Baía de Todos os Santos: aspectos humanos
Manifestações culturais no Recôncavo da Baía de Todos os Santos
Manifestações culturais no
Recôncavo da Baía de Todos
os Santos
Ordep Serra
Xavier Vatin
A Bahia de Todos os Santos é a porta do mundo, como se
sabe. Desmedida, nela cabem reunidas as demais enseadas do
Brasil e ainda sobra espaço onde conter as rias da Galícia e as
esquadras do universo. Quanto à beleza, não há comparação
que se possa fazer nem existe escritor capaz de descrevê-la.
Um rebanho de ilhas, cada qual mais aprazível e deslumbrante,
pasta neste mar de sonho. Pastoreadas pela ilha maior e
principal, a de Itaparica, povoada de tropas lusitanas e
holandesas, de tribos de índios e de nações africanas. No fundo
das águas, no reino de Aioká, jazem cascos de caravelas
armadas em guerra, fidalgos portugueses e almirantes batavos,
colonos e invasores expulsos pelos denodados patriotas
brasileiros. Itaparica, mãe da pátria recente, chão da liberdade
nas batalhas da Independência, nas festas de janeiro.
Das glórias da Bahia de Todos os Santos manda a prudência
não falar, é recomendável guardar silêncio, para evitar despeito
e dor de cotovelo: sua fama está na boca dos marítimos, nas
canções dos trovadores, nas cartas e relatos dos navegantes.
[...] No regaço do golfo, na brisa da península, plantada na
montanha, eleva-se a Cidade da Bahia, de seu nome completo
Cidade do Salvador da Bahia de Todos os Santos, enaltecida
por gregos e troianos, exaltada em prosa e verso, capital geral
da África, situada no oriente do mundo, na rota das Índias e da
China, no meridiano do Caribe, gorda de ouro e prata,
perfumada de pimenta e alecrim, cor de cobre, flor da mulataria,
porto do mistério, farol do entendimento.
Esta bela página de Jorge Amado, do romance O Sumiço da Santa
(AMADO, 1988, p. 18), exprime de forma apaixonada o fascínio da
Baía de Todos os Santos, que ele muitas vezes celebrou: evoca, a
um tempo, sua esplêndida geografia e sua rica paisagem humana,
sua história e sua fábula, sua grandeza manifesta e seus tesouros
escondidos. Lembra o passado submerso em suas entranhas, o
desenho flutuante das rotas marítimas que a privilegiaram, o tumulto
do conflituoso encontro de povos de que se fez palco.
Basta ler essas poucas linhas para dar-se conta de como é
arriscado o projeto de discorrer sobre as manifestações culturais
surgidas na bacia de nosso luminoso mediterrâneo, ao longo de
uma história densa, quente, rica em descobertas e aventuras. Muita
coisa, por certo, ficará na sombra. O conjunto é inabarcável, não há
voo de pássaro que descortine um panorama tão variado. Mas o
texto amadiano oferece pistas que vale a pena seguir.
Eleito o guia da navegação, começaremos assinalando a insistência
dele em uma grafia muito sugestiva: referindo-se ao acidente
geográfico erigido em cenário desse pequeno mundo – o golfo que
se escondeu aos olhos do descobridor sob a aparência de uma baía
discreta, mas até agrega duas, a modo de "acólitas" – ele sempre
escreve Bahia. O que é um modo de não separar a geografia da
história, de corresponder ao jogo das metamorfoses de um espaço
cultural transbordante, em contínuo movimento.
Mergulhando, com ousada coerência, na contradição que anima sua
dialética de poeta, ele também faz questão de chamar de Cidade da
Bahia a capital do seu Estado. Nisto ele segue uma velha tradição
de seu povo, para quem Salvador é mesmo a Bahia, pura e
simplesmente.
A metonímia tem uma curiosa flutuação, como bem se vê. Pois já
notamos que a escrita amadiana logo faz recordar, além desta
concentração onomástica, um movimento oposto: a mágica extensão do nome marítimo por todo um vasto território, incluindo
matas, caatingas e cerrados, planícies, serranias, altiplanos,
canyons, lapas... a ponto de compreender não só os vales e
estuários da cercania, a concha do Recôncavo e a fita alviverde de
uma imensa orla oceânica, como também, a perder de vista, um
grande sertão batizado com água salgada – licor de muita saudade
– pela memória imaginosa de exploradores afeitos a dar a suas
expedições um aparato de navegação.
Por efeito dessa poesia de peregrinos, ainda evocados nas
marujadas dos nossos campos gerais, assim como no Recôncavo,
no semiárido e na Chapada, ficou nos mapas uma Bahia rica não só
de águas doces e salobras – com uma vasta rede de rios e um
imenso litoral que transcende de muito o golfo (é o mais extenso do
país) – como também de muito chão seco, de muita terra espalhada
sob o sol do trópico: um território do tamanho da França.
Pode parecer estranho, mas está certo Jorge Amado: não se
descortina o golfo mágico, a Baía de Todos os Santos, sem
contemplar, à luz da memória, seu espantoso derramar-se terras
adentro: sem ter em mente esse efusivo transbordamento de sua
imagem pelos caminhos do tempo, pelas trilhas da aventura,
quando o mar virou sertão.
Por outro lado, está longe de ser descabida, apesar do paradoxo
mal velado sob o disfarce do costume, a concentração da misteriosa
Bahia na sua cidade maior.
No entanto, aqui teremos de buscar o difícil equilíbrio entre os
movimentos opostos da maré metonímica. Vamos limitar-nos ao que
já é muito: às bordas da grande taça aquática. Pelo menos
tentaremos... seguindo o escritor embriagado por sua beleza.
Quase religiosamente, Amado evoca o nome completo da Cidade
do Salvador da Baía de Todos os Santos e a mostra dominando,
desde sua eminência, o regaço do golfo. Como este – ou melhor,
como a Bahia que ela incorpora e que a faz estender-se muito além
de suas fronteiras – a grande cidade lhe aparece feminina e misteriosa, na península em cujo dorso a brisa marítima se derrama.
Assim ele volta de novo sua atenção para as ondas... E na sua
visão lírica, o seio marinho toma a feição de um Wunschraum: o
reino de Aiocá. Passa pelo mito a sua leitura da paisagem
fascinante. E isso a aprofunda, tornando-a mais rica e densa: mais
real, portanto… Graças ao sonho. Pois este procede do sentimento
de quem a povoa com seus desejos e esperanças, de um povo que
dá presentes ao mar.
Foi Jorge Amado, com certeza, quem melhor celebrou a Baía de
Todos os Santos, divulgando sua beleza e espalhando sua fama
pelos quatro cantos do ecúmeno. Leitores de todo o mundo se têm
deleitado com as imagens que ele difundiu desta região, de sua
gente, de sua cultura. Não é possível ignorá-lo ao tratar do assunto
deste pequeno estudo. Ele foi um bom intérprete do modo de vida,
do sentimento do mundo, das artes, enfim, da cultura da
"humanidade baiana", como gostava de dizer. Vale a pena seguir
suas indicações.
Veja-se como ele chama a atenção para o rico "rebanho de ilhas"
(são cinquenta e seis ao todo) das águas de Todos os Santos. Para
justificar o tom lírico de sua evocação, basta a lembrança da
ladainha de seus topônimos, que envolve nomes singelos (Ilha
Grande, Ilha Pequena) em meio a outros bizarros, canoros,
esquisitos, numa ciranda musical que mistura santos e bichos,
plantas e cascos, lembranças lusas e tupis: as ilhas do Medo, do
Cal, dos Frades, das Vacas... junto com a Madre de Deus, Bom
Jesus dos Passos, Santo Estêvão, São Gonçalo, Santos –
resumindo a corte –, mas também Cajaíba, Matarandiba, Caípe,
Mutá, Saraíba, Olho Amarelo, Malacaia, Caraíbas, Porcos,
Carapitubas, Bimbarras, Canas, Ponta Grossa, Fontes, Pati,
Coqueiros, Itapipuca, Madeira, Chegado, Topete, Guarapira, Coroa
Branca, Uruabo e – para não ir mais longe na relação – Curupeba
pequena ao pé de Itaparica.
Esta é a "pastora", como a chama Jorge Amado. A ela voltaremos.
O romance de que tiramos a epígrafe deste trabalho começa com a
viagem solene de um saveiro que transporta, entre abacaxis, cajus e
mangas, uma divindade oculta em uma bela imagem barroca: Santa
Bárbara, a do Trovão, que Jorge Amado esculpe lindamente com
palavras misteriosas. Ela tem a companhia de dois devotos. É
oriunda de Santo Amaro, foi encaminhada por Dona Canô, mas seu
périplo se inicia em Cachoeira, pois a viagem percorre a veia do
Paraguaçu, que alimenta a Baía de Todos os Santos.
Acompanhando a descrição desse trânsito, somos levados a nos
lembrar imediatamente das liturgias marítimas dos baianos, muito
embora o cortejo se ache reduzido, neste caso, à singeleza de uma
única embarcação. De qualquer modo, não falta fervor a esse
périplo místico, que ao cabo vai revelar-se prodigioso. A grande
Senhora que navega com seus acólitos escondida na imagem
belíssima reúne em si duas pessoas sagradas. Logo vai revelar-se –
com uma nova ocultação.
Seu ponto de embarque merece atenção especial no quadro que
estamos esboçando. Os saveiros desapareceram, o vapor de
Cachoeira não navega mais no mar, porém esta cidade que pariu
trinta municípios, hoje derramados pelo recôncavo afora, continua
marcada pelas ondas que impõem o movimento da maré ao
Paraguaçu. O farol que ainda se avista às margens deste rio ergue-
se sobre um rochedo chamado de "Pedra da Baleia", pois aí teria
chegado, faz muito tempo, um cetáceo desgarrado, espécime
extravagante do gado de Iemanjá. No local, ainda se celebram ritos
solenes de oferenda à Mãe d'Água: diz o povo cachoeirano que o rio
Paraguaçu pertence à Rainha dos Mares. Assim, a cada ano, no
domingo que se segue à festa do dia Dois de Fevereiro em
Salvador, os terreiros de candomblé de Cachoeira e das cidades
circunvizinhas realizam a festa de Iemanjá, no cais da cidade,
organizando um xirê a céu aberto e levando de barco, no final da
tarde, as suntuosas oferendas rumo à Pedra da Baleia.
Figura 1 – Oferendas para as mães d'água em Cachoeira.
Foto: Xavier Vatin.
No sentimento dos nativos, Cachoeira integra, pois, a Baía de Todos
os Santos, em cuja antessala – a fecunda Baía do Iguape – o
Paraguaçu se derrama, espelhando a graça de Maragogipe, a
beleza das vilas de Nagé e Santiago, as ruínas místicas de São
Francisco do Paraguaçu e as lembranças das sangrentas batalhas
da Ilha do Francês.
Também é impossível separar da Baía de Todos os Santos (BTS) a
luminosa Santo Amaro, de onde partiu a Santa com seu bornal de
raios e trovões, deixando a bela matriz de Nossa Senhora da
Purificação. O romancista não explica como a santa chegou ao
vizinho Paraguaçu, mas ensina que em Santo Amaro realmente
começa, em música e mistério, a Baía de Todos os Santos.
O périplo da Santa avança pelas águas do grande rio. Principia, por
certo, onde ele se faz navegável: entre Cachoeira e São Félix – as
cidades gêmeas, tesouros do patrimônio histórico e cultural do
Brasil. (Até agora, o registo de tombo se deteve tolamente no lado
cachoeirano, esquecendo o delicioso presepe de São Félix;
esperamos que seja logo corrigida esta falha bisonha, fruto de
miopia do IPHAN: registramos com alegria que este órgão já encaminhou o tombamento da orla e de parte da bela cidade irmã
de Cachoeira).
Jorge Amado nos sugere a via de uma primeira aproximação ao
nosso tema. Comecemos, sim, evocando o cânon dos ritos que
desenham nesses mares um mapa mítico. O saveiro do romance
evoca, já sugerimos, a rica liturgia das águas existente na área, em
particular as procissões que lhe sulcam as ondas.
...
A procissão do Senhor dos Navegantes não se afasta da costa de
Salvador. Começa em Monte Serrat, na Boa Viagem, com um
cortejo de barcos a seguir a galeota Gratidão do Povo, em que a
imagem do Crucificado segue até a entrada da Barra, para depois
voltar ao ponto de partida. Não se sabe direito sua origem, mas esta
celebração passou a constituir um momento fundamental do
calendário festivo da Bahia: a galeota transporta com o Padroeiro os
votos do Ano Novo. Embora o festejado seja o Cristo Sofredor que
padece em sua cruz, a procissão nada tem de penitencial ou
doloroso: assim como o que é celebrado em terra – na famosa
basílica da Colina, para onde se dirigem, cantando e dançando, os
joviais adoradores do Agonizante – o culto deste navegador
crucificado à porta do templo se acha envolto em alegria,
entusiasmo e muita esperança. Seu barco de bênçãos inaugura
jubilosamente o ano recém-nascido. Pode-se dizer que nesta
ocasião o Pai do Bonfim assume o princípio: rege o começo do
calendário...
Mas não está sozinho.
Seus fiéis honram também a Senhora da Boa Viagem. E mais
extensa do que a d'Ele vem a ser a procissão de... Nossa Senhora
dos Navegantes.
Pois o mar da Bahia tende irresistivelmente ao feminino.
Para mostrá-lo, basta lembrar as grandes cerimônias de oferenda
que acontecem nas ondas baianas, dirigidas à bela Iemanjá – que
nesta terra de todos os santos destronou o deus Olokum, tomou-lhe
os mares e oceanos. Inúmeros presentes são dedicados à divina
Senhora, "Mãe dos Seios Lacrimosos", em todo o litoral da BTS, por
grandes e pequenos terreiros, ou mesmo por iniciativa individual de
devotos que fazem isoladamente sua homenagem. Isso acontece
principalmente no despontar do ano novo, nos meses de janeiro e
fevereiro.
As propiciações mais simples (com singela oferenda de flores
lançadas às ondas, por exemplo) podem ser feitas em qualquer
época, até de forma solitária; mas as grandes festas da Rainha do
Mar requerem cortejo sagrado e procissão de barcos, festa múltipla.
A maior delas ocorre no dia Dois de Fevereiro em Salvador, no Rio
Vermelho. Já se acha, hoje, bem documentada, estudada. (AMADO,
1956; SERRA, 2009; TAVARES, 1961; VERGER, 2002; VIANNA,
1983) Sabe-se que atrai peregrinos do mundo inteiro e originou
muitas imitações Brasil afora. Uma preciosa documentação recente
(GOUVEA, 2008), que inclui uma abordagem etnográfica e um
corpus muito rico de fotografias, incidiu sobre a grande cerimônia de
Salvador, mas também sobre os belos Presentes de Iemanjá
dedicados em Itaparica. Um deles acontece no dia 2 de fevereiro,
por iniciativa de uma comunidade litúrgica de Amoreiras: o povo do
Ilê Omon Aboulá, terreiro consagrado ao culto dos ancestrais (os
Babá Egun). A dedicação desse Presente vem a ser o clímax de um
pequeno ciclo festivo (ver GOUVEIA,2008, p. 52-53):
O ritual começa no dia 20 de janeiro, quando os fiéis descem do
Aboulá em direção ao mar e, seguindo uma trilha de pedras,
fincam em um ponto exato [na areia coberta pelas águas
marinhas] uma bandeira azul e branca. No dia da festa, no
período da manhã, as cerimônias são restritas às pessoas da
casa. Pela tarde, as portas são abertas ao público para a
cerimônia que começa com o padê de Exu e ainda no barracão
[os antepassados] Babá Omorô Mitodô, de Iemanjá, e Babá
Nilô, de Oxum, aparecem para agradecer e abençoar as
oferendas. Na saída da procissão, após um foguetório, homens
e mulheres seguem descendo o morro em direção ao vilarejo e
à praia, com balaios e talhas sobre a cabeça, guiadas pelo som
das cantigas sagradas, para serem levados ao mar. No
caminho, sempre cruzam com a procissão de Nossa Senhora
das Candeias, organizada pela Igreja Católica.
Outra festa itaparicana de Iemanjá com procissão aquática e
entrega de presentes à Rainha do Mar é hoje protagonizada pelo Ilê
Axé Babá Ominguian, em Bom Jesus de Manguinhos, não longe de
Amoreiras; tem lugar no dia 3 de fevereiro. É uma celebração
centenária, muito concorrida.
Esses são os eventos maiores; porém devemos repetir que a
Princesa de Aiocá, a Senhora dos Sete Nomes, como Jorge Amado
a chamou em outro romance, recebe presentes o ano inteiro na
Baía de Todos os Santos. E convém lembrar que além dela há
outras Mães d'Água cultuadas em toda a extensão da BTS, com
oferendas depostas em rios, mangues e lagos. Quase sempre a
dedicação desses oblatos envolve ritos preparatórios (mais ou
menos complexos) e pequenas procissões.
...
Nossa escolha, induzida por Jorge Amado, foi principiar pela
abordagem de rituais festivos que percorrem a BTS com sua
constelação de símbolos e remetem a uma fervilhante galeria
mítico-religiosa. Uma apresentação exaustiva está descartada. São
muitos e complexos os grandes ritos públicos que marcam
significativamente o curso do ano na área em apreço. Quase todos
têm caráter religioso, ou tangenciam a religião – como acontece
com os festejos cívicos de Santo Amaro, Cachoeira e Itaparica, em
que os Caboclos, tornados símbolos do heroísmo dos libertadores,
também vieram a ser, aos olhos do povo, figuras sagradas dignas
de culto.
Esse grande calendário festivo tem por base marcos das liturgias
católicas a que se combinaram investimentos simbólicos alentados
por uma outra inspiração religiosa, de fonte afro-brasileira – e por
uma criatividade lúdica popular das mais ricas, característica deste
espaço cultural.
Como todos sabem, o catolicismo já foi religião oficial do Brasil,
onipresente na vida do país. Sacramentos católicos pontuavam a
existência dos brasileiros, do berço à cova, de modo que interferiam
poderosamente na organização dos ritmos da vida privada. Além
disso, a ICAR até há pouco dominava, com seus ritos sacros, muitas
manifestações da coletividade nacional, participando também,
decisivamente, de muitas das cerimônias cívicas do país. A rigor,
seu calendário litúrgico regia o tempo da vida pública. Seus dias
santos eram os principais feriados.1 Ainda hoje, quando o mercado
da salvação se encontra grandemente ampliado e diversificado no
Brasil, há dias santos católicos reconhecidos como feriados
nacionais, a exemplo da Sexta-Feira Santa e do dia de Corpus
Christi.
Se é fato que o ano litúrgico católico perdeu muito de seu valor de
referência em nosso país, isto não se deu de maneira uniforme. Na
área que aqui nos interessa – no espaço da Baía de Todos os
Santos – esse seu papel de marcador simbólico ainda continua
vigendo, em muitos sentidos, mesmo para aqueles que não são
católicos, nem sequer religiosos.
Não se pode negar que o catolicismo tem perdido espaço no Brasil
inteiro. Isso acontece também na Bahia. É que nos meios populares
tem sido grande o avanço de novas denominações evangélicas
ligadas ao chamado neopentecostalismo de missão, com uma
prédica fundamentalista e uma teologia típica das chamadas
"religiões de sucesso". Essas novas igrejas têm arrebatado à ICAR
muitos fiéis. Ao mesmo tempo, desenvolvem feroz campanha contra
o candomblé e outros cultos de matriz africana, que diabolizam. Mas
crescem, também, parasitando esses ritos que perseguem.
Em todo o caso, o catolicismo e as religiões de matriz africana ainda
têm muita força na Baía de Todos os Santos. E interagem na
composição de um opulento cabedal de ritos públicos. Assim, o
encontro de dois poderosos sistemas rituais e de duas mitologias
muito ricas continua sendo um traço marcante da cultura desta área.
Como bem observou o antropólogo Roberto Moura (1983), aqui o
calendário cristão se redefiniu. 2 A redefinição de que ele fala
apoiou-se na identificação de santos católicos e divindades
africanas, que tomaram as festas do rito romano "nas ruas, nas
praças e mesmo nas igrejas da cidade". Segundo comenta Serra
(2009, p. 19), deste modo
[...] a poderosa imaginação ritual dos afro-brasileiros conquistou
espaços públicos que lhe eram vedados, imprimiu uma nova
"imago mundi" e uma nova temporalidade no texto do
calendário romano, apropriou-se de ritos cristãos que
transformou e renovou, de maneira original e inventiva. Tal
"interpraetatio africana" de mitos e ritos cristãos produziu, nesta
estação da diáspora, um cristianismo sui generis, muito vivo e
interessante. Ouso dizer que em Salvador e no Recôncavo
baiano o catolicismo popular fez-se praticamente uma religião
afro-brasileira [...].
[...] em diálogo com outras – caberia acrescentar. O fenômeno é
bem conhecido... Jorge Amado, por exemplo, o assinalou com muita
graça: orixás, voduns, bacuros e inquices aqui se apossaram de
altares católicos, redesenharam à sua feição devoções impostas ao
povo negro.
Desse encontro de civilizações sacrais (complicado, sofrido,
marcado pela violência da catequese, por manhas que a revertiam e
por enganos gloriosos, mas sempre fecundos), resultou a criação de
uma cultura da festa que caracteriza o pequeno mundo da Baía de
Todos os Santos.
Merece especial consideração o decisivo contributo do candomblé
para essa cultura.
...
Do ponto de vista do povo-de-santo, sem festa o mundo não
sobrevive: perde o alimento de sua origem, a graça da criação. Em
falta de festejo, fica reduzido a um jogo de coisas, sujo de
banalidade. Apenas roda sua rotina, esquecidamente; e nesse giro
monótono a vida dos homens e mulheres pode gastar-se à toa,
manchar-se de triste impureza.
Pois mundo sem festa é imundo.
Para que não pegue a doença mortal do desencanto, o ayê – o
espaço do cosmo em que nós vivemos – precisa de festa, portanto.
Carece principalmente daquela que é da competência dos santos –
dos "Encantados", como eles também se chamam.
Mas em que consiste a festa dos "Encantados"?
Segundo os adeptos do mistério negro, ela se faz para que os
santos venham brincar. É assim que se define sua atividade mais
importante entre os humanos, sua realização essencial, em
momentos privilegiados.
Toma-se um grande trabalho para que esse brinquedo se realize:
homens e mulheres pobres se afadigam, despendem tempo e
recursos preciosos. A generosidade é mãe da festa, que se alimenta
de dádivas e do esforço coletivo, exige colaboração, entrega,
paciência, entusiasmo.
Houve tempo em que era preciso mais: correr sério risco de
vexames, enfrentar a perseguição da polícia. Muita gente já
apanhou, sofreu cadeia e humilhação, por causa do brinquedo dos
santos, por amor à festa.
E é mesmo festa o que significa a palavra bantu candomblé.
Não são poucos os que acham difícil entender o comportamento
religioso do povo-de-santo. Os negros escravizados que instituíram esse rito eram considerados por seus amos gente de segunda
classe, inferior, limitada; às vezes, os atos de culto que realizavam
chegavam a ser tolerados porque nem eram percebidos como tais;
enxergava-se neles apenas uma diversão dos negros. Até hoje,
ainda há quem considere as festas do candomblé pouco mais que
isso; há quem as tome por belos espetáculos construídos com muita
sensibilidade sobre um fundo de crenças extravagantes mantidas de
modo mecânico. Mas para os fiéis do culto afro-brasileiro não se
trata disso. Nem diversão nem evasão; antes o contrário. Nas
festas, os santos "brincam" de um modo que alegra, anima, consola
os humanos: renova-lhes o mundo. Sua dança combate o
aborrecimento, as aflições, a tristeza. Tem poder de bênção. Ao
celebrá-los assim, vai-se muito além da diversão. A festa dos
Encantados nada tem de fútil, de frívolo, de passatempo; relaciona-
se com as fontes da vida.
Na sua construção, a beleza é indispensável: exige-se que a casa,
as mulheres e os homens se façam bonitos, como belos têm de ser
não só os deuses do orun – que ao chegarem à terra em corpo
emprestado se cobrem de trajes, insígnias e atavios caprichosos –
como os próprios mortos: os solenes Babá Egun, que aparecem em
Itaparica ocultos sob uma roupagem sedutora, fantasticamente bela.
A música tece o caminho da revelação, que percorre e entrelaça
gestos, cores, formas, no arrebato da dança. Profundamente
associada ao fenômeno da possessão, ela desempenha um papel
central nos ritos religiosos afro-baianos, nas festas de orixás,
voduns, inquices, caboclos, erês, exus e babá egun. A natureza das
relações da música e da possessão fascinou filósofos, estudiosos e
escritores, de Platão a G. Rouget.3 Durante muito tempo, acreditou-
se – e alguns continuam acreditando – que música e possessão
pertencem a um universo inefável e inexplicável, o da subjetividade,
do afeto e das emoções, universo este irredutível, de fato, a
qualquer abordagem científica. No entanto, os dados coletados e
analisadas por antropólogos e etnomusicólogos convergem para
mostrar que estas duas manifestações, profunda e universalmente
humanas, são sempre regidas por regras complexas e extremamente rigorosas – quer sejam estas explícitas ou, como
frequentemente acontece no caso das civilizações de tradição oral,
a exemplo do candomblé, implícitas.
No Ocidente, crenças religiosas e preconceitos etnocêntricos
levaram a assimilar a possessão a uma manifestação demoníaca,
psicopatológica ou da ordem do simulacro. Para a antropologia, no
entanto, o sistema da possessão nas sociedades extraeuropeias é
um tema cuja pregnância parece particularmente sintomática de seu
desaparecimento quase total do mundo ocidental ao longo do século
XX. Sua ressurgência no início do século XXI, no contexto da
globalização, parece igualmente significativa de sua universalidade
latente.
De fato, da mania grega ao wajd sufi, das religiões afro-baianas ao
xamanismo siberiano, música e possessão compõem juntos,
segundo diversas modalidades, o repertório muito codificado de
uma humanidade em busca perpétua de experiência mística.
A música detém um lugar central na prática ritual dos cultos de
possessão. No entanto, a sua associação não deve levar à hipótese
errônea de uma natureza intrínseca e necessária de suas relações.
Ou seja, a relação de indução que existe entre música e possessão
é de ordem simbólica e não mecânica, condicional e não
condicionada, extrínseca e não intrínseca. Ambos participam de
uma linguagem, sonora e motora, cuidadosamente elaborada por
cada cultura. Para Roger Bastide (1972, p. 96),
[...] o transe africano ou afro-americano é uma linguagem (ao
mesmo tempo motor e vocal) que se decripta segundo um certo
código; tem seu vocabulário, suas regras gramaticais e sua
sintaxe.
É nesta perspectiva que nos inscrevemos aqui: para entender este
aspecto central das religiões afro-baianas e fugir do crivo de um
senso comum moldado por preconceitos racistas e
pseudoevolucionistas, impõe-se seguir a interpretação bastidiana.
No caso do candomblé, Pierre Verger compara o adepto, após a
iniciação, a uma chapa fotográfica: este carrega internamente, de
forma latente, uma imagem da divindade/entidade que foi "plantada
na sua cabeça" e que vai se manifestar durante as cerimônias
rituais, cujo dispositivo estaria agindo como um "revelador
fotográfico". Mas o iniciado ignora a presença desta imagem, pois
esqueceu aquilo que aconteceu ao longo de sua iniciação. Na
ocasião de uma cerimônia, um desencadeador cultural, a exemplo
da música, vai provocar nele, segundo certas condições, os gestos
e as condutas associados à imagem inconsciente da
divindade/entidade.
Esta construção de uma personalidade segunda, cujas
manifestações poderiam ser desencadeadas à vontade a partir de
certos estímulos, envolveria um condicionamento de tipo pavloviano.
A música serviria assim para veicular estímulos sonoros constituídos
pelas fórmulas melódicas e rítmicas associadas a determinada
divindade/entidade. Estes estímulos, existindo na cultura sob a
forma de repertórios musicais, seriam inscritos no corpo dos
iniciados para desencadear, após uma aquisição de hábitos
estereotipados, respostas automáticas de sua parte. Porém, esta
teoria do condicionamento iniciático, de inspiração culturalista, em
oposição à concepção dita psicopatológica da possessão, não pode,
por si só, explicar a natureza das relações da música e da
possessão.
Rouget contesta a sua validade:
O problema consiste em saber se é legítimo falar de reflexo
condicionado, pois ora se trata efetivamente de um reflexo
condicionado e neste caso este deve funcionar em qualquer
situação como resposta a seu estímulo; ora o estímulo
permanece às vezes sem resposta e, neste caso, não é de um
reflexo deste tipo que se trata. (ROUGET, 1990, p. 328)
A observação mostra, de fato, que a audição de devises que
deveriam funcionar, segundo esta teoria, como estímulos trazendo
necessariamente a mesma resposta, não desencadea sempre a possessão dos iniciados. Notemos a este respeito que Roger
Bastide (1972), nos seus "Prolégomènes à l'étude des cultes de
possession", volta ao conceito de condicionamento, falando de
"reflexos condicionais". A entrada em transe depende nitidamente
de vários fatores contextuais, tais como o respeito das proibições
alimentares ou sexuais que precedem a cerimônia, a idade de santo
etc. Para que a possessão de um iniciado advenha, é necessário
que certas condições sejam reunidas; uma vez reunidas, não se
pode negar que certos elementos, de naturezas diversas – sonora,
visual, olfativa –, possam ser qualificados de "desencadeadores" da
possessão.
Enfim, para entender a natureza extrínseca das relações da música
e da possessão, faz-se necessário lembrar que a possessão não
ocorre exclusivamente em um contexto cerimonial; esta pode se
manifestar no âmbito doméstico. O que nos interessa
especificamente neste caso é a ausência frequente de qualquer
"desencadeador" externo: nenhum canto, nenhum ritmo, nenhum
toque de sino, nenhuma ingestão de qualquer substância vem
desencadear a possessão. É somente após a execução de
invocações proferidas pelo iniciado, em voz baixa, que a possessão
advém.4 Portanto, vale ressaltar que a música não é indispensável
para a ocorrência da possessão.
Figura 2 – Filha de Santo.
Foto: Xavier Vatin.
No contexto litúrgico do candomblé, a música – composta de
centenas de cantigas e dezenas de fórmulas rítmicas tocadas por
três atabaques e um sino metálico (agogô ou gã) – acompanha e
estrutura todos os ritos sagrados. Cada divindade – orixá, vodum,
inquice – possui um repertório de cantigas específico; certas
divindades têm fórmulas rítmicas características e todas se
diferenciam por coreografias próprias. Para os adeptos do
candomblé, a música contribui para o estabelecimento de laços
entre ayê e orun, entre o mundo dos humanos e o das divindades,
ou seja, para o desencadeamento e a condução da possessão.
Portanto, a música atua no coração de um sistema que coloca em
ação as representações simbólicas, espirituais e religiosas de toda a
comunidade. Cantigas, toques, danças e mitos participam de um
"teatro sagrado" no qual, por uma extraordinária alquimia
sinestésica, cada elemento – musical, coreográfico – é transcendido
pela sua interação com os outros.
Seguem, resumidamente, as características musicais comuns a
todas as nações de candomblé, incluindo o culto aos caboclos:
alternância solista/coro de forma antifonal ou responsorial; canto
essencialmente monódico, silábico e contramétrico; fenômenos pontuais de plurivocalidade; overlapping e heterofonia;
acompanhamento por um conjunto percussivo caracterizado por
uma contrametricidade dominante; superposição binário/ternário e
poliritmia frequente.
Do ponto de vista simbólico, as músicas do candomblé estabelecem
a ligação entre a África mítica e um Brasil profundamente mestiço.
Patrimônio imaterial preciosamente preservado, elas também
sofrem lentas e quase imperceptíveis modificações, características
das músicas de tradição oral. Elas servem de fonte privilegiada para
numerosas formas musicais na Bahia e no Brasil. Grupos
carnavalescos e muitos artistas, como Carlinhos Brown, Gerônimo,
Os Tincoans, Os Filhos de Gandhy, mergulham nesta fonte para
extrair cantigas e ritmos, ora na sua integralidade melódica e
rítmica, ora sob a forma de trechos reelaborados, fornecendo assim
ao carnaval e à música popular da Bahia alguns dos seus maiores
sucessos. Tal reapropriação, festiva e profana, da música sacra
afro-baiana, suscita reações diversas por parte dos adeptos do
candomblé, divididos entre tradicionalismo religioso e frenesia
carnavalesca, entre africanidade mítica e baianidade
contemporânea. Matriz rítmica, melódica e temática – pois as
divindades africanas são muitas vezes evocadas nas letras dos
grandes autores da música popular brasileira, entre os quais
Caetano Veloso, Gilberto Gil, Aldir Blanc –, o universo sonoro do
candomblé atesta da vitalidade de práticas musicais que constituem,
no Brasil, o principal vetor da cultura popular.
Na ritualística afro-baiana, alegria também é preciso. Mesmo
complexos e elaborados, mesmo exigindo compenetração, os ritos
não devem pesar. Há momentos de serena solenidade, outros de
arrebato empolgante; mas sem animação e leveza a festa não
progride.
Isso não significa que falte o recolhimento. A alegria do rito vem de
sua força, muito concentrada.
É certo que ele mexe com perigos: com a graça impetuosa da
origem. Mas a obrigação devida aos Encantados e aos Ancestrais deve ser sempre festa.
O povo do Candomblé diz que os Encantados gostam do mundo.
Amam sua variedade, as formas e as cores passageiras, a vibração
da cantiga que acaba. Seu reino perene tem uma estranha paixão
pelo efêmero.
A festa existe por isso.
...
Uma outra fonte poderosa da cultura festiva da Baía de Todos os
Santos é a tradição lusitana, europeia, das chamadas festas de
largo. Elas envolvem ritos sacros cujo foco espacial é um templo. As
cerimônias religiosas transcorrem no interior do santuário, mas a
festa que integram compreende outros desempenhos. Estes têm
lugar nas imediações do templo. São folguedos populares,
principalmente; mas também feiras e outras atividades que
envolvem comércio e diversão pública.
A expressão "festa de largo" já dirige a atenção para o que acontece
no espaço fronteiro à igreja; mas o folguedo do largo tem sua
oportunidade determinada pelo que acontece no templo.
A maioria absoluta dos participantes de uma festa dessas só quer
divertir-se. Nem mesmo entra no santuário.
Dentre os foliões do largo, não falta quem "dê valor" ao rito
celebrado na igreja; muitos, porém, sequer o demonstram. E um
número bem menor limita sua participação às cerimônias religiosas.
Mas há quem se faça presente nos dois espaços da festa.
Como nota Serra (2009, p. 73),
A festa de largo pode ser considerada uma situação ritual
contraditória: os cenários onde tem lugar circunscrevem
procederes opostos, embora igualmente festivos [...] De um Impossível dar conta, em um pequeno estudo, de uma heortologia
lado [na igreja], ordem, circunspecção, recolhimento, decoro,
distinção, atitude pública pacífica e reverente, com a atenção
voltada para o eterno; do outro [no largo], conduta informal e
espontânea, sensualidade, irreverência, disposição promíscua e
permissiva, atitudes provocantes (de intenção erótica ou
agressiva), profusa embriaguez, intermitência de conflitos e
tumultos, com toda a atenção voltada para o passageiro.
Apesar disso, os eventos decorridos na praça e no templo
pertencem a um mesmo conjunto de sucessos, a uma complexa
unidade ritual. Em toda a orla da Baía de Todos os Santos,
[...] ninguém admitirá que uma folia realizada numa praça
qualquer, sem santo celebrado na ocasião, seja uma 'festa de
largo'. Ainda que uma folia se dê no tipo de praça mais
especificamente chamada de 'largo' – com uma igreja como
edificação dominante –, não tendo a complementá-la alguma
espécie de rito sacro, ela não será 'festa de largo', mas apenas
'de rua'. Por outro lado, claro está que uma celebração
encerrada nos limites do templo, sem o complemento do
folguedo, não pode ser caracterizada como 'festa de largo'.
O estudo citado se debruça sobre a interpenetração de sagrado e
profano nesse gênero de festas e fala da carnavalização que muitas
vezes se verifica nesse contexto. Esclarece que isso já era parte do
modelo europeu, mas lembra que aqui surgiram muitas novidades.
Para isso contribuiu o encontro de diferentes culturas a produzir
confluências, mudanças e "releituras". Sucede que também nas
religiões de matriz africana aqui florescentes ocorre uma complexa
articulação de sagrado e profano, há mock-rites e carnavais
sagrados, práticas que oscilam entre o místico e o jocoso.
Assim, por exemplo, as lavagens de igrejas – já no mundo ibérico
tendentes ao carnaval – sofreram interferências que lhe
acrescentaram tanto uma sacralidade nova quanto um novo sabor
de folia.
tão complexa... Somos obrigados a eleger casos exemplares, ou
que se destacam por sua singularidade. Mesmo assim, devemos
contentar-nos com referências breves.
...
Em Cachoeira, a Festa de Nossa Senhora da Boa Morte pode
descrever-se como uma devoção católica que tomou cores novas ao
ser reinterpretada, reinventada, por mulheres negras ligadas ao
culto dos orixás e voduns: foi-lhe conferido um sentido místico todo
especial relacionado com ritos ancestrais dos jejes e nagôs, que
celebram divindades femininas ligadas ao domínio dos mortos.
Neste caso, o mistério negro se apropriou de uma liturgia cristã e a
modificou em profundidade, associando-lhe ritos que permanecem
secretos.
Figura 3 – Capa da Revista Viver Bahia! Revista Oficial de Turismo
da Bahia (ano 1, n. 1, ago. 2007).
A Festa de Nossa Senhora da Boa Morte é certamente o exemplo
mais emblemático do "turismo étnico afro" no Brasil. As profundas
ramificações históricas entre Bahia e África, inauguradas com a
chegada dos primeiros escravos africanos na Bahia em meadas do
século XVI, dão testemunho da realidade histórica e antropológica da Bahia negra. Ao longo dos séculos, a Bahia passou também a
representar a imagem idealizada de uma África mítica transposta
nas Américas: relatos de viajantes e exploradores, trabalhos
clássicos da antropologia afro-brasileira e, recentemente, esforços
redobrados de órgãos governamentais, federais e estaduais de
"Cultura e Turismo", convergem para fazer da Bahia, notadamente a
partir da década de 1970, um atrativo de destaque para o recém-
nascido turismo étnico afro, chamando a atenção de um público
específico: os african-americans, ou negros estadunidenses.
Nessa perspectiva, a cidade de Cachoeira, vista por alguns como a
"Meca do candomblé", recebe a cada ano um número crescente de
turistas negros estadunidenses, em busca de "raízes perdidas",
herança africana e ancestralidade. 5 A Festa de Nossa Senhora da
Boa Morte, deste ponto de vista, marca o momento central do
calendário turístico, litúrgico, festivo e antropológico da cidade.
Tentaremos apontar para os mecanismos identitários e étnicos em
ação nesse novo cenário/ mercado "etnoturístico".
O conceito de "turismo étnico", ou "turismo de raízes" (roots tourism)
na ter-minologia anglo-saxônica, tem se desenvolvido de forma
significativa nas últimas décadas. Será abordada aqui uma
modalidade específica deste turismo, praticada pelos african-
americans, ou negros estadunidenses, na sua busca de raízes
perdidas na África e nas Américas Negras (BASTIDE, 1996),
seguindo as rotas da diáspora africana. (HALL, 2003)
Há de se constatar que o turismo étnico desembarca na Bahia num
contexto de relações desiguais de poder e de trocas possíveis,
opondo a priori tradições africanas e africanismos baianos à
modernidade negra estadunidense. Ao chegar à Bahia, os turistas
afro-americanos esperam fazer uma viagem ao passado, aos
tempos remotos da ancestralidade. A atemporalidade dos mitos e o
tempo místico dos ritos extraem, por um momento, esses turistas de
seu caminho rumo ao futuro e à "modernidade". Tal encontro parece
responder à busca de uma forma peculiar de exotismo,
autorreferenciada e introspectiva.
Há de se constatar que este turismo étnico não se estabelece,
obviamente, de forma bilateral. De cem turistas negros
estadunidenses que visitam a Bahia, quantos negros baianos já
foram para os Estados Unidos? Este suposto "intercâmbio"6 se
inscreve em uma conjuntura marcada pelas disparidades sociais,
econômicas e geopolíticas Norte-Sul.7 O desenvolvimento do
turismo étnico dificilmente escaparia deste contexto desigual.
Nesse cenário, a cidade de Cachoeira, vista por alguns como a
"Meca do candomblé", recebe a cada ano um número crescente de
negros estadunidenses, em busca de "raízes perdidas", herança
africana e ancestralidade.
"Meca do candomblé"? De fato, a cidade de Cachoeira possui um
número muito significativo de terreiros e mantém preservada, até
hoje, uma tradição religiosa quase extinta no resto do país, a
tradição Jeje Mahi, herdada de grupos étnicos provenientes do norte
do Benin, antigo Reino do Daomé. No entanto, Cachoeira, como as
outras cidades do Recôncavo da Bahia, se destaca também pelo
fervor e pela devoção da comunidade à igreja católica. Além disso,
nos últimos anos, a inserção rápida e o crescimento exponencial no
"mercado religioso" de diversas denominações pentecostais e
neopentecostais tem mudado de forma extremamente significativa o
perfil religioso da cidade. Hoje, é provável que o número dessas
igrejas tenha suplantado o dos terreiros na cidade. Igreja católica e
candomblé enfrentam a "concorrência" – e, no caso específico do
candomblé, os atos de intolerância – dessas novas igrejas em um
mercado religioso versátil e polimorfo, marcado por uma visão
sincrética da fé.
Falando em visão sincrética da fé, voltemos à Festa da Boa Morte.
A Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte existe na cidade de
Cachoeira desde 1823, sendo constituída exclusivamente por
mulheres negras descendentes de escravas africanas. As irmãs são
ao mesmo tempo católicas e adeptas do candomblé. A festa é
realizada na segunda quinzena de agosto e inclui procissão, missas, ceia afro-brasileira oferecida pelas irmãs à comunidade, sendo
encerrada com samba de roda.
Na ocasião da festa, constata-se a tentativa, por parte dos turistas
afro-americanos, de compartilhar um sentimento de irmandade
negra, todos sendo considerados, estadunidenses e baianos,
"irmãos negros" e, portanto, imbuídos das mesmas perspectivas. No
entanto, parecem ocorrer alguns equívocos sobre o teor simbólico
da festa: um exemplo disso é a lamentação recorrente que os
turistas fazem pelo fato de as velhas irmãs negras da Boa Morte
louvarem uma santa branca, Nossa Senhora da Glória. Os turistas
afro-americanos geralmente não sabem que esta santa é cultuada
pela Irmandade desde o início do século XIX e que seu culto insere-
se em um contexto de sincretismo religioso que, em si, representa
uma estratégia de luta e sobrevivência das crenças dos escravos.
Acreditar que as irmãs deveriam adorar uma santa negra é uma
forma relativamente redutora de entender a história e parece refletir
a maneira circunscrita como, muitas vezes, a própria negritude e
sua base de africanidade estão sendo definidas, em diversos pontos
da diáspora. A interpretação racial de africanidade tem imposto uma
definição restritiva do que pode e do que não pode ser considerado
"africano" ou mesmo portador de africanidade. Assim se está
negando não apenas que o "africano original" tem várias e múltiplas
ancestralidades – já que, como matriz, este é entendido como algo
que deveria ser mantido "puro" – mas, nega-se assim até mesmo
aquilo que é óbvio e reconhecido por ser inerente à própria noção
de diáspora: um dos resultados do deslocamento dos africanos em
função do tráfico de escravos é que seus descendentes produzem
"culturas híbridas". (PINHO, 2004)
Enfim, podemos nos interrogar sobre o impacto e as consequências
possíveis deste mercado em forte expansão sobre as comunidades
negras locais e suas "tradições africanas". De que forma ocorrerá
um processo de adequação aos modelos idealizados pelos clientes
norte-americanos? Quando haverá bilateralidade e reciprocidade no
turismo étnico afro? Acreditamos que, do ponto de vista
antropológico e sociológico, teremos muito que aprender com os desdobramentos futuros desta forma peculiar de turismo na Bahia,
notadamente sobre o desenvolvimento possível de uma consciência
diaspórica polimorfa e multirreferencial.
Figura 4 – Placa informativa bilíngue.
Foto: Xavier Vatin.
Figura 5 – Sede da Irmandade da Boa Morte.
Foto: Xavier Vatin.
Também na festa cachoeirana de Nossa Senhora da Ajuda se
percebem os sinais de uma releitura do rito católico pelos códigos
de uma religiosidade afro-brasileira. Na lavagem que integra esse
verdadeiro festival (com duração de vários dias) marcam presença
homens fantasiados de demônios, tal como nas diabarias e
cachidiablos da península ibérica; mas aqui a coisa complicou-se
com o papel de destaque assumido no contexto pela figura negra de
Lozé (ver NASCIMENTO, 1995), que evoca o trickster africano Exu.
Por outro lado, é nessa festa que candomblés de Cachoeira
promovem o desfile dos mandus, figuras "carnavalizadas" dos
ancestrais. Durante mais de uma semana, os embalos animam
diariamente as ruas de Cachoeira, reunindo músicos das duas
filarmônicas da cidade: a Lyra Ceciliana, fundada pelo maestro
abolicionista Tranquilino Bastos em 13 de maio de 1870, e a
Minerva Cachoeirana, fundada em 10 de fevereiro de 1878.
Figuras 6 e 7 – Diabo e Mandus (Festa da Ajuda).
Fotos: Xavier Vatin.
Uma carnavalização ainda mais fantástica sucede no contexto das
festas de São Bartolomeu, em Maragogipe. A celebração do
Padroeiro tem seu clímax no 24 de agosto, mas compõe um grande
festival, com sua parte de folia. Esta circunscreve um momento
muito especial, no sábado que antecede o dia santo. Dirige-se o
povo festivamente à igreja, acompanhando filarmônicas, bandas,
grupos musicais, tomado de alegria e devoção, celebrando o santo,
que é saudado com coplas:
São Bartolomeu
Veio da Bahia
Coberto de flores
Cheio de alegria
De súbito, prorrompe outra aclamação: BUCETA!
Homens e mulheres, velhos e crianças, o povo inteiro eleva este
brado jubiloso, num grande clamor, fazendo crescer o entusiasmo
festivo, a alegria dos bons devotos.
Dizem que este costume principiou por uma brincadeira maliciosa
do povo, que assim zombava da súbita soberba de uma senhora
nativa, chamada Tibúrcia. Segundo a legenda, esta dama, pobre e
bonita, casou-se com um alemão, dono de fábrica de charutos,
homem rico e poderoso. O casamento que a fez abastada a teria
tornado, também arrogante, esquecida de sua origem. Na festa, o
povo miúdo a arreliava com louvores ao que a tornou soberba... Mas
cantava disfarçando: "Quando eu vinha do rio / Eta rapaz! / Me
encontre com Tibuç... / Eta rapaz!"
Com o tempo, a coisa teria evoluído para uma proclamação mais
clara.
Hoje, o povo grita logo o nome da bendita flor.
A pequena história parece verossímil, mas tem jeito também de mito
etiológico. De qualquer modo, se a motivação foi esta, o costume a
transcendeu. Pois o clamor tem certo colorido religioso. Celebra o
sexo feminino, a porta do mundo, com uma graça que faz encantar-
se o termo chulo: dá-lhe uma ressonância gloriosa, digna de seu
carisma. É mesmo um belo momento este que dá o nome à
Lavagem da Buceta, como o povo acabou por designar a amável
procissão.
...
Entre os singulares festivais da Baía de Todos os Santos, não
podemos esquecer os ritos cívicos, que se desdobram em
imaginosas dramatizações, por vezes também carregadas de
colorido religioso, em todo caso sempre criativas, espontâneas e
alegres. Os episódios mais importantes das guerras da
Independência são revividos em Itaparica, em Santo Amaro e em
Cachoeira, passando por outros locais do Recôncavo, até
desembocar no Dois de Julho de Salvador, com a festa da vitória
final das forças libertadoras. A figura do Caboclo é a dominante
neste complexo de ritos. Impera nas procissões heróicas, multiplica-
se nos afoxés e teatraliza-se em autos como o apresentado pelo grupo itaparicano Os Guaranis, que anualmente se fantasia para
viver o drama dançante da "roubada da rainha".
Tem caráter simultaneamente cívico e religioso o célebre Bembé do
Mercado de Santo Amaro, de que participaram, no dia 13 de maio
de 2009, mais de trinta terreiros: trata-se de um vistoso candomblé
em área pública, celebrando a vitória contra os poderosos locais que
pretenderam ignorar a abolição e manter o escravagismo; festeja,
também, a liberdade de culto conquistada a duras penas pelo povo-
de-santo santo-amarense.
É ainda de Santo Amaro que surge, brotando com bárbara fantasia
dos manguezais do Acupe, o ballet bizarro do Nêgo Fugido. Mas
jogos dramáticos pontuam toda a orla da BTS: no ciclo dos reisados,
sucedem-se Bailes Pastoris, Bumba meu Boi e Burrinha, além dos
encantadores Ternos de Reis. Já a lírica procissão do Lindro Amor,
ou Lindramô (Candeias, Santo Amaro, São Francisco do Conde,
São Sebastião do Passé) relaciona-se com os festejos de Cosme e
Damião, ricos em carurus: fomentam sagrados banquetes jocosos
resultantes da ligação desses santos com os deuses mabaços dos
terreiros.
Cheganças e Congos, Caboclinhos, Trança-Fitas também devem
ser lembrados... Mas não temos espaço para tanto. Devemos
passar a outro tópico: uma breve evocação de uma arte popular
amplamente cultivada na orla da Baía de Todos os Santos, invenção
de negros do Brasil hoje difundida pelo mundo inteiro.
...
A capoeira constitui uma manifestação cultural complexa. Pode
contar-se entre as artes marciais, mas sua prática envolve ainda a
dança, a música, a produção poética. E compreende uma ginástica
muito elaborada. Constitui uma técnica do corpo (no amplo sentido
maussiano do termo) em que táticas de defesa pessoal podem
combinar-se ao exercício de diversas modalidades de esgrima. 8
Funciona bem como um recurso educativo que favorece a
sociabilidade e a solidariedade. Sua prática permite desenvolver de maneira não repressiva o sentimento de disciplina, o que a torna
apta a ressocializar. Ela envolve não só a educação física como
também a artística. Já se revelou um meio eficaz de
aperfeiçoamento da expressão corporal, útil à formação de atores.9
Não raro, funciona como recurso terapêutico: propicia não apenas o
equilíbrio físico, como também o psicológico.
O desempenho da capoeira tanto pode abrir espaço para a
competição de caráter pugilístico quanto para o espetáculo "puro". É
luta e ato lúdico: um jogo rico de sentido, que tem, ainda, um
significativo componente ritual. Circunstancialmente, pode assumir a
feição de um rito profano... Mas isso não lhe impede a comunicação
com o domínio do sagrado: quem conhece o candomblé, certamente
já ouviu falar numa bela dança de orixá que nos terreiros é
conhecida como "a Capoeira de Ogum". E todo capoeirista valoriza
a mandinga... Muitos capoeiristas são mandingueiros em mais de
um sentido.
Estes traços lúdicos e rituais da capoeira incluem elementos
dramáticos. 10 A evolução do samba duro e do samba de esparro
nas rodas de capoeira dão testemunho dos recursos dessa arte
enquanto fonte de mimos espetaculares.
Em suma, combinam-se na prática da capoeira diversas formas de
expressão: em seu seio se associam o canto e a luta, a ginástica e a
poesia, a dança e o jogo. Ela tem uma porta que abre para o teatro,
outra que dá para a música; abre-se em múltiplas direções. Tem
muitas faces e interfaces. Realiza uma integração que é um dos
ideais mais encarecidos da arte contemporânea.
Em seu aprendizado, dá-se grande importância ao improviso.
Sempre criativa, ela encerra um conhecimento de cujo domínio todo
o corpo participa. Já suscitou o interesse dos etnomatemáticos, por
conta da forma como lida com uma geometria dinâmica, nos
complexos movimentos através dos quais seus praticantes
elaboram evoluções no empenho estratégico de "tomar espaço" um
do outro. (COSTA et al., 2004)
O cultivo tradicional da capoeira ocasionou o surgimento de formas
de organização características, nas academias dedicadas a essa
prática. Regras tradicionais de conduta foram, então, articuladas,
cristalizando normas e valores, ao tempo em que se desenvolveram
métodos didáticos, frutificando em técnicas e estilos variados. Mas a
capoeira continuou a prosperar, também, em ruas e praças.
Figura 8 – Grupo de capoeira se apresentando na Festa da Boa
Morte, em Cachoeira.
Foto: Xavier Vatin.
Uma prática que se verifica tão produtiva por certo merece relevo.
Mas há um jeito de fazer pouco de tudo isso, com uma palavrinha
oca... Basta dizer que a capoeira é folclore. Prega-se o rótulo e
pronto: não se fala mais em arte, esporte, rito, educação, técnica
corporal... Vale a pena indagar: o que significa, neste caso, a
palavra folclore? Que sentidos toma, quando se aplica assim?
...
Não há muito acordo entre os estudiosos quanto ao que constitui
propriamente folclore. Uma tendência acatada categoriza deste modo repertórios de práticas tradicionais de um povo mantidas em
uso por transmissão informal, sob as regras do costume. Há
especialistas em folclore, mas não existe concordância quanto à
natureza disciplinar de seu estudo. Melhor dizendo: segundo a
maioria dos pesquisadores contemporâneos, o estudo do folclore
não é uma disciplina autônoma, com métodos e objeto próprio,
delineado segundo seu enfoque. Trata-se de um campo que pode
ser percorrido a partir de diferentes perspectivas: da História, da
Antropologia e da Sociologia, por exemplo.
Tal como se deu com outros termos técnicos das ciências sociais,
este nome sofreu desgaste quando passou ao domínio do senso
comum. A ideia de folclore que permanece aderida a este rótulo
quando ele é aplicado à capoeira, ao samba de roda, ao maculelê e
mesmo à religião do candomblé amolda-se a um ponto de vista
ultrapassado, retrógrado, preconceituoso. A primeira coisa que se
supõe ao falar assim é uma hierarquia de produções culturais em
que certas atividades ocupam um plano superior e outras um lugar
inferior. As criações populares ficariam, por princípio, no plano mais
baixo, reservando-se a elas o designativo de folclore.
Outra característica do folclore tal como era concebido por muita
gente, no século XIX, faz dele um amontoado de "sobrevivências":
um monte de sobras do passado, de "fósseis" culturais. De acordo
com essa perspectiva, ele deve ser preservado por uma questão de
curiosidade e sentimentalismo.
Esta maneira de pensar o fenômeno hoje se considera caduca. Mas
ainda tem adeptos.
Ora, mesmo definindo-se folclore de maneira menos antiquada e
rebarbativa, é discutível a conveniência de rotular assim a capoeira.
Pois as mesmas razões que se podem dar ao categorizá-la como
folclore baiano, ou brasileiro, também podem ser alegadas para
dizer que o kung fu é folclore chinês e a ioga, folclore hindu. No
entanto, ninguém admite que se fale assim de nenhum dos dois; os
praticantes dessas artes ficariam indignados se as vissem
classificadas dessa forma. Seria um modo de esconder o que elas representam enquanto produção cultural, contribuição para o
tesouro das criações humanas, em particular no que toca ao
domínio das técnicas corporais (embora evidentemente não se
limitem a isso). Na verdade, tanto a ioga quanto o kung fu encerram
um saber de que todos podem beneficiar-se. Refletem a profundeza
da experiência acumulada em tradições particulares, mas têm um
conteúdo que vai além.
Quando se põe de lado o preconceito, não há dúvida de que a
capoeira também representa uma contribuição significativa para o
tesouro das criações humanas. Neste sentido, ela reflete a
profundeza da nossa tradição.
O uso corrente do termo folclore tem uma conotação depreciativa.
Aqui na Bahia, quando uma pessoa diz: – "Deixe de folclore!", não
está valorizando a coisa a que se refere... Associaram-se a esta
palavra noções equívocas, preconcebidas e redutoras. Ao ouvi-la,
muita gente pensa logo em "arte inferior", técnica ou conhecimento
"rudimentar". Na melhor das hipóteses fala-se em "exótico".
No seu uso corriqueiro, "exótico" equivale a "curioso",
"extravagante". As coisas assim designadas são vistas como
esquisitices mais ou menos engraçadas. Também se usa exótico
como sinônimo, ou quase, de folclórico. Mas a palavra tem outro
sentido originário: ao pé da letra, significa "o que é de fora".
Pensando neste sentido originário, fica até engraçado seu uso
trivial: é comum brasileiros qualificarem de "exóticas" a comida
baiana e a capoeira, por exemplo. No entanto, estas mesmas
pessoas achariam um absurdo chamar de exótico um uísque
escocês.
Vários estudiosos do assunto dão como característica básica das
manifestações folclóricas sua "inércia" ou "rigidez", ou seja, o fato
de que elas tendem a conservar-se (relativamente) imutáveis. São
coisas que "pararam no tempo" e se repetem por força de costume.
Se é assim, a capoeira decididamente nada tem a ver com folclore.
Pelo contrário: sua curta história (digo curta em comparação com a de outras artes marciais, de outras danças e jogos comparáveis)
mostra uma autêntica vertigem de renovação. Os grandes
capoeiristas sempre se destacam por sua inventiva. No próprio
ensino das academias procura-se estimular o sentido de descoberta
nos alunos.
Só um furioso preconceito pode levar alguém a ver na capoeira uma
"arte inferior". O problema é que este preconceito existe e ela tem
sido subestimada em nosso meio. O descaso chega a ser
escandaloso, quando se pondera que, além de constituir uma
riqueza da nossa tradição, esta arte possui um extraordinário
potencial a cujo aproveitamento nos recusamos.
Por outro lado, têm sido feitas tentativas bisonhas, temperadas de
má fé, no sentido de "enquadrar" a capoeira, limitando-a a um dos
campos – ora um, ora outro – que sua natureza multifacetada
abraça, embora, na realidade, ela nunca se acomode aos estritos
limites de nenhum deles. Resiste-se a aceitar a riqueza desta arte
plural. Com isto se ignora – ou finge-se ignorar – uma de suas
maiores vantagens.
A capoeira pode ser vivenciada enquanto esporte. Mas não é
possível tratá-la só como uma modalidade esportiva, pois ela
transcende este campo. Tampouco é possível considerá-la tão
somente dança, ou reduzi-la a uma modalidade de ginástica. Sua
prática tem eficácia terapêutica, porém ela não se reduz a terapia.
Do mesmo modo, ela propicia recursos de educação física, porém
não é só educação física.
A tentativa de submeter a capoeira ao ordenamento dos Conselhos
de Educação Física impondo, a partir daí, uma regulamentação
arbitrária da profissão de Mestre Capoeirista foi um atentado grave
contra a liberdade de criação e de prática cultural do povo brasileiro.
Representou o ensaio de um verdadeiro esbulho, um ataque aos
direitos de criadores de cultura. E ainda mostrou incompreensão do
caráter polivalente da manifestação que assim se pretendeu enquadrar. Trata-se de uma atitude obscurantista e persecutória,
que os capoeiristas repudiaram com toda a razão. 11
Sabe-se que no seu começo a capoeira sofreu uma forte repressão,
motivada, acima de tudo, pelo fato de constituir uma arma dos
escravos, cuja eficácia os senhores temiam. Ao ser abolido
oficialmente o regime da escravatura, isso não terminou. 12 Alegava-
se que a capoeira era arma de marginais. E se considerava
marginal, por definição, quem a praticava... Na verdade, seus
cultores eram sistematicamente empurrados para a margem da
sociedade.
Isso tem a ver com o racismo. Por muito tempo, moveu-se aqui uma
verdadeira guerra a todas as manifestações culturais negras. Nessa
onda, foram martirizados pacíficos sacerdotes do culto do
candomblé e perseguiu-se tenazmente o samba, por exemplo.
Quem se der ao trabalho de consultar jornais antigos da Bahia, das
primeiras décadas do século passado, há de encontrar artigos e
cartas de leitores em que figuras emproadas protestam com furor
contra a existência de afoxés e cordões carnavalescos formados por
gente de cor. Nessas páginas se erguem clamores contra o
"escândalo" dos batuques mais inocentes, ou das cerimônias
religiosas dos abaçás; nelas se afirma que essas coisas
prejudicavam nossa imagem aos olhos dos estrangeiros. Tudo
quanto é manifestação da produtividade cultural dos pretos e pardos
se descreve aí como barbárie e impureza a ameaçar "os nossos
foros de civilização".
Depois o preconceito mudou de forma. A capoeira passou de
"bárbara" a "exótica"; deixou de ser um "escândalo" para tornar-se
uma "curiosidade". Encontraram-se meios de usá-la de forma
tranquila e barata, sem a devida compensação para os que a
cultivam e preservam dedicando-lhe a vida.
Sem dúvida, houve progresso: no plano oficial, ela deixou de ser
preocupação dos órgãos de segurança para se constituir em assunto dos Departamentos de Folclore. Passou a ser tratada de
forma paternalista no âmbito da política cultural, reduzida a modesto
chamariz turístico.
Em nossa Baía de Todos os Santos, mestres que dedicaram toda a
sua vida à capoeira praticamente morreram à míngua; suas
academias, que além de centros esportivos são poderosas agências
de produção cultural e núcleos educativos populares onde uma
pessoa pode ter desde a iniciação artística ao preparo atlético raras
vezes contam com o merecido apoio.
Um fato demonstra a incúria e o descaso com que ela tem sido
tratada aqui: a espantosa diáspora de grandes capoeiristas baianos
e de outras partes do Brasil que em sua terra não acharam apoio,
mas encontraram acolhida e tiveram sucesso no exterior –
principalmente na Europa e nos Estados Unidos da América.13
Um grande passo foi dado para acabar com essa crônica injustiça
através de uma iniciativa do IPHAN, que em 2008 efetivou o registro
da capoeira como bem cultural integrante do chamado "patrimônio
imaterial" brasileiro. Um trabalho desenvolvido ao longo dos anos de
2006 e 2007 por uma equipe interdisciplinar formada por
pesquisadores de três universidades federais (UFBA, UFPE, UFRJ)
e do próprio IPHAN produziu um rico inventário que serviu de base a
esse registro. A reunião do Conselho Consultivo do IPHAN que o
deliberou reuniu-se, para tanto, no Palácio Rio Branco, em Salvador,
no dia 15 de julho de 2008. Este fato significou também o
reconhecimento de que a Baía de Todos os Santos é um fecundo
berço da arte da capoeira. E de outras que se lhe relacionam.
Passaremos a uma delas.
...
O samba de roda é uma manifestação artística e lúdica que tem seu
nicho principal na orla da Baía de Todos os Santos, e em todo o
Recôncavo baiano. Mas seu raio de influência é muito amplo: levado
para o Rio de Janeiro por migrantes oriundos dessa região,
floresceu na chamada "Pequena África" carioca, onde acabou por tomar o nome de samba de partido alto. Era praticado nos terreiros
de baianas famosas, como a inesquecível Tia Ciata. Por conta de
seu prestígio e influência nos meios populares, estas senhoras eram
conhecidas como "mulheres de partido alto". Elas tiveram influência
decisiva na formação de toda uma cultura musical que marcou o Rio
de Janeiro; seus filhos e amigos foram os criadores das primeiras
Escolas de Samba, onde até hoje se cultiva o "partido alto" e as
famosas "alas das baianas" homenageiam suas primeiras
mestras. 14 O samba de roda logo imprimiu sua marca na obra de
grandes compositores populares do Brasil; mas além de dar esses
frutos novos, continuou a florescer na Bahia com sua forma
tradicional. Suas origens mais remotas se acham na África, no
semba angolano.
Esta dança frequentemente se realiza com elementos de ocasião.
Joga com o acaso e o imita. O modo como o grupo de sambadores
se reúne dá a ideia de uma formação espontânea, mesmo quando
já existe uma combinação prévia. De repente, os parceiros se
dispõem em roda e o samba começa... Assim costuma acontecer
numa festa de largo, por exemplo.
Viola, viola machete, violão, pandeiro, ganzá, chocalho, triângulo,
reco-reco, atabaque, são instrumentos clássicos no samba de roda,
que ainda admite cuíca, banjo, cavaquinho... Por vezes, prevalecem
as violas. Que podem ser eletrificadas. Mas a falta desses
instrumentos não constitui obstáculo sério para que o brinquedo se
realize: a rigor, basta que haja disposição para cantar e bater
palmas. Objetos variados costumam transformar-se em
instrumentos nas rodas de samba: caixas de fósforo, pequenos
pedaços de madeira percutidos um contra o outro, prato e garfo cuja
raspagem faz um som festivo, faca e garrafa de cerveja, de tinido
alegre...
Assim como os instrumentos podem ser improvisados, as cantigas
também, pelo menos em parte. São muitas aquelas em que frases
novas têm de ser criadas para combinarem-se a um refrão.
Na verdade, a roda de samba é um pequeno laboratório musical, de
onde sempre surgem novidades. E embora existam passos
característicos, como o miudinho e o corta-jaca, por exemplo, o
improviso coreográfico é comum nesse desempenho.
Os componentes do samba de roda, enquanto se mantêm na
circunferência que formam, movem-se com leves balanços no ritmo
que produzem; revezam-se no centro, geralmente em solos. O
dançarino destacado, ao concluir sua performance, faz a invitação a
um outro, escolhido por ele a seu critério, com um gesto tradicional,
a "umbigada" (que pode ser apenas simulada) ou uma espécie de
vênia. Também sucede duas pessoas ocuparem a roda e
executarem um animado dueto coreográfico. 15
Como os dançarinos, as cantigas, em que uma frase (ou estrofe)
central (às vezes chamada de chula) é cercada por estribilhos,
sucedem-se caprichosamente, sem ordem preestabelecida.
Espalham-se num jogo de antífonas. Suas letras, muito curtas,
sugerem relances de um mundo vislumbrado entre cintilações, onde
as imagens se acendem e apagam num imprevisível limbo musical:
a labareda que corre, o rumor de folhas secas, um moinho
queimando, a senhora que limpa a colher na barra da saia, o apelo
do bezerro faminto... Às vezes, encerram pequenas anedotas: uma
aparição no mato, a encomenda de um impossível balaio de cascas
de camarão... um jogo de baralho às portas dos mortos...
Instantâneas figuras que se perderiam da retina ou ficariam cegas
na opacidade do trivial salvam-se pelo milagre órfico de uma
melodia que as faz brilhar com a graça do novo. Corresponde a
esses flashes líricos a constante renovação dos dançarinos, que
também "abrem a roda" para pessoas que se aproximam com
evidente disposição de sambar. Trata-se de um brinquedo criativo e
acolhedor, em que se misturam música, dança e poesia... Uma arte
coletiva, ao mesmo tempo simples e refinada. Já estava a merecer
um reconhecimento que finalmente veio: em outubro de 2004, o
samba de roda do Recôncavo baiano foi inscrito no Livro das
Formas de Expressão do Patrimônio Imaterial do Brasil. E em 25 de
novembro de 2005, o samba de roda foi incluído pela Unesco na Terceira Declaração das Obras Primas do Patrimônio Oral e
Imaterial da Humanidade.16
...
Neste ponto, convém voltar um pouco atrás. Falamos do grande
calendário festivo da Baía de Todos os Santos, fizemos referências
a alguns episódios marcantes, singulares, de seu curso
movimentado e passamos a assuntos conexos. Mas não podemos
deixar de fazer referência aqui à mais espetacular e célebre festa
realizada nessas plagas: o carnaval soteropolitano, hoje
reconhecido pelo Guinness Book of Records como a maior festa
campal do mundo. Falou-se até em dois milhões e setecentos mil
participantes no ano de 2009 (quiçá contando os envolvidos, de uma
maneira ou de outra, no curso total da grande festa, desde seus
prelúdios). Segundo algumas estimativas, no dito ano vieram à
capital baiana participar da grande folia cerca de quatrocentos e
cinquenta mil pessoas, tanto de diferentes pontos do país como de
diversos países estrangeiros. Os números parecem exagerados...
Seja como for, o afluxo de turistas em Salvador nessa época é
mesmo espantoso. Hoje ninguém ignora o gigantismo do carnaval
baiano, que dura uma semana (sem contar os ensaios e outros
preliminares por todo o verão).
A folia de Salvador extrapolou, há muito, o contexto que outrora
integrava, canibalizou festas que a precediam e de que antes
recebia incremento, derramou-se por novos espaços, chegou a
transcender limites de tempo e lugar (teve seu modelo difundido,
propagado, "exportado" para outros domínios e estações festivas).
Alcançou, assim, novas dimensões. A partir das últimas décadas do
século passado, tornou-se campo de investimentos que injetaram no
seu corpo – em princípio consagrado ao ócio festivo – poderoso
negócio: de show biz, publicidade e marketing. A superfesta atraiu
empresas desejosas de expor suas marcas em um evento que
reúne multidões e é transmitido pela tevê não só para todo o Brasil
como para muitos outros países; elas não demoraram a interessar-
se pela oportunidade de usar um cenário entusiástico amplamente exposto como recurso de atração e fidelização de clientes, de
incremento de suas vendas. Por outro lado, isso fez com que
profissionais do carnaval procurassem organizar-se
empresarialmente. Promoters passaram a ter um destacado campo
de ação na grande festa popular. E constituiu-se uma indústria
carnavalesca, com empresas especializadas na produção de trios
elétricos e equipamentos correlatos.
Acresce que, há muito, o carnaval soteropolitano tem reclamado
significativo investimento público. Está a requerer – com premência
cada vez maior – um esforço sério de policy making, o desenho de
uma estratégia especial dos poderes públicos para sua preparação
e ordenamento; constitui uma inescapável preocupação de
diferentes instâncias e órgãos de governo. É um grande desafio
para urbanistas, administradores, economistas, sociólogos e
políticos.
As mudanças mais recentes na configuração do carnaval
soteropolitano têm muito a ver com sua transformação em um
grande espetáculo televisivo. A escolha dos cenários privilegiados
da Barra e do Campo Grande para a concentração das câmeras
alterou o equilíbrio dos circuitos: hoje a folia esfriou na Avenida Sete
e o velho 17 point da Praça Castro Alves deixou de ser um seu fulcro.
Os espaços onde a animação é maior na Salvador carnavalesca
vêm a ser os que a TV prefere. Aí se implantam os camarotes, que
alteraram significativamente a paisagem carnavalesca da metrópole
baiana. Alguns deles são espaços requintados, com equipamentos e
serviços múltiplos (mirante, lounge, salas de massagem, salão de
beleza, posto médico, webzone, lanchonetes, bares, restaurante,
palco para apresentações e espaços reservados à dança,
televisores, telões etc.); podem ser descritos, à peu près, como
pequenos clubes provisórios, voltados para a rua, oferecendo a
visão do cortejo gaiato em ambiente de refinado conforto e com
ineludíveis marcas de alto status; assim viabilizam ostentação de
prestígio, fruição consumerista e o precioso sentimento de uma
seletividade que distingue seus ocupantes da massa contemplada
— além de oportunizar o contato com celebridades midiáticas.
A rigor, o carnaval baiano sempre foi dividido assim. Os camarotes
representam o retorno dos clubes, ainda que tornados mais
próximos da festa de rua, debruçados sobre ela; se a conquista
popular das praças e avenidas marcou significativamente a folia
baiana, vencendo uma resistência séria e até, em certos momentos,
uma forte repressão (como sucedeu outrora com afoxés e
batucadas de pretos, "blocos de índio", grupos de folia da gente
pobre), o espaço carnavalesco da cidade continua disputado; a festa
reflete e reproduz clivagens que marcam de modo expressivo uma
sociedade profundamente desigual.
A novidade é que os camarotes e os chamados "blocos de gente
bonita" tomaram grande parte do terreno da folia popular. Na
ocupação foliã das avenidas prevalecem, hoje, grupos de classes
média e alta. Isso ocorre apesar do charme étnico dos blocos afros,
do encanto que provoca o consagrado afoxé Filhos de Gandhi, do
sucesso das invenções de Carlinhos Brown e de revivals
encantadores como o ressurgimento, na Cidade Baixa, do Jegue de
Cueca e de seu romântico encontro com a Jega de Calçola. Em que
pese, também, a obstinação da Mudança do Garcia, o humor das
Muquiranas e congêneres, tem-se a impressão de que o carnaval
baiano está a distanciar-se de suas matrizes populares, de seu
próprio nicho originário.
Claro, o povão também participa. Sem ele, o carnaval morreria...
Mas hoje sua presença parece ter maior vulto nos trabalhos
carnavalescos, na disputa dos famosos duzentos e vinte mil
empregos da festa, ou no comércio de bebidas e comidas
oferecidas na rua, onde famílias inteiras acampam de modo precário
nos dias de Momo. Os trabalhadores e comerciantes pobres
auferem lucros mínimos de seus sacrifícios e fadigas; mas há quem
lucre muito com a folia da metrópole baiana, onde se verifica hoje
uma fantástica concentração da renda carnavalesca em mãos de
grupos privilegiados.
Em Salvador, essa festa tem proporções gigantescas, fama
internacional, impacto imenso; porém há outros carnavais na Baía de Todos os Santos – bem menores, claro está, mas com
características muito interessantes. Destaca-se o de Maragogipe,
pela beleza das fantasias dos grupos mascarados: são famosas por
sua bizarria as máscaras do Recôncavo.
Figura 9, 10, 11 e 12 – Carnaval de Maragogipe.
Fotos: Xavier Vatin.
O grande invento carnavalesco baiano dos trios elétricos invadiu e
modificou muitas festas populares, carnavalescas e outras, em toda a orla da BTS. Essa invasão foi por vezes destrutiva. No entanto,
ainda surgem novidades desse espaço criativo...
Porém é tempo de passar a outro ponto.
...
O Itinerário Cultural da Foz do Paraguaçu é objeto de um novo
interesse do IPHAN, que aí reconheceu
[...] um contexto singular, formado por igrejas, aquedutos,
fortificações, núcleos urbanos e rurais de expressivo valor
cultural, onde se manifesta ainda um extraordinário patrimônio
naval, formado pelos famosos saveiros e canoas baianas, e
expressões culturais únicas relacionadas às tradições de
origem africana, como o candomblé, o samba de roda e uma
culinária peculiar, estabelecendo uma rota que propiciou
importantes intercâmbios na região e desta para o mundo.18
Esse Itinerário incipiente deve cobrir apenas um segmento da
grande área da Baía de Todos os Santos. Imagine-se agora um
trabalho dessa natureza que pretenda envolvê-la toda... Trata-se de
coisa muito necessária, sem dúvida. Aqui, só podemos esboçar-lhe
o desiderato.
Basta uma breve consulta ao excelente Inventário de Proteção do
Acervo Cultural da Bahia (IPAC/BA) para fazer ideia do rico acervo
monumental existente na área.19 E o que agora se chama de
"patrimônio imaterial" já exige um novo inventário dessa natureza
para a BTS. Por exemplo, faz-se necessário um estudo muito longo
e cuidadoso para dar conta da grandeza da produção artística nesse
âmbito. Sem falar do seu rico artesanato [...]20
...
O Estado da Bahia foi objeto de um mapeamento linguístico pioneiro
no Brasil: o Atlas prévio dos falares baianos (APFB) foi a primeira
obra deste teor a ser realizada em nosso país, tendo-se concluído em 1963; já permitia uma caracterização do perfil dialetal da região
aqui considerada.21 Espera-se do Projeto Atlas Linguístico Brasileiro
(ALiB), iniciativa nascida na Universidade Federal da Bahia, um
aprofundamento dessa visão.
No campo etnolinguístico, estudos específicos de grande
importância têm sido realizados por Yeda Pessoa de Castro (2001),
que focalizou especialmente os falares africanos na Bahia. Serra
(1988, 1991) chamou a atenção para a importância do que chamou
de "textos-monumentos" conservados na tradição oral dos terreiros
baianos como repositório de extensas composições orais, preciosas
relíquias de línguas africanas conservadas em discursos complexos,
"cristalizados", ou seja, de composição formular; mas esses textos
ainda não foram objeto de estudos etnolinguísticos. Também os
dialetos dos terreiros esperam por estudos mais aprofundados.
Há levantamentos e estudos preciosos concernentes à literatura oral
da área da BTS (e de todo o Estado da Bahia), com farto registro
documental. Merecem destaque os trabalhos realizados no
horizonte do Programa de Pesquisa e Estudo de Literatura Popular
do Instituto de Letras da UFBA, fundado pelas Professoras Doralice
Xavier Alcoforado e Maria del Rosario Alban. Nesse contexto, tem
grande relevância o levantamento feito pelas referidas estudiosas e
por sua equipe do Romanceiro Tradicional em Salvador.
O cordel floresceu e floresce na região em apreço, onde muito se
destacaram, entre outros, o famoso Cuíca de Santo Amaro e outros
mestres do gênero, como Rodolfo Coelho Cavalcante e Antônio
Vieira; na atualidade se distinguem Antônio Barreto, Franklin
Machado e Bule Bule (Antônio Ribeiro da Conceição), mas há vários
outros cordelistas importantes. Tem sede em Salvador, no bairro de
Dom Avelar, próximo a Pirajá, a Ordem Brasileira dos Poetas da
Literatura de Cordel.
Na década de 1980, a pesquisadora Edilene Matos foi responsável
pela criação do Núcleo de Pesquisa de Literatura de Cordel da Fundação Cultural do Estado da Bahia, que hoje conta com um
precioso acervo de folhetos.
Em 2009, cento e um cordelistas e trovadores populares foram
convidados a participar da Nona Bienal do Livro na Bahia; a eles se
destinou, então, uma Praça de Cordel e Poesia.
A dramatização do Cordel na Bahia remonta aos tempos
memoráveis do Teatro dos Novos, liderado por João Augusto de
Azevedo Filho entre 1959 e 1979. Continua a florescer no Teatro
Vila Velha, herdeiro dessa tradição.
...
Não queremos arriscar-nos a falar, em tão reduzido espaço, da
riqueza do cabedal coreográfico da BTS. Eis um mapeamento que
ainda está por ser feito... A vocação dançarina do povo baiano é
bem conhecida e já deu frutos esplêndidos. A história luminosa do
Balé Folclórico da Bahia demonstra a opulência de um acervo
tradicional em grande medida constituído na BTS. A interação entre
as virtualidades deste acervo e o repertório erudito introduzido pelos
criadores da Escola de Dança da UFBA constituem, sem dúvida, um
fator do sucesso exponencial desta instituição.
...
Aqui destacamos criações populares, muitas das quais anônimas;
porém deve-se ter em mente que no amplo entorno da Baía de
Todos os Santos (e não apenas em Salvador) têm florescido
inúmeros artistas plásticos, músicos e escritores de reconhecido
valor e grande nomeada. Movimentos culturais da máxima
importância para o Brasil inteiro tiveram aqui seu berço, ou uma de
suas fontes – como é o caso, por exemplo, do Tropicalismo e do
Cinema Novo. Ou antes disso, do Modernismo Nordestino, cuja
força e singularidade se fizeram notáveis tanto na Literatura quanto
nas Artes Plásticas. Recorde-se ainda que Salvador foi o epicentro
de uma revolução da música erudita brasileira, impulsionada pela
Escola de Música da UFBA, ao tempo em que no mesmo nicho sucedia uma renovação extraordinária das artes cênicas e da dança
moderna.
A propósito, convém observar que as artes, ofícios e saberes
populares florescentes na região costumam nutrir a produção
erudita, que muito recorre a esse thesaurus – uma fonte que
também alimenta os circuitos "pop" ligados aos meios de
comunicação de massa e deles recebe um constante feedback.
Cabe esperar novas florações dessa cepa em função da criação de
novos núcleos institucionais difusores de cultura na região. Quanto a
isso, cabe dar destaque ao promissor impacto da implantação da
Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, e particularmente ao
de seu Centro de Artes, Humanidades e Letras, localizado no cidade
de Cachoeira.
Não se pode esquecer que a região da BTS mantém contacto com
muitas outras, sofre o efeito da globalização, recebe aportes de
diversas origens. Sua dinâmica cultural é muito rica e acelerada.
Isso não vale apenas para Salvador. Nas cidades do Recôncavo,
festeja-se Halloween e venera-se Michael Jackson, presta-se culto a
Jah e Ogunjá, compõe-se reggae, chorinho e música erudita, dança-
se arrocha, quadrilha e rock... Releituras desses ritos, modas e
estilos estão sempre acontecendo. A criatividade dos ribeirinhos da
Baía de Todos os Santos é bem conhecida... Resulta muito amplo o
espetro de suas "manifestações culturais".
Fantástica encruzilhada de povos e civilizações, berço histórico e
cultural da nação brasileira, o Recôncavo da Baía de Todos os
Santos, apesar das vicissitudes da história passada e presente,
possui a mesma força e sabedoria inabaláveis que o povo-de-santo
– um povo que, perseguido durante séculos e até hoje, soube
preservar e reinventar as suas tradições, absorvendo e
transfigurando divindades, cantos, ritmos e crenças. Tal aptidão
insufla um vigor extraordinário a este sistema cultural em constante
metamorfose, para o qual os cânones da ortodoxia e os sonhos de
pureza não passam de uma miragem insensata.
Expressão simbólica deste sistema mestiço feito de branchements
múltiplos – para retomar aqui o conceito utilizado por Amselle (2001)
–, as "manifestações culturais" do Recôncavo da Baía de Todos os
Santos, a exemplo do candomblé e do recente movimento "afro-
barroco", continuarão certamente oscilando eternamente entre uma
mestiçagem cultural abertamente assumida e a recriação militante
de uma África mítica, ao mesmo tempo próxima e longínqua, entre
"modernidade" e "tradição", entre barroco e classicismo.
Enquanto isso, de suas raízes múltiplas, o Recôncavo da Baía de
Todos os Santos faz a cada dia brotar novas flores mestiças, cujo
aroma mescla o cheiro da terra de onde tiram seu suco às
fragrâncias inéditas de suas pétalas multicoloridas: tal mistura exala,
com uma força suave, o perfume inefável da vida.
...
Tocamos aqui em um problema que tem relações com o título de
nosso escrito. "Manifestações culturais" pode significar muita coisa.
Subjacente à expressão se acha o conceito de cultura, que continua
a ser problemático. Até se pode fazer uma história da Antropologia
acompanhando o movimento oscilante e multímodo das cogitações
a esse respeito – um movimento que envolve não só as inúmeras
propostas de definição de cultura como também as tentativas de
fazer-lhes uma síntese, ou chegar a seu mínimo denominador
comum... e ainda as revisões desse processo, culminando com as
reiteradas propostas de rejeição do conceito e suas também cíclicas
reafirmações, ou seja, o exercício, que parece infindável, de quantos
se afanam writing against ou, ao contrário, for culture. (BRUMMAN,
1999)
Essa correnteza turbulenta trouxe e traz inegável novidade: no seu
curso, entre outras coisas, os antropólogos redimensionaram uma
ideia de cultura bem mais antiga que sua disciplina. Mas muita
gente tem dificuldade em diferenciar da noção que a antecede a
inacabada – talvez inacabável – (re)construção antropológica.
Outro embaraço se verifica quando, por causa da homonímia mal
percebida, vem a confundir-se com categorizações similares,
surgidas ou cultivadas extramuros da antropologia, um
"fundamental" conceito antropológico de cultura – o mais simples e
amplo, que a faz corresponder ao comportamento aprendido e a
toda elaboração humana efetuada a partir desta base. (SERRA,
1991)
Neste pequeno ensaio, falamos de "manifestações culturais" como
antropólogos; mas não nos reportamos ao sentido amplo do termo
"cultura" que a nossa disciplina consagrou. Antes restringimos a um
campo muito específico o nosso uso do termo e do adjetivo
derivado. Tratamos, fundamentalmente, da esfera da produção
simbólica, mas sem a pretensão de dar conta de tudo: neste campo
destacamos um repertório de ritos coletivos e um acervo que
interessa à etnomusicologia. Mas sustentamos que cultura,
enquanto campo de promoção de valores e aperfeiçoamento
humano, tem a ver ainda com o fomento da criatividade e o avanço
dos saberes; além disso, julgamos nós, também lhe concerne a
aplicação do conhecimento à melhoria da qualidade de vida do povo
e à preservação do meio ambiente.
Não temos aqui espaço para tratar do saber acumulado sobre a
Baía de Todos os Santos. Não pouco se tem produzido a esse
respeito, graças aos esforços de geógrafos, geólogos, historiadores,
sociólogos, economistas, urbanistas, biólogos, ecólogos,
antropólogos. Mas o tesouro de conhecimento assim acumulado
permanece, em grande medida, ignorado no processo de policy-
making relativo à região.
Comecemos por Salvador, a grande metrópole que seus gestores se
recusam a tratar como metrópole. Por mais que insista a sociedade
civil organizada, os governantes fazem ouvidos moucos e fecham os
olhos à absoluta necessidade de elaborar um plano diretor
metropolitano que dê orientação sistêmica e de longo prazo à
dinâmica de seu desenvolvimento. O chamado PDDU de Salvador
ignora a Região Metropolitana da capital baiana. A rigor, não é plano, nem diretor, pois lhe falta base técnica; descura inteiramente
a problemática urbana. E tampouco se preocupa com
desenvolvimento: sequer tem o alcance de uma visão de longo
prazo. Foi feito apenas para atender à ganância imobiliária, que em
tudo prevalece nesta urbe. O estado miserável de Salvador reflete o
obscurantismo de uma política divorciada do interesse público.
Jorge Amado certamente lamentaria muito se pudesse ver o estado
atual de sua querida cidade, profundamente desfigurada. São
gritantes os sintomas do colapso urbano de nossa metrópole:
estrangulamento viário, falência do sistema de transportes, redução
progressiva da mobilidade urbana; crise habitacional, favelização
crescente, aumento dramático da pobreza e da desigualdade (em
que Salvador é uma triste campeã, com escandalosa concentração
de renda); precarização das condições de trabalho, incremento
crônico do desemprego, do subemprego e da informalidade; surtos
epidêmicos ameaçadores; escalada feroz da violência, a dizimar,
principalmente, a juventude negra das áreas periféricas; expansão e
consolidação do crime organizado; avanço do turismo sexual e do
abuso contra menores; gigantesco desmatamento, com redução
galopante das áreas verdes; aterro de lagoas e sepultamento de rios
urbanos; poluição exacerbada de fontes e mananciais, das praias e
do mar; ausência de coleta seletiva, de tratamento e reciclagem do
lixo; acelerada degradação ambiental. Acrescente-se o descalabro
da falta de políticas públicas que enfrentem seriamente esses
problemas e o escandaloso tratamento dispensado ao espaço
urbano, visto apenas como mercadoria a negociar.
O mesmo se passa com toda a Região Metropolitana de Salvador
(RMS), onde há municípios de renda muito elevada com população
miserável.
A rigor, a RMS vem a ser uma espécie de ficção jurídica, porquanto
não existe planejamento nem política que a contemple seriamente
como região.
Segue o divórcio absurdo entre a metrópole e seu entorno natural.
No belo panorama da Baía de Todos os Santos, celebrado com
tanto lirismo por nosso grande escritor, registra-se o descontrole de
atividades industriais, sem respeito para com o ecossistema;
constata-se o envenenamento crescente do fundo do mar por
mercúrio e chumbo; cresce a poluição atmosférica ao compasso da
destruição infrene da mata atlântica. E salta aos olhos o
empobrecimento da população, com baixo índice de
desenvolvimento humano, qualidade de vida cada vez mais
precária.
Tudo isso acusa o baixo nível da nossa cultura política, ainda muito
acanhada. Diante de um quadro como este, Jorge Amado, que
sempre denunciou a opressão de seu povo e a ganância dos
poderosos, por certo não se limitaria ao lamento indignado. Reagiria
com muita luta.
Para começar, certamente apelaria às imensas reservas de energia
de seu povo, evocando o poderoso cabedal de esperança que
alimenta sua arte, seus sonhos, suas festas.
É o que agora nos importa fazer.
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de Janeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar: UFRJ, 2001.
SERRA, O. Dois estudos afro-brasileiros. Salvador: Edufba, 1988.
_____. O simbolismo da cultura. Salvador: Edufba, 1991.
_____. Rumores de Festa. Salvador: Edufba, 2009.
SUTHERLAND, P. In memory of the slaves. In: RAHIER, J.
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TAVARES, O. Bahia, imagens da terra e do povo. Rio de Janeiro:
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VATIN, X. Rites et musiques de possession à Bahia. Paris:
L'Harmattan, 2005. VIANNA, H. Calendário das festas populares da
Cidade do Salvador. Salvador: Secretaria Municipal da Educação e
Cultura, 1983.
1 Mesmo o carnaval tinha relação com o curso do ano litúrgico
delineado pela Igreja Católica, oposto como era esse período ao da
quaresma: bem o indicava o rito da Quarta-Feira de Cinzas.
2 Ele fala de Salvador, mas sua observação se aplica, de maneira
plena, a todo o entorno desta metrópole, à orla da Baía de Todos os
Santos – Recôncavo baiano inclusive.
3 No campo da etnomusicologia, a obra de Gilbert Rouget, La
Musique et la Transe: esquisse d'une théorie générale des relations
de la musique et de la possession, publicada em 1980, constitui uma
referência fundamental, cuja tradução ainda faz falta no Brasil.
4 Tal fenômeno de autoindução da possessão poderia levar a
aproximar esta prática do xamanismo. Este exemplo mostra que
práticas que foram por muito tempo tidas por diametralmente
opostas pela abordagem estruturalista – possessão e xamanismo –
possuem provavelmente tantas características comuns quanto
divergências profundas.
5 Assim como viajam para o Brasil para participar da Festa da
Irmandade da Boa Morte, os turistas afro-americanos participam
também de outros eventos que reificam e/ou recriam tradições
africanas. O Festival do Vodu, organizado na praia de Uidá, no
Benin, por uma facção tradicionalista de sacerdotes e reis, constitui
um desses exemplos. O antropólogo Peter Sutherland, que
pesquisa o evento, afirma que o festival desenvolve o conceito de
consciência diaspórica para enfatizar o valor local da herança
tradicional. Para tanto, o festival apresenta a cultura do vodu em um
contexto transnacional e representa o Benin como o lar dos irmãos
da diáspora e como a fonte da cultura diaspórica das Américas.
(SUTHERLAND, 1999)
6 Citemos aqui um trecho de um artigo on-line de propaganda
institucional do Ministério do Turismo, na ocasião da visita de
Condoleezza Rice na Bahia, em 2008: "A secretária de Estado
norte-americana, Condoleezza Rice, manifestou "encantamento"
com a cultura brasileira ao passear hoje por monumentos históricos
de Salvador, em companhia dos ministros do Turismo, Marta
Suplicy, e da Cultura, Gilberto Gil, e do governador da Bahia,
Jaques Wagner. Ao tomar conhecimento das 'propostas para
aumentar o intercâmbio entre afro-descendentes brasileiros e norte-
americanos' [grifos nossos], Rice disse que está vendo com muito
interesse o projeto de incentivo ao turismo étnico-afro, desenvolvido
em parceria entre o MTur e o governo baiano, e prometeu fazer
propaganda do Brasil e da Bahia nos Estados Unidos".
("Condoleezza Rice vai fazer propaganda do turismo étnico do
Brasil e da Bahia nos EUA". Ministério do Turismo. Portal Brasileiro
do Turismo, 14 mar. 2008). Disponível em:
http://www.turismo.gov.br/portalmtur/opencms/institucional/noticias/a
rquivos/ministra_vai_a_bahia_conversar_com_condoleezza_rice_so
bre_acaes_do_mtur_para_promocao_do_turismo_etnico.html.
7 A título de exemplo significativo dessas disparidades, basta
mencionar a extrema dificuldade de se conseguir um visto de turista
do Brasil para os Estados Unidos.
8 Esgrima com uso de facas, facões, porretes, navalhas. Quanto às
táticas de confronto, recordem-se as lições de Mestre Bimba: na
fase mais avançada da preparação dos seus alunos, antes da
formatura, estes deviam aprender a prevenir-se contra emboscadas.
As táticas de luta (e de fuga) no sistema da capoeira costumam ser
designadas pelos praticantes como um "aprendizado da malícia".
Não envolvem apenas esquivas e golpes. Compreendem também (e
principalmente) o manejo de atitudes de cautela, uma "leitura"
preventiva de situações de perigo, estratégias hábeis para enganar
eventuais adversários e para fugir de enganos dessa ordem. Uma
espécie de pequeno treino tático, ritualizado, ocorre com
regularidade no jogo da capoeira com a sequência chamada
engodo, que também pode ser elaborada em ensinamentos mais
complexos. Quanto aos tipos de esgrima, basta lembrar o "jogo de
faca" e o "jogo de porrete" da capoeira. Este tem um parentesco
evidente com o maculelê.
9 Recentemente, dois jovens baianos, Sandra Santana e Alex
Ribeiro, que se dedicaram à pesquisa e ao ensino da capoeira,
ministraram, na Europa, cursos e oficinas de sua arte, em
prestigiosas instituições como a escola de dança londrina The
Place, onde tiveram entre seus alunos os mais aplicados
profissionais da ribalta, interessados em aperfeiçoarem-se na
expressão corporal para atuarem como clowns. Não foi só em
escolas de teatro brasileiras, portanto, que já se advertiu e propagou
esta aplicação teatral, dramática, das técnicas capoeirísticas.
10 Os saudosos mestres Canjiquinha e Caiçara costumavam
encenar confrontos que eram pequenas comédias, estruturadas
com grande inteligência e destreza.
11 Ver a propósito a Carta de Campinas, síntese de discussões e
decisões democraticamente tomadas no I Seminário Nacional de
Estudos sobre a Capoeira (SENECA), realizado em Campinas nos
dias 7, 8 e 9 de maio de 2004. Disponível em:
<http://www.capoeiradobrasil.com.br/Carta%20de%20Campinas.htm
>.
12 O Código Penal da República, de 1890, colocou expressamente a
capoeira na ilegalidade.
13 A capoeira é hoje praticada em todos os continentes, em mais de
150 países.
14 Sobre o samba carioca e suas relações com o samba de roda
baiano, ver Moura, 1983 e também Sandroni, 2001.
15 Para uma descrição de diferentes modalidades de samba de
roda, assim como de seus "usos" sagrados e profanos ver Serra,
2009.
16 O dossiê do registro do samba de roda do Recôncavo baiano foi
realizado em Recife, em Salvador e no Recôncavo da Bahia, sob a
coordenação do Professor Carlos Sandroni, da UFPE e presidente
da Associação Brasileira de Etnomusicologia no período 2002-2004.
Integraram a equipe responsável as etnomusicólogas Katharina
Döring (UNEB) e Francisca Marques, presidente da Associação de
Pesquisa em Cultura Popular e Música Tradicional do Recôncavo,
além do antropólogo Ari Lima, professor da Universidade de
Tecnologia e Ciência, da professora Suzana Martins (UFBA) e do
documentarista Josias Pires, professor da Faculdade Dois de Julho.
Colaboraram a historiadora Wlamyra Albuquerque (UEFS) e a
pesquisadora Maria Goretti de Oliveira. Um Plano de Salvaguarda
do Samba de Roda do Recôncavo foi também elaborado pelo
IPHAN. (Ver BRASIL, 2006) Nos levantamentos feitos até agora
aparentemente não foi feito registro da modalidade de samba de
roda conhecida como "bagaceira" ou "samba de putaria", a que
apenas Serra (2009) faz referência.
17 No Centro Histórico, o Pelourinho tornou-se foco de um carnaval
"alternativo", a que acorrem, sobretudo, pessoas maduras, famílias
com crianças, gente saudosa de tradições carnavalescas "antigas",
desejosas de brincar de um modo mais sossegado: lá se
concentram mascarados e se faz ainda uma decoração momesca
(coisa que se passou a "economizar" nos outros espaços da festa,
em vez disso pontilhados por cartazes publicitários).
18 Disponível em:
<br/site/conteudo/downloads/arquivos/arquivo386/ITINERARIOS%2
0CULTURAIS%20FOZ%20RIO%20PARAGUACU.pdf>.
19 Confira o Inventário de Proteção do Acervo Cultural. (BAHIA,
1984).
20 Na década de 1980, através de convênio entre a Fundação
Nacional Pró-Memória e a Fundação Cultural do Estado da Bahia
realizou-se um mapeamento do artesanato baiano (PROJETO
MAPA). Nesse panorama destaca-se a produção artesanal da área
da Bahia de Todos os Santos. O Instituto Mauá centraliza as
informações sobre o assunto. Todavia já se faz necessário um novo
mapeamento, que muito terá a revelar sobre a dita área. Os
produtos mais conhecidos e afamados da região vêm a ser a
cerâmica de Maragogipinho, de origem indígena e a renda de bilros
da Ilha de Maré. Em novembro de 2008 teve lugar, em Salvador, o I
Encontro do Artesanato Baiano, por iniciativa da Secretaria de
Cultura da Bahia, através do seu núcleo de Artes Populares, em
conjunto com a Secretaria do Trabalho, Emprego, Renda e Esporte,
representada por seu Instituto Mauá, em parceria com CIAGS/
UFBA, SEBRAE, Banco do Nordeste, Banco do Brasil, Overbrand,
SEMEAR, MinC/IPHAN/MONUMENTA e Secretaria de Turismo do
Estado da Bahia. Consoante proposta elaborada nesse encontro,
implantou-se um Comitê Gestor do Artesanato Baiano com o
objetivo de construir um Plano de Ação e Políticas de Articulação
Territorial para o Desenvolvimento do Artesanato na Bahia.
21 Ver a propósito Rossi e outros (1963). Para a caracterização
segundo este viés da região da BTS, considerar as áreas 91 e 93.
Ver a propósito Aguillera (2005, 2006).