Baía de Todos os Santos: aspectos humanos
A Baía de Todos os Santos em Mar Morto
A Baía de Todos os Santos em
Mar Morto
Licia Soares de Souza
A cidade da Bahia (Salvador), com seu grande espelho de Iemanjá
diante de si (A Baía de Todos os Santos – BTS), é constantemente
personificada nos romances urbanos de Jorge Amado.
Mar Morto é a obra que representa, com maior completitude, a
personificação da BTS, vinculando seus aspectos geográficos aos
vetores históricos e culturais, atravessados por uma narrativa mítica
destinada a ampliar os efeitos dos encontros de três culturas
distintas: a europeia, a africana e a ameríndia. As localidades e
bairros, situados em torno da BTS, entram na visão dicotômica da
primeira fase do autor (oposições cidade alta x baixa, branco x
negro, rico x pobre, SALAH, 2000, p. 89), com a função de mostrar
as difíceis condições de vida do povo negro e mulato que tira seu
ganha-pão da baía e ainda consegue produzir formações culturais
dinâmicas. É o cais do porto, a Água de Meninos, Itapagipe (com o
porto da Lenha e uma forte representação de Mont Serrat), a ilha de
Itaparica (Mar Grande, Gameleira, Bom Despacho, Amoreira). Por
outro lado, esse povo do cais se movimenta para o dique (Tororó),
onde acontece a festa de Iemanjá, em 2 de fevereiro, e para as
cidades do Recôncavo (Santo Amaro, Cachoeira, Maragogipe) via o
rio Paraguaçu, onde trabalha, transportando cargas nos saveiros.
A geografia mítica
Comecemos a abordar a personificação da baía em Mar Morto pela
apresentação da narrativa mitológica que marca sua identidade
histórica e sua geografia religiosa. Como diz Albuquerque Júnior.
(1999, p. 219), nas narrativas sobre o Nordeste, que emergem nos anos 1930, a Bahia surge como representante de um outro
Nordeste, nas obras de Amado, que não é aquele apenas das secas
do sertão, mas aquele que mostra essa geografia mitológica,
nascida da reconstrução de espaços existenciais empreendida por
negros desterritorializados da África. Essa geografia, onde se
harmonizam o material e o mítico, o sagrado e o profano, produz a
imagem de um território capaz de conciliar elementos antagônicos,
construindo o pensamento barroco baiano que seria o inverso do
que preconizou Gilberto Freyre para a região nordestina: a
conciliação não emanaria do caráter patriarcal da sociedade, mas
da dinâmica das manifestações populares, com seus mitos, que
são, ao mesmo tempo, signos de alegria, de resistência e revolta, e
de coesão social.
Mencionando os mitos de origem africana, necessário se faz uma
apresentação das formas das sereias, que habitaram as águas
brasileiras, para uma compreensão das formas e expressões de
Iemanjá, um dos personagens principais de Mar morto. O Dicionário
de Figuras e Mitos Literários das Américas, projetado para
[...] mapear o imaginário coletivo do continente americano por
meio do levantamento de figuras e mitos que caracterizam o
que se poderia chamar de "grande narrativa das Américas"
embora se tenha consciência da heterogeneidade das
produções culturais e literárias das Américas (BERND, 2007, p.
15),
Veio preencher uma lacuna fundamental para a história do
continente americano. Tal dicionário nasceu da verificação da
inexistência de obras de figuras e mitos próprios das Américas; o
que existe, no plano literário, sendo centrado no imaginário greco-
latino e europeu, deixa de lado o que brotou e se transformou nas
terras do Novo Mundo. Justamente, um dos mitos abordados nesse
dicionário é o da sereia, suscetível de mostrar a dinâmica imaginária
das comunidades novas das Américas.
A sereia é uma entidade lendária da Grécia antiga que reaparece
em numerosas mitologias posteriores. Existe inicialmente uma confusão anatômica nas sereias que são encontradas nos vasos e
ânforas antigos como pássaros ou peixes sem distinção, muitas
vezes, de sexo. É a obra de Homero que reúne o maior número
possível de elementos do mito e que contém dados religiosos
anteriores ao século VIII a.C. que se encontravam dispersos. O mito
das sereias conhece assim uma feminização crescente associada à
travessia de marinheiros articulada, por sua vez, a uma dicotomia
cósmica relativa ao mundo subterrâneo dos infernos ou ao mundo
celestial dos cantos.
No Brasil, o mito foi propagado pelos navegadores, difundindo-se
por largas áreas geográficas e mesclando-se a lendas indígenas e
africanas. No princípio, os monstros marinhos eram masculinos e
chamavam-se Ipupiaras, homem peixe que levava os pescadores
para o fundo das águas devorando-lhes a boca, o nariz, as pontas
dos dedos e os genitais. Os cronistas dos séculos XVI e XVII
registraram a presença desses homens-peixe nas águas brasileiras.
Kirimurê-Paraguaçu, a Baía de Todos os Santos, que mudou de
nome após a passagem da esquadra de Gonçalo Coelho, com o
cosmógrafo italiano Américo Vespúcio, que aportou no Brasil em 1°
de novembro de 1501, era palco de crenças e lendas dos índios
tupinambás. Ao nível das lendas indígenas, Ipupiara se transformou
no século XVIII, na sedutora sereia Uiara ou Iara. Muitos
pescadores brasileiros, principalmente nos rios do norte do país,
contam histórias de moços que cediam aos encantos da bela Iara e
terminavam afogados de paixão em direção de sua casa no fundo
das águas.
Com a chegada dos africanos, a partir do século XVII, os Ipupiaras
deram lugar a uma entidade iorubá que passou a ser conhecida no
Brasil como Iemanjá. Na África, tinha como nome Yey Omo Eya,
sereia azul e branca, com longos cabelos negros, que já
personificava a ternura materna para com seus filhos que eram
peixes.
Jorge Amado, em Mar morto, apresenta o trajeto histórico da sereia
africana no Brasil. De todas as formas, ele indica como a temática do exílio funciona como núcleo cultural que dirige a emergência das
narrativas sagradas; ela determina uma relação história/mitologia
que descreve o deslocamento, com a consequente
reterritorialização dos povos africanos, " desterrados de outras
terras", através dos componentes míticos que desmaterializam a
história vivida em proveito de uma história imaginada.
O oceano é muito grande, o mar é uma estrada sem fim, as
águas são muito mais que metade do mundo, são três quartas
partes e tudo isso é de Iemanjá. No entanto, ela mora é na
pedra do dique do cais da Bahia ou na sua loca em Mont
Serrat. Podia morar nas cidades do Mediterrâneo, nos mares da
China, na Califórnia, no mar Egeu, no golfo do México.
Antigamente ela morava nas costas da África que dizem que é
perto das terras de Aiocá. Mas veio para a Bahia ver as águas
do rio Paraguaçu. E ficou morando no cais, perto do Dique,
numa pedra que é sagrada. (AMADO, 1996, p. 67)
Os índices topográficos das novas terras de Iemanjá servem para
dizer a história, relativizando o mito. Iemanjá instaura a relação do
maravilhoso, destinado a reterritorializar pelos elos sagrados que
unem os afrodescendentes em torno de uma formação cultural
comum. Exercendo poder, ela, como deusa, toma posse do topos
geográfico e do topos imaginário das comunidades desterradas dos
antigos escravos. Ao mesmo tempo, o deslocamento da entidade
abre igualmente uma temática de processo, relativa à mestiçagem,
ao hibridismo, pois Iemanjá vem "ver as águas do rio Paraguaçu", e
esse encontro sinaliza a grande temática mítica de encontro entre
povos diferenciados que marca a genuína narrativa da
americanidade: o africano e o índio, Aiocá e Paraguaçu.
O maravilhoso híbrido de Iemanjá refere-se à criação de uma utopia,
para os povos desterrados e excluídos do sistema político-social,
relacionada à existência de um reino acolhedor onde a deusa
exerce suas funções ambivalentes de mãe e esposa. Nesta
semântica da ambivalência, está contido o mito da origem da sereia. Se, na África, ela proporciona o nascimento dos rios, em seu novo
mundo, ela cria uma baía (BTS).
Iemanjá é assim terrível porque ela é mãe e esposa, Aquelas
águas nasceram-lhe no dia em que seu filho a possuiu. Não são
muitos no cais que sabem da história de Iemanjá e de Orungã,
seu filho [...] Foi o caso que Iemanjá teve de Aganjú, deus da
terra firme, um filho, Orungã, que foi feito deus dos ares, de
tudo que fica entra terra e o céu. Orungã rondou por estas
terras, viveu por esses ares, mas os eu pensamento não saía
da imagem da mãe, aquela bela rainha das águas. Ela era mais
bonita que todas e os desejos dele eram todos para ela. E, um
dia, não resistiu e a violentou. Iemanjá fugiu e na fuga seus
seios se romperam, e assim, surgiram as águas, e também
essa Bahia de Todos os Santos. E do seu ventre, fecundado
pelo filho, aqueles que mandam nos raios, nas tempestades e
trovões. Assim Iemanjá é mãe e esposa. Ela ama os homens
do mar como mãe enquanto eles vivem e sofrem. Mas no dia
em que morrem é como se fossem seu filho Orungã, cheio de
desejos, querendo seu corpo. (AMADO, 1996, p. 70)
O povo do mar, desterrado e excluído, sonha com esse encontro
com sua rainha, a rainha de Aiocá. A ambivalência da entidade
determina a aparição de múltiplos símbolos, relacionados à
instrumentação e às técnicas utilizadas nos rituais aptos a
permitirem a comunicação com a deusa do mar na terra. Gilbert
Durand (1969), em seu regime diurno do imaginário mundial, situa a
simbologia da tecnologia das armas, vinculada à sociologia do mago
e do guerreiro, associada aos rituais de elevação e de purificação.
Eis, então, a natureza dos rituais para essa mãe d'água:
O som dos instrumentos ressoa por toda a península de
Itapagipe. Os músicos estão excitados também, como todos os
que assistem a esta macumba do pai Anselmo em honra de
Iemanjá. Faz meses que estas negras, que hoje são feitas,
foram iniciadas. Primeiro deram a todas elas um banho com as
folhas sagradas, rasparam-lhes os cabelos da cabeça, das Nessa baía, nascida do rompimento dos seios de uma mãe
axilas, do púbis, para que o santo mais livremente possa
penetrar, e então veio o efun. Tiveram as cabeças pintadas e
também as faces com cores berrantes. Receberam então
Iemanjá que penetrou nelas ou pela cabeça ou pelas axilas ou
pelo púbis. (AMADO, 1996, p. 74)
Os rituais põem em cena um conjunto de símbolos para as técnicas
de purificação comandadas pelo mago pai Anselmo. A iniciação
implica em uma modificação do corpo (raspar os cabelos e os pelos,
tomar banho de folhas e beber infusões) e de comportamento
consistindo em se passar muitos meses isolada do mundo, em um
terreiro, a fim de se cortar os elos com a vida mundana e de se
promover uma comunhão espiritual com a Orixá. Esta é dona dos
mares e entretém relações diferenciadas com os segmentos dessa
comunidade reterritorializada. Iemanjá, para todos, é a senhora dos
oceanos; para os canoeiros, ela é Dona Janaína; para os pretos,
seus filhos mais diletos, e que a temem mais que todos, ela é Inaê
ou Princesa de Aiocá, quando há a necessidade de se distinguir
espacialmente os continentes; enfim, são as mulheres do cais,
casadas ou da vida, que a chamam de Dona Maria. Sua identidade
é então repartida, na medida em que cada nome encaminha uma
espécie distinta de relação com a comunidade, também
segmentada, e orienta seus novos destinos em novas direções. A
vitalidade orgânica que a deusa ganha no Novo Mundo é o melhor
testemunho desse hibridismo, onde se estabelece uma dialética
entre o uno e o diverso e onde o objeto fundador de uma cultura
passa pelo crivo de vários olhares, e vai ressurgindo modificado em
momentos e espaços distintos.
Nessa narrativa mítica, há a questão do destino como uma figura
primordial ligada à figuração da Orixá, através da existência dos
pescadores e marinheiros. O destino desses viajantes está escrito
com a morte no mar, que é uma passagem a outra vida, no reino de
Iemanjá. Metaforicamente, é o destino das culturas hibridizadas, nas
suas reviravoltas imprevisíveis, em função dos processos de
reterritorialização.
possuída por seu filho, as relações de contiguidade mar-amor-morte
determinam o perfil heróico de bravos marinheiros. (ARAÚJO, 2003,
p. 77-78) Nesse realismo romântico, a baía feminizada serve de
cenário para os amores dos marinheiros que vencem as
tempestades, cujos gemidos se confundem com o ruído musical das
viagens ao mar, produzido pelos ventos. O protagonista Guma opta
pelos impulsos aventureiros das viagens no mar, e renuncia à vida
sedentária da cidade, que lhe é oferecida pelos tios de Lívia que se
torna sua mulher. Justamente, Araújo (2003, p. 81) já assinalou que
os trechos que representam o rapto de Lívia por Guma são
investidos de uma semântica odisseia que lembra a celebração de
Ulisses vencendo as intempéries de sua viagem.
A bravura de Guma
Guma assumiu a vida aventureira das viagens no mar e renunciou à
tranquilidade sedentária na cidade. Assim, a representação de suas
viagens na baía segue uma dinâmica que acentua sua bravura
diante dos elementos naturais. Guma sempre esteve agitado "em
carreiras doidas", "enfrentando o vento enfurecido" e, quando se
afastava muito, buscava enxergar o quebra-mar e o forte velho, as
referências para a chegada tranquila ao cais. As corridas permitiam
a Guma refletir sobre a vida que devia seguir na Terra (ser ogã de
seu candomblé, cantar os cânticos de dona Janaína, ter um filho), e
sobre a passagem para o reino da sereia que deveria acontecer,
como uma ordem do destino, em algum momento. Por isso, "força e
maneja o leme" do saveiro Valente, que "rodopia desarvorado",
lutando contra o vento, as águas, e contra "seu corpo que treme de
frio". (AMADO, 1996, p. 64) Nessa corrida, ele salvou o navio
Canavieiras, à deriva na tempestade, recebendo o comando de um
inglês, e dando ordens, passando, assim, a figurar na lista dos
heróis do cais.
Em outro momento, Guma navegava com um companheiro ferido,
Traíra, procurado pela polícia, por ter matado um rapaz numa briga.
Em outro ato de bravura, "desliza sobre a água azul", e, com a mão firme no leme, ia "correndo", o mais que podia para buscar socorro
para o marinheiro que agonizava em seu porão. A BTS torna-se
novamente espaço fundador de um herói que prova sua coragem
pessoal, enfrentando não apenas a natureza, mas sobretudo a força
e o poder da Mãe-d'água que é a soberana na vida dos marinheiros,
decidindo sobre seus direitos de vida e de morte. Aí se centra a
essência do homem do mar orientando sua práxis na direção de
uma busca/descoberta dos liames imprescindíveis entre natureza e
sobrenatureza como princípio instaurador de construção de um
mundo novo. Abandonando a sensação ideológica de regulação da
vida, que parece reinar na cidade, com suas luzes elétricas, os
marítimos recorrem ao maravilhoso da insubordinação existencial
para reinventar suas cenografias de vida onde podem reencarnar
novos papéis suscetíveis de contestar a miséria e a opressão que
modelam as realidades dos povos dessas terras conquistadas nas
Américas.
Para ampliar a imagem do herói marítimo, as apostas do mercado
são ressaltadas e, principalmente, desde que Guma provou sua
bravura e se tornou objeto de admiração. Ele corria com o Valente e
disputava com Mestre Manoel que comandava o Viajante sem
Porto. Neste, cantava Maria Clara cujo ritmo "compra o vento e o
mar" e impulsionava os movimentos dos saveiros:
Corre, corre, meu saveiro
Corre, corre contra o vento
Corre, corre, meu saveiro,
Corre, corre mais que o vento.
(AMADO, 1996, p.151)
A corrida é representada através de metáforas sensitivas aptas a
conciliar os ritmos musicais das mulheres dos marítimos, Maria
Clara e Lívia, cujas vozes belas se confundiam com as belas velas.
O cheiro amoroso do mar funciona assim como mote da bravura,
impulsionada pelas belas vozes das mulheres que, como
metonímias da rainha do mar, aderem ao destino sem poder
modificá-lo. Aproximavam-se da Ilha de Itaparica, "uma mancha verde no mar azul" e onde os mestres de saveiro já podiam mirar as
pedras do fundo. E a corrida continuava através de uma
representação plástica que convida o leitor a visualizar e a escutar
as façanhas dos heróis.
Os saveiros vão na mesma reta. O vento os leva, os homens
ajudam. Qual chegará primeiro? Ninguém o sabe, Guma está
dando tudo, Maria Clara canta, Lívia volta a cantar. E o Valente
avança mais um pouco. Mas Mestre Manuel se curva no
Viajante sem Porto e toma a dianteira. (AMADO, 1996, p. 152)
Mas Guma ganhou a corrida, pois fez algo que ninguém jamais
realizou: virou na curva fechada bem por cima da coroa de pedras,
que roçou no casco da embarcação, e chegou triunfante ao
"miserável" cais de Mar Grande onde os pescadores saudavam
aquele que teve a coragem de empreender uma tão difícil façanha.
Um velho pescador enunciou uma avaliação racional:
"- Ele ganhou, mas o outro é melhor marinheiro. Um marinheiro não
deve jogar seu barco tão em cima das pedras." (AMADO, 1996, p.
152)
Nessas passagens, existe o vetor privilegiado do cotidiano dos
marítimos, as corridas contra o vento, marcando uma expertise de
manejar o leme, sendo capaz de acentuar a familiaridade dos heróis
com seu espaço aquático. Na visada do protagonista Guma, a
errância nesse mar do entorno da BTS leva ao ultrapassar de seus
limites pessoais, fazendo-o rejeitar a vida estabilizada da cidade que
os tios de Lívia estão sempre lhe oferecendo, através de um
emprego fixo no seu comércio. Instaura-se então nessas passagens
o feixe semântico da travessia que, embora se dê apenas dentro de
uma baía (Guma não tem condições de se aventurar no oceano dos
grandes navios), permite a abertura de questionamentos ontológicos
acerca da natureza de tantos deslocamentos que fogem dos roteiros
da racionalidade, e levam o leitor a apreciar os balizamentos
identitários dos descendentes de escravos africanos no Recôncavo
baiano. Eis porque Mar Morto desdobra tantos cenários literários de lirismo sensitivo refletindo os movimentos de seus personagens em
consonância com os movimentos dos elementos naturais.
O lirismo no trabalho
Torna-se igualmente significante a representação do trabalho dos
marítimos em torno da BTS. Esta, como templo de heróis
neorromantizados (ARAUJO, 2003, p. 76) que testemunham o
mistério de uma geografia indecifrada, de onde emergem música e
amor, mas também a morte, é igualmente um cenário de ganha-
pão.
Por um lado, permite, na cercania do cais, o encontro do povo de
Iemanjá, os velhos marinheiros que remendam velas, os ex-
marinheiros que não encontram mais trabalho, viúvas prostituídas,
em razão da morte dos maridos, feirantes e botequineiros, cujo labor
forma uma geografia cultural que aparece como a negação da
sociedade organizada da cidade alta, configurada como dominante.
Como o diz Albuquerque Júnior (1999, p. 212), "[...] a proposta de
Amado é captar a identidade do país e de sua cultura, e captar sua
singularidade a partir de uma busca das raízes populares, da
realidade do povo [...]" Dessa forma, esse povo de Iemanjá possui
uma espontaneidade produtora de códigos de sociabilidade e
sensibilidade que o narrador começa por apresentar, mas afirmando
que ele não é a melhor voz para transmitir tantos códigos culturais
que um homem da terra não domina.
Vinde ouvir essas histórias e essas canções. Vinde ouvir a
história de Guma e de Lívia que é a história da vida e do amor
no mar. E se ela não vos parecer bela, a culpa não é dos
homens rudes que a narram. É que a ouvistes da boca de um
homem da terra, e, dificilmente, um homem da terra entende o
coração dos marinheiros. (AMADO, 1996, p. 1)
O narrador convoca os leitores a vir ouvir histórias e canções, mas
se apresenta como um estranho, um homem da terra, que pode não
ter a mesma compreensão dos marinheiros, de tal forma que a estória possa ter uma aparência de trama relatada por "homens
rudes". Mas, assim, o narrador evoca uma memória cultural,
consolidada em torno da baía e personificada em sua narrativa,
propondo a seus leitores o pacto de juntos percorrerem a vida
desses seres populares que constroem uma cultura rica de saberes
relativos à geografia, à história do Recôncavo baiano e aos
processos comunitários que aí se desenvolvem.
O universo dos mestres de saveiros, inicialmente observado pelas
travessias lúdicas ou correrias de bravura, na ajuda dos
companheiros, se expande em um universo complexo de relações
de trabalho. Os mestres de saveiro transportam mercadorias; de
Maragogipe, trazem charutos e fumo para a capital; de Mar Grande,
carregam pescados. Essa é a rota mais difícil, por causa dos
arrecifes, e é o lugar da baía onde Iemanjá gosta de levar seus
marinheiros: "Roteiro difícil de Mar Grande, que já engoliu tantos
corpos.!" (AMADO, 1996, p. 155)
Nesses saveiros, eles transportavam igualmente veranistas e
turistas que iam conhecer Cachoeira, embora as lanchas a motor já
começassem a substituí-los, tornando-lhes a vida mais difícil. Numa
noite de temporal, os saveiros viraram com vários turistas, alguns
sendo devorados pelos tubarões. Guma e Mestre Manoel foram
para o mar tentar salvar os náufragos, e o narrador inicia uma
descrição bastante realista, testemunhando o perigo da travessia
nas embarcações precárias desses marinheiros. Imediatamente,
Guma avistou os destroços de três saveiros e lutou contra o
temporal que, personificado, "[...] tentava naufragar os que vinham
salvar". (AMADO, 1996, p. 182) A plasticidade visual das
cenografias dos naufrágios instaura relações bastante acentuadas
de horror, fazendo emergir as sinédoques corporais como efeito da
força da natureza: um pedaço de braço boiava, pedaços de vestido,
um homem com a perna arrancada pelo tubarão, cadáveres. Em
seguida, ocorre um retorno à ação, pois Guma mergulha com a faca
na boca, por debaixo do tubarão, para salvar Rufino, seu vizinho;
consegue aniquilar o peixe, não sem antes receber um golpe com o
rabo que o deixa quase sem sentidos. Mas novamente vence uma prova de bravura e volta com os outros procurando cadáveres, pois
familiares esperavam no cais ter notícias de seus parentes.
Mas mesmo investido de todo semantismo de bravura, Guma
começava a mostrar sinais de fragilidade diante da natureza. Numa
noite de temporal, seu saveiro Valente naufragou. A dinâmica textual
coloca o "vento" na posição de sujeito, à medida que age e domina
o mar: "ele encrespa as águas, gosta de brincar com os saveiros,
destroncando os pulsos daqueles que vão nos lemes". Este vento
ativo apagava as lanternas, silenciava as canções, destruía, e
assanhava os tubarões para vir devorar os corpos daqueles que
conseguiam se desgovernar totalmente. Guma perdeu seu controle,
mas Mestre Manoel conseguiu salvá-lo e trazê-lo para o cais.
Esta é uma peripécia que dá início à discussão sobre a mudança
das relações de produção no cais. Guma comprou outro saveiro, O
Paquete Voador, mas não conseguia pagar a seus credores, pois o
trabalho de transportar mercadorias e passageiros em saveiros
tornava-se escasso. A baía dos veleiros começava a mudar de
feição, sendo ameaçada pela modernidade das embarcações a
motor. O mundo do capital e do trabalho vinha modificar o território
aquático da cultura popular, de origem africana, cujo lirismo mítico
não apresentava instrumentos nítidos de rebeldia e luta para uma
modificação efetiva das relações de trabalho.
A morte no mar da baía
O mar da Bahia começava a pertencer a estrangeiros que vinham
com seus grandes navios para contrabandear. Um deles, Toufik, o
árabe , vencera mares de areia, e vinha se instalar no mar da Bahia,
incorporando totalmente a cultura popular dos mestres de saveiros,
pois conhecia todos e sabia, como ninguém, os nomes de todos os
barcos. Toufik convenceu Guma a trabalhar para seu patrão Murad,
mostrando-lhe que poderia começar a transportar mercadorias de
contrabando que lhe daria o dinheiro suficiente para pagar o barco e
poder iniciar um negócio, na cidade, com os tios de Lívia, livrando-
se, assim, dos perigos da vida no mar.
Numa dessas viagens de trabalho, Guma partiu, levando o filho do
patrão Antonio, em sua embarcação. Foram novamente
surpreendidos por um temporal que dominava os mares. Guma se
salvou, mas o filho do árabe ficara no mar e seu pai implorou a
Guma para ir buscá-lo. Nesse momento, a cenografia de
narratização da bravura de Guma salvando Antonio e tentando
evitar sua morte indica mais uma mudança de ritmo no romance,
com a gestualidade rápida da luta pela vida no mar.
O vento agia ainda "os puxando", mas viam o Farol da Barra
iluminando como uma salvação. Em seguida, avistaram o porto de
Santo Antonio. Mas o saveiro, muito carregado de sedas, foi levado
para cima dos arrecifes onde os tubarões esperavam suas presas.
Guma conseguiu chegar no porto de Santo Antonio, com Toufik nas
costas, sendo guiado por uma réstia de luz do Farol da Barra. Mas o
filho do árabe ficou no mar e, diante das súplicas do pai, Guma
voltou, exausto, para buscá-lo.
Nota-se a importância da gestualidade e das condições físicas do
marinheiro, nesse episódio de seu desaparecimento. Ele sentia
dificuldades em nadar, pois já se encontrava esgotado da travessia,
"[...] nadara com Toufik nas costas, nadara contra as águas e contra
o vento". (AMADO, 1996, p. 238) As forças lhe faltavam, mas
avistou Antonio no casco do saveiro, como o "corpo de uma baleia".
Guma nadou até trazer Antonio perto da praia, correndo dos
tubarões, "cortando as ondas". Lutou contra os peixes ferindo um,
mas eles o levaram para junto do casco emborcado do Paquete
Voador.
A tempestade serenou e Iemanjá "estendeu seus cabelos sobre o
lugar onde Guma desapareceu" Os braços de Guma sempre
tiveram ligados à temática dual da força e da impotência, da vida e
da morte; os braços da vida traziam o socorro e salvavam, os
braços do desespero e da morte foram aqueles quando o marinheiro
perdeu o controle de seus movimentos e foi apanhado pelos peixes.
A aproximação simbólica entre os braços noturnos do vento, que
"atraiam, puxavam, varriam o barco", e a água, por uma propriedade comum de fluidez, ganha importância por indicar uma mudança de
natureza, a desencarnação. Se a natureza humana se torna outra
pela fusão com o impalpável, ela pode se converter religiosamente,
se tornar emblema espiritual e símbolo de salvação. Outro paralelo
significativo, ao lado deste da noite com a água, é o da água e da
cabeleira que, pela fluidez, participa do desaparecimento do corpo
humano e da transformação de sua natureza, indo viver no reino
encantado da sereia. É como se a natureza selvagem, que foi
cúmplice dos construtores dos países, se transformasse em inimigo
indomável e passasse a compactuar com os novos interesses
estrangeiros que vinham se introduzindo na paisagem marítima da
baía.
O milagre no mar
Em Mar morto, a narrativização da morte sinaliza também uma
invenção de vida, uma transformação de natureza e uma
desrealização de coisas fixas que possa permitir reencarnações e
vocalizações de registros culturais dispersos ou em via de extinção.
Assim se passa com o milagre final, em que Lívia não foi para a
prostituição como as outras. Lutou pelo seu direito de trabalhar e foi
enfrentar o mar para ganhar sua vida. Nesse sentido, o milagre é
que ela incorporou Iemanjá dos cinco nomes, o que significa que,
tanto as mulheres como as comunidades marginalizadas, se
associam miticamente para reverterem a situação de miséria e de
abandono.
Estrela matutina. No cais o velho Francisco balança a cabeça.
Uma vez, quando fez o que nenhum mestre de saveiro faria, ele
viu Iemanjá, a dona do mar. E não é ela quem vai agora de pé
no Paquete Voador? Não é ela? É ela, sim. É Iemanjá quem vai
ali. E o velho Francisco grita para os outros no cais:
- Vejam! Vejam! É Janaína.
Olharam e viram. Dona Dulce olhou também da janela da
escola. Viu uma mulher forte que lutava. A luta era seu milagre.
Começava a se realizar. No cais os marítimos viam Iemanjá, a
dos cinco nomes. O velho Francisco gritava, era a segunda vez
que ele a via.
Assim contam na beira do cais.
Rio de Janeiro, junho de 1936.
(AMADO, 1996, p. 256-257)
A figura mítica do mar, Iemanjá, recebeu um novo impulso que põe
em evidência uma dinâmica metafórica comportando várias
possibilidades significativas, e criando novas coesões para o efeito
simbólico da trama de Mar morto, que mostra exatamente, nos dias
atuais, como muitas mulheres, em torno da baía de Todos os
Santos, se lançam no mar para pescar, após a morte de seus
esposos.
A temática aquática constitui efetivamente um exemplo vivo e
concreto, na literatura brasileira, das tensões dialéticas das origens,
de tal forma que essas constelações semânticas em torno das
expressões de metamorfose dos elementos naturais – vento, água,
ondas, arrecifes, quebra-mar – determinam um certo caráter mítico
das culturas postas em relação em torno da BTS, funcionando como
verdadeiro núcleo produtor de sociabilidade. É assim uma relação
história/mitologia que descreve o deslocamento, com a consequente
reterritorialização dos povos africanos, através dos componentes
míticos que desmaterializam a história vivida em proveito de uma
história imaginada. E, assim, nessa literatura de predominância
neorromântica, a baía é dada como matéria impalpável, enquanto
natureza instável, composta de luz e música, mas, como um lugar
de aventura, estrada perigosa e de mistérios, contrastando com as
estradas já conquistadas do continente, permitindo a eclosão das
imprevisibilidades, aptas a mostrar as possibilidades de invenção
cultural. A escrita de Amado aparece, então, como um lugar
privilegiado de relações significantes múltiplas: oral, musical, visual,
tátil; ela tenta impedir a perda dos cantadores e contadores de
estórias, e projeta a oralidade e a musicalidade popular, condenadas
como formas de expressão inferior, no primeiro plano da memória
nacional.
Referências ALBUQUERQUE JÚNIOR., Durval. A invenção do Nordeste e outras
artes. Recife: FJN, Massangana; São Paulo, Cortez, 1999.
ARAÚJO, Jorge de Souza, Dionísio & Cia, na moqueca de dendê.
Rio de Janeiro; Relume Dumará, ; Salvador, Bahia, Academia de
Letras da Bahia, 2003.
AMADO, Jorge. Mar morto. 71. ed. Rio de Janeiro: Record, 1996.
BERND, Zilá (Org.). Dicionário de figuras e mitos literários das
Américas. Porto Alegre: Tomos; UFRGS, 2007. p. 570-576.
BRUNEL, Pierre (Org.). Dicionário de mitos literários. 2. ed. Rio de
Janeiro: José Olympio, 1998.
DURAND, Gilbert. Les structures anthropologiques de l'imaginaire.
Paris: BORDAS, 1969.
KIRIMURÉ-PARAGUAÇU. Correio da Bahia, 4 nov. 2001. Caderno
Repórter.
SALAH, Jacques. A cidade como personagem. In: FRAGA, Miriam
(Org.). Bahia, a cidade de Jorge Amado. Salvador: FCJA: Carlos
Costa Pinto, 2000. p. 85-104.
SOUZA, Gabriel Soares de. Tratado descritivo do Brasil de 1587. 5.
ed. São Paulo: Nacional, 1987.
SOUZA, Licia Soares de. Forças e fragilidades de Porto dos
Milagres: adaptação televisiva de Mar Morto. In: GODET, Rita
Olivieri; PENJON, Jacqueline (Org.). Jorge Amado: leituras e
diálogos em torno de uma obra. Salvador: Fundação Casa de Jorge
Amado, 2004. p 265-277.
_____. Formações culturais em Mar Morto e Menaud maître-
draveur. In: SOUZA, Licia Soares de; OLIVEIRA, Humberto (Org.).
Heterogeneidades: Jorge Amado em diálogo. 2. ed. Feira de
Santana: UEFS, 2003. p. 219-252.
_____. Sereia. In: BERND, Zilá (Org.). Dicionário de figuras e mitos
literários das Américas. Porto Alegre: Tomos; UFRGS, 2007. p. 570-
576.
_____. Utopies américaines au Québec et au Brésil. Québec:
l'Université Laval, 2004. (Americana).