Baía de Todos os Santos: aspectos humanos
Eixo I – Formação histórico-cultural
Eixo I – Formação Histórico-
cultural
Apontamentos para uma Arqueologia
do Recôncavo Baiano
Carlos Etchevarne
Luydy Fernandes
Considerações gerais sobre a ocupação humana
na Bahia
Com a concepção de que o espaço natural é apropriado
historicamente de forma diferenciada, podemos aceitar, em linhas
gerais, uma divisão segundo a qual o território que constitui hoje o
Estado da Bahia pode ser dividido em grandes áreas. Estas são
delimitadas grosso modo por aspectos ambientais que de alguma
forma condicionaram ou favoreceram a implantação de grupos
humanos que desenvolveram sistemas adaptativos diferentes. A
primeira, de leste para o oeste, é a litorânea que se estende de
norte a sul do Estado. Essa faixa inclui a Baía de Todos os Santos
limitada ao norte pela península, onde se situa a cidade de
Salvador, e que tem continuidade na concavidade territorial
denominada desde tempos coloniais como Recôncavo baiano. Em
linhas gerais, essa região tem uma cobertura vegetal típica de áreas
muito úmidas, com índices pluviométricos que permitem a instalação
de uma cobertura vegetal de floresta tropical densa, perenifólia,
chamada Mata Atlântica. Outros ambientes litorâneos, fundamentais
para a instalação humana, são os mangues, encontrados em águas
salobras dos rios que desembocam no oceano, e as restingas,
desenvolvendo-se nos solos arenosos dos cordões de dunas, que
acompanham as praias, e nas beiras das lagoas litorâneas
interdunares. Todos estes ambientes, próximos entre si, mas com
diferenciação em espécies faunísticas e florísticas, proporcionaram,
e ainda proporcionam, um conjunto diversificado de opções
econômicas aproveitadas pelos grupos sociais de tradições culturais diversas, indígenas e europeus, com tecnologias e propósitos que
lhes eram particulares.
Depois da região litorânea, na medida em que se interioriza em
direção ao oeste, a paisagem modifica-se em topografia, clima e
vegetação. As chuvas tornam-se paulatinamente mais escassas e,
sobretudo, distribuídas durante o ano em períodos marcados.
Acompanhando este declínio pluviométrico e a ciclicidade anual,
aparece uma vegetação caducifólia, cada vez mais esparsa até se
converter em um tipo xerófila, a caatinga. Na região central do
Estado, especificamente na Chapada Diamantina, por força da
altura alcançada em alguns pontos desse planalto, ocorrem chuvas
orográficas com aparição de uma importante vegetação densa de
altitude. No resto do território do Estado, ao norte e ao sul dessa
chapada, a paisagem torna-se agreste, com espécies vegetais
adaptadas às chuvas escassas e concentradas a um curto período
do ano. O Além-sanfrancisco, por sua vez, influenciado por outro
regime de chuva, está tomado, na sua maior parte, pelo cerrado,
com algumas manchas de transição entre este ecossistema e o
semiárido.
Se, por um lado, considerarmos que os equipamentos culturais são
criados como resposta adaptativa a ambientes específicos, por
outro, dificilmente pode se pensar que os grupos humanos não
tenham se deslocado para um ou outro espaço ecológico, não
fazendo uso temporária ou permanentemente de determinados
recursos naturais. Deve-se pensar, contrariamente, na utilização de
espaços variados e que a existência de mobilidade inter-regional
para a obtenção de algum produto não foi prerrogativa dos
colonizadores portugueses. A dinâmica das populações indígenas
pré-coloniais também incluía intensa movimentação dentro de um
território e entre ambientes diferentes da sua área de habitação
permanente, em que provavelmente eram usados os cursos de
água, rios e riachos, como corredores de passagens.
Com esta premissa fica explicitado que os vestígios arqueológicos
encontrados nos ambientes antes elencados não são produto da ação de um grupo fixo no espaço e no tempo. Antes, deve se
pensar que os sítios arqueológicos no Estado da Bahia, em todos os
períodos, correspondem à materialidade restante relativa aos
processos sociais, que envolviam populações, que mantinham uma
relação estreita com o ambiente que as circundava, mas não se
limitavam a ele. Por isto, deve se entender que tanto os grupos
indígenas pré-coloniais como os do período colonial e do pós-
colonial, assim como os contingentes de população europeia,
notadamente portuguesa, mantinham uma rede de contactos
pacíficos, comércio e alianças e relações de beligerância com outros
povos, o que significa pressupor forte dinamismo social. Por outro
lado, fica também como pressuposto que havia circulação por
diferentes territórios/ambientes, na procura de produtos que
considerassem de importância socioeconômica ou, talvez,
simbólica.
A ocupação humana do Recôncavo anterior à
colonização
O território em torno da Baía de Todos os Santos foi identificado
como um cenário de ocupações indígenas, conforme fartamente o
documentam os cronistas do primeiro momento de ocupação
colonial portuguesa da região. 1 No entanto, no que tange a
referências sobre grupos pré-coloniais, estas só podem ser obtidas
a partir dos vestígios da cultura material deixados por essas
populações. Efetivamente, somente as pesquisas arqueológicas
podem trazer à luz informações sobre os processos históricos que
envolveram esses grupos.
Em linhas gerais, através dos sítios encontrados, até o momento, na
área aqui tratada, podem se identificar formas de organização
socioeconômicas compreendidas em categorias consagradas como
a de grupos de caçadores coletores e a de horticultores ceramistas,
construtores de grandes aldeias. Cabe ressaltar que essas são
classificações englobantes e genéricas, que não deixam
transparecer as diversidades existentes entre os grupos nelas enquadrados. Do ponto de vista da Arqueologia, podemos
considerar que o primeiro caso encontra-se bem exemplificado nos
sítios sambaquis. No segundo, existem sítios classificados em duas
grandes tradições ceramistas, com períodos de aparição e
desaparição bastante bem determinados. São elas a Tradição Aratu
e a Tradição Tupi, que dominaram vastos territórios do Nordeste
brasileiro.
Sítios de caçadores coletores.
Os sambaquis
De acordo com o atual estágio de conhecimento da região, o
registro arqueológico mais antigo que se conhece da presença
humana no Recôncavo corresponde aos sítios denominados
sambaquis. Sumariamente, um sambaqui é o resultado de um
padrão cultural de comportamento social, derivado do acúmulo
intencional de uma grande quantidade de conchas coletadas dos
mangues. Uma parte desses mariscos recolhidos era usada como
base da alimentação daqueles grupos humanos, embora a maior
parte tenha sido coletada justamente para a construção do
montículo. Quando essa estrutura alcançava dimensões
consideradas suficientes, o grupo que o construía passava a habitar
sobre ele, de forma que o acúmulo de conchas funcionava como um
grande aterro, em alguns casos destacando-se na paisagem das
planícies costeiras e, talvez, demarcando a sua posição.
Em termos cronológicos, esse tipo de sítios é registrado, no Brasil, a
partir de 9.000 anos, em São Paulo, perdurando até
aproximadamente 500 anos antes da chegada dos portugueses.
Encontram-se no litoral da América do Sul, desde a Terra do Fogo
na Argentina até a costa do Estado do Pará, existindo também na
costa pacífica na região de Valdívia, Equador. Ou seja, trata-se de
um tipo de instalação litorânea bastante generalizado.
Os maiores sambaquis brasileiros têm, hoje, cerca de trinta metros
de altura por mais de duzentos metros de extensão e estão localizados no litoral de Santa Catarina. As inúmeras escavações
realizadas nos sítios catarinenses e paulistas demonstraram que
além de servirem como locais de habitação também se praticavam
neles sepultamentos e se confeccionavam instrumentos. Existem
outros vestígios alimentares além das típicas conchas de moluscos,
tais como restos de peixes, de mamíferos marinhos (baleias), de
aves e de animais quadrúpedes terrestres. Esse conjunto de
atividades aponta para a complexidade da vida nesses ambientes
que conjugavam recursos marinhos complementados pelos
elementos obtidos do interior do continente. Dentre a vasta gama de
objetos comumente recuperados estão os líticos lascados e polidos,
e, nesse caso, deve-se dar destaque particularmente aos zoólitos.
Tais esculturas em pedra demonstram a observação atenta de
vários animais, como, por exemplo, aves, peixes, cetáceos, além
das raras representações antropomorfas. Dos artefatos ósseos há
uma especial presença daqueles realizados sobre restos de animais
marinhos. Colares de dentes de tubarão, objetos de bula timpânica
de baleia, arpões de arraia, anzóis de conchas espiraladas, além de
vários tipos de raspadores e colheres feitos com as conchas.
As estruturas de combustão são elementos presentes nos
sambaquis que oferecem informações temporais essenciais à
compreensão daquele universo. Por meio do carvão delas recolhido
é possível estabelecer a cronologia absoluta dos níveis
estratigráficos, via o método de datação por C14. Restos calcinados
de cozinha, por sua vez, são comuns entre as suas cinzas,
permitindo ao pesquisador ter uma ideia mais aproximada e direta
do regime alimentar sambaquiano. Associadas aos buracos de
estacas das cabanas, as fogueiras constituem excelentes
indicadores das camadas de acúmulo do aterro de conchas,
testemunhando a sucessão dos pisos de ocupação.
Apesar de serem poucos os estudos arqueológicos sistemáticos na
área em torno da Baía de Todos os Santos, os dados conseguidos
legitimam pensar que todo o Recôncavo deve ser tratado como um
âmbito muito apropriado para a instalação de populações indígenas.
Nesse sentido, algumas informações obtidas pelo arqueólogo Valentin Calderón, da Universidade Federal da Bahia, podem ser
apresentadas para compor um quadro preliminar da ocupação desta
área.
No início dos anos 60, este pesquisador realizou o primeiro trabalho
sistemático de arqueologia na Baía de Todos os Santos na
localidade de Peri-Peri, especificamente em Pedra Oca. Aqui foi
descoberto e escavado um sambaqui que proporcionou uma
datação radiocarbônica de quase 3.000 anos de antiguidade. Os
grupos construtores desse sambaqui, assim como aqueles de outras
regiões brasileiras, tinham uma estreita relação com o ambiente
marítimo, de onde tiravam a maior parte de seus recursos
alimentares. Nem por isso, contudo, deixaram de se aproveitar dos
ambientes fluviais, lagunares ou terrestres, de onde se serviam de
recursos complementares, praticando a caça, a pesca e a coleta.
Outros sambaquis foram identificados por Calderón em diversos
pontos do Recôncavo baiano: o Sambaqui da Ilha do Casqueiro, em
Santo Amaro; o do Sobrado, na localidade de Porto Santo, na ilha
de Itaparica; e de Cajaíba, na ilha do mesmo nome, dentre tantos,
sem que esse arqueólogo proporcionasse outras datações.
Cabe destacar que Pedra Oca é o único sambaqui escavado, até o
presente, no Recôncavo baiano. Por isto, constitui a referência mais
importante sobre este tipo de sítio arqueológico, ainda que a sua
integridade, já na época da pesquisa de Calderón (1964, p. 15), foi
calculada em uma "mínima parte" do original devido à ação erosiva
do mar. De fato, as oscilações no nível marítimo, se, por um lado,
permitiram em um determinado momento o próprio assentamento
humano sobre uma praia a uma altura maior que a atual, podem,
por outro, ter sido motivo de devastação em períodos posteriores de
aumento do nível das águas.
Não obstante as restrições do estado de integridade, os dados
obtidos a partir da coleta do material arqueológico, escavado
observando rigorosamente a estratigrafia geológica e antrópica, são
fundamentais para conhecer, minimamente, o contexto cultural dos
grupos sambaquianos. No que se refere ao acúmulo intencional de conchas, por exemplo, usadas ou não para o consumo alimentar,
predominam as ostras (espécies Ostrea arbórea, Ostrea frons e a
Arca secticostata, principalmente) havendo outros exemplares de
fauna malacológica como a Lucina pectinata, Anamalocardia
brasiliana, Strombus pugilis, entre as mais abundantes.
(CALDERÓN, 1964, p. 74)
Como em tantos outros sambaquis brasileiros, também em Pedra
Oca foram encontrados testemunhos de enterramentos,
caracterizados como sepultamentos rasos (45-50 cm da superfície),
em posição decúbito lateral esquerdo, fletidos, com orientação da
cabeça para o sul-oeste. Nestes enterramentos não foi encontrado
nenhum acompanhamento funerário, mas, aparentemente, os sinais
de queima nos ossos das pernas têm relação com uma fogueira
ritual. (CALDERÓN, 1964, p. 72)
Outras evidências de ocupação humana correspondem aos restos
de fogueiras, pedras de trempes e de esteios, no que tange aos
arranjos domésticos. Os artefatos móveis de Pedra Oca
compreendem uma série de instrumentos líticos, a maior parte deles
destinados, talvez, à obtenção e consumo de alimentos. São eles
bigornas, batedores com depressões centrais, batedores moedores,
alisadores, lâminas de machado etc. (CALDERÓN, 1964, p. 61) Em
osso, foram coletados, unicamente, pontas, um provável anzol e
enfeites corporais. Já em concha, alguns artefatos polidos e contas
de colares. O conjunto de fragmentos cerâmicos, nos níveis de
ocupação pré-colonial, demonstra que os grupos sambaquianos
produziam recipientes pela técnica de roletes, com superfícies bem
alisadas e com formas simples semiesféricas ou aproximadamente
campaniformes. (CALDERÓN, 1964, p. 49)
No último nível de ocupação do sambaqui da Pedra Oca, Calderón
observou uma situação de contacto interétnico, manifesta pela
mistura de material indígena e restos cerâmicos de grupos coloniais.
A determinação deste momento no século XVI, período de grande
expansão portuguesa pelo Recôncavo, não implica,
necessariamente, em uma vinculação dos seus últimos ocupantes indígenas com os construtores do sambaqui. Antes, corresponde a
uma reocupação do mesmo, por parte de grupos de grandes
aldeias, que usufruíram das vantagens oferecidas pelos recursos do
ambiente.
Populações indígenas pré-coloniais ceramistas e
construtores de grandes aldeias
As informações derivadas dos estudos realizados até o momento
sobre sítios correspondentes a populações indígenas pré-coloniais
apontam para uma ocupação, logo na sequência aos coletores
sambaquianos, de grupos de horticultores ceramistas, fazedores de
assentamentos demograficamente importantes.
Esses grupos ocuparam o território do Recôncavo, o que pode ser
confirmado através dos sítios BA-13, sobre o rio Guipe, BA-89 e BA-
LN-1372, localizados e trabalhados na década de 1970. Cabe
ressaltar que na baía de Aratu, incluída por sua vez na Baía de
Todos os Santos, também Valentin Calderón reconheceu, pela
primeira vez, a existência de uma unidade cultural, de grupos pré-
coloniais, que denominou justamente de Aratu. No sítio Guipe, o
pesquisador encontrou, entre outros materiais, 54 urnas funerárias.
Datações radiocarbônicas permitiram reconhecer esse sítio como
sendo do século IX d.C. (CALDERÓN, 1974)
A identificação deste macrogrupo, associado aos atuais grupos de
língua Jê, é feita, de forma clara e precisa, a partir de seus rituais de
enterramento. Estes consistem na disposição dos corpos completos
em urnas de cerâmica, às vezes com acompanhamento funerário.
Os recipientes funerários têm uma padronização constante no
tempo e no espaço, de tal modo que podem ser considerados
elementos diacríticos destes grupos. Outras características das
populações Aratu são a construção de grandes aldeias e o
conhecimento da horticultura, possivelmente do milho e da batata-
doce. Hoje, sabemos que os grupos Aratu ocuparam uma extensão territorial que vai da faixa litorânea (Bahia, Sergipe, Pernambuco)
até o cerrado da Bahia e de Goiás.
Existem registros de outros sítios Aratu localizados em várias partes
do território do Recôncavo, por exemplo, o que se encontra no
campus da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, no
município de Cruz das Almas, nas imediações da Reitoria. Ainda
que não tenha sido escavado, sua localização nas proximidades de
um curso de água e sua posição no cume de uma colina, com boa
visibilidade sobre o horizonte circundante, corroboram um padrão de
instalação frequente nesses grupos, para esta região. Outro sítio
Aratu foi encontrado na Usina Aliança, município de Candeias,
localizado na década de 80, com a descoberta ocasional de uma
urna funerária.
A partir do século XIII d.C. constata-se a chegada, no atual território
baiano, de outros grupos de horticultores ceramistas que,
provavelmente conquistaram, ou então empurraram os precedentes
Aratu para outros espaços. Referimo-nos aos grupos de origem
Tupi. De fato, localizaram-se algumas situações arqueológicas em
que a disposição dos vestígios remete fortemente a uma ocupação
imediata Tupi de um local Aratu, indicando uma possível expulsão.
Os diversos grupos Tupi eram também horticultores, porém
especializados no cultivo da mandioca amarga que, uma vez ralada
e transformada em pasta, processavam para a extração dos
elementos tóxicos, mediante a utilização de objetos cerâmicos
específicos, os grandes pratos ou assadores. As aldeias eram
grandes, se considerarmos a distribuição espacial dos restos
cerâmicos nos sítios, o que comportaria um índice demográfico alto.
Situavam-se em pontos estratégicos, com boa visibilidade sobre o
território, próximos a rios, podendo-se pensar, por isto, que também
faziam uso de canoas como meio de deslocamento.
Assim como os grupos Aratu, os Tupi também enterravam os seus
mortos em urnas, dentro ou próximo aos locais de habitação. Mas,
diferentemente dos primeiros, os recipientes para sepultamento
eram de formas variadas, isto é, não padronizadas. Em alguns sítios existem indicadores de dupla funcionalidade, já que os mesmos
recipientes contentores de líquidos podem ter sido usados como
urnas funerárias. Os recipientes de utilização doméstica eram de
formato e tamanhos diversos a depender das funções. Existem
potes, de tamanho grande para conservação e preparação de
líquidos, de bojos expandidos (frequentemente com carenas na
parte central), tigelas de várias dimensões, com bordas reforçadas e
pinturas internas, e os já mencionados assadores, de formato
aproximadamente quadrangular ou ovoidal, baixos, largos e abertos,
com elaboradas decorações pintadas na parte interna, feitas com
finas linhas em preto ou marrom escuro. Em todos os tipos existem
exemplares decorados, utilizando-se como técnicas a pintura (com
uso de policromia), as incisões, os corrugados e, às vezes, algumas
aplicações modeladas, como apêndices ou asas. No todo, os
materiais cerâmicos Tupi constituem um conjunto de objetos que,
pela sua morfologia, funcionalidade e tratamento de superfície, são
facilmente reconhecíveis. Porém deve ser considerado que eles não
revelam circunstâncias sociohistóricas específicas, como a
diversidade étnica dos grupos que os produziam ou utilizavam.
No que se refere à inserção dos sítios na topografia, eles ocupam,
no geral, grandes superfícies, aplainadas, horizontais ou
ligeiramente inclinadas, aptas para receber um conjunto
demográfico importante. A fonte de água potável (rio, riacho ou
lagoa) encontra-se, normalmente, dentro do rádio máximo de 500m.
Em Salvador, por exemplo, foram encontrados vários sítios de
origem Tupi, como o da praça da Sé, anterior à ocupação
portuguesa, ou o da Avenida Paralela, nas proximidades da área
das lagoas litorâneas do Parque de Pituaçu. Em Jaguaripe,
município que fecha pela parte sul a Baía de Todos os Santos,
também foram encontrados vários sítios, porém com alto grau de
destruição antrópica. (ETCHEVARNE, 1998) Em Simões Filho, na
fazenda Rancho Alegre, um sítio da tradição Tupi se estende por
sobre duas suaves elevações colinares, típicas do Recôncavo,
separadas por uma baixada alagadiça, distante 200 metros de um
curso de água. Em ambas as colinas se espalham os fragmentos
cerâmicos, denunciado o tamanho da ocupação.
Durante o levantamento realizado por equipe de pesquisadores da
Universidade Federal do Recôncavo, no município de Cachoeira foi
achado um sítio Tupi, nomeado de Miudinha, nome da localidade
onde se encontra. Trata-se de um trecho do topo do planalto que
margeia as cabeceiras de uma nascente, afastada alguns
quilômetros do Paraguaçu. Nesse topo, acidentalmente, foi
descoberta uma urna funerária ainda com alguns restos ósseos e
dentários. Restaram ainda alguns poucos fragmentos de pelo
menos dois vasilhames com engobo branco e pintura vermelha e
com linhas de circunvoluções pretas, tipicamente tupis. Os
fragmentos correspondem às formas de recipientes bastante
diagnósticas, um assador e um pote.
Tomando por base o padrão de assentamento de outros grupos Tupi
ao longo da costa da Bahia, em que ocupam a borda da escarpa da
falésia, diretamente em frente ao mar ou a um rio, pode-se esperar
que outras antigas aldeias existam nesse trecho do vale do
Paraguaçu. Entretanto, como esse mesmo tipo de implantação foi
preferido pelas vilas portuguesas e, depois, pelas pequenas
comunidades nacionais que foram lenta, mas intensamente
habitando a terra, muitos sítios indígenas desapareceram sob os
atuais núcleos urbanos. Decorre dessa sobreposição outro fator que
prejudica a localização das antigas aldeias Tupi.
Quando os portugueses chegaram, no século XVI, a região do
Recôncavo era domínio de povos considerados descendentes dos
grupos Tupi arqueológicos: os Tupinambá. Ainda que não fossem os
únicos grupos a ocuparem esses territórios, as fontes documentais
mostram a sua hegemonia. Como consequência do processo de
colonização portuguesa, esses grupos desapareceram como
entidade sociocultural distinta, seja pelo aniquilamento puro e
simples, seja pela sua incorporação ao novo contingente
populacional dos novos ocupantes.
Breves informações históricas sobre ocupação
humana, do século XVI ao XIX
A documentação histórica textual e, sobretudo, os depoimentos e
narrativas de viagens de missionários, naturalistas, funcionários da
coroa e até de um senhor de engenho, morador do Recôncavo,
podem oferecer um panorama aproximado das transformações
ocorridas na paisagem natural e social do território em torno da Baía
de Todos os Santos, ao longo dos séculos XVI a XIX. Essa visão
geral diacrônica proporciona um pano de fundo dentro do qual
podem ser explicadas, ainda que de forma apriorística, algumas
situações arqueológicas encontradas nessa região.
O Tratado Descritivo do Brasil, de Gabriel Soares de Souza, escrito
em 1587, ou seja, pouco mais de cinquenta anos depois do início do
processo oficial de ocupação do território brasileiro, apresenta, com
precisão e agudo discernimento, inúmeros dados sobe o Recôncavo
baiano: relevos e hidrografia devidamente nomeados, vegetação e
fauna, núcleos de instalação colonial, engenhos, fazendas e
capelas, com os respectivos nomes de oragos, moradores e
proprietários, fornecendo informações adicionais sobre as
potencialidades e a real ocupação da região em termos de
exploração e recursos. Nesse sentido, alguns excertos dessa obra
são altamente eloquentes:
[...] e tomando por este rio abaixo [o Cotegipe] sobre a mão
direita obra de meia légua, está uma ilha de Jorge de
Magalhães, mui formosa por estar toda lavrada de canaviais, e
no meio dela, num alto tem nobres casas cercadas de
laranjeiras arruadas, e outras árvores, coisa muito para ver; e
descendo uma légua abaixo do engenho Cotegipe está a ribeira
que se chama Aratu, na qual Sebastião de Faria tem feito um
soberbo engenho de água, com grandes edifícios de casas de
purgar e de vivenda, e uma igreja de São Jerônimo, tudo de
pedra e cal, no que gastou mais de doze mil cruzados.
(SOUZA, 1971, p. 149)
Uma outra referência, desta vez do Matoim (hoje na área do
município de Candeias), é especialmente detalhada, já que o autor
está tratando do que será mais tarde o engenho Freguesia, um dos monumentos mais notáveis e melhor preservados da sociedade
agrária do Recôncavo colonial. Assim o descreve Soares de Souza
(1971, p. 149):
Saindo pela boca de Matoim fora, virando sobre a mão direita,
vai a terra fabricada com fazendas e canaviais dali a meia
légua, onde está outro engenho de Sebastião de Faria, de duas
moendas que lavram com bois, o qual tem grandes edifícios,
assim do engenho como de casas de purgar, de vivenda e de
outras oficinas e tem uma formosa igreja de Nossa Senhora da
Piedade, que é freguesia deste limite, a qual fazenda mostra
tanto aparato da vista do mar que parece uma vila.
Dos capítulos XX ao XXVIII, este cronista mostra como já nesse
primórdio da ocupação colonial os campos cultivados com cana-de-
açúcar se sucedem de maneira quase ininterrupta em todo o
Recôncavo. Alguns fragmentos do texto são eloquentes:
Por este rio de Pirajá abaixo, e da boca dele para fora ao longo
do mar da baia, por ela acima, vai tudo povoado de formosas
fazendas e tão alegres da vista do mar, que não cansam os
olhos de olhas para elas. (SOUZA, 1971, p. 147)
[…] e entrando por ele acima [o Matoim] mais de uma légua, vai
povoado de muitas e mui frescas fazendas, fazendo algumas
voltas, estaleiros, e enseadas, e no cabo desta légua se alarga
o rio muito de terra à terra […]. (SOUZA, 1971, p. 148)
"E indo correndo a ribeira do Salgado deste engenho a meia légua,
está tudo povoado de fazendas, e no cabo está uma que foi do deão
da Sé […]". (SOUZA, 1971, p. 149)
Defronte desta ponta está o fim da ilha de Maré, daqui torna a
fugir a terra para dentro, fazendo um modo de enseada em
espaço de uma légua, que toda está povoada de nobres
fazendas e grandes canaviais […]. (SOUZA, 1971, p. 150)
No capítulo XXIII, Souza refere-se a Jacaracanga, nas proximidades
do atual porto de Aratu, onde atualmente existem ruínas de um
grande edifício, com cais, que é considerado pelos moradores como
de um antigo engenho.
Da fazenda do deão se começa de ir armando a enseada que
dizem de Jacaracanga, no meio da qual está um formoso
engenho de bois e Cristovão de Barros até onde está tudo
povoado de fazendas e lavrado de canaviais: este engenho tem
mui grandes edifícios e igreja de Santo Antônio […]. (SOUZA,
1971, p. 151)
Os registros do padre jesuíta Fernão de Cardim, que viveu no Brasil
longos anos, como missionário e como diretor do colégio de
Salvador, organizados sob a forma de dois pequenos tratados, dão
ao leitor uma ideia muito precisa da exuberância da paisagem e dos
recursos ali existentes, origem da prodigalidade alimentada e da
decantada hospitalidade dos seus habitantes. Tais características,
tomadas em seu conjunto, teriam feito dessa região a base
geográfico-política da economia baiana.
Folgara de saber descrever a formosura de toda essa Bahia e
recôncavo, as enseadas e estreitos que o mar bota três, quatro
léguas pela terra dentro, os muito frescos e grandes rios
caudais que a terra deita no mar, todos cheios de muita fartura
de pescados, lagostin, polvos, ostras de muitas castas,
caranguejos e outros mariscos […]. Os engenhos deste
recôncavo são trinta e seis; quase todos vimos, com outras
muitas fazendas muito para ver. De uma coisa me maravilhei
nesta jornada, e foi a grande facilidade que têm em agasalhar
os hóspedes […]. (CARDIM, 1980, p. 157)
Frei Vicente do Salvador, na sua história da colonização portuguesa
do período compreendido entre 1500 e 1627, também se refere ao
Recôncavo, e, entre outros temas, trata das incursões dos
holandeses na tentativa de se apoderarem da cidade de Salvador, e
dos preparativos de defesa dos habitantes. Alude a Matoim e Ilha de Maré como locais onde os holandeses teriam estabelecido contato
com os moradores. (SALVADOR, 1982, p. 371-372)
Já Sebastião da Rocha Pita, em sua História da América
Portuguesa, publicada em 1730, apresenta um panorama do
Recôncavo no primeiro quartel do século XVIII, período considerado
florescente, face aos grandes contingentes populacionais e alto
poder econômico.
O seu Recôncavo é tão culto e povoado, que se lhe
descrevêramos as fábricas e lhe numeráramos os vizinhos,
gastaríamos muitas páginas e não poucos algarismos […]
diremos somente que existem nele certo e cinquenta engenhos
[…] Há várias fazendas de canas, algumas tão grandes em
extensão, e pela bondade do terreno tão fecundas, que rendem
dois mil a dois mil e quinhentos pães [de açúcar].
O número de pessoas que habitam o Recôncavo, onde reside a
maior nobreza, os trabalhadores, os escravos que andam no
serviço dos engenhos, das canas, das outras lavouras e os que
servem nas casas, excedo o cômputo de cem mil almas de
confissão, além dos que não são capazes dos sacramentos.
(PITA, 1976, p. 49)
No final do século XVIII, o número de engenhos parece ter
aumentado consideravelmente. Assim é que Luis dos Santos
Vilhena se referirá ao Recôncavo como tendo mais de 260
engenhos de todos os tipos. Ao mesmo tempo ele chamará a
atenção para o uso indevido das terras de massapé, próximas ao
mar, sem que elas sejam devidamente adubadas, face ao que elas
já apresentavam sinais de certo declínio produtivo. (VILHENA, 1969,
p. 174)
Por sua vez, o viajante alemão Robert Avé-Lallemant, em visita ao
Brasil, em 1858, já retrata um Recôncavo plenamente inserido no
início do processo de modernização industrial, em que as distâncias
se encurtam em função da facilidade dos transportes a vapor.
A imensa importância dessa região para a agricultura e
comércio exportador dela derivado trouxe também maior
facilidade de comunicação entre a Bahia [cidade] e os citados
distritos. Linhas de vapores entre Valença, Nazaré, Cachoeira
[…] ligam semanalmente, muitas vezes essas localidades […]
transportando muita gente com pequena bagagem de um lado
para o outro […]. (AVÉ-LALLEMANT, 1980, p. 31)
Os historiadores Wanderley Pinho e Carlos Ott, nas suas obras
História de um Engenho do Recôncavo e Povoamento do
Recôncavo pelos Engenhos, respectivamente, deixaram implícita a
concepção dos engenhos do Recôncavo como frentes de expansão
colonial e de consolidação de uma economia açucareira que será
preponderante até o século XIX, e da qual dependerá a vida da
própria capital da província.
É interessante observar, nessas duas obras, os últimos momentos
de existência dessas unidades produtivas. Segundo os dois autores,
uma nova dinâmica se instaura a partir das últimas décadas do
século XIX: as propriedades se dividem, na mesma proporção em
que se multiplicam os herdeiros; unem-se, associando-se em laços
matrimoniais e patrimoniais; e, ao fim, entram, quase ao mesmo
tempo, em decadência, recebendo os dramáticos rótulos de 'fogo
apagado', até se converterem em ruínas, ou receberem uma
destinação para a qual não tinham vocação.
Os sítios arqueológicos no Recôncavo, isto é, os locais com restos
de edifícios do período colonial e do independente, assinalam
momentos e situações sociais que podem ser inseridas no
panorama traçado acima. Além dos numerosos núcleos urbanos de
origem colonial que ainda hoje continuam existindo, como
Cachoeira, São Félix, Santo Amaro, São Francisco do Conde, São
Sebastião do Passé, entre tantos outros, encontra-se uma série
grande de vestígios de construções na área rural, que demonstram
a natureza das atividades econômicas da região e a estrutura social
correlatas: casas de engenhos, capelas, senzalas, casa de purgas,
fornos, olarias, aquedutos, área de embarques, caminhos,
estruturas defensivas. 3 As instalações religiosas, que
compreendiam também atividades econômicas substanciais são
igualmente representadas por edificações conventuais, igrejas, casa
paroquiais, colégios, entre outros.
Desse conjunto de edificações rurais sobressaem, sem dúvida
alguma, os engenhos de açúcar, seja pelo número como pela
complexidade espacial-arquitetônica, o que é altamente elucidativo
acerca da importância que eles tiveram na ocupação territorial do
Recôncavo. De fato, com o termo engenho se designa um conjunto
estruturado de edifícios e espaços circunscritos que compunham
uma unidade produtiva e residencial, fortemente articulada com a
capital da colônia, em função da produção açucareira que, desde o
século XVI, envolvia o Brasil, muito especialmente, o Recôncavo da
Bahia, na rede comercial do Atlântico.
Nesse complexo de espaços edificados e abertos se integravam a
casa grande, residência do proprietário ou senhor do engenho, sua
família nuclear, outros membros da parentela e apadrinhados, a
capela, normalmente separada da residência, essencial em uma
sociedade que no cotidiano vivia intensamente a religião católica, e
a senzala, local de moradia confinada dos escravos que constituíam
a mão de obra para o cultivo dos campos de cana. Já os espaços
destinados à transformação da cana em açúcar, podem se dividir
em casa da moenda – área do esmagamento da cana e da extração
da garapa; fornalhas – onde o caldo era fervido nos grandes tachos
até chegar ao ponto desejado e casa de purga – onde o melado era
despejado nas fôrmas de pão de açúcar, nas quais decantava,
esfriava e cristalizava. Por fim, outras construções ainda poderiam
existir no caso de engenhos hidráulicos, tais como a barragem ou
represa, o canal de condução desse fluxo represado, o aqueduto
para direcionar a água, fazendo-a cair de uma maior altura e a roda
d'água assentada no seu berço, que era usada para mover a
moenda, esmagar a cana, extraindo a garapa.
No município de Jaguaripe, ao sul da Baía de Todos os Santos foi
realizado um mapeamento de sítios arqueológicos que permitiu identificar alguns sítios pré-coloniais Tupi, muito perturbados por
ação antrópica, mas que demonstram a forte presença desses
grupos nessa área.4 Do ponto de vista dos vestígios coloniais e pós-
coloniais, cabe destacar o alto número de olarias e de cais de
escoamento das mercadorias cerâmicas. Deve ser ressaltado que,
nas camadas inferiores das acumulações de fragmentos de
diferentes tipos de produção, havia unicamente restos da fabricação
de objetos domésticos vidrados ou não, do tipo que é produzido até
hoje nas olarias de Maragogipinho, no município de Aratuípe. Nas
camadas superiores havia apenas fragmentos de materiais de
construção, especificamente tijolos e telhas. Esta mudança radical
na estratigrafia dos acúmulos pode estar apontando uma alteração
no mercado regional, provavelmente em função do declínio no uso
de materiais cerâmicos tradicionais no âmbito doméstico e o
aumento da demanda de materiais de construção, atendendo à
cidade de Salvador, que no final do século XIX se expande
urbanisticamente e investe em obras públicas.
Nesse mesmo programa de mapeamento, em Jaguaripe, houve a
oportunidade de registrar os vestígios do engenho de São Bernardo,
no povoado do mesmo nome. Do conjunto original ficaram apenas
uma boa parte do aqueduto, que se desenvolve por trechos
desnivelados, sustentando-se por uma sistema de arcos, as
pilastras do que poderia ser a fábrica de açúcar e a capela, ainda
em uso, com partido simples, de uma única nave. Outro sítio de
produção açucareira, localizado a aproximadamente 2 km do São
Bernardo à margem do Rio da Dona, no Município de Jaguaripe,
próximo à divisa com o município de Aratuípe, também foi
reconhecido. Dele se identificaram como vestígios as colunas de
argamassa mista, o berço da roda d'água, o canal condutor de água
e a barragem de desvio da água no rio. De um período mais
recente, provavelmente do século XIX, resta, ainda, uma grande
caldeira de ferro, com uma boca de 1,70m. A modernização nos
equipamentos de transformação da cana é uma situação constatada
como frequente nos restos de engenhos do Recôncavo,
demonstrando a necessidade de adaptação às exigências do
mercado nacional e internacional. Cabe destacar que os dois engenhos, acima mencionados, são aludidos como propriedades de
Gabriel Soares de Souza, sem que isto, até o momento da
pesquisa, possa ser certificado categoricamente.
Na ilha de Itaparica, assim como em outras ilhas da Baía de Todos
os Santos, os sítios arqueológicos que mais sobressaem são os
vestígios das igrejas ou capelas que formavam parte de uma
missão, de alguma fazenda ou de um engenho. A igreja de Nosso
Senhor da Vera Cruz, em Baiacu, e a da Igreja de Santo Antônio
dos Velasques e a capela de Nossa Senhora da Conceição, ambas
na beira do mar, são apenas exemplos deste tipo notável de sítios.
O primeiro deles corresponde ao templo de uma missão jesuítica,
fundada já no século XVI. Com as características arquitetônicas do
remanejamento realizado no século XVIII, o edifício chega, em
funcionamento, até a metade do século XX em que é abandonado
por deterioro e perigo de desabamento. Hoje, suas ruínas continuam
sendo local reverenciado por católicos e adeptos do candomblé,
sendo ainda uma referência existencial de vital importância para os
moradores dos dois municípios itapariquenses.
Merecem uma menção especial certos vestígios, ainda que pouco
numerosos, que remetem a uma atividade bastante importante no
período colonial, realizada na ilha de Itaparica: a caça às baleias. Os
sítios referentes a esta atividade econômica estão formados por
restos das armações, isto é, locais em que se processavam as
baleias caçadas. Infelizmente, por se situarem a beira-mar, a ação
do salitre marino, as marés excepcionais e ainda a reutilização dos
materiais de construção para outros edifícios provocou a quase
eliminação dos vestígios de armações. Conste apenas como
exemplo os restos encontrados em Porto Santo, que formam um
conjunto de fragmentos de cais, forno de frigir e muro.
(COMERLATO, 2009)
Em Cachoeira e São Félix, através de um recente levantamento de
locais com vestígios de ocupação colonial e pós-colonial,
concretamente 53 unidades, foi possível verificar situações
arqueológicas diversas. Considerando esse universo como uma amostragem bastante representativa dos sítios que ocorrem nesses
dois municípios, podem ser apontados aspectos comuns a eles.
(FERNANDES, 2010)
Os engenhos de açúcar foram instalados nos pontos que detinham
as melhores condições para uma boa produção. Para isso, foram
escolhidos lugares que reunissem as características essenciais de:
a) ter um córrego perene, não muito grande nem pequeno, com
um desnível e uma largura apropriados para o barramento e o
desvio parcial da suas águas até a roda que aciona a moenda
da cana;
b) um terreno firme, plano e amplo o suficiente para as oficinas,
casas de purga, fornos e as outras instalações e construções
do serviço;
c) ter terras férteis onde se cultivar a cana e com matas
próximas de onde extrair lenha para as fornalhas de cozimento
da garapa;
d) ter um cais para embarque da produção, pois o açúcar
destinava-se à exportação para o mercado europeu.
Atendendo a tais exigências, os primeiros engenhos situaram-se
nos melhores lugares para terem as suas moendas movidas pela
roda d'água, recebendo a denominação de engenhos reais. A
preferência por essa força motriz explica-se por ser a forma mais
produtiva quando comparada às moendas movidas a tração animal
ou escrava. Dessa configuração restam nos sítios as ruínas dos
aquedutos, das barragens e dos berços das rodas d'água. Todavia,
em alguns desses mesmos sítios encontram-se ao lado das ruínas
hidráulicas restos de engrenagens metálicas. Tais elementos
indicam claramente a substituição das moendas de madeira para
esmagar a cana por conjuntos metálicos quando essa tecnologia se
difundiu e, em um momento posterior, até mesmo a substituição da
força motriz pelo uso do maquinário movido a vapor, muito mais
produtivo que a roda d'água.
Para essa última etapa a evidência mais emblemática está nas
grandes chaminés, inexistentes antes do advento da caldeira a
vapor. Tal modernização aconteceu a partir do século XIX,
proporcionando um grande aumento na produtividade do açúcar e
prolongando a vida de alguns engenhos, por vezes com mais de
duzentos anos de serviços. Também provocou a centralização da
produção nos engenhos mais ricos, com recursos para adquirir e
instalar o maquinário a vapor de alto custo. No entanto, nem todas
as modernizações conseguiram salvar os engenhos da decadência
e da ruína na qual se encontram hoje, testemunhando as
transformações sofridas pela sociedade ao longo do tempo.
Em linhas gerais, quase todas as construções de engenhos estavam
em estado de deterioro, sendo que em dois deles as capelas se
apresentam íntegras no seu aspecto arquitetônico externo, o que
permite reconhecer um contexto construtivo relativo ao século XVII.
Uma delas, a capela do engenho da Ponte, tem uma planta
composta por altar-mor, nave e corredor lateral, com fachada que
inclui uma torre piramidal, recoberta de azulejos. A outra capela,
pertencente ao Engenho Velho, apresenta uma planta com altar-
mor, duas sacristias num partido em T e uma nave quadrada que
sustenta uma cúpula. Na portada esculpida em arenito de praia
pode-se ler a data de 1660.
Dos sítios de funcionalidade religiosa, contam-se seis igrejas, das
quais a maior parte encontra-se em ruínas. Contudo, algumas ainda
continuam sendo usadas pelos moradores próximos. Dentro dessa
categoria de sítio podem ser encontrados também grandes
complexos arquitetônicos, como é o caso do convento de São
Francisco do Paraguaçu. Esta obra do século XVII forma uma
unidade composta por igreja dotada de galilé e amplos corredores
laterais conformados em arcadas sobre as quais estão as tribunas.
Os edifícios incluem o claustro, adro e um amplo terreno murado.
Existem também várias capelas, algumas de grandes dimensões,
tais como a do Desterro, talvez do século XVIII, implantada numa
colina ao lado das ruínas do engenho de mesmo nome. Outras
muito modestas, já em franca desaparição, tal como a capela de Nossa Senhora do Rosário, século XVIII, num outeiro à entrada do
povoado de Coqueiros. Dentre essas, destaca-se a capela de São
João Batista, de meados do século XVIII, que pertenceu ao
desaparecido engenho Acutinga, composta por nave e altar-mor aos
quais foram acrescidos alguns cômodos na parte posterior.
Ainda foram reconhecidos três cais margeando o rio Paraguaçu.
Formavam parte integrante de vários tipos de construções que não
puderam ser identificadas. Por suas estruturas resistentes, em
pedra e argamassa, os cais são os testemunhos mais prontamente
identificados a partir da navegação pelo rio.
Durante o levantamento também se identificou uma série de outras
instalações, tais como uma olaria, da qual resta além do cais já em
ruína, o próprio forno de queima, que se mantém na quase
totalidade; uma ponte, em arco único e pleno, construída em tijolos
tipo lajotas, com pequenos muros laterais, encontrada na povoação
do Tupim, próxima a Belém de Cachoeira; um muro de dezenas de
metros de uma propriedade já desaparecida, na antiga estrada de
acesso aos caminhos para a Chapada Diamantina e para as Minas
Gerais; um portal de entrada de uma antiga fazenda na estrada para
o Capoeiruçu; uma base de cruzeiro e um poço de água na Ilha do
Capim, ao norte de São Francisco do Paraguaçu; uma antiga
barragem já sem função, situada na Rua do Tanque e recentemente
rompida para a ampliação da malha urbana em Santiago do Iguape,
entre outros.
Dentro da baía do Iguape existe um sítio de deposição secundária
em uma pequena praia, conhecida como Ferreiro. Sobre as suas
areias argilosas foram achados os fragmentos de faianças
portuguesas do século XVII. O forte colonial de Santa Cruz, também
conhecido como Forte da Salamina, situado na margem direita do
Paraguaçu e antes da entrada da baía do Iguape é o único exemplo
de estrutura defensiva encontrado na região. Pela sua própria
funcionalidade, um paredão vigoroso com poucos desdobramentos,
apresenta-se relativamente preservado, porém, outras construções recentes sobre o seu terrapleno comprometem e desfiguram sua
feição.
Por fim, registraram-se gravuras rupestres em uma gruta nas
imediações do Engenho da Salamina. São executadas em blocos de
arenito muito friável, com as técnicas de incisão e picoteamento.
Pelos seus motivos de linhas compondo pelos menos dois rostos
estilizados, não encontram paralelo nas gravuras reconhecidamente
pré-coloniais que já foram cadastradas para a Bahia, sendo a sua
origem atribuída a grupos do período colonial.
Como pode ser deduzido do exposto, os locais com engenhos são
as instalações com maior representatividade nesses dois
municípios. Alguns deles foram marcos referenciais na paisagem
colonial e pós-colonial posto que perduraram em funcionamento até
o início do século XX. Decorre daí o fato de permanecerem de modo
tão marcante no imaginário e no referencial de memória dessa
população. Mesmo que as suas ruínas tenham sido saqueadas na
extração de material construtivo para as casas atuais e a vegetação
os tenha praticamente recoberto, são facilmente indicados, e
nomeados em uma cartografia mnemônica e de ordenação do
espaço cultural desse grupo social derivado do que já foi chamado
de sociedade do açúcar.
Para concluir com a apresentação sobre o enorme e variado
potencial arqueológico no território em torno da Baía de Todos os
Santos e nas suas ilhas, cabe registrar um achado que remete
diretamente à história da cidade de Salvador. Trata-se de um dos
marcos de delimitação territorial que foram colocados por ordem do
seu fundador, Tomé de Souza. No distrito de Passé, município de
Candeias, a partir de pesquisas bibliográficas e muita perspicácia,
um historiador autodidata localizou um bloco prismático de pedra de
lioz, com a inscrição Torre do Tombo, colocado a seis léguas de
distância do núcleo urbano. Efetivamente, graças à inquietude do Sr.
Sízimo Ferreira Santos que reconhecendo que sua propriedade, na
Ponta do Passé, encontrava-se à distância exata mencionada em
documentos históricos, decide procurar, com forte intuição investigativa, um dos marcos de pedra fundacionais. Ao achá-lo,
não somente satisfez sua inquietude pessoal, como também trouxe
para a sociedade contemporânea um raro e valioso documento
arqueológico do século XVI, momento em que se inicia o avanço da
ocupação das terras em torno da Baía de Todos os Santos,
configurando a consolidação do projeto colonial português.
Referências
ANCHIETA, José de. Cartas Informações, fragmentos históricos e
sermões. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1988.
AVÉ-LALLEMANT, Robert. Viagens para a província da Bahia,
Pernambuco, alagoas e Sergipe (1859). São Paulo: Edusp; Belo
Horizonte: Itatiaia, 1980.
BAHIA. IPAC. Inventário de proteção do acervo cultural da Bahia:
monumentos e sítios da Serra Geral da Chapada Diamantina. 2. ed.
Salvador: Secretaria de Cultura e Turismo, 1997. v. 4.
CALDERÓN, Valentin. Contribuição para o conhecimento da
arqueologia do Recôncavo e do Sul da Bahia. In: PROGRAMA
NACIONAL DE PESQUISAS ARQUEOLÓGICAS. 5 resultados
preliminares do quinto ano 1969-1970. Bélem: Museu Pa. Emílio
Goeldi, 1974. p. 141-56. (Publicações avulsas, 26).
. O Sambaqui da Pedra Oca. Salvador: Imprensa Baiana de
Economia, 1964.
CARDIM, Fernão. Tratado da terra e gente do Brasil. Belo Horizonte:
Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1980.
COMERLATO, Fabiana. Projeto armações da pesca da baleia em
Itaparica. Salvador, 2009. digitalizado
ETCHEVARNE, Carlos. Os grupos Tupi na Bahia: uma abordagem
arqueológica. In: PAULA, Ana Paula de; OLIVEIRA, Lourdes (Org.). Estado da arte das pesquisas arqueológicas sobre a Tradição
Tupiguarani. Juiz de Fora: Universidade Federal de Juiz de Fora,
2009.
ETCHEVARNE, Carlos. Projeto de Mapeamento de sítios
arqueológicos do Litoral sul e Recôncavo baiano. Salvador:
MAE/UFBA, 1998. Mimeo.
FERNANDES, Luydy. Mapeamento arqueológico do Recôncavo da
Bahia. 2010. No prelo.
PIRES, Fernando Tasso Fragoso. Antigos engenhos de açúcar no
Brasil. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1994.
PITA, Sebastião da Rocha. História da América Portuguesa. Belo
Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1976.
PROUS, André. Apuntes para análisis de industrias líticas. 2004.
Ortigueira: Fundacion Frederico Maciñeira, 2004. (Ortegalia, n. 2).
SALVADOR, Frei Vicente de. História do Brasil - 1500-1627. Belo
Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1982.
SOUZA, Gabriel Soares de. Tratado descritivo do Brasil em 1587.
Rio de Janeiro: Cia Editora Nacional, 1971.
VILHENA, Luis dos Santos. A Bahia do século XVII. Salvador:
Itapoan, 1969. v. 1.
1 Gabriel Soares de Souza (2000), Frei Vicente de Salvador (1982),
Fernão Cardim (1980), José de Anchieta (1988), entre outros.
2 Esses sítios foram denominados seguindo uma nomenclatura e
não a designação toponímica, como é habitual.
3 Cabe ressaltar que os vestígios das construções, especialmente
as das áreas rurais, estão se deteriorando e até desaparecendo a
ritmo acelerado, eliminando as possibilidades de reconhecimento das instalações desse período. Um arquivo documental
desconhecido de parte da história da Bahia que está prestes a
desaparecer.
4 O projeto "Mapeamento de sítios arqueológicos do Litoral sul e
Recôncavo baiano" foi realizado, entre os anos 1998 e 2000, no
âmbito do Museu de Arqueologia da Universidade Federal da Bahia,
tendo como instituição convidada a Universidade Estadual de Feira
de Santana.