Baía de Todos os Santos: aspectos humanos

Carlos Caroso · Capítulo 7 de 23 · parte 1/4

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Baía de Todos os Santos: aspectos humanos

A defesa da Baía de Todos os Santos

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

 

Mário Mendonça de Oliveira

 

Observa-se pelas descrições dos cronistas antigos, entre eles

Gabriel Soares, que quando se fazia referência à Baía de Todos os

Santos, a descrição iniciava-se sempre pela Ponta do Padrão ou de

Santo Antônio da Barra e terminava no arquipélago de Tinharé:

 

[...] E tornando à Ponta do Padrão dela que está em altura de

treze graus esforçados, diremos que desta ponta à do Morro de

São Paulo, na Ilha de Tinharé, são nove léguas ou dez, a qual

ponta está em treze graus e meio e corre-se com a ponta do

Padrão nordeste-sudoeste. (SOUSA, 1989, p. 33)

 

E mais adiante do seu relato afirma textualmente: "[...] a baía se

estende da ponta do Padrão ao morro de Tinharé." (SOUSA, 1989,

p. 86)1 Ao observarmos, porém, a carta náutica da Baía de Todos

os Santos fica claro que, a rigor, o limite da famosa baía estaria na

Ponta dos Garcez, na foz do rio Jaguaribe, tangenciando o extremo

meridional da ilha de Itaparica, onde muitos geógrafos apontam o

limite das terras do Recôncavo.

 

Acontece que, do ponto de vista defensivo, em relação à antiga

capital do Brasil, como também do ponto de vista logístico, isto é,

em relação ao seu abastecimento, o arquipélago de Tinharé não

poderia ficar de fora das nossas reflexões. Acresce-se a isto o fato

de que existe uma passagem entre este conjunto de ilhas e o

continente, conhecida como "barra falsa", que tem início na Ponta

do Carvalho, através da qual a maioria das naves de outros tempos

poderia se esgueirar, entrando em seguida na baía propriamente

dita, por detrás da ilha de Itaparica. Conclui-se então que a defesa

da Baía de Todos os Santos principiava pelo conjunto fortificado do

Morro de São Paulo.

Falar, porém, em defesa dessa imensa baía é uma tarefa

controversa e de certa forma ingrata, pois, no fim do discurso vai

pairar sempre a dúvida se uma baía de tamanho tão dilatado e com

expressiva abertura da sua barra seria realmente defensável, pois,

como diziam os antigos, ela "[...] poderia abrigar todas as esquadras

do mundo." (OLIVEIRA, 2004, p. 56) Não obstante isso, sempre foi

motivo de admiração a sua beleza e vastidão, como explicita Gabriel

Soares na sua Notícia: "[...] porque é a maior e mais formosa que se

sabe pelo mundo, assim em grandeza como em fertilidade e

riqueza". (SOUSA, 1989, p. 86) Diogo Moreno, em relatório datado

de 1609, afirma, no mesmo diapasão: "[...] a grandeza desta bahia a

sua fermozura e o sitio notável a fas ser a melhor do mundo." 2

Vamos, assim, iniciar a nossa argumentação pelas dificuldades de

barrar os invasores na sua entrada.

 

A história da defesa da Baía de Todos os Santos e da Cidade do

Salvador, primeira capital da América Portuguesa, tem início, de

forma muito incipiente, no período das capitanias donatárias,

instituídas por D. João III de Portugal (1534). Este sistema tinha sido

a solução encontrada pelo monarca lusitano diante da magnitude

dos problemas encontrados pela expedição de Martim Afonso de

Sousa (1530). Mas o passar do tempo vai mostrar que a forma de

colonização escolhida, capaz de dar certo nos Açores, estava

fadada ao insucesso, diante da escala de um imenso território, com

costa de quase 9.000 km voltada para um oceano aberto e com

primitivos habitantes no continente.

 

Francisco Pereira Coutinho, filho do Alcaide de Santarém, recebe

naquela época uma capitania, situada na Baía de Todos os Santos

(Figura 1), e, ao se estabelecer como donatário nas terras

brasileiras da Bahia, formou, em 1536, o povoado, que veio a ser

conhecido como Vila Velha ou Vila do Pereira. Este povoado foi

localizado em eminência contígua à pequena enseada (Porto da

Barra), de fácil embarque (Figura 2), nas proximidades da entrada

da dita baía. Como defesa, edificou aquilo que estava dentro das

suas possibilidades: "Poz a vila no melhor assento que achou, em

que tem feito casas para cem moradores e tranqueiras de redor e

uma 3 torre já no primeiro sobrado." (SAMPAIO, 1937, p. 168) Esta

torre era de taipa de pilão, à semelhança de outras sedes de

capitanias e feitorias, porque, quando foi fundada a Cidade do

Salvador, em 1549, para ser a "Cabeça do Brasil", esta taipa já

necessitava de reparos, conforme provisão da época, em favor do

taipeiro Balthazar Fernandes, por ter reconstruído 31 braças [68,2

m] da sua taipa. (BIBLIOTECA NACIONAL, 1929, p. 252) A história

iria demonstrar que as tradições combativas dos coutinhos não

seriam suficientes para o sucesso da capitania, porque "[...] ao bom

êxito de semelhante projeto eram indispensáveis outras qualidades

além das de guerreiro." (JOHNSON; SILVA, 1992, p. 125)

Indispondo-se com os índios, depois de tumultuada administração,

acabou sendo por eles aprisionado e devorado em ritual

antropofágico. Assim, a torre da Vila Velha foi a primeira defesa

costeira do local, nas vizinhanças da entrada da Baía de Todos os

Santos (Figura 2).

Figura 1 – Carta náutica da Baía de Todos os Santos.

 

Fonte: Marinha do Brasil – Levantamento 1977/1978.

Figura 2 – Carta topográfica da Barra, a partir do moderno

levantamento cadastral da cidade.

Autor: Mário Mendonça.

 

A Vila Velha, como núcleo de povoação, continuou habitada por

aqueles que conseguiram viver em paz com os autóctones e sua

posição seria, posteriormente, de alguma ajuda para a defesa do

Porto da Barra (Figura 2), como nos faz supor Aldenburgo, cronista

da invasão holandesa de 1624. (ALDENBURG, 1961, p. 173)4

 

Mais tarde (1549), quando a Cidade do Salvador foi fundada para

ser a capital do Brasil, em virtude da mudança de rumos imposta à

colonização, as fortificações levantadas, além do muro de taipa

abaluartado, construído pelo mestre Luís Dias, não passavam de

pequenas baterias destinadas a defender o porto da cidade. Pelo

que se pode deduzir da correspondência do construtor das defesas,

a maior preocupação era com os índios e não com os ataques

vindos do mar. Esta situação iria modificar-se, no fim do século XVI,

quando incursões de piratas e corsários, principalmente franceses,

ingleses e holandeses, começaram a assediar a nova capital e a

Baía de Todos os Santos, principalmente as terras do seu

Recôncavo, nas quais a produção de açúcar começa a ser

significativa.

 

Não obstante o Regimento de Almerim, entregue a Tomé de Souza,

estabelecer que cada beneficiário das terras vizinhas à nova capital

deveria organizar a sua defesa, construindo, inclusive uma torre, a

primeira tentativa de fazer um sistema de proteção costeira para a

"Cidade da Baía", partindo da barra da Baía de Todos os Santos, só

tem início no período filipino. Foram fortins ou torres que devem ter

sido levantados no governo de D. Francisco de Sousa (1591-1602),

possivelmente pelo seu engenheiro militar Baccio de Philicaia.

Estas, porém, eram de eficácia muito duvidosa, em vista do

tamanho da baía e da distância entre as fortificações. Diz o cronista

Frei Vicente do Salvador (1975, p. 261) que elas eram três ou quatro

e, pelo que sabemos atualmente, o número quatro seria o justo.

Eram elas as torres de Santo Antônio, na Ponta do Padrão, entrada

da baía (Figura 2), a torre de Santo Alberto, reforçando as antigas defesas do porto da cidade, a torre de Santiago, em Água de

Meninos, e, finalmente, o Castelo de São Felipe, na ponta de

Itapagipe. Algumas destas fortalezas costeiras mudaram de nome,

com o passar dos anos, principalmente após a Restauração da

Coroa Portuguesa, em 1640, quando as invocações de inspiração

espanhola foram substituídas. A torre de Santiago passou a se

chamar Fortim de Santo Alberto (o velho Santo Alberto desapareceu

com o crescimento da cidade) e o Castelo de São Felipe passou a

ser Fortim de Nossa Senhora de Monserrate (se é que foi realmente

mudado o seu orago oficial).

 

As fortificações de defesa da Barra

 

Como preliminar ao discurso sobre a defesa da nossa Baía, faz-se

necessário examinar o sistema que estava diretamente relacionado

com a proteção da barra da Baía de Todos os Santos. Aos que se

interessarem pela defesa da Cidade do Salvador, inclusive as

fortificações internas, recomendamos consulta ao texto de Oliveira

(2004): "As fortificações de Salvador quando Cabeça do Brasil", no

qual tratamos especificamente da defesa da cidade.

 

É praticamente consenso dos especialistas que opinaram sobre a

defesa de Salvador, que as possíveis rotas de invasão de potencial

inimigo apontariam, quase sempre, dois vetores prováveis de

progressão das tropas hostis, com algumas variantes. Um pelo

Norte, com a penetração da esquadra de desembarque através da

nossa Baía, aproveitando a sua largura e a incapacidade do Forte

de Santo Antônio da Ponta do Padrão de fazer qualquer dano às

naus que passavam ao largo. Lançavam-se, em seguida, tropas na

região do Recôncavo, na parte vizinha ao objetivo, como fizera

Maurício de Nassau em 1638, progredindo em direção à cidade,

pela Estrada das Boiadas. Outra forma era o desembarque pelo

Sul, como os mesmos holandeses fizeram em 1624, lançando as

suas tropas no atual Porto da Barra e fazendo aproche para assalto

da cidade pela Estrada da Vila Velha. Havia alternativas de

desembarque, mais além, em diversos locais entre o Rio Vermelho e

Itapoã.

Tal raciocínio vai ser sempre o norteador dos especialistas, que

proporão planos de defesa para a Cabeça do Brasil. No caso

específico das defesas da barra que poderiam, eventualmente, se

tornar ponto de desembarque de um ataque pelo Sul, nasceram as

fortificações seguintes para defendê-la (Figura 2):

 

O Forte de Santo Antônio da Barra

 

Nenhuma das outras fortificações da velha capital do Brasil sofreu

tantas metamorfoses durante os seus mais de quatrocentos anos de

existência (Figuras 4, 5, 6 e 7). Sobre ele, muita gente já escreveu e

por isso vamos só adicionar informações complementares e

eventuais discordâncias do que já foi afirmado, tomando como base

a lógica defensiva e a opinião dos especialistas da época.

 

Figura 3 – Carta da Baía de Todos os Santos com as quatro plantas

dos fortes primitivos.

 

Fonte: Cartografia de Albernaz.

Figura 4 − Particular de cartografia de Albernaz, mostra o primitivo

Forte de Santo Antônio da Barra.

 

Fonte: Cartografia de Albernaz.

 

Figura 5 − Iconografia do relatório de Diogo Moreno, datando de

1609 (ANTT ).

 

Fonte: Fac-símile do autor.

Figura 6 – Planta do Forte de Santo Antônio da Barra,

levantamento do Capitão José Antônio Caldas.

 

Fonte: Levantamento do Cap. José Antônio Caldas.

Figura 7 – Fotografia aérea atual do Forte de Santo Antônio da

Barra (Foto de Nilton Sousa)

 

Fonte: Nilton Sousa.

 

Mesmo que os historiadores, normalmente, não afirmem com

exatidão as origens desta fortaleza, encontramos notícia, muito

antiga, sobre a sua construção em um códice do Arquivo

Ultramarino 5, que transcreve alvará de 21 de maio de 1598, através

do qual foi nomeado "Bastião" [Sebastião] de Brito Correia

comandante do Forte de Santo Antônio, "que esta comesado na

barra daquela Cidade". Esta deve ser a versão que sucedeu à torre

de taipa, segundo o Livro Velho do Tombo do Mosteiro de S. Bento.

(CONGREGAÇÃO BENEDITINA DE SALVADOR, 1945)6 Assim

sendo, é aceitável a afirmação de Silva Campos de que o primeiro

forte foi obra do governo de Manoel Teles Barreto (1583-1587), ou

seja, a torre octogonal (Figura 4).

 

Como acontecia com as fortificações daquele tempo, deve ter

nascido em forma de torre, conforme representa o cartógrafo

Albernaz em carta da Baía de Todos os Santos (Figura 3). Estas representações não devem ser aleatórias ou fantasiosas, porque

existe escala gráfica nos desenhos e as outras três fortificações

representadas, referentes aos redutos de Santo Alberto, ao Fortinho

de Monserrate e à Torre de São Tiago de Água de Meninos, podem

ser confirmadas ou porque ainda existem, como o do Monserrate,

ou através de outras iconografias. Pela escala gráfica representada,

podemos avaliar a dimensão dos eixos do octógono regular

representado como de cerca de 120 palmos [~26 m]. À semelhança

do antigo reduto de Santo Alberto, da Torre de Água de Meninos e

do Castelo de S. Felipe, hoje Nossa Senhora de Monserrate, tinha

entrada alta, com escada e ponte levadiça, o que indica uma

solução tipológica da época. Na qualidade de torre octogonal, a

construção primitiva do Forte de S. Antônio, vista de longe, poderia

ser representada como se fosse uma torre cilíndrica. (OLIVEIRA,

2004, p. 184) O Forte do Picão na Barra do Porto do Recife, hoje

desaparecido, tinha forma semelhante.

 

O problema é que, neste caso específico, as formas utilizadas como

decoração de cartografia podem não ser contemporâneas da planta

cartográfica, nem de Albernaz, mas situações mais antigas das

fortalezas copiadas de outras estampas. A nossa desconfiança

reside na iconografia deixada no relatório de Diogo Moreno, que

data de 1609, onde, além do desenho, diz, quando se refere ao

Fortim de Monserrate, "[...] forte de pedra e cal da mesma traça de

S. Ant.º [...]" 7 (Figura 5). Consideramos que o testemunho de Diogo

Moreno é precioso, porque era militar e estava encarregado de

inspecionar as defesas da nossa costa, o que quer dizer que

entendia de fortificações.

 

No caso do desenho de Moreno (Figura 5), não temos mais

octógono, porém um hexágono que, realmente, se assemelha ao

Fortim de Monserrate (antigo Castelo de S. Felipe) sem as torres. A

entrada permanece alta e com ponte levadiça, mas as torres de

proteção do acesso ao perímetro interno situam-se pela parte

externa da cortina. Os parapeitos são dotados de canhoneiras,

embora poucas. A julgar pela artilharia que nos foi relacionada no

Livro da Razão, com quatro peças no total, esta segunda versão, mesmo edificada de maneira mais duradoura, em pedra e cal,

deveria ser, igualmente, de modestas proporções: "[...] Um canhão

de bronze de trinta e oito quintais; joga vinte e quatro libras de bala.

Dois sacres ou meias-esperas de bronze, de dezoito quintais; jogam

dez libras de bala. Um falcão de dado, de seis quintais [...]".

(MORENO, 1955, p. 144) O perímetro de cortinas da versão do fim

do século XVII (Figura 6) tinha, segundo a relação do Capitão José

Antônio Caldas, do meado do século XVIII, dezesseis peças de

diferentes calibres (CALDAS, 1951, p. 354), compatíveis com a sua

linha de fogo ampliada.

 

Alguns historiadores querem atribuir importância tática e estratégica

a este fotogênico e elegante propugnáculo, mas não nos podemos

deixar contagiar pela empolgação, diante da frieza dos fatos e da

realidade da situação. Desde o início do século XVII, Moreno dizia a

seu respeito que, por aquela parte,

 

[...] entran e saien cada dia naos armadas de corsarios sem q'

artilharia que aqui esta lhe faça dano, e inda que tenha

colubrinas de sessenta quintais "nunca totalmente poderá

defender a barra".8

 

E, logo mais adiante, o considera como adorno da barra e nisto

todos estamos concordes. Realmente, se considerarmos o que

Azevedo Fortes estabelece como alcance da artilharia do século

XVIII, um dos canhões mais potentes, a colubrina dupla ou

dragão, tinha uma alcance máximo de 2.705 braças [5.951m].

Quando a peça estava apontada pelo nível do seu metal, o

alcance era de 456 braças [1.003m] e quando no nível da sua

alma, 227 braças [499m]. Quem conhece qualquer rudimento de

balística sabe que o tiro no alcance máximo de uma arma (45o) tem

eficácia praticamente nula e, com o armamento da época, pior

ainda. Os tipos de tiros feitos a partir do raso dos metais até a

elevação de 45 gráos; e estes tiros, chamão "tiros por cima da

pontaria". A perda de eficácia vai aumentando à medida que o

ângulo se aproxima de 45o, destacando também o fato das naves

da época não serem muito grandes e estarem em movimento.

Assim sendo, os quase 10 km que separam a ilha de Itaparica do

Forte de Santo Antônio inviabilizavam qualquer defesa da barra da

Baía de Todos os Santos (Figuras 1 e 2). Além do mais, a eficiência

dos nossos bombardeiros e condestáveis sempre foi posta em

dúvida. Um dos motivos era o treinamento com tiro real, porque se

vivia, sempre, em constante economia de pólvora. Bernardo

Ravasco Vieira, conhecedor da nossa realidade, crítico costumeiro

das nossas fortalezas e tropas de defesa, nos informa das

carências, em 1692:

 

[...] a Praça sem Engenheyro, nem quem sayba usar de dous

Trabucos, q' nella há, nem off.es de Artilharia, ou Artilheyros q'

o q' sabem ser, de q' hé bastante prova, não acestar algum [tiro]

em hu'a Nau, q' ardendo, se mandou meter a pique, fazendo lhe

a pontaria os mais destros.9

 

A realidade é que nenhum especialista considerava de grande valor

estratégico nem tático a Fortaleza de Santo Antônio da Barra para

impedir qualquer acesso à majestosa baía. Diogo Moreno é mais do

que claro, quando afirma:

 

Por muitas vezes se tem advertido à Sua Majestade que os

Fortes de Santo Antônio, de Itapagipe e de Água de Meninos,

que se assinalam à fol. 18 nos pontos AA e no ponto BB e CC,

"não são de nenhum efeito, assim por que não defendem

nada", como pelo grande risco com que se sustentam por sua

"fraqueza e má traça" [...]. (MORENO, 1955, p. 143, grifo

nosso)

 

Também o já citado Bernardo Vieira Ravasco, Secretário de Estado

e de Guerra e antigo militar, dizia em seu relatório de 11 de

setembro de 1660: Estes três fortes [referia-se aos fortes de Santo

Antônio, Santa Maria e São Diogo], "por estarem quazy juntos, e

'nam serem de utilidade algua' a quem nelles asiste [...]"10 Mesmo

após as reformas substanciais do fim do século XVII, que

aumentaram, de muito, a sua capacidade de fogo, o prestígio do

Forte de Santo Antônio da Barra não cresceu, pois o mestre de campo, engenheiro Miguel Pereira da Costa, no início do século

XVIII, foi também bastante enfático no seu parecer:

 

No q respeita a fortes da marinha, o pr.o entrando p.a esta B.a

he o de S. An.to da barra (nomeandoos com o cumum,

impropriam.te por fortes) em figura de dés lados,

irregularissimo, com seis angulos salientes e quatro reintrantes,

sem baluarte algum, nem caza capás p.a polvora; este forte

está dominado de hum grd.e padrasto q' lhe fica superior a tiro

de espingarda do qual se descobre toda a ária do d.o forte e

como aquelle se pode subir sem impidimento, por varias partes,

ocupado este pelo inim.o, fica o d.o forte inutil; porq os

artelheiros, e os defensores não poderão aturar o fogo inimigo:

tambem não tem cisterna p.a a agoa e lhe fica distante a de q'

gastão.11

 

É de se notar que, não obstante já apresentar a fortificação a sua

forma atual, bem mais desenvolvida, não merecia crédito e o

padrasto ao qual fazia referência é o Morro do Gavazza (ver

localização na Figura 2). A opinião sobre a limitação do Forte de

Santo Antônio da Barra é compartilhada, até mesmo, por leigos,

como Frei Vicente do Salvador, ao declarar que ele e o de S. Felipe

(Monserrate) "[...] são mais para terror que para efeito."

(SALVADOR, 1975, p. 311)

 

As melhorias do novo projeto não vieram resolver o problema da

eficiência estratégica da fortaleza, porque não contribuíam para

barrar as invasões da cidade pelo sul, nem tinham capacidade para

sequer hostilizar os inimigos que entravam baía adentro. Do ponto

de vista tático, embora o perímetro de fogo fosse aumentado, os

ângulos reentrantes só ensejavam um flanqueamento muito precário

para a defesa de suas cortinas (Figura 7).

 

Não podemos, porém, desconhecer, na nossa fortificação, a função

de vigia da barra da Baía de Todos os Santos, para o que tinha

posição privilegiada, como aconteceu desde os primeiros tempos da

Ponta do Padrão12, assinalando as embarcações que viessem do norte à procura de suas águas. São vários os documentos que

falam dos sinais com fogos, que percorriam toda a costa, desde a

Casa da Torre de Tatuapara (cerca de 80 km ao Norte de Salvador)

à Ponta do Padrão (entrada da barra), avisando da aproximação de

navios, assim como os disparos que eram feitos de fortaleza a

fortaleza, indicando mais de quatro naves que entrassem pela barra

da baía. 13 Esta função valeu ao nosso propugnáculo a alcunha de

Vigia da Barra. O farol que instalaram, ainda no século XVII, para

proteção dos navegantes contra os escolhos e baixios daquela zona

do mar, demonstra que, mais do que a sua função bélica, sempre

posta em dúvida, poderia ostentar aquela da segurança da

navegação e da vigilância. Para isto, no fim do século XVII, foi

instalada uma torre-farol de base quadrada, que, por muito tempo,

sobreviveu (Figura 6).

 

A feição que temos, atualmente, (Figura 7) é, em grande parte,

aquela que tinha nos finais do século XVII, exceção feita à

ampliação da área coberta no terrapleno. A torre do farol, de forma

cilíndrica, é do século XIX, pois Vilhena14 ainda a representava

quadrada, no fim do século anterior.

 

Reforço das defesas do Porto da Barra – Fortins

 

de S. Maria e São Diogo

 

Com a Cidade do Salvador ocupada e saqueada pelos holandeses,

entre 1624 e 1625, cuida a Coroa ibérica de mandar, urgentemente,

reforçar as fortificações da Cabeça do Brasil. Com efeito,

aproveitando, inclusive, as defesas deixadas pelos holandeses, que

bateram em retirada, os portugueses trataram de reforçar a proteção

da sua capital de além-mar. Um dos locais escolhidos foi o Porto da

Barra, onde os batavos tinham desembarcado com toda a facilidade.

É a partir deste momento que nascem os fortins de Santa Maria

(Figuras 8 e 9) e de S. Diogo, que passam, desde então, a ser

referidos nas relações das nossas fortalezas.

Figura 8 – Planta e elevação do Forte de Santa Maria.

Levantamento cadastral recente.

 

Fonte: Projeto de restauro.

 

Figura 9 − Vista aérea do Forte de S. Maria.

 

Foto: Nilton Sousa.

Há enorme confusão entre os historiadores, porque não se conhece

qualquer documento de governador que assuma a paternidade de

mandar executá-los, nem ordem régia autorizando. O que se sabe é

por dedução ou declarado por cronistas que escreveram tempos

depois. (OLIVEIRA, 2004, p. 195)

 

Se fomos, de certa forma, implacáveis na crítica à eficiência da

Fortaleza da Ponta do Padrão, não seguiremos à risca a opinião de

alguns dos inúmeros críticos desses pequenos propugnáculos. O

primeiro pronunciamento incisivo sobre o assunto vem de Bernardo

Ravasco, sobre o qual já fizemos referência, considerando-os "nam

serem de utilidade algua' [...]". 15 Um pouco mais além, o importante

relatório inédito, datado, aproximadamente, de 1671, que atribuímos

ao engenheiro Antônio Correia Pinto, dá informações interessantes,

inclusive sobre o responsável pela construção, lançando luz sobre

polêmica entre os historiadores, através da seguinte afirmação:

 

O Forte S. M.a e o de S. Diogo são de pedra e cal: ambos

fundou Diogo Luis de Olivr.a sendo G.or e capitam g.l deste

estado nos extremos de huma praya que fica na boca da barra;

donde os Olandezes, e D. Fradique de Tolledo lançarão a

gente, que rendeu, e Restaurou esta praça, anbos estão

desmantellados: Tambem quando as Naos Inemigas ymfestarão

estes Mares servião de emparo aos nossos navios e

embarcaçons da costa; ambos se devem comsertar e asestir

em cada hu' hu' Alfrs [sic - alferes] ou sargento reformado dos

q. ha mais antigos co' a mesma praça q. vensem, sugeitos ao

Capitam do Forte S. Antonio q. ha muitos Annos costumão ter

os dois a sua ordem.16

 

Da afirmação se pode depreender que o autor encontrava neles

alguma serventia.

 

Por sua vez, o engenheiro militar Miguel Pereira da Costa, em 1710,

não considerava grande coisa estes redutos, principalmente o Forte

de S. Diogo, afirmando:

P. a te e a p. da cid. a menos distanssia de tiro de Mosquete [do Forte

de Santo Antônio da Barra] está o forte de S. Maria quasi

quadrado,mas rigurosamente he hum eptagono, com tres angulos

reint.es m.to obtuzos: este tem os mesmo incomodos q o de Sa.

Ant.º. A este se segue o forte de S. Diogo, a tiro de espingarda

delle; he uma pequena bateria com tres pessas de artelhr.a,

edificada na rais do monte em cuja eminemcia, está a igreja de S.

An.to, donde se ve o quam condenado esteja (obra bem escuzada

neste local) por ser de pouca serventia; e nestes tres se encerra a

forteficação da barra, cuya defensa he impraticavel, pois se não se

pode impedir a entrada aos navios por resp. to ta 17 da sua m. largura.

 

Mais ou menos a mesma coisa aparece no relatório feito pelo

brigadeiro Massé e seus colegas, em 1716:

 

Segueçe lhe logo o de S. M.a q he outro reducto menor, he

eptagonico com os mesmos incovenientes; e logo estâ o de S.

Diogo q he menor q os antecedentes, e feito na raiz do monte

da Igreja de S. An.to, e nestes tres reductinhos, q são mais do q

são, e estando tão proximos, se se unicem, não fazião huâ

bateria capâz, se incerra a forteficação desta Barra, cuja

defença he impraticavel, por senão poder impedir a entrada

aos Navios, a respeito da Sua m.ta largura 18 . [grifo nosso]

 

Como já declaramos, a nossa posição em relação a estes dois

redutinhos não pode ser tão radical, no que se refere às suas

serventias, se considerarmos as escalas e a verdadeira função a

que se propunham. Claro está que não somavam absolutamente

nada à defesa da barra da Baía de Todos os Santos, indefensável

pela própria geografia, mas dificultavam o desembarque em um

porto muito cômodo, antiga Camboa ou Gamboa da Vila Velha

(Porto da Barra) (Figura 2). Observemos que Nassau, quando

intentou, em 1638, a invasão da nossa cidade, preferiu enfrentar o

Forte de S. Bartolomeu da Passagem, ao norte, do que tentar algum

desembarque no local protegido pelas pequenas fortificações.

Estamos de acordo que eram dominados por padrastos vizinhos,

mas poderiam funcionar bem como baterias baixas de fortificações maiores que ocupassem as eminências. Mesmo no período imperial,

ainda foram objeto de preparativos quando a "Questão Christie"

motivou que as nossas defesas fossem postas em alerta, como nos

conta o famoso relatório do coronel Beaurepaire Rohan (1986).

Disto conclui-se que os expertos da castrametação daquela época

ainda julgavam que as nossas pequenas fortificações deveriam ter

alguma serventia.

 

Conjectura-se, sem maior fundamento documental, que, antes de

existir o Forte de Santa Maria, haveria, desde o início do século

XVII, uma estância artilhada no local do S. Diogo. Não encontramos

elementos comprobatórios de tal suposição e nem o relatório de

Diogo de Campos Moreno, de 1609, nem o seu Livro da Razão dão

qualquer informação. As maiores possibilidades é que ambos

tenham sido construídos depois da primeira invasão holandesa, no

governo de Diogo Luiz de Oliveira (1627-1635), já que foi referido

em documento. 19

 

O fortinho de Santa Maria está apoiado sobre um pequeno

promontório rochoso, limitando o lado esquerdo da enseada

existente no local (Figuras 8 e 9). A maior capacidade de fogo, pela

concepção escolhida de desenho, era para o flanqueamento e

cobertura do ancoradouro, o que demonstrava que sua função tinha

um endereço limitado e específico. Hoje em dia, tem canhoneiras no

parapeito, mas, pelo que descreve e desenha Vilhena, devia ter

parapeito à barbeta, cuja única finalidade era receber mais artilharia

e aumentar a varredura de pontaria das peças, tudo isto em

detrimento da segurança dos artilheiros.

 

O fortim de S. Diogo (Figuras 10 e 11), também considerado como

obra de D. Diogo Luiz de Oliveira, pelo relatório apócrifo de 1671, é

uma fortificação irregular, construída ao pé da colina onde, uma vez,

assentou-se o núcleo primitivo da Vila Velha (Figura 2) de Pereira

Coutinho com sua tranqueira e torre. É de se pensar que,

desaparecidas as defesas originais, esta eminência tenha sido

dotada de alguma bateria ou defesa 20, porque, sendo uma cota

mais elevada, poderia ser ocupada pelo inimigo, neutralizando os fortins que estavam mais abaixo. O seu fogo, combinado com as

posições de S. Diogo e S. Maria, seria efetivo na defesa do Porto da

Barra (Figura 2). O nosso minúsculo propugnáculo é de desenho

irregular, procurando adequar a sua feição à morfologia do terreno,

com uma parte da cortina arqueada. O parapeito era, e continua

sendo, à barbeta, conservando muito do primitivo desenho. A maior

modificação no organismo deste edifício deve ter sido feita no

acesso principal ao edifício. Na segunda metade do século XIX, o

fotógrafo Benjamin Mullock ainda conseguiu captar a sua feição

original.

 

Figura 10 – Cadastro do Forte de S. Diogo feito em 1758.

 

Fonte: Cap. José Antônio Caldas.

Figura 11 – Fotografia do S. Diogo visto do Santa Maria.

 

Foto: Mário Mendonça.

 

Praticamente nada foi acrescentado às defesas da barra da Baía de

Todos os Santos, a partir do século XVIII. Desde o projeto de

fortificação do mestre de campo, engenheiro Pinheiro Lobo, em

1640, e, principalmente, depois do projeto do capitão engenheiro

João Coutinho (1685), optou-se por uma defesa aproximada do

perímetro da capital. A mesma lógica foi seguida na proposta de

defesa, de 1715, executada pelos engenheiros militares brigadeiro

Massé, mestre de campo Miguel Pereira da Costa e capitão Gaspar

de Abreu.

 

Assim, o capítulo final da defesa da entrada da Baía de Todos os

Santos foi escrito quando, no ocaso do século XVIII, Vilhena nos

fala de uma bateria construída sobre uma elevação para dar apoio

às fortalezas da barra. O texto não é muito claro quanto à

localização, mas diz que esta posição se situava a uns 600 ou 800

passos. 21 (VILHENA, 1969, p. 215) Interpretamos que estes passos

deveriam ser a partir da Fortaleza de Santo Antônio, já que a

informação está contida no item Vizinhanças de Santo Antônio e, se

assim for, o local mais provável seria a elevação onde atualmente se

encontra o Hospital Espanhol (Figura 2). É o que a lógica defensiva

nos aponta, pois ajudava a cobrir os desembarques entre os fortes

de S. Maria e de Santo Antônio, disparando a sua artilharia de

posição mais elevada. (OLIVEIRA, 2008)

 

Seguindo a costa em direitura ao porto da cidade, nenhuma

fortificação pode ser assinalada nos primeiros tempos. É bem

verdade que, grande parte deste percurso é muito escarpado, o que

dificultava um desembarque que tivesse a finalidade de acessar a

parte alta da falha de Salvador. Porém, na Gamboa, esta operação

já não era tão difícil e esta brecha só foi coberta no século XVIII,

com a bateria de São Paulo, tributária do sistema defensivo do Forte

de São Pedro.

 

Bateria de São Paulo da Gamboa

 

Há quem diga que a Bateria da Gamboa, obra avançada do S.

Pedro, poderia ter sido iniciada na primeira metade do século XVII.

Em nenhuma lista ou levantamento de fortificações, elaborados até

o século XVIII, aparece qualquer referência a ela. O local da

Gamboa ou "Camboa", na qualidade de porto e povoação de

pescadores, este sim, é antigo, podendo ter antecedido a própria

fundação de Salvador. Esta bateria foi concebida para reforçar o

sistema do Forte de S. Pedro, originando-se do projeto de

fortificações de 1715. A sua finalidade era suprir uma deficiência

deste último, também muito bem caracterizada por Muniz Barreto:

"Para a parte do mar hé pouco offensivo, não só por ficar longe do

Canal, mas por estar algum tanto a Cavalleiro do nível d'agoa." 22 A

bateria da Gamboa estava justamente na orla marítima, disparando

quase na linha d'água. Era uma defesa de enorme eficiência e que

vinha completar adequadamente, uma limitação do Forte de S.

Pedro (Figuras 12 e 13).

Figura 12 – Planta e elevação do Forte de S. Paulo da Gamboa.

 

Fonte: Levantamento do Cap. José Antônio Caldas.

Figura 13 – Planta e perfil da muralha da Bateria da Gamboa.

 

Fonte: Desenho de JSLT. GEAEM 4558/6.

 

Só podemos atestar a autoria de projeto e execução da Bateria de

São Paulo, a partir da certidão do mestre de campo Miguel Pereira

da Costa, passada em favor do capitão João Teixeira de Araújo, seu

discípulo, na qual afirma que:

 

[…] querendo dar principio a Bataria de Sam Paulo na marinha

por baxo do Forte de Sam Pedro encarreguei a sua construção

ao Cap.am Eng.o João Teixr.a de Araujo, o q.al deu a

execução a minha instrução que lhe dei para aquella obra,

fazendo executar nella tudo o que lhe foi encarregado athe a

por na sua ultima perfeição.23

 

Vilhena informava, no fim do século XVIII, que este propugnáculo

era, na opinião de muitos, uma das melhores fortificações da Bahia, montando, na sua época, dezenove peças de artilharia, poder de

fogo não desprezível. As limitações que apontava provêm do fato de

não podermos considerá-la isoladamente, pois nasceu para

trabalhar no sistema da Fortaleza do S. Pedro, cobrindo o ponto

fraco da cota elevada em relação ao mar e sendo por ela protegida.

Parece-nos que o cap. eng ro. João Teixeira de Araújo fez um bom

trabalho nas muralhas do terrapleno, pois resistem bravamente até

hoje aos ataques do mar.

 

Por ser uma defesa de préstimo, recebeu conservação até o período

imperial, pois o coronel Rohan informa, no relatório de 1863, que

Este forte foi todo reparado a pouco tempo e acha-se por isto em

bom estado. Naquele tempo, tinha um parapeito à barbeta, mas a

concepção inicial, que encontramos no cadastro de Caldas, era com

canhoneiras e merlões, que irá até o fim do século XVIII (Figuras 12

e 13).

 

A grande curiosidade da Bateria de S. Paulo da Gamboa, era uma

enorme peça de artilharia, carinhosamente apelidada de Vovó,

assim descrita por Silva Campos:

 

Por aviso do Ministério da Guerra, de 28 de outubro de 1873, foi

mandado para esta Província um canhão Armstrong calibre

250, pesando 13 toneladas, a maior peça de artilheria e

primeira daquele fabricante que já viera ao Brasil, sendo

montada no ano de 1875. (CAMPOS, 1940, p. 109)

 

Esta peça encontra-se hoje defronte do Quartel General do Exército,

na Mouraria, e se espera que, quando o Governo do Estado

executar, como projetado, o restauro da velha bateria, volte a peça

Vovó para o seu local primitivo, continuando o seu sono tranquilo

sobre os seus rodízios e trilhos. Ela era uma referência pitoresca e

histórica na Cidade do Salvador. Com a montagem, no século XIX,

desta avantajada artilharia de costa, de alma raiada, porém ainda de

antecarga, que o avanço tecnológico do século XIX tinha propiciado,

conseguiu-se, finalmente, um artefato bélico que cobria o mar da

Baía de Todos os Santos até a ilha de Itaparica.

As defesas do porto de Salvador

 

Os muros de taipa que cercavam a primitiva Cabeça do Brasil não

eram suficientes para a defesa da cidade, particularmente pela

altura da cota em que ela se encontrava. Era ela uma cidade de

acrópole. Esta situação se, de certo modo, dificultava o acesso ao

inimigo, para tomar a cidade a partir do porto, obrigando-o a subir

íngremes ladeiras para efetivar o assalto, não poderia impedir os

desembarques, porque a artilharia de então, trabalhando naquela

altura, tinha um campo escuro acentuado, não podendo atirar para

baixo. Naqueles tempos, e até mesmo nos períodos de litígios mais

recentes, defender o porto de uma cidade era condição sine qua

non para a sua sobrevivência. De um lado, ele era a garantia do

abastecimento e do outro era a proteção para os navios que,

quando ancorados, estavam à mercê do inimigo, sem possibilidade

de manobrar e se defenderem. Por isto, tratou Luís Dias de criar

algumas plataformas, ou estâncias, ou mesmo redutos na zona da

Ribeira, referidos por ele mesmo em missiva, que deveriam proteger

o porto, os navios ancorados e dificultar o desembarque no local.

 

Todavia, o tema da localização desses primeiros propugnáculos de

Salvador, mesmo tendo sido garimpado por figuras ilustres da nossa

historiografia, oferece, ainda, muitas controvérsias quanto à

localização de tais defesas. Em geral, parte-se do pressuposto de

que eram seis as defesas, apoiando o muro de taipa de pilão que

cercava a nova cidade no tempo da sua fundação. Isto está

baseado, em parte, nas referências, que julgamos bastante

fidedignas, de Gabriel Soares, que não declina o nome de todas as

posições artilhadas.

 

As duas fortificações do mar que Luís Dias cita, textualmente, em

uma das suas cartas, são localizadas na parte da praia para a

defesa do porto e foram, segundo ele mesmo:

 

[...] e fez pero de guois hu´a estamçia de madeira diguo fez

pero de guois por que lhe deixe o governador que puzese o seu

trabalho e o da sua gemte e que se chamaria o baluarte do

guois e hele e eu fomos cortar a madeira de maõgue muito

poderoza e que não apodrece debaixo da aguoa e sobre heses

peneedos como vera na amostra e no outro cabo da ribeira

fizemos outra estância que se chama saõta cruz as quais tem

muita artelharia groça. (GARCIA, 1939, p. 25)

 

Estas posições defensivas tinham como artilharia: o baluarte do

Gois, armado com 2 esperas, 2 camelos, 2 falcões e 12 berços, e a

outra, que recebeu a invocação de Santa Cruz, que deveria ser

menor pelo armamento que possuía, isto é, 1 espera, 2 falcões e 6

berços. Descreve o mesmo Dias que a primeira delas foi construída

com terra e paus de mangue que se criam n'água e são como ferro,

que ele julgava poder durar uns vinte anos, deixando ao arbítrio real

a decisão de construí-las em pedra e cal. (GARCIA, 1939, p. 24) A

documentação sobre o assunto, porém, esclarece que o sistema

construtivo destas antigas estâncias não deveria ser,

exclusivamente, de madeira de mangue e terra, porque provisão de

16 de dezembro de 1551 manda que se pague ao pedreiro Belchior

Gonçalves a quantia de

 

[...]16$665 rs. que lhe ficaram a dever da empreitada, que

tomou, por que se obrigou fazer tres paredes na Ribeira de

Goes, e na Estancia Santa Cruz; uma de pedra insossa, e duas

de pedra e barro. (BIBLIOTECA NACIONAL, 1929, p. 66)

 

O baluarte da Ribeira do Góes, segundo Teodoro Sampaio, Alberto

Silva, Edison Carneiro e outros, era no porto, próximo à antiga

ermida da Conceição, perto da qual foi construída a atual basílica.

Vamos mais um pouco adiante. Se atentarmos para a carta de Luís

Dias, ele fala que a construção estava sobre heses peneedos como

vera na amostra, o que dá a entender que era a famosa "laje", o

primeiro forte do mar, que nada tinha a ver com o São Marcelo,

como já demonstramos em outro estudo. (OLIVEIRA, 2001)

 

Quanto ao Baluarte da Santa Cruz, Edison Carneiro (1978, p. 68)

aponta para o norte a localização deste propugnáculo: "Mais para o

norte, na Ribeira, estava o baluarte de Santa Cruz, de proporções menores. Era de taipa, obra do taipeiro Pedro André [...]", o que nos

parece verossímil.

 

O que nos informa a gravura de Gerritsz

 

A reprodução da gravura de Gerritsz é muito elucidativa, pela

fidelidade pouco comum em relação aos elementos de defesa do

porto da Cidade do Salvador, logo após a invasão de 1624 (Figura

14). Este desenho, que deve ter tido motivações militares, mostra

posições de artilharia, indicando-as através do fumo dos canhões e,

muitas vezes, escrevendo-se a palavra forte ou bateria (em

holandês, evidentemente), muitas das quais correspondem à

descrição de Diogo Moreno. O desenho do Forte da Laje,

conhecido, na época, como Forte Novo (Nieuwe Fort), é a

verdadeira configuração. Aparecem a estância sobre a ermida da

Conceição, a posição da estância de S. Diogo, abaixo da

Misericórdia 24, a torre de pedra e cal do S. Alberto, a plataforma ben

alta ao pé do Colégio de Jesus, que deveria estar na olaria dos

padres da Companhia (potte backery), de onde se via até a agoa

dos meninos. Quanto à estância da banda do vasadoiro velho,

poderia ser aquela indicada no Guindaste dos Padres (Papenhooft).

Das posições representadas, somente umas três delas não

encontramos nas referências de Diogo Moreno: a Bateria da

Conceição, que é conhecida dos estudiosos; a Bateria do Palácio,

também muito conhecida pela sua inutilidade 25 e uma plataforma

no Carmo, que pode ser aquela do tempo de D. Fradique, na sua

cruzada de restauração da Bahia. Realmente, é uma iconografia

interessantíssima para o estudioso das fortificações de Salvador.

Figura 14 – Gravura de Gerritsz representando a incursão do

comandante Peter Petrid na Baía de Todos os Santos.

 

Fonte: Vereeniging Nederlandsh Sheepvaart Museum, de Amsterdã.

 

Quanto à Bateria da Conceição, caberia uma observação. Na

gravura holandesa que comentamos existe claramente uma posição

artilhada, nas vizinhanças da Igreja da Conceição antiga. Parece-

nos que deve ser a mesma que Bernardo Ravasco Vieira chama de

Plataforma da Preguiça, pois não haveria sentido duas posições tão

vizinhas:

 

"Na plataforma q chamão da Preguissa", a qual fica quazy ao

pe da eminençia da porta da Cidade de Sam Bento, há quatro

peças de bronze, huma Colebrina de 20 L.as 2 de 14. e huma

de 10. Della corre huma trincheira, sem fosso para o Norte té

outra plataforma de pedra, e cal, em q' [ilegível] há artelharia.

(VIEIRA, 1660)

 

Baluarte da Ribeira

 

Tudo indica que a fortificação da Ribeira (Figura 15) nasceu das

transformações sofridas no antigo Forte da Laje, com o aterramento

da Cidade Baixa. Todos sabemos que o espaço disponível neste

local, quando da fundação da cidade, era uma exígua faixa de terra,

que pode ser observada na cartografia antiga, como nas

iconografias dos exemplares do Livro da Razão, de Diogo Moreno.

Neste limitado espaço era capaz de caber, naquela época, somente

uma linha de armazéns cozidos à encosta e, logo depois, o muro do

antigo cais e o mar. O primitivo Forte de Santo Alberto, cujo local é,

atualmente, ocupado pela Igreja do Corpo Santo, como vimos, era

uma construção apoiada em um afloramento rochoso que avançava

pelo mar.

 

Figura 15 – Particular da gravura de Gerritsz (1627) onde se

destaca o Nieuwe Fort (Forte Novo).

 

Fonte: Particular da figura 14.

 

É por esta razão que subscrevemos o que dizia o estimado Luiz

Monteiro da Costa, ao afirmar:

Êste forte inacabado "só igual com as ondas" [no tempo da

invasão de 1624], mais tarde batizado "S. Felipe, São Thiago e

Nossa Senhora da Conceição" e finalmente, da "Ribeira", já

desaparecido [...]. (COSTA, 1958, p. 27)

 

Poderíamos acrescentar que ele foi também chamado de "Forte

Real de S. Felipe e S. Tiago" ou, simplesmente, "Forte Real"26 e,

também, de "Bateria da Ribeira das Naus".

 

Já Silva Campos considera que as origens desta fortificação

remontam à época da fundação da cidade, quando Luís Dias

construiu a defesa primitiva, "[...] em cima de um rochedo que joga

para a banda do mar", provavelmente, estruturada com "paus de

mangue que se criam n'água e são como ferro". (CAMPOS, 1940, p.

240) Não é difícil concluir que este rochedo não era mais do que a

Laje Artilheira ou Forte da Laje, que fez posteriormente Frias da

Mesquita no mesmo local do forte de paus de mangue, construído

por Luís Dias. Quanto à fundamentação deste discurso, é bom que

se observe o que foi dito no nosso estudo sobre os fortes do mar.

(Cf. OLIVEIRA, 2001, p. 481-498) O mesmo Silva Campos dizia

ainda:

 

Elevou-se aí, certamente, a Estância de Nossa Senhora da

Conceição, onde, em agosto de 1604, o governador geral Diogo

Botelho estabeleceu o quartel-general, dirigindo a defesa da

cidade contra os piratas de Caarden e que é o mesmo forte que

se se manda fazer na laje da praia (MORENO, 1955, p. 142)

 

Sobre o particular, caberia lembrar que Botelho, quando combateu

Caarden, em determinados momentos da peleja, esteve metido em

água até o pescoço, o que demonstra a situação da ilhota de pedra,

que se podia passar a vau para a terra firme, quando a maré estava

baixa. As nossas discordâncias só começam quando o mestre

mistura o Water Castell, que se vê em Barleus, com o S. Marcelo,

quando, na realidade, foi uma das fortificações da Bateria da Ribeira

que, no início, era separada da terra. Basta observar bem as plantas do século XVIII para se saber que o desenho da antiga praia

passava a pouca distância do adro da atual Igreja da Conceição.

 

Mas a Bateria da Ribeira, como conhecemos pelos inúmeros

desenhos27 que ficaram, e a cartografia do século XVIII a deixa ver

em feição reduzida, foi, sempre, de muita consequência para a

defesa do porto de Salvador, conforme afirmam todos os

engenheiros militares e especialistas da matéria. No início, era uma

obra para fazer, principalmente, o flanqueamento defensivo do porto

e o abrigo de naves que fundeavam nas suas laterais. Era de pedra

e estava inacabada, quando os holandeses se assenhorearam da

cidade e por eles foi terminada, como esclarece Aldenburg (1961, p.

201): "[...] acabando-se o forte de pedra do mar, junto à ribeira, no

Continuar: parte 2 de 4