Baía de Todos os Santos: aspectos humanos

Carlos Caroso · Capítulo 10 de 23

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Baía de Todos os Santos: aspectos humanos

Eixo II – Economia, infraestrutura, transporte e desenvolvimento

Eixo II – Economia,

 

infraestrutura, transporte e

 

desenvolvimento

A contribuição da Baía de Todos

 

os Santos no desenvolvimento

 

da economia regional

 

Sérgio Fraga Santos Faria

 

Introdução

 

A Baía de Todos os Santos, seja pela sua magnitude, seja pela

riqueza de seus detalhes, comporta a análise e o estudo criterioso

de diversos aspectos, inclusive aspectos relacionados com a

economia, infraestrutura, transporte e desenvolvimento regional. Por

ocasião do V Congresso de História da Bahia (2004), o trabalho

intitulado A atividade portuária na Baía de Todos os Santos (FARIA,

2004a) permitiu uma análise do transporte de cargas na BTS,

relacionando as principais instalações à época existentes e situando

o debate diante das transformações trazidas pela Lei nº 8.630/93,

marco formal do processo de modernização dos portos brasileiros.

Propõe-se, agora, a atualização e o aprofundamento do tema, de

forma a apresentar o monitoramento da evolução da atividade

portuária nesse importante acidente geográfico e sua contribuição

para o desenvolvimento da economia regional.

 

Bahia: aspectos e conômicos

 

Com uma população de 14,6 milhões de habitantes e uma renda per

capita de R$ 7.500,00 (2009), a Bahia responde por 36% do total da

riqueza produzida na Região Nordeste e tem sua economia

alicerçada, sobretudo, no setor de serviços, liderado pelo turismo. A

partir da segunda metade do século XX, o setor industrial também

vem crescendo, notadamente após a implantação do Polo

Petroquímico de Camaçari, no início da década de 70. Em 1999,

com a decisão da implantação da fábrica da Ford Motor Company Brasil Ltda. em Camaçari, na Região Metropolitana de Salvador,

iniciou-se uma nova etapa para a industrialização baiana. Vale

ressaltar, também, a importância da atividade agropecuária, com

destaque para o crescimento acelerado da produção de grãos no

Oeste do Estado.

 

A Baía de Todos os Santos

 

Segundo uma lenda indígena, registrada pelos cronistas dos

primórdios do povoamento, a Baía de Todos os Santos e os

seus recôncavos nasceram assim: no começo do mundo, uma

pomba muito grande e muito branca, partindo de algum ponto

do infinito, veio voando, voando, até que, exausta da longa

jornada, caiu morta no litoral daquela terra que seria o Brasil.

Suas alvas e longas asas, abertas no solo, transformaram-se

nas praias da Bahia – e, no lugar onde o coração bateu na

terra, abriu-se imensa e profunda brecha que as águas do mar

preencheram, formando a Baía de Todos os Santos, cujas

margens soberbas foram fecundadas pelo sangue da ave

legendária, sangue que hoje ainda jorra, já enegrecido pelo

tempo, quando as sondas perfuram as entranhas do

Recôncavo. (PINTO, 1958, p. 27)

 

Não há como se compreender a história dos transportes na Bahia,

em particular, ou mesmo a história da Bahia, em geral, sem a noção

exata da influência da Baía de Todos os Santos no processo de

formação socioeconômica e cultural do Estado, notadamente da

Cidade do Salvador.

 

Inicialmente, havia apenas a Kirimurê dos Tupinambás, que, em 1º

de novembro do ano de 1501, viria a ser batizada de Baía de Todos

os Santos pelo seu descobridor, o navegador florentino Américo

Vespúcio. Verdadeira dádiva da natureza, com uma área de 110

milhas quadradas, navegável na maior parte da sua extensão, este

acidente geográfico foi determinante para o desenvolvimento de um

processo de internacionalização da Bahia a partir da cidade e do

porto de Salvador, que, sendo o primeiro porto brasileiro e principal porto do império ultramarino português no final do século XVIII, se

constituiu em um grande elo de ligação direta com a Europa e com

outras culturas, inclusive a cultura negra de origem africana.

 

Desde os tempos iniciais, portanto, as facilidades de natureza

geográfica foram exploradas e a atividade portuária local foi sempre

marcante. A identificação de terreno favorável para a produção

açucareira na região do Recôncavo Baiano, por sua vez, ofereceu

novo impulso ao desenvolvimento econômico da Cidade do

Salvador e de toda a região situada no entorno da Baía de Todos os

Santos. Durante o ciclo do açúcar, também se desenvolveram

outras culturas, a exemplo do fumo, pecuária, café e algodão, e a

diversificação das atividades produtivas, aliada à implantação da

navegação a vapor, fortaleceu ainda mais o fluxo de embarcações e

a integração do modal aquaviário com a malha terrestre, inclusive

com as linhas ferroviárias surgidas no período compreendido entre o

final do século XIX e as três primeiras décadas do século XX. A

partir da segunda metade do século XX, verifica-se, nitidamente, o

processo de organização da atividade portuária, com a identificação

formal das instalações destinadas a este propósito.

 

Atualmente, sete portos estão em funcionamento na Baía de Todos

os Santos, totalizando uma movimentação em torno de 35 milhões

de toneladas por ano. Destes, dois são portos públicos (Salvador e

Aratu), enquanto que cinco são instalações portuárias de uso

privativo (art. 4 da Lei 8.630/93): Usiba (Gerdau), Temadre

(Petrobras), Dow Química, Terminal Portuário Miguel de Oliveira

(Ford) e o Terminal Portuário Cotegipe (Moinho Dias Branco).

 

O processo de localização dos portos

 

Estudos científicos sugerem que o homem primitivo tenha

enfrentado dificuldades para transpor a barreira das águas, mas não

se há de negar que, vencidos os primeiros obstáculos, o meio

líquido passou a ser o mais importante agente de contacto entre os

povos, tornando-se a base para as interações culturais e o

intercâmbio comercial em todo o mundo.

No primeiro momento, a localização dos portos buscou a

identificação de regiões naturalmente protegidas (baías, estuários

etc.), consolidando os critérios clássicos da engenharia portuária

que primam pelo aproveitamento dos acidentes geográficos na

busca de condicionantes favoráveis: acesso fácil, abrigo,

profundidade, amplidão, boa tença e margens planas. (CARVALHO,

1930)

 

Em consequência, as concentrações urbanas se desenvolveram nas

proximidades do espaço portuário, dando origem a um processo de

troca, em que a cidade cresceu pela presença do porto como

elemento de ligação entre as civilizações e este cresceu para

atender à demanda da população que se fixou no seu entorno.

 

A violenta aceleração do movimento de urbanização, entretanto,

sentenciou o confinamento dos portos a áreas restritas, dificultando

a necessária adaptação às exigências decorrentes da evolução

histórica das técnicas de manuseio de carga. Tal conflito se

evidenciou ainda mais a partir da Segunda Grande Guerra Mundial,

quando se consolidou a especialização do transporte marítimo.

 

O estrangulamento da área portuária pelo crescimento das cidades,

o aumento do porte das embarcações – cujo acesso se faz difícil

nas regiões naturalmente protegidas – e, por sua vez, o surgimento

de novas e revolucionárias técnicas de operação, impondo a

disponibilização de espaço amplo – seja para armazenagem de

novos tipos de cargas, seja para abrigar a utilização de

equipamentos de tecnologia avançada que atuam na faixa de

movimentação – transformaram-se em reais obstáculos para a

continuidade da função operacional nos limites dos centros urbanos.

 

Os portos brasileiros no contexto da economia

 

mundial

 

A caracterização do atual cenário econômico mundial revela a

necessidade imperiosa de intensificação das relações no mercado

internacional e, nesta ordem de ideias, a existência de portos modernos e eficientes é condição necessária para a sobrevivência

em um mercado amplo e, cada vez mais, competitivo.

 

O desfecho da Segunda Guerra Mundial e o período da Guerra Fria

 

Como particularidade da Segunda Grande Guerra, há de se notar a

composição de forças ideologicamente antagônicas no propósito

maior de combater a expansão do nazifascismo. Encerrada a

guerra, com o trágico desfecho dos episódios de Hiroshima e

Nagasaki1, as tropas aliadas dividiram o mundo em dois grandes

blocos econômicos: o mundo capitalista e o mundo socialista,

liderados, respectivamente, pelos EUA e pela hoje extinta

URSS.2 Iniciou-se, então, o período da Guerra Fria, em que, dentro

de cada um dos blocos, a economia se desenvolveu alicerçada em

mecanismos artificiais e as relações de troca se estabeleceram com

base em subsídios e incentivos, marcadas, essencialmente, pelo

protecionismo econômico.

 

Pouco a pouco, entretanto, as diferenças entre os dois sistemas

foram se dissipando. De um lado, o capitalismo selvagem, que

permitiu surgimento das teorias marxistas, passou a incorporar

preocupações sociais, aceitando determinados limites que

restringiram a exploração do homem pelo capital. Por outro lado, as

experiências socialistas não alcançaram os objetivos teóricos em

sua plenitude, expondo a fragilidade da utopia de um mundo

igualitário. Era o início do arrefecimento das tensões da Guerra Fria,

cujo desfecho teve como marco histórico a queda do muro de Berlim

e a reunificação das alemanhas, no final da década de oitenta.

 

Globalização econômica e mercado competitivo

 

As duas últimas décadas do século XX constituíram um período

completamente inovador, marcado, fundamentalmente, pela

formação de um mercado único e, cada vez mais, competitivo,

caracterizando o cenário que se convencionou denominar

"economia globalizada", cujas consequências de natureza social e

econômica ainda não foram avaliadas em toda a sua complexidade. O fim da Guerra Fria e o extraordinário desenvolvimento tecnológico

dos transportes e das telecomunicações inauguraram uma nova era,

no que se refere às relações de comércio internacional,

caracterizada pela queda das barreiras de natureza política e

eliminação progressiva das reservas de mercado, elevando

qualidade e custo final à condição de variáveis essenciais no

intercâmbio entre produção e consumo do mundo moderno.

 

A importância da logística como diferencial no mercado competitivo

 

Neste cenário, de busca incessante pela redução dos custos e

ampliação do mercado, o marketing e a logística assumiram um

papel de maior relevância e ganharam valorização crescente nos

meios acadêmico e empresarial.

 

Com relação à logística e aos transportes – entendida a atividade de

transportes em sua visão mais ampla como extensão da atividade

de produção – planejar e coordenar o fluxo de insumos e materiais

dentro de toda a cadeia de produção passou a ser condição

necessária na luta pela sobrevivência em um mercado aberto e

competitivo. Tornou-se, pois, essencial, a aproximação dos centros

de produção e consumo, através do emprego de técnicas racionais

de planejamento e controle de custos.

 

Os recursos de logística, antes de aplicação restrita às operações

militares, passaram a ser largamente utilizados dentro do meio

produtivo, dando lugar ao desenvolvimento de uma nova área de

conhecimento, a logística empresarial.

 

A situação brasileira e o papel dos portos no crescimento econômico

 

As relações de comércio internacional, entretanto, estão

alicerçadas, necessariamente, no funcionamento do setor

aquaviário, o que se justifica, plenamente, considerando as

particularidades desta modalidade de transporte, capaz de combinar

grande volume de carga com baixo consumo de energia por

tonelada. Assim, há de se notar que a globalização econômica

provocou profundas alterações no segmento portuário e, em todo o mundo desenvolvido, teve início um amplo e acelerado processo de

modernização dos portos, cujo objetivo maior foi o aumento da

eficiência e a redução drástica dos custos na prestação dos serviços

portuários.

 

A situação brasileira não se diferencia, antes, porém, recomenda,

com ênfase ainda maior, a modernização dos seus portos para

inserção definitiva do País no novo cenário de economia global e

mercado competitivo, tendo em vista as particularidades de um país

com 8.500.000 km2 de área, 7.500 km de costa e a inexistência de

fronteiras terrestres com seus principais parceiros comerciais.

 

Embora seja o Brasil um país cuja matriz interna de divisão modal

revela enorme distorção, com uma participação acentuada do

transporte rodoviário (cerca de 65%), vale lembrar que 95% do fluxo

de cargas relacionadas como o mercado internacional entram ou

saem do País através dos portos, o que condiciona o

desenvolvimento econômico à existência de instalações portuárias

ágeis e eficientes, sob pena de perda de competitividade no

mercado internacional.

 

O histórico da formação do sistema portuário brasileiro

 

Os portos brasileiros, embora com origem no setor privado, foram

sempre uma atividade monopolista, e, durante o período militar 3,

foram federalizados sob o argumento de serem um assunto de

segurança nacional, inaugurando-se um modelo de gestão em que

as decisões relativas à criação de novos portos e/ou a destinação

de investimentos para os portos existentes passaram a se basear

em critérios de natureza política em detrimento dos critérios

técnicos.

 

A destinação dos investimentos com base em interesses políticos

deu lugar ao surgimento de um conjunto numeroso de pequenos

portos, muitas vezes localizados em pontos de reduzida expressão

econômica, que, entretanto, pela influência política local, terminaram

desviando recursos que deveriam atender às necessidades dos

portos de localização mais estratégica.

A título de ilustração, poder-se-ia traçar um paralelo da realidade

brasileira com a história da descentralização econômica dos portos

norte-americanos. Até o início da década de sessenta, New York foi

o porto de maior movimentação de carga no mundo, situação essa

que começou a mudar a partir do momento em que os Estados

Unidos perceberam que, sendo um país com dimensões

continentais e dispondo de saídas estratégicas pela costa leste,

costa oeste e golfo do México, seria pouco inteligente insistir na

concentração de suas atividades portuárias. Assim, investiram

maciçamente no projeto de descentralização dos seus portos,

criando novas alternativas. New York perdeu a supremacia mundial

à época para o porto de Roterdã, na Holanda, mas os norte-

americanos conseguiram montar um dos mais modernos e

eficientes complexos portuários do mundo e, hoje, além de New

York, dispõem de diversas alternativas de reconhecida importância,

a exemplo de South Lousiana, Long Beach, Houston, Los Angeles,

dentre outros.

 

Observe-se que, enquanto nos Estados Unidos a descentralização

se deu para atender a uma estratégia econômica, no Brasil houve a

completa pulverização do sistema a partir de uma distorção política.

Aqui, sem dispor dos recursos necessários, ainda se convive com a

realidade de um conjunto numeroso de portos, que, criados pela

imposição da influência político-partidária, reclamam os

investimentos mais elementares.

 

A Lei 8.630 e a modernização dos portos brasileiros

 

A Lei 8.630, de 25 de fevereiro de 1993, pode ser entendida como

marco formal do processo de modernização dos portos brasileiros.

O texto dessa lei, vulgarmente conhecida como "lei de

modernização dos portos", se constitui, inegavelmente, em

significativo avanço: foram eliminados privilégios corporativos que já

se haviam cristalizado em meio a uma legislação ultrapassada;

estabelecidas novas regras no campo das relações entre capital e

trabalho e criadas as condições preliminares para a abertura a uma

maior participação do setor privado na atividade portuária. Entretanto, faltou à sociedade brasileira – e aqui cabe uma cota de

responsabilidade maior ao governo federal – a visão exata de que

as transformações no campo institucional, embora sejam

necessárias (poder-se-ia dizer até prioritárias), não são, em

absoluto, suficientes para que se alcance a tão almejada

modernização dos portos brasileiros.

 

Anos e anos de centralização do processo de tomada de decisão,

com a nítida prevalência dos critérios de natureza política em

detrimento dos argumentos técnicos e econômicos, resultaram na

obsolescência do parque portuário nacional, que, embora numeroso,

revela-se completamente desaparelhado. A reversão desse quadro

de abandono impõe a realização de investimentos de grande porte,

seja para a implantação de obras de engenharia moderna

(dragagem, derrocagem, acessos terrestres, expansão da retroárea

etc.), seja para a atualização tecnológica dos equipamentos

portuários, completamente obsoletos e inadequados para

atendimento aos padrões internacionais de performance

operacional.

 

Os portos públicos da Baía de Todos os Santos

 

De acordo com o texto da Lei nº 8.630/93, o porto organizado é todo

aquele construído e aparelhado para atender às necessidades da

navegação e da movimentação e armazenagem de mercadorias,

concedido ou explorado pela União, cujo tráfego e operações

portuárias estejam sob a jurisdição de uma autoridade portuária.

 

Na Bahia, a Cia das Docas do Estado da Bahia (Codeba), empresa

de economia mista, controlada pelo governo federal através da

Secretaria Especial de Portos (SEP), exerce a autoridade portuária

e responde pela administração dos portos públicos de Ilhéus,

Salvador e Aratu, estes dois últimos integrantes do Complexo

Portuário da Baía de Todos os Santos.

 

O Porto de Salvador e o processo de contêinerização de cargas Desde o século XVI, Salvador funcionou como importante polo de

ligação da Colônia com Portugal e suas possessões ultramarinas,

permanecendo nesta condição mesmo após a transferência da

capital para o Rio de Janeiro, no ano de 1763. Durante mais de 400

anos, entretanto, o porto de Salvador valeu-se, tão somente, das

condições naturais favoráveis oferecidas pela Baía de Todos os

Santos, vindo a se tornar porto organizado somente a partir do início

do século XX. O primeiro trecho do Cais da Alfândega foi concluído

no ano de 1913, então sob a responsabilidade da Companhia

Cessionária das Docas do Porto da Bahia. De 1971 a 1977, o porto

de Salvador esteve sob a intervenção do governo federal e,

atualmente, integra o complexo portuário administrado pela Codeba.

 

Figura 1 – Operações com contêineres no porto de Salvador.

 

Fonte: Berger e Berger (2009).

 

Localizado na Baía de Todos os Santos, defronte à ilha de Itaparica,

no centro da capital baiana, o porto de Salvador possui 2.092

metros de instalações acostáveis, num traçado de cais linear, com

12 berços de atracação e 9 armazéns de carga. Encurralado pelo

crescimento da cidade, o porto de Salvador, a exemplo do que

ocorre em todo o mundo com os portos mais antigos situados em regiões urbanas, enfrenta sérios problemas de acesso por terra e

disponibilidade de retroárea para expansão futura.

 

A análise da evolução histórica da movimentação de cargas no

porto de Salvador, ainda que confirme certa estagnação, revela, por

outro lado, forte tendência para o crescimento das cargas

contêinerizadas, daí o destaque para as instalações do terminal de

contêineres, situado na área mais moderna do porto, onde se deu a

expansão com o cais de Água de Meninos. Este trecho, que

apresenta condições operacionais bem mais adequadas, com 12

metros de profundidade e ampla retroárea, foi objeto de licitação

pública para arrendamento nos termos do que preceitua a Lei nº

8.630/93 e, desde março de 2000, vem sendo explorado pela

empresa Tecon Salvador S.A.

 

Atualmente, o grande debate relacionado com o porto de Salvador

concentra-se na necessidade de expansão da capacidade de

movimentação de carga em contêineres e, neste sentido, duas

hipóteses se apresentam: o aditamento do atual contrato de

arrendamento ou a abertura de novo processo licitatório para a

instalação de um segundo terminal.

 

O Porto de Aratu e o desenvolvimento industrial do Estado

 

A ideia inicial da construção de um porto para apoiar o

desenvolvimento industrial da Bahia surgiu em meados da década

de 60, quando da implantação do Centro Industrial de Aratu (CIA).

 

No primeiro momento, o Estado da Bahia arcou com a

responsabilidade pelas obras de construção do Porto de Aratu,

sendo que, em 1977, com a constituição da Codeba, o governo

federal assumiu sua administração, uma vez que as instalações

existentes foram incorporadas ao patrimônio da nova empresa e o

governo do Estado passou a integrar a sociedade, na condição de

acionista minoritário.

 

Naturalmente protegido, Aratu está localizado na Enseada do

Caboto, município de Candeias, a 50 km de Salvador. Graneleiro por excelência, sua estrutura compõe-se de três terminais

específicos de carga: o Terminal de Produtos Gasosos (TPG), o

Terminal de Granéis Líquidos (TGL) e o Terminal de Granéis Sólidos

(TGS). Em todo o porto a profundidade máxima é de 12 metros

(39,37 pés) e as estruturas de acostagem são do tipo píer com

ponte de acesso em concreto armado.

 

Figura 2 – Porto de Aratu.

 

Fonte: Berger e Berger (2009).

 

O TPG dispõe de um píer e um berço único de atracação, com

capacidade para navios de até 90.000 tpb 4 e 200 metros de

comprimento total. Duas empresas distintas operam o terminal: o

Terminal de Gases (Tegal), com um parque de tancagem com

capacidade para 44.600 m³, onde são operados, dentre outros

produtos, propeno, butadieno, mvc, eteno e buteno; e a

Petrobras/Fafen (antiga Nitrofértil), com capacidade para tancagem

de 30.000 m³ de amônia.

 

O TGL possui um píer que dá lugar a dois berços de atracação: o

berço sul, ou berço nº 201, com capacidade para navios de até

35.000 tpb e 170 metros de comprimento total; e o berço norte, ou berço nº 202, com maior taxa de utilização, oferecendo capacidade

para receber navios de até 40.000 tpb e 220 metros de comprimento

total. A exemplo do que ocorre no TPG, duas empresas estão

instaladas para a execução das operações de carregamento e/ou

descarregamento dos navios e tancagem dos produtos: o Terminal

Químico de Aratu (Tequimar), com 70 tanques, totalizando 131.600

m³ de capacidade de tancagem; e a Vopak, com um parque de

tancagem composto de 47 tanques e 64.298 m³ de capacidade total.

O TGL ocupa papel de grande relevância no cenário industrial do

Estado, funcionando como elemento fundamental para o

escoamento de produtos finais e intermediários do Polo

Petroquímico de Camaçari.

 

O TGS, por sua vez, representa a porta de entrada de insumos

básicos para diversas indústrias do Centro Industrial de Aratu e do

Polo Petroquímico, tais como Caraíba Metais (concentrado de

cobre), Alcan (alumina) e Sibra (manganês). O TGS também recebe

fertilizantes diversos, enxofre, coque metalúrgico, coque de petróleo,

rocha fosfáltica e concentrado de chumbo, além de realizar o

embarque de magnesita. A estrutura é composta de dois píeres em

concreto armado, com um total de três berços de atracação. O píer I

possui dois berços de atracação: o berço sul, ou berço nº 101, onde

prevalece a operação de importação, embora equipado para

movimentação nos dois sentidos; e o berço norte, ou berço nº 102,

exclusivo para operações de embarque. Através de um complexo

sistema de correias transportadoras, as instalações de acostagem

do píer I estão interligadas com um pátio descoberto de uso comum,

além de instalações particulares (o silo vertical da Alcan e os

armazéns da Petrobras/Fafen, Caraíba Metais e Magnesita). O píer

II, embora fisicamente concluído no início da década de 90, ainda

não dispõe dos equipamentos definitivos e opera de forma precária,

sem atingir índices de performance operacional compatíveis com os

obtidos no píer I.

 

Com a recente descoberta de jazidas de minério em território

baiano, Aratu se apresenta como uma alternativa concreta para

escoamento da produção. Entretanto, face à necessidade de novos investimentos, a grande expectativa recai sobre a abertura de

processos licitatórios para arrendamento do TGS, oferecendo,

assim, a oportunidade de maior participação da iniciativa privada no

processo de ampliação e de modernização das instalações deste

importante vetor de desenvolvimento para o Estado da Bahia.

 

Instalações portuárias de uso privativo

 

A Lei n º 8.630/93 define instalação portuária de uso privativo como

sendo aquela explorada por pessoas jurídicas de direito público ou

privado, dentro ou fora da área do porto organizado, utilizada na

movimentação e ou armazenagem de mercadorias destinadas ou

provenientes de transporte aquaviário. A mesma lei apresenta duas

classificações distintas para instalações portuárias de uso privativo,

quais sejam: instalações portuárias de uso privativo exclusivo,

destinadas tão somente à movimentação de carga própria; e

instalações portuárias de uso privativo misto, para movimentação de

cargas próprias e de terceiros.

 

No período histórico imediatamente anterior à Lei nº 8.630/93 os

terminais privativos estavam jurisdicionados aos portos públicos

vizinhos, obrigando-se ao recolhimento de tarifas relativas à

"utilização do porto" e movimentação "fora do cais", bem como

estavam impedidos para a movimentação de cargas de terceiros.

Sendo assim, parece razoável admitir que uma das mais

importantes transformações surgidas a partir da nova legislação foi

justamente a desvinculação dos terminais em relação aos portos

públicos e a possibilidade de movimentação de carga de terceiros,

elevando-os, portanto, à condição de potenciais concorrentes dos

portos públicos.

 

No caso específico do Estado da Bahia, entretanto, considerando o

alto grau de especialização dos terminais privativos instalados na

Baía de Todos os Santos, as inovações geradas pela Lei nº

8.630/93, ao contrário do que se verificou em outros estados, não

trouxeram, no primeiro momento, maiores consequências práticas em termos de estabelecimento de um ambiente competitivo com os

portos públicos.

 

O Temadre

 

O Terminal Aquaviário de Madre de Deus, o Temadre, explorado

pela Petrobras, foi construído em 1957 e destina-se à

movimentação de combustíveis líquidos e gasosos e ao escoamento

da produção da Refinaria de Mataripe (RLAM) para abastecimento

das regiões norte e nordeste do País.

 

O terminal está localizado na ponta sul da ilha de Madre de Deus,

em posição frontal às ilhas do Frade e de Bom Jesus, no lado

nordeste da Baía de Todos os Santos, a cerca de 16 milhas do porto

de Salvador.

 

Sendo o porto de maior movimentação de carga no Estado, com

demanda superior a 50 embarcações por mês e uma movimentação

anual da ordem de 15 milhões de toneladas, o Temadre dispõe de

instalações de acostagem para atracação simultânea de até cinco

navios, com um dos berços destinado apenas a embarcações de

menor porte. As características das instalações variam em função

do berço de atracação, sendo permitida, nos berços PP1, PP2 e

PP4, a atracação de navios com comprimento máximo de 275

metros e 120.000 tpb, enquanto que a profundidade varia de 8,30

metros, no berço PS1, até 22 metros, no berço PP4.

 

O terminal da Usiba

 

Em 1972, por iniciativa da extinta Siderbrás, à época empresa

holding do sistema siderúrgico brasileiro, entrou em operação mais

uma importante instalação portuária situada nos limites da Baía de

Todos os Santos.

 

Localizado na Ponta da Sapoca, distrito de São Tomé de Paripe,

município de Salvador, o Terminal da Usina Siderúrgica da Bahia

(Usiba), que, a partir da década de 90, como consequência direta do

processo de privatização do setor siderúrgico, passou a ser controlado pelo grupo Gerdau, é uma instalação exclusiva para

movimentação de granéis sólidos, estando voltado, especificamente,

para o recebimento de matéria-prima utilizada na fabricação do aço

industrial (minério de ferro bruto ou pelotizado e sucata de ferro

prensada).

 

Resultado de vultosa obra de aterro, o porto possui instalações de

acostagem em concreto armado do tipo píer com ponte de acesso,

com plataforma de operação de 40 metros de comprimento, quatro

dolfins e quatro boias de amarração. Dispõe de profundidade livre

de 10,10 m (33,13 pés) e tem capacidade para receber

embarcações com as seguintes dimensões: 45.000 tpb, 230 m de

comprimento total, 32,5 m de boca, com restrição para manobras de

atracação apenas no período diurno.

 

O equipamento disponível é bastante limitado e há necessidade de

deslocamento do navio para as operações de mudança de porão

durante o descarregamento, o que representa significativo atraso no

tempo de descarga dos navios, comprometendo a produtividade

operacional. Outra grande limitação apresentada pelo terminal da

Usiba decorre da sua localização dentro da área do subúrbio de

Salvador. O escoamento das cargas é feito através de caminhões

que, por sua vez, transitam por dentro da área urbana, com

inúmeros transtornos para a comunidade vizinha ao porto. Esta

particularidade, inclusive, sentenciou a redução do horário de saída

de carga, restringindo, significativamente, a capacidade de operação

do porto.

 

O terminal da Dow Química

 

O terminal da Dow Química S/A está localizado na margem norte do

canal de Cotegipe, entre as pontas Matanga e da Laje, em frente à

ponta do Fernandinho. O porto compõe as instalações da Dow no

município de Candeias, que, tendo entrado em operação em 1977,

representa hoje o segundo maior complexo industrial do grupo no

Brasil, abrigando as fábricas de soda cáustica, óxido de propeno,

propilenoglicol e solventes clorados.

Voltado exclusivamente para a movimentação de produtos químicos,

o terminal é formado por um píer com ponte de acesso e um único

berço de atracação com profundidade máxima de 11 metros e

capacidade para receber navios de até 40.000 tpb e 180 metros de

comprimento total.

 

Figura 3 – Terminal da Dow Química.

 

Fonte: Berger e Berger (2009).

 

O terminal da Ford

 

O Terminal Portuário Miguel de Oliveira está localizado na margem

esquerda no sentido de quem entra no canal de Cotegipe, município

de Candeias/BA, mais precisamente na localidade denominada

"Ponta da Laje", interior da baía de Aratu, entre o Porto de Aratu e o

Terminal da Dow Química.

 

As instalações comportam um píer de 190 metros de comprimento

por 27 metros de largura, profundidade de 11metros, além de um

pátio com capacidade para estocagem de 6.054 unidades.

 

Em atividade desde 2005, o TPMO é o único porto inteiramente

privado da Ford Motor Company em todo o mundo e é considerado

uma referência em termos de eficiência e produtividade para terminais especializados na movimentação de veículos através do

sistema roll-on-roll-off (performance média de 180 a 200

unidades/hora).

 

Figura 4 – Terminal Portuário Miguel de Oliveira (Ford), tendo ao

fundo a entrada do canal de Cotegipe, onde se pode visualizar a

Base Naval de Aratu e o Terminal de Produtos Gasosos do Porto de

Aratu.

 

Fonte: Berger e Berger (2009).

 

A movimentação é da ordem de 140 mil unidades/ano e contempla

tanto a importação (todo o fluxo de importação da montadora no

Brasil) como o fluxo de exportação dos veículos produzidos na

unidade da Ford em Camaçari/BA.

 

O Terminal Portuário Cotegipe

 

Situado no município de Salvador, no local conhecido como Ponta

do Fernandinho, na margem direita no sentido de quem entra no

canal de Cotegipe, o Terminal Portuário Cotegipe é uma instalação

portuária de uso privativo misto que integra o complexo industrial do

Grupo M Dias Branco.

Com 230.000 m² de retroárea e dotado de modernos equipamentos,

possui instalações direcionadas para a movimentação de grãos,

notadamente a importação de trigo a granel e a exportação de soja

e farelo de soja. Entrou em operação no ano de 2005 e, desde

então, vem apresentando excepcional crescimento na

movimentação, hoje já consolidado como o principal porto para

escoamento da produção de grãos do oeste baiano (em 2009,

atingiu movimentação da ordem de 2,4 milhões de toneladas).

 

O Terminal Portuário Cotegipe oferece as seguintes facilidades para

seus usuários:

 

Retroárea de 210 mil m2;

Profundidade de 14 metros;

Capacidade para recepção de navios com até 75 mil Tpb;

Projeto modular com três berços de atracação (atualmente,

opera dois berços, com comprimento total de 520 metros);

Sistema de recepção de carga formado por 5 tombadores

rodoviários, com capacidade para 1.000 toneladas/hora;

Sistema de exportação formado por um complexo de correias

transportadoras, balança de fluxo e ship-loader com capacidade

para 2.000 toneladas/ hora;

Sistema de importação formado por um complexo de correias

transportadoras, balança de fluxo e ship-unloader (tipo

portalino) com capacidade para 600 toneladas/hora;

Sistema de armazenagem para exportação de granéis sólidos

com capacidade total de 270 mil toneladas (1 silo horizontal

com capacidade de 100 mil toneladas, 1 silo horizontal com

capacidade de 140 mil toneladas e 4 silos verticais com

capacidade de 7,5 mil toneladas cada);

Sistema de armazenagem para importação de trigo a granel

formado por uma bateria de 22 silos verticais, com 80.000

toneladas de capacidade estática total;

Sistema de pesagem de carretas formado por 4 balanças

rodoviárias de 80 toneladas cada.

Figura 5 – Canal de Cotegipe, onde se pode visualizar o complexo

industrial e o porto do Moinho Dias Branco, tendo à frente o

Terminal da Dow Química (direita) e o Terminal Portuário Miguel de

Oliveira (esquerda).

 

Fonte: Berger e Berger (2009).

 

Conclusões

 

O presente trabalho demonstra que, mesmo com participação

superior a 30% do PIB regional e dispondo da Baía de Todos os

Santos, berço da atividade portuária no Brasil e um dos mais

adequados ancoradouros naturais ao longo de toda a costa, a

economia baiana, diante dos desafios impostos pela globalização

econômica, ainda carece de infraestrutura portuária compatível com

a sua pujança, eis que, a despeito da incorporação de dois novos

projetos privados, permanece visceralmente dependente dos portos

públicos, onde as respostas ao processo de modernização têm

ocorrido de forma demasiadamente lenta.

 

Assim, é essencial que a sociedade exerça legítima pressão no

sentido de provocar iniciativas capazes de gerar profundas e definitivas transformações no setor portuário baiano, sob pena de

condenação do Estado a um processo de isolamento econômico, o

que violentaria toda a tradição histórica da Bahia como importante

polo de desenvolvimento regional.

 

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1 No dia 06 de agosto de 1945, os EUA lançaram a primeira bomba

atômica sobre a cidade japonesa de Hiroshima, fazendo 100.000

vítimas e, três dias depois, outra bomba foi lançada sobre Nagasaki,

provocando mais de 70.000 mortes. No dia 02 de setembro do

mesmo ano, o Japão se rendeu ao exército norte-americano,

determinando o fim da Segunda Guerra Mundial.

 

2 URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.

 

3 Com o golpe de 31 de março de 1964, teve início o período em

que os militares assumiram o poder no Brasil.

 

4 Recentemente, o píer passou por reformas visando adaptá-lo ao

atendimento de navios de até 90 mil tpb (tonelagem de porte bruto)

para desembarque de nafta e demais derivados de petróleo da

Braskem.