Baía de Todos os Santos: aspectos humanos

Carlos Caroso · Capítulo 20 de 23

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Baía de Todos os Santos: aspectos humanos

Revisitando a Baía literária

 

Pedro Barboza de Oliveira Neto

 

Introdução

 

A Baía de Todos os Santos se faz representada na Literatura

brasileira nos dois sentidos do termo aqui utilizado: primeiro,

enquanto mostrada, desenhada, descrita; na segunda acepção,

como ocupando espaço, lugar de prestígio nas Letras nacionais. É

neste caminho duplo e intercorrente que revisitamos essa literatura

em autores e obras de larga difusão e que tiveram pronta

incorporação ao cânon. Inventariar exaustivamente a presença de

criadores literários da Baía e de sua cidade não é nosso intento.

Não se pode, contudo, deixar de nomear alguns nomes mais

evidentes do passado e indicar sua releitura feita por alguns

contemporâneos.

 

Antes de encetarmos essa trajetória vamos a algumas preliminares.

 

Aquilo que se chama, correntemente, de literatura brasileira engloba

várias acepções: a de texto escrito, a de uma coisa originada nos

inícios do País com a nacionalidade e, por fim, a de uma cultura

escrita, erudita, com forma de obra de arte. Comecemos pela última:

uma coisa é obra de arte e outra coisa é literatura, que também, às

vezes, é obra de arte. Cria-se um contencioso de alta e baixa

literatura, que parece despropósito, se deslocarmos a questão para

gêneros, deixarmos a noção de valor desvinculada da literatura e

modularmos essa à vigência de gostos, estilos e condições de sua

produção. Já é muita cizânia para um intróito, mas não se pare aqui

e, de chofre: não havia literatura nos começos do País, não havia

nacionalidade nem nação no início da Colônia e escritos artísticos

por aqui foram raridade até duzentos anos atrás.

Assim, melhor será separarmos o conceito de literatura daquele de

produto de ficção ou imaginação e, mais democraticamente,

aceitarmos seu largo leque para os vários gêneros de escritos

produzidos antes que esse nome – Literatura – se impusesse como

gênero e código há duzentos anos. Foi como retroativamente

incorporou-se o que se escreveu a partir do começo, do começo da

colonização. Todo escrito sobre a terra tornou-se Literatura

Brasileira; isso quando do processo da Independência.

 

Guiamo-nos por momentos que a crítica considera como

expressivos, constitutivos e estruturantes do ser e estar baianos,

dentro e fora da literatura, se possível for, neste início de milênio.

Ainda assim, quando nos alargamos na visão ao redor do instante

atual, imensa é a injustiça ao não citar muitos que fazem dessa Baía

existência maior, literária. Os que aparecem exemplificam os

ausentes.

 

Um segundo ponto: o espaço geográfico da Baía de Todos os

Santos somente se torna lugar quando possuído humanamente,

quando um olhar dele se apropria, limpa-o, moldando-o, tornando-o

mundus, incorporando-o no mundus universus, mundo varrido pelo

sujeito do olhar. É da ação humana a produção do lugar.

 

Kirimurê

 

No começo, antes da Baía, havia o Kirimurê e ele existiu enquanto

um olhar primeiro se exteriorizou na língua e cultura dos

tupinambás. O desaparecimento deles é o cataclismo da extinção

daquele mundo e o aparecimento de um outro nas asas brancas das

naus, realçadas pelo vermelho da Cruz de Cristo. Estes os

significantes do nosso ingresso periférico na cultura da mercadoria,

da lei e do peso, cuja fé era determinada por um rei de além-mar.

Afinal cujus regio illius est religio: de quem for a região, dele é a

religião e não se consentiu opinião contrária.

 

A religião que então se praticou tem o encanto da terra aberta em

presa e a grosseria imediata do proveito a ser obtido. O viés possível é a forma catequética e sua poética. É o que marca o

primeiro século da Baía e, por conseguinte, de toda a América

portuguesa. Dito de outro modo, a Baía de Todos os Santos é o polo

hegemônico da nova cultura letrada imposta aos espaços que, três

séculos depois, os românticos povoarão retroativamente como

Pindorama, Terra das Palmeiras.

 

Se no começo era a Baía, ela nunca foi vazia ou desabitada. Sem a

Baía nada foi feito de tudo que aqui foi feito. Antes da Baía, nada

existia, salvo a ilha. Foi a Ilha de Vera Cruz que pariu a Baía. A ilha

era bem maior do que as trinta léguas imaginadas por Caminha 1 e

não deu outra consequência: no ano seguinte todos os santos se

reuniram com Vespúcio para batizar a Baía e o Bom Jesus de Vera

Cruz foi morar dentro dela, em Itaparica.

 

Uma ilha é uma porção de terra cercada de imaginário por todos os

lados. Imaginário que começou a se formar bem antes de os

portugueses encontrarem uns homens nus, atraídos pela música

gaiteira de Nicolau Dias, com quem folgaram muito. Mas, tratando-

se de literatura, só quem soube disso foi o rei: os súditos apenas

316 anos depois. O que não impediu essas imagens de se

espalharem pelo mundo universo a partir das cartas de um

"descobridor da Baía", Vespúcio.

 

Sem saber-se ainda se a terra era de Santa Cruz ou Brasil, a Baía

de Todos os Santos será objeto de oferta na História da Província de

Santa Cruz e no Tratado Geral do Brasil. (GÂNDAVO, 1980)

 

No princípio, a terra era cheia de arvoredos e informe aos olhos dos

alienígenas. Para fins poéticos, ela se separa das águas com o

primeiro grande europeu naufragado no banco de Santo Antônio,

entre a Barra e Rio Vermelho: o Caramuru, assunto para Fr. José

de Santa Rita Durão (1847), mais de dois séculos depois. Mas não

dava para esperar o aprimoramento de estilos e o imaginário se fez,

repleto de fantasias, em um gênero, quiçá veraz, o das crônicas de

viagens e de permanência.

Falando da Senhora Dona Baía, impõe-se colocarmos

pressupostos: se tudo começou foi na Bahia, o que quer se chame

Literatura Brasileira, também aqui tem princípio e não tão só: a

Literatura Brasileira é baiana por muito tempo. Cria-se a

consequência: se não se pode falar da Baía de Todos os Santos

sem uma narrativa daqueles que fazem dela sujeito/objeto amoroso,

impõe-se uma história da literatura baiana. Com efeito, é o que salta

da obra de Pedro Calmon (1949): a literatura baiana é o corpo e a

alma daquela que viria ser a brasileira por metade da existência

pátria. Relendo-a, seria forçoso perguntar-se por uma historiografia

exaustiva da literatura baiana, obra de fôlego religioso e ambição

carnavalesca, que não cabe na fragilidade exígua deste texto. Assim

pois, essa Baía funda discursivamente o Brasil e aquilo que dela se

diz, como ela acontece nos textos, se transfigura ao longo do tempo,

voz e expressão da mesma sociedade que os enuncia e que,

também, é falada e silenciada neles.

 

As primeiras vozes são as da surdez extrema para o Outro do

Kirimurê: o índio não tem vez de se expressar no registro

novidadeiro da tinta falante no papel. O dono da pena,

impiedosamente, registra seu deslumbramento pela presa, a floresta

tropical e seus habitantes 'bestiais'. É a documentação do proveito a

ser tirado, desígnio contido nas entranhas da terra; estranha

hermenêutica, em que a natureza não mais traduz Deus e sim o

desejo do Eldorado. As imagens inaugurais já estavam

disseminadas, as de Vespúcio; imagens concordantes e

consonantes com aquelas de Pero Vaz de Caminha, desconhecidas

na letra por quase três séculos em que a carta ficou esquecida em

gaveta do Tombo. Outras imagens não poderiam ser, pois o desejo

de significar era o mesmo em Colombo, Vespúcio, Cabral e

patrícios.

 

O que é desejado traz consigo o medo de vir a ser conquistado. São

as imagens primordiais da aventura colonial. O desejo projeta ilhas

paradisíacas, ilhas de fartura e da fraternidade. Tudo como espelho

oposto da penúria, do controle opressivo, da violência anárquica e

tiranias medievais. O novo mundo, nossas terras, inspirou a ilha de Utopia do chanceler martirizado Tomas Morus. Gândavo descobrira

nos fólios da Torre do Tombo aquilo que narra como visto e visível.

 

Mas a poética chegará aos últimos filhos de Kirimurê, aos primeiros

mestiços, caboclos, aos primeiros mazombos e ao colonato reinol,

via literatura dramática: em texto de ficção teatral, encenada em

uma "tremenda festa de arromba", dir-se-ia tropicalisticamente

quatrocentos anos depois. Foi quando a capital da América

portuguesa parou para ver, ouvir e maravilhar-se com a encenação

do texto do Auto das onze mil virgens, no espaço sazonalmente

batizado de Circuito carnavalesco Batatinha, nas nossas coevas

bacanálias. Os jesuítas penduraram coros de curumins nas sacadas

das casas das ruas do Palácio, da Misericórdia e da Sé, iluminadas

por milhares de lanternas. Um navio cheio de virgens capitaneadas

por Santa Úrsula e S. Maurício, puxado sobre rodas, circulou pelo

centro e a efeitos especiais de tiros de trabucos [...] O demônio foi

expulso por uma noite dessa Terra de Santa Cruz. Nunca mais se

viu igual no coração da Baía, desde 1583. Maravilhas de uma Baía,

outrora Kirimurê.

 

Paralelo à cura da fé, extremado era também o zelo pelo sucesso

da empreitada colonial e da real fazenda. Este o conteúdo da fábula

catequética e da crônica colonial.

 

A Baía Seiscentista

 

O século baiano é o seiscentos, com plena razão para um tempo em

que a razão se tornava ancila fidei, escrava da fé. Não era para

menos nesta cidade oficialmente portuguesa, que de tudo fazia sua

elite para parecê-lo. E a Baía não faz feia figura no cenário das

Belas Letras: os três nomes de mais projeção terão brilho aquém e

além-mar. Antônio Vieira cedo trocou de pátria, mesmo mantida a

fidelidade à metrópole e à Coroa. É expoente de uma arte hoje de

não tanto prestígio, a oratória sacra, a parenética. Sai famoso por

esse dote e pela alta cultura, formada aqui na sede da Colônia, para

ser conselheiro, embaixador e confessor real. Não bastante, exerce

o seu gênero literário também na Santa Sé e, por excelência, torna-se confidente da rainha letrada, Cristina da Suécia, em Roma,

eximindo-se da honra de tornar-se seu confessor.

 

O primeiro século da Cidade da Baía correu na inevitabilidade de

dois opostos, a virtude religiosa e o pecado. É o único modo de ser

dentro da cultura colonial. Se as reminiscências medievais, na

cultura popular, conciliavam os dois polos, de nada adiantavam as

medidas draconianas posteriores ao Concílio de Trento na terra em

que os colonos e assimilados não tinham fé, lei nem rei. Regrar o

colonato destemperado, converter o incompreensível nativo ao

temor da fé foi a tarefa da escrita jesuítica saída do Colégio do

Terreiro de Jesus.

 

Outro não poderia ser o olhar do seiscentos baiano senão o da

desmedida barroca. O tamanho dos desejos se aquilata pela

possibilidade infinita de seu desfrute dentro do sem-limite do sub

oequinotialem non peccavi e a vergasta do Santo Ofício. De novo,

reaparece a reapresentação chã do lugar – mas agora, edulcorada

pelas prescrições das belas-letras e dos dois gêneros que, hoje,

incomodariam o literato: o sermão e a carta – a parenética e a

epistolografia como formas artísticas. É a Bahia que dá, sozinha, o

diapasão, sem que haja maior acompanhamento nos restantes

estados do Brasil e no do Maranhão. Pedro Calmon denominará a

época de "Um período áureo". (CALMON, 1949, p. 38-44)

 

Baianos! Quem aqui nascia ou se deixava envolver nos atrativos

divinos ou menores, se baianizava: Antônio Vieira, Botelho de

Oliveira, Bernardo Ravasco, Eusébio de Matos e, também, em

profissão oposta à da virtude, comungando da mesma fé, mas

devotado às delícias do pecado, seu irmão, Gregório de Matos, que

ocupará cargos na metrópole e na colônia, recusando outro de alto

prestígio e temor – o de inquisidor no Rio de Janeiro – para o bom

exercício dos prazeres, do arrependimento, do louvor e da crônica

do bem viver e ser baiano primeiro na integralidade.

 

A humanidade que faz a Baía e seu entorno ocupa a maior parte da

poesia de Gregório de Matos e Guerra. São as várias faces do

poeta; místico que se entrega à contemplação bem ao modo barroco: lírico, satírico, pornográfico etc. O poeta mapeia a cidade

cabeça da Colônia em amplitude e profundidade, em uma

radicalidade desconstrutiva e até autofágica, bem próxima da

modernidade pós-freudiana. A ousadia das metáforas e dos símiles,

as comparações ferinas, sem pedir desculpas pelas apropriações

dos seus modelos, ajustam-se ao retratado, de modo que, até hoje,

caem como luva à sua cidade e ao País. Simultaneamente, a

Cidade da Baía é objeto amoroso, ocupando e abrigando todos os

papéis sociais – amante, esposa infiel, puro desejo degradado,

abrigo de reinóis aventureiros, mãe ingrata, parceira degradada e

outros. Seu soneto mais difundido faz jus à popularidade obtida,

musicado por seu cantor pós-moderno, Caetano Veloso:

 

À Cidade da Baía

 

Triste Bahia! Oh quão dessemelhante

Estás, e estou do nosso antigo estado!

Pobre te vejo a ti, tu a mi empenhado,

Rica te vejo eu já, tu a mi abundante.

 

A ti tocou-te a máquina mercante,

Que em tua larga barra tem entrado,

A mim foi-me trocando, e tem trocado

Tanto negócio, e tanto negociante.

 

Deste em dar tanto açúcar excelente

Pelas drogas inúteis, que abelhuda

Simples aceitas do sangaz Brichote.

 

Oh se quisera Deus, que de repente

Um dia amanheceras tão sisuda

Que fora de algodão o teu capote!

 

(MATOS, 1968, p. 428)2

 

Bem visitado pela crítica, este soneto eleva ao melhor tom lírico sua

paixão zelosa por sua cidade; paixão esta também fungível pelo

tempo. O sentimento de época, de inconstância do mundo, é inarredável: a figura feminina da Cidade e a da topografia

frequentada pelo grande comércio estrangeiro, o reino da

mercadoria e o sentimento de sua própria alienação no tempo

fundem-se: "A mim foi-me trocando, e tem trocado/ Tanto negócio e

tanto negociante./" A perfeição do poema fecha-se na imagem do

paraíso perdido, na tópica medieval renovada de um passado

sempre melhor: "Oh, se quisera Deus que de repente/ Um dia

amanheceras tão sisuda/ Que fora de algodão o teu capote".

 

Esse paraíso tem desenho forte no desejo malcomportado do

homem cindido entre Deus onipresente e o pecado necessário à sua

misericórdia.

 

Os poemas são emblemáticos da licença colonial de uma Bahia

acima de qualquer culpa; mesa e cama fartadas em carnes,

mulheres, casos picarescos, graciosos, libidinosos e obscenos. A

vida desregrada do clérigo défroqué ocupa, com efeito, boa parte de

seu estro. Não lhe escapam freiras, escravas alheias, crioulas,

cabrochas, caboclas, damas e "donas", prostitutas, desafetos e

vítimas de seu desapreço verrino; de autoridades aos adventícios e

à aristocracia mestiça. Uma larga etnografia jorra de seu texto, na

sua margem recorrente, o que não diminui o valor poético do baiano

a quem não é excessivo atribuir a fundação de nossa lírica. Ao

contrário, funda-se também o registro da cidade em festa, do folgar

a múltiplos pretextos, em profecia do que continuará a dominá-la no

século XXI, estampada na festa do Entrudo.

 

Aceitarmos nosso barroco, em todas as suas manifestações, todas

elas imbricadas nas outras, como vivência constitutiva da

comunidade – complexa, assimétrica e injusta –, apropriado que foi

em uma nova cultura de ampla penetração social, parece proposta

desafiadora para qualquer hipótese da formação literária e política

nacional, que deseje abarcar as vozes dos vários sujeitos sem

mistificar as condições de produção do discurso obliterador dos

seus coevos. A outra face, a obliterada, a visão a partir da ótica dos

excluídos somente será possível também pela via do imaginário e sua alocação também na Bahia dar-se-á na produção modernista e

contemporânea.

 

O sucessor comportado do poeta estroina, Manuel Botelho de

Oliveira, mesmo vivendo em Portugal, situará a Baía como uma das

suas preocupações, lembrado que será como o mais famoso filho

da Ilha de Maré. Para não deixar desacompanhado o religioso

Vieira, também será conviva do Parnaso da rainha Cristina.

 

As "Letras" baianas têm largo repertório no século dezessete,

relacionado por Calmon, e de que sobressaem hoje Sebastião

Rocha Pita com a sua História da América portuguesa, a

contribuição das academias, a Brasílica dos Esquecidos e a

Brasílica dos Renascidos que, na opinião de Antonio Candido, são

delimitadoras das novas condições que tornariam possível a

emancipação literária do País.3 Por sua vez, Haroldo de Campos

dará importância central à obra de Gregório e ao Barroco na

"formação da Literatura Brasileira", na sua crítica à obra maior de

Candido. 4

 

Reafirmando as imagens fundadoras do lugar, Botelho de Oliveira

(1953, p. 125-136) nos deixa a sua Silva à Ilha de Maré:

 

Jaz em oblíqua forma, e prolongada/ A terra de Maré toda

cercada/ De Netuno, que tendo o amor constante,/ Lhe dá

muitos abraços por amante,/ E botando-lhe os braços dentro

dela/ A pretende gozar, por ser mui bela./ Nesta assistência

tanto a senhoreia,/ E tanto a galanteia,/ Que do mar de Maré

tem o apelido,/ Como quem preza o amor de seu querido.

 

A "Silva" se inicia pela apresentação da terra e enumeração das

belezas naturais e excelências – "as fruitas" e estende-se pelas

espécies marinhas. Botelho, usando topos mitológico, vai ao

"fundamento" mítico da ilha. Começa pela sensualidade: Mar de

Maré, o apelido / que por amor do seu querido / [...] Netuno, deus do

mar está "metendo os braços dentro dela, "a pretende gozar por ser

mui bela". Funda-se a Ilha em um erotismo primordial. Netuno e Vênus estão aí nessa terra de "Maré, que é termo da Baía" e a Baía

é apenas metonímia do Brasil, pequeno apelido do Brasil.

 

Os termos de comparação são sempre superlativos; em tudo Ilha de

Maré supera a metrópole e outras partes do mundo. Supera não

apenas naquela natureza comum do Velho Mundo e à Ásia, como

também pelo que ali não existe. A Ilha de Maré recupera o labor dos

primeiros cronistas, inserindo-a na figuração barroca, pela

apropriação da temática camoniana dos cantos finais dos Lusíadas.

Eneida Cunha (2006a, p. 46-47), partindo de uma indicação de

Sérgio Buarque de Holanda, propõe uma releitura do poema a partir

dessa relação intertextual.5 Botelho imita Camões; de uma parte,

insere seu poema em uma série poética e, de outra, preenche a

lacuna dos Lusíadas, mostrando a excelência da periferia colonial

sobre o centro metropolitano: Maré-Baía-Brasil é sempre mais do

que Citereia, a Ilha de Vênus, oferecida aos bravos conquistadores

das Índias para desfrute da exuberância das ninfas dadivosas. Para

a ensaísta baiana, Botelho faz um deslocamento simbólico e estaria

reposicionando poética e politicamente a pátria, parcela do império

português. Estaria, assim, indo além das marcas de uma primeira

brasilidade, nativista, imposta pela leitura romântica e, sim,

modificando o acontecimento discursivo do século XVI pelo do

século XVIII. Em outros termos e, para o que aqui se propõe: Brasil,

o maior e melhor, dentro do império colonial.6

 

O poema reverbera a fundação da Ilha. "Esta ilha de Maré/ ou de

alegria/ que é termo da Baía / É do Brasil todo/ breve apodo."

 

A estrofe da Silva bem encerra a pretensão significante do primeiro

poeta nascido no Brasil a assistir os seus versos publicados.

Botelho, como já dito, homem de trânsito nas belas-letras em

Portugal e em Roma, tem a felicidade de retomar a ideia da Ilha, de

um lado remetendo-a à convenção de antiguidade clássica e, de

outro, explorando as potencialidades do peculiar brasileiro.

 

Não se pode desprezar, em qualquer leitura, a reapropriação dos

temas edênicos. O Paraíso é aqui; não em Portugal ou em Pamona, nem em Chipre-Citereia. Os motivos edênicos estão presentes na

crônica colonial da mesma forma como, em crescendo, e via

mediação francesa, reaparecerão no Arcadismo e no Romantismo

brasileiros.

 

Apontado como de mau gosto, o poemeto de Botelho, exorbita no

azo moralista a cada estrofe, exercitando, avant la lettre, um

arcadismo que ainda tardaria a chegar em Portugal. A Música do

Parnaso de Botelho frequentara a Academia da rebelde rainha

sueca. Não se estranhe tanto docere cum delectare. Mais um

baiano na vanguarda, ainda que colonial.

 

Imitação da 'Silva à Ilha de Maré', a Descrição da Ilha de Itaparica,

de Frei Santa Maria Itaparica (1953b, p. 170-193), decalca os

motivos descritivos de sua matriz – Camões e Botelho:

 

Cantar procuro, descrever intento,/ Em um Heróico verso e

sonoroso,/ Aquela que me deu o nascimento,/ Pátria feliz, que

tive por ditoso:/ Ao menos co'este humilde rendimento/ Quero

mostrar lhe sou afetuoso,/ Porque é de ânimo vil e fementido/ O

que à Pátria não é agradecido.

 

Santa Maria Itaparica reproduz os mesmos motivos edênicos,

enumerados de modo decoroso dentro da imitação classicista e, na

sua imitação da Ilha de Maré de Botelho, é econômico na descrição

das maravilhas do Recôncavo. Não deixa de enfatizar, na última

estrofe, a filiação dessas terras à deusa do amor, como já fizera

Botelho de Oliveira (1953a): "Se a Deusa Citeréia conhecera/ Desta

Ilha celebrada a formosura,/ Eu fico que a Netuno prometera/ O que

a outros negou cruel e dura:/ Então de boa mente lhe oferecera"

 

É a Baía como significante tirânico nos vários discursos que versem

sobre as imagens da fundação do Brasil que vamos encontrar tanto

em Manoel Botelho de Oliveira como em Santa Rita Durão. O poeta

mineiro, já deslocada a sede da Colônia para o Rio de Janeiro, vai

buscar no náufrago bem-sucedido do Rio Vermelho e em sua

parceira aborígene o casal edênico da diferença brasileira. É o

mundo épico academicista de Diogo Álvares Correia, da índia cristianizada Catarina Paraguaçu e da infeliz Moema, relido pela

ótica afrancesada do bom selvagem. Note-se que o frade poeta teve

o péssimo gosto de salvar o Caramuru e afogar a cunhã

apaixonada.

 

Funda-se a nação mestiça e portuguesa com a cidade da Baía; é o

que Santa Rita Durão quis dizer escrevendo sua epopeia, em que o

herói primordial faz protestos de fidelidade às quinas.

 

Castro Alves

 

A grande figuração da existência social da Cidade da Baía no século

XIX, presença poética de pronto reconhecida, é inegavelmente

Castro Alves. Se, de um lado, não se prende à representação

especular da paisagem ou dos tipos humanos locais, por outro, traz

à cena a grande presença obliterada nas letras dos séculos

anteriores – o negro como personagem e sujeito. O empréstimo

retórico bem serve para reverter as posições argumentativas que

justificaram simbolicamente o sistema servil: as figuras da origem

divina da desigualdade dos homens e a oratória sagrada, aí incluído

Vieira na sua justificação da escravatura, são interpeladas. A

posição das letras baianas, fundadas no espelho da dominação

colonial e suas contradições, é alterada para modificar para sempre

a poesia social brasileira: a retórica civil e civilizadora contra a

parenética e o obscurantismo perverso. Vozes d'África e Os

escravos, legitimamente, nascem da experiência libertária baiana

para ecoar em toda a nação, confirmando a afirmação de Botelho de

que a Baía é metonímia de Brasil. Com uma diferença significativa,

apenas: em vez do Paraíso tropical, o inferno é aqui, para os

deserdados bíblicos.

 

Viajante do final do mesmo século, Euclides da Cunha apresentará

uma baía pictórica, com laivos românticos, para seus leitores

sulistas, minimizada em comparação ao Sul:

 

Depois de quatro longos dias e quatro longas noites de

verdadeira tortura, subo afinal pela primeira vez à tolda do

vapor na entrada arrebatadora da Bahia. [...] É a admiração

perene e ruidosa pela nossa natureza extraordinária e

belíssima. [...] é singular que encontre aqui o observador a

mesma beleza, sob aspectos mais brandos de serras

arredondando-se em linhas que recordas as voltas suavíssimas

de volutas e afogando-se no espaço sem transições bruscas

entre o verde glauco dos mares e o azul puro dos céus.

 

A ilha de Itaparica à nossa esquerda, ridente e envolta na onda

fulgurante da manhã, desdobra-se pelo seio da baía, revestida

de uma vegetação opulenta e indistinta. (CUNHA, 1975, p. 2-3)

 

Xavier Marques

 

O deslocamento de sentido trazido pelo poeta condoreiro terá

continuidade nas décadas seguintes e início do século XX com a

ficção de Xavier Marques. O autor itaparicano, bem ao gosto da

figuração ornamental, retratará os tipos humanos do Recôncavo em

variadas fases de sua ficção histórica. Compartilhando das

preferências marinhas com o poeta Artur de Salles, povoará sua ilha

e a costa com personagens em idílios amorosos iluministas e nos

afazeres do mar, além de explorar as tradições das lutas pela

Independência, em uma mesma topografia ficcional depois trilhada

por João Ubaldo Ribeiro.7

 

Já o século XX será afortunado no romance e, de novo, a

contribuição baiana se antecipa ou, pelo menos, acompanha o

instante renovador da década de 30 com as primeiras obras de

Jorge Amado, que constitui matéria a ser tratada à parte, bem como

a de João Ubaldo Ribeiro. 8

 

A movimentada atividade gregária da intelectualidade da Cidade da

Baía no século de Xavier Marques e Jorge Amado é bem

visualizada na valiosa coletânea de depoimentos de criadores

baianos, organizada por Valdomiro Santana, Literatura baiana:

1920-1980, que dá continuidade cronológica ao estudo de Pedro

Calmon.9 Os comentários coligidos cobrem a vida literária

soteropolitana após a fundação da Academia de Letras da Bahia,

contemplando os vários grupos congregados dentro e fora dela, em

torno de revistas e da boêmia: as revistas Arco e Flexa, Ângulos,

Serial e outras, além da interface criadora da literatura com o

cinema de Glauber Rocha.

 

Gregório de Matos

 

Como antes declarado, recorremos aos contemporâneos apenas

para acompanhar sua releitura da temática da Baía e da simbólica

de seus predecessores. Este é o objetivo da seleção dos textos que

aqui adiante figuram.

 

A vivência do poeta brasileiro na contemporaneidade dá-se,

irremediavelmente, como a remissão de uma anterioridade

fundadora, inescapável do ser baiano. Gregório de Matos faz-se

presente nessa nova poesia, que se recusa a ser imediata

representação da existência. A sua mimese e apropriação repetem

o gesto da poética que o compreendia, com maior largueza e, como

moderna, crítica. Por outra parte, a releitura traz aquela primeira

poesia para uma outra representação, a de uma essencialidade

majorada da figuração da Baía de seu tempo, vista agora como a

mesma condição humana sob outra ótica. É o que faz Myriam Fraga

em "Sete poemas de amor..." relendo simultaneamente Gregório e

Bandeira. O outro silente no século XVII é que tem voz e não

oblitera a do amante. Seu discurso é tecido sobre o dele. A voz

poética é agora a da esposa desejada, que não é apenas objeto da

paixão do poeta; é sua voz amorosa e inconformada que apostrofa o

poeta libertino, à sua partida para o degredo em Angola:

 

Como posso, meu Poeta,

Nesta hora,

Desvendar em silêncio

Teus segredos

Inventando entrelinhas

Na escritura

Vacilante e indecisa

De teus dedos?

[...]

 

Uma cidade é como gente

Que se alisa e maltrata,

Como uma fêmea deitada

Que o amante navega e sente.

(FRAGA, 1996, p. 45-46)

 

A recuperação poética dessas vozes recalcadas é o que salta,

trezentos anos depois, do verso da poeta, na expressão da voz

feminina silenciada naquela sociedade e pela existência colonial e

barroca.

 

A atualidade da BTS

 

Na atualidade, a Baía de Todos os Santos se vê representada nas

mais variadas formas, desde a tematização de identidades grupais

àquela mais voltada para a estetização dos motivos da Baía e das

ilhas na poesia. Assim, faz-se contemporânea do sujeito comum que

a produz, que transformou o espaço físico em lugar de existência e

desejo: seu povo miscigenado nas cores da cultura de variadas

origens étnicas. É dessa maneira que a poesia dos fundadores da

baianidade poética se torna inamovível, sob qualquer releitura,

inclusive nos silêncios do Outro de si mesmo que, agora, os

realocam, revertendo e expressando uma identidade que se

completa nesses gestos de discurso e escrita, que continuam a

refundar o Brasil e transfiguram o Kirimurê. Exemplo disso são as

reescritas das representações da formação nacional na literatura,

seja no atuante João Ubaldo Ribeiro, seja na visitação da Baía

como um topos geográfico e literário homologador da "verdade"

ficcional. É o que fará Ana Maria Gonçalves (2009), já no novo

milênio, em Um defeito de cor. A personagem narradora tem sua

voz resgatada através de um "manuscrito encontrado em" Itaparica,

mais precisamente em Amoreiras. 10 O que persiste sob as novas

representações é a imagem do paraíso terreal, buscado desde o

início, e que, seguramente, será encontrado por quem "a tua larga

barra, tem entrado". Mesmo em tempos pós-críticos, em que todo o

sonho se esvai e o próprio sonhar já é crítica de discurso, quando já

esvaída Pindorama e visitada a África, ainda restará a Cidade e sua

Baía, bacia, ou "útero e claustro", nos versos da poeta.

 

Referências

 

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baiano no século XX. Itabuna; Ilhéus: Via litterarum, 2008.

 

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SOUZA, Lícia Soares de. (Org.). Dicionário de personagens

afrobrasileiros. Salvador: Quarteto, 2009.

 

1 "Esta terra, Senhor, me parece que da ponta q mais cont o sul

vimos ataa out ponta q cont o norte vem de que nos deste porto

ouvemos vista/ sera tamanha que avera neela bem xx ou xxb legoas

per costa./ toda chaã e mujto chea de grandes arvoredos/".

(CASTRO, 1996. p. 58).

 

2 Ver também Alfredo Bosi (1995. p. 94-118).

 

3 "Já que é preciso um começo, tomei como ponto de partida as

Academias dos Seletos e dos Renascidos e os primeiros trabalhos

de Cláudio Manuel da Costa, [...]". (CANDIDO, 1975. p. 25)

 

4 "Nossa literatura, articulando-se com o Barroco, não teve infância

(in-fans, o que não fala). Não teve origem "simples". Nunca foi in-

forme. Já nasceu adulta, formada, no plano dos valores estéticos,

falando o código mais elaborado da época." (CAMPOS, 1989. p. 64)

5 Ainda na mesma obra de Cunha (2006, p. 49-81), A fé, o império e

as terras viciosas.

 

6 A representação da totalidade do nacional pela insularidade é

comentada na obra de João Ubaldo Ribeiro por Rita Olivieri-Godet

(2005b, p. 49-97).

 

7 Afirma Gumercindo Dórea sobre o prosador itaparicano: "Uma

outra exceção é inegavelmente Xavier Marques, cuja obra de ficção

se biparte no quotidiano e no histórico, seja em Jana e Joel ou n'O

sargento Pedro, em O feiticeiro ou n'As voltas da estrada, aqueles

tendo como cenário a ilha de Itaparica, e estes o continente,

avançando até o Recôncavo [...]. Antes fora Pindorama [romance,

1907]. Era preciso homenagear os quatrocentos anos de nossa

descoberta. Depois", O sargento Pedro, retratando as "tradições da

independência", e, posteriormente, As voltas da estrada, onde se

vive a decadência da aristocracia açucareira do Recôncavo, na sua

luta de sobrevivência após a abolição da escravatura" [...]

Gumercindo Dórea: Quem tem medo do romance histórico?

(MARQUES, 1976. p. ix-x)

 

8 Jorge de Souza Araújo elege setenta e sete autores para sua

crítica acurada da narrativa longa no século XX; entre eles: Ana

Ribeiro Goes de Bittencourt, Xavier Marques, Afrânio Peixoto,

Almáquio Diniz, Lindolfo Rocha, Altamirando Requião, Jorge

Amado, Hermann Lima, Nestor Duarte, Wilson Lins, Herberto Salles,

Adonias Filho, Euclides Neto, James Amado, Ariovaldo Matos, Elvira

Föeppel, João Ubaldo Ribeiro, Antônio Torres, Guido Guerra,

Marcos Santanrrita, Ildásio Tavares, Sônia Coutinho, Judith

Grossmann, Helena Parente Cunha, Ruy Espinheira Filho e Oleone

Coelho Fontes. (Cf. ARAÚJO, 2008).

 

9 Confira Santana (2010). A coletânea reúne ensaios e depoimentos

de Jorge Amado, Vasconcelos Maia, Florisvaldo Matos, José Carlos

Capinan, Guido Guerra, Ruy Espinheira Filho, Getúlio Santana,

Myriam Fraga e Roberval Pereyr, Juraci Dórea e Antônio Brasileiro,

entre outros.

10 Eurídice Figueiredo sumaria a estória da heroína que narra sua

vida, a infância no Daomé, a vinda como escrava para Itaparica, a

liberdade em Salvador, a realização pessoal, a procura do filho

vendido como escravo pelo pai, a volta voluntária à África e as

notícias do filho como abolicionista famoso. Um defeito de cor, na

leitura da crítica, dialoga amplamente com a obra de João Ubaldo

Ribeiro, Gilberto Freyre e Pierre Verger. (Cf. FIGUEIREDO, 2009, p.

180-186)