Baía de Todos os Santos: aspectos humanos

Carlos Caroso · Capítulo 22 de 23

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Baía de Todos os Santos: aspectos humanos

Imagens da Ilha de Itaparica e do Recôncavo baiano em Viva o povo brasileiro

Imagens da Ilha de Itaparica e

 

do Recôncavo baiano em "Viva

 

o povo brasileiro"

 

Rita Olivieri-Godet

 

"Onde fica mesmo o Brasil, sabendo-se que certamente isto

aqui é Brasil, mas não é todo o Brasil, e pode o bom soldado

ignorar onde fica o Brasil?" João Ubaldo Ribeiro, Viva o povo

brasileiro

 

"No meio em que nascera e com a educação que estava

recebendo, o menino estava fadado a sobressair, pois, no Brasil

independente e moderno, era cada vez mais pujante a

ignorância, mais imperante a estupidez e mais universal a

flacidez moral."

João Ubaldo Ribeiro, O albatroz azul

 

Parte significativa da obra de João Ubaldo Ribeiro é baseada na

representação literária de um espaço geográfico, a ilha de Itaparica,

tema social das narrativas que vão integrá-lo, a partir de uma

perspectiva dialética entre sua dimensão real e sua dimensão

simbólica. A imagem da ilha é privilegiada pelo autor em sua busca

de representação do mundo no texto: ou as narrativas reconstroem

esse espaço, insistindo nas semelhanças com a realidade, embora

sem se restringir a uma representação realista (Viva o povo

brasileiro, O sorriso do lagarto, Miséria e grandeza do amor de

Benedita, O albatroz azul), ou assumem deliberadamente o caráter

imaginário de sua construção (O feitiço da Ilha do Pavão).

 

No romance O albatroz azul, publicado em 2009, o escritor mais

uma vez revisita esse espaço para elaborar uma reflexão sobre a

inexorabilidade do tempo e o longo aprendizado da vida e da morte. O romance evoca imagens de um certo Brasil, ao projetar uma

Bahia cujo quotidiano assenta-se num sistema cultural popular

marcadamente convivial. A dimensão lírica prevalece na evocação

do espaço da natureza no qual se integram os atores sociais como

se também eles fizessem parte dessa paisagem. O espaço físico e

cultural da Ilha e do Recôncavo emerge através de uma visão

poética e nostálgica, de uma outra temporalidade.

 

Assim contemplada do Jardim, a enchente da maré engana os

olhos e a mente, na hora em que o sol já invade tudo o que se

descortina, esbatendo tons de açafrão reluzente entre as folhas

das amendoeiras, as ameias da Fortaleza e os contornos das

nuvens. Muitas embarcações vão aproveitando o empuxo da

correnteza e bordejam o lado fronteiro no prumo da Ilha,

embora grande parte já de longe talhe derrota para os portos de

dentro do Recôncavo e outra parte aproe afora depois de

costear a leste, o velame alvo ou ocre pálido panejando contra

o azul-escuro das águas mais fundas da baía. Ajuntamento de

mariscadores bulindo lá e cá como formigões vagarosos,

curvados sobre a areia ou de joelhos em crateras de lama

almiscarada, estalos e gorgolejos borbotando todo o tempo do

vasto baixio que se funde com o horizonte, a maresia

robustecida pelo sargaço amontoado ao pé do cais – e a

enchente igual a um bicho engatilhado, que finge dormir mas

está de bote armado, pressentida apenas no ronco do marulho

longínquo. (RIBEIRO, 2009, p. 73-74)

 

Não nos deteremos aqui no último romance em data de João

Ubaldo Ribeiro, apenas o evocamos para mostrar que o imaginário

da Ilha e do Recôncavo continua a ocupar um lugar central na sua

ficção. Ao mesmo tempo, os elementos que constituem esse

imaginário aparecem revestidos de uma aura de passado. Diante da

realidade caótica e cruel engendrada por uma ideologia de

progresso neoliberal, pautada nas referências culturais de uma

ordem global que impera no presente, o espaço pleno de

humanidade evocado pelo romance pode surgir, aos olhos do leitor

atual, como um mundo em via de extinção. No entanto, o romance aposta nas imagens simbólicas da renovação, tomando o espaço

físico e cultural da Ilha como referências centrais na construção de

um imaginário que entoa um hino à força vital da existência e às

coisas simples da vida, como se tentasse perpetuar através dessas

imagens, a memória de um outro mundo possível e fugidio.

 

O sol amanhece sobre as águas silenciosas da baía e todos os

matizes faíscam por cima das ondas, dos topos das árvores, do

casario suspenso entre as brumas da aurora, dos campanários,

das velas de um saveirinho aqui e acolá. Os cheiros são

mistura almiscarada de maresia, peixe fresco, comida de

tabuleiro e mingau, café torrado, bosta de vaca, lama do

mangue, melaço de cana, aroma de flores. O que se ouve são

barulhos enganosamente próximos, trazidos pelos ecos sobre

as colinas, descampados e coroas, gritos dos pescadores que,

depois de passarem a noite nus, trabalhando no meio do mar,

agora celebram ter peixe para vender e embicam ruidosamente

as canoas para a rampa do mercado, atitos de bem-te-vis e

sanhaços, zumbidos de moscas, a lambida sonolenta da água

nos costados dos barcos apoitados, o zizio de uma faca sendo

amolada na pedra. (RIBEIRO, 2009, p. 236)

 

O espaço insular

 

Para uma ficção que examina o processo de construção da

identidade brasileira, o espaço circunscrito da ilha funciona como

uma metáfora do país em sua totalidade. A ilha figura, de maneira

enfática, a limitação das fronteiras espaciais e culturais de todo

território que se constitui como nação, com um povo, uma língua e

referências culturais que se afirmam como distintos dos outros. A

figuração de uma imagem insular do país nos remete a suas origens

históricas, explorando as tensões entre as imagens reais e utópicas

da ilha Brasil, tecidas através do tempo. Abordaremos a

representação espacial da Ilha de Itaparica e do Recôncavo a partir

de uma leitura da obra-prima de João Ubaldo Ribeiro, Viva o povo

brasileiro 1 (1984).

Em o Brasil, Província desejada

Pelo metal luzente, que em si cria,

Que antigamente descoberta e achada

Foi de Cabral, que os mares discorria,

Perto donde está hoje situada

A opulenta e ilustríssima Bahia,

Jaz a ilha chamada Itaparica,

A qual no nome tem também ser rica.

(ITAPARICA, Descrição da Ilha de Itaparica)

 

A maior parte das ações de Viva o povo brasileiro ocorrem num

espaço ficcional que se apropria das características de uma

realidade geográfica – a ilha de Itaparica e a região do Recôncavo

do Estado da Bahia, onde está situada. No entanto, se a narrativa

tem como base referencial a ilha de Itaparica, a configuração desse

espaço microscópico não se restringe a uma representação realista.

Ela adquire um caráter simbólico e evoca, de uma maneira mais

geral, o espaço identitário do país. A construção ficcional desse

espaço engloba referentes que pertencem à memória histórica e

cultural da comunidade, de tal forma que o que é reelaborado pelo

romance é mais um espaço identitário do que um território

geográfico.

 

Contrariamente ao que se poderia esperar, a ordem espacial que

emerge dessa representação está longe de ser homogênea. Há

uma relação que se estabelece entre os diferentes grupos sociais e

as unidades do espaço que ocupa. Lidamos com uma

hierarquização do espaço que revela a coexistência de vários

projetos identitários em conflito. O território da ilha ficcionalizado

engloba, de fato, territórios identitários múltiplos. Além disso, a

escolha de um lugar que desempenhou um papel fundamental na

formação da sociedade brasileira, em especial no que se refere aos

acontecimentos da luta pela independência política do país, torna

possível a projeção no espaço de uma construção histórica que a

narrativa vai se empenhar em questionar.

Além da ilha de Itaparica e a região do Recôncavo baiano serem

lugares em que ocorreram acontecimentos marcantes da história do

país, sua dimensão simbólica está reforçada pelo fato de estarem

na origem das primeiras inscrições poéticas da natureza brasileira.

Tanto o poema Ilha de Maré de Manuel Botelho de Oliveira (1636-

1711) como o de Manuel de Santa Maria Itaparica (1953) Descrição

da Ilha de Itaparica tomam esse espaço do Recôncavo como

referência e deixam marcas nas descrições literárias da natureza

brasileira. Os dois autores apressam-se em afirmar a veracidade de

suas descrições, mas eles nos deixam uma visão

predominantemente idealizada de seu local de nascimento que só

vem reforçar o mito fundador do Brasil, "Jardim do Éden".

 

No entanto, se esses dois poemas são citados frequentemente

como as primeiras inscrições da natureza brasileira na poesia2, a

eles cabe acrescentar o soneto atribuído a Gregório de Matos.

Encontra-se na produção poética desse poeta barroco um soneto

escrito num registro de linguagem bem diferente dos dois citados,

mas que já se empenhava em elogiar a ilha de Itaparica:

 

Ilha de Itaparica, alvas areias,

Alegres praias, frescas, deleitosas,

Ricos polvos, lagostas deliciosas,

Farta de Putas, rica de baleias.

 

As Putas tais, ou quais não são más preias,

Pícaras, ledas, brandas, carinhosas,

Para o jantar as carnes saborosas,

O pescado excelente para as ceias.

 

O melão de ouro, a fresca melancia,

Que vem no tempo, em que aos mortais abrasa

O sol inquisidor de tanto oiteiro.

 

A costa, que o imita na ardentia,

E sobretudo a rica, e nobre casa

Do nosso capitão Luís Carneiro.3

À exceção de elementos que correspondem à vertente licenciosa da

obra do "Boca do inferno", todos os outros são também objeto de

apologia no longo poema de Santa Maria de Itaparica: o mar, o sol,

as frutas, os frutos do mar, os peixes, as baleias, cuja pesca vai ser

longamente descrita pelo poeta. Viva o povo brasileiro vai fazer

alusão à pesca da baleia como um "ciclo econômico da ilha".

 

Essa passagem por textos que são construídos a partir da

representação da ilha de Itaparica era, em nosso entender,

indispensável, considerando-se o intenso diálogo que o romance

estabelece com a tradição literária brasileira. A obra de Ubaldo

retoma elementos presentes nos primeiros textos literários que, para

fazerem o elogio da exceção da terra brasileira, baseiam-se no

referencial da região do Recôncavo: Itaparica, mas também outras

ilhas e ilhotas da Baía de Todos os Santos (Ilha dos Frades onde o

romance situa na localidade de Ponta de Nossa Senhora, um

subcapítulo do capítulo 16; Ilha do Medo e outras), bem como

localidades e cidades que fazem parte desse "espaço ecossocial".4

 

Se olharmos de perto a topografia fictícia da ilha em Viva o povo

brasileiro, 5 constatamos que ela reforça a ilusão de realidade. A

ficcionalização do espaço baseia-se em elementos que imitam o

espaço real, a começar por referências a lugares autênticos,

incorporando nomes de diferentes localidades da ilha de Itaparica e

das cidades da região do Recôncavo bem próximas da ilha como

Cachoeira, Nazaré das Farinhas, Maragogipinho, Salinas e outras

que se inserem todas num mesmo sistema ecossocial. A

reprodução da evolução toponímica de Itaparica é um sinal externo

da profundidade histórica da narrativa e do entrelaçamento entre

estruturas espaciais e temporais. O restabelecimento dessa

evolução toponímica vai nos permitir acompanhar os traços

principais que são atribuídos a esse lugar.

 

Itaparica – "cerca feita de pedra" ou "cintura de pedra", topônimo

indígena cujo sentido alude à presença de rochedos que cercam a

ilha, rochedos que protegem das correntes e formam piscinas

naturais – torna-se Vera Cruz de Itaparica no segundo capítulo do romance, que instaura uma ruptura na ação que se desenvolve

entre os séculos XIX e XX e recua para o século XVII, no momento

em que o Brasil era ainda uma colônia de Portugal. O significante

desse topônimo, composto de palavras portuguesas e tupis, remete

aos conflitos entre os índios e os colonizadores, mais precisamente

à dominação do espaço indígena pelos jesuítas. A violência do

processo colonizador é o fio condutor desse capítulo que apresenta

a aculturação forçada, imposta aos índios pelos jesuítas. O caboco

Capiroba, filho de uma índia e de um escravo fugido, é o

personagem símbolo dessa condenação à morte, cultural e física,

que pesa sobre a cabeça dos primeiros habitantes do país.

 

A encenação do confronto entre índios e jesuítas traduz-se na

organização espacial: a Redução, território controlado pelos

jesuítas, opõe-se à aldeia indígena e à maloca do caboco Capiroba.

A Redução aparece como o espaço que aprisiona o índio, sujeita-o

a uma nova religião, subjuga-o a novas tarefas, impõe-lhe hábitos

que lhe eram desconhecidos. Um dos principais sinais desse

aprisionamento em uma nova cultura é a imposição de um modelo

linguístico. O exercício do controle da palavra pelas elites,

condenando os povos dominados ao silêncio, é um tema recorrente

no romance:

 

Na doutrina da tarde, às vezes se ensinava a aprisionar em

desenhos intermináveis a língua até então falada na aldeia,

com a conseqüência de que, pouco mais tarde, os padres

mostravam como usar apropriadamente essa língua, corrigindo

erros e impropriedades e causando grande consternação em

muitos, alguns dos quais, confrangidos de vergonha, decidiram

não dizer mais nada o resto de suas vidas, enquanto outros só

falavam pedindo desculpas pelo desconhecimento das regras

da boa linguagem. (RIBEIRO, 1984, p. 39)

 

Em Viva o povo brasileiro todas as relações de dominação são

marcadas por tentativas dos representantes do poder de roubar a

palavra ao outro para reduzi-lo ao silêncio dos povos subjugados.

Nesse capítulo 2, o narrador faz a paródia dos princípios maniqueístas nos quais se baseia a catequese, de maneira a

desvendar o etnocentrismo violento da missão dos jesuítas. A

catequese praticada pelos jesuítas no espaço da Redução surge

como "[...] uma espécie de inquisição antropológica do imaginário

indígena". (CUNHA, 1993) Ela procura culpabilizar os valores da

cultura indígena de modo similar ao que se observa nos Autos de

José de Anchieta, parte integrante da memória literária do romance.

O território da Redução surge como o espaço institucional do poder,

representa a nova ordem social imposta pelos colonizadores.

 

Em oposição à Redução situa-se a maloca do caboco Capiroba que

consegue fugir e esconder-se com suas mulheres e suas filhas. Ele

constrói sua maloca num apicum, nome tupi que designa um local

relativamente elevado, limite entre a terra firme e o mangue. O

apicum reproduz, numa dimensão ainda mais microscópica, o

isolamento da ilha. É um dos elementos constitutivos da topografia

real da ilha de Itaparica simbolicamente reconstruído nesse capítulo

como um desses locais escondidos em que o povo da ilha pode

sobreviver e exercer sua liberdade, afastados do território controlado

pelas elites:

 

Se não indicasse a experiência que a guarda e engorda de

gente era empresa de resultados duvidosos, teria de muito

começado um pequeno criatório, no apicum cercado de

mangue fechado onde agora residia praticamente todo o tempo.

(RIBEIRO, 1984, p. 45)

 

É nesse habitat que o caboco Capiroba, que se tornou canibal por

causa das narrativas que os jesuítas faziam sobre essa prática

(segundo o comentário irônico do narrador), começa a caçar

brancos para preparar pratos saborosos. O romance opta por uma

encenação tragicômica que está longe de corresponder ao ritual

indígena da antropofagia. Nesse capítulo, apesar das ligações que o

autor estabelece entre o caboco Capiroba e o herói Macunaíma de

Mário de Andrade e o recurso a procedimentos estilísticos

modernistas, não se trata mais de retomar a metáfora modernista da

antropofagia para afirmar uma particularidade da cultura brasileira que remete a uma determinada maneira de conceber as relações

interculturais. Como bem observou Eneida Leal Cunha, a

antropofagia que o caboco descobre com os padres, é "[...] a

antropofagia da gula/glutonaria, da violência assassina e da

barbárie, como foi vista pelos catequistas". (CUNHA, 1993, p. 188)

O que está em jogo, como observa com razão Eneida Leal Cunha, é

a paródia da visão dos catequistas e dos textos dos cronistas que

descreveram a antropofagia como barbárie. Por outro lado, a

violência, tanto do branco como do índio, não deixa de nos lembrar

que ela está inscrita na origem do processo de mestiçagem étnica e

cultural do povo brasileiro.

 

Aos olhos de Capiroba, o branco colonizador não é mais do que um

animal cobiçado, uma simples caça. Assim sendo, o todo poderoso

invasor é vítima de um olhar que o priva de seu ser, que o reduz a

uma coisa, a um animal, a um nada. Diante de dois holandeses 6

que "capturou", o caboco Capiroba se pergunta:

 

Ah, então eram coisas diferentes, como se dava isto? O caboco

comparou os dois com um olhar experiente. Mesmo tamanho,

mesmos cabelos, mesma roupa, mesmos sons animalescos,

provavelmente o mesmo gosto. Não se podia dizer que fosse

um aquimã e outro fosse um sinique, não havia diferença que

justificasse duas palavras. Seriam nomes então, eles tinham

nomes. O caboco se orgulhou da sua inteligência. Apontou para

o que ia ser abatido. (RIBEIRO, 1984, p. 51)

 

Através da voz do narrador adaptado ao ponto de vista do caboco

Capiroba, o texto procura inverter o alvo habitual da violência. O

branco ocupa o lugar do índio, nesse território dominado por

Capiroba, para melhor destacar os preconceitos que estão

subjacentes à ideologia da colonização. A Redução, território dos

padres da catequese; o apicum, território do índio antropófago: as

divisões espaciais conotam o antagonismo entre duas civilizações

tão diferentes como as dos europeus e dos índios brasileiros, tendo

como único ponto comum a violência.

A ilha, metonímia do Brasil, não cessa de desencadear imagens

ambivalentes que oscilam entre o paraíso e o inferno, imagens

arquetípicas do olhar dos europeus sobre esse território, como bem

ilustra a parte que reproduz o diálogo entre os dois holandeses, que

vão ser aprisionados e mortos por Capiroba, à qual pertence a

seguinte citação:

 

Mas tanto um quanto outro estamos aqui em igualdade,

igualmente parvos em haver posto fé em que aqui

encontraríamos riquezas, fortunas, imensas searas, montanhas

de ouro e especiarias, felicidade perpétua e paz de espírito,

quando o que nos acontece é este buraco verde-bile fétido,

povoado de selvagens repulsivos, lama, ratazanas e febres

espantosas, esta terra onde tudo é ameaça e nunca se tem

sossego da Natureza ou do homem. (RIBEIRO, 1984, p. 49)

 

O fragmento acima faz surgir a imagem da terra cobiçada que aliás

é encontrada no poema de Santa Maria de Itaparica, citado na

epígrafe ("Em o Brasil, Província desejada / Pelo metal luzente, que

em si cria ") – que estava presente nos sonhos dos europeus,

sonhos que se transformavam muitas vezes em pesadelo, desde

que desembarcavam em território brasileiro. Para os dois

holandeses, incapazes de enfrentar as enormes dificuldades que

lhes reserva essa terra bárbara, o sonho do Eldorado é

desmistificado. Ao longo da narrativa, o romance explora a

ambivalência dessas imagens. Ao fazer isso, procura expor as

premissas da ideologia do colonizador:

 

– Não me fales, torturas-me. Que espécie de peixes há cá? Não

pode haver bons peixes em águas tão quentes, nada aqui é

apropriado, nada daqui pode ser vivido aqui. Há coisas que

podem ser tiradas daqui e levadas para bom uso cristão, mas o

homem não pode viver aqui, é mundo para as raças serviçais e

embrutecidas. (RIBEIRO, 1984, p. 49-50)

 

O romance também mostra a permanência dessa lógica do

colonizador entre os representantes das elites brasileiras: desde

Perilo Ambrósio até os descendentes de Amleto Ferreira, os representantes das classes economicamente favorecidas são

caracterizados por um comportamento que alia a exploração, em

seu próprio proveito, dos recursos do país e do povo brasileiro a

uma atitude de difamação para com essa terra. São representados

em sua inadaptação, com os olhos sempre voltados para a Europa

(ou no século XX, para os Estados Unidos) o que revela de fato,

uma recusa de identificação com o povo e de pertencimento a essa

terra.

 

O segundo topônimo, na ordem cronológica, refere-se ao povoado

Ponta das Baleias. Esse nome tem sua origem na presença de

baleias na região e na importante atividade econômica dela

decorrente. O romance registra o auge e a decadência dessa

atividade que, até o início do século XIX, juntamente com a

produção de açúcar dos engenhos, eram os principais recursos

econômicos do Recôncavo. Viva o povo brasileiro institui tanto o

engenho quanto a armação como lugares romanescos privilegiados

para o exame das relações sociais da sociedade brasileira.

 

O povoado da Ponta das Baleias vai se tornar a sede administrativa

da ilha de Itaparica. É o espaço urbano da ilha, o lugar onde as

instituições do poder religioso (a igreja), militar (a fortaleza de São

Lourenço), político (a Câmara Municipal, a prisão) estão instaladas.

Trata-se, portanto, de um espaço institucional relacionado com as

ações que aí vão ser representadas e que encarnam as diferentes

concepções do nacionalismo que o romance explora. As ações de

três subcapítulos do romance estão aí situadas.

 

O capítulo de abertura, embora não seja precedido de referências

nem espaciais nem temporais, como é usual no romance, inclui

essas precisões ao longo da narrativa. Abre-se com a descrição de

um quadro que reproduz o retrato de um herói da independência, o

alferes José Francisco Brandão Galvão, no cenário de Ponta das

Baleias. Essa descrição do lugar, construção em abismo, alterna

com a evocação medíocre da vida cotidiana do herói em Ponta das

Baleias, antes de suas hipotéticas proezas heróicas. Assim sendo, o

autor embaralha tanto o status de realidade da narrativa – simbólica (quadro) ou real (o real da narração) – quanto sua estrutura

temporal que não cessa de oscilar entre o passado, o presente e o

futuro. Ao proceder assim, a narrativa mergulha o leitor na incerteza

e acaba por fazê-lo duvidar do mito, auxiliado pela ironia do

narrador:

 

Em toda parte sagravam-se novos heróis, um a cada dia em

cada povoado, às vezes dois ou três, às vezes dúzias, com as

notícias de bravuras voando tão rápido quanto as andorinhas

que passam o verão na ilha. (RIBEIRO, 1984, p. 10)

 

O alferes representa o herói da história oficial, aquele que

corresponde ao projeto identitário do Estado-nação. Falso herói,

involuntariamente torna-se uma figura emblemática do nacionalismo

do Estado que se esforça por construir signos agregadores, em

torno dos quais o povo se reconheça, para legitimar seu poder.

 

O terceiro subcapítulo do capítulo 11 também situa a ação em Ponta

das Baleias (Ponta das Baleias, 3 de novembro de 1846). Coloca

em cena o primeiro combate do grupo de Maria da Fé, a heroína

que encarna o projeto identitário nacional-popular, líder da Confraria

do Povo Brasileiro, para libertar da prisão um de seus camaradas de

luta, o ex-escravo Budião. Os dois principais estabelecimentos de

manutenção da ordem pública em Ponta das Baleias, a prisão e a

fortaleza, são tomados de assalto pelos rebeldes que conseguem

fugir e libertar Budião. Segundo a perspectiva do romance, trata-se

de uma vitória pontual de um projeto identitário revolucionário que

visa a subverter a ordem social injusta. Maria da Fé é a verdadeira

heroína do romance e esse subcapítulo inicia a descrição dos atos

corajosos e audaciosos que vão marcar sua trajetória de luta ao

longo da narrativa.

 

Por fim, o primeiro subcapítulo do capítulo 13 (Ponta das Baleias, 7

de janeiro de 1865) apresenta o civismo de João Popó. A evocação

das comemorações de 7 de janeiro de 1823, data histórica ligada

aos combates pela Independência na ilha, é o pretexto para suscitar

o discurso do personagem na Câmara Municipal, cheio de clichês

da retórica patriótica que alimentam os discursos oficiais. João Popó dedica a sua Pátria um devotamento ingênuo que o conduz a

reconhecer-se em todos os símbolos exteriores que a representam.

As datas históricas fazem parte do patrimônio do Estado-nação, têm

a força simbólica da agregação. Estamos diante de uma

representação do cidadão que assimilou o modelo do projeto do

Estado-nação.

 

As ações que se desenvolvem em Ponta das Baleias atribuem-lhe

essa função de lugar institucional, em relação a todas as outras

localidades da ilha. A estrutura hierárquica de dominação em

cascata reflete-se na organização espacial, o que faz com que

Ponta das Baleias surja como o lugar em que o Estado exerce seu

controle político.

 

Denodada Vila de Itaparica marca a evolução do lugar que se tornou

a sede administrativa da ilha, ao mesmo tempo que o adjetivo

denodada remete a uma característica que lhe é atribuída, em razão

de sua participação nas lutas pela independência do Brasil. Os

quatro subcapítulos que situam a ação nesse local alimentam a

discussão sobre o nacionalismo a partir dos acontecimentos da

guerra contra o Paraguai. Organizam-se sempre em torno da família

e do personagem João Popó, membro da Sociedade dos Filhos da

Independência Sete de Janeiro, cujos valores são alvo da ironia do

narrador:

 

A Sociedade dos Filhos da Independência Sete de Janeiro,

reconhecida como de utilidade pública pelo Município e pela

Província, foi criada com fins lítero-recreativos, colimando ainda

o fomento dos ideais do amor à Pátria, do espírito público e dos

valores mais acendrados da Nacionalidade. (RIBEIRO, 1984, p.

477)

 

Estância hidromineral de Itaparica, último topônimo na ordem

cronológica, destaca um outro recurso econômico, a presença de

águas termais que, a partir da primeira metade do século XX (1937),

transformou a sede administrativa da ilha num lugar privilegiado de

residências secundárias para os habitantes abastados de Salvador,

antes que, a partir dos anos 1960, a ilha se torne o paraíso dos hippies e dos turistas do Brasil e do mundo todo. É ainda em torno

de um descendente de João Popó – o comunista Stalin José – e das

comemorações da data de 7 de janeiro, que se estruturam três

outros subcapítulos. Retomam a discussão das diferentes

concepções do nacionalismo, situando-a no contexto da ditadura

militar no Brasil, a partir do confronto entre a ideologia de segurança

nacional, característica dos militares no poder, e a ideologia

comunista à qual ela se opunha.

 

Além da representação desse espaço institucional do qual

acabamos de acompanhar a evolução toponímica relacionada com

os principais eixos semânticos do romance, a ilha é também (talvez

fosse preciso dizer sobretudo) uma multiplicidade de lugares nos

quais palpita a vida cotidiana de seu povo. Essa forma de

representação insiste no caráter múltiplo e convivial do sistema

cultural popular que existe em paralelo com a tendência

homogeneizante e hegemônica da sociedade. Consequentemente,

esboça-se um vasto afresco apresentando os diferentes trabalhos

aos quais essas pessoas se dedicaram através do tempo: sua

condição de escravos nas plantações de açúcar ou nas armações

de baleias, de escravos livres pescadores, pequenos comerciantes,

pequenos agricultores, simples trabalhadores ocupados em tarefas

diversas, pequenos funcionários públicos, professores primários,

enfim, a imagem de um povo que trabalha. É essa imagem que o

romance procura manter presente na memória do leitor. Com isso,

ele descredita os discursos mantidos pelos representantes das elites

do país ao longo da narrativa, que não fazem mais do que reforçar o

estereótipo de um povo brasileiro desocupado. Um outro clichê é

desmistificado: o da cordial passividade do povo brasileiro. No

romance, esse povo que trabalha é também aquele que luta, que

combate em prol da liberdade, que resiste à aculturação por meio da

manutenção de suas tradições culturais.

 

A ótica do romance é a de apresentar as correlações de força nas

quais são produzidos os projetos identitários. Portanto, a

organização em camadas do espaço ficcional, que surge assim

fortemente hierarquizado, permite diversas perspectivas de apreensão dos fenômenos identitários. As grandes propriedades,

como a de Armação do Bom Jesus, demarcam, pela organização de

seu espaço e pela função que lhes é atribuída, a classe social dos

personagens e determinam suas diferentes atividades. Assim

sendo, na grande propriedade Armação do Bom Jesus – que está

no cerne da narrativa, centrada no poder de seu proprietário Perilo

Ambrósio, figurado como um outro falso herói da história oficial – a

casa-grande e a capela opõem-se à senzala, enquanto a casa-

pequena é destinada ao administrador da propriedade. A casa da

farinha transforma-se em lugar de conspiração onde se reúnem os

membros rebeldes da misteriosa Confraria do povo brasileiro.

 

Assim como a casa da farinha, outros lugares na ilha, dentre os

quais o Acampamento do Matange, uma senzala abandonada que

serve de abrigo ao grupo de Maria da Fé, são evocados como

espaços de resistência política. Mas o lugar emblemático da

liberdade do povo negro da ilha é a Capoeira do Tuntum, lugar de

resistência de uma cultura que se mantém através dos séculos pela

tradição oral. Situada ainda dentro dos limites da Armação, é o

espaço de liberdade preservado pelos negros. A narrativa constrói a

descrição da capoeira, insistindo no simbolismo do sagrado que se

manifesta nas características que lhe atribui: seu isolamento, sua

forma de círculo, o luar que a ilumina, os caminhos tortuosos para a

ela aceder. 7 Território mágico em que se manifestam as sucessivas

reencarnações da "alma brasileira"; espaço identitário para onde

convergem os personagens negros do romance, ao encontro de

suas crenças, de sua memória ancestral, de seu sistema cultural:

 

Então não eram realmente os mesmos, esses negros, não

tinham as mesmas caras galhofeiras que exibiram na festa, não

pertenciam a ninguém, como lá sempre pertenceriam. E pelo

menos hoje podiam bater seus tambores, pois haviam ido

embora o barão, a baronesa e os convidados. (RIBEIRO, 1984,

p. 148)

 

Todos esses lugares, desde o apicum do caboco Capiroba,

passando pela casa da farinha, o acampamento de Maria da Fé, a Capoeira de Tuntum ou o terreiro de Rita Popó, ao lugar chamado

de Amoreiras em que Patrício Macário, de volta a Itaparica, encontra

finalmente "a via de acesso ao conhecimento"8, figuram espaços de

liberdade relacionados com um projeto identitário de resistência

nacional-popular que o romance apresenta. Nesses espaços, a

cultura africana surge como um dos fundamentos culturais da

identidade brasileira. Viva o povo brasileiro vai eleger como forma

privilegiada de caracterização do imaginário popular brasileiro uma

dominante étnica de origem africana, recriando manifestações

próprias das sociedades primitivas e sem escrita: os mitos de

origem, as genealogias, as práticas religiosas, os rituais de magia,

as lendas, os saberes considerados como segredos, todos esses

componentes estão presentes no romance.9 (GODET, 2009, Maria

da Fé ) Esses lugares de exceção existem afastados do espaço

institucional. São lugares cortados da vida cotidiana, de acesso

difícil, como o terreiro de Rita Popó "escondido num matagal

desguedelhado, de trilhas tortuosas." (RIBEIRO, 1984, p. 594)

Territórios de asilo para um povo que vive à margem, exilado em

seu próprio país, sentimento expresso nas reflexões do negro

Budião, de volta à ilha depois de lutar na Guerra dos Farrapos.10

 

Sem sentir, como se o chimarrão subindo fumegante pela

bombilha o embriagasse, contou devaneando que lutara muito,

que passara de carregador e serviçal a combatente, mas que

combatera como preto, sempre como preto, sempre diferente

mais do que na cor, sempre por baixo, mesmo que no alto.

Nisto era que lhe vinha maior confusão, pois achara que era

coisa do Povo Brasileiro como todas as coisas da Irmandade –

"mas como podia ser, se para ele parecia continuar a não haver

lugar?" (RIBEIRO, 1984, p. 312, grifo nosso)

 

O romance explora as marcas da ruptura entre a nação-como-

Estado (totalitária) e a nação-como-cultura (convivial). A Confraria

do Povo Brasileiro luta para construir um território plural em que o

povo excluído, vítima de todas as espécies de discriminações,

inclusive a discriminação racial, possa encontrar seu lugar, um único

lugar capaz de integrar as diversidades, um projeto social fraterno que edificaria pontes, ali onde só havia lugares superpostos e

estanques. É interessante destacar no discurso de Maria da Fé,

signos que denotam uma visão ampliada da terra e do povo

brasileiros, uma vontade de recosturar um tecido espacial

esgarçado:

 

– Povo do Arraial do Baiacu e de toda a terra de Vera Cruz!

(RIBEIRO, 1984, p. 383)

 

As referências toponímicas não estão restritas ao lugar em que

acontece a ação. De Baiacu a Vera Cruz – "cujo nome [...] autoriza

uma assimilação a todo o Brasil", como destacou Utéza (1999) 11 – o

discurso de Maria da Fé incorpora gradualmente novos territórios no

tecido espacial que ela pretende ver reconstruído:

 

– Povo do Baiacu, povo de Vera Cruz, povo da Ilha de Itaparica,

povo da minha terra, quero vossos ouvidos para neles soprar a

revolta que salva! (RIBEIRO, 1984, p. 384)

 

O discurso convida-nos a ler a transfiguração do território em nação,

anuncia as promessas de salvação, contanto que o povo esteja

decidido a combater em prol de uma mudança radical da sociedade.

O projeto identitário inicialmente previsto com a forma de identidade-

resistência evolui para um projeto mais amplo de transformação

social.

 

O espaço do povo figurado no romance é por excelência o espaço

exterior, o espaço de fora. A maior parte das atividades de que

participam as pessoas do povo ocorrem ao ar livre, quer refiram-se

a seu trabalho, seu lazer, suas festas ou cerimônias religiosas.

Assim sendo, a narrativa focaliza o povo em contato direto com a

natureza. Não há espaço para descrições da natureza que

dispensariam a presença do homem. O povo surge integrado na

paisagem dessa terra, de maneira consubstancial.

 

A injustiça da ordem social contrasta com o simbolismo da ilha como

um espaço ditoso em que ainda é possível acreditar na felicidade. É

o que se constata especialmente nas cenas que descrevem as relações que os dois protagonistas do romance, Maria da Fé e

Patrício Macário, mantêm com esse espaço físico:

 

Um dos maiores prazeres que existem é sair depois de uma

pancada de chuva pesada mas ligeira e sentir nos pés a água

morninha empoçada nas lajotas que o sol vinha esquentando.

Dafé lembrou que, se Vô Leléu estivesse no Baiacu e não na

Bahia resolvendo negócios, reclamaria ao vê-la de saia

arrepanhada e descalça, arrastando os pés nas poças com os

artelhos bem abertos para desfrutar melhor do calorzinho.

(RIBEIRO, 1984, p. 314)

 

Na praia, [Patrício Macário] tomou a direção de Itaparica em

marcha andadeira, mas logo afroxou a brida, e o cavalo passou

a galopar alegremente pela areia chapinhante das coroas. Não

podia mesmo haver lugar tão bonito quanto este, uma infinitude

alvinitente encaixada na noite, o vento jogando ao espaço

gotinhas d'água que pareciam misturar-se com as estrelas,

cintilando igual a elas e colorindo tudo o que se via. Apertou de

novo o lenço contra o peito – poderia haver felicidade mais

plena do que a sua? (RIBEIRO, 1984, p. 611)

 

Assiste-se dessa forma à figuração de um espaço exterior

apaziguador que permite uma participação íntima dos personagens

no espetáculo da natureza. Não se trata simplesmente de

contemplar a natureza, mas de experimentá-la com todos seus

sentidos despertos, de nutrir-se de sua beleza para deixar emergir a

felicidade do ser. A força simbólica desse quadro harmonioso é

portadora de esperança.

 

A estrutura espacial do romance opõe o espaço exterior da ilha,

espaço popular por excelência, e o espaço interno no qual ocorrem

as ações situadas nas grandes cidades. Contrariamente à

multiplicidade de lugares que caracteriza a organização ficcional do

espaço da ilha e das localidades do Recôncavo que lhe estão

próximas, a ficcionalização dos espaços metropolitanos sofre uma

redução extrema. Quanto a Salvador, quase não se faz nenhuma

alusão a seu espaço físico referencial, à exceção de algumas menções à praça do Terreiro de Jesus e ao bairro do Maciel onde

está instalado o escritório de Perilo Ambrósio e de Amleto Ferreira.

O espaço se fecha, circunscrito às casas desses dois personagens,

bem como ao escritório, lugar emblemático do mundo dos

negócios. 12 Paralelamente a essa apresentação do espaço privado

das elites brasileiras, a focalização interna, frequentemente utilizada

pelo narrador para expor suas premissas ideológicas, permite

mostrar ao leitor todas as tramoias desses personagens.

 

A representação de Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo é feita em

função da mobilidade dos descendentes dos representantes do

poder que acompanham o deslocamento do centro econômico do

país. É o território do poder hegemônico, o lugar do "Brasil

moderno" cujas elites incorporam o imaginário branco herdado dos

colonizadores, associado aos valores do capitalismo internacional.

O antagonismo entre as representações espaciais da ilha e as das

cidades figura, de maneira singular no universo romanesco, o

conflito entre o mundo primitivo e o mundo moderno ocidental que a

literatura brasileira contemporânea persiste em reinterpretar.

 

Referências

 

CUNHA, Eneida Leal. Estampas do imaginário: literatura, cultura,

história e identidade. 1993. Tese (Doutorado em Literaturas de

Língua Portuguesa) – Pontifícia Universidade Católica do Rio de

Janeiro, Rio de Janeiro, 1993.

 

_____. O imaginário brasileiro: entre a genealogia e a história. In:

_____. Estampas do imaginário. Belo Horizonte: UFMG, 2005. p.

83-120.

 

GODET, Rita Olivieri. Construções identitárias na obra de João

Ubaldo Ribeiro, 2009. São Paulo: Hucitec; Feira de Santana, BA:

UEFS; Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 2009.

(Linguagem e cultura, 44)

HOLANDA, Sérgio. O mito americano. In: CANDIDO, Antonio (Org.).

Capítulos de literatura colonial. São Paulo: Brasiliense, 1991. p. 79-

115.

 

ITAPARICA, Manuel de Santa Maria. Descrição da Ilha de Itaparica.

In: HOLANDA, Sergio Buarque de. Antologia dos poetas brasileiros

na fase colonial. Rio de Janeiro: Departamento de imprensa

Nacional, 1953. v. 1, p. 170-193.

 

MATOS, Gregório. Obra poética. Edição James Amado. Rio de

Janeiro: Record, 1999. v. 2.

 

MITTERAND, Henri. Le lieu et le sens: l'espace parisien dans

Ferragus de Balzac. In: _____. Le discours du roman. Paris : PUF,

1980. p. 189-212.

 

RIBEIRO, João Ubaldo. O albatroz azul. Rio de Janeiro: Nova

Fronteira, 2009.

 

_____. Viva o povo brasileiro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.

 

RISÉRIO, Antonio. Viva Ubaldo brasileiro. Cadernos de Literatura

Brasileira, n. 7, p. 91, 102, mar. 1999, p. 91-102.

 

SOUSA, Lícia Soares de (Org.). Dicionário de personagens

afrobrasileiros. Salvador: Fapesb: Quarteto, 2009.

 

SOUBEYROUX, Jacques. Le discours du roman sur l'espace:

approche méthodologique. In: _____. Lieux dits: recherches sur

l'espace dans les textes ibériques (XVIe – XXe siècles). Saint-

Étienne: l'Université de Saint-Étienne, 1993. p. 11-24.

 

UTÉZA, Francis. João Ubaldo Ribeiro: Viva o povo brasileiro ou

l'esprit de la fraternité. Quadrant, Montpellier: Université Paul Valéry,

n. 16, p. 141-187, 1999.

 

_____. Rita Popó et le mystère de la désincarnation. Les langues

néo-latines, n. 311, p. 73-85, 2000. Supplément. Journée de réflexion sur les auteurs des programmes des Concours

d'Agrégation et du Capes de portugais.

 

WEINHARDT, Marilene. A presença do sagrado em "Viva o povo

brasileiro". Letras, Curitiba, n. 36, p. 167-179, 1987.

 

1 Este artigo retoma parte do texto A ilha de João Ubaldo: a

construção do espaço em "Viva o povo brasileiro" publicado no livro

de nossa autoria Construções identitárias na obra de João Ubaldo

Ribeiro, 2009.

 

2 "As reservas que se possam opor à fórmula descritiva inaugurada

entre nós com a 'silva' da ilha da Maré não devem dissimular este

fato de notável significação: é através dela que a natureza brasileira,

pela primeira vez, ganha de certo modo cidadania poética."

(HOLANDA, 1991, p. 79).

 

3 "Descreve a Ilha de Itaparica com sua aprazível fertilidade e louva

de caminho ao capitão Luiz Carneiro homem honrado, e liberal, em

cuja casa se hospedou". (MATOS, 1999, p. 1120)

 

4 Expressão empregada por Antônio Risério que afirma que a "Baía

de Todos os Santos, espaço ecossocial fundamental no processo

histórico da construção do Brasil, revive e palpita com clareza e

intensidade, na tela semiótica tecida por Ubaldo". (RISÉRIO, 1999,

p. 91-92)

 

5 Para a análise do espaço fictício, recorremos a instrumentos

metodológicos que nos foram sugeridos pela leitura do ensaio de

Henri Mitterand (1980), Le lieu et le sens: l'espace parisien dans

Ferragus de Balzac, e pela do artigo de Jacques Soubeyroux (1993)

Le discours du roman sur l'espace: approche méthodologique.

 

6 Esta parte do romance situa a ação na época das invasões

holandesas no Nordeste do Brasil.

7 A esse respeito, ver o artigo de Marilene Weinhardt (1987, p. 167-

179).

 

8 Francis Utéza (2000) estuda detalhadamente esse episódio no

ensaio Rita Popó et le mystère de la désincarnation.

 

9 Sobre Maria da Fé, ver meu artigo que consta em Souza (2009, p.

192).

 

10 Revolução Farroupilha (1835-1845) no Estado do Rio Grande do

Sul.

 

11 Os portugueses pensaram que aportavam numa ilha, daí o

primeiro nome com que foi batizado o Brasil, o de Ilha de Vera Cruz.

 

12 Observe-se que a ação situada em São Paulo ocorre no escritório

de um descendente de Amleto Ferreira. O escritório tende a

substituir em importância o espaço familiar da casa.