Baía de Todos os Santos: aspectos humanos
EIXO III – Expressões religiosas, artísticas e imaginário baiano
Eixo III – Expressões
Religiosas, Artísticas e
Imaginário Baiano
Ocultações e espelhamentos:
processos criativos em oficinas
realizadas pelo Núcleo de Arte
no Projeto BTS – Porto 01: Baiacu
Viga Gordilho
Gal Meirelles
Giovana Dantas
Nicole Avillez
No começo do mundo, uma pomba muito grande e muito
branca, partindo de algum ponto do infinito, veio voando,
voando, até que, exausta da longa jornada, caiu morta no litoral
daquela terra que seria o Brasil. Suas alvas e longas asas,
abertas ao solo, transformaram-se nas praias da Bahia. No
lugar em que o coração bateu na terra, abriu-se imensa e
profunda brecha que as águas do mar preencheram, formando
a Baía de Todos os Santos, cujas margens soberbas foram
fecundadas pelo sangue da ave legendária [...]1
Ao iniciarmos este artigo, sob o título Ocultações e espelhamentos,
cujo campo de pesquisa é a Baía de Todos os Santos (BTS),
gostaríamos de pontuar inicialmente a "ocultação" do termo de
origem tupi – Kirimurê, antigo nome da Baía de Todos os Santos,
que muitas vezes foi esquecido pelos próprios habitantes da
"Cidade da Bahia", mas, imperiosamente, "espelhado" nos 1.100
km2 da Baía de Todos os Santos que beijam a capital e abrigam
cerca de 56 ilhas. Dentre estas ínsulas, está a majestosa ilha de
Itaparica – maior ilha marítima do Brasil. Foi justamente com o olhar
voltado para a ilha de Itaparica que o Núcleo de Artes do Projeto
BTS, composto pelos membros do grupo MAMETO CNPq2,
desenvolveu o projeto de oficinas de experimentações artísticas,
denominado "Água – cidade: ocultações e espelhamentos – Baía de
Todos os Santos em retalhos", que ora, parcialmente, se vê apresentado, a partir das ações realizadas na comunidade de
Baiacu.
Sob tal perspectiva, o presente trabalho visa refletir a respeito da
primeira oficina efetivada. Para tanto, iniciamos a viagem tecendo
breves considerações históricas no intuito de compreender o local
escolhido como primeiro "porto" de ancoragem.
Baía de Todos os Santos: a Ilha de Itaparica
A região abrigava, até a chegada da missão jesuítica no século XVI,
as mais diversas nações tupinambá, que a custa de violentas
batalhas expulsaram outros povos indígenas e aproveitaram a vasta
costa da Baía para desenvolverem os mais variados artefatos de
pesca, tornado-se especialistas na arte de garantir o abastecimento
de proteínas na alimentação das tribos. Entretanto, com a
emergência dos propósitos coloniais, a ilha de Itaparica tornou-se
palco de conflitos entre os habitantes locais e os exploradores
vindouros que, ao longo do tempo, ocuparam grandes porções de
terras para abrigar engenhos de cana-de-açúcar e, a partir do
século XVII, com a chegada do marinheiro basco, Pedro de Urecha,
foi aproveitada para instalação de unidades de refino de óleo de
baleia, sem o qual não seria possível manter a iluminação da
colônia.
Os trabalhadores das feitorias de pesca – de origem europeia,
indígena e africana – eram denominados por "gente do azeite". A
primeira destas feitorias a se instalar na ilha de Itaparica, conforme
Ubaldo Osório, pertenceu a João Francisco de Oliveira e localizava-
se na Ponta da Cruz, no ano de 1606. Na atualidade, pertencente
ao município de Itaparica, o local passou a ser denominado Ponta
das Baleias e ainda hoje traz, à memória de antigos pescadores,
longínquas lembranças da fartura promovida pela captura dos
grandes cetáceos. A mistura étnica fervilhada em óleo de baleia,
leite de coco e azeite de dendê originou o ilhéu atual, um mestiço
que se identifica como caboclo e remonta suas tradições a partir das
remanescentes memórias das três matrizes culturais.
A curta distância que separa Salvador, a terceira capital do Brasil,
da ilha de Itaparica – cerca de 14 km em linha reta por entre as
águas da Baía de Todos os Santos – facilitou, ao longo da história, o
intercâmbio cultural entre o ilhéu e o habitante da capital. Deste
modo, Salvador – visível de alguns pontos da ilha – sempre esteve
no horizonte de expectativas dos nativos. Assim, ainda deslocam-se
para a capital com os mais variados fins: trabalho, estudo e práticas
de consumo, de um modo geral. De outro ângulo, em devida
medida, a ilha de Itaparica sempre foi vislumbrada com olhos
cobiçosos pelos residentes da cidade; no entanto, com propósitos
distintos: o veranista ou mesmo o turista ocasional nela projeta
anseios e concretizações de descanso, conforto, diversão,
encontrados, sobretudo, entre as receptivas barracas aglomeradas
ao longo dos 28 quilômetros de coqueirais que sombreiam as praias
da ilha.
As políticas de incentivo ao turismo, fomentadas mais intensamente
a partir da separação dos 246 km entre os 40 distritos que na
atualidade compõem a ilha de Itaparica – divididos entre o município
de Vera Cruz, com sede na cidade de Mar Grande, que abriga 27
distritos e se estende por 211 km2, e o município de Itaparica cujos
35 km2 abrangem a sede e mais 12 localidades – surtem efeitos
imediatos na década de 70, quando é inaugurado o Club
Mediterraneé, o sistema de transporte marítimo via ferry-boat e a
Ponte do Funil, ligando a Ilha ao continente. A partir deste período,
são intensificadas construções de condomínios, loteamentos e
casas de segunda residência, com vistas a atender aos variados
padrões de turistas. As consequências do aumento de visitantes são
mais perceptíveis na modificação da paisagem natural, cujos
espaços de áreas verdes, principalmente aqueles localizados nas
regiões costeiras, são gradativamente substituídos por construções
civis que demarcam o processo de urbanização, por
aproximadamente 48 anos de história, período que abrange a
separação política da ilha de Itaparica, ocorrida em 30 de julho de
1962.
As modificações no espaço natural repercutem – de modo direto –
nas práticas culturais dos habitantes, obrigando-os a se adaptarem
às novas conformações sociais, econômicas e políticas. Todavia, os
impactos causados pelas dinâmicas sociohistóricas não foram
homogêneos: as comunidades da contracosta, região de
manguezais, são menos assediadas pelo mercado imobiliário do
que as comunidades banhadas pelo oceano.
Assim, entre os nove distritos que conformam a contracosta, é
possível perceber que a vida cotidiana transgride as régulas
capitalistas: velhos, crianças e adultos ainda mesclam as exigências
do mundo contemporâneo com práticas ancestrais de trabalho e
lazer. Dentre tais comunidades, vamos destacar, mais detidamente,
as singularidades da vila de Baiacu que, conforme já referido,
escolhemos para iniciar o Projeto BTS em retalhos.
Baiacu: contaminações culturais
A antiga Vila de Vera Cruz – desde 1962 rebatizada por Baiacu –
ainda mantém marcos da presença colonial: as ruínas de uma igreja
construída, provavelmente no século XVIII (Figuras 1 e 2) e o
tanque dos jesuítas, primeira obra de engenharia hidráulica da
colônia que fomenta lendas sobre tesouros e mistérios. Baiacu é um
dos 27 distritos do município de Vera Cruz e abriga cerca de 4.000
"almas" do contingente populacional dos 55.000 que habitam as
demais localidades da Ilha. É entrecortado pelo fundo da Baía de
Todos os Santos e, por ser cercado de manguezais, não possui
praia, mas diariamente está sujeito à hidrodinâmica das marés, que
alarga frestas e valas por entre lamaçais e apicuns. Segundo o
Coronel Ubaldo Osório, avô de escritor João Ubaldo, no livro A ilha
de Itaparica: história e tradição, a comunidade foi denominada Vera
Cruz de Itaparica em 1560 (OSÓRIO, 1979, p. 35-36), pelo padre
Luiz da Grã, integrante de uma missão catequética. Ainda que o
acesso ao distrito esteja facilitado pelos 7 km de via asfaltada que o
liga às demais localidades, o limite de Baiacu é o mar.
Figuras 1 e 2 – Ruínas de igreja em Baiacu.
Fotos: Gal Meirelles.
O mar responde tanto pelo partilhamento do território continental
quanto pelo das práticas culturais. Os mestres de pesca são os
principais responsáveis por retirarem do mar o sustento dos demais
moradores; este sustento é bidimensional e abrange a dimensão
material e a dimensão simbólica. Ambos balizam o eixo central da
produção cultural do lugar. O mar é um espaço simbólico, tanto para
os pescadores quanto para os outros habitantes, porém em
proporções distintas: os primeiros experienciam-no diariamente por que são responsáveis pela captura dos produtos; os demais o
vivenciam por intermédio dos resultados da pesca – consomem e/ou
revendem os produtos –; observam a movimentação das atividades
preparatórias em terra e ouvem os relatos dos sucessos ocorridos
no mar. Assim, independentemente de haver compartilhado o
espaço marinho de modo concreto – material –, todos os habitantes
de Baiacu o compartilham como espaço do imaginário.
As singularidades geográficas e históricas locais resguardaram a
comunidade da invasão imobiliária, ocorrida na Ilha desde a década
de 60, e permitiram aos habitantes a conservação de práticas
socioculturais peculiares. Porém, condicionantes de urbanidade
como instalação de luz elétrica, de água encanada, a abertura de
estradas – dentre outras – de algum modo, interferem e modificam a
paisagem e o modo de vida da população. Tal constatação, advém
tanto da observação da realidade, de um modo geral, quanto – em
escala mais restrita – por intermédio de relatos dos indivíduos da
comunidade, participantes da oficina. Pela incidência e natureza dos
relatos, detectamos como o transcurso entre o espaço marítimo e o
espaço terrestre responde tanto pela conformação da memória
individual – a professora Gilmária Conceição escolheu representar
visualmente o mar, justificando que, nos recônditos do seu
imaginário, sempre temeu enfrentá-lo – quanto pela conformação da
memória coletiva – a professora Jandira dos Anjos sentia-se
orgulhosa por pertencer ao grupo de mulheres de Baiacu, pois as
considera emblemas de força, resistência e determinação,
expressando, emocionadamente: "– Em todo canto que vou, vejo
mulheres de Baiacu com isopor na cabeça, vendendo peixe,
vendendo marisco, indo e vindo e ainda trabalhando em casa para
cuidar dos filhos [...]". (Informação verbal)
Nesse sentido, é dos deslimites do mar que parte a identificação dos
habitantes locais como integrantes de uma mesma comunidade que
resguarda aspectos históricos e geográficos singulares (Figura 3).
Por conta de tais aspectos, antigas tradições contaminam práticas
culturais na atualidade, destacamos aqui, a pesca e a preparação
culinária do peixe baiacu, responsáveis por cunhar o topônimo Baiacu. Entre as muitas memórias da comunidade, estão diversas
histórias sobre o peixe, como pode ter várias aparências e nomes:
peixe-balão, baiacu-cofre, baiacu-de-chifre, baiacu-caixão, baiacu-
sapo, peixe que cresce. Os moradores da vila previnem que
independente da nomenclatura é preciso saber retirar o veneno para
saborear a carne alva e leve, especialidade culinária local. Sob as
percepções das contaminações e trocas resguardadas na memória
coletiva, adentramos a um conjunto de imagens que remete à
comunidade de Baiacu, particularmente "a do peixe que cresce e
contamina", para falar da proposta central deste artigo que é o
registro reflexivo do processo criativo da primeira oficina realizada
pelo Núcleo de Arte do Projeto BTS.
Figura 3 - Mar de Baiacu.
Foto: Gal Meirelles.
Assim, acreditamos que – em Baiacu – a memória cultural é um
bem coletivo partilhado por indivíduos de um mesmo contexto
histórico, geográfico e social; ali o mar não se constitui apenas de
imagens remotas do passado, pois o elemento de cultura
identificador daquele lugar é a atividade da pesca artesanal. Esta
atividade ocorre cotidiana e coletivamente. Portanto, a formação da
memória de Baiacu é constituída de um discurso sobre um passado recente, haja vista a maioria dos fatos estruturantes do núcleo
discursivo das participantes da oficina, que se assentava em
elementos que tangenciam a esfera do mar e suas diversas formas
de repercutir nas práticas sociais em terra. Desta maneira, da
confluência de mar e terra surge a vocação matérica da
comunidade; no sentido de que os habitantes manuseiam materiais
que conformam a vida e perpetuam a memória: tecem redes para a
pesca, amassam o barro da construção de casas, retiram carnes da
áspera textura de mariscos e crustáceos para o alimento diário. Em
pequenos grupos, pescadores de Baiacu debruçam-se sobre as
redes de poliamida e munidos de agulha e fios de náilon
rememoram pescarias e sucessos no mar através de cada um dos
nós com que cozem as malhas rasgadas pela luta dos pescados:
tecem as redes e atam os laços grupais que solidificam a
comunidade. Todas estas referências inspiraram os participantes da
oficina, pois suas memórias povoam-se destas imagens, vincadas
também ao trabalho artesanal dos pescadores que precisam atar –
manualmente – redes de pesca à porta dos paeiros, que circundam
as areias dos apicuns.
Figura 4 - Reparo da rede de pesca.
Foto: Nicole Avillez.
Figura 5 - Peixes na rede.
Foto: Gal Meirelles.
Figura 6 - Pesca com rede.
Foto: Gal Meirelles.
Figura 7 - Redes ao sol.
Foto: Nicole Avillez.
Muito silêncio mesmo, a maré baixa descobrindo o apicum sem
fim [...], um friozinho molhado [...], os vaza-marés e outros
caranguejinhos de plantão à porta de seus buraquinhos, a
enchente começando a lamber a borda do mangue, um
lumezinho bruxuleando na porta da casinha que ficava embaixo
do coqueiro, uma vontade mansa, meio boba, meio sem pé
nem cabeça, de que aquilo tudo parasse, que não fosse
necessário fazer mais nada, quase como se a alma saísse do
corpo. (RIBEIRO, 2007)
A construção da oficina
As redes também foram utilizadas, na oficina em Baiacu, tanto como
matéria, quanto conceito com vistas a "atar" os motivos perceptivos
escolhidos para promover a ativação da memória com vistas a
deflagrar o processo criativo, objetivando-se formatar um
pensamento visual, denominado, por Cecília Salles, "Redes da
Criação". (SALLES, 2006, p. 19)
Acreditamos que para melhor compreender as ações metodológicas
utilizadas na construção da oficina é significativo entender "rede"
enquanto associação e conexões de ideias provocadas por
estímulos perceptivos que movem a memória de modo a intensificar
o processo de criação. Salles (2006, p. 24) ainda afirma:
Ao adotarmos o paradigma de rede estamos pensando o
ambiente das interações, dos laços, da interconectividade, dos
nexos e das relações, que se opõem claramente àquele
apoiado em segmentações e disjunções.
Sob tais pespectivas, agenciamos a realização de uma oficina de
arte, buscando reforçar questões que dinamizem a inserção de
conteúdos artísticos tanto no ambiente de ensino-aprendizagem
quanto para a comunidade em geral. Ressaltamos que neste início
de "viagem", ao tempo em que planejamos e executamos esta
primeira oficina, também destacamos que uma série de outras
oficinas está em fase de planejamento para serem realizadas, ao
longo de 2010, em diferentes pontos da Baía de Todos os Santos.
Com o objetivo de apresentar o "Projeto Vera Cruz em retalhos"
para a comunidade escolar do município de Vera Cruz, em
novembro de 2009, apresentamos o projeto à Secretaria de
Educação do Município, obtendo apoio logístico no que tange ao
custeio de transporte, espaço físico e alimentação para os
participantes. Posteriormente, agendamos junto à prefeitura e ao
sindicato da categoria, e o projeto foi exposto a 200 professores dos
municípios de Vera Cruz e Itaparica, aos 12 de março de 2010
quando, na Escola Municipal Dáulia Angélica, cadastramos cerca de
120 interessados em integrar as oficinas (Figura 8). Solicitamos que
divulgassem o projeto nas comunidades onde lecionam. Nossa
proposta inicial, de aproveitarmos a potencialidade do professor
enquanto formador de opinião se concretizou: uma semana depois
recebemos mais 20 solicitações.
Figura 8 - Cadastramento para oficina.
Foto: Nicole Avillez.
Por meio de folder contendo informações pertinentes à realização
da oficina, cadastramos professores e demais interessados,
registrando os seguintes dados: nome, profissão, endereço,
telefones para contato, conforme a imagem ilustrada. É significativo
pontuar que após a análise dos respectivos dados, constatamos que
a maior parte das pessoas inscritas era composta de professoras da
rede municipal de Vera Cruz, contando também com merendeiras,
serventes, estudantes, donas de casa e artesãs.
Quadro 1 – Ficha de Cadastro
Nome Completo :
Sexo:
Profissão:
Endereço:
Cidade: Estado:
Telefone Residencial:
E-mail:
Este projeto propõe, assim, a realização de ações que contaminem,
se expandam, cresçam, tornem-se abrangentes e, por consequência
sejam capazes de refletir positivamente na comunidade. Trazemos
à tona também a imagem – "do peixe que cresce e contamina", o
que faz emergir um procedimento das práticas contemporâneas da
arte, que é a "contaminação". Isto acontece quando uma obra de
arte recebe a influência do seu entorno, mas também o agrega
como elemento estruturante. A vila do "peixe que contamina" com
veneno é, então, um mote inerente ao projeto, pois um dos nossos
objetivos é que a ação, iniciada na vila, aglomerando pessoas em
torno da prática artística, contamine outras comunidades e se
espalhe em outras regiões do Recôncavo baiano. As ações, na
utilização de materiais inseridos na realidade local foi o princípio
acolhido pelo Núcleo de Arte do BTS. Sob esta luz de reflexões,
traçamos os seguintes objetivos:
Geral
Realizar oficinas artísticas tendo como recurso a linguagem híbrida
a partir das poéticas do cotidiano, em interface com o conjunto de
caracteres próprios e exclusivos do entorno da comunidade escolhida, tendo a presença da "água-cidade" como referência de
"porto".
Específicos
a) Perceber o fazer como fonte inesgotável de possibilidades
matéricas para desenvolver o potencial criativo;
b) Propiciar a integração de professores e pessoas da comunidade,
tendo o processo criativo como meio;
c) Detectar a ocultação e o espelhamento da simbologia existente
em objetos da própria comunidade;
d) Propiciar o entrelaçamento da palavra e da imagem na
formatação de linguagem individual;
e) Criar possibilidades de reflexão sobre o processo criativo, a partir
da experiência artística pontuando três etapas: sensibilização,
construção e reflexão;
f ) Criar imagens referenciais sobre um suporte de lona, formatando
painéis que propiciem o diálogo entre os envolvidos e as temáticas
escolhidas;
g) Fornecer referências teóricas sobre as técnicas utilizadas, para
aperfeiçoamento das mesmas e sua aplicação nas escolas, quando
requisitadas;
h) Propiciar meios para que as técnicas utilizadas nas atividades
propostas sejam aproveitadas pela comunidade para a criação de
objetos concebidos a partir do entorno;
i) Buscar formas diferenciadas de expor os painéis junto às
comunidades e ao público em geral;
j) A partir dos objetivos propostos, surgiram os primeiros
questionamentos sobre os materiais mais adequados para serem utilizados nas oficinas:
k) Que suporte estaria coerente com os objetivos e conceitos
abordados, oferecendo, mobilidade, leveza, para que permitisse ser
trasportado, colado, costurado?
l) Que suporte poderia oferecer resistência para receber pigmentos,
corantes naturais e sucatas leves como conchas, búzios etc.?
m) Que outros materiais poderiam ser adquiridos para poderem
dialogar com matérias-primas colhidas em cada lugar?
n) Quais as ferramentas apropriadas para a realização do trabalho?
Sob estes questionamentos, fizemos uma relação de materiais e
chegamos à conclusão de que seria impossível decidirmos o
suporte sem também olharmos com atenção o entorno da região
onde a ação artística se realizaria. Assim, com o olhar atento,
percebemos os varais da ilha de Itaparica, com suas roupas
coloridas suspensas ao vento, ao ar livre, desta forma, colocando
esta imagem em posição de analogia à movimentação das velas e
traquetes usados nas canoas em Baiacu, que nos levaram a duas
decisões significativas em relação ao amadurecimento do projeto: a
primeira, de que haveria um subtítulo: "Vera Cruz em Retalhos"; e a
segunda, de que o suporte necessário à sustentação dos materiais
seria tecido, mais especificamente a lona de vela, confeccionada em
algodão cru e bastante resistente, por isto, utilizado na feitura de
velames de embarcações.
Uma vez especificado o material, passamos ao planejamento de
compra, idealizando que cada grupo de três a cinco pessoas
receberia um tecido de 1m x 1,50m para trabalhar. Foram
comprados 150m de lona para formarmos uma "ponte de criação"
aproveitando todos os painéis realizados ao longo das oficinas,
unindo, assim, tecidos, peculiaridades, histórias, vilas e territórios
distintos, que uma vez costurados, representariam a pluralidade
cultural existente na própria Baía de Todos os Santos.
Desta maneira, unidade e todo constituem o motivo para criar, já
que um dos nossos objetivos é fazer com que professores e
pessoas da comunidade trabalhem juntos e se tornem agentes
multiplicadores desta experiência, agentes de expansão do
conhecimento, seja atuando em sala de aula ou no próprio lugar
onde vivem. Assim, se multiplicarão tecido e conceito, visto que este
projeto visa a exatamente revelar – por intermédio da
concientização do processo criativo – OCULTAÇÕES existentes no
lugar de origem e refletir sobre possíveis ESPELHAMENTOS para
ações artísticas utilizando o potencial de cada localidade.
Porto 01: Baiacu
Processo criativo
A vivência da arte no processo de ensino aprendizagem abrange
ações que passam pela sensibilização, construção da obra e pela
reflexão, integrando diversos aspectos que devem ser abordados
por meio de conexões multidirecionais, com interpenetração de
conteúdos, ideias, percepções e práticas. O processo criativo pode
ser deflagrado através de estímulos de curiosidade, em situações de
estranhamento ou de identificação, criando um campo dinâmico de
aproximação e distanciamento, de pregnâncias reversíveis. Deve-se
também promover o estabelecimento de relações, causais ou não,
que incluam situações do campo da arte em diálogo com outras
instâncias do conhecimento, tomando como referência as imagens
do cotidiano e da experiência vivida pelos participantes. É
necessário incentivar a experimentar os materiais, a liberar a
imaginação criativa, colher informações, permitir o afloramento de
percepções que colaborem para construir o processo criativo na
atividade proposta.
Os objetivos a serem alcançados devem perpassar tanto pela área
do conhecimento específico em práticas artísticas como pela
experiência pessoal e coletiva do grupo. O resultado positivo do
trabalho depende também de ativar nos participantes sensações
inusitadas, ações como imaginar, criar, atentar, atenção às configurações culturais das proximidades, pesquisa de materiais
disponíveis e, principalmente, a construção de uma memória
simbólica.
A artista educadora Fayga Ostrower ressalta que nossa memória
não é factual, mas uma memória de "vida vivida", sempre com
novas interligações e configurações, aberta às associações, aos
desvios simbólicos. Expande-se para o imaginário compartilhado no
cotidiano, tomando as dimensões de uma memória também coletiva:
As intenções se estruturam junto com a memória. São
importantes para criá-lo. Nem sempre serão conscientes nem,
necessariamente, precisam equacionar-se com objetivos
imediatos. Fazem-se reconhecer, no curso das ações, como
uma espécie de guia aceitando ou rejeitando certas opções e
sugestões contidas no ambiente. Às vezes, descobrimos as
nossas intenções só depois de realizada a ação. (OSTROWER,
1987, p. 18)
A memória é facilmente invadida pela imaginação e pelo devaneio.
A impossibilidade de se estabelecerem fronteiras nítidas entre fatos
vividos, fatos lembrados, relatos e cenas que nos foram oferecidos
pelas diferentes situações experienciadas. Memória e tempo
incorporam-se numa só entidade, como uma narrativa híbrida de
ficção e realidade.
Figura 9 - Restinga em Baiacu.
Foto: Nicole Avillez.
Estabelece-se, assim, um trânsito de imagens deslocadas em
diversas direções, também formando uma tessitura imaginativa que
abriga signos e idiossincrasias que se movem no processo de
criação. Este, por sua vez, se configura em uma estrutura labiríntica,
na qual se perder faz parte do mesmo jogo de se achar e,
concomitantemente, encontrar o sentido do caminho que se tende a
explorar no processo de criação. Isto deve ser tão prazeroso para
quem vive o processo artístico quanto o êxtase de ver a obra
concluída e compartilhada.
Sob tais reflexões, a nossa meta principal era fazer com que cada
um vivenciasse o seu (próprio) tempo de criação e desenvolvesse
um produto artístico, de maneira que esta experiência viesse a
contribuir para um processo mais intenso, de percepção e
valorização do seu entorno, aproveitando materiais aplicáveis na
esfera pedagógica ou como mecanismo para criar possíveis
artefatos que propiciassem aumento do orçamento familiar.
Para promover um primeiro motivo perceptivo e iniciar o processo
de sensibilização, separamos os materiais disponíveis por cor,
textura, maleabilidade, propiciando contatos visual e táctil, numa
tentativa de fomentar aproximações com aspectos imagéticos,
próprios da vila de Baiacu. Todos experienciaram os objetos,
sentiram os tamanhos distintos, formas diversas, cores variadas,
percebendo os seus matizes, configurando na imaginação um
processo relacional com o universo das coisas existentes em sua
realidade cotidiana (Figuras 10, 11, 12 e 13).
Figuras 10 e 11 - Cotidiano em Baiacu.
Fotos: Gal Meirelles
Figuras 12 e 13 - Materiais para oficina.
Fotos: Gal Meirelles
Neste caso, a materialidade em jogo, ou seja, a dos objetos já
selecionados para integrarem a construção do processo artístico,
não é meramente física: refere-se a tudo que está sendo formado e
transformado. As materialidades no homem colocam-se num plano
simbólico, pois a matéria passa a ser entendida como realização de
potencialidades latentes, conforme o conceito é compreendido em
Fayga Ostrower (1987, p. 32, 34):
Trata-se de potencialidades da matéria bem como de
potencialidades nossas, pois na forma a ser dada configura-se
todo um relacionamento nosso com os meios e conosco
mesmo. [...]. Cada materialidade abrange de início, certas
possibilidades de ação e outras tantas impossibilidades. Se as
vemos como limitadoras para o curso criador, devem ser
reconhecidas também como orientadoras, pois dentro das
delimitações, através delas, é que surgem sugestões para se
prosseguir um trabalho e mesmo para se ampliá-lo em direções
novas.
Cecília Salles também afirma que existe uma interdependência
entre o artista e as matérias por ele selecionadas, sejam de
natureza física ou simbólica, já evidenciando intenções criativas,
tendências poéticas e construtivas posteriormente reveladas no
processo artístico. As matérias selecionadas, por sua vez, passam a
agir em função dessas tendências. Ao mesmo tempo, o
conhecimento das leis que regem o comportamento da matéria atua
na mesma tendência, concretizada no projeto poético do artista,
oferecendo possíveis adaptações diante das impossibilidades.
Em contato com os materiais expostos e a partir destas vertentes
reflexivas sobre procedimentos usados para despertar a
potencialidade criativa dos participantes da oficina (Figura 14),
passamos à escuta sensível do conto A moça tecelã, de Marina
Colasanti (Figura 15), observando a temática abordada na narrativa,
cuja personagem central é uma mulher que tece, constrói, sonha,
transforma, desconstrói. A narrativa não implicava necessariamente
a criação de imagens ilustrativas do trabalho proposto; em verdade,
o conto, inserido no contexto da oficina, visava a despertar reflexões
sobre o processo de criação artística, como um primeiro espasmo,
um fragmento de vida. Sabíamos que seria naturalmente associado
a imagens pessoais dos participantes e, consequentemente,
estabeleceria analogias com cores, texturas e materiais
experienciados.
Figura 14 - Oficina e processo criativo.
Foto: Gal Meirelles.
Figura 15 - Materiais para oficina.
Foto: Gal Meirelles.
A partir da escuta do conto, retomamos ainda o olhar sobre os
materiais que estavam expostos e fizemos algumas perguntas:
quais destes materiais e cores aparecem também no conto e
lembram as cores das águas do mar de Baiacu? Qual a cor mais
próxima do mangue de Baiacu? Qual é a cor que você mais gosta?
Onde você esconderia um segredo? Como você descreveria
Baiacu? Que objeto de Baiacu é mais forte para você? De que cor
ele é? De que matéria é feito?
Este foi um momento muito significativo da oficina, pois nos
aproximamos mais de cada integrante do grupo, uma vez que logo
após as perguntas, cada um volta-se à procura do objeto de referência e, a partir dele, reflete sobre as percepções
experimentadas no contato com os materiais, relacionando-os à
escuta do conto, apresentando-se enquanto agente ativo da
comunidade.
Arlinda, Gil, Maria, Nicole, Conceição, Viga, Jandira, Luzia, Marize ,
Giovana, Nívia, Gal, Rosana, Igor, Maise e Lara foram incentivadas
à verbalização, comentando de que maneira o conto de Colasanti
também refletia as ações, dos seus sonhos, dos receios e de suas
expectativas. Começaram, assim, a manipular estes materiais,
vivenciando esta primeira ação da oficina, em 14 de março de 2010,
realizada na Creche Municipal Vovô Nilzio.
Nesta etapa do processo, foi possível conhecer necessidades
pessoais no que diz respeito às possibilidades técnicas da
MATÉRIA que tinham em mãos, a carga do conteúdo simbólico que
traziam na MEMÓRIA, e o propósito CONCEITUAL suscitado
naquele instante. Nesta tríade, há a possibilidade de cada um
estabelecer, em "rede", as aproximações existentes com o meio
onde vive, bem como refletir sobre seus sonhos, desejos, planos ou
frustrações.
Assim, ressaltamos que, neste caso, as materialidades se
concretizam no plano das coisas e no plano simbólico, vez que
Bachelard coloca o indivíduo em posição de construtor em ação e
destaca o papel da imaginação:
A imaginação é um princípio de multiplicação dos atributos para a
intimidade das substâncias. É também vontade de ser mais, de
modo algum evasiva, mas pródiga, de modo algum contraditória,
mas ébria de oposição. A imagem é o ser que se diferencia para
estar certo de vir a ser. (BACHELARD, 2008, p. 21)
Em seguida, passamos a operacionalizar a construção da obra,
criando perguntas contextualizadas com o material recolhido pelo
grupo: qual o material que oferece essas características?
Dureza X fragilidade (seixos rolados, folhas, cipós);
Textura X superfície lisa (troncos de árvores, sementes, ostras,
mariscos);
Propriedades de colar (resinas de árvores, cartilagens de
animais, gema, CMC, clara de ovo, cera de abelha, PVC);
Propriedades de colorir ou pintar (corantes: plantas, raízes,
sementes, cascas de frutas, anilinas e pigmentos, terras);
Flexibilidade e mobilidade (bambu, arame);
Marcas e gravados (reprodutividade), gravura e fotografia;
Bordados e trançados (fibras vegetais e sintéticas);
Sucatas variadas (botões, retalhos, ligas, fitas, escamas,
mariscos, crustáceos);
Propriedades da própria lona da vela das canoas servir como
suporte.
Figuras 16, 17, 18, 19, 20, 21, 22 e 23 - Trabalhando os materiais.
Fotos: Gal Meirelles.
Em grupo, observamos os objetos trazidos pelos participantes e
destacamos os que tinham capacidade de tingir ou pintar, os que
poderiam se tornar sucatas leves ou receber ações como: pintar,
rasgar, queimar, costurar, moldar, bordar, furar, repetir, colar. Como
o espaço onde aconteceu a oficina era amplo, os participantes
puderam formar duplas e ocupar áreas onde a lona de algodão foi
esticada satisfatoriamente. Iniciaram-se as discussões e os
primeiros traços.
Um depoimento complementava o outro. Falaram das travessias,
das estradas, das águas, dos longos caminhos percorridos pelas
vendedoras de mariscos e pelas próprias professoras para
conseguirem se formar; falaram da coragem destas mulheres, da
sua força e esforço físico. Falaram da natureza misteriosa e do mar
que admiram e lhes desperta medo, ainda que seja a fonte de
riqueza. Falaram da destruição crescente da natureza, da poluição e
do descuido dos moradores da região. Falaram do preconceito
existente em relação aos habitantes de Baiacu, como se a
localidade não merecesse admiração. Falaram de autoestima.
Falaram do uso crescente de bebidas pelos jovens e da chegada
das drogas na região.
Incentivamos a liberdade de expressão, para instaurar suas ideias,
observando que, a partir da necessidade individual, seriam
ensinadas técnicas que posteriormente poderiam ser transmitidas
em sala de aula ou utilizadas, quando fosse o caso, na confecção
de artefatos. No decorrer da fatura das obras, quando se podem
vislumbrar as primeiras formas criativas, o grupo percebeu que
naquele momento se abria um mundo de possibilidades onde
poderiam degustar do prazer da construção poética, inerente ao ser
humano. Os olhos de todos brilharam. A professora Nívea frisava:
"fico já emocionada só de ver estas coisas arrumadas no chão [...]". À medida que as ações tomavam formas, inscritas nos primeiros
riscos, na escolha das primeiras cores aplicadas na superfície do
trabalho, na seleção dos primeiros materiais a serem utilizados, a
alegria aumentava... Neste clima descontraído, procurávamos
orientar cada uma dessas ações, com muito cuidado, no sentido de
fornecer informações sobre o uso das cores, o desenvolvimento das
diversas técnicas de pintura, questões relacionadas à estruturação
do trabalho e utilizações de fibras distintas. Aos poucos, cada um
descobria um universo possível, através da prática artística.
O repertório pessoal foi surgindo gradativamente – referências
visuais, vocabulários particulares, diferentes ritmos, habilidades
específicas – na busca de motivações internas e possíveis ligações
que deflagrassem a tensão criativa, a vontade de realização.
As imagens refletiam a vila e sua gente. Aos poucos, estas palavras
foram se agrupando em torno de uma construção mais detalhada,
realizada em dupla e, neste momento, os materiais começaram a
ser inseridos no painel. Usavam pincéis, cola, sucatas de
procedência têxtil e, junto, a vontade de realizar. Gradativamente,
começaram a experimentar cada objeto, ou acatar suas indicações.
Definiram, então, como o trabalho seria realizado, traçando o
esqueleto estrutural.
Nívea e Gilmária decidiram experimentar o recorte de tecidos, em
vários tons de azul, indicando a variação das cores do mar, que
foram colados, um a um, em matizes distintos, indicando zonas mais
profundas e outras a superfície. Outras texturas foram surgindo
através das cascas dos crustáceos e mariscos que aos poucos
começaram também a ser agregadas ao suporte, criando outros
ritmos (Figuras 24 e 25).
Figuras 24 e 25 - Explorando texturas e materiais.
Fotos: Gal Meireles.
Rosana e Arlinda definiram o desenho, utilizando o pigmento
aquarelado, observando as cores complementares presentes nas
blusas vermelhas que usavam, em contraste com os verdes que
surgiam em analogia à cor dos mangues de Baiacu (Figura 26). A
técnica de aquarela foi ensinada de uma forma bem simples,
umedecendo inicialmente o tecido e deixando os pigmentos se
mesclarem, formando infinitos matizes ao se encontrarem... verdes
azulados, amarelos esverdeados, azuis avioletados... A composição
refletia em imagem os caminhos percorridos por elas entre terra e
água para obterem o título de professoras. A sombra e a luz
indiciavam o tempo de luta e vitória, escassez e fartura vivido por
elas (Figuras 27 e 28).
Figura 26 - Mangue de Baiacu.
Fotos: Gal Meireles.
Figuras 27 e 28 - Explorando texturas e materiais.
Fotos: Gal Meireles.
Neste momento, noções de composição foram introduzidas.
Falamos da função dos elementos visuais na construção da forma.
Exemplificamos harmonias de cores primárias, secundárias e
terciárias, que geram analogias, contrastes e monocromias. Foram
enfatizadas as linhas verticais, diagonais e horizontais que
constituem ideias de crescimento, movimento e repouso (Figuras 29
e 30), os painéis foram dispostos ao sol para secar.
Figuras 29 e 30 - Processo criativo.
Fotos: Gal Meireles.
Aproveitando esta introdução do conceito de repouso, sentimos que
chegava a hora de fecharmos a atividade daquele dia e convidamos
a todos para repousarem as obras sobre o piso, e que caminhassem
entre elas as observando em silêncio. Cada um, no seu tempo,
sentou-se próximo ao seu trabalho e fizemos assim uma reflexão
coletiva sobre o processo vivido.
Falamos sobre as ideias preliminares da exposição final, as quais
seriam definidas no decorrer do projeto. Surgiram duas
possibilidades: a primeira, a de juntarmos os painéis de cada "porto"
formando uma grande "ponte" e apresentá-la em locais distintos da
Ilha; a segunda proposta seria apresentá-los fixados nas velas das
canoas e navegar em uma exposição marítima (Figura 31). A turma
ficou bastante animada com a ideia e se prontificou imediatamente a
colaborar.
Figura 31 - Exposição marítima.
Foto: Gal Meireles
Em seguida, comentamos sobre o significado de uma autoavaliação
e pedimos a cada um que relatasse a sua experiência, descrevendo
os aspectos mais contundentes da oficina e suas expectativas.
Consideramos pertinente destacar os pontos mais comentados:
(comentários ou indicações?)
a) levar o painel para casa e continuar trabalhando (inserindo
conchinhas, búzios, cascas de crustáceos, mariscos);
b) a solicitação de textos e livros que falassem das harmonias
cromáticas que havíamos apresentado;
c) profissionais que trabalhassem com o barro e papel
artesanal;
d) técnicas artísticas que pudessem ser aplicadas em sala de
aula.
Nestes processos vivenciados, percebemos o trânsito entre a
palavra e a imagem, entre as técnicas disponíveis e o inusitado,
entre professores e comunidade, como agentes importantes na
transmissão de conhecimento; desta mesma forma, a nossa ação
metodológica propiciou o movimento simultâneo de sensibilização,
criação e reflexão que se entrelaçaram e se misturaram.
O processo criativo foi contínuo, onde a imaginação, como nos
aponta Bachelard, se tornou o princípio de multiplicação dos
atributos para a intimidade das sustâncias, estabelecendo profícuas
"redes da criação".
As oficinas continuarão por outros "portos", unindo outros "retalhos",
encontrando outras "almas", como nos provoca o baiacu,
contaminando pessoas através de oficinas artísticas para que outros
tecidos se tornem "pontes" unindo arte e comunidade, criando
outras possibilidades de estabelecer travessias criativas, entre
espaço marítimo e espaço terrestre... (Figura 32).
Figura 32 - Espaço marítimo.
Foto: Gal Meireles.
Figura 33- Casa de pescador-Baiacu.
Foto: Nicole Avillez.
Referências
BACHELARD, Gaston. A terra e os devaneios da vontade: ensaio
sobre a imaginação das forças. São Paulo: Martins Fontes, 2008.
FRANZ, Teresinha Sueli. Educação para uma compreensão crítica
da arte. Florianópolis: Letras Contemporâneas, 2003.
FUSARI, M. F. de Rezende; FERRAZ, M. H. C. Arte na educação
escolar. São Paulo: Cortez, 1992.
GORDILHO, Viga. Cantos contos contas: uma trama às águas como
lugar de passagem. Salvador: P555 Edições, 2004.
OSÓRIO, Ubaldo. A ilha de Itaparica: história e tradição. 4. ed.
Salvador: Fundação Cultural do. Estado da Bahia, 1979.
OSTROWER, Fayga. Criatividade e processos de criação.
Petrópolis, RJ: Vozes, 1987.
OSTROWER, Fayga. Universos da arte. Rio de Janeiro: Campos,
1991.
RIBEIRO, João Ubaldo.Viva o povo brasileiro. Rio de Janeiro:
Objetiva, 2007.
SALES, Cecília de Almeida. Redes de criação: construção da obra
de arte. São Paulo: Horizonte, 2006.
SALES, Cecília. Gesto inacabado: processo de criação artística.
São Paulo: FAPESB: Annablume,1998.
RISÉRIO, Antonio. Uma história da cidade da Bahia. 2. ed. Rio de
Janeiro: Versal, 2004.
1 Lenda indígena dos primórdios do povoamento, registrada no livro
Cantos Contos Contas. Uma trama às Águas como lugar de
passagem. (GORDILHO, 2004, p. 17)
2 O grupo de pesquisa MAtéria, MEmória e conceiTO (MAMETO)
em poéticas visuais contemporâneas, certificado pelo CNPq. O
nome mameto (banto) significa pessoas importantes na hierarquia
religiosa congo-angola, também conhecidos como MACOTA. Sob
estes significados, o grupo atua na pesquisa prático-teórica da
matéria em trânsito com a memória, na busca de definição de
conceitos como elementos inerentes ao processo criativo, formado
por doutores, doutorandos, mestres, mestrando e bolsistas PIBIC.