Baía de Todos os Santos: aspectos humanos
Diversidade, visibilidade e dimensão pública da vida religiosa na Baía de Todos os Santos
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Diversidade, visibilidade e
dimensão públicada vida religiosa na Baía de Todos
os Santos
Fátima Tavares
Cláudio Pereira
Carlos Caroso
Abordar a diversidade religiosa na Baía de Todos os Santos configura uma tarefa árdua. Tal se deve à inexistência de trabalhos que abordem esta região, como unidade de investigação, o que nos obriga a constituí-la analiticamente, a partir de um conjunto de dados díspares.
Podemos, de saída, assegurar que os estudos disponíveis apontam para um campo atravessado por uma assimetria de dados. Com respeito à religiosidade na Baía de Todos os Santos, como iremos observar, existem temas e problemas que já foram bastante estudados, enquanto outros permanecem praticamente ignorados, apresentando informações de pesquisa esparsas, ou constando apenas em registros oficiais do Estado, como, por exemplo, a grande diversidade de festas religiosas indicadas no site da Secretaria de Turismo da Bahia.
A partir da apresentação de dados do último Censo e da literatura especiali- zada, propiciada, sobretudo, pelo domínio das ciências sociais, pretendemos aqui desenvolver os seguintes objetivos: a) problematizar e estabelecer os limites socio- culturais da Baía de Todos os Santos – doravante BTS – identificando-a como um espaço territorial na confluência da Região Metropolitana de Salvador, do Recôncavo e do Baixo Sul do Estado da Bahia; b) indicar a importância das manifestações religiosas na BTS, que se estendem para além dos limites da área metropolitana de Salvador, melhor apresentada pelos dados; c) registrar que a diversidade religiosa do entorno da BTS não se restringe à influência católica, majoritária no que diz respeito ao número de adeptos, e afro-brasileira, no que diz respeito ao número de estudos de qualificação etnológica; e que, a bem da verdade, este campo reli-gioso local é marcado por transformações recentes que vêm intensificando essa pluralidade e diversidade.
Ao estudar a diversidade religiosa da BTS, vamos tomar como referência a área que conforma o seu entorno, ou seja, as cidades e regiões que de alguma forma encontram-se identificadas a um ecossistema (a baía como acidente geográfico), tanto quanto a uma dimensão sociocultural (Salvador, o Recôncavo, ou o Baixo Sul, como zonas culturalmente estruturadas, AZEVEDO, 1981) e unidades políticas (as administrações municipais).
Com isso queremos localizar as populações dos dez municípios margeados pela BTS: Salvador, Jaguaripe, Maragogipe, Salinas da Margarida, Saubara, São Francisco do Conde, Candeias, Vera Cruz, Itaparica, Madre de Deus. Além disso, é preciso acrescentar a importância cultural de algumas ilhas da BTS, dentre elas: Maria Guarda, Ilha das Fontes, Ilha de Maré, Bom Jesus dos Passos etc.
Por fim, acrescentamos que para os contornos deste trabalho, optamos por eventualmente (e mediante uma salvaguarda metodológica que rogamos aqui) estender os limites da investigação às cidades que, embora não sejam banhadas diretamente pelas águas da baía, possuem uma ligação histórica com o entorno da BTS. Cidades como São Félix, Cachoeira e Santo Amaro apresentam profunda continuidade econômica e cultural com a baía, na medida em que fazem parte do grande complexo portuário fluvial da Baía do Iguape, uma importante rota de transporte entre o Recôncavo e a capital. Esses configuram os limites "estendidos" desta investigação. Limites esses que, se vistos numa perspectiva histórica, se não chegam a recobrir a totalidade da região do Recôncavo, ainda assim guardam profunda relação com este, no que se refere às suas características identitárias, seus problemas e desafios para o futuro.
É evidente que na delimitação proposta uma questão ganha relevância: a influência exercida por Salvador sobre as demais cidades da região, no que se refere às transformações das identidades religiosas locais, estimulando trânsitos e novas experimentações religiosas e ressignificando identidades tradicionais.
A intensidade das relações da região com a capital é destacada por Milton Santos (1998), definindo-a sob a forma de um aparente paradoxo: por um lado, Salvador perde influência, com a emergência de outras metrópoles e capitais regio- nais; por outro, a sua área de influência regional encontra-se em expansão.
Assim, para compreendermos os processos identitários do entorno da BTS, não podemos desvincular-los das transformações mais amplas, processadas através da capital. Como esclarece Fernando Pedrão (2007), esse configura um problema recorrente nos estudos sobre essa região: a valorização excessiva dos aspectos locais, explorando-se pouco a relação entre contexto mais amplo e estruturação econômica da região "[...] essa região sempre foi determinada por relacionamentos com o exterior, quase sempre processados através de Salvador." (PEDRÃO, 2007, p. 10)
Esse movimento pode ser observado, por exemplo, em relação às novas formas de modernização do Recôncavo, onde se assiste atualmente a uma valorização da cultura negra:
Os fundamentos tradicionais da cultura, responsáveis por sua autenticidade, tornam-se uma
questão a ser reestruturada e, segundo os meios de comunicação, permitem maior conhecimento
do universo de produção cultural. Neste novo mapa da cultura, Salvador e o Recôncavo ocupam
uma posição especial como referências das demais regiões, em parte pelo sucesso alcançado por
suas representações, porém num sentido mais rigoroso, por concentrarem a maior densidade de
expressões de continuidade. (PEDRÃO, 2007, p. 20)
Esses movimentos de ressignificação identitária, processados fortemente atra- vés de Salvador, vêm, historicamente, fortalecendo movimentos religiosos, como a Irmandade da Boa Morte, em Cachoeira, ou os candomblés de Egun, em Itaparica, dinamizando tradições e festas populares, bem como possibilitando mudanças na composição da diversidade religiosa local.
Nosso ponto de vista, que buscaremos expor na abordagem que segue, é que há um contraponto, ou um paradoxo, contido na relação entre alguns dados, como aqueles oferecidos pelo Censo, e o número de abordagens realizadas pelas ciências sociais. Com isto, reivindicamos dois níveis de análise nos quais a religiosidade se nos apresenta: como socialmente relevante – no que diz respeito à prática social –, e como sociologicamente interessante – no que diz respeito ao interesse sociológico que as ciências sociais enxergam no fenômeno religioso.
BTS: um campo religioso em transformação
No que diz respeito ao primeiro nível de análise, vamos tentar caracterizar um plano no qual a religiosidade possa ser substancializada, no que diz respeito a sua relevância social, a partir do número de adeptos de determinados segmentos religiosos. Assim, vamos buscar caracterizar a diversidade religiosa da BTS, a partir de dados censitários que se referem à região como um todo; assim como, tomando mais especificamente a cidade de Salvador, vamos refletir sobre a distribuição religiosa na cidade, e ainda mais particularmente, sobre o mapeamento dos terreiros de candomblé, recentemente efetuado.
BTS: diversidade religiosa em números
Os dados quantitativos produzidos no último Censo (2000) e disponibilizados em publicações especializadas nos possibilitam apresentar um quadro interessante para uma análise da diversidade religiosa na região definida como sendo a BTS.
Como se sabe, o censo utiliza-se de categorias particulares para contabilizar a pertinência de uma pessoa a uma determinada religião. É assim que sabemos, através delas, o número de católicos-apostólicos romanos, de evangélicos, de espíritas, de membros da umbanda e do candomblé, de judeus, de religiosos do segmento oriental, de outras religiosidades, dos sem religião e de religiões não determinadas.
Com base nestes dados, reproduzimos na Tabela 1, a seguir, que melhor nos informa sobre as pertinências religiosas da populacão da BTS:
Tabela 1 – Distribuição da população brasileira de acordo com filiação religiosa
Bahia / Total (1) Religião
Município Católica Evangélicas Espírita Umbanda e Judaica Religiões Outras
apostólica Candomblé orientais religiosidad
romana
BAHIA 13.085.768 74,00 11,18 0,80 0,17 0,01 0,09 2,01 01 - Baía de 2.682.313 59,66 14,05 2,22 0,47 0,02 0,26 4,27 Todos os
Santos
Salvador 2.443.107 60,54 13,29 2,53 0,49 0,03 0,27 4,35 Candeias 76.783 56,48 7,52 0,19 0,28 - 0,05 3,15 Saubara 10.193 68,33 13,11 0,21 0,11 - 0,26 2,17 Itaparica 18.945 58,13 13,01 0,77 1,63 - 0,26 8,16 Jaguaripe 13.422 56,55 10,85 0,37 0,26 0,06 - 3,98 Madre de 12.036 69,97 11,02 0,21 0,09 - 0,07 1,62 Deus
Vera Cruz 29.750 59,14 14,92 0,75 0,40 - 0,36 3,66 São 26.282 72,10 10,36 0,22 0,25 - - 1,62 Francisco
do Conde
Maragogipe 41.418 78,15 4,75 0,34 0,12 - - 0,48 Salinas da 10.377 61,79 10,76 0,08 0,95 - - 1,07 Margarida
Fonte: IBGE, Censo Demográfico 2000 – Microdados da Amostra.
(1) Inclusive as pessoas sem declaração de religião.
Como se pode observar, o conjunto dos dez municípios perfaz um total de 2.682,313 habitantes, 23% da população baiana total. Observe-se que os dados referentes à BTS não necessariamente guardam pertinência com a média do Estado, e isto se deve, muito provavelmente, pela participação nestes dados de Salvador, capital do Estado.
O que se conclui preliminarmente destes dados é que a da BTS apresenta um quadro interessante para a problematização religiosa, como veremos a seguir.
Conclui-se, por exemplo, que a BTS pode ser considerada como uma região de forte cultura religiosa católica. Entres os municípios que a conformam, nota-se quão majoritariamente católica é a região, variando de patamares que vão de 56%, em Candeias e Jaguaripe, à 78% de católicos na população, como acontece com Maragogipe. Salvador, conhecida por suas 365 igrejas, apresenta neste Censo 60% da população dizendo-se católica. No Estado da Bahia, este número de católicos, todavia, chega a 74% da população.
Já os evangélicos, que representam 11% da população do Estado, perfazem 14% da população na BTS. Como em uma equação inversa ao número expressivo de católicos, eles são apenas 4,75% em Maragogipe, mas chegando a 17,52% em Candeias. Em Maragogipe eles são 10% dos habitantes. Aqui se consideram os evangélicos tanto na sua forma tradicional (que vai das igrejas luterana, presbiteriana, metodista, adventista etc.) como pentecostal (as nacionais, as neopentecostais, num emaranhado de denominações, como Igreja Universal do Reino de Deus, Deus é Amor, Casa da Bênção etc.) e mesmo algumas adventistas (da Promessa), batistas pentecostais etc.
Salvador concentra 63% de espíritas do Estado. Isto significa, também, que 2,5% da população soteropolitana declaram-se de orientação espírita kardecis- ta, enquanto que nos demais municípios estes não chegam a 1%. Em Salinas da Margarida é 0,08%.
No que diz respeito à categoria de adeptos, da umbanda e ao candomblé, se observa que os membros deste segmento religioso conformam 0,17% da população do Estado da Bahia. A BTS está portanto bem acima desta média, com 0,47%, o que correponde a 65% dos membros desta religião na Bahia. No quadro dos municípios da BTS, o número de adeptos varia de 0,09%, em Madre de Deus, a 1,63%, em Itaparica. Salvador tem 0,49% de declarantes.
Os identificados como judeus correspoondem a 0,01% da população baiana. Sendo que destes 75% encontram-se na BTS. Correspondem a 0,03% da população soteropolitana, e a 0,06% da população de Jaguaripe. É curioso notar que, além dos membros presentes nestes dois municípios, não foram identificados judeus na BTS.
Já os membros das religiões orientais somam apenas 0,09% da população do Estado da Bahia. Sendo que 0,26% destes encontram-se na BTS, ou seja, 63% dos membros desta religiosidade no Estado. Correspondem a 0,27% da população de Salvador; a 0,5% de Candeias; 0,26% de Saubara; 0,26% de Itaparica; 0,07% de Madre de Deus e 0,36% de Vera Cruz. Não foram encontrados membros de religiões orientais nos demais minicípios. Nesta categoria de orientais incluem-se o budismo, a Igreja Messiânica Mundial, Seicho-no-Ie, Hare Krishna etc.
Os adeptos de outras religiosidades correspondem a 2,01% da população da Bahia; 4,27% na BTS, ou seja, 49,05% dos adeptos destas outras religiosidades no Estado. O número de adeptos nos municípios da BTS varia de 0,48%, em Maragogipe, a 8,16%, em Itaparica, que supera Salvador que tem apenas 4,35% declarantes de outras religiosidades. Esta é uma categoria bastante complicada, que inclui uma larga com- posição religiosa que vai dos mórmons às testemunhas de jeová, o islamismo, o Santo Daime, alguns tipos de católicos (Católica Apostólica Brasileira, Católica Ortodoxa) e algumas formas de espiritualismo. Os próprios judeus deveriam estar nesta categoria.
Aqueles que se declararam sem religião totalizam 11,39% da população do Estado da Bahia. Já a BTS tem 37% da população dos sem religião no Estado. Os números destes declarantes que não professam religião parte de 15% em mu- nicípios como São Francisco do Conde, Maragogipe e Seabra, e chega a 27% da população em Jaguaripe. Salvador tem 18% dos sem religião, dentro da média da BTS.
Quanto à religião não determinada, verifica-se que esta categoria corresponde a 0,11% da população do Estado da Bahia. Na BTS 0,13%, 26,29% de membros de reli- giões não determinadas. Jaguaripe, Vera Cruz, Salinas das Margaridas não têm adeptos. O percentual varia dentro de uma mesma média, é 0,15% em Itaparica, 0,14% em Candeias, e 0,13% em Salvador. Aqui se organiza uma vasta teia de adeptos de formas religiosas esotéricas, racionalismo cristão, e outras indefinidas, ou não determinadas.
O caso da religiosidade em Salvador
Salvador, como pode ser visto, também é capital da BTS. Tornou-se, no que diz respeito à religiosidade, uma cidade etnologicamente esmiuçada, já que tem sido um laboratório sociológico muito particular para a observação do fenômeno religioso, em parte decorrência de sua singularidade social – cadinho de raças e culturas –, e, ademais, historicamente privilegiada por uma ciência social que tomou o fenômeno religioso como um assunto social valioso.
O que apresentaremos agora são reflexões sobre as referências censitárias sobre a cidade de Salvador, indicando as principais adesões religiosas e as transformações mais significativas. Assim, iremos apresentar um quadro das principais tendências, a partir de duas publicações específicas. (JACOB et al., 2003, 2006) Observe-se, como ponto de partida, que os autores acima se valerão de categorias religiosas distintas da acima exposta sobre a BTS.
Em Salvador, como em outras regiões metropolitanas do Brasil, observa-se, ao longo das últimas décadas, uma maior diversidade religiosa, com a redução do número de católicos e o aumento dos evangélicos e dos sem religião. Entre os católicos, Salvador é a capital nordestina que concentra o menor número de fiéis, indicando uma das mais acentuadas perdas de adeptos dentre as capitais do país nos últimos anos. As áreas da cidade onde se verifica a maior concentração de católicos são a Barra (e adjacências) e a Pituba (e adjacências): nessas regiões mais de três quartos da população se declaram católicos. Com relação à Igreja Católica Brasileira, o percentual dos adeptos na cidade é um dos mais altos dentre as capitais, encontrando-se nas áreas onde os católicos romanos são menos expressivos.
Os evangélicos de missão não constituem um grupo significativo em Salvador, se comparado com outras capitais (ocupam o oitavo lugar). Um indicador, no entanto, chama a atenção: trata-se de uma das capitais onde se observou um crescimento acentuado de fiéis, atrás apenas de São Luís e Recife. Os evangélicos de missão encontram-se mais presentes na área norte da cidade, sendo os batistas o grupo mais significativo.
Diferentemente dos evangélicos de missão, nos anos 90, os evangélicos pen- tecostais cresceram mais intensamente nas áreas da periferia da cidade, apontando, assim, para uma distribuição bastante desequilibrada, se considerarmos a região metropolitana como um todo. Os grupos que mais se destacam são a Assembleia de Deus e a Igreja Universal do Reino de Deus, diferindo, no entanto, as áreas de maior concentração desses dois segmentos: o primeiro é mais presente na periferia da cidade enquanto o segundo é mais presente em Salvador.
Algumas religiões consideradas minoritárias no Brasil possuem importância no contexto soteropolitano. São elas: Candomblé, Testemunha de Jeová e Espiritismo. Quanto ao candomblé, contrariamente ao que se pode intuir de uma cidade que foi considerada a "Roma Negra", não apresentou um número significativo de declarantes no último censo, o que leva à hipótese de que o sincretismo afro-católico ainda é bastante acentuado na população, inibindo a autodeclaração como candomblecista. A localização dos adeptos na cidade contrasta visivelmente com os pentecostais: os primeiros se localizam na parte oeste (bairros da Liberdade e Engenho Velho); já os últimos residem preferencialmente na parte norte e municípios da periferia. Outra surpresa são as Testemunhas de Jeová: apresentando um percentual equivalente ao da Igreja Universal do Reino de Deus (2,4%); Salvador desponta como a única capital onde esse grupo possui alguma importância. Por fim, os espíritas apresentam uma distribuição diferente das demais, localizando-se na parte sul da cidade, região onde os católicos também apresentam altos percentuais.
Os sem religião também apresentam indicadores importantes em Salvador. Trata-se da capital onde se concentra o maior número de pessoas, 18% da população e, ao mesmo tempo, onde se observou a maior taxa de crescimento na década de 90.
Outras informações importantes apresentadas em Jacob et al (2003, 2006) referem-se ao perfil religioso da população. Em Salvador, destacam-se cinco classes de distribuição geográfica, considerando-se os diferentes perfis religiosos. Os cató- licos se concentram mais em bairros do litoral, desde Santo Antônio até Patamares; os sem religião situam-se na mesma área que os pentecostais, na metade norte de Salvador, sendo que o extremo norte é predominantemente pentecostal; os evangélicos de missão não possuem territórios significativos na cidade, ocupando poucos bairros.
Figura 1 – Religião e sociedade em capitais brasileiras, 2006.
Fonte: Jacob e outros (2006, p. 115)
As referências acima nos permitem inferir a importância da diversidade reli- giosa em Salvador, lançando perguntas futuras sobre as transformações em curso nessa região e no entorno da BTS, já que as relações entre Salvador e os municípios vizinhos pautam-se por trocas e influências que ainda não foram devidamente analisadas. No que se refere às práticas religiosas no país, a síntese elaborada por Jacob e outros (2003) aponta a região metropolitana de Salvador como uma área marcada pela diversidade religiosa, similarmente às regiões metropolitanas do Rio de Janeiro e Vitória.
A classe n. 1 é caracterizada pela oposição em relação à n. 5, território de resistência católica. A maioria das religiões dessa classe possui percentual acima da média brasileira, com destaque para a Metodista, a Batista, A Igreja Universal do Reino de Deus e o Candomblé, sendo as exceções: Igreja Luterana, Congregação Cristã no Brasil e Evangelho quadrangular. Além desses desvios, essa classe também concentra um maior número dos sem religião.
Figura 2 – Atlas da filiação religiosa e indicadores sociais no Brasil, 2003.
Fonte: Jacob e outros (2003, p. 130)
Mapeando o candomblé em Salvador
Uma das mais importantes publicações sobre a religiosidade em Salvador é o Mapeamento dos Terreiros de Candomblé. (SANTOS, 2008) Aqui, fica totalmente visível o real significado da religiosidade afro-brasileira e da dinâmica que lhe é própria na sociedade soteropolitana. Neste sentido é que o Mapeamento dos Terreiros vai nos oferecer uma visão mais precisa do contexto das religiões afro-brasileiras de Salvador, dando margem, em particular, a uma necessária discussão sobre a pouca representatividade dos adeptos desta manifestação religiosa no Censo, de acordo com o já exposto.
Como nos aponta Santos, ao longo de todo o século XX muito se especulou sobre o número de candomblés e candoblecistas na cidade, decorrendo desta incerteza a razão pela qual algumas pesquisas com o intuito censitário chegaram a ser formuladas.
Silva Campos (apud SANTOS, 2008), ainda no século XIX, falava de uma cidade e subúrbio em que os candomblés se "derramavam"; Pierson (1971) nos anos trinta do século XX se questionava se seria verdadeira a afirmação popular de que existiriam na cidade duzentas ou trezentas "seitas"; Carneiro (1986), nos anos 50, aponta 100 candomblés.
A primeira tentativa sistemática de recensear as casas de candomblé, todavia, data de 1961 (LIMA, 2003), num primeiro esforço de pesquisa realizado pelo CEAO/ UFBA, tendo alcançado o número de 756 terreiros identificados. Na década de 80, a Secretaria da Indústria e Comércio da Bahia, numa pesquisa destinada a entender o mercado informal do trabalho, apontava a existência de 1.089 terreiros.
Já em pesquisa realizada em 1998 pelo Grupo Gay da Bahia, voltada para um trabalho de prevenção de AIDS, foram catalogadas quinhentas casas de candomblé.
O Mapeamento dos terreiros em foco nos aponta a existência comprovada, com documentação fotográfica inclusive, de 1.164 terreiros, embora tivessem sido identificados 1.410. De acordo com a publicação, ademais, 36 terreiros recusaram o contato com o pesquisador, ao que se acresce 142 outros terreiros que se encontra- vam fechados, e, além disso, uma migração de 31 terreiros para outros municípios.
Em relação a estas 1.164 casas de culto, o Mapeamento faz uma identificação e aponta sua localização, caracterizando a liderança religiosa e o espaço do terreiro a partir de sua Nação. Observa, também, os diferentes aspectos religiosos, apresen- tando elementos de sua organização e hierarquia, bem como investigando suas atividades religiosas e comunitárias, ou mesmo, suas características ambientais e físicas. Além do que, nos informa, complementarmente, dados sobre os residentes no terreiro.
O Mapeamento informa o surgimento de 677 terreiros nas duas últimas décadas, num movimento que tem relação com a liberdade religiosa, através de decreto estadual de 1976, que se completa com um expressivo crescimento na década de 90, induzido, segundo o coordenador da pesquisa, pelas posições das lideranças religiosas afro-brasileiras contra o sincretismo religioso, expressas na II Conferência da Tradição Orixá e Cultura, realizada em 1983, em Salvador. Além disto, o Mapeamento acrescenta que tal fenômeno pode ser visto, também, a partir de uma série de políticas governamentais voltadas para o incremento do turismo, o uso da imagética do candomblé nos grupos afro participantes do carnaval baiano, além da reinterpretação dos movimentos negros sobre o papel desta forma religiosa.
O Mapeamento enfrenta questões clássicas com respeito ao candomblé baiano (LIMA, 2003), inclusive no que respeita ao predomínio das nações Keto e Angola. Na pesquisa, 57,8% declaram-se pertencentes à naçao Keto, 24,2% à nação Angola, 2,1% aos Jeje e 1,3% à Ijexá. Ressalta a pesquisa, no entanto, que 85,4% adota classificações duplas como Angola-Ketu, Angola-Jeje-Keto, ou Keto-Angola, Ijexá. O Mapeamento acaba por identificar 25 categorias de identificação destas nações dos terreiros.
Numa primeira análise verifica-se a distribuição dos terreiros na cidade e o tem- po de existência A maior parte destes terreiros localiza-se nos bairros que compõem o subúrbio rodoviário (Plataforma, Paripe, Alto de Coutos). No que diz respeito ao tempo de existência, verificou-se que 68,6% têm menos de 31 anos de fundação.
Figura 3 – Distribuição dos terreiros em Salvador.
Fonte: SANTOS, Jocélio.
Mapeamento dos terreiros de Salvador, 2008, p. 34.
A situação legal destes terreiros também é configurada. Sabe-se que 41,7% dos terreiros são próprios da Pai ou Mãe de Santo, enquanto 28,2% se encontram em situações outras: do usocapião ao litígio, com particulares ou mesmo com a prefeitura. Neste sentido, 43,2% têm escritura registrada, 25,6% têm contrato de compra e venda, 21% estão sem documentação. Note-se que uma das propostas do Mapeamento é justamente pautar uma regulamentação fundiária destes terreiros.
Em relação ao quesito residência, nota-se que a metade dos terreiros tem menos de 360 m2, numa situação que configura contiguidade entre os espaços sagrado e doméstico, ou de natureza econômica, sobretudo de casas de comércio.
O Mapeamento nomeia algumas formas de conflitos religiosos com vizinhos, destacando sobretudo esta relação com as igrejas evangélicas.
Com respeito a estes conflitos, há que se notar, também, que há um ambiva- lente trânsito religioso. Com números tão expressivos de crescimento, o Candomblé acolhe adeptos vindos da igreja católica, de cultos protestantes históricos e de espíritas kardecistas, e, sobretudo de evangélicos pentecostais, como os mem- bros da Igreja Universal do Reino de Deus ou Assembleia de Deus, assim como de Testemunhas de Jeová.
O Mapeamento traz também preciosas informações sobre as lideranças religio- sas: sobre gênero, conclui-se que 63,7% são mulheres e 36,2% homens; no quesíto cor, 58,3% são pretos, 30,4% pardos, 4,6% brancos, 0,8% amarelos, 2,7% indígenas, enquanto 3,2% não sabem ou não informaram. Com relação à idade das lideranças religiosas, 1,4% estão entre 19 a 24 anos, 15,6% entre 25 a 39 anos, 45,2% entre 40 a 59 anos e, finalmente, 37,8% para lideranças com 60 anos ou mais; a maior parte destas lideranças é natural de Salvador, sendo que apenas 2% são originários de outras regiões do país. Quanto à escolaridade, notou-se que apenas 4,1% eram sem escolaridade, 32,5% com fundamental incompleto, 13% com fundamental completo, 7,8% com ensino médio incompleto e 25,6% completo, 2,3% com superior incom- pleto e 4,7% completo. O perfil ocupacional é bastante heterogêneo, destacando-se todavia aquelas lideranças que trabalham como baiana(o) de acarajé, costureiro(a), cozinheiro(a), professor(a), funcionário(a) público(a), empregado(a) doméstico(a), comerciante, auxiliar de enfermagem etc.
Também fica caracterizada uma forte inserção dos candomblés nas comunida- des, o terreiro prestando-se a um espaço aberto onde se realizam a distribuição de cestas básicas e o cadastramento em programas governamentais, reuniões políticas e culturais, cursos e palestras, programas na área de saúde, creche para crianças, escola, curso pré-vestibular, distribuição de material de construção etc.
O Mapeamento caracteriza uma forte ação de paralelismo religioso, sobretudo no que diz respeito à celebração de missas em igrejas católicas, associadas ao ciclo de festas públicas dos candomblés. Por outro lado, tal paralelismo também se faz também com a presença de padres realizando trabalhos em espaços dos terreiros de candoblé.
Por fim, o Mapeamento considera aquilo que vai ser chamado de domínio das deusas como regentes principais dos terreiros. A partir da constatação de que 81,9% dos terreiros têm um único regente, o Mapeamento relaciona os principais orixás presentes nos terreiros investigados: Oxum 17,3%, Iansã 12% Ogum 10,3%, Oxóssi 8,8%, Obaluaê 8,2%, Xangô 6,4%, Oxalá 5,5%, Omulu 3,2%, Iemanjá 3,2%, Logundê 3,0%, Caboclos 2%, Oxumaré 2,0%, perfazendo 81,9% dos terreiros investigados. Tal situação leva à conclusão da popularidade das yabás – orixás femininos – entre o povo de santo.
Explorando a bibliografia especializada
Introdução
Exploraremos nosso segundo nível de análise, partindo de um extenso levan- tamento bibliográfico sobre a vida religiosa na BTS, afirmando que a existência de uma quantidade maior ou menor de trabalhos que abordem formas específicas de religiosidade na região pouca pertinência tem com o quadro da representação censitária anteriormente apresentado.
Nossos postulados são os de que: a) a literatura especializada ressalta as reli- giões afro-brasileiras em Salvador, muito mais que com relação a outras formações religiosas, b) a literatura especializada não faz jus à diversidade religiosa da BTS, ou seja, a literatura não acentua ou explora toda a dimensão geográfica do entorno da BTS e suas formas de religiosidade diversas; c) a literatura aponta um forte com- ponente de religiosidade popular na região, inclusive com a presença de messias, curadores e taumaturgos; e, por fim, d) a literatura aponta a religiosidade em espaço público, expressa nas festas, bem como nas procissões, como uma das marcas da vida religiosa no entorno marítimo da BTS.
Estes postulados serão considerados doravante como tópicos a serem desenvolvidos.
Esta abordagem, no entanto, merece uma consideração metodológica prévia.
A bibliografia especializada que foi selecionada para os objetivos deste tra- balho compreende pesquisas que investigam como questão central e/ou lateral as manifestações religiosas das populações do entorno da baía. São trabalhos de diferentes áreas do conhecimento, a grande maioria deles apropriando-se, em maior ou menor grau, da perspectiva socioantropológica, ao abordar as características das distintas formas de religiosidade, bem como os processos de transformação mais recentes por que vem passando o campo religioso local. Assim, ficaram excluídos desse recorte trabalhos cujo tema da religiosidade fosse apenas periférico, assim como a historiografia publicada em períodos anteriores a meados do século XX, que, de certo modo, enfoca o processo de estruturação, disseminação e organização das diferentes tradições religiosas da região.
Interessa-nos mapear as características dessa bibliografia, para que possamos avaliar adequadamente
quais os contornos da pluralidade religiosa que emerge da diversidade dos trabalhos.1 A bibliografia reunida é composta, em sua grande maioria, por dissertações e teses. Monografias de graduação e de especialização, artigos em periódicos (tanto locais como de ampla circulação), trabalhos apresentados em congressos (disponi- bilizados na internet), capítulos de livros e livros
também se encontram presentes, mas em proporção bem menor.2
No que se refere às dissertações e teses, estas foram majoritariamente de- fendidas em programas da
UFBA3 e compreendem trabalhos defendidos em pós-graduações de diferentes áreas do
conhecimento. A distribuição pode ser observada na Tabela 2, a seguir:
Tabela 2 - Distribuição dos trabalhos por Programas de Pós-Graduação da UFBA
Áreas do conhecimento (Programas de Pós-Graduação) Quantidade
Ciências Sociais 18
História 3
Educação 6
Estudos étnicos e africanos 6
Direito 1
Administração 2
Arquitetura e Urbanismo 3
Geografia 2
Música 6
Artes Cênicas 2
Artes Visuais 2
Saúde Coletiva 2
Estudos Interdisciplinares sobre mulheres, gênero e feminismo 1
Letras e Linguística 1
Total 55
Quanto às monografias, foram encontradas três de especialização e apenas uma de graduação. Com relação às de especialização, um aspecto interessante refere-se à diversidade das áreas do conhecimento em que foram defendidas: Gestão Ambiental na Escola de Engenharia Eletro-mecânica da Bahia; Turismo na Universidade de Brasília; História Social e Educação na Católica de Salvador. Já a de graduação foi defendida em Ciências Sociais na UFBA.
Com relação ao recorte temporal, a grande maioria das teses, dissertações e monografias foi produzida ao longo dos últimos vinte anos, tendo se intensificado a partir dos anos 2000.
Uma primeira observação que salta aos olhos é a assimetria entre os trabalhos que têm como lócus de pesquisa a cidade de Salvador, em relação aos demais municípios do entorno da Baía. Com exceção das localidades de Ilha de Itaparica, Candeias e Cachoeira (tomando a ideia de uma Baía estendida), podemos observar uma produção quase inexistente sobre a diversidade religiosa na BTS. Para efeito
de melhor visualização, apresentamos a Tabela 3, a seguir com a relação de teses, dissertações e monografias (de especialização e graduação) distribuídas pelas reli- giões e localidades pesquisadas.
Tabela 3 - Distribuição dos trabalhos por temática religiosa e localidade
Salvador Candeias Itaparica Total
Candomblé 35 3 38
Umbanda 1 1
Espiritismo 2 2
Evangélicos – Protestantismo 2 2
Evangélicos – Pentecostalismo 5 5
Evangélicos em geral 4 4
Catolicismo 15 1 16
Esoterismo 1 1
Diversidade religiosa/ abordagens comparativas 3 3
Festas religiosas 4 4
Totais 72 1 3 76
É em Salvador que se concentra, não apenas a grande maioria dos trabalhos (72 dos 82 abordados), mas também a maior diversidade de religiões pesquisadas. A cidade é objeto de pesquisa, buscando-se mapear as suas características religiosas, mas também um lugar onde se observam tendências da religiosidade brasileira contemporânea.
Note-se que, por contraste, existem quatro trabalhos sobre candomblé em Cachoeira, assim como quatro sobre o catolicismo, além de três outros sobre cultura religiosa popular, todos neste mesmo município.
A literatura ressalta as religiões afro-brasileiras em Salvador
O candomblé, por excelência, é um dos temas clássicos dos estudos socioan- tropológicos no Brasil. Desde Nina Rodrigues ([1938]), passando por Edson Carneiro (1986), Bastide (1971, 1978), Manuel Quirino (1988), Pierre Verger (1981), Artur Ramos (2001), Ruth Landes (2002), dentre outros, esta forma religiosa africana tão presente na Bahia tem merecido abordagens tão apaixonadas quão consistentes, de modo que o estudo das religiões afro-brasileiras, ainda hoje, se mantém com extremo
vigor nas pesquisas.4
Nota-se na bibliografia levantada a importância de questões "tradicionalmente" pesquisadas sobre o candomblé, como autoridade e processos de legitimação religiosa (CAMPOS, Vera, 2003; CASTILLO, 2005; DANTAS, 1988; SANTOS, Jocélio, 1992; LIMA, Fábio, 2002; LIMA, Vivaldo, 1966, 1978, 2003; SANTOS, Jocélio, 2002); práticas alimentares (BORGES, Florismar, 2008; DIAS, Tânia, 1997; LIMA, Vivaldo, 1999; MARTINI, 2007; RIBEIRO, Denise, 2002; SOUZA JÚNIOR, 1999); práticas terapêuticas e de saúde mental (CAPRARA, 1998, 1999; FREITAS, Edmundo, 1995; MANDARINO, 2003; SERRA, 1999a); construções identitárias em interface com a questão do gênero e da corporalidade (BARBARA, 1995, 2002; JOAQUIM, 1996; SANTOS, Maria, 2003; SILVERSTEIN, 1979; XAVIER, 2007); práticas divinatórias. (BRAGA, 1980, 1988).
No entanto, também observamos mudanças na escolha dos temas. Questões outrora bastante pesquisadas, como cosmologia, mitologia e abordagem ritual, estão menos presentes, comparecendo em apenas um trabalho (SOGBOSSI, 2004), enquan- to outros temas vêm ganhando relevância. É o caso, por exemplo, do conjunto de trabalhos que entrecruzam temas específicos com a problemática mais ampla da reconfiguração do candomblé no âmbito do espaço público (BRAGA, 2006; CAMPOS, Eufrazia, 2006; CONCEIÇÃO, Sueli, 2008; DIAS, Jussara, 2003; FREITAS, Joseana, 1996; HIPÓLITO, 2006; OLIVEIRA, Rafael, 2005; PORT, 2005; PORTELA, 2007; RABELO, 2008; SANSI, 2005; SANTOS, Jocélio, 2000; VELAME, 2009) e dos conflitos que envolvem as liberdades religiosas, especialmente a "guerra" com os neopentecostais. (REINHARDT, 2006; SANTOS, 2007)
As pesquisas não se restringem à área das ciências sociais, sendo expressivo o número de trabalhos de outras áreas do conhecimento. Assim, temos abordagens centradas na musicalidade (BORGES, 1996; CARDOSO, 2006; GARCIA, 1996, 2001); nos processos educacionais (GUERRA, 2004; SILVA, Vanda, 1989); no mercado de trabalho (LIMA, Fernando, 1997; PIZZOFERRATO, 2008) e na cidadania e direitos civis (CORREA, Jailson, 2008).
A literatura e a diversidade religiosa na BTS
Embora em menor número, se comparada aos estudos sobre o candomblé, a abordagem da diversidade religiosa em Salvador também merece ser destacada, evidenciando-se em trabalhos sobre religiões protestantes e pentecostais, bem como sobre as diferentes "faces" do catolicismo contemporâneo.
Uma observação, no entanto, deve ser feita: a totalidade das pesquisas sobre os protestantes e pentecostais está disponibilizada sob a forma de dissertações e teses, ou seja, trata-se de uma área de pesquisa que ainda possui pouca visibilidade social, se comparada com outras capitais brasileiras, especialmente o Rio de Janeiro, que já oferecem publicações sobre o assunto.
Consideraremos, doravante, algumas categorias nas quais os estudos poderiam ser enquadrados:
a) Católicos. Os "catolicismos" configuram uma importante referência dos estu- dos pesquisados. Uma primeira questão a ser observada é a vitalidade dos estudos sobre o sincretismo afro-católico, temática tradicional das pesquisas sobre religião no Brasil. Existem trabalhos sobre devoção popular (CASTALDI, 1955), sincretismo em geral (SOUZA JÚNIOR, 2001) e os estudos em igrejas e irmandades específicas, como a Nossa Senhora do Rosário dos Pretos (OTT, 1968; PEREIRA, Dirceu, 2008; PEREIRA, Taynar, 2001), a Igreja de São Lázaro (PEREIRA, Maria, 1998) e a do Nosso Senhor do Bonfim. (CAMARGO, 1989; OTT, 1969) Esses trabalhos abordam a questão da "dupla pertença" religiosa (a vivência conjunta de catolicismo e candomblé), a incorporação de símbolos afro-brasileiros no espaço católico, como estratégia de revalorização da identidade negra, e a questão da performance nos rituais.
Novos movimentos católicos também comparecem nos estudos. É o caso de dois trabalhos que abordam a questão da família e da conjugalidade entre casais católicos, sendo um deles sobre o movimento "Encontro de Casais com Cristo" (LOPES, 2005; MACIEL, 2008) Outro movimento importante é a Renovação Carismática Católica (RCC), que foi objeto de dois trabalhos da mesma autora: o primeiro sobre médicos pertencentes ao movimento e o segundo investigando as perspectivas e tensões da RCC no âmbito do catolicismo contemporâneo. (MOTA, 2003, 2007) As interfaces do catolicismo com a política também comparecem nos estudos, atra- vés dos seguintes temas: a atuação do Círculo Operário da Bahia (SOUZA, George, 1996), a atuação da Igreja Católica na Bahia, no período do Golpe de 64 (ARAÚJO, 2008), as repercussões do trabalho social dos Jesuítas durante a Ditadura Militar (ZACHARIADHES, 2007) e a atuação do agente pastoral católico (BATISTA, 1989) A questão do gênero comparece em dois trabalhos. O primeiro sobre as polêmicas que envolvem o sacerdócio feminino (RODRIGUES, 2007) e a influência da religião – no caso, a experiência do Apostolado da Oração da Igreja de São Jorge – na reelaboração das identidades de mulheres envelhecidas. (BARBOSA, 1999) Vale registrar, ainda, um trabalho sobre arte e religião na formação de identidades culturais. (CARMO, 2002)
b) Evangélicos. Sobre denominações protestantes específicas, encontra- mos dois trabalhos. O primeiro aborda as relações entre prática religiosa e hábitos alimentares entre os Adventistas do Sétimo Dia, tomando-se como perspectiva comparativa a vivência religiosa em dois grupos: um de classe média e outro num bairro operário. A dieta alimentar configura uma questão importante nessa reli- gião e o trabalho evidencia a centralidade da orientação religiosa para as camadas estudadas, ainda que observadas algumas diferenças decorrentes do "recorte de classe". (PACHECO, 2001) Outro grupo religioso estudado são os Batistas, enfocando a experiência religiosa de famílias situadas num bairro do subúrbio ferroviário de Salvador. (PEREIRA, Marcos, 2004)