Baía de Todos os Santos: aspectos humanos
Introdução
Introdução Carlos Caroso
Fátima Tavares
Cláudio Pereira
Aos ilhéus e populações que habitam o entorno da BTS, resistindo
ao descaso dos poderes públicos e governantes e preservando-a
como espaço plural de características culturais únicas.
A Baía de Todos os Santos, com superfície de 1.233 km2, é o
segundo maior acidente geográfico deste tipo no Brasil, com
dimensão inferior à Baía de São Marcos, no Maranhão. Fazem
ainda parte desse sistema duas outras baías de menores
dimensões, respectivamente as de Iguape e Aratu, 56 ilhas, sendo a
de Itaparica a maior ilha marítima do Brasil, estuários de rios,
manguezais, restingas e matas que compõem seus ecossistemas e
formam sua paisagem natural.
Sobre estes substratos naturais foram construídos mais de
cinco séculos de história, na qual as populações indígenas
crescentemente perderam o protagonismo, desde o momento em
que navegadores europeus aí aportaram no primeiro dia do mês de
novembro do ano de 1501, e a nominaram em homenagem católica
ao dia de Todos os Santos. De paisagem natural e território de
ocupação indígena, a BTS torna-se o principal portal de acesso ao
território que veio posteriormente a abrigar cidades, vilas,
municípios, populações e patrimônio erigido que conformam a
paisagem humana e cultural de sua porção insular e entorno. A
Cidade do Salvador, fundada em 1549 na península situada entre a
borda leste da BTS e o Oceano Atlântico, inteiramente voltada para
o mar e para sua defesa, em virtude de sua situação geopolítica
estratégica, tornou-se a primeira capital do Brasil e o mais
importante centro urbano entre todas situadas na Baía e seu
entorno.
Sobre esta cidade, protegida por sua localização privilegiada e
fortificada, em seu já clássico estudo sobre Embarcações do
Recôncavo, Agostinho (1973, p. 7) assim a caracteriza:
De típica feição mediterrânica, com a parte baixa, marinheira e
comercial, e a acrópole administrativa e religiosa alongada na
península entre o Atlântico e o porto abrigado dos ventos
dominante, teve desde cedo, a cidade do Salvador sua vida
pendente da navegação interior. Empório do comércio de
açúcar, intermediárias entre as plantações do Recôncavo e os
mercados de além-mar, e do Recôncavo alimentada com
produtos agrícolas – que o gado lhe vinha do norte, das terras
da Casa da Torre -, Salvador sempre esteve nas mãos dos que
tiveram o domínio do mar. Nas guerras holandesas, na
Independência, na Sabinada, mais tarde, para a cidade o ponto
decisivo foi perder ou manter as águas da baía, que outro
acesso não havia, tão precárias e inexistentes eram as vias
terrestres.
Os limites e possibilidades impostos e permitidos pela navegação no
mar interior, rios e pelos portos abrigados, assim como pelo acesso
fácil à navegação oceânica, somados à inexistência de outras vias,
na visão de Agostinho (1973), caracteriza a "[...] dependência da
navegação para o transporte, em escala menor, para a pesca". O
desenvolvimento de uma multiplicidade de tipos navais veio a
atender estas necessidades, sendo que ao longo do tempo e como
resultado da implantação de outras alternativas muitos destes
veículos para transporte de pessoas e mercadorias por via aquática
vieram a desaparecer (AGOSTINHO, 1973, p. 7). Como evidência
desta grande disponibilidade de equipamentos aquáticos para
transporte no século XVI, Agostinho coteja o registro de Gabriel
Soares de Sousa (1938, p. 174 apud AGOSTINHO, 1973, p. 7): "[...]
se ajuntarão na Bahia mil e quatrocentas embarcações... e mais de
duzentas canoas, e todas estas embarcações mui bem remadas
[...]".
A introdução posterior de meios terrestres de transporte motorizado
(rodoviário e ferroviário), assim como de novos tipos de
embarcações, de maior tamanho e capacidade de cargas e
passageiros, constituiu um dos fatores que veio a causar a perda de
importância e quase desaparecimento de veículos aquáticos característicos da BTS, tal como das canoas de transporte e pesca
e dos saveiros. Os veículos aquáticos outrora usados para
transporte e desempenho de atividades de pesca são
gradativamente substituídos por embarcações de grande porte que
carregam cargas, pessoas e automóveis. Juntamente com esses, as
embarcações para uso recreativo e esportivo redefinem a paisagem
da BTS, muitas destas utilizando cascos que outrora pertenceram a
saveiros, transformados em escunas.
Os antigos saveiros que outrora dominaram a paisagem da BTS em
décadas recentes vieram a ser objeto de esforços de preservação e
restauração de alguns poucos exemplares que restam, assim como
as técnicas para sua confecção. Os incentivos são dados
principalmente pela realização de regatas e, muitas vezes, esforços
privados para preservar e restaurar tais espécies e mantê-las em
uso sob o comando de seus antigos mestres. O recente
tombamento do saveiro Sombra da Lua, com 85 anos de operação,
pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) é
um importante evento para a preservação deste tipo de
embarcação, um dos dezenove ainda em operação na BTS, assim
como das técnicas de feitura e conservação preventiva dos
mesmos.
O conhecimento das intensas atividades e usos navais da BTS
requer que se destaque sua importância como depositária de
valioso patrimônio cultural subaquático, que resulta particularmente
de naufrágios acontecidos durante o longo período colonial e pós-
colonial. Estes bens arqueológicos, se devidamente resgatados e
estudados, podem fornecer importantes informações de caráter
social, político, econômico, ideológico, tecnológico e
comportamental. Seu potencial pode ser aquilatado pela referência
a mais de 150 embarcações naufragadas na BTS feita pelo
historiador José Góes de Araujo (1998). Contudo, os sítios
arqueológicos da BTS ainda não receberam qualquer intervenção
de arqueologia stricto sensu e, devido aos saques e à crescente
depredação, muitos destes estão prestes a desaparecer como fonte
documental de inestimável valor histórico e cultural. Sobre esta possível tragédia, Agostinho, em artigo publicado em 1989, antecipa
e alerta que o patrimônio arqueológico subaquático se encontra
ameaçado,
[...] por efeito de uma dilapidação sistemática que resulta do
alto valor, intrínseco, histórico ou artístico que as cargas
submersas encontradas alcançam no mercado [...] que opera a
nível nacional e internacional [...] (AGOSTINHO, 1989, p. 369)
A proposta neste livro é de apresentar estudos do espaço e território
da BTS, em aspectos que integram a paisagem física àquela
culturalmente elaborada. As formas de viver, fazer, cuidar, ser, crer,
enlutar, festejar, comemorar; as expressões artístico-culturais de
suas populações e o elaborado imaginário sobre esta parte da
Bahia, da qual deriva sua identidade maior, motivou a organização
do tomo II do livro Baía de Todos os Santos. Neste tomo são
abordados os Aspectos Humanos, em sequência ao tomo I, Baía de
Todos os Santos: Aspectos Oceanográficos. Motivounos,
particularmente, a proposta da Fundação de Amparo à Pesquisa
(FAPESB) e o Instituto do Meio Ambiente (IMA) de elaborar esta
obra como parte de uma política de desenvolvimento científico e
tecnológico, voltada para valorizar as populações, a diversidade de
manifestações culturais e o patrimônio material e imaterial, móvel e
imóvel, da BTS, assim, de serem estes dois livros marcos de
referência para futuros e mais detalhados estudos a serem
desenvolvidos sobre esta área.
Para dar conta da tarefa que nos foi confiada, optamos pela
definição de linhas e eixos temáticos que recobrissem a grande
pluralidade de aspectos, buscando também compor um quadro, o
mais rico possível, da diversidade encontrada na BTS, tanto na
atualidade como numa abordagem histórica mais aprofundada.
Para isso, foi necessário esclarecer algumas questões que
atravessaram nossas preocupações com relação à amplitude do
empreendimento.
A primeira delas refere-se aos contornos da área investigada,
compreendida pelo território dos treze municípios situados na porção insular e entorno da BTS. Dez destes banhados por suas
águas – Salvador, Candeias, Madre de Deus, São Francisco do
Conde, Saubara, Salinas da Margarida, Maragogipe, Jaguaripe,
Vera Cruz, Itaparica – e três, Cachoeira, São Félix e Santo Amaro,
que se integram à BTS através do sistema hídrico, da navegação
e/ou de características culturais. Os treze municípios abrigam uma
população total de 2.783.738 habitantes (IBGE, 2010), contudo,
87,76% desta se encontram no município de Salvador.
Considerando que a delimitação da BTS frequentemente tem
variadas respostas, foi solicitado aos autores de cada texto que
problematizassem esse aspecto em seus respectivos capítulos, de
forma que o livro no seu conjunto refletisse essa discussão.
Como orientação mais geral para a organização deste livro,
lembramos também que as regiões do entorno da baía – o
Recôncavo e a Região Metropolitana de Salvador – não são
coincidentes, apresentando, no entanto, importantes áreas de
interseções e superposições. Na caracterização do entorno da
BTS, pode-se considerar apenas as áreas margeadas e suas
populações ribeirinhas ou estender seus limites às regiões em que
se verifiquem continuidades identitárias importantes. A partir de
quais aspectos poderíamos caracterizar o "entorno da BTS e sua
extensão", de forma que alcancem densidade conceitual, ampliando
os limites do reconhecimento estritamente geográfico?
Ao longo dos capítulos que foram escritos, podemos observar
variações em torno da área delimitada por cada um dos autores que
tratam desta questão, tanto em perspectiva dos limites físicos
quanto históricos, implicando em variações importantes nas
concepções da área abrangida. Contudo, o objetivo que temos é
exatamente o de explicitar as possibilidades de se apropriar de um
termo ou conceito, extraindo dele novos usos para a compreensão
da questão que realmente nos interessa: como se caracteriza e se
conforma a dinâmica da vida das populações que habitam o entorno
da BTS em suas variadas formas (aspectos econômicos, culturais,
demográficos etc.)? Como desdobramento dessa questão, ganha
relevância a investigação das relações entre Salvador e os municípios do interior e entorno da BTS que historicamente se
encontram em sua área de influência.
Os problemas de delimitação e conceituação não se restringem ao
entorno da BTS. A própria caracterização do Recôncavo não foge
às mesmas dificuldades geopolíticas: pesquisadores como Maria
Brandão (2007) e Milton Santos, por exemplo, indicam delimitações
diferenciadas. Conforme esclarece Brandão (2007), desde meados
dos anos 70, o interesse do governo federal foi crescentemente
dirigido à Região Metropolitana de Salvador (RMS), provocando
uma redefinição do termo "recôncavo", que passa a excluir a
própria RMS e os municípios ao norte e a oeste dessa região,
ficando restrito à região sul e mais 14 municípios de regiões
próximas. Poderíamos afirmar, então, que os "recôncavos" são
muitos e, principalmente, que são "moventes", tendo os seus limites
administrativos, econômicos e culturais se modificado ao longo do
século passado.
A controvérsia dos limites é um indicador das diferenças que
atravessam o entorno da BTS e que marcam fortemente a sua
ocupação e o desenvolvimento posterior, conformando, ao longo da
história, territórios culturais bem demarcados. Como região
subsidiária de Salvador, importante referência da "baianidade",
espaço marcado pela pluralidade e enorme desigualdade social –
estas são diferentes possibilidades de se compreender o entorno da
BTS. (PEDRÃO, 2007)
Como já indicamos, a não coincidência entre os limites geopolíticos
do Recôncavo e o entorno da BTS nos leva necessariamente à
problematização dos limites das áreas investigadas. Por outro lado,
isso não elimina a necessidade de realizarmos um esforço de
investigação conjunto, já que ambas as regiões participam de uma
mesma trajetória histórica, com seus problemas e potencialidades.
Atualmente, essas regiões enfrentam novos desafios em razão da
intensificação do seu potencial turístico, bem como das novas
formas de relação com a capital. Analisando a BTS e as condições
de vida das populações do entorno, Ronan Brito (2001) afirma que, apesar de todos os problemas que envolvem riscos de natureza
ambiental, a BTS apresenta condições de retomar a sua
importância. Mas, para isso, é necessário um grande projeto
metropolitano que considere toda a sua diversidade cultural e
ambiental, revitalizando a economia regional para investir na
alternativa representada pela denominada indústria turística.
O potencial náutico e turístico da Baía é inquestionável; contudo
é preciso que limpemos as lentes embaçadas dos nossos
óculos para também podermos enxergar que ali também vive
um povo que certamente continuará sem grandes perspectivas,
mesmo com a chegada de um turismo classe A. Continuarão
sempre empregados dos hoteleiros, ganhando uns míseros
salários mínimos para arrumar os quartos dos hotéis de luxo ou
vendendo bugigangas nas ruas de Itaparica ou Cachoeira.
(BRITO, 2001, p. 99)
Outra questão relevante é que a publicação deste livro poderá
contribuir para minimizar a assimetria entre a importância histórica
das regiões do entorno da BTS na formação da identidade baiana e
a escassez de trabalhos que enfoquem a sua diversidade,
oferecendo caminho para futuros trabalhos sistemáticos que,
transgredindo fronteiras disciplinares, seguramente poderão
contribuir com uma compreensão mais sistêmica das questões aqui
apontadas.
Neste sentido, Pedrão (2007) aponta a emergência de novos
enfoques que buscam superar a perspectiva tradicional escravista,
através de uma abordagem mais refinada da complexidade dos
processos envolvidos nas transformações históricas da região:
É um problema de sociologia histórica que leva a substituir
termos genéricos, tais como o negro, o índio, os pobres, os
senhores de engenho, por terminologia mais específica, que
revela a pluralidade. Passa-se a falar de diferentes grupos de
negros no ambiente rural e urbano e com diferentes tradições;
de diversos remanescentes indígenas e da presença indígena
na esfera da escravidão; de multiplicidade de condições de
pobreza e de diversos capitalistas [...]. (PEDRÃO, 2007, p. 11)
Como o próprio autor afirma, ainda é persistente a falta de
articulação entre as perspectivas historiográfica, demográfica,
econômica e socioantropológica (PEDRÃO, 2007). Às mencionadas
perspectivas, adicionaríamos outras, que transgridem fronteiras
disciplinares e campos de saberes científicos, de maneira que seja
possível compreender a BTS e suas populações numa perspectiva
de sistema articulado e interdependente, cujas características
distintas devem ser consideradas em qualquer projeto de
desenvolvimento autossustentado que venha a ser elaborado.
O livro encontra-se organizado em três grandes eixos temáticos. O
primeiro eixo, intitulado Formação histórico cultural é composto por
sete capítulos que abordam a dimensão histórica a partir de
diferentes perspectivas. O capítulo inicial, de Carlos Etchevarne e
Luydy Fernandes, aborda os vestígios arqueológicos de grupos
indígenas caçadores coletores – através dos sambaquis – e
horticultores ceramistas, construtores de grandes aldeias –
identificados na tradição ceramista. O texto de Ubiratan Castro de
Araújo leva-nos a familiarizar-nos com os reveses da colonização
portuguesa, desde os seus primórdios, em suas interfaces
violentas com os Tupinambás que povoavam a região. O capítulo de
Maria Hilda Baqueiro Paraíso aborda o mesmo contexto histórico,
detendo-se especialmente nas diversas formas de resistência do
indígena face ao projeto colonizador. Seguindo adiante, Wellington
Castellucci Junior retrata as repercussões, na área do Recôncavo
baiano, do importante episódio de resistência escrava nas Américas
– o levante Malê em 1835 –, enfocando especialmente os processos
ocorridos na então Comarca de Nazaré das Farinhas. A seguir,
temos o texto de Mário Mendonça de Oliveira, apresentando uma
abordagem histórica das fortificações existentes na BTS, as
polêmicas envolvidas nas suas construções e posteriores
transformações. O capítulo de Paulo Ormindo de Azevedo aborda a
dimensão arquitetônica, em estreita articulação com o processo de
urbanização da região, desde a formação dos primeiros povoados e vilas. Findando a primeira parte, encontra-se o texto de Fernando
Pedrão sobre o processo de formação da economia e sociedade da
BTS, enfatizando a importância do Recôncavo na confecção do
imaginário social marcado pelo "atraso" e tradicionalidade que
caracterizaram o modelo escravista.
O segundo eixo, Economia, infraestrutura, transporte e
desenvolvimento, compreende seis capítulos. O primeiro deles é o
de Sérgio Fraga Santos Faria, sobre a importância da atividade
portuária na BTS para o desenvolvimento econômico da região. O
segundo, de Fábio Bandeira e Ronan Caires de Brito, retrata
aspectos populacionais, socioeconômicos e de divisão do trabalho
das comunidades pesqueiras, bem como seus saberes e práticas
cotidianas. Ainda no âmbito da mesma temática, João de Pina
Cabral apresenta um ensaio de ergologia (que aborda os objetos
que situam as pessoas no mundo), descrevendo os "modos de
fazer" da atividade pesqueira das populações ribeirinhas. O capítulo
escrito por Lívio Sansone aborda os efeitos das mercadorias-chave
– açúcar e petróleo – para a formação de identidades sociais na
região, em interface com os processos de racialização. O texto de
Pedro Vasconcelos apresenta um painel das transformações por
que passou a baía, sob diversos aspectos: geográfico, econômico e
político, onde se podem observar períodos de maior ou menor
dinamismo. Encerrando a segunda parte do livro, um pequeno e
instigante texto de Sylvio Bandeira de Mello e Silva, no qual ele
apresenta os desafios atuais em torno do desenvolvimento da BTS
num contexto de globalização.
O último grande eixo do livro intitula-se Expressões religiosas,
artísticas e imaginário baiano, sendo composto de sete capítulos.
Inicia-se com um texto coletivo – Viga Gordilho, Gal Meirelles,
Giovana Dantas e Nicole Avillez – apresentando os resultados
iniciais de um projeto de oficinas de experimentações artísticas,
realizado na Ilha de Itaparica. Inspirado na literatura de Jorge
Amado, o capítulo de Ordep Serra e Xavier Vatin retrata os rituais
festivos – cívicos e religiosos – que percorrem a BTS. O terceiro
texto, também de autoria coletiva – Fátima Tavares, Cláudio Pereira e Carlos Caroso –, realiza um mergulho na diversidade religiosa de
Salvador e entorno da BTS, enfatizando sua antiguidade, a
dimensão pública diferenciada e as transformações recentes.
Seguindo em afinidade temática, o capítulo de Célia Sacramento
apresenta as festas na Ilha de Itaparica através de uma abordagem
multissituada do fenômeno. Os capítulos restantes exploram o
campo da literatura. A BTS retratada na literatura brasileira (tomada
numa concepção ampliada) é o objeto do texto de Pedro Barboza.
Em seguida, Lícia Soares de Souza nos apresenta a imagem da
BTS que emerge do romance Mar Morto, de Jorge Amado. Por fim,
encerrando o livro, Rita Olivieri-Godet realiza um mergulho na obra
de João Ubaldo, destacando elementos que muito contribuíram para
fixar o imaginário da Ilha e do Recôncavo.
Nossa intenção com a organização e a publicação deste livro, em
resposta a uma proposta-convite já mencionada, é de contribuir para
a visibilidade social de processos e dinâmicas socioculturais de
cidades e regiões relegadas, atualmente, ao ostracismo da
imprensa e ao descaso de políticas públicas adequadas à melhoria
de vida das populações que residem e dão a face humana do
entorno da BTS.
Esperamos que no conjunto esta obra constitua um documento base
para desencadear e fundamentar novas interpretações sobre a BTS.
Mais do que uma região geográfica sobre a qual não existe
consenso absoluto quanto aos seus limites, esta representa um
variado complexo de expressões culturais a exigir a urgente
formulação de políticas públicas culturalmente sensíveis e ações
gerenciais apropriadas para lidar com a diversidade aí encontrada.
Visa-se, assim, contribuir para o enfrentamento de grandes
desafios, como a reparação dos danos ambientais e socioculturais,
para impulsionar o desenvolvimento ambiental, econômico e
humano sustentável; para preservar a diversidade de expressões
culturais que lhe dão características singulares; e, por fim, promover
a justiça social para as populações que interagem neste sistema
através de variadas atividades.
Referências
AGOSTINHO, Pedro. Embarcações do Recôncavo: um estudo de
origens. Salvador: Museu Wanderley Pinho, 1973. (Série Sociedade
e Cultura).
. Para um programa de pesquisas sobre arqueologia, historia
e arqueologia navais da costa brasileira: o projeto Archenave. O
Arqueólogo Português, v. 4, p. 367-377, 1989.
ARAUJO, José Goes de. Naufrágios e afundamentos: Costa do
Brasil, 1503 a 1995. 2. ed. Salvador: JM, .
BRANDÃO, Maria de Azevedo. Os vários recôncavos e seus riscos.
Revista do Centro de Artes, Humanidades e Letras, v. 1, n. 1, 2007.
BRITO, Ronan. A gestão da Baía de Todos os Santos. Bahia:
Análise & Dados. Salvador, v. 11, n. 2, p.98-100, set. 2001.
IBGE. Resultados do Censo 2010. Diário Oficial da União, 04 nov.
2010. Disponível em:
<http://www.ibge.gov.br/censo2010/resultados_do_censo2010.php>.
PEDRÃO, Fernando. Novos e velhos elementos da formação social
do Recôncavo da Bahia de Todos os Santos. Revista do Centro de
Artes, Humanidades e Letras, v. 1, n. 1, p. 8-22, 2007.
SANTOS, Milton. A rede urbana do Recôncavo. In: BRANDÃO, M.
(Org.). Recôncavo da Bahia: sociedade e economia em transição.
Salvador: Fundação Casa de Jorge Amado: Academia de Letras da
Bahia: UFBA, 1998.
SPHAN/PRÓ-MEMÓRIA. Ministério da Cultura. Patrimônio cultural
naval do Brasil. Brasília: Banco Central do Brasil, 1990.
Exemplares do Patrimônio Naval da Baía de
Todos os Santos saveiros do recôncavo
Figura 1 - Sombra da Lua, navegando com o vento típico do verão.
Detalhes: mastro, carangueja, vela de içar e "buja".
Foto: André Lima.
Figura 2 - Saveiros de vela de içar participando da Regata João das
Botas.
Foto: André Lima.
Figura 3 - Saveiros de vela de içar, tendo ao fundo o Farol da Barra.
Foto: André Lima.
Figura 4 - Saveiros Ideal e Vendaval II competindo na Regata João
das Botas (2008).
Foto: André Lima.
Figura 5 - Saveiros de vela de pena tendo ao fundo a encosta do
Corredor da Vitória.
Foto: André Lima.
Figura 6 - Saveiro rabo -de-peixe com vela de içar e "buja".
Foto: Fernando Massa.
embarcações de pesca e transporte
Figura 7 - Canoa tradicional (monóxila) a vela.
Foto: André Lima.
Figura 8 - Canoas de pesca e transporte no porto.
Foto: André Lima.
Figura 9 - Embarcação motorizada do fundo da BTS, derivada das
"lanxas".
Foto: André Lima.
Figura 10 - Catraia usada para pesca.
Foto: André Lima.
atrimônio arqueológico subaquático
Figura 11 - Âncora tipo almirantada do navio Utrecht afundado no
Banco da Panela.
Foto: Fernando Massa.
Figura 12 - Pedaço de madeirame da nau da Carreira da Índia
(Nossa Senhora do Rosário & Santo André) afundada no século
XVIII.
Figura 13 - Material arqueológico resultante de pesquisa no Porto
Organizado em Salvador.
Foto: André Lima.