Baía de Todos os Santos: aspectos humanos

Carlos Caroso · Capítulo 3 de 23

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Baía de Todos os Santos: aspectos humanos

Eixo I – Formação histórico-cultural

Eixo I – Formação Histórico-

 

cultural

Apontamentos para uma Arqueologia

 

do Recôncavo Baiano

 

Carlos Etchevarne

Luydy Fernandes

 

Considerações gerais sobre a ocupação humana

 

na Bahia

 

Com a concepção de que o espaço natural é apropriado

historicamente de forma diferenciada, podemos aceitar, em linhas

gerais, uma divisão segundo a qual o território que constitui hoje o

Estado da Bahia pode ser dividido em grandes áreas. Estas são

delimitadas grosso modo por aspectos ambientais que de alguma

forma condicionaram ou favoreceram a implantação de grupos

humanos que desenvolveram sistemas adaptativos diferentes. A

primeira, de leste para o oeste, é a litorânea que se estende de

norte a sul do Estado. Essa faixa inclui a Baía de Todos os Santos

limitada ao norte pela península, onde se situa a cidade de

Salvador, e que tem continuidade na concavidade territorial

denominada desde tempos coloniais como Recôncavo baiano. Em

linhas gerais, essa região tem uma cobertura vegetal típica de áreas

muito úmidas, com índices pluviométricos que permitem a instalação

de uma cobertura vegetal de floresta tropical densa, perenifólia,

chamada Mata Atlântica. Outros ambientes litorâneos, fundamentais

para a instalação humana, são os mangues, encontrados em águas

salobras dos rios que desembocam no oceano, e as restingas,

desenvolvendo-se nos solos arenosos dos cordões de dunas, que

acompanham as praias, e nas beiras das lagoas litorâneas

interdunares. Todos estes ambientes, próximos entre si, mas com

diferenciação em espécies faunísticas e florísticas, proporcionaram,

e ainda proporcionam, um conjunto diversificado de opções

econômicas aproveitadas pelos grupos sociais de tradições culturais diversas, indígenas e europeus, com tecnologias e propósitos que

lhes eram particulares.

 

Depois da região litorânea, na medida em que se interioriza em

direção ao oeste, a paisagem modifica-se em topografia, clima e

vegetação. As chuvas tornam-se paulatinamente mais escassas e,

sobretudo, distribuídas durante o ano em períodos marcados.

Acompanhando este declínio pluviométrico e a ciclicidade anual,

aparece uma vegetação caducifólia, cada vez mais esparsa até se

converter em um tipo xerófila, a caatinga. Na região central do

Estado, especificamente na Chapada Diamantina, por força da

altura alcançada em alguns pontos desse planalto, ocorrem chuvas

orográficas com aparição de uma importante vegetação densa de

altitude. No resto do território do Estado, ao norte e ao sul dessa

chapada, a paisagem torna-se agreste, com espécies vegetais

adaptadas às chuvas escassas e concentradas a um curto período

do ano. O Além-sanfrancisco, por sua vez, influenciado por outro

regime de chuva, está tomado, na sua maior parte, pelo cerrado,

com algumas manchas de transição entre este ecossistema e o

semiárido.

 

Se, por um lado, considerarmos que os equipamentos culturais são

criados como resposta adaptativa a ambientes específicos, por

outro, dificilmente pode se pensar que os grupos humanos não

tenham se deslocado para um ou outro espaço ecológico, não

fazendo uso temporária ou permanentemente de determinados

recursos naturais. Deve-se pensar, contrariamente, na utilização de

espaços variados e que a existência de mobilidade inter-regional

para a obtenção de algum produto não foi prerrogativa dos

colonizadores portugueses. A dinâmica das populações indígenas

pré-coloniais também incluía intensa movimentação dentro de um

território e entre ambientes diferentes da sua área de habitação

permanente, em que provavelmente eram usados os cursos de

água, rios e riachos, como corredores de passagens.

 

Com esta premissa fica explicitado que os vestígios arqueológicos

encontrados nos ambientes antes elencados não são produto da ação de um grupo fixo no espaço e no tempo. Antes, deve se

pensar que os sítios arqueológicos no Estado da Bahia, em todos os

períodos, correspondem à materialidade restante relativa aos

processos sociais, que envolviam populações, que mantinham uma

relação estreita com o ambiente que as circundava, mas não se

limitavam a ele. Por isto, deve se entender que tanto os grupos

indígenas pré-coloniais como os do período colonial e do pós-

colonial, assim como os contingentes de população europeia,

notadamente portuguesa, mantinham uma rede de contactos

pacíficos, comércio e alianças e relações de beligerância com outros

povos, o que significa pressupor forte dinamismo social. Por outro

lado, fica também como pressuposto que havia circulação por

diferentes territórios/ambientes, na procura de produtos que

considerassem de importância socioeconômica ou, talvez,

simbólica.

 

A ocupação humana do Recôncavo anterior à

 

colonização

 

O território em torno da Baía de Todos os Santos foi identificado

como um cenário de ocupações indígenas, conforme fartamente o

documentam os cronistas do primeiro momento de ocupação

colonial portuguesa da região. 1 No entanto, no que tange a

referências sobre grupos pré-coloniais, estas só podem ser obtidas

a partir dos vestígios da cultura material deixados por essas

populações. Efetivamente, somente as pesquisas arqueológicas

podem trazer à luz informações sobre os processos históricos que

envolveram esses grupos.

 

Em linhas gerais, através dos sítios encontrados, até o momento, na

área aqui tratada, podem se identificar formas de organização

socioeconômicas compreendidas em categorias consagradas como

a de grupos de caçadores coletores e a de horticultores ceramistas,

construtores de grandes aldeias. Cabe ressaltar que essas são

classificações englobantes e genéricas, que não deixam

transparecer as diversidades existentes entre os grupos nelas enquadrados. Do ponto de vista da Arqueologia, podemos

considerar que o primeiro caso encontra-se bem exemplificado nos

sítios sambaquis. No segundo, existem sítios classificados em duas

grandes tradições ceramistas, com períodos de aparição e

desaparição bastante bem determinados. São elas a Tradição Aratu

e a Tradição Tupi, que dominaram vastos territórios do Nordeste

brasileiro.

 

Sítios de caçadores coletores.

 

Os sambaquis

 

De acordo com o atual estágio de conhecimento da região, o

registro arqueológico mais antigo que se conhece da presença

humana no Recôncavo corresponde aos sítios denominados

sambaquis. Sumariamente, um sambaqui é o resultado de um

padrão cultural de comportamento social, derivado do acúmulo

intencional de uma grande quantidade de conchas coletadas dos

mangues. Uma parte desses mariscos recolhidos era usada como

base da alimentação daqueles grupos humanos, embora a maior

parte tenha sido coletada justamente para a construção do

montículo. Quando essa estrutura alcançava dimensões

consideradas suficientes, o grupo que o construía passava a habitar

sobre ele, de forma que o acúmulo de conchas funcionava como um

grande aterro, em alguns casos destacando-se na paisagem das

planícies costeiras e, talvez, demarcando a sua posição.

 

Em termos cronológicos, esse tipo de sítios é registrado, no Brasil, a

partir de 9.000 anos, em São Paulo, perdurando até

aproximadamente 500 anos antes da chegada dos portugueses.

Encontram-se no litoral da América do Sul, desde a Terra do Fogo

na Argentina até a costa do Estado do Pará, existindo também na

costa pacífica na região de Valdívia, Equador. Ou seja, trata-se de

um tipo de instalação litorânea bastante generalizado.

 

Os maiores sambaquis brasileiros têm, hoje, cerca de trinta metros

de altura por mais de duzentos metros de extensão e estão localizados no litoral de Santa Catarina. As inúmeras escavações

realizadas nos sítios catarinenses e paulistas demonstraram que

além de servirem como locais de habitação também se praticavam

neles sepultamentos e se confeccionavam instrumentos. Existem

outros vestígios alimentares além das típicas conchas de moluscos,

tais como restos de peixes, de mamíferos marinhos (baleias), de

aves e de animais quadrúpedes terrestres. Esse conjunto de

atividades aponta para a complexidade da vida nesses ambientes

que conjugavam recursos marinhos complementados pelos

elementos obtidos do interior do continente. Dentre a vasta gama de

objetos comumente recuperados estão os líticos lascados e polidos,

e, nesse caso, deve-se dar destaque particularmente aos zoólitos.

Tais esculturas em pedra demonstram a observação atenta de

vários animais, como, por exemplo, aves, peixes, cetáceos, além

das raras representações antropomorfas. Dos artefatos ósseos há

uma especial presença daqueles realizados sobre restos de animais

marinhos. Colares de dentes de tubarão, objetos de bula timpânica

de baleia, arpões de arraia, anzóis de conchas espiraladas, além de

vários tipos de raspadores e colheres feitos com as conchas.

 

As estruturas de combustão são elementos presentes nos

sambaquis que oferecem informações temporais essenciais à

compreensão daquele universo. Por meio do carvão delas recolhido

é possível estabelecer a cronologia absoluta dos níveis

estratigráficos, via o método de datação por C14. Restos calcinados

de cozinha, por sua vez, são comuns entre as suas cinzas,

permitindo ao pesquisador ter uma ideia mais aproximada e direta

do regime alimentar sambaquiano. Associadas aos buracos de

estacas das cabanas, as fogueiras constituem excelentes

indicadores das camadas de acúmulo do aterro de conchas,

testemunhando a sucessão dos pisos de ocupação.

 

Apesar de serem poucos os estudos arqueológicos sistemáticos na

área em torno da Baía de Todos os Santos, os dados conseguidos

legitimam pensar que todo o Recôncavo deve ser tratado como um

âmbito muito apropriado para a instalação de populações indígenas.

Nesse sentido, algumas informações obtidas pelo arqueólogo Valentin Calderón, da Universidade Federal da Bahia, podem ser

apresentadas para compor um quadro preliminar da ocupação desta

área.

 

No início dos anos 60, este pesquisador realizou o primeiro trabalho

sistemático de arqueologia na Baía de Todos os Santos na

localidade de Peri-Peri, especificamente em Pedra Oca. Aqui foi

descoberto e escavado um sambaqui que proporcionou uma

datação radiocarbônica de quase 3.000 anos de antiguidade. Os

grupos construtores desse sambaqui, assim como aqueles de outras

regiões brasileiras, tinham uma estreita relação com o ambiente

marítimo, de onde tiravam a maior parte de seus recursos

alimentares. Nem por isso, contudo, deixaram de se aproveitar dos

ambientes fluviais, lagunares ou terrestres, de onde se serviam de

recursos complementares, praticando a caça, a pesca e a coleta.

Outros sambaquis foram identificados por Calderón em diversos

pontos do Recôncavo baiano: o Sambaqui da Ilha do Casqueiro, em

Santo Amaro; o do Sobrado, na localidade de Porto Santo, na ilha

de Itaparica; e de Cajaíba, na ilha do mesmo nome, dentre tantos,

sem que esse arqueólogo proporcionasse outras datações.

 

Cabe destacar que Pedra Oca é o único sambaqui escavado, até o

presente, no Recôncavo baiano. Por isto, constitui a referência mais

importante sobre este tipo de sítio arqueológico, ainda que a sua

integridade, já na época da pesquisa de Calderón (1964, p. 15), foi

calculada em uma "mínima parte" do original devido à ação erosiva

do mar. De fato, as oscilações no nível marítimo, se, por um lado,

permitiram em um determinado momento o próprio assentamento

humano sobre uma praia a uma altura maior que a atual, podem,

por outro, ter sido motivo de devastação em períodos posteriores de

aumento do nível das águas.

 

Não obstante as restrições do estado de integridade, os dados

obtidos a partir da coleta do material arqueológico, escavado

observando rigorosamente a estratigrafia geológica e antrópica, são

fundamentais para conhecer, minimamente, o contexto cultural dos

grupos sambaquianos. No que se refere ao acúmulo intencional de conchas, por exemplo, usadas ou não para o consumo alimentar,

predominam as ostras (espécies Ostrea arbórea, Ostrea frons e a

Arca secticostata, principalmente) havendo outros exemplares de

fauna malacológica como a Lucina pectinata, Anamalocardia

brasiliana, Strombus pugilis, entre as mais abundantes.

(CALDERÓN, 1964, p. 74)

 

Como em tantos outros sambaquis brasileiros, também em Pedra

Oca foram encontrados testemunhos de enterramentos,

caracterizados como sepultamentos rasos (45-50 cm da superfície),

em posição decúbito lateral esquerdo, fletidos, com orientação da

cabeça para o sul-oeste. Nestes enterramentos não foi encontrado

nenhum acompanhamento funerário, mas, aparentemente, os sinais

de queima nos ossos das pernas têm relação com uma fogueira

ritual. (CALDERÓN, 1964, p. 72)

 

Outras evidências de ocupação humana correspondem aos restos

de fogueiras, pedras de trempes e de esteios, no que tange aos

arranjos domésticos. Os artefatos móveis de Pedra Oca

compreendem uma série de instrumentos líticos, a maior parte deles

destinados, talvez, à obtenção e consumo de alimentos. São eles

bigornas, batedores com depressões centrais, batedores moedores,

alisadores, lâminas de machado etc. (CALDERÓN, 1964, p. 61) Em

osso, foram coletados, unicamente, pontas, um provável anzol e

enfeites corporais. Já em concha, alguns artefatos polidos e contas

de colares. O conjunto de fragmentos cerâmicos, nos níveis de

ocupação pré-colonial, demonstra que os grupos sambaquianos

produziam recipientes pela técnica de roletes, com superfícies bem

alisadas e com formas simples semiesféricas ou aproximadamente

campaniformes. (CALDERÓN, 1964, p. 49)

 

No último nível de ocupação do sambaqui da Pedra Oca, Calderón

observou uma situação de contacto interétnico, manifesta pela

mistura de material indígena e restos cerâmicos de grupos coloniais.

A determinação deste momento no século XVI, período de grande

expansão portuguesa pelo Recôncavo, não implica,

necessariamente, em uma vinculação dos seus últimos ocupantes indígenas com os construtores do sambaqui. Antes, corresponde a

uma reocupação do mesmo, por parte de grupos de grandes

aldeias, que usufruíram das vantagens oferecidas pelos recursos do

ambiente.

 

Populações indígenas pré-coloniais ceramistas e

 

construtores de grandes aldeias

 

As informações derivadas dos estudos realizados até o momento

sobre sítios correspondentes a populações indígenas pré-coloniais

apontam para uma ocupação, logo na sequência aos coletores

sambaquianos, de grupos de horticultores ceramistas, fazedores de

assentamentos demograficamente importantes.

 

Esses grupos ocuparam o território do Recôncavo, o que pode ser

confirmado através dos sítios BA-13, sobre o rio Guipe, BA-89 e BA-

LN-1372, localizados e trabalhados na década de 1970. Cabe

ressaltar que na baía de Aratu, incluída por sua vez na Baía de

Todos os Santos, também Valentin Calderón reconheceu, pela

primeira vez, a existência de uma unidade cultural, de grupos pré-

coloniais, que denominou justamente de Aratu. No sítio Guipe, o

pesquisador encontrou, entre outros materiais, 54 urnas funerárias.

Datações radiocarbônicas permitiram reconhecer esse sítio como

sendo do século IX d.C. (CALDERÓN, 1974)

 

A identificação deste macrogrupo, associado aos atuais grupos de

língua Jê, é feita, de forma clara e precisa, a partir de seus rituais de

enterramento. Estes consistem na disposição dos corpos completos

em urnas de cerâmica, às vezes com acompanhamento funerário.

Os recipientes funerários têm uma padronização constante no

tempo e no espaço, de tal modo que podem ser considerados

elementos diacríticos destes grupos. Outras características das

populações Aratu são a construção de grandes aldeias e o

conhecimento da horticultura, possivelmente do milho e da batata-

doce. Hoje, sabemos que os grupos Aratu ocuparam uma extensão territorial que vai da faixa litorânea (Bahia, Sergipe, Pernambuco)

até o cerrado da Bahia e de Goiás.

 

Existem registros de outros sítios Aratu localizados em várias partes

do território do Recôncavo, por exemplo, o que se encontra no

campus da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, no

município de Cruz das Almas, nas imediações da Reitoria. Ainda

que não tenha sido escavado, sua localização nas proximidades de

um curso de água e sua posição no cume de uma colina, com boa

visibilidade sobre o horizonte circundante, corroboram um padrão de

instalação frequente nesses grupos, para esta região. Outro sítio

Aratu foi encontrado na Usina Aliança, município de Candeias,

localizado na década de 80, com a descoberta ocasional de uma

urna funerária.

 

A partir do século XIII d.C. constata-se a chegada, no atual território

baiano, de outros grupos de horticultores ceramistas que,

provavelmente conquistaram, ou então empurraram os precedentes

Aratu para outros espaços. Referimo-nos aos grupos de origem

Tupi. De fato, localizaram-se algumas situações arqueológicas em

que a disposição dos vestígios remete fortemente a uma ocupação

imediata Tupi de um local Aratu, indicando uma possível expulsão.

 

Os diversos grupos Tupi eram também horticultores, porém

especializados no cultivo da mandioca amarga que, uma vez ralada

e transformada em pasta, processavam para a extração dos

elementos tóxicos, mediante a utilização de objetos cerâmicos

específicos, os grandes pratos ou assadores. As aldeias eram

grandes, se considerarmos a distribuição espacial dos restos

cerâmicos nos sítios, o que comportaria um índice demográfico alto.

Situavam-se em pontos estratégicos, com boa visibilidade sobre o

território, próximos a rios, podendo-se pensar, por isto, que também

faziam uso de canoas como meio de deslocamento.

 

Assim como os grupos Aratu, os Tupi também enterravam os seus

mortos em urnas, dentro ou próximo aos locais de habitação. Mas,

diferentemente dos primeiros, os recipientes para sepultamento

eram de formas variadas, isto é, não padronizadas. Em alguns sítios existem indicadores de dupla funcionalidade, já que os mesmos

recipientes contentores de líquidos podem ter sido usados como

urnas funerárias. Os recipientes de utilização doméstica eram de

formato e tamanhos diversos a depender das funções. Existem

potes, de tamanho grande para conservação e preparação de

líquidos, de bojos expandidos (frequentemente com carenas na

parte central), tigelas de várias dimensões, com bordas reforçadas e

pinturas internas, e os já mencionados assadores, de formato

aproximadamente quadrangular ou ovoidal, baixos, largos e abertos,

com elaboradas decorações pintadas na parte interna, feitas com

finas linhas em preto ou marrom escuro. Em todos os tipos existem

exemplares decorados, utilizando-se como técnicas a pintura (com

uso de policromia), as incisões, os corrugados e, às vezes, algumas

aplicações modeladas, como apêndices ou asas. No todo, os

materiais cerâmicos Tupi constituem um conjunto de objetos que,

pela sua morfologia, funcionalidade e tratamento de superfície, são

facilmente reconhecíveis. Porém deve ser considerado que eles não

revelam circunstâncias sociohistóricas específicas, como a

diversidade étnica dos grupos que os produziam ou utilizavam.

 

No que se refere à inserção dos sítios na topografia, eles ocupam,

no geral, grandes superfícies, aplainadas, horizontais ou

ligeiramente inclinadas, aptas para receber um conjunto

demográfico importante. A fonte de água potável (rio, riacho ou

lagoa) encontra-se, normalmente, dentro do rádio máximo de 500m.

Em Salvador, por exemplo, foram encontrados vários sítios de

origem Tupi, como o da praça da Sé, anterior à ocupação

portuguesa, ou o da Avenida Paralela, nas proximidades da área

das lagoas litorâneas do Parque de Pituaçu. Em Jaguaripe,

município que fecha pela parte sul a Baía de Todos os Santos,

também foram encontrados vários sítios, porém com alto grau de

destruição antrópica. (ETCHEVARNE, 1998) Em Simões Filho, na

fazenda Rancho Alegre, um sítio da tradição Tupi se estende por

sobre duas suaves elevações colinares, típicas do Recôncavo,

separadas por uma baixada alagadiça, distante 200 metros de um

curso de água. Em ambas as colinas se espalham os fragmentos

cerâmicos, denunciado o tamanho da ocupação.

Durante o levantamento realizado por equipe de pesquisadores da

Universidade Federal do Recôncavo, no município de Cachoeira foi

achado um sítio Tupi, nomeado de Miudinha, nome da localidade

onde se encontra. Trata-se de um trecho do topo do planalto que

margeia as cabeceiras de uma nascente, afastada alguns

quilômetros do Paraguaçu. Nesse topo, acidentalmente, foi

descoberta uma urna funerária ainda com alguns restos ósseos e

dentários. Restaram ainda alguns poucos fragmentos de pelo

menos dois vasilhames com engobo branco e pintura vermelha e

com linhas de circunvoluções pretas, tipicamente tupis. Os

fragmentos correspondem às formas de recipientes bastante

diagnósticas, um assador e um pote.

 

Tomando por base o padrão de assentamento de outros grupos Tupi

ao longo da costa da Bahia, em que ocupam a borda da escarpa da

falésia, diretamente em frente ao mar ou a um rio, pode-se esperar

que outras antigas aldeias existam nesse trecho do vale do

Paraguaçu. Entretanto, como esse mesmo tipo de implantação foi

preferido pelas vilas portuguesas e, depois, pelas pequenas

comunidades nacionais que foram lenta, mas intensamente

habitando a terra, muitos sítios indígenas desapareceram sob os

atuais núcleos urbanos. Decorre dessa sobreposição outro fator que

prejudica a localização das antigas aldeias Tupi.

 

Quando os portugueses chegaram, no século XVI, a região do

Recôncavo era domínio de povos considerados descendentes dos

grupos Tupi arqueológicos: os Tupinambá. Ainda que não fossem os

únicos grupos a ocuparem esses territórios, as fontes documentais

mostram a sua hegemonia. Como consequência do processo de

colonização portuguesa, esses grupos desapareceram como

entidade sociocultural distinta, seja pelo aniquilamento puro e

simples, seja pela sua incorporação ao novo contingente

populacional dos novos ocupantes.

 

Breves informações históricas sobre ocupação

 

humana, do século XVI ao XIX

A documentação histórica textual e, sobretudo, os depoimentos e

narrativas de viagens de missionários, naturalistas, funcionários da

coroa e até de um senhor de engenho, morador do Recôncavo,

podem oferecer um panorama aproximado das transformações

ocorridas na paisagem natural e social do território em torno da Baía

de Todos os Santos, ao longo dos séculos XVI a XIX. Essa visão

geral diacrônica proporciona um pano de fundo dentro do qual

podem ser explicadas, ainda que de forma apriorística, algumas

situações arqueológicas encontradas nessa região.

 

O Tratado Descritivo do Brasil, de Gabriel Soares de Souza, escrito

em 1587, ou seja, pouco mais de cinquenta anos depois do início do

processo oficial de ocupação do território brasileiro, apresenta, com

precisão e agudo discernimento, inúmeros dados sobe o Recôncavo

baiano: relevos e hidrografia devidamente nomeados, vegetação e

fauna, núcleos de instalação colonial, engenhos, fazendas e

capelas, com os respectivos nomes de oragos, moradores e

proprietários, fornecendo informações adicionais sobre as

potencialidades e a real ocupação da região em termos de

exploração e recursos. Nesse sentido, alguns excertos dessa obra

são altamente eloquentes:

 

[...] e tomando por este rio abaixo [o Cotegipe] sobre a mão

direita obra de meia légua, está uma ilha de Jorge de

Magalhães, mui formosa por estar toda lavrada de canaviais, e

no meio dela, num alto tem nobres casas cercadas de

laranjeiras arruadas, e outras árvores, coisa muito para ver; e

descendo uma légua abaixo do engenho Cotegipe está a ribeira

que se chama Aratu, na qual Sebastião de Faria tem feito um

soberbo engenho de água, com grandes edifícios de casas de

purgar e de vivenda, e uma igreja de São Jerônimo, tudo de

pedra e cal, no que gastou mais de doze mil cruzados.

(SOUZA, 1971, p. 149)

 

Uma outra referência, desta vez do Matoim (hoje na área do

município de Candeias), é especialmente detalhada, já que o autor

está tratando do que será mais tarde o engenho Freguesia, um dos monumentos mais notáveis e melhor preservados da sociedade

agrária do Recôncavo colonial. Assim o descreve Soares de Souza

(1971, p. 149):

 

Saindo pela boca de Matoim fora, virando sobre a mão direita,

vai a terra fabricada com fazendas e canaviais dali a meia

légua, onde está outro engenho de Sebastião de Faria, de duas

moendas que lavram com bois, o qual tem grandes edifícios,

assim do engenho como de casas de purgar, de vivenda e de

outras oficinas e tem uma formosa igreja de Nossa Senhora da

Piedade, que é freguesia deste limite, a qual fazenda mostra

tanto aparato da vista do mar que parece uma vila.

 

Dos capítulos XX ao XXVIII, este cronista mostra como já nesse

primórdio da ocupação colonial os campos cultivados com cana-de-

açúcar se sucedem de maneira quase ininterrupta em todo o

Recôncavo. Alguns fragmentos do texto são eloquentes:

 

Por este rio de Pirajá abaixo, e da boca dele para fora ao longo

do mar da baia, por ela acima, vai tudo povoado de formosas

fazendas e tão alegres da vista do mar, que não cansam os

olhos de olhas para elas. (SOUZA, 1971, p. 147)

 

[…] e entrando por ele acima [o Matoim] mais de uma légua, vai

povoado de muitas e mui frescas fazendas, fazendo algumas

voltas, estaleiros, e enseadas, e no cabo desta légua se alarga

o rio muito de terra à terra […]. (SOUZA, 1971, p. 148)

 

"E indo correndo a ribeira do Salgado deste engenho a meia légua,

está tudo povoado de fazendas, e no cabo está uma que foi do deão

da Sé […]". (SOUZA, 1971, p. 149)

 

Defronte desta ponta está o fim da ilha de Maré, daqui torna a

fugir a terra para dentro, fazendo um modo de enseada em

espaço de uma légua, que toda está povoada de nobres

fazendas e grandes canaviais […]. (SOUZA, 1971, p. 150)

No capítulo XXIII, Souza refere-se a Jacaracanga, nas proximidades

do atual porto de Aratu, onde atualmente existem ruínas de um

grande edifício, com cais, que é considerado pelos moradores como

de um antigo engenho.

 

Da fazenda do deão se começa de ir armando a enseada que

dizem de Jacaracanga, no meio da qual está um formoso

engenho de bois e Cristovão de Barros até onde está tudo

povoado de fazendas e lavrado de canaviais: este engenho tem

mui grandes edifícios e igreja de Santo Antônio […]. (SOUZA,

1971, p. 151)

 

Os registros do padre jesuíta Fernão de Cardim, que viveu no Brasil

longos anos, como missionário e como diretor do colégio de

Salvador, organizados sob a forma de dois pequenos tratados, dão

ao leitor uma ideia muito precisa da exuberância da paisagem e dos

recursos ali existentes, origem da prodigalidade alimentada e da

decantada hospitalidade dos seus habitantes. Tais características,

tomadas em seu conjunto, teriam feito dessa região a base

geográfico-política da economia baiana.

 

Folgara de saber descrever a formosura de toda essa Bahia e

recôncavo, as enseadas e estreitos que o mar bota três, quatro

léguas pela terra dentro, os muito frescos e grandes rios

caudais que a terra deita no mar, todos cheios de muita fartura

de pescados, lagostin, polvos, ostras de muitas castas,

caranguejos e outros mariscos […]. Os engenhos deste

recôncavo são trinta e seis; quase todos vimos, com outras

muitas fazendas muito para ver. De uma coisa me maravilhei

nesta jornada, e foi a grande facilidade que têm em agasalhar

os hóspedes […]. (CARDIM, 1980, p. 157)

 

Frei Vicente do Salvador, na sua história da colonização portuguesa

do período compreendido entre 1500 e 1627, também se refere ao

Recôncavo, e, entre outros temas, trata das incursões dos

holandeses na tentativa de se apoderarem da cidade de Salvador, e

dos preparativos de defesa dos habitantes. Alude a Matoim e Ilha de Maré como locais onde os holandeses teriam estabelecido contato

com os moradores. (SALVADOR, 1982, p. 371-372)

 

Já Sebastião da Rocha Pita, em sua História da América

Portuguesa, publicada em 1730, apresenta um panorama do

Recôncavo no primeiro quartel do século XVIII, período considerado

florescente, face aos grandes contingentes populacionais e alto

poder econômico.

 

O seu Recôncavo é tão culto e povoado, que se lhe

descrevêramos as fábricas e lhe numeráramos os vizinhos,

gastaríamos muitas páginas e não poucos algarismos […]

diremos somente que existem nele certo e cinquenta engenhos

[…] Há várias fazendas de canas, algumas tão grandes em

extensão, e pela bondade do terreno tão fecundas, que rendem

dois mil a dois mil e quinhentos pães [de açúcar].

 

O número de pessoas que habitam o Recôncavo, onde reside a

maior nobreza, os trabalhadores, os escravos que andam no

serviço dos engenhos, das canas, das outras lavouras e os que

servem nas casas, excedo o cômputo de cem mil almas de

confissão, além dos que não são capazes dos sacramentos.

(PITA, 1976, p. 49)

 

No final do século XVIII, o número de engenhos parece ter

aumentado consideravelmente. Assim é que Luis dos Santos

Vilhena se referirá ao Recôncavo como tendo mais de 260

engenhos de todos os tipos. Ao mesmo tempo ele chamará a

atenção para o uso indevido das terras de massapé, próximas ao

mar, sem que elas sejam devidamente adubadas, face ao que elas

já apresentavam sinais de certo declínio produtivo. (VILHENA, 1969,

p. 174)

 

Por sua vez, o viajante alemão Robert Avé-Lallemant, em visita ao

Brasil, em 1858, já retrata um Recôncavo plenamente inserido no

início do processo de modernização industrial, em que as distâncias

se encurtam em função da facilidade dos transportes a vapor.

A imensa importância dessa região para a agricultura e

comércio exportador dela derivado trouxe também maior

facilidade de comunicação entre a Bahia [cidade] e os citados

distritos. Linhas de vapores entre Valença, Nazaré, Cachoeira

[…] ligam semanalmente, muitas vezes essas localidades […]

transportando muita gente com pequena bagagem de um lado

para o outro […]. (AVÉ-LALLEMANT, 1980, p. 31)

 

Os historiadores Wanderley Pinho e Carlos Ott, nas suas obras

História de um Engenho do Recôncavo e Povoamento do

Recôncavo pelos Engenhos, respectivamente, deixaram implícita a

concepção dos engenhos do Recôncavo como frentes de expansão

colonial e de consolidação de uma economia açucareira que será

preponderante até o século XIX, e da qual dependerá a vida da

própria capital da província.

 

É interessante observar, nessas duas obras, os últimos momentos

de existência dessas unidades produtivas. Segundo os dois autores,

uma nova dinâmica se instaura a partir das últimas décadas do

século XIX: as propriedades se dividem, na mesma proporção em

que se multiplicam os herdeiros; unem-se, associando-se em laços

matrimoniais e patrimoniais; e, ao fim, entram, quase ao mesmo

tempo, em decadência, recebendo os dramáticos rótulos de 'fogo

apagado', até se converterem em ruínas, ou receberem uma

destinação para a qual não tinham vocação.

 

Os sítios arqueológicos no Recôncavo, isto é, os locais com restos

de edifícios do período colonial e do independente, assinalam

momentos e situações sociais que podem ser inseridas no

panorama traçado acima. Além dos numerosos núcleos urbanos de

origem colonial que ainda hoje continuam existindo, como

Cachoeira, São Félix, Santo Amaro, São Francisco do Conde, São

Sebastião do Passé, entre tantos outros, encontra-se uma série

grande de vestígios de construções na área rural, que demonstram

a natureza das atividades econômicas da região e a estrutura social

correlatas: casas de engenhos, capelas, senzalas, casa de purgas,

fornos, olarias, aquedutos, área de embarques, caminhos,

estruturas defensivas. 3 As instalações religiosas, que

compreendiam também atividades econômicas substanciais são

igualmente representadas por edificações conventuais, igrejas, casa

paroquiais, colégios, entre outros.

 

Desse conjunto de edificações rurais sobressaem, sem dúvida

alguma, os engenhos de açúcar, seja pelo número como pela

complexidade espacial-arquitetônica, o que é altamente elucidativo

acerca da importância que eles tiveram na ocupação territorial do

Recôncavo. De fato, com o termo engenho se designa um conjunto

estruturado de edifícios e espaços circunscritos que compunham

uma unidade produtiva e residencial, fortemente articulada com a

capital da colônia, em função da produção açucareira que, desde o

século XVI, envolvia o Brasil, muito especialmente, o Recôncavo da

Bahia, na rede comercial do Atlântico.

 

Nesse complexo de espaços edificados e abertos se integravam a

casa grande, residência do proprietário ou senhor do engenho, sua

família nuclear, outros membros da parentela e apadrinhados, a

capela, normalmente separada da residência, essencial em uma

sociedade que no cotidiano vivia intensamente a religião católica, e

a senzala, local de moradia confinada dos escravos que constituíam

a mão de obra para o cultivo dos campos de cana. Já os espaços

destinados à transformação da cana em açúcar, podem se dividir

em casa da moenda – área do esmagamento da cana e da extração

da garapa; fornalhas – onde o caldo era fervido nos grandes tachos

até chegar ao ponto desejado e casa de purga – onde o melado era

despejado nas fôrmas de pão de açúcar, nas quais decantava,

esfriava e cristalizava. Por fim, outras construções ainda poderiam

existir no caso de engenhos hidráulicos, tais como a barragem ou

represa, o canal de condução desse fluxo represado, o aqueduto

para direcionar a água, fazendo-a cair de uma maior altura e a roda

d'água assentada no seu berço, que era usada para mover a

moenda, esmagar a cana, extraindo a garapa.

 

No município de Jaguaripe, ao sul da Baía de Todos os Santos foi

realizado um mapeamento de sítios arqueológicos que permitiu identificar alguns sítios pré-coloniais Tupi, muito perturbados por

ação antrópica, mas que demonstram a forte presença desses

grupos nessa área.4 Do ponto de vista dos vestígios coloniais e pós-

coloniais, cabe destacar o alto número de olarias e de cais de

escoamento das mercadorias cerâmicas. Deve ser ressaltado que,

nas camadas inferiores das acumulações de fragmentos de

diferentes tipos de produção, havia unicamente restos da fabricação

de objetos domésticos vidrados ou não, do tipo que é produzido até

hoje nas olarias de Maragogipinho, no município de Aratuípe. Nas

camadas superiores havia apenas fragmentos de materiais de

construção, especificamente tijolos e telhas. Esta mudança radical

na estratigrafia dos acúmulos pode estar apontando uma alteração

no mercado regional, provavelmente em função do declínio no uso

de materiais cerâmicos tradicionais no âmbito doméstico e o

aumento da demanda de materiais de construção, atendendo à

cidade de Salvador, que no final do século XIX se expande

urbanisticamente e investe em obras públicas.

 

Nesse mesmo programa de mapeamento, em Jaguaripe, houve a

oportunidade de registrar os vestígios do engenho de São Bernardo,

no povoado do mesmo nome. Do conjunto original ficaram apenas

uma boa parte do aqueduto, que se desenvolve por trechos

desnivelados, sustentando-se por uma sistema de arcos, as

pilastras do que poderia ser a fábrica de açúcar e a capela, ainda

em uso, com partido simples, de uma única nave. Outro sítio de

produção açucareira, localizado a aproximadamente 2 km do São

Bernardo à margem do Rio da Dona, no Município de Jaguaripe,

próximo à divisa com o município de Aratuípe, também foi

reconhecido. Dele se identificaram como vestígios as colunas de

argamassa mista, o berço da roda d'água, o canal condutor de água

e a barragem de desvio da água no rio. De um período mais

recente, provavelmente do século XIX, resta, ainda, uma grande

caldeira de ferro, com uma boca de 1,70m. A modernização nos

equipamentos de transformação da cana é uma situação constatada

como frequente nos restos de engenhos do Recôncavo,

demonstrando a necessidade de adaptação às exigências do

mercado nacional e internacional. Cabe destacar que os dois engenhos, acima mencionados, são aludidos como propriedades de

Gabriel Soares de Souza, sem que isto, até o momento da

pesquisa, possa ser certificado categoricamente.

 

Na ilha de Itaparica, assim como em outras ilhas da Baía de Todos

os Santos, os sítios arqueológicos que mais sobressaem são os

vestígios das igrejas ou capelas que formavam parte de uma

missão, de alguma fazenda ou de um engenho. A igreja de Nosso

Senhor da Vera Cruz, em Baiacu, e a da Igreja de Santo Antônio

dos Velasques e a capela de Nossa Senhora da Conceição, ambas

na beira do mar, são apenas exemplos deste tipo notável de sítios.

O primeiro deles corresponde ao templo de uma missão jesuítica,

fundada já no século XVI. Com as características arquitetônicas do

remanejamento realizado no século XVIII, o edifício chega, em

funcionamento, até a metade do século XX em que é abandonado

por deterioro e perigo de desabamento. Hoje, suas ruínas continuam

sendo local reverenciado por católicos e adeptos do candomblé,

sendo ainda uma referência existencial de vital importância para os

moradores dos dois municípios itapariquenses.

 

Merecem uma menção especial certos vestígios, ainda que pouco

numerosos, que remetem a uma atividade bastante importante no

período colonial, realizada na ilha de Itaparica: a caça às baleias. Os

sítios referentes a esta atividade econômica estão formados por

restos das armações, isto é, locais em que se processavam as

baleias caçadas. Infelizmente, por se situarem a beira-mar, a ação

do salitre marino, as marés excepcionais e ainda a reutilização dos

materiais de construção para outros edifícios provocou a quase

eliminação dos vestígios de armações. Conste apenas como

exemplo os restos encontrados em Porto Santo, que formam um

conjunto de fragmentos de cais, forno de frigir e muro.

(COMERLATO, 2009)

 

Em Cachoeira e São Félix, através de um recente levantamento de

locais com vestígios de ocupação colonial e pós-colonial,

concretamente 53 unidades, foi possível verificar situações

arqueológicas diversas. Considerando esse universo como uma amostragem bastante representativa dos sítios que ocorrem nesses

dois municípios, podem ser apontados aspectos comuns a eles.

(FERNANDES, 2010)

 

Os engenhos de açúcar foram instalados nos pontos que detinham

as melhores condições para uma boa produção. Para isso, foram

escolhidos lugares que reunissem as características essenciais de:

 

a) ter um córrego perene, não muito grande nem pequeno, com

um desnível e uma largura apropriados para o barramento e o

desvio parcial da suas águas até a roda que aciona a moenda

da cana;

 

b) um terreno firme, plano e amplo o suficiente para as oficinas,

casas de purga, fornos e as outras instalações e construções

do serviço;

 

c) ter terras férteis onde se cultivar a cana e com matas

próximas de onde extrair lenha para as fornalhas de cozimento

da garapa;

 

d) ter um cais para embarque da produção, pois o açúcar

destinava-se à exportação para o mercado europeu.

 

Atendendo a tais exigências, os primeiros engenhos situaram-se

nos melhores lugares para terem as suas moendas movidas pela

roda d'água, recebendo a denominação de engenhos reais. A

preferência por essa força motriz explica-se por ser a forma mais

produtiva quando comparada às moendas movidas a tração animal

ou escrava. Dessa configuração restam nos sítios as ruínas dos

aquedutos, das barragens e dos berços das rodas d'água. Todavia,

em alguns desses mesmos sítios encontram-se ao lado das ruínas

hidráulicas restos de engrenagens metálicas. Tais elementos

indicam claramente a substituição das moendas de madeira para

esmagar a cana por conjuntos metálicos quando essa tecnologia se

difundiu e, em um momento posterior, até mesmo a substituição da

força motriz pelo uso do maquinário movido a vapor, muito mais

produtivo que a roda d'água.

Para essa última etapa a evidência mais emblemática está nas

grandes chaminés, inexistentes antes do advento da caldeira a

vapor. Tal modernização aconteceu a partir do século XIX,

proporcionando um grande aumento na produtividade do açúcar e

prolongando a vida de alguns engenhos, por vezes com mais de

duzentos anos de serviços. Também provocou a centralização da

produção nos engenhos mais ricos, com recursos para adquirir e

instalar o maquinário a vapor de alto custo. No entanto, nem todas

as modernizações conseguiram salvar os engenhos da decadência

e da ruína na qual se encontram hoje, testemunhando as

transformações sofridas pela sociedade ao longo do tempo.

 

Em linhas gerais, quase todas as construções de engenhos estavam

em estado de deterioro, sendo que em dois deles as capelas se

apresentam íntegras no seu aspecto arquitetônico externo, o que

permite reconhecer um contexto construtivo relativo ao século XVII.

Uma delas, a capela do engenho da Ponte, tem uma planta

composta por altar-mor, nave e corredor lateral, com fachada que

inclui uma torre piramidal, recoberta de azulejos. A outra capela,

pertencente ao Engenho Velho, apresenta uma planta com altar-

mor, duas sacristias num partido em T e uma nave quadrada que

sustenta uma cúpula. Na portada esculpida em arenito de praia

pode-se ler a data de 1660.

 

Dos sítios de funcionalidade religiosa, contam-se seis igrejas, das

quais a maior parte encontra-se em ruínas. Contudo, algumas ainda

continuam sendo usadas pelos moradores próximos. Dentro dessa

categoria de sítio podem ser encontrados também grandes

complexos arquitetônicos, como é o caso do convento de São

Francisco do Paraguaçu. Esta obra do século XVII forma uma

unidade composta por igreja dotada de galilé e amplos corredores

laterais conformados em arcadas sobre as quais estão as tribunas.

Os edifícios incluem o claustro, adro e um amplo terreno murado.

Existem também várias capelas, algumas de grandes dimensões,

tais como a do Desterro, talvez do século XVIII, implantada numa

colina ao lado das ruínas do engenho de mesmo nome. Outras

muito modestas, já em franca desaparição, tal como a capela de Nossa Senhora do Rosário, século XVIII, num outeiro à entrada do

povoado de Coqueiros. Dentre essas, destaca-se a capela de São

João Batista, de meados do século XVIII, que pertenceu ao

desaparecido engenho Acutinga, composta por nave e altar-mor aos

quais foram acrescidos alguns cômodos na parte posterior.

 

Ainda foram reconhecidos três cais margeando o rio Paraguaçu.

Formavam parte integrante de vários tipos de construções que não

puderam ser identificadas. Por suas estruturas resistentes, em

pedra e argamassa, os cais são os testemunhos mais prontamente

identificados a partir da navegação pelo rio.

 

Durante o levantamento também se identificou uma série de outras

instalações, tais como uma olaria, da qual resta além do cais já em

ruína, o próprio forno de queima, que se mantém na quase

totalidade; uma ponte, em arco único e pleno, construída em tijolos

tipo lajotas, com pequenos muros laterais, encontrada na povoação

do Tupim, próxima a Belém de Cachoeira; um muro de dezenas de

metros de uma propriedade já desaparecida, na antiga estrada de

acesso aos caminhos para a Chapada Diamantina e para as Minas

Gerais; um portal de entrada de uma antiga fazenda na estrada para

o Capoeiruçu; uma base de cruzeiro e um poço de água na Ilha do

Capim, ao norte de São Francisco do Paraguaçu; uma antiga

barragem já sem função, situada na Rua do Tanque e recentemente

rompida para a ampliação da malha urbana em Santiago do Iguape,

entre outros.

 

Dentro da baía do Iguape existe um sítio de deposição secundária

em uma pequena praia, conhecida como Ferreiro. Sobre as suas

areias argilosas foram achados os fragmentos de faianças

portuguesas do século XVII. O forte colonial de Santa Cruz, também

conhecido como Forte da Salamina, situado na margem direita do

Paraguaçu e antes da entrada da baía do Iguape é o único exemplo

de estrutura defensiva encontrado na região. Pela sua própria

funcionalidade, um paredão vigoroso com poucos desdobramentos,

apresenta-se relativamente preservado, porém, outras construções recentes sobre o seu terrapleno comprometem e desfiguram sua

feição.

 

Por fim, registraram-se gravuras rupestres em uma gruta nas

imediações do Engenho da Salamina. São executadas em blocos de

arenito muito friável, com as técnicas de incisão e picoteamento.

Pelos seus motivos de linhas compondo pelos menos dois rostos

estilizados, não encontram paralelo nas gravuras reconhecidamente

pré-coloniais que já foram cadastradas para a Bahia, sendo a sua

origem atribuída a grupos do período colonial.

 

Como pode ser deduzido do exposto, os locais com engenhos são

as instalações com maior representatividade nesses dois

municípios. Alguns deles foram marcos referenciais na paisagem

colonial e pós-colonial posto que perduraram em funcionamento até

o início do século XX. Decorre daí o fato de permanecerem de modo

tão marcante no imaginário e no referencial de memória dessa

população. Mesmo que as suas ruínas tenham sido saqueadas na

extração de material construtivo para as casas atuais e a vegetação

os tenha praticamente recoberto, são facilmente indicados, e

nomeados em uma cartografia mnemônica e de ordenação do

espaço cultural desse grupo social derivado do que já foi chamado

de sociedade do açúcar.

 

Para concluir com a apresentação sobre o enorme e variado

potencial arqueológico no território em torno da Baía de Todos os

Santos e nas suas ilhas, cabe registrar um achado que remete

diretamente à história da cidade de Salvador. Trata-se de um dos

marcos de delimitação territorial que foram colocados por ordem do

seu fundador, Tomé de Souza. No distrito de Passé, município de

Candeias, a partir de pesquisas bibliográficas e muita perspicácia,

um historiador autodidata localizou um bloco prismático de pedra de

lioz, com a inscrição Torre do Tombo, colocado a seis léguas de

distância do núcleo urbano. Efetivamente, graças à inquietude do Sr.

Sízimo Ferreira Santos que reconhecendo que sua propriedade, na

Ponta do Passé, encontrava-se à distância exata mencionada em

documentos históricos, decide procurar, com forte intuição investigativa, um dos marcos de pedra fundacionais. Ao achá-lo,

não somente satisfez sua inquietude pessoal, como também trouxe

para a sociedade contemporânea um raro e valioso documento

arqueológico do século XVI, momento em que se inicia o avanço da

ocupação das terras em torno da Baía de Todos os Santos,

configurando a consolidação do projeto colonial português.

 

Referências

 

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1 Gabriel Soares de Souza (2000), Frei Vicente de Salvador (1982),

Fernão Cardim (1980), José de Anchieta (1988), entre outros.

 

2 Esses sítios foram denominados seguindo uma nomenclatura e

não a designação toponímica, como é habitual.

 

3 Cabe ressaltar que os vestígios das construções, especialmente

as das áreas rurais, estão se deteriorando e até desaparecendo a

ritmo acelerado, eliminando as possibilidades de reconhecimento das instalações desse período. Um arquivo documental

desconhecido de parte da história da Bahia que está prestes a

desaparecer.

 

4 O projeto "Mapeamento de sítios arqueológicos do Litoral sul e

Recôncavo baiano" foi realizado, entre os anos 1998 e 2000, no

âmbito do Museu de Arqueologia da Universidade Federal da Bahia,

tendo como instituição convidada a Universidade Estadual de Feira

de Santana.