
consumo retido pelos pescadores é uma proporção ínfima do valor
de troca gerado, que é retirado através do sistema de
comercialização. O artesanato da região, que é realizado em
condições precárias e gera produtos de baixa qualidade participa do
mesmo sistema, utilizando meios de transporte também artesanais.
Uma observação decisiva sobre esta parte do problema social de
ocupação e renda é que a bolsa família entrou a desestimular essas
atividades fortemente exploradas de baixa renda, incitando os
beneficiados a não trabalharem. A contradição se aprofunda quando
se toma em conta o problema de alcoolismo que,
reconhecidamente, incide nessa população.
Uma crítica histórica do sistema desigualmente modernizado torna
necessário examinar a formação de classes e o bloqueio dos
mecanismos de ascensão e mobilidade positiva, pelo que se
divisam diferentes níveis de relações conflitivas de classe, no campo
do trabalho empregado, no do trabalho ocupado precariamente e no
do trabalho empregado mediante privilégios. Torna-se aqui
necessário considerar situações de relações de classe que se
reorganizam sob o patrimonialismo criado pelo sistema político.
O reconhecimento desse fundo ideológico equivale a admitir uma
identidade que sempre foi negada – a de um corpo social
segmentado, definido pela presença do componente dominado –
justamente porque esse reconhecimento implicaria em desqualificar
a ruptura social fundamental da escravidão.6 A identidade se forma
mediante o reconhecimento de um outro específico que faz parte
dominada da sociedade local, constituída de pobres e excluídos em
geral. Com a desvalorização da economia do Recôncavo, a orla da
Baía de Todos os Santos continuou abrigando uma população
constituída de vários grupos de excluídos, desde os de Salvador no
subúrbio até os de Jaguaribe.
A imagem da Baía de Todos os Santos divide-se entre a de ser um
lugar onde se vive e de um lugar para ser explorado. Esta divisão se
manteve igualmente para os capitais internacionais e para os que
constituíram a economia regional baiana. A questão fundamental foi
a transformação dos recursos naturais em valor de troca, em função
de certas equações tecnológicas e de encontrar mercado para as
opções de empreendimento que surgiram e determinaram o
engajamento de trabalho. Qual, entretanto, seria a relação entre as
transformações da realidade material da orla da baía e a de sua
imagem? A exploração de recursos para uma economia
internacional sempre prevaleceu sobre a moradia local. Os sinais da
presença da sociedade local surgiram, penosamente, mediante
formas nunca imaginadas na leitura da região como reserva de
recursos.
No período colonial esse sistema funcionou com garantia de
mercado externo. O fim da garantia de mercado veio com a
substituição das vendas ao exterior por vendas a um mercado
interno nacional em que os produtores da região revelaram-se
pouco eficientes, incapazes de acompanhar os padrões de
qualidade das indústrias da região da Leopoldina no Rio de Janeiro
e das de São Paulo. Isso apesar de que os capitais instalados na
Bahia em indústrias de bens de consumo, especialmente em
tecelagem, tiveram diversas vantagens sistêmicas, determinadas
pelo apoio do governo provincial. O fim do escravismo marcou as condições em que se realiza a participação no mercado externo, ou
seja, em que aquela economia de empórios comerciais passou a ser
uma participação periférica de um sistema internacionalmente
integrado. Exceto por algumas figuras isoladas, como os Lacerda e
o Barão de Jeremoabo, os escravistas não se adaptaram à
produção industrial, apesar da mecanização da produção com os
engenhos centrais. 7 O empobrecimento da primeira metade do
século XX certamente está ligado a essa falência dos grupos
escravistas e à emigração de capitais formados no sistema antigo e
na produção cacaueira. A tentativa fracassada do governo Calmon
de Góis apenas confirma essa tendência.
O fracasso do sistema pós-escravista para se integrar na economia
moderna, basicamente de 1850 a 1914, testemunhou essa
incapacidade da economia agroindustrial tradicional para funcionar
em um sistema de economia de mercado e com trabalho livre, assim
como sua incapacidade para gerar uma cultura escrita e uma
ideologia, capazes de dar unidade ao projeto regional baiano. O
reconhecimento tácito desse fracasso inspirou a política econômica
do governo Góis Calmon. 8 A falta de uma alternativa política ao
controle oligárquico fundado no escravismo aprofundou a visão
local, herdada do controle patrimonial da produção e a visão
capitalista em formação, que passou de um empreendedorismo
arriscado de figuras como Luiz Tarquínio 9 a um ambiente de
empresas apoiadas em acordos celebrados no plano político. A
figura das empresas empreiteiras, que se tornaria central desde o
período da ditadura militar, aparecia com contratos de obras
públicas desde a década de 1940, ainda no Estado Novo.
Nesse contexto a indústria têxtil deve ser revista, já que, no
essencial, ela surgiu como um desdobramento urbano da economia
do escravismo. Suas limitações econômicas são inseparáveis de
sua origem política, dado que jamais teve a capacidade de
concorrer fora da região e ficou restrita a um mercado sem
possibilidades de crescimento. O fundamento ideológico da
industrialização baiana tem que ser relido, porque funcionou como
parte do mecanismo de sustentação da estrutura política tradicional. A visão descobrimentista foi uma visão externa da baía como e
enquanto recurso de navegação, que provou ter um significado
internacional, por seu duplo papel na rota da África na carreira das
Índias. 10 A visão colonial foi a de construção de uma entidade local,
que foi produzida mediante um movimento etnocultural que hoje
permite estabelecer uma distância crítica em relação com os
momentos de transformação social mais intensa, que são os do fim
do escravismo, da decadência econômica e da sustentação política
dos remanescentes da ordem anterior, bem como da entrada de
novos contingentes de assalariados até a formação de um corpo
social marginalizado, dependente da reprodução do sistema político
regional em seus moldes mais tradicionais.
A visão colonial foi a de um território a ser capturado e submetido ao
modo de exploração do capital mercantil avançado mediante a
implantação de uma forma de produção internacionalizada. Na
prática, deu lugar à formação de uma sociedade colonial complexa,
com diferentes papéis para os integrantes do segmento europeu,
para índios e escravos. Durante o período colonial formaram-se
diversos pontos de vista brasileiros que simplesmente consagraram
a pluralidade das formações regionais. Na segunda metade do
século XIX a região passou por algumas mudanças fundamentais
compreendendo a expansão da cultura fumageira e o melhoramento
da qualidade desse produto e a constituição de um sistema
multimodal de transportes que a integrou com Salvador. Uma outra
tese deste ensaio é que este sistema de transporte foi um fator de
transformação que tornou Salvador o centro privilegiado dos
investimentos da era industrial, desbancando o Recôncavo de
qualquer aspiração nesse sentido.
As atividades que se instalaram desde 1950 caíram na mesma
armadilha, de sobreviver com a demanda local e com apoio público,
deixando de aproveitar oportunidades de mercado fora da região. O
direcionamento da indústria na Bahia para operar com garantia de
mercado e com vantagens públicas tem sido um traço dominante
desde as primeiras indústrias às do polo petroquímico. A primeira
indústria têxtil funcionou sobre um mercado regional protegido pela falta de acessibilidade da região e foi repetidas vezes beneficiada
por financiamento público preferencial. O financiamento do Banco
do Nordeste e da Sudene incluiu essa linha de formação de capital
no bojo da modernização do Nordeste. O Centro Industrial de Aratu
(CIA) repetiu essas vantagens em maior escala e com maior
emigração de empresas. O polo petroquímico instalou-se vendendo
uns 80% de sua produção no mercado interno nacional, comprando
gás natural e energia elétrica a preços subsidiados em cerca de
30%. Mais recentemente, destacam-se alguns traços desse sistema
baseado em mobilidade negativa do sistema regional. O primeiro
deles é a série de movimentos de desorganização da economia da
região, desde o desmantelamento do sistema multimodal de
transportes, com o fim da navegação a vela e do porto de São
Roque do Paraguaçu. O segundo é o refluxo de trabalhadores
desempregados da economia industrial, que regressam às zonas
mais pobres acolhendo-se a mecanismos tradicionais de
sobrevivência. Essa questão só pode ser adequadamente apreciada
à luz de uma revisão das transformações do sistema produtivo na
segunda metade do século XX, quando se tornou mais clara a
complexidade dos fatores do marasmo da região em seu conjunto.
A principal observação que surge daí é que essa decadência
generalizada decorreu mais de fatores externos que de internos,
configurando-se como contração do mercado. As mesmas restrições
de demanda repetiram-se com um perfil mais nítido na economia
pós-escravista. Falta clareza nas explicações da decadência da
produção açucareira e fumageira entre 1914 e 1950, bem como
sobre posteriores movimentos de reorganização. A perda de
posição do Recôncavo no período colonial foi mais pela qualidade
inferior de seus produtos que por outras causas e as dificuldades do
terreno não tinham sido obstáculo antes, como mostrou Schwartz
(1993). As dificuldades de mercado vieram pelo lado da demanda,
em que os compradores, alemães e holandeses, foram deslocados
pela guerra.
A decadência da indústria têxtil e de outras indústrias de bens de
consumo seguiu o mesmo caminho. Não se pode atribuir essa decadência a dificuldades de suprimento de matérias-primas,
porque essas indústrias baianas já tinham resolvido razoavelmente
esses problemas trazendo algodão do sudoeste do Estado e do
Nordeste. O aprofundamento da pobreza significou que o mercado
regional não cresceu a par com as atividades não agrícolas. A orla
da Baía de Todos os Santos continuou abrigando uma numerosa
população que ficou à margem da modernização conservadora.
Longe de declinar, o extrativismo ganhou novos espaços no
suprimento do consumo dos mais pobres e tornou-se funcional para
a sobrevivência de grande parte da população (PEDRÃO, 2001),
absorvendo parte da pressão social do desemprego crônico.
Nesse contexto, colocaram-se no Recôncavo algumas poucas
fábricas que tampouco se sustentaram. Na década de 90 fecharam
fábricas de diversos tipos no Recôncavo, ecoando a emigração de
indústrias de Feira de Santana. Nesse momento já as principais
cidades da região – Santo Amaro, Cachoeira, São Félix – não
tinham expressão econômica alguma, passando a região a
funcionar sob a influência principal de Feira de Santana e em menor
grau de Santo Antônio de Jesus. Estudos da indústria na Bahia
(1983) mostraram que uma mesma divisão entre as chamadas
indústrias tradicionais e indústrias dinâmicas corroboram com a
hipótese de que houve uma segmentação do setor industrial,
quebrada apenas por alguns grandes interesses que participam dos
dois lados. Nesse contexto a Baía de Todos os Santos passou a ser
vista como um espaço especial de aproveitamento de recursos, em
que se podem captar novas oportunidades econômicas junto com
uma reorganização econômica e social de atividades tradicionais,
sob a pressão do mercado concentrado em Salvador. A exploração
dos manguezais e a extração de rochas e areia tornaram-se
subsidiárias da expansão urbana de Salvador em paralelo com a
intensificação do uso de terminais especializados de carga e com
uma movimentação de cargas internacionais. A habilitação do porto
de Aratu foi seguida da do terminal de Suape e do da Ford.
Possíveis opções de aproveitamento turístico, conquanto
criativas11, esbarram em dificuldades técnicas, que vão desde a pouca navegabilidade da baía até a precariedade de suas
instalações portuárias.
A Baía de Todos os Santos torna-se um valor de troca de novas
opções econômicas, políticas e tecnológicas que estão
representadas por novas gerações de empreendimentos, na
agroindústria marinha e em nova geração de produção canavieira. A
população do Recôncavo abastece Salvador de mão de obra pouco
qualificada para a construção civil, para trabalhos domésticos e a
região passa a depender de transferências de renda, desde
aposentadorias e pensões a bolsa família. No realinhamento do
sistema econômico pós-escravista a funcionalidade da orla da Baía
de Todos os Santos esvaiu-se junto com o transporte artesanal e
grande parte de seu funcionamento passa a ser de fundeamento de
navios à espera de carga e descarga. A presença da Petrobras e do
setor petróleo em geral torna-se determinante nos movimentos de
valorização e de desvalorização dos espaços, nas transferências de
renda.
Depois de décadas de atraso, apesar de uma realização inferior aos
planos originais, a represa de Pedra do Cavalo passou a
desempenhar um papel na oferta de água e introduziu modificações
importantes nos movimentos de águas que se combinaram com os
efeitos de assoreamento de outros rios como o Subaé, reduzindo
mais ainda a escassa navegabilidade da baía.
Todos esses movimentos atingem a condição social dos habitantes
da orla da Baía de Todos os Santos e com suas possibilidades de
acesso a novas oportunidades de emprego e renda. É uma
população que sempre esteve inferiorizada, restrita ao extrativismo
(PEDRÃO, 2001), com mobilidade escassa ou nula. A situação se
agravou desde a segunda metade da década de 1980, quando
minguou a capacidade de absorção de migrantes na metade norte
do próprio Recôncavo. Surgem no Recôncavo empreendimentos em
produção mineral, que acontecem em um ambiente marcado pela
perda de importância do novo povoamento da ilha de Itaparica para
veraneio e lazer. Falta uma nova avaliação do emprego atual e do potencial de ocupação remunerada, à luz dos novos investimentos
no setor petroleiro e na reorganização dos sistemas de transportes,
assim como falta uma nova avaliação do quadro atual e do potencial
da economia da mineração no Recôncavo, que terá impacto indireto
no quadro de ocupações.
Mas o debate se renova frente às novas condições para que se
construa uma visão de totalidade da região do Recôncavo com a
baía. Há uma questão central relativa à relação entre esfera pública
e esfera privada, em conjunto com definições do manejo social dos
problemas do ambiente. Para que se alcancem progressos
significativos nesses campos será necessária uma mobilização de
ação conjunta dos municípios da região. A atividade das
universidades públicas poderá ter um papel decisivo nesse contexto,
contribuindo para revelar os protagonismos locais e confrontá-los
com a rede de influências externas. A presença de atividades
consistentes de ensino e pesquisa pode inverter o movimento
crônico de emigração de talentos e revelar a baía com seu
significado social, histórico, econômico e cultural.
Referências
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SILVA, J.F. Graziano (Coord.). Estrutura agrária e produção de
subsistência na agricultura brasileira. São Paulo: Hucitec, 1978.
1 Os principais estudos regionais da época foram realizados pelo
Instituto de Economia e Finanças da Bahia (IEFB), que deu suporte
de pesquisas ao planejamento da Comissão de Planejamento
Econômico e pelo Laboratório de Geomorfologia da UFBA.
Pesquisas sobre a organização da indústria na Bahia e sobre a
economia dos saveiros foram feitas pelo IEFB, assim como sobre a
produção cacaueira na Bahia. Os estudos do IEFB sobre o produto
interno bruto (1939-1958) sustentaram o planejamento e mostraram
a fragilidade da produção rural baiana. O planejamento industrial
ficou imobilizado por uma atitude passadista de salvar a velha indústria têxtil, herdeira dos capitais escravistas. Daí que uma das
teses importantes sobre a Bahia do período 1946 a 1966 é que um
objetivo não declarado, entretanto essencial da política baiana,
consistiu em salvaguardar os capitais formados no escravismo,
inclusive aqueles que constituíram os dois principais bancos do
Estado. O bloco de poder regional deslocou suas bases, desde a
velha aliança entre o capital mercantil de Salvador e os proprietários
de terras do Recôncavo para uma articulação territorialmente mais
ampla, que permitiu que a Bahia tivesse governadores oriundos do
sertão e tornou decisivo o controle dos votos do interior do Estado
na composição estadual do poder.
2 A Refinaria Landulfo Alves foi o foco de um processo de
investimentos no setor petroleiro que sustentou a oferta de gás a
preços subsidiados para o complexo petroquímico de Camaçari.
Com a retomada de investimentos da Petrobras na década de 90, a
refinaria voltou a ocupar um papel estratégico na Bahia. Em 2009 a
Refinaria Landulfo Alves foi responsável por uns 20% da receita
tributária gerada pelo setor industrial na Bahia.
3 Estudos realizados pela Secretaria da Cultura, Educação e
Turismo (SCET ) em 1972 e o Estudo Agropecuário do Recôncavo
da mesma época ofereceram subsídios para o planejamento da
bacia do rio Paraguaçu, que foram ignorados pelo governo estadual.
O II Plano Metropolitano de 1982 também aponta na direção de uma
ampliação do espaço regional do planejamento. Entretanto, o
projeto de Pedra do Cavalo, que comprometeu três administrações
estaduais, com custos jamais conhecidos, foi feito atrasado e em
escala reduzida, prejudicando a região de Feira de Santana e ao
Recôncavo. Em 1987, o governo estadual fechou a
Superintendência do Vale do Rio Paraguaçu, que jamais
desempenhou papel significativo, mas cuja extinção confirmava o
desinteresse oficial por essa região.
4 Informações extra oficiais indicam que o Desenbanco destinou
cerca de 90% de seus recursos para empresas do Polo
Petroquímico de Camaçari onde ocorreram diversas falências não explicadas, assim como estudos sobre o Centro Industrial de Aratu
mostram a referida migração utilitária.
5 Outra tese a ser examinada sobre a sociedade baiana é a que
trata da formação de um sistema recente de grandes propriedades
agropecuárias, muitas vezes extrativistas pecuárias, que se formou
como derivado do anterior sistema mercantil-colonial escravista e
deu lugar a um coronelismo que se apropriou das estruturas
partidárias. As compras de terras por parte de políticos é um traço
essencial dessa nova concentração de poder. Essa metamorfose
política do poder rural permitiu que seus descendentes se
modernizassem no comando de partidos políticos personalistas que
garantiram sua presença na política até hoje. São estruturas de
poder baseadas em família ampla semitribal e usa estratégias de
controle econômico por meio do controle de vantagens do Estado.
Aí se configura o sistema verticalizado: controle de vereadores,
prefeitos em combinação com deputados estaduais e federais. Esse
sistema sobrevive através de legendas partidárias e realiza acordos
utilitários com sindicatos e religiões sem teologia de baixa extração.
A política estadual continua impregnada desse tipo de relações de
poder que elege vários membros de uma família ou que apresenta
uma família como bloco na mecânica partidária.
6 A ausência de estudos de classe, ou sua substituição por
devaneios culturais geralmente conservadores por omissão, tem
sido uma marca da inoperância dos planos urbanos e regionais na
Bahia. A contradição entre insistir na existência de uma região
metropolitana e desmontar o planejamento metropolitano, entre
propor ações de caráter regional e manter o isolamento entre as
prefeituras dos municípios, indica uma crise do sistema de
planejamento estadual que perdeu visão de conjunto, empreendeu
alguns programas setoriais significativos, mas não produziu nenhum
plano de desenvolvimento desde a década de 1970. O Conselho de
Desenvolvimento do Recôncavo (CONDER) criado em 1968 foi
transformado em Companhia de Desenvolvimento do Recôncavo e
posteriormente em Companhia de Desenvolvimento Regional,
desentendendo-se de uma vez da problemática dessa região.
7 Sobre esse capítulo é preciso consultar o trabalho de J. Barickman
(1998) e o de Tatiana Araujo (2002) que cobrem a presença dos
engenhos centrais, ao mesmo tempo que mostram suas limitações
enquanto solução para renovar a presença do açúcar baiano no
mercado internacional.
8 Ver em Vida econômica e financeira da Bahia. (COMISSÃO DE
PLANEJAMENTO ECONÔMICO, 1978)
9 Luiz de Souza, autodenominado Luiz Tarquínio (1844-1903),
fundador do Empório Industrial do Norte, foi um pioneiro da indústria
brasileira e dos conceitos de responsabilidade social da empresa.
10 Cabe ver José Roberto Amaral Lapa (1982).
11 Lidia Santana (2000) em seu Lazer náutico na Baía de Todos os
Santos explora essas novas possibilidades do velejamento
oceânico, mas as condições de mercado afastaram essa atividade
para o Caribe onde encontra maiores vantagens indiretas.