Baía de Todos os Santos: aspectos humanos
A ambiguidade dos meios: ensaio ergológico sobre canoas de vinhático no Baixo Sul da Bahia
A ambiguidade dos meios: ensaio
ergológico sobre canoas de vinhático
no Baixo Sul da Bahia1
João de Pina Cabral
Benjamim Enes Pereira in honorem
A escola etnológica portuguesa que floresceu entre as décadas de
1940 e 1970 dedicou grandes esforços ao estudo atento de "coisas":
objectos que, na sua densidade, permitiam situar o mundo que à
volta desses objectos se enquadrava. 2 Isso mesmo me proponho
fazer no presente ensaio sobre as canoas feitas com madeira de
"vinhático" que são o principal instrumento de circulação no
manguezal do Baixo Sul do Estado da Bahia.3 Este é, pois, um
ensaio de ergologia, essa velha metodologia de análise etnográfica
segundo a qual, em vez de começarmos pelas pessoas – pelo que
elas fazem e pelo que elas dizem – optamos por começar pelos
objectos que as pessoas fazem e que as fazem a elas, situando as
pessoas no mundo.
Apesar de adoptarmos hoje novas perspectivas e novos olhares,
portanto, temos o mesmo engajamento que tinham os nossos
antecessores etnológicos com os objectos do quotidiano que, na
sua densidade física, nos encantam tanto pelo que significam como
pelo que são na sua materialidade. Urge ainda enfatizar que esse
lado estético da apreciação antropológica que os modernistas
dedicavam à "cultura popular" não desapareceu na antropologia
contemporânea. Numa época em que "popular" deixou de ser algo
de claramente isolável, porém, e em que a consciência sobre o
design é cada vez mais aguda, esse interesse ergológico difundiu-
se, abrangendo áreas que até há pouco estariam fechadas à
etnografia.
Figura 1 – Canoa no manguezal, Cajaíba.
Foto: Mônica Chan.
Figura 2 – "Deixa falar", Cacha Pregos, Itaparica.
Foto: Mônica Chan.
As canoas monóxilas4 que aqui discuto não são, pois,
apresentadas no pressuposto de que se extinguirão ou perderão a
sua essência face à modernidade. A antropologia dos nossos dias
rejeita o primitivismo metodológico que caracterizou a disciplina durante o século XX. (Cf. PINA-CABRAL 2009, 2010) O uso de
canoas monóxilas, está claro, é uma tradição com raízes
multisseculares (por um lado, na cultura ameríndia da costa e, por
outro lado, nas técnicas de construção de barcos de madeira que os
europeus consigo trouxeram); mas constitui também um nexo de
relacionamentos entre pessoas, objectos e relações económicas
que urge conceber como sendo perfeitamente coevo (ver FABIAN
1983).
O interesse que os etnólogos portugueses dedicavam a objectos
parecidos com estas canoas (palheiros, teares, arados, carros de
bois) era justificado por eles, segundo o argumento historicista de
que estes cedo desapareceriam face ao impacto da modernidade.
Ora, a modernidade entretanto universalizou-se e, no entanto,
continuamos ainda hoje a ocupar-nos com este género de objectos.
Figura 3 – "Falou demais", Cacha Pregos, Itaparica.
Foto: Mônica Chan.
Não significa isto também que eu creia que haverá canoas de
vinhático a boiar nas águas do manguezal da Bahia para todo o
sempre – até porque os bosques de vinhático do "cerrado" bahiano
estão rapidamente a esgotar-se. Começam já a ver-se em muitos
recantos do manguezal canoas de fibra de vidro feitas sobretudo nos ateliers de Salinas da Margarida. Significa, outrossim, que o
modelo primitivizante dos etnólogos não era, afinal, suficiente para
explicar o fascínio que eles próprios tinham por estes objectos e
pela forma como as coisas atam e unem o mundo dos humanos.
Figura 4 – Canoa de fibra de vidro, Salinas da Margarida.
Foto: Mônica Chan.
Um manguezal é um meio ambiente profundamente agreste à
ocupação humana: os fundos lodosos são perigosos e irregulares,
as raízes das árvores estão cobertas de lâminas cortantes de
ostras; o meio salinoso e a densa fauna são agrestes ao corpo
humano. Contudo, com uma canoa feita de certos tipos de madeira
– leve, rápida, resistente aos troncos e pedras escondidos na água
turva, fácil de manipular, sempre boiando à superfície mesmo
quando cheia de água ou até furada – a floresta marinha torna-se
num território encantado, onde todo o género de alimentação é
abundante, variado e nutritivo e onde se podem recolher todo o
género de materiais de construção. Com a ajuda de uma pequena
vela, pode-se mesmo fazer a canoa mexer-se por si mesma.
Figura 5 – Vela morcegueira, Torrinha, Cairu.
Foto: Mônica Chan.
A proposta que lança o presente ensaio é que as canoas de
vinhático estão centralmente situadas nos mundos ecológico, social,
cultural e económico que constituem os manguezais costeiros da
Bahia. As canoas atam e unem o manguezal pela mão do homem e
para seu sustento. (Cf. OLIVEIRA; PEREIRA, 1982)
Figura 6 – Zona do manguezal do Baixo Sul da Bahia.
Fonte: Google Maps.
O ecossistema
Há quem estime que a área de manguezal da Bahia seja de cerca
de 1.000 km2, distribuídos ao longo de 1.181km de costa. Os
maiores bosques estão entre os municípios de Valença e Maraú no
Baixo Sul da Bahia; o estuário do rio Paraguaçu forma também
importantes bosques de mangue no interior da Baía de Todos os
Santos. O manguezal é um ecossistema tropical de regiões quentes
com pluviometria superior a 1200mm por ano, quase sempre
abrigado e, nas zonas entre marés, com água salobra. (ALVES;
SAMAIN, 2004) O fundo lodoso é muito rico em matérias orgânicas,
tem baixo teor de oxigénio e é inundado frequentemente pelas
marés. Os manguezais são verdadeiros berçários: locais de
protecção, alimentação e reprodução para diversas espécies.
Segundo os especialistas na matéria, muitos dos peixes que são
economicamente explorados na região dependem desse
ecossistema, que é responsável pelo equilíbrio da cadeia nutricional
e manutenção de recursos naturais das zonas costeiras. A grande
quantidade de matéria orgânica produzida no manguezal constitui
um alimento energético indispensável para diversos componentes
da fauna estuarina e marinha da região, uma vez que durante o
processo de decomposição estas zonas são colonizadas por
microrganismos formando a base para diversas cadeias alimentares
e parte dessa produção é levada pela maré até às águas costeiras
adjacentes.
Figura 7 – Criação artesanal de ostras, Torrinha, Cairu.
Foto: Mônica Chan.
Este ecossistema costeiro é riquíssimo em todo o género de
agricultura tropical – mandioca, dendê, coco, piassaba, caju, manga,
cacau, jaca etc. Para além de abundante pesca e mariscagem
artesanais, criam-se também artesanalmente ostras e peixes em
viveiro – sobretudo a tilápia, uma espécie vinda dos grandes lagos
de África que se dá aqui muito bem.
Durante vários séculos, o manguezal foi marginal à agricultura
mercantil que tanto peso teve na história do Brasil e da Bahia. Por
isso até, manteve-se como uma zona relativamente marginalizada
onde não teve lugar uma ocupação violenta por parte de
terratenentes, como ocorreu nas zonas costeiras da terra seca. Na
última década, porém, a produção industrial de camarão tem vindo a
ser incentivada activamente por agências governamentais e
interesses económicos de vulto. Hoje ela ocupa partes importantes
do manguezal produzindo profundas alterações no ecossistema,
tanto em torno a Valença (Guaibim) como nas antigas Salinas da
Margarida.
Há mais de 4.000 hectares ocupados no Baixo Sul, dos quais pelo
menos 1.200 hectares de tanques gigantescos. A principal empresa
assegura que "[...] a qualidade da água devolvida ao mar é
controlada, isenta de poluentes, valorizando a vida de mariscos e
crustáceos importantes para a região".5 Mas só num dia, em 2006,
todos os caranguejos do manguezal morreram sem aparente
explicação! Muita gente que dependia da apanha artesanal de
caranguejo sofreu muito nas suas economias domésticas; ninguém
foi compensado por nada.
Mais ainda, têm ocorrido várias violações dos direitos destas
populações, o que tem gerado
[...] conflitos que se expandiram com intensidade pelo litoral
brasileiro, a partir da década de 1990, com a implantação de
fazendas de camarão (carcinicultura) sobre áreas de
preservação permanente e sobre territórios das populações
tradicionais, como pescadores, indígenas e quilombolas. Os
conflitos [têm levado a] agressões, ameaças, crimes ambientais
e, até mesmo, assassinato de pescadores tradicionais, como o
ocorrido em 2005, em Salinas da Margarida.6
Figura 8 – Dendezeiros, piaçaba e canoas, Torrinha, Cairu.
Foto: Mônica Chan.
O vinhático
Na opinião geral dos carpinteiros e negociantes de canoas com
quem tenho feito amizade desde 2006, o vinhático é a madeira certa
para fazer canoas: mole por dentro, rija por fora; muito densa mas
muito leve, a árvore dispõe-se à perfeição para ser escavada (dug-
out). Existem outras madeiras localmente, mas nenhuma delas se
adequa tão bem à função. O vinhático é comum nas velhas
plantações de cacau, que tinham poupado as árvores de copa para
criar sombra que protegesse os arbustos do cacau. Com o colapso
da economia cacaueira, muitos dos latifundiários da região estão a
desmatar as terras e deixam cortar os velhos e gigantescos troncos
de vinhático.
Figura 9 – A madeira fresca do vinhático e a mão do torneador,
Cajaíba.
Foto: Mônica Chan.
Um tronco de cerca de 20 metros dá para fazer três canoas, porque
as popas são encaixadas com as proas através de um corte oblíquo.
A proa da canoa é mais larga que a popa (para dar o formato
aerodinâmico que as caracteriza), por isso fica para baixo no tronco.
As canoas mais comuns têm entre 6 metros e 12 metros de
comprimento. O primeiro corte, no qual se retira o interior mole do
tronco e se dá forma geral à canoa, é feito ainda na mata com
grandes motoserras que são usadas pelos madeireiros com imensa
mestria e muito risco como se fossem instrumentos de esculpir. O
"xaboque" (assim se chama a peça na sua versão mais crua) é
depois "torneado" com machado e enxó já no interior do maguezal.
Mais uma vez, a mestria dos "torneadores" trabalhando com
instrumentos tão singelos é digna da maior admiração e muito
fascínio.
Figura 10 – Sr. Romão e os seus instrumentos, Cajaíba.
Foto: Mônica Chan.
Por ser menos pesada, mais dura e de mais alta resistência ao
ataque de organismos xilófagos, tudo indica que a Plathymenia
reticulata Benth. (FabaceaeMimosoideae, "vinhático-do-campo", "amarelinho", "pau-amarelo" ou "pau-de-canela") é uma espécie
distinta da Plathymenia foliolosa Benth. que ocorre entre o litoral do
Rio de Janeiro e o sul do Estado da Bahia e que também recebe o
nome de vinhático ("vinhático-da-mata", "vinhático-rajado"). 7 Não se
trata também do "vinhático" ou "mogno da Madeira" que se
encontrava nessa ilha atlântica e que era exportado para a
Inglaterra e Portugal (Persea indica Spern), onde se podem apreciar
ainda móveis antigos ditos "de vinhático." Esse último é uma planta
da família do louro, o que curiosamente faz eco com o uso de uma
subespécie de louro para reparar canoas de vinhático na Bahia.
A Plathymenia reticulosa pertence à família das mimosas. Encontra-
se desde o baixo Amazonas até São Paulo, dispersa em bosques
com uma incidência média de mais ou menos três árvores por acre,
sendo "[...] característica de formações abertas de cerrado e de sua
transição para as florestas". (BRAGA et al., 2007, p. 258) A mais
antiga área de ocorrência da espécie é na zona centro-norte do
Estado de Minas Gerais. A sua zona de maior presença hoje,
contudo, é no "cerrado" (savana seca) do sul da Bahia e Espírito
Santo. As folhas são reticuladas e as flores brancas em cacho
surgem entre novembro e dezembro e dão lugar a uma vagem com
sementes castanhas escuras com películas transparentes.
A altura média é entre 6 e 12 metros, mas encontram-se
frequentemente troncos muito mais altos e esguios quando cresce
em bosque. Com a casca faz-se um corante amarelo e da
entrecasca do caule faz-se uma infusão em água fria que se usa
para tratamento de processos inflamatórios. A madeira exterior do
tronco é usada para muitas outras coisas, por ser extremamente
leve, densa e muito resistente. Um carpinteiro de Ituberá, por
exemplo, especializou-se em fazer barris para envelhecer cachaça.
Nos últimos seis anos, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e
Recursos Naturais (Ibama) tem vindo a preocupar-se com o
desmatamento do cerrado, resultante da transformação em pasto
para gado das velhas plantações de cacau. Identificaram-se pelo
menos 50 pontos de desmatamento grave em 14 municípios da Bahia. A Delegacia da Polícia Ambiental de Ilhéus, à pala da Lei de
Crimes Ambientais (Lei 9.605/98), tem apanhado nos últimos anos
alguns carregamentos oriundos dos distritos de Santa Luzia,
Canavieiras, Arataca, Camacã e Una que estavam a ser
transportados para serem trabalhados em locais costeiros onde há
serrarias.
Em 2005-2006, a Polícia Federal realizou operações com a
finalidade de reprimir as serrarias ilegais de vinhático que atuam no
município de Camacã, no sul da Bahia. Foram presos proprietários
das serrarias clandestinas, inclusive um político da região, acusados
de devastar o remanescente da Mata Atlântica. Também foram
realizados em 2007-2008 raids policiais em Jequié, imediatamente
para o interior de Valença onde, ao que tudo indica, se continuam a
fazer os "xaboques" das canoas de vinhático. Segundo a polícia, o
material apreendido durante as rusgas é entregue a instituições de
assistência. Contudo, comentadores em vários blogs têm alertado
para o facto de que também esse material confiscado acaba por se
juntar ao que vai parar às serrarias e estaleiros...8
Em abril 2009, o Ibama de Vitória da Conquista voltou a realizar
uma operação chamada "Top de Morro" em que apreendeu 31.571
metros cúbicos de madeira em pranchas e toras, entre estas
consideráveis quantidades de vinhático. Em setembro 2009, o
escritório regional autuou uma serraria que comercializava madeira
ilegal no bairro Sarinha, em Itabuna.9 O cerco vai-se fechando em
torno aos xaboqueiros e transportadores que, a meio da noite,
deixam nas margens da BA 001 as toras que servem para fazer
canoas.
Uma fidelidade servomecânica
As canoas são instrumentos de mediação com o mundo; são
extensões da mão do homem, potenciações do corpo humano. A
relação entre o canoeiro e a canoa é de enorme proximidade física –
nesse aspecto, a relação é muito semelhante à que um bom cavaleiro tem com o seu cavalo, um condutor de moto com a sua
potente máquina ou um carpinteiro com a sua enxó. O corpo do
canoeiro adapta-se ao instrumento numa continuidade indissolúvel.
Quem aprende em criança a andar em pé nos lados de uma canoa
de fundo redondo nunca mais esquece como é que se faz (ver
Figura 11). Só mesmo de muito jovem se aprendem tais coisas.
Figura 11 – Andar a pé nos bordos da canoa, Cajaíba.
Foto: Mônica Chan.
A canoa, aliás, já é feita tendo em conta essa continuidade. Por
exemplo, note-se a "seta" na frente (a ponta da proa, ver Figura 12).
Trata-se de um instrumento essencial, porque é a partir dele que o
canoeiro se guia para saber como dirigir a canoa, tanto quando vai à
vela (e o remo é usado como leme), como quando é dirigida através
de leves movimentos do remo. Presumindo que se está a remar do
lado direito e na popa, como é hábito, quando queremos que a
canoa vire para a esquerda, faz-se o movimento dito "chamar água"
(ou "chamar"), que significa mover o remo na direcção da canoa;
quando queremos que a canoa vá para a direita, "encosta o remo à
canoa", que significa encostar o remo e puxar para fora e para trás.
O eixo de rotação da canoa é mais à frente do que o lugar do canoeiro que se senta na popa, que é erguida da água. Por isso, o
movimento da proa tem um efeito diferido com o do remo. O
segredo é saber julgar desse desfasamento temporal e espacial por
relação às ondas, ao vento e ao carregamento da canoa, sem
sequer pensar nisso.
Figura 12 – A seta, Torrinha, Cairu.
Foto: Mônica Chan.
A canoa tem que ser servida – o homem está preso a ela por uma
espécie de fidelidade servomecânica. Quem não servir os seus
instrumentos será ferido por eles. A canoa é tanto uma porta para a
vida como para a morte. Conheci um pescador em Torrinha, perto
de Cairu, que tendo carregado a sua canoa com pedra para o chão
da casa que estava a construir, foi apanhado por uma tormenta ao
fim do dia no meio do Canal de Tinharé. A canoa afundou e ele ficou
perdido, certo de que iria morrer. Mas pouco depois, como se lhe
perdoasse, a canoa voltou à tona por ter largado a pedra no fundo.
Já não conseguiu virá-la, mas agarrou-se a ela a noite toda e no dia seguinte alguém o foi procurar. Só por isso está aqui para contar a
história.
Essa fidelidade impõe limites, para o bem e para o mal, que há que
respeitar. Um outro pescador, que conheci em Ponta Grossa, tem
por apelido (port. alcunha) Mero Peixe, porque uma vez vieram à
sua rede tantos meros (que é um peixe valioso) que a canoa teria
afundado se os trouxesse todos. Felizmente soube controlar-se e
trouxe o que pode. Com essa carga, diz ele, pagou logo ali tudo o
que devia aos credores e foi viver para Salvador.
A canoa como medium
Hannah Arendt 10 distingue três aspectos na acção humana: a) um
aspecto poético – isto é, a nossa capacidade para sermos livres,
para agir, para fazer; b) um aspecto formal – que é a nossa
sujeição a coisas e forças que nos são externas; e, finalmente, c)
um aspecto medial – quer dizer, os meios que procuramos para
agir sobre o mundo, para mediar a contradição última entre
liberdade e necessidade.
Não tem sido fácil às ciências sociais do século XX gerir essa aporia
entre livre arbítrio e determinação. Neste ensaio gostaria de alertar o
leitor para a forma como a libertação e potencialização para a acção
que o canoeiro obtém com a sua canoa no interior do manguezal (a
sua disposição poiética, no sentido grego da expressão) é sempre
limitada por factores de natureza formal que o constrangem (tanto
coisas, tais como a disponibilidade ou esgotamento do vinhático;
como forças, tais como armas de fogo, documentos, instituições).
Nesse aspecto, a canoa é um medium (bras. "mídia") – isto é, é uma
potencialização da nossa capacidade de intervenção sobre o
mundo.
O que a canoa enquanto medium nos permite ver é como o aspecto
medial liga o aspecto poético de criação e liberdade com o aspecto
formal de sujeição e constrangimento, sem os negar mutuamente.
Assim, talvez possamos voltar a falar do livre arbítrio dos sujeitos cujas acções descrevemos nos nossos ensaios etnográficos sem
temer estar a negar a sua determinação. O que caracteriza os
media é que o gesto de mediação, uma vez iniciado, ficará para
sempre irreversível, ambíguo e imprevisível – para o bem e para o
mal. Quando eu ajo sobre o mundo, eu sei onde começa a minha
acção, mas nunca sei onde vai parar o nexo causal que ela integra.
Há uma enorme ambiguidade nos media porque eles têm um poder
expansivo. Somos incapazes de determinar plenamente não só as
causas das nossas ações como todos os impactos que estas terão
no mundo. Como dizia Hannah Arendt (1958, p. 233),
[...] a força do processo de acção nunca é exaurida num único
acto mas, pelo contrário, pode crescer enquanto as suas
consequências se multiplicam; estes processos são o que dura
no reino dos assuntos humanos e a sua durabilidade é tão
ilimitada, tão independente da perecibilidade do material e da
mortalidade dos humanos quanto a própria durabilidade da
humanidade. A razão porque nunca somos capazes de prever
com certeza o resultado e fim de uma qualquer acção [que
empreendemos] é simplesmente que a acção não tem fim. O
processo de um simples gesto pode literalmente perdurar no
tempo até que a própria humanidade termine.
A centralidade da canoa para quem vive no e do manguezal
significa que os gestos de mediação que com ela são empreendidos
difundem-se onde poderia parecer que eles já não iriam chegar. Por
exemplo, uma professora de quem me fiz amigo contou-me como,
em criança, os pais tinham sido muito pobres. O pai tinha uma
canoa em Taperoá e ia à pesca. Morreu cedo e a família dissolveu-
se quando a mãe se voltou a casar. Ainda miúda, ela foi levada para
criar em casa de parentes distantes numa cidade. Mas quis explicar-
me do carinho com que sempre se lembra do pai – do qual, aliás,
nem sequer lhe foi dado o sobrenome quando a mãe, muito mais
tarde, a levou ao registo civil. A sua profissão de professora obriga-a
frequentemente a andar por longe de casa e, às vezes, assegurou-
me, quando se sente sozinha, chora pensando no pai.
Uma imagem lhe vem sempre à mente. Em criança, ficava o dia
inteiro a brincar na rua com os irmãozitos, perto de casa, porque
não havia comer. Os dias esticavam-se prevendo a alegria que os
invadiria quando vissem o vulto do pai atravessar o terreiro ao
fundo, com o peixe pendurado num pau (ver Figura 13).
Figura 13 – Pescador leva pescado para casa, Baiacu, Itaparica.
Foto: Mônica Chan.
A canoa tem a ambiguidade dos meios – particularmente dos que
mediam o sustento humano – porque abre caminhos cujo fim nunca
se pode saber. A canoa liga as pessoas ao mundo, por isso também
liga pessoas. A mediação reflecte-se sem fim, não só nas coisas
como nas pessoas. E, na mesma medida em que o resultado da
acção sobre o mundo não é previsível, também não é quando se
reflecte sobre pessoas.
Canoas e relações familiares Ora, as diferenças entre os seres humanos, tais como as suas
interdependências, são inscritas no mundo através dos meios
(media). O mundo devolve às pessoas os parâmetros das suas
identidades por virtude da própria ambiguidade deles. Um dos
exemplos de como tal ocorre mais importantes para a humanidade é
seguramente através da assimetria de género. (PINA-CABRAL,
2003, p. 53-88)
Como vimos no exemplo anterior, o género estrutura a apropriação
do mundo por relação à fertilidade humana. Tal foi-nos explícita e
repetidamente lembrado pelas pessoas com quem falamos sobre
canoas no manguezal. Tanto homens como mulheres usam canoas,
mas o cuidar de canoas é "coisa de homens". Um homem tem honra
na sua canoa; trabalha no melhoramento da sua canoa; investe o
seu salário eventual na compra de uma canoa através de um
negociante a quem paga um tanto de início para obter o seu uso e
vai posteriormente pagando juros. Pelo contrário, as mulheres usam
as canoas às quais conseguem ter acesso sem grande empenho no
objecto em si; ajudam os homens no trabalho de cuidar das redes
ou das armadilhas, na medida em que tal não conflitue com as suas
actividades domésticas; vendem o peixe que os homens pescam
por forma poderem a depois beneficiar dos rendimentos. De facto,
como diziam as pessoas: "Eles são pescadores; elas são
marisqueiras". Até porque normalmente se desenvolvem mais perto
de casa, as actividades produtivas das mulheres são, nessa medida,
menos mediadas por canoas e, por isso, menos marcadas por elas.
Figura 14 – Mulher limpa ostras que acabou de trazer do seu
viveiro, Ponta Grossa, Itaparica.
Foto: Mônica Chan.
A relação entre canoa, sustento e relações humanas é
profundamente diferente no caso de uma mulher, que tem filhos, e
no caso de um homem que, num contexto cultural como este em
que a família é fortemente matrifocal, assegura a sua relação com a
família predominantemente através do sustento. Com uma canoa,
um homem pode dar de comer a outras pessoas e, dessa forma,
assegurar-se da continuidade da relação de amor que tem com elas.
Ter uma canoa permite ter uma mulher, filhos e netos – pessoas que
me ouvem, me respeitam, me confortam. A sociabilidade diurna dos
amigos e vizinhos tem por pano de fundo a incompletude de todos
precisarem de um lugar para onde ir ao fim do dia.
Figura 15 – Homens tratam das canoas ao fim da tarde, Cajaíba.
Foto: Mônica Chan.
Assim, para um homem, a canoa é a esperança de transformar em
coisas e pessoas a liberdade de fazer; coisas e pessoas que,
passando a não ser eu, se reflectem, porém, sobre mim: comida que
dá vida a outros; casa que nos protege; uma televisão; uma viagem
de ónibus para levar uma criança a um hospital; o relógio do avô
que a miudita tantas vezes pede para usar (Figura 16).
Figura 16 – O pai, o filho, a neta e o relógio, Cajaíba.
Foto: Mônica Chan.
No manguezal, com uma canoa, um facão e pouco mais, eu posso
montar armadilhas para peixe que os outros saberão serem meus e
respeitarão; posso cultivar pequenos terrenos alagadiços, que os
outros respeitarão como meus; posso montar viveiros; posso até
fazer uma casa de supapo – sabendo bem que estarei sujeito um
dia a que uma tormenta maior a leve. O próprio manguezal
responde ao meu gesto poético, ao meu poder criativo na medida
em que eu souber utilizá-lo bem. Por isso, até, o amor que um
homem tem à sua canoa ou a companhia constante que mantém
com o seu facão, são mais do que simples actos produtivos. São
disposições que reflectem, inopinadamente, os sentimentos de amor
e dependência que estes meios possibilitam.
A canoa prolonga-se nas armadilhas de verga que o meu filho faz;
no marisco que a minha mulher pega na maré baixa; no dinheiro
resultante da venda do produto; na secagem do camarão; no
cozinhar da comida; no dar à luz filhos que virão a ser meus na
medida em que, com a canoa, eu lhes possa dar de comer.
O preço da canoa Mas tenho que pagar a canoa. A evolução dos preços das canoas
acompanha a evolução dos outros preços todos, num nexo local
segundo o qual, sendo o capital escasso, o trabalho nunca chega
para pagar o que é devido. Assim, por exemplo, quando pedia aos
pescadores para me venderem o seu peixe, explicavam-me que não
era possível; já estava apalavrado. Ainda antes de ser pescado, o
peixe já pertence ao credor. Não estou a falar de capitalistas e
banqueiros, note-se, mas sim de pequenos negociantes locais,
vizinhos que tiveram melhor sorte na cidade, patronos em lojas em
mercado próximo.
Em Baiacu, o comerciante local era o dono da maior parte das
canoas. E, para que não se enganasse, acabou por decidir pintá-las
todas da mesma cor de abóbora – um rosa alaranjado que também
coloria as portas dos barracões onde mantinha as alfaias de pesca
que também possuía por virtude de emprestar bens alimentares e
pequenos objectos de consumo a quem, nesse momento, já não
tinha dinheiro com que pagar os juros. A partir desse dia, a pessoa
em causa ficaria obrigada a verter para ele a parte principal da sua
produção – depois de retirado o quinhão para alimentar a família.
Figura 17 – Canoa do comerciante, Baiacu.
Foto: Mônica Chan.
Por isso, apesar da sua vida activa ser em média superior à de um
homem, as canoas são efémeras, fugidias, ambíguas: estão constantemente a mudar de mão e muito raramente chegam a ser
totalmente pagas. Num momento, elas oferecem liberdade ao
pescador mas, porque urge pagá-las, logo a seguir também a
coarctam. Mais cedo ou mais tarde, um homem jovem desespera e
acaba por ver-se compelido a entregar a canoa ao comerciante em
paga do que ainda deve e ir para a cidade à procura de emprego
assalariado. Pior que tudo é deixar de pagar os juros, porque aí os
homens do comerciante vêm buscar-lhe a canoa e ele perde tudo o
que por ela já pagou.
Figura 18 – Canoas à espera de revenda, Cajaíba.
Foto: Mônica Chan.
O que nos fascina nas canoas é o "elemento poético" – isto é, os
dotes artísticos e técnicos dos homens; mas finalmente o que se
impõe quando começamos a entender melhor é o rigor do "elemento
formal" – isto é, o dinheiro e as coisas que com ele se compram não
são dispensáveis para ninguém e acabam por ser perigosas… Nas
cidades, a subsistência depende do acesso ao dinheiro – por pouco
que seja – e isso depende do acesso ao trabalho remunerado. No manguezal, parte da subsistência está assegurada. Isso constitui
uma margem de liberdade; uma forma de respirar fundo para quem,
de outra forma, se vê obrigado a depender do cativeiro que é o
trabalho assalariado não qualificado.
Contudo, perguntemo-nos: o que é a "subsistência"? E logo
respondemos: os meios que permitem a vida. E onde estão os
limites desses meios? E logo respondemos: como todas as
mediações, esta é vaga e alastra-se. Mas será que é possível
subsistir sem qualquer acesso a bens de consumo mediados por
dinheiro? Resposta: não, é impossível!
Num muro de uma casa de supapo, construída como quase todas
as casas de Graciosa ou Baiacu entre a sebe do senhor da terra e a
BA 001 ou entre a BA 001 e a linha de água da maré alta no
manguezal, podemos ver os objectos que alguém necessita para
viver: um bilhete de ónibus, um relógio, uma máquina de barbear,
um copo de alumínio… (Figura 19). Por mais sóbrio que se seja,
quem pode hoje em dia escapar ao consumo?
Figura 19 – Muro de casa de supapo, Graciosa, Taperoá.
Foto: Mônica Chan.
Mais cedo ou mais tarde o dinheiro impõe-se por via do desejo de
melhorar as condições de vida. A sujeição ao poder formal do
capitalismo está inscrita tanto nas emoções e desejos das pessoas
como nas qualidades intrínsecas dos bens tecnicamente produzidos
– aspirinas, redes, motores, desinfectantes, programas de televisão,
tomates… etc. A modernidade é inescapável e irreversível – pelo
que a entrada no mundo capitalista é também irreversível.
Conclusão: subsistência, consumo e liberdade
Em que sentido, portanto, é isto tudo uma economia informal? Num
certo sentido burocrático há, de facto, uma ténue fuga ao controle
do aparelho administrativo estatal por parte de quem obtém o seu
principal sustento por meio de uma canoa no manguezal. Mas se nos perguntarmos que é que permite essa fuga, logo veremos que é
o facto do manguesal ser um bem público.
O conceito legal de "terra devoluta" é uma ficção perigosa de um
ponto de vista humano. Há muitos e muitos milénios que nenhuma
terra da costa brasileira esteve longe de olho de gente. Na costa do
Baixo Sul, o manguezal é um bem público e é essa disponibilidade
que permite ao pescador encontrar uma janela de liberdade para
fugir momentaneamente ao poder formal avassalador do capital – as
canoas são os meios para captar essa liberdade, esse acto poético,
no sentido que dá Hannah Arendt à expressão.
Em conclusão, por estranho que pareça, é o Estado brasileiro que
abre a porta de fuga por onde passam as canoas de vinhático; que
permitem uma margem de negociação perante o poder do capital ao
pescador e à marisqueira; o que garante alguma liberdade face ao
"cativeiro" da fome. A sociedade e a economia brasileira estão a
alterar-se vertiginosamente; o Estado brasileiro tem vindo a
conseguir mediar algumas soluções de redução da opressão dos
descapitalizados – a polícia, o Ibama, os mass media, as ONGs vão
fazendo o seu trabalho de pacificação face à violência dos
poderosos.
Sem dúvida que as novas dinâmicas sociais que surgirão no futuro
conterão em si sempre uma abertura à liberdade do aspecto poético
tanto quanto uma submissão ao aspecto formal da acção humana.
Para quem aprendeu a apreciar o valor, a destreza e a inteligência
do canoeiro, só resta esperar que os factores de liberdade possam
impor-se numa sociedade onde, até hoje, os factores de
constrangimento (o "cativeiro", como dizem as pessoas locais) têm
sido tão violentos.
Num passado, poetas houve que cantaram as jangadas – hoje, é
difícil vê-las, se bem que ainda se vislumbrem aqui e ali numa
qualquer praia distante; novelistas houve que souberam cantar
maravilhosamente os saveiros bahianos – hoje não mais que
veículos para turistas. Com certeza que as belíssimas canoas de
vinhático, feitas dessa madeira misteriosamente (quase contraditoriamente) leve e dura, com as suas formas aerodinâmicas
produzidas sem copyright por um designer colectivo multissecular,
virão a dar lugar a outras embarcações.
Algumas das presentes portas de liberdade fecharão; mas outras,
sem dúvida, se abrirão. A própria contraditoriedade intrínseca às
instituições – neste caso, o Estado brasileiro que tanto apoia o
gigantismo da carcinicultura como protege quem protege o pescador
dos abusos dos poderosos – permitirá que essas portas se abram.
Referências
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precedido de Balinese character (re)visitado. Campinas: Unicamp;
São Paulo: Imprensa Oficial do Estado, 2004.
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1965.
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ROBBEN, Antonius C.G. Sons of the Seas Goddess: economic
practice and discursive conflict in Brazil. New York: Columbia
University, 1989.
SEMINÁRIO DE PATRIMÓNIO NAVAL BRASILEIRO, 1., 2005, São
Francisco do Sul. [Anais...] São Francisco do Sul, SC: Museu
Nacional do Mar: Fundação Biblioteca Nacional, 2005.
1 Estou profundamente agradecido a Mónica Chan, pela maioria das
fotos e a partilha do olhar; Manuel Ribeiro do Rosário e Minnie Freudenthal, por algumas das fotos e algo do olhar; Edilson Teixeira,
Cecilia McCallum, Clarisse Teixeira e Guido Magalhães, pela
companhia e o compadrio; Carlos Caroso e Pedro Agostinho da
Silva, pelo apoio entusiasta; Sr. Romão (Cajaíba) e Sr. Otávio
(Baiacu), pela inspiração das suas mãos e a candura da sua
presença.
2 Entre muitas outras referências possíveis, por exemplo: Oliveira e
Pereira (1982), Oliveira, Pereira e Galhano (1965, 1988) e Pereira
(1973, 1977).
3 A bibliografia existente sobre o tema é rara e dispersa. Chamo a
atenção para as obras Archenave (1990) e Seminário de Património
Naval Brasileiro (2005) onde se reúne alguma informação sobre
embarcações artesanais no Brasil. O mais valioso estudo
antropológico sobre canoas e pescadores e suas formas de vida no
Nordeste brasileiro continua a ser Robben (1989), uma obra que
merecia maior destaque do que tem recebido.
4 Em Portugal dizemos "piroga", palavra originária do caribe insular
que nos chega através da influência espanhola. Em inglês diz-se
dug-out canoe, o que é um termo em muitos aspectos mais
descritivo.
5 Valença da Bahia Maricultura, parte do gigantesco grupo MPE S.A.
Disponível em: <http://www.grupompe.com/valencamaricultura.htm>.
6 Disponível em: <
http://www.terramar.org.br/oktiva.net/1320/nota/108933>.
7 Disponível em :
<http://forum.cifraclub.terra.com.br/forum/3/69361/p3>.
8 Disponível em :
<http://www.dpf.gov.br/DCS/noticias/2006/Agosto/28082006_opera%
E7aoBA.htm>.
9 Disponível em :
<http://www.nucleodenoticias.com.br/2009/04/04/operacao-topo-de-
morro-acao-conjunta-do-ibama-policia-civil-de-itapetinga-e-
macarani-ba>.
10 Inspiro-me aqui na leitura feita por Dominique Boyer (2007), no
seu ensaio Understanding Media: a popular philosophy, cuja
sugestão agradeço.