Baía de Todos os Santos: aspectos humanos

Carlos Caroso · Capítulo 8 de 23 · parte 1/3

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Baía de Todos os Santos: aspectos humanos

Recôncavo: território, urbanização e arquitetura

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Recôncavo: território, urbanização e

 

arquitetura

 

Paulo Ormindo de Azevedo

 

Até onde vaio Recôncavo?

 

A pergunta acima coloca uma questão conceitual importante, onde

começa e onde acaba o Recôncavo. Acreditamos que não se pode

falar de um só Recôncavo. Como observou Milton Santos, o

Recôncavo foi sempre mais um conceito histórico, que uma unidade

fisiográfica. (SANTOS, 1998, p. 62) Ele variou no tempo, crescendo

e diminuindo em função dos ciclos econômicos, mas deixando uma

herança cultural, material e imaterial, que sobreviveu a estes

mesmos ciclos.

 

Dentro desta perspectiva tentaremos seguir a evolução do

Recôncavo enquanto uma cultura regional formada nas relações de

trabalho escravocrata da agroindústria açucareira, que durou três

séculos e meio, em meio a crises periódicas, mas também

experimentou na segunda metade do século XX o ciclo do petróleo

e da industrialização. Territorialmente esta economia não se

restringiu à área do massapé. Envolvia, também, os tabuleiros do

tabaco, a agricultura de subsistência e a produção de materiais de

construção, no Baixo Sul, e a pesca em todo o litoral da Baía de

Todos os Santos.

 

Mas este sistema se dissolve na primeira metade do novecentos,

com a crise da agroindústria açucareira e a reestruturação das

redes de comunicação e transportes. Durante a segunda metade do

século XX, o Recôncavo inicia outro ciclo econômico, o da lavra do

petróleo e da industrialização, que contempla apenas a região

nordeste da Baía de Todos os Santos. Por entre esses surtos e polos econômicos, sempre existiu uma atividade de subsistência

representada pela pesca, pelo extrativismo, pelo criatório e

agricultura familiar, e pelo artesanato que deu continuidade e caráter

a esta cultura regional. O Recôncavo apresenta, assim, uma grande

diversidade local dentro de uma unidade regional. Unidade que tem

como principais fatores a Cidade do Salvador e a Baía de Todos os

Santos, como observou Costa Pinto (1998; BRANDÃO, 1998a, p.

108).

 

O Recôncavo físico

 

Com o nome de Recôncavo é conhecida desde o século XVII a faixa

de terra formada por mangues, baixios e tabuleiros que contornam a

Baía de Todos os Santos. Um "anfiteatro" com três degraus tendo

como palco a Cidade do Salvador e como "orquestra" a Baía de

Todos os Santos. O Recôncavo é uma região de topografia baixa,

com exceção da zona de Cruz das Almas, onde a altitude média é

de 200m.

 

Geologicamente a região é formada por uma fossa tectônica

preenchida por sedimentos cretáceos que segue em direção NE,

terminando no baixo São Francisco. Esta faixa sedimentar argilosa

ou argilo-arenosa representa 60% da área do Recôncavo e é

limitada a leste pela Falha de Salvador e a oeste pela Falha de

Maragogipe. Os restantes 40% são constituídos por dois maciços

cristalinos. (MATTOSO, 1978, p. 34) Na área de sedimentação

cretácea ocorrem solos argilosos profundos, poucos sujeitos à

erosão, conhecidos localmente como massapés e classificados

como vertsolos.

 

Eles derivam da decomposição do calcário sob clima tropical

úmido.1 São solos de cor escura, muito ricos em materiais

orgânicos, pouco permeáveis, mas que conservam a umidade

durante muito tempo. Estes solos quando úmidos sofrem expansão

e tornam-se muito pesados e plásticos. Quando secos, endurecem e

contraem-se, rachando. Por esta razão são muito difíceis de serem

lavrados mecanicamente. 2

A Baía de Todos os Santos, um antigo vale afogado, apresenta rias,

como o Iguape, e nela deságuam alguns rios navegáveis, como o

Paraguaçu, o Jaguaripe e o Subaé. Foi neste porto natural, situado

no meio da costa brasileira, que os portugueses fundaram, em 1549,

a sede do governo colonial, depois do fracasso de outras tentativas

de colonização do país. A capital administrativa e praça-forte foi

construída no lado interno do maciço cristalino que separa a baía do

Atlântico, na crista da falha de Salvador, tendo a escarpa como

muralha defensiva.

 

O Recôncavo histórico

 

No início, eram os tapuias em volta da baía, depois surgiu a

povoação do Pereira (1536) e a partir de 1549 a cidade do Salvador.

A partir de 1559, os portugueses ampliam seu domínio territorial

através de duas guerras contra os índios e os expulsam de parte

dos vales de Jaguaripe e Paraguaçu para ali introduzirem a cana-

de-açúcar.

 

Menos de quatro décadas depois da fundação de Salvador, Gabriel

Soares de Souza contava no Recôncavo 16 freguesias, 62 igrejas, 3

mosteiros de religiosos, 8 casas de cozer meles, 36 engenhos

moentes e correntes, dos quais 15 eram movidos por bois. Outros

quatro engenhos estavam sendo construídos e a produção de

açúcar ultrapassava as 120.000 arroubas. (SOUZA, 1971, p. 162)

No final do século XVI, o rio Paraguaçu, desde o lagamar do Iguape

até o seu trecho encachoeirado, estava povoado em ambas as

margens.

 

Paralelamente às funções primitivas – administrativa e militar –

crescia a função portuária de Salvador com a exportação do açúcar

e a importação de escravos africanos para produzi-lo e produtos

manufaturados do Reino. Nos terrenos impróprios à cana-de-açúcar,

surgiu uma lavoura ancilar, o tabaco, que era trocado por escravos

na costa da África. Esta lavoura se desenvolveu nos tabuleiros,

entre Cruz das Almas, passando por São Gonçalo dos Campos até

Alagoinhas. Ao lado destas lavouras do tipo plantation system

desenvolveram-se outras de subsistência, especialmente a da mandioca na bacia do Jaguaripe. O Recôncavo canavieiro, aquém

Paraguaçu, dependia enormemente do Recôncavo da subsistência,

além Paraguaçu, para sua sustentação alimentar, produção de

barcos e suprimento de materiais de construção.

 

A destruição da Mata Atlântica para a expansão dos canaviais e

queima de sua madeira nas fornalhas de açúcar foi completa. Uma

legislação de 1688, reforçada em 1701, proibia a criação de gado

em uma faixa de 10 léguas (60 km) da beira-mar e rios para que os

pastos não competissem com os canaviais e lavouras de fumo. No

final do século XVIII existiam na Bahia 276 engenhos.

 

A comunicação de Salvador com seu hinterland se fazia em um

primeiro momento exclusivamente pela baía e seus prolongamentos

naturais, a ria do Iguape e os rios que nela deságuam até o limite de

sua navegabilidade. Gabriel Soares, em 1587, afirma que 1400

embarcações podiam ser facilmente requisitadas no Recôncavo se

o serviço real necessitasse. Todos os que ali viviam tinham seu

barco ou canoa. Os escravos e os pobres comiam quase

exclusivamente farinha de mandioca, peixes e mariscos.

(AZEVEDO, 1982, p. 11-16)

 

Os rios tiveram uma importância relativa como canais de fluxo nesse

imenso território, já que eram navegáveis apenas em pequenas

extensões de seu curso baixo. Mas aos poucos eles vão sendo

continuados por picadas de tropas e boiadas em direção ao sertão e

ao rio São Francisco, onde existiam grandes currais. Seus vales

foram vias importantes de penetração, local de produção agrícola e

criatório e eles próprios força motriz viabilizadora da expansão dos

engenhos e fixação de povoações, muitas das quais sugiram como

pousos de boiadas.

 

No final do século XVII, são elevados a vila os principais portos da

região: Jaguaripe em dezembro de 1697, Cachoeira em janeiro de

1698 e S. Francisco do Conde em fevereiro do mesmo ano.

Curiosamente os termos dessas vilas são as bacias dos rios que

banham essas vilas. O maior desses termos, o de Cachoeira, ia dos

atuais municípios de Santo Amaro, a leste, Santa Barbara e Ipirá, ao norte, Rui Barbosa e Lajedinho, a oeste, e Brejões e Amargosa, ao

sul.

 

A cadeia de produção da agroindústria açucareira não se restringia

à cana, à lenha, ao tabaco, à mandioca, ao peixe e à cachaça.

Incluía também o gado, uma das mais presentes forças motrizes e

de tração nos engenhos e importante fonte de proteína. Este fato e

a proibição de criar gado a menos de dez léguas da baía explicam a

extensão do termo de Cachoeira, que chegava até ao sopé do

planalto, depois conhecido como Chapada Diamantina. Entendido

desta forma, o Recôncavo, no século XVIII, chegava até a encosta

da Chapada Diamantina.

 

No início do século XIX, o Recôncavo se expande novamente. Os

terrenos dos engenhos de "borda d'água" estavam cansados e

faltava lenha para aquecer suas fornalhas. Engenhos grandes com

mil tarefas tinham apenas 30 a 60 cultivadas Questões de sucessão

e herança complicavam também a produção. Surgem assim

engenhos bem menores localizados mais para o interior, chamados

de engenhos "mata adentro" fundados por novos e descendentes de

senhores de engenho. Eram engenhos que não ultrapassavam uma

dezena de tarefas, mas possuíam terra virgem e lenha em

abundância. Além do mais, não estavam voltados exclusivamente

para a produção de açúcar para exportação, que sofria grande

flutuação de preço, senão para abastecer o mercado local, e

complementados pelo criatório de gado e culturas de subsistência.

 

Entre 1828 e 1834, foram fundados 141 novos engenhos, mas cerca

de um terço devia estar em Sergipe. Esta expansão se faz em duas

direções: norte, seguindo a faixa de massapé que passava por Terra

Nova e chegava até Teodoro Sampaio, distante 40 km da baía. Em

direção oposta, tornejando a baía, chegava até o vale de Jaguaripe,

tradicional região de produção de farinha de mandioca e materiais

de construção. (AZEVEDO, E., 2009, p. 32-38) Durante a realização

do Inventário de Proteção do Acervo Cultural da Bahia encontramos

engenhos na fronteira de Sergipe, nos municípios de Entre Rios, Cardeal da Silva e Conde e na direção sul, nos Tabuleiros de

Valença, em Nilo Peçanha e Taperoá. 3

 

No final do século XIX, a agroindústria do açúcar, que sempre viveu

em altos e baixos, devido ao protecionismo e à concorrência

internacional, recebe seu tiro de misericórdia devido a uma praga e

ao agravamento da concorrência do açúcar do Caribe. Nem a

criação do Imperial Instituto Baiano de Agricultura (1877), em São

Francisco do Conde, e dos engenhos centrais estimulados pelo

Governo Imperial, como o Bom Jardim (1880), em Santo Amaro;

Pojuca (1882), em Catu; e Iguape e Rio Fundo (1886), em Santo

Amaro, com tecnologia industrial, contornariam a crise da

agroindústria de exportação. (ARAÚJO, 2002, p. 108-123)

 

Sobreviveram umas poucas usinas com equipamentos adquiridos

dos engenhos-centrais falidos, produzindo apenas para o Estado,

em que se destacam a Aliança (1892), em Santo Amaro; Cinco Rios

(1900-1987), no distrito de Maracangalha, em São Sebastião do

Passé, e mais duas menores, do mesmo grupo, além de alguns

banguês na bacia do Jaguaripe produzindo para o mercado local.

Por outro lado, tentativas de industrialização do algodão da encosta

da Chapada Diamantina com a instalação de fábricas de tecidos

grossos em Salvador e em Valença e de charutos em Cachoeira,

São Félix e Maragogipe fracassam, na primeira metade do século

passado, deixando um exército de mulheres sem trabalho nessas

cidades.

 

Outro fator determinante da decadência do Recôncavo foi a

substituição da hidrovia pelas novas estradas de rodagem. As

cidades portuárias do Recôncavo, além de serem atingidas pela

crise do açúcar e do fumo, experimentam um processo de

marginalização frente às novas redes de transportes. A aprovação

do Plano Rodoviário Estadual, em 1917, e a unificação pelo

Governo Federal, vinte anos mais tarde, das ferroviárias criadas por

aquelas mesmas cidades, tiraram destes centros urbanos a

condição de capitais sub-regionais, drenando toda a produção de suas antigas áreas de influência diretamente para o porto de

Salvador. (AZEVEDO, P., 1982, p. 11-16)

 

Com a implantação da indústria automobilística nacional, no final

dos anos 50, este processo se acelera e os produtos do sertão e da

Chapada Diamantina já não passavam pelos portos da região, iam

direto a Salvador, ao tempo que Feira de Santana e Alagoinhas,

enlaces de vias ferroviárias e rodoviárias, ganhavam importância e

formavam novas redes urbanas.

 

O Recôncavo contemporâneo

 

É neste quadro de decadência que ocorre a descoberta e início de

exploração do petróleo na falha geológica de Salvador, em

Candeias, a partir de 1941. A indústria do petróleo no Recôncavo se

expande com o início da construção da Refinaria Landulfo Alves

(RLAM), em 1949, a criação da Petrobras, em 1953, e do Terminal

Marítimo de Madre de Deus (TEMADRE), no final dos anos 50.

Thales de Azevedo, em 1959, após caracterizar o Recôncavo como

uma área ocupada há quatro séculos pelo plantation system

açucareiro, ressalta, citando G. G. Baroso, que:

 

Do ponto de vista do petróleo, entretanto, chama-se de

Recôncavo uma área muito maior, de natureza geológica

característica, estendendo-se em forma de faixa orientada

aproximadamente no sentido Norte-Sul, da Baía de Todos os

Santos, inclusive suas ilhas, até uma linha que passa perto de

Coração de Maria, sul de Inhambupe e serra de Arapuá. Nessa

área além da cultura da cana, incluem-se fazendas de pecuária,

lavouras de cereais e outras atividades rurais. (AZEVEDO,

1998, p. 185-216)

 

A atividade petrolífera provoca profundas mudanças na economia,

urbanização e relações sociais da região. A lavra do petróleo era

inconciliável com as atividades tradicionais, como o canavial e a

agricultura de subsistência, ou de novas, que começavam a

prosperar na região, como o cultivo do cacau, do dendê, de

hortaliças e a avicultura. O volume de recursos derramados na região sob a forma de salários, contratos de serviços, compras

efetuadas no mercado local era enorme e provocava uma inflação

local, especialmente na habitação e nos salários, que as demais

atividades não podiam acompanhar. Os poços de petróleo se

esgotariam em um quarto de século e a Petrobras concentra suas

atividades na RLAM e no TEMADRE.

 

Em 1958, L. A. Costa Pinto define Recôncavo como uma linha que,

partindo de Santo Amaro de Ipitanga, dirige-se a Mata de São João,

São Sebastião do Passé, Santo Amaro, Humildes, em Feira de

Santana, envolvendo, a seguir, S. Gonçalo dos Campos, Cachoeira,

Conceição da Feira, Cruz das Almas, Conceição do Almeida, Santo

Antônio de Jesus, Nazaré, Aratuípe e Jaguaripe. Subdivide-o em

cinco zonas: da pesca e do saveiro, do açúcar, do fumo, do petróleo

e zona urbana de Salvador. (PINTO, 1998, p. 105)

 

Milton Santos, um ano mais tarde, com base em estudo pioneiro

sobre a rede urbana do Recôncavo, define a região com 25

municípios, incluindo aqueles que em função dos novos meios de

transporte passam a exercer centralidades muito fortes na região,

como Feira de Santana e Alagoinhas. Os municípios que

integrariam a região seriam:

 

Alagoinhas, Aratuípe, Cachoeira, Camaçari, Castro Alves, Catu,

Conceição de Feira, Conceição do Almeida, Coração de Maria,

Cruz das Almas, Feira de Santana, Irará, Itaparica, Jaguaripe,

Maragogipe, Mata de S. João, Muritiba, Nazaré, Pojuca, S,

Antonio de Jesus, S. Amaro, S. Estevão, S. Feliz, S. Felipe, S.

Francisco do Conde, S. Gonçalo dos Campos, S. Sebastião do

Passé, além de Salvador. (SANTOS, 1998, p. 61-62)

 

A adoção pelo Governo Federal de políticas visando o

desenvolvimento do Nordeste, idealizadas por Celso Furtado em

1959, possibilitou à Bahia deflagrar um processo de industrialização

numa das áreas mais tradicionais de engenhos do Recôncavo. O

Centro Industrial de Aratu (CIA), implantado em 1967, capta os

maiores créditos e incentivos fiscais do Banco do Nordeste e da

Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE), no Nordeste. Mas a dispersão de infraestrutura e recursos em um

distrito industrial de 436 km2 sobre o massapê e a pouca

atratividade dos incentivos fiscais da SUDENE não levam ao

sucesso esperado, exigindo a reformulação do projeto, no início dos

anos 80. Mais consistente foi o projeto de criação do Complexo

Petroquímico de Camaçari de autoria do economista Rômulo

Almeida. O centro reúne, hoje, 90 empresas do setor petroquímico,

automotivo, de fertilizante e celulose.

 

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com base

em estudos realizados em 1967, reconhece pela primeira vez uma

Região Metropolitana de Salvador diferenciada do Recôncavo

propriamente dito. Assim o antigo Recôncavo seria dividido em duas

microrregiões: 150 – Salvador, que além da capital compreendia

Camaçari, Candeias, Catu, Lauro de Freitas, Mata de São João,

Pojuca, S. Francisco do Conde e Simões Filho e 151 – Recôncavo

baiano, compreendendo 35 municípios que vão de Teodoro

Sampaio a Jaguaripe, na direção N-S, e de Santo Amaro a Cruz das

Almas e Santo Antônio de Jesus, na direção E-W. As duas

microrregiões totalizam área de 10.400 km2. Este tem sido o recorte

utilizado pelos que têm estudado esta região mais recentemente. 4

Em 1973, o Governo Federal criou, entre outras, a Região

Metropolitana de Salvador (RMS), ligeiramente menor que a

microrregião 150 do IBGE. Com a inclusão de três novos

municípios, entre 2008 e 2009, a RMS praticamente coincide com a

microrregião 150. 5

 

A última definição de Recôncavo foi dada em 2007 com o Plano

Plurianual 2008-2011 do governo do Estado da Bahia, que

identificou 26 territórios de identidade. O Recôncavo é o de número

21 e é formado por vinte municípios, inclusive alguns muito distantes

da Baía de Todos os Santos, como Governador Mangabeira,

Cabaceiras do Paraguaçu e Castro Alves.6 O território de

identidade no 26, Região Metropolitana de Salvador, que não

coincide com a delimitação oficial da mesma região, compreende

Salvador, Lauro de Freitas, Camaçari, Dias d'Ávila, Simões Filho,

Candeias, Salinas da Margarida, Vera Cruz, Itaparica e Madre de Deus. É incompreensível a inclusão de Salinas da Margarida neste

rol. O critério desta distinção, aparentemente, é a estagnação e o

dinamismo econômico e não os valores da identidade e

pertencimento.

 

Como se vê, o recorte do Recôncavo tem mudado segundo os

ciclos econômicos. O Recôncavo açucareiro dos séculos XVII, XVIII

e XIX não tem o mesmo recorte, nem o do petróleo, de meados do

século XX, ou o atual que excluiu a área não industrializada. Resta

saber o que se sedimentou como cultura identitária, não só nas

manifestações materiais, como a arquitetura, a arte e o artesanato,

como nas imateriais ainda vivas, incluindo modos de ser e de fazer,

celebrações e crenças.

 

Uma rede de portos, pousos e rótulas

 

Origem das vilas e cidades

 

Para compreendermos o processo de urbanização ocorrido no

Recôncavo é preciso analisar a origem dos primeiros povoados e

vilas e sua estruturação em redes. Isto é importante, inclusive, para

compreendermos a forma urbana dessas vilas e cidades e sua

arquitetura.

 

Povoações Sentinelas

 

O processo de urbanização do Recôncavo obedeceu em um

primeiro momento a critérios defensivos e administrativos. De

alguma forma ele reproduz a própria fundação de Salvador, em

1549, como cidade-porto e cidadela. Cairu, localizada em uma ilha,

e Morro de São Paulo, com sua enorme fortaleza, são exemplos

emblemáticos. Não é sem razão que Jaquaripe, situada na entrada

da "barra falsa" da Baía de Todos os Santos e foz de um rio

navegável, foi a primeira povoação, depois de Salvador, a ser

transformada em vila, em 1697, seguida por Cachoeira, no limite de

navegação do Paraguaçu, e São Francisco do Conde, no ano

seguinte.

Estas são vilas mononucleares edificadas sobre pequenas colinas

ou na parte mais elevada da ribeira, dominando o mar e o interior,

de onde poderiam vir ataques indígenas. Devido à topografia mais

amena da região, não se repetiu o modelo bipolar luso introduzido

em Porto Seguro e repetido em Salvador, ou seja, cidades

construídas em acrópole tendo a seus pés o porto. Nesse caso, o

casario do núcleo administrativo e religioso escorre suavemente até

a margem da baía, mas sem separação entre a vila e o porto. O

mesmo modelo foi seguido em Maragogipe, no delta do Guaí.

 

Nesta categoria de povoações sentinelas podemos incluir também

Itaparica, antiga Ponta da Baleia, uma armação de pesca do

cetáceo que servia ainda a vigiar e assegurar a passagem dos

víveres provenientes do vale do Jaguaripe e Baixo Sul para o

Recôncavo e Salvador pelo Canal de Itaparica. Esta função militar

foi posta à prova com sucesso durante as lutas de independência,

em 1823.

 

O castelo de Garcia D'Ávila sobre uma colina e a povoação de

Tatuapara junto ao porto, atual Praia do Forte, era um ponto

avançado de vigilância na entrada da Baía de Todos os Santos. Este

castelo teve uma importante função de transmissão de alertas da

aproximação de barcos inimigos. Mensagens cifradas de fumo e

tochas eram transmitidas de sua torre para a cadeia de aldeias

jesuíticas e outras povoações até chegar a Salvador. (AZEVEDO,

1982)

 

Aldeias Jesuític as

 

Algumas cidades da hoje Região Metropolitana de Salvador (RMS)

nasceram de missões jesuíticas transformadas em vilas, quando da

expulsão da ordem pelo marquês de Pombal, em 1759. Elas

formavam uma rede ao longo do Litoral Norte, que ligava Salvador a

Olinda e servia de pouso a boiadas e tropas de mulas. O melhor

exemplo conservado desse urbanismo é a Vila de Abrantes, antiga

aldeia do Divino Espírito Santo, fundada em 1558, em Camaçari,

embora seu terreiro tenha sido reduzido em um terço no início da

década de 1960. A rede incluía ainda as aldeias de São João, atual Mata de São João, e Santo Antônio do Arguim, ou Massarandupió,

no mesmo município.

 

Eram aldeias constituídas por um amplo terreiro retangular com uma

igreja em uma das cabeceiras. De cada um de seus cantos saíam

caminhos que conduziam a outras aldeias, à praia e à mata. Este

esquema foi adotado trinta anos mais tarde nos arraiais de Trancoso

e Vale Verde, em Porto Seguro, e em Olivença, em Ilhéus. Segundo

documento do Arquivo Histórico Ultramarino de Lisboa (n° 1041),

integrante do Fundo Eduardo Castro de Almeida, tinha a mesma

planta a aldeia de N. S. dos Prazeres de Jequiriçá, dizimada por

pestes, que ficava no caminho que ligava a aldeia de Santo Antônio

dos Índios, atual Aratuípe, à Chapada Diamantina e ao rio São

Francisco.

 

Segue também este modelo a antiga vila de Santo Amaro de

Ipitanga, em Lauro de Freitas. Pela sua forma urbana e localização,

a meio caminho entre Itapuã e a Vila de Abrantes, é provável que

tenha sido uma pequena redução jesuítica, embora não exista

comprovação documental. Para além da RMS, existiam as aldeias

de Itapicuru de Baixo, atual Conde, e Abadia, famosa feira de gado,

quase na fronteira com Sergipe. 7 Por entre essas aldeias haviam

algumas povoações, como Itapuã, onde primeiro se estabeleceu

Garcia D'Ávila e Tatuapara, onde ele estabeleceu seu quartel

general definitivo para a conquista do sertão com seus currais. Ao

longo desse caminho, que cortava a bacia dos rios que deságuam

diretamente no Atlântico, se estabeleceram, no início do século XIX,

alguns engenhos.

 

Povoações de Engenhos

 

Nas vilas criadas no final do século XVII, as funções de sentinela e

administração foram logo sobrepujadas pela portuária, como

ocorreu em Salvador. Cachoeira foi precedida, ainda no final do

século XVII, pela aldeia jesuítica de Santiago do Iguape, mais

próxima da foz do Paraguaçu. A preponderância das funções

portuária e comercial sobre as demais fez com que povoações mais interioranas situadas no limite de navegação desses rios tivessem

maior crescimento, como é o caso de Nazaré das Farinhas,

Cachoeira e Santo Amaro. Além do mais, elas se especializaram, a

primeira como porto de subsistência e materiais de construção, a

segunda como porto fumageiro e a terceira como açucareiro, o que

evitou a concorrência entre elas. (SANTOS, 1998, p. 70-71)

 

Nos três casos, engenhos deram origem a povoações que

antecederam a criação das sedes administrativas. Jaguaripe, na foz

do mesmo rio, controlava a entrada a uma rica bacia de produção

de mandioca, materiais de construção – madeira, pedra, cal, telha,

tijolo – e utensílios de cerâmica. Ainda no final do século XVI, ali

teve engenho Gabriel Soares de Souza. Nazaré das Farinhas,

situada no limite de navegação do mesmo rio Jaguaripe, nasceu

também de um engenho pertencente a Fernão Cabral de Athaíde

(1584).

 

Em Cachoeira, um primeiro engenho foi instalado no local por

Rodrigo Martins, seguido por outro de Álvaro Rodrigues Adorno,

ainda no final do século XVI, mas foram hostilizados pelos índios e

recuaram. Finalmente, em 1654, João Rodrigo Adorno estabeleceu

definitivamente seu engenho e capela no local. A povoação foi

elevada a vila em 1698. São Francisco do Conde, na foz do Subaé,

nasceu onde existia o Engenho Real de Sergipe do Conde (1563),

pertencente a Francisco de Sá, filho de Mem de Sá. Mas o chamado

ponto de rotura de carga era a povoação de Santo Amaro da

Purificação, onde existia uma capela de Santo Amaro, edificada

pelos beneditinos. 8

 

Nestes portos, terra adentro, a produção local de açúcar, cachaça,

fumo e farinha era embarcada em saveiros para Salvador para

serem exportadas. Outros produtos, como azeite de dendê, piaçava,

peixe seco, cerâmicos, bem como os vindos do sertão – bois, carne

seca, couro e salitre – eram enviados à capital e a outras vilas e

povoações da Baía de Todos os Santos, para consumo local. No

retorno de Salvador os saveiros, tangidos pela viração da tarde,

traziam escravos africanos e produtos importados da metrópole, como tecidos, ferramentas, pólvora, bacalhau, azeite e vinho, que

nessas vilas parte trocava o saveiro pelo lombo do burro para

chegar ao sertão e às barrancas do São Francisco.

 

A riqueza dessas vilas fluviais se deve, não só à produção regional

de exportação, como ao intenso comércio com Salvador e o sertão.

Estas são cidades de fundo de vale desenvolvidas nas duas

margens de um rio. Em consequência desta condição geográfica

elas se desenvolveram seguindo duas diretrizes lineares paralelas

ao rio, depois ligadas por pontes. Este é o modelo seguido, também,

por Valença, cortada pelo rio Una.

 

Feiras e pousos de gado

 

Os bois, ao lado das quedas d'águas, eram uma das principais

forças motrizes e de tração nos engenhos, mesmo depois da

introdução do vapor, no início do século XIX, além dos primeiros

serem também uma das principais fontes de proteínas dos brancos.

Pode-se, portanto, imaginar a importância de seu comércio na

região. Mas eles tinham que vir de longe, pois, como já vimos,

legislações de 1688 e de 1701 proibiam sua criação em uma faixa

de 10 léguas (60 km) da ribeira da baía e de rios do Recôncavo. Ao

longo de estradas e caminhos por onde descia o gado do São

Francisco, nos locais de pouso e aguada surgiram vilas e cidades.

 

Dias d'Ávila é uma delas. Ali existia a famosa feira de Capuame,

local de comercialização de bois de tração, mulas e cavalos para

carga e montaria. Eram as boiadas que desciam pelo litoral vindas

de outra feira famosa a de Abadia. A partir de 1614, Capuame

passou a ser conhecida como Feira Velha, quando se firma Olhos

d'Água, atual Aramari, melhor localizada para distribuição do gado

no Recôncavo em consequência de novos caminhos para o sertão.

 

Depois da expulsão dos holandeses, se abriram novas estradas de

boiadas, mais interioranas e curtas, ligando Cachoeira ao médio

São Francisco. Uma dela saía de Cachoeira, passava por

Capoeiruçu, chegava a Santana de Olhos d'Água, onde se

consolidou uma grande feira de gado, a Feira de Santana. Neste ponto a estrada se bifurcava, um ramo indo para Jacobina e o Piauí

outro para Juazeiro e Pernambuco. À margem desta última estava

Alagoinhas, que abrigou uma feira de gado de relativa importância

reforçada pela chegada da ferrovia. 9 (AZEVEDO, 1982, p. 20-23)

 

Dias D'Ávila, Aramari, Feira de Santana e Alagoinhas são todas

cidades nascidas de feiras de gado e integravam o Recôncavo

canavieiro, pois a cadeia produtiva do açúcar incluía

necessariamente o gado. Essas cidades, todas elas situadas ao

longo de estradas de boiadas, que foram depois superpostas por

ferrovias e rodovias, se transformam em nós de uma nova rede

tendo como cabeça Salvador, mas diversa daquela vigente até o

final do século XIX com base nas vilas fundadas na transição do

século XVII para o XVIII. Milton Santos constata, em 1959, a

centralidade exercida por Feira de Santana e Alagoinhas na região,

roubada das vilas-portos e em especial de Cachoeira.

 

Santuários de peregrinações

 

Não são muitas as vilas e cidades que tiveram esta origem no

Recôncavo. Um caso típico de povoação nascida de local de

peregrinação é Candeias. Naquele local, em terras de um engenho

pertencente aos jesuítas, fiéis construíram em 1641 uma capelinha

no topo de uma colina em cuja fralda existia uma fonte milagrosa. O

local se transformou em um centro de peregrinações, especialmente

no dia da padroeira, Nossa Senhora da Purificação, 2 de fevereiro.

Surge assim uma povoação que daria lugar à vila que a partir de

1958 é a sede de município emancipado de Salvador.10

 

Maragogipe é outra vila desta origem. Deve ser do início do século

XVII a peregrinação a este local na última 2ª feira de agosto. A

criação da paróquia, segundo alguns autores, é de 1640 e a igreja

atual, com galerias laterais abertas para abrigar peregrinos, data de

1680, para outros autores. Não há uma tipologia especial dessas

povoações, mas neste caso, como no de Candeias, a capela que

deu origem à povoação estava no cume de uma elevação.

A vila de Santo Amaro nasceu em volta da capela da mesma

invocação edificada pelos beneditinos em terreno de 400 braças em

quadra, que ganharam em 1607 de Gonçalo Alves, que o havia

adquirido cinco anos antes de Dona Felipa de Sá, filha de Mem de

Sá. O local não era propriamente um santuário de peregrinação,

mas a povoação nasceu de uma motivação religiosa e se

desenvolveu pelo fato de estar no limite de navegação do Subaé.

 

Formação da rede urbana

 

Independente da origem, as vilas e cidades do Recôncavo

formavam redes. A cidade do Salvador exerceu uma centralidade

muito forte em todo o Recôncavo durante quatro séculos, mas tinha

uma característica particular, a sua excentricidade espacial e

descontinuidade territorial com o hinterland, o que fugia de teorias

como a dos lugares centrais de Christaller. Esta característica

particular da Baía de Todos os Santos e seu recôncavo determinou

o aparecimento na região de uma macrorrede com algumas redes

subsidiárias.

 

Quem primeiro estudou a rede urbana do Recôncavo foi Milton

Santos, num momento em que a região passava por grandes

transformações com a lavra do petróleo. Ele não faz referência a

este fato em seu artigo, ou porque já havia sido esgotado por Costa

Pinto e Thales de Azevedo, ou porque ele identifica um processo de

mudança no Recôncavo, anterior e mais profundo que a presença

da Petrobras, aquele deflagrado pela revolução dos transportes.

Com um olhar de geógrafo, ele identifica três gerações de cidades

na região, que de alguma formaram redes sucessivas:

 

Jaguaripe, Cairu, S. Francisco do Conde, à imagem e

semelhança de Salvador, implantadas sobre o cocuruto dos

morros, numa posição a um tempo de defesa e de posto

avançado, na foz de um estuário (Jaguaripe) ou de um rio(S.

Francisco do Conde), numa ilha (Cairu) sempre perto do mar.

 

Cachoeira, Nazaré, S. Amaro correspondem a uma segunda

geração, núcleos criados a beira-rio, no limite de navegação

fluvial. São cidades de vale, comprimidas entre morros,

estendendo-se de forma linear [...]

 

À derradeira geração – a terceira – pertencem Feira de Santana

e Alagoinhas, cidades da era do transporte mecânico, surgidas

em áreas planas, com ruas largas e abertas ao sol segundo um

plano que, apesar das tentativas mais recentes de

racionalização, não esconde a sensível influencia das estradas.

(SANTOS, 1998, p. 80)

 

Este esquema apresenta algumas lacunas, como a omissão da rede

de aldeias jesuíticas, já vista, formada a partir de 1558, que embora

contemporânea à primeira geração de povoações não tinha função

defensiva, senão primordialmente de comunicação num trecho da

costa brasileira muito sujeita a calmarias. Era uma rede linear e

balizadora da estrada de ligação de Salvador com Olinda, por onde

descia parte das boiadas do São Francisco parando na feira de

Abadia, na fronteira com Sergipe, e terminando na feira de

Capuame, atual Dias D'Ávila.

 

Além do tráfego de boiadas, animais de cargas e pessoas, esta rede

teve uma importante função de advertir Salvador, mediante fumo e

tochas, da aproximação de barcos inimigos. Estas mensagens eram

transmitidas da almenara ou torre de Garcia D'Ávila para a aldeia de

São João (Mata de São João) e retransmitidas pela do Espírito

Santo (Abrantes) para as povoações de Itapuã e Rio Vermelho e dali

para Salvador. (AZEVEDO, 1982)

 

A rede de vilas-portos

 

Em tese recente, Adriano Bittencourt Andrade, com farta

documentação cartográfica e documental, analisa a formação da

rede de vilas setecentistas no Recôncavo. São cinco as vilas

elevadas a esta condição num espaço de apenas trinta anos:

Jaguaripe (1697), Cachoeira (1698), São Francisco do Conde

(1698), Maragogipe (1724) e Santo Amaro (1727). Elas revelam

uma política da Coroa de exercer o domínio sobre redes urbanas

preexistentes, que davam acesso ao sertão, no momento em que se descobria ouro em Minas Gerais e no sertão da Bahia. A

transformação desses portos em vilas tinha como objetivo controlar

o contrabando, a evasão de impostos e os conflitos sociais nessas

áreas, através de portais administrativos e fiscais de ingresso ao

interior. Nenhuma outra vila é criada no século XVIII no Recôncavo.

 

Com razão o autor considera como Recôncavo o limite político dos

termos dessas cinco vilas. Este era de fato o Recôncavo do século

XVIII, que incluía além da região da produção da cana, do tabaco e

da mandioca, também o vale do Paraguaçu, onde estavam grandes

currais de reprodução da força motriz, os bois, de grande parte dos

engenhos de açúcar. (ANDRADE, 2010)

 

De cada uma dessas vilas-portos, marítimas ou fluviais, saíam

caminhos ao longo dos quais se fixaram populações. A hidrografia

comandou a formação dos termos dessas cinco vilas, refletindo

suas áreas de influência. São todas bacias hidrográficas. A maior

delas, a do rio Paraguaçu, correspondendo ao termo da vila de

Cachoeira ia até o sopé da Chapada Diamantina. Seguia-se a bacia

dos rios que deságuam diretamente no Atlântico, formadora do

termo de Salvador; do rio Jaguaripe, que definiu o termo e deu

nome à vila; do Subaé, correspondente ao termo da vila de São

Francisco do Conde, de onde se desmembrou em 1727 Santo

Amaro, e do Guaí, delimitadora do termo de Maragogipe.

 

No Litoral Norte, na bacia dos rios que deságuam diretamente no

Atlântico, surgiu, como já vimos, a rede das antigas aldeias

jesuíticas ao longo do caminho litorâneo que ligava Salvador a

Olinda e que deu origem a algumas povoações e vilas como Itapuã,

Lauro de Freitas, Vila de Abrantes, Mata de São João e

Massarandupió. Na bacia do Subaé, as povoações surgem em volta

dos engenhos e mais tarde das usinas, que reuniam uma grande

quantidade de mão de obra. Na bacia do Paraguaçu, que

corresponde ao termo da Vila de Cachoeira, onde prevalecia o

minifúndio do tabaco, nos pontos de comercialização do produto e

pouso das tropas que do sertão e Chapada demandavam os portos

de São Félix e Maragogipe.

No Recôncavo Sul, da subsistência, relativamente isolado de

Salvador pela maior distância e pelo mar aberto, forma-se uma rede

em torno do porto de Nazaré, que incluía as vilas de Cairu, Valença,

Jaguaripe, Aratuípe e Santo Antônio de Jesus, esta situada na

transição dos tabuleiros para a encosta da Chapada Diamantina.

Nessa época, como sugere Maria Brandão, o Recôncavo incluía em

sua economia o Baixo Sul, grande produtor de alimentos, até pelo

menos a Baía de Camamu. (BRANDÃO, 1998b, p. 30)

 

Todas essas pequenas redes se ligavam a Salvador e entre si,

prioritariamente, através de saveiros e, mais tarde, navios de

pequeno calado. A Baía de Todos os Santos foi importantíssimo

meio de comunicação e trocas. Sua navegação não se restringia à

ligação entre cada uma dessas vilas e Salvador. Nem todo o

comércio era de exportação e importação. Havia um enorme tráfego

transversal neste mediterrâneo baiano.

 

O Recôncavo canavieiro, aquém Paraguaçu, dependia

enormemente do Recôncavo além Paraguaçu, do tabaco, da

renovação dos bois de tração, da subsistência e da produção de

barcos e provisão de materiais de construção. Infelizmente não

ficaram registros das esteiras desses saveiros para conhecermos a

origem e o destino de seus deslocamentos pendulares na baía, ao

ritmo do terral matutino e da viração vespertina. Havia também

caminhos ligando essas redes. Cachoeira, pela localização interior

profunda, e extensão de seu termo, tinha um maior protagonismo,

que as demais vilas. Mas nenhuma, inclusive Cachoeira e Santo

Amaro, chegava a ser uma capital regional, pois todas dependiam

do porto de Salvador para as suas exportações e importações.

Seriam relais. Milton Santos preferia chamá-las de capitais sub-

regionais. (SANTOS, 1998, p. 88-89)

 

Podemos, portanto, considerar que existia uma macrorrede urbana

regional, que ligava sua cabeça, Salvador, a cidades-portos à

margem da Baía de Todos os Santos, que formavam, por sua vez,

redes sub-regionais. A das aldeias jesuíticas do Litoral Norte tinha

uma conformação linear, as de Cachoeira, Santo Amaro e Maragogipe podem ser consideradas de conformação arbórea e a

de Nazaré de tipo lugar central, embora depois se estendesse

linearmente em direção ao sudoeste, até Jequié.

 

Se a formação dessas redes está intimamente ligada às bacias

hidrográficas que deságuam na Baía de Todos os Santos,

recorremos à geografia, e mais especificamente aos estudos de

drenagem, para classificar a macrorrede urbana do Recôncavo, que

tinha como cabeça Salvador, como de padrão anelar. A baía com

seu colar de vilas periféricas é o grande estuário, a grande bacia de

integração das redes urbanas sub-regionais. Existiam, como

dissemos, estradas transversais, de menor importância, pois nessas

ligações o saveiro levava vantagem sobre a montaria e a tropa de

burros. Mas são elas que no ciclo do transporte mecânico vão

viabilizar a criação de uma rede anelar de estradas de rodagem

envolvendo a Baía de Todos os Santos, desbancando a rede de

vilas-portos.

 

O mesmo autor identifica três conjuntos de fluxos no Recôncavo do

setecentos e que perduram até o final do Império. O interno,

incluindo o abastecimento alimentar, o suprimento de materiais de

construção e a movimentação de roceiros e mascates. O associado

a outras regiões, em especial ao sertão, com a movimentação de

boiadas e tropas, e às minas, envolvendo deslocamento de

escravos, o contrabando de ouro e diamantes e a movimentação de

caixeiros viajantes; e finalmente o ligado ao comércio marítimo, que

incluía o açúcar e a cachaça, o tabaco e os escravos e a farinha de

mandioca, ou de guerra, que foi muito exportada para a África.

(ANDRADE, 2010)

 

A nova rede do transporte motorizado

 

Na segunda metade do século XIX, com o advento do vapor, essas

vilas ampliaram sua área de influência, criando ferrovias que

drenavam os produtos de suas bacias hidrográficas para seus

portos. Entre 1860 e 1863 constrói-se uma ferrovia que ligava

Salvador a Alagoinhas. O imperador D. Pedro II autoriza, em 1865,

a construção da Estrada de Ferro Central da Bahia para trazer a produção mineral da Chapada Diamantina ao porto de São Félix.

Depois de uma paralisação de nove anos, a ferrovia, cruzando o

Paraguaçu, atingiria Feira de Santana, em 1885, e na outra direção,

Machado Portela, em 1887.

 

Nazaré, sem apoio oficial, inicia em 1871 a construção de uma

ferrovia que, quatro anos depois, chegaria a Onha e, em 1880,

atingiria Santo Antônio de Jesus. Dois anos depois chegava a

Amargosa. Mais tarde, seria estendida até Jequié. Em 1906, com

dificuldades econômicas, é encampada pelo Governo Federal e

estendida ao porto de São Roque, em 1940.11 Santo Amaro

inaugura em 1883 uma linha férrea de 36 km, que chegava até Jacu

e atendia a engenhos e, depois, usinas de açúcar. Por outro lado, a

Lei Provincial no 590, de 1856, promove a criação de uma estrada

carroçável entre o porto de Maragogipe e São Felipe, concluída em

1858. (TEIXEIRA, 1998, p. 52)

 

Os avanços viários promovidos por estas cidades acabam se

voltando contra elas próprias, com a integração das ferrovias e o

advento do caminhão. Pouco a pouco, as atividades portuárias das

vilas originárias do século XVIII vão diminuindo, à medida que Feira

de Santana, terminal da Estrada de Ferro Central da Bahia e início

da Linha Norte da Viação Férrea Federal Leste Brasileiro (VFFLB),

que se dirigia para Sergipe, se transformava no grande centro de

distribuição dos produtos do sertão.

 

A centralidade de Feira de Santana aumenta com a articulação da

rede ferroviária com a rodoviária que começava a crescer. Um

Serviço de Estradas de Rodagem é criado na Bahia em 1917, pela

Lei 1227, e neste mesmo ano aberto um crédito extraordinário para

a construção da estrada Salvador-Feira de Santana. (TEIXEIRA,

1998, p. 62-63) Processo semelhante ocorre em Alagoinhas,

cruzamento da Linha Norte com a Linha Tronco da VFFLB, que se

dirigia a Juazeiro. É o que Milton Santos chamou de terceira

geração de cidades do Recôncavo e que formam uma nova rede.

A decadência da lavoura de cana e subsequentemente do tabaco e

a reestruturação do sistema de transportes marginalizam os portos

da Baía de Todos os Santos e destroem a antiga rede urbana do

Recôncavo, cujas cidades, vivendo de uma economia de

subsistência, passam a se relacionar, a partir da década de 30, mais

com Feira de Santana que com Salvador. A produção industrial de

óleo de dendê, celulose de bambu e chumbo, a extração de areia do

Paraguaçu para a construção e a introdução de cítricos e aviários

não conseguem mudar o quadro de marasmo e pobreza, não só

material como de quadros, descrito por Fernando Pedrão (1998).

 

De uma região inserida na economia internacional, um dos maiores

produtores de açúcar do mundo, como foi até meados do século

XIX, o Recôncavo não encontrou no século XX outras atividades

econômicas que pudessem lhe servir de suporte econômico e

viabilizar a preservação do seu rico legado cultural. Apenas seu

setor nordeste consegue se reestruturar em função da atividade

petrolífera e petroquímica formando a Região Metropolitana de

Salvador (RMS). Por falta de lideranças e quadros, o Recôncavo

não soube aproveitar oportunidades, como o programa do Pro-

Álcool (1975) e o recente de biodiesel, embora possua uma larga

tradição de produção de cana e dendê.

 

Forma e cultura urbana

 

Não obstante a diversidade da origem e função das vilas e cidades

do Recôncavo – defesa, porto, entreposto, produção agropecuária –

todas apresentam traços comuns. O primeiro deles é certa

organicidade no ajustamento à topografia. Nenhum modelo

geométrico a priori. No embate entre a reta e o arco prevalece

sempre a curva, mas a curva de nível, o que lhe dá certa

racionalidade, sem a rigidez e esquematismo do xadrez. São os

fluxos dos rios, dos caminhantes, da tropa e em sua ampliação do

carro e caminhão que comandam o seu traçado.

 

Por isso as ruas das cidades do Recôncavo são hierarquizadas.

Temos ruas direitas, mais largas, mas nunca diretas ou retas, por

onde passam esses fluxos, e travessas, mais estreitas, de articulação e retorno. São ruas corredor, delimitadas por casas ou

sobrados contínuos. Por essas ruas passavam e passam procissões

e paradas, e ao longo delas pequenas capelas ou nichos dos

Continuar: parte 2 de 3