Baía de Todos os Santos: aspectos humanos
Baía de Todos os Santos: uma visão da Geografia Histórica
Baía de Todos os Santos: uma visão
da Geografia Histórica 1
Pedro de Almeida Vasconcelos
Qual é a contribuição que a perspectiva da Geografia Histórica
poderá trazer para um debate sobre a Baía de Todos os Santos?
A Baía de Todos os Santos poderá ser tratada como um pequeno
Mediterrâneo, numa referência ao grande historiador Fernand
Braudel, que colocou uma área geográfica como tema central de
sua tese, tendo estudado inicialmente o meio no tempo geográfico,
ou seja, a história quase imóvel; seguindo com os movimentos de
conjunto, através do tempo social e concluindo com a história dos
acontecimentos, dos tempos rápidos.
Na longa duração, a baía foi palco de eventos importantes, desde os
combates entre os tupinambás, nas suas grandes canoas aos
ataques de navios holandeses e de esquadras luso-espanholas
enviadas para a defesa da cidade, assim como do cerco das tropas
portuguesas pelas tropas brasileiras nas lutas pela independência,
entre outros eventos que a História registra.
Uma primeira questão pode ser colocada, inspirando-se em Albert
Demangeon (1933, p. 12), quando afirmou que não foi o rio Sena
que trouxe vida a Paris, mas foi a capital francesa que fez do rio
Sena um via frequentada: a Baía de Todos os Santos é importante
por causa de Salvador ou Salvador é importante por causa da baía?
O fraco desenvolvimento do entorno da Baía de Camamu poderá
ajudar a responder esta questão.
Diferentes perspectivas podem ser analisadas na Geografia
Histórica, a partir de uma periodização proposta neste caso em três
etapas, embora com mais destaque para a primeira.
Período de navegação à vela (1501 – c1840)
Localização
Como consequência do Tratado de Tordesilhas de 1494, no espaço
que ficou definido como América Portuguesa, a Baía de Todos os
Santos assumiu uma posição central no litoral ocidental do Atlântico
sul. A facilidade de navegação para a metrópole, devido à relativa
proximidade do continente europeu e às correntes favoráveis,
certamente influenciou a decisão da Coroa portuguesa em fundar a
capital colonial no seu entorno, em 1549. No Regimento de Tomé de
Souza, está registrado:
[...] ordenei... fazer uma fortaleza e povoação grande e forte...;
e por ser informado que a Bahia de Todos os Santos é o logar
mais conveniente da costa do Brazil para se poder fazer a dita
povoação e assento, assim, pela disposição do porto e rios que
nelas entrão, como pela bondade e abundancia e a saúde da
terra e por outros respeitos; hey por meu serviço que na dita
Bahia se faça a dita povoação e assento [...] . (AMARAL apud
SILVA, 1919, t. 1, p. 263)
Sua localização e importância transformaram também o porto de
Salvador em uma etapa em direção às Índias, e posteriormente, em
porto negreiro com relações diretas com o continente africano.
Dimensão
Uma primeira dificuldade nesse tema vem das imprecisões
terminológicas: em princípio, um golfo é maior que uma baía, porém
o maior acidente geográfico desta natureza é a denominada Baía de
Bengala.
De fato, a dimensão é uma vantagem da Baía de Todos os Santos:
podia abrigar importantes esquadras navais. Já em publicação de
1576, Pero Gandavo (1980, p. 89) informava que a Capitania tinha "
[...] uma Bahia mui grande e fermosa..., que podem entrar seguramente quaesquer náos por grandes que sejão: a qual he tres
legoas de largo, e navega-se quinze por ella dentro". Um viajante
francês, Dellon, em 1687, comentava que "[...] la baie, dont le fond
est très bon partout et qui est capable de contenir plusieurs milliers
de vaisseaux". (DELLON, 1997, p. 247) O ufanista Rocha Pita,
também elogiou a baía, na sua História da América Portuguesa, de
1724, como "um dos maiores golfos do mundo [...], com três léguas
de boca, doze de diametro e trinta e seis de circunferência". (PITA,
1976, p. 46)
Por outro lado, essa dimensão apresentava aspectos negativos: Frei
Vicente de Salvador, em sua História do Brasil, de 1627, já
comentava que "só tem um senão que é não se poder defender a
entrada dos corsários, porque tem duas bocas ou barras uma dentro
da outra". (SALVADOR, 1965, p. 125) Essa dificuldade teria sido
uma das justificativas para a instalação da corte de D. João VI no
Rio de Janeiro, em 1808, tendo em vista as facilidades de defesa da
entrada da Baía da Guanabara.
Profundidade
Além da dimensão, a profundidade e a existência de canais
navegáveis, até hoje, permitem a sua utilização por navios de
grande porte, como já foi comentado por Dellon, em 1687.
Eventos importantes ocorridos na baía
Uma série de eventos ocorreu na baía, correspondentes à história
dos acontecimentos braudelianos, sobretudo, em função das
invasões holandesas no século XVII e das lutas pela independência,
o que corresponde a tempos densos da história. (VASCONCELOS,
1999)
Figura 1, 2 e 3 – Representações cartográficas da Baía de Todos os
Santos.
Em 1587, três navios ingleses bombardearam a cidade, tomaram
navios no porto e atacaram o Recôncavo, quando foram repelidos.
Em 1599, sete navios holandeses pilharam o Recôncavo durante 55
dias e em 1604 outros sete navios tomaram um navio mercante no
porto e incendiaram outro. (VARNHAGEM, 1962 apud
VASCONCELOS, 2002, p. 31) Em 1613, um barco com 200 homens
foi afundado, em combate contra seis naus francesas. (RUY, 1953
apud VASCONCELOS, 2002, p. 31) Porém, o evento mais
importante ocorreu em 1624, quando uma frota da Companhia das
Índias Ocidentais, dos Países Baixos, composta por 26 navios (13
do Estado e 13 dos mercadores), trouxe 3.000 homens "de mar e
guerra" (GUERREIRO, 1954 apud VASCONCELOS, 2002, p. 31)
para a ocupação de Salvador, o que durou cerca de um ano. No ano
seguinte, uma enorme esquadra luso-espanhola composta de 66
navios (dos quais 26 portugueses) e mais de 12.000 homens (sendo
4.000 portugueses) veio libertar a cidade. Em 1638, outra esquadra
holandesa, com 40 navios e 8.000 homens, vinda de Recife e comandada pelo príncipe Mauricio de Nassau, tentou uma nova
ocupação da cidade, após 60 dias de assédio, mas foi derrotada.
(PITA, 1976, p. 130) O novo governador, o Conde da Torre, chegou
com outra enorme frota de 87 navios e 14.000 homens, mas já
encontrou a cidade liberada. (AMARAL, 1941 apud
VASCONCELOS, 2002, p. 32) Em 1639, 20 navios holandeses, com
2.500 homens devastaram o Recôncavo e incendiaram 27
engenhos de açúcar. (AMARAL, 1925 apud VASCONCELOS, 2002,
p. 32)
Em 1647, 44 navios holandeses, com 4.000 soldados, ocuparam
provisoriamente a ilha de Itaparica e, dessa base, continuaram
devastando o Recôncavo. O último ataque holandês ao Recôncavo
foi realizado em 1649 com a destruição de mais de 30 engenhos.
(ACCIOLI, 1925 apud VASCONCELOS, 2002, p. 32) Em 1805, uma
enorme esquadra inglesa de 60 velas aportou secretamente em
Salvador, com destino ao Cabo da Boa Esperança, visando à
ocupação daquela colônia holandesa. Em 1808, uma esquadra
francesa foi abastecida por cinco comerciantes locais, num
montante de 24:000$000 réis. (ACCIOLI, 1931 apud
VASCONCELOS, 2002, p. 126, 139)
Com as lutas pela independência na Bahia, em março de 1823, o
porto de Salvador foi bloqueado pela esquadra brasileira, mas em
abril chegaram ainda 2.500 soldados portugueses (Cf. ACCIOLI,
1931 apud VASCONCELOS, 2002, p. 127) e ocorreram combates
navais. (AMARAL, 1941 apud VASCONCELOS, 2002, p. 127) Em
julho de 1823, as tropas portuguesas e parte dos comerciantes
lusos retiraram-se de Salvador numa esquadra de 71 navios, sendo
41 mercantes e 30 de combate. (SILVA, 1986 apud
VASCONCELOS, 2002, p. 127)
O comércio externo
Até o final do período, Salvador era o principal porto da América
Portuguesa. Importantes frotas aportaram no porto de Salvador.
Um sistema de frotas foi iniciado em 1649 junto com o
estabelecimento da Companhia do Brasil pela Coroa portuguesa.
Ela contava com 36 navios de guerra mantidos pela Companhia
para a defesa dos ataques dos holandeses assim como dos vários
corsários e piratas. Os navios deixavam o Rio de Janeiro nos finais
de março, carregavam mais açúcar em Salvador em abril e
chegavam a Lisboa em julho ou agosto. (BROWN apud SILVA,
1994, p. 358) A chegada das frotas e sua estadia com o embarque
de mercadorias causavam grande movimentação na cidade. Dados
de 1781 registram 40 navios saídos do porto de Salvador para
Portugal. (ACCIOLI, 1925 apud VASCONCELOS, 2002, p. 138) O
sistema de frotas foi encerrado pela administração pombalina em
1765, mas foi ainda restabelecido no período de 1797 e 1801.
(BOXER, 1992 apud VASCONCELOS, 2002, p. 125) Também em
1815 foi encerrada a "Carreira das Índias", sistema de navegação
que tinha Salvador como uma das etapas. (LAPA, 1968, p. xv)
Em 1808, ocorreu a abertura dos portos para os navios das nações
aliadas, o que acabou com o monopólio colonial e ampliou a
movimentação de navios na Baía de Todos os Santos. Os viajantes
Spix e Martius, em 1818, comentaram também que "[...] o número
de navios, que anualmente entram no porto da Bahia, e dela saem,
avalia-se hoje, excetuando as embarcações pequenas, em mais de
2.000". (SPIX; MARTIUS, 1981, p. 148) Em 1827, o domínio do
comércio marítimo passou para os navios ingleses: 122 dos 150
navios entrados no porto eram daquela nacionalidade. (PINHO,
1977 apud VASCONCELOS, 2002, p. 186) Em 1839, Salvador foi
considerado como o segundo porto da América do Sul pelo viajante
Kidder (apud VASCONCELOS, 2002, p. 194).
Comércio interno
Além dos produtos de exportação, o fornecimento de alimentos para
a cidade também fazia parte do importante fluxo na baía. Gabriel
Soares de Souza, já informava, em seu tratado de 1587, da
existência de 1.400 embarcações, sendo "100 mui fortes", com 45 a
70 palmos de quilha, 800 embarcações com 34 a 44 palmos de quilha, além de 300 barcas e 200 canoas. (SOUZA, 1987, p. 63)
Diogo de Campos Moreno, que tinha uma visão de conjunto, em
1612, confirmava esta importância: "[...] nesta Bahia só, há mais
embarcações que em toda a costa, de barcos e caravelões e outros
muitos... para o carreto de canas e lenhas". (MORENO, 1955, p.
140) No século XVIII, Rocha Pita confirmava que mais "[...] de 800
[barcos], sendo quase dois mil os que cursam a sua carreira". (PITA,
1976, p. 46) O contrabandista inglês Lindley comentou, na sua
estadia de 1802 e 1803, que o comércio interno era realizado por 40
navios de 250 toneladas cada um, e o das imediações era efetuado
por 800 lanchas e sumacas, "[...] uma riqueza, em grau
desconhecido na Europa, é assim posta em circulação". (LINDLEY,
1969, p. 171)
Os dados sobre os marinheiros, disponíveis no censo de 1775,
registram um total de 678 marinheiros forros e 1.227 escravos para
o conjunto da Capitania, sendo que as freguesias de Conceição da
Praia e do Pilar, situadas na Cidade Baixa de Salvador,
concentravam um total de 521 forros e 326 cativos. (COSTA, 1965)
O tráfico de escravos
A Baía de Todos os Santos foi palco do secular comércio de
escravos, que se tornou direto entre Salvador e as costas africanas.
Essa vinculação direta vai contra a ideia dominante de um tráfico
triangular. Por outro lado, o enorme lucro realizado nessa atividade
ficava no Brasil, o que não corresponde a uma "exploração colonial"
e permitia uma acumulação local de capitais.
A elevação dos preços de escravos no período posterior à
descoberta de ouro nas minas gerais, de 40.000 para 200.000 réis
em 1723 (Cf. AZEVEDO, 1988 apud VASCONCELOS, 2002, p. 92),
aumentou enormemente o lucro realizado pelos traficantes. Este
lucro ampliou-se diante do virtual monopólio do tráfico, entre 1752 e
1756, pelos 40 negociantes da Bahia e 20 de Pernambuco, através
da limitação da utilização de apenas 24 navios para o tráfico
negreiro. (PINHO, 1982, p. 312) Em 1759, Caldas relacionou 28
negociantes de Salvador que traficavam com a África, tendo informado que 28 navios haviam viajado para a Costa da Mina e 12
para Angola, levando 80.000 rolos de fumo, principal mercadoria
regional trocada com os fornecedores de escravos do continente
africano. (CALDAS, 1931 apud VASCONCELOS, 2002, p. 86)
Esse monopólio era tão amplo que levantava reclamações do
Conselho Ultramarino português, como nas instruções de Martinho
de Mello e Castro para o Marquês de Valença, de 1779, o que
novamente vai contra a ideia de uma colônia "explorada" pela
metrópole:
Gravíssimos inconvenientes... a este Reino, em deixarmos o
commercio da África, entregue nas mãos dos Americanos, lhes
permittimos particularmente aos habitantes da Bahia e
Pernambuco, huma ampla liberdade de poderem fazer aquella
navegação e negociar em todos os portos daquelle Continente,
não nos lembrando de acordar ao mesmo tempo... tivessem os
portuguezes a preferência, da mesma sorte que a Capital e os
seus Habitantes a devem sempre ter em toda a parte sobre as
colônias e habitantes dellas. (AMARAL, 1937 apud
VASCONCELOS, 2002, p. 139-140)
O ministro continuava: "apropriarem-se alguns homens de negocio,
da Bahia, de todos os navios do commercio daquelle porto para a
Costa da África e fazerem dele hum rigoroso monopólio", além do
contrabando de fazendas estrangeiras. (CALDAS, 1931 apud
VASCONCELOS, 2002, p. 140)
Dados disponíveis para o período confirmam a importância do
tráfico para a economia baiana: em 1797 foram importados escravos
da Costa da Mina e de Angola para a Bahia, num valor total de
412:020$000 réis. No mesmo ano, o fumo exportado para a Costa
da Mina alcançou 245:532$000 réis. (AMARAL, 1931 apud
VASCONCELOS, 2002, p. 140) Embora outros produtos também
fossem trocados pelos escravos na costas africanas, essa enorme
diferença já dá uma ideia dos lucros realizados apenas na primeira
etapa da troca. No ano seguinte, Vilhena nos informou que a
importação dos escravos da Costa da Mina corresponderia a 490:300$000 réis e a de Angola a 172:080$000 réis, o que
corresponderia a 40% da exportação de açúcar no mesmo ano.
(VILHENA, 1969 apud VASCONCELOS, 2002, p. 140)
Como exemplo dos elevados lucros, temos a estimativa de que o
valor de apenas um tumbeiro, trazendo cerca de 400 escravos, ao
custo de 140$ cada, correspondia a 60 mil cruzados, o equivalente a
seis engenhos de açúcar de tamanho médio em 1800(!). (CALMON,
2002, p. 108)
Segundo Maria Graham, Salvador era o principal porto de escravos
do Brasil, tendo informado que 76 navios tinham viajado para a
África em 1820. Em 1821, ela denunciou que "um dos membros da
Junta Provisória é o maior comerciante de escravos daqui [...]".2
(GRAHAM, 1990 apud VASCONCELOS, 2002, p. 140)
Essa concentração de riqueza pode ser avaliada por um traficante,
Domingo José Martins, que adquiriu uma propriedade com 22
janelas nos Barris, que pertenceu ao Marquês de Barbacena. Nessa
propriedade ficou hospedado Jerôme Bonaparte, irmão de
Napoleão, quando de sua visita a Salvador, em 1806. (VERGER,
1981 apud VASCONCELOS, 2002, p. 140-141)
A diferença entre as exportações para a Costa da África, em 1810,
realizadas em 48 navios, no valor de 305:849$400 réis e as
importações da mesma região, no mesmo ano, de 743:181$600
réis, correspondendo ao transporte em 29 navios, alcançava um
valor de 437:332$800 (BAHIA, 1973, p. 242-247), ou seja, uma
diferença de 142%. Esses dados confirmam novamente a
lucratividade do comércio negreiro no ano dos primeiros tratados
assinados com a Inglaterra visando o final do tráfico.
A pesca
A pesca também foi sempre uma atividade importante e
complementar para a Cidade do Salvador e para a ilha de Itaparica.
Pesca tanto de baleias como de pescado, além da mariscagem. Documento do Arquivo de Ultramar registra que, em 1771, entre 120
e 130 baleias eram pescadas por ano, com 300 negros, mestiços e
brancos ocupados na atividade, sobretudo em Itaparica, com o
comentário seguinte: "[...] 3 ou 4 meses, que dura aquela pescaria,
despovoa-se grande parte da cidade... porque toda a pobreza se
acha naquele tráfico". (AMU, maço 8440, p. 254)
Dados do censo de 1775 registraram um total de 1.267 pescadores
forros na Capitania (sendo menos de 100 brancos) e 802
pescadores escravos, destacando-se Vera Cruz de Itaparica com
205 forros e 121 escravos. (COSTA, 1965, Estampa 5)
O viajante francês L. F. de Tollenare (1956, p. 291) observou, em
1817, que "todas as manhãs a baía se guarnece de 40 a 50
chalupas, que fazem de vela [sic] em busca dos cetáceos". Em
1837, o viajante G. Gardner (apud VASCONCELOS, 2002, p. 206),
tendo alugado um bote para visitar o Bonfim, informou ter passado
"por uma pequena aldeia rente do mar e cujos habitantes, pretos em
sua maioria se ocupam principalmente da pesca da baleia [...]",
certamente na freguesia da Penha. Em 1839, o reverendo Daniel
Kidder (apud VASCONCELOS, 2002, p. 203), informou ter visitado
"junto às fraldas do Morro de Santo Antônio [...] o principal
estabelecimento ligado à indústria da pesca da baleia deste porto".
Seria Santo Antônio da Barra?
Impressão dos viajantes
Os viajantes deixavam suas impressões quando chegavam à Baía
de Todos os Santos, sobretudo da primeira visão da cidade de
Salvador. Mas alguns destacaram a beleza da própria Baía de
Todos os Santos, nomeadamente a partir da visão da Cidade Alta,
como, por exemplo, o citado Tollenare (1956, p. 279), que escreveu
em 1816: "A vista da Baía de Todos os Santos é uma das mais
belas que se pode contemplar; julgo-a superior à do Tejo [...]". No
ano seguinte, tivemos a observação do príncipe naturalista alemão
Maximiliano de Wied-Neuwied (1989 apud VASCONCELOS, 2002,
p. 157), que afirmou "o panorama que se descortina da parte alta da
cidade é de beleza inexcedível [...]".
Bordos
Assim como Braudel, não podemos nos restringir apenas às
características da baía em si, mas devemos considerar também
seus bordos e margens. A profundidade e a proximidade da grande
falha de Salvador foram elementos definidores da escolha do sítio
inicial da cidade por Tomé de Souza e seus acompanhantes, no lado
leste da península, em detrimento dos lados ocidental e setentrional
da baía, em áreas baixas e de manguezais, ou em ilhas, com
maiores dificuldades de defesa e maior insalubridade.
Destacaremos as fortificações e os prédios religiosos.
Fortificações
Diante das ameaças externas, após o fim das ameaças internas, ou
seja, a dos índios que foram vitoriosos sobre o primeiro donatário,
Pereira Coutinho, uma das razões que levou a Coroa portuguesa a
fundar a Cidade do Salvador, uma série de fortificações foram
levantadas no entorno da baía, visando à defesa contra os inimigos
externos.
A partir do levantamento efetuado pelo Brigadeiro José Gonçalves
Galvão, em 1810, podemos destacar as fortificações voltadas para a
Baía de Todos os Santos, inclusive as situadas na Cidade Alta: a
bateria de São Paulo [da Gamboa] com 18 peças; o forte da Ribeira,
com 30 peças; o forte do Mar [de São Marcelo] com 46 peças; o de
São Fernando, com 11 peças; e o de Santo Alberto, com sete,
defendiam a Cidade Baixa. Na parte alta, porém voltadas para a
baía, temos ainda o forte de São Pedro, com 22 peças (lado sul), os
de Santo Antônio Além do Carmo, com 13 peças (lado norte). Mais
afastados da cidade estavam localizados os fortes de São Diogo,
com sete peças; o de Santa Maria, com 12 e o [de Santo Antônio]
da Barra, com 16, na região da abertura da Baía de Todos os
Santos. Na península de Itapagipe tinha ainda o forte de Monte
Serrat, com nove peças e o de Passagem, com oito peças
(ACCIOLI, 1933 apud VASCONCELOS, 2002, p. 129-130), o que
mostra os investimentos realizados pela Coroa portuguesa para a
defesa do importante porto e capital colonial até 1763. Outras fortificações estavam implantadas em Itaparica, o forte de São
Lourenço, construído pelos holandeses em 1647 (BAHIA, 1978, p.
62) e o pequeno forte de Santa Cruz, no rio Paraguaçu, já existente
em 1648. (BAHIA, 1982, p. 213-214)
A Igreja
A Igreja também tinha uma relação direta e indireta com a baía, o
porto e a navegação. Igrejas como a de São Pedro Gonçalves do
Corpo Santo, foi construída por um capitão espanhol em 1711
(SALGUEIRO, 1982 apud VASCONCELOS, 2002, p. 106), como
pagamento de promessa feita durante uma tempestade na Baía de
Todos os Santos. (BAHIA, 1975, p. 49-50)
A catedral da Sé de Salvador estava voltada para a baía, assim
como as matrizes da Conceição da Praia, do Pilar, da Vitória e da
Penha. Outras capelas eram voltadas para a baía como a de Monte
Serrat, com seu mosteiro beneditino, construído entre 1650 e 1679
(BAHIA, 1975, p. 74), e a de Boa Viagem, doada aos franciscanos
em 1710 (ACCIOLI, 1937 apud VASCONCELOS, 2002, p. 117), com
seu hospício construído em 1712. (AMARAL, 1969 apud
VASCONCELOS, 2002, p. 117) A capela do Senhor do Bonfim foi
construída, a partir de 1745, pelo Capitão Teodozio Rodrigues de
Farias (VERGER, 1987, p. 117), um traficante de escravos.
(VERGER, 1987, p. 96, 117) A criação da Companhia Geral da
Guiné, em 1757, destinada ao tráfico da Costa da Mina, foi proposta
pelos negociantes da Meza do Bem Comum da Bahia. Nos seus
estatutos, eles tomavam como protetor a imagem de S. José, na
capela de Santo Antônio da Barra, que contava com "irmandade
erigida entre os comerciantes da mesma Costa". (VERGER, 1987,
p. 107)
A ordem dos jesuítas, a de maior prestígio e poder no período
colonial, implantou seus estabelecimentos em frente à baía, embora
sua última igreja tenha sido construída com a fachada voltada para
o Ocidente. Os jesuítas também receberam uma sesmaria na
Cidade Baixa, e, em 1704, iniciaram a construção do seu noviciado
em Água dos Meninos. (CALMON, 1976 apud VASCONCELOS, 2002, p. 108) Eles implantaram um plano inclinado ligado à Cidade
Baixa, fazendo a comunicação com seus estabelecimentos
comerciais, os "Cobertos grandes", construídos em 1714 (BARROS,
1923 apud VASCONCELOS, 2002, p. 106), em cais próprio,
construído entre o Cais do Lixo e o do Sodré em 1737 (ACCIOLI,
1925 apud VASCONCELOS, 2002, p. 107), em terrenos aterrados
na baía, como informou o engenheiro Caldas em planta de 1777:
O caes do Sodré, na era de 1715 [...] era o que mais avançava
ao mar [...], correndo os anos [...] se foram os moradores da
praia estendendo para o mar [...], os jesuítas então senhores
daquella porção da marinha se avançarão também [...] para o
mar. A igualar com o cães do Lixo, que era o mais avançado e
correram o cães novo [...] entulhada toda a porção, que fica
entre elles e o caes da lenha que foi entrarão a fabricar
moradas de cazas de taipa, térreas [...]. (AMU, maço 9611, p.
378)
A ilha de Itaparica também contava com suas igrejas, assim como
as demais ilhas situadas na Baía de Todos os Santos, como as de
Maré, com capela construída em 1552 (BAHIA, 1975, p. 93); dos
Frades, com a capela do Loreto construída em 1645 (SILVA, 1957
apud VASCONCELOS, 2002, p. 70) e de Bom Jesus dos Passos,
com capela iniciada em 1766. (BAHIA, 1975, p. 116) Poderíamos
ainda mencionar as igrejas e conventos localizados nas cidades em
rios que desaguam na Baía de Todos os Santos, como Nazaré,
Maragogipe, Cachoeira, São Félix, Santo Amaro, além de cidades
portuárias, como São Francisco do Conde, mas alongaria bastante o
texto.
Relações com o hinterland
Tendo a base econômica inicial sido apoiada na agricultura de
exportação de produtos de alto valor, a existência de solos de
massapê no entorno oriental e norte da baía e nas margens dos rios
Subaé e Paraguaçu, permitiu a implantação de uma região
produtora de açúcar, baseada no trabalho escravo. Frei Vicente do Salvador (1965, p. 165) já afirmava que "essa baia [...] tem em seu
circuito a melhor terra do Brasil".
A existência de solos favoráveis, para a plantação do fumo e de
áreas periféricas para plantação da mandioca, permitiu outras
atividades agrícolas no Recôncavo, que estava economicamente
integrado com Salvador, cujo porto fazia o elo com o comércio a
longa distância. Uma primeira rede de cidades formou-se em torno
da baía, com destaque, além de Salvador, para as citadas cidades
de São Francisco do Conde, Santo Amaro, Cachoeira, São Félix,
Maragogipe e Nazaré. Também, em paralelo, um conjunto de
engenhos deu início à formação de uma sociedade e de uma cultura
originais.
O porte dos engenhos e sua autossuficiência resultavam numa
concorrência às cidades do Recôncavo, inclusive Salvador.
Engenhos famosos foram o de Sergipe do Conde, do governador
Mem de Sá, que, em 1569, tinha 254 escravos, dos quais apenas 19
eram africanos. (EDELWEISS, 1967 apud VASCONCELOS, 2002, p.
40) O referido engenho real de Sergipe de Conde foi analisado por
Antonil no início do século XVIII, "entre todos da Bahia o mais
afamado". (ANTONIL, 1982, p. 107) Segundo o jesuíta, quanto aos
escravos, os maiores engenhos contavam com 150 a 200 peças.
(ANTONIL, 1982, p. 75) O magnífico engenho Freguesia, era
voltado diretamente para a Baía de Todos os Santos. Ele teve sua
história contada em um livro de 600 páginas. O referido engenho
contou com 82 escravos (1811), 34 (1832), 163 (1856) e 121 (1877).
(PINHO, 1982, p. 253-254) Algumas capelas de engenho tinham a
dimensão das igrejas de Salvador. O Vice-Rei, entre 1710-1714,
esteve no Recôncavo procurando atrair os senhores de engenho
para residirem em Salvador (Cf. IBGE, 1958 apud VASCONCELOS,
2002, p. 84-85), o que comprova a concorrência desses enormes
engenhos com a capital da colônia.
O período da navegação à vela, portanto, extrapola o período dito
colonial, o de transição, com a chegada da Corte Portuguesa em 1808, o Reino Unido em 1815, a independência e o início do período
imperial e da regência até a maioridade de D. Pedro II.
Período do domínio da navegação a vapor (c1840
– 1970)
Novo contexto
Com o desenvolvimento da navegação a vapor, a direção dos
ventos dominantes e das correntes marítimas torna-se de
importância secundária. A longo prazo, o porto de Recife passará a
ter uma situação mais favorável que o de Salvador, na navegação
de longa distância, conforme argumenta o historiador Ubiratan
Araújo.
Navegação regional de longo curso
A Baía de Todos os Santos contou com a experiência pioneira do
Vapor de Cachoeira, de 1819 (BAHIA, 1982), mas o domínio da
navegação a vapor se dá, sobretudo, na década de 1840, embora a
navegação regular a vapor tenha sido iniciada em 1850, segundo
Silva Lima, quando também teriam chegado os navios alemães.
(LIMA, 1908 apud VASCONCELOS, 2002, p. 218)
A navegação a vapor, de fato, já tinha sido concedida pelo Estado,
conforme o Presidente da Província Thomaz X. Garcia de Almeida,
em 1839, pela Lei 22, a João Diogo Surtz, que contava com quatro
barcos para "transporte gratuito das pessoas e objetos do serviço
público". (ALMEIDA, 1939 apud VASCONCELOS, 2002, p. 187)
O capitão de fragata F. Mouchez (1864 apud VASCONCELOS,
2002, p. 211, 230-231), que esteve em Salvador em 1861, estimou
que o movimento do porto de Salvador contabilizava 1.863 navios,
sendo 1.274 brasileiros, enquanto que os navios a vapor eram
apenas 260, sendo 164 brasileiros e 48 ingleses. O referido capitão
publicou um mapa medindo as profundidades da Baía de Todos os
Santos, datado de 1867.
Já no período republicano, em 1891, Vianna nos informou que tinha
sido registrada a entrada de 729 navios de longo curso, sendo 577
movidos a vapor, dos quais 198 eram ingleses, 196 alemães e 132
franceses, e apenas nove brasileiros, o que mostra o fim do domínio
inglês, ao tempo que informa da diminuição da frota brasileira. No
mesmo ano, a Cia. Bahiana de Navegação tinha seis vapores
(VIANNA, 1893, p. 166-171), mas foi incorporada ao Lloyd Brasileiro
em 1894. (MATTOSO, 1978 apud VASCONCELOS, 2002, p. 265)
A profundidade
De fato, a Baía se prestava muito bem à navegação a vapor. A
questão da profundidade foi tratada, nesse período, pelo médico
alemão Ave-Lallemant, que comentava em 1859: "abre-se
esplendida baía com muitas milhas de largura, profunda, que em
área pode, sem receio, competir com a do Rio de Janeiro". Mas
complementava, advertindo:
[...] sua entrada, fácil e segura, não necessita de auxilio de
piloto nem balizas para indicar o caminho. Contudo, logo ao sul
dessa entrada, no meio da vasta extensão de água navegáveis,
ergue-se um banco de areia, medindo nos lugares mais rasos,
apenas 15 pés de profundidade, pelo que as embarcações de
grande calado terão de evitá-lo. De ambos os lados do banco,
porém, as águas são profundas e seguras, mesmo para os
maiores navios de linha. (AVE-LALLEMANT, 1961, p. 19)
Fim do tráfico de escravos
O tráfico, ilegal a partir dos tratados e da legislação de 1831, trouxe
um aumento da importação de escravos (entrada média de 12.000
entre 1830 e 1851) 3, assim como uma nova elevação dos preços
dos mesmos: de 200$000 réis para 1:000$000 réis em 1848.
(AZEVEDO; LINS, 1969 apud VASCONCELOS, 2002, p. 187) O
cônsul francês Malbuisson (1847 apud VASCONCELOS, 2002, p.
187) afirmava em 1847, que "[...] la traite des noirs forme le principal
élément du commerce de cette place".
A proibição do tráfico de escravos, pela Lei 581 de 1850 (BAHIA,
1988 apud VASCONCELOS, 2002, p. 187), eliminará uma das
principais fontes de acumulação de capital da Província, e levará ao
fim das relações marítimas diretas com o continente africano. Essa
situação será agravada localmente, no mesmo ano, com a proibição
dos africanos livres de realizarem serviços nos saveiros, atingindo
750 saveiristas. (CUNHA, 1985, p. 96)
A partir das informações do cônsul britânico de 1852, Verger (1987,
p. 476) registrou a lista de nove depósitos de escravos, ficando nas
margens da Baía de Todos os Santos os seguintes: o de Itaparica;
de Manguinho; da Ilha dos Frades; de Plataforma; de Monteserrate
e da Vitória.
A riqueza de alguns traficantes, medida pelos seus inventários e
testamentos, pode dar uma dimensão dessa acumulação de
riqueza.
José de Cerqueira Lima residia em um palácio no Corredor da
Vitória, que foi posteriormente transformado em residência dos
presidentes da Província e dos governadores do Estado (CALMON,
1925 apud VERGER, 1987, p. 449), a mais luxuosa residência que
havia na Bahia naquele tempo, tendo sido demolida em 1927.
(CAMPOS, 1938 apud VERGER, 1987, p. 449) Seus móveis e sua
prataria foram emprestados para mobiliar o Palácio do Governo,
quando da visita de D. Pedro II a Salvador (Cf. CALMON, 1938 apud
VERGER, 1987, p. 450), em 1859. Em 1827, seu irmão, Manoel de
Cerqueira Lima, reuniu proprietários de 33 navios (dos quais 24
eram da Bahia) para contestar judicialmente os apresamentos
efetuados pelos ingleses entre 1822 e 1828, que totalizavam 4.000
contos de réis (ou 600.000 libras esterlinas), sendo que 20% do
conjunto correspondiam à parte de José de Cerqueira Lima e sua
família ou cerca de 250.000 libras esterlinas. 4 Verger (1987, p. 450,
478) registrou 35 partidas de seus navios em direção à África. Os
cruzadores ingleses capturaram seis das suas embarcações. No
total, ele possuía pelo menos 16 navios negreiros.
Antonio Pedrozo de Albuquerque, brasileiro, residia na Fazenda
Jacaré, em Santo Antônio. Tinha escritório ao lado do prédio da
Alfândega, atual Mercado Modelo. O cais em frente era chamado
"Cais do Pedrozo". Seu inventário, em 1883, constava de
3.742:714$871 réis em bens imóveis. Ele possuía uma fábrica de
tecidos em Valença; engenhos em Itaparica, São Francisco do
Conde e Santo Amaro, com um total de 560 escravos (no valor de
471:420$000) e uma empresa de navegação, com três vapores.
(NASCIMENTO, 1986 apud VASCONCELOS, 2002, p. 219) A
Companhia de Navegação Santa Cruz tinha linhas para o norte e o
sul do Brasil e foi fundada em 1852. (MATTOSO, 1978 apud
VASCONCELOS, 2002, p. 220) Verger (1987, p. 451, 478) também
registrou 31 saídas de seus navios negreiros, dos quais quatro
foram tomados pelos cruzadores britânicos. Ele era proprietário de
uma frota de pelo menos 20 embarcações negreiras.
Joaquim Pereira Marinho, de nacionalidade portuguesa, residia no
Corredor da Vitória. Era proprietário de pelo menos 16 navios
negreiros. Verger (1987, p. 452, 480) registrou 36 partidas de seus
navios para a África, entre 1839 e 1850, com apenas quatro
apresados pelos navios britânicos. Um deles, o "Três Amigos", com
406 toneladas, transportou 1.330 escravos em 1846.
(MALBUISSON, 1847 apud VASCONCELOS, 2002, p. 187) Ele
dominava o mercado do charque e adquiriu a maior parte dos bens
de Pedrozo de Albuquerque. Construiu residências no Corredor da
Vitória, na Barra e no bairro do Comércio. (VERGER, 1987, p. 451-
452) Em 1851, arrematou, de uma só vez, 24 casas nas Pedreiras,
que tinham pertencido aos Carmelitas Descalços. (FREIRE, 1996,
1998 apud VASCONCELOS, 2002, p. 218) Em 1858, participou da
fundação do Banco da Bahia. Foi acionista, com capital de
650:000$000 réis da Cia. Bahiana de Navegação a Vapor.
(NASCIMENTO, 1986 apud VASCONCELOS, 2002, p. 221) Em
1876, presidiu a Associação Comercial. (FRAGA FILHO, 1996 apud
VASCONCELOS, 2002, p. 218) Foi também Provedor da Santa
Casa da Misericórdia durante vários anos, o que mostra além do
seu poder econômico o seu enorme prestígio social. Recebeu
também os títulos de barão, visconde e conde da Corte de Portugal. Seu testamento, de 1884, registrava uma fortuna de quase 6 mil
contos de réis, correspondendo a 500 mil libras esterlinas ou
2.500.000 dólares da época. Desse total, 2.400.000$000 réis
correspondiam a imóveis (VERGER, 1987, p. 452, 479), o que
indica a principal aplicação dos seus capitais após o final do tráfico.
Com o fim do tráfico em 1850, os capitais originários do tráfico foram
também utilizados na modernização da Província. Por exemplo, em
1855 foi inaugurada a já mencionada Cia. Bonfim para a navegação
no Recôncavo (TAVARES, 1979, p. 156), seguida, três anos depois,
pela Cia. Bahiana de Navegação a Vapor, com seis vapores que
faziam a ligação dos portos do Recôncavo. (VIANNA, 1893, p. 116)
Em 1862, essa empresa incorporou as companhias Santa Cruz e a
Bonfim (MATTOSO, 1978 apud VASCONCELOS, 2002, p. 221) e
trouxe um novo dinamismo ao transporte regional.
A pesca
Embora essa atividade fosse desaparecer, segundo Castelnau, em
1850, 150 a 200 baleias ainda eram capturadas por ano.
(CASTELNAU, 1850 apud VASCONCELOS, 2002, p. 187)
Impressão dos viajantes
Neste período ainda temos os comentários do viajante Asschenfeldt
(1848 apud AUGEL, 1980, p. 141), que escreveu que a baía era "[...]
tão grande que talvez todos os navios a vela do mundo aí pudessem
ancorar com segurança", assim como a do viajante alemão Canstatt
(1954 apud VASCONCELOS, 2002, p. 230), que elogiou a
"magnífica baía de Todos os Santos [...]".
Desenvolvimento e poluição
Em 1844, o lixo de Salvador ainda era lançado "ao mar", por ordem
da Câmara de 1844 (PMS, 1988 apud VASCONCELOS, 2002, p.
182-183), o que mostra a pouca importância da higiene, na época,
na principal parte da cidade. De fato, "o mar" era a Baía de Todos os Santos, o que é confirmado pela presença de um cais com a
denominação de "Cais do Lixo", na Cidade Baixa.
A implantação da ferrovia Bahia-São Francisco, em 1860, com
estação inicial na Calçada, reforçou o papel regional de Salvador.
Por outro lado, a cidade de Nazaré, em 1880, e o conjunto
Cachoeira-São Félix, em 1882-1885, também contaram com
estações de linhas regionais. (BAHIA, 1978) O transporte ferroviário
era, entretanto, complementar ao marítimo.
A primeira vaga de industrialização, sobretudo de indústrias têxteis,
foi mais concentrada em Salvador, embora a mesma não tenha se
consolidado. Deve ser destacado o Empório Industrial do Norte,
fundado em 1891, com 1.600 operários (CALMON, 1978 apud
VASCONCELOS, 2002, p. 266) e com um capital de 5.878:000 (CIB,
1986 apud VASCONCELOS, 2002, p. 269), situado na Boa Viagem,
nas margens da Baía de Todos os Santos.
Em 1891, as obras do porto foram concedidas à Cia. Docas e
Melhoramentos da Bahia (CIB, 1986 apud VASCONCELOS, 2002,
p. 269), e, a partir de 1907, elas passaram a ser realizadas pela
Société Portuaire da Bahia, para o governo federal. (LACOMBE,
1959 apud VASCONCELOS, 2002, p. 269)
A descoberta do petróleo, nos anos 30 do século XX, veio dar uma
nova importância à Baía de Todos os Santos e ao Recôncavo, com
destaque para a implantação do Terminal da Madre de Deus e da
Refinaria Landulpho Alves, nos anos 50. Uma das consequências foi
a desarticulação da agricultura remanescente no Recôncavo, que já
tinha sofrido o impacto da abolição e, outro aspecto negativo, a
ampliação da poluição causada pelo desenvolvimento dessas novas
atividades.
O plano do Escritório do Plano de Urbanismo da Cidade de Salvador
(EPUCS), nos anos 40 do século XX, definiu parte da península de
Itapagipe como área industrial de Salvador. A presença de indústrias
na área, sem um sistema de esgotamento industrial, aumentou a
poluição da baía, inclusive de produtos altamente perigosos, como o mercúrio (Cia. Química do Recôncavo, posteriormente transferida).
O desenvolvimento da imensa favela de palafitas nos Alagados, cuja
ocupação teria sido iniciada em 1948 (SCHEINOWITZ, 1988 apud
VASCONCELOS, 2002, p. 336), foi uma consequência indireta das
mudanças ocorridas nesta área.
Nos anos 60, foi implantado o Centro Industrial de Aratu, com maior
preocupação com a poluição atmosférica, mas com graves
consequências para a poluição hídrica, na medida em que as bacias
aí localizadas desaguam suas águas na Baía de Todos os Santos.
Período do dominínio do transporte rodoviário
(após 1970)
A prioridade dada ao desenvolvimento do transporte rodoviário, em
parte com recursos oriundos do Polo Petroquímico, foi fatal para a
economia organizada em torno da Baía de Todos os Santos. A
implantação do sistema ferry-boat, em 1970, embora sendo parte do
sistema hidroviário, visou ampliar o transporte rodoviário. A
localização da central de abastecimento, Ceasa, a duplicação da BR
324 e a construção da avenida Paralela, entre outras obras de porte,
vieram reforçar a acessibilidade de Salvador, para produtos oriundos
do interior do Estado e do sul do Brasil, levando à destruição do
transporte de alimentos e de mercadorias realizado por saveiros, na
Baía de Todos os Santos.
A própria Cidade do Salvador, cuja entrada era efetuada através da
Baía de Todos os Santos, teve seu desenvolvimento principal
realizado em direção ao sul da península e à orla atlântica, em
detrimento da orla da baía, considerada pela socióloga Maria
Brandão, como uma verdadeira Cote d´Azur, e tem agora seus
principais acessos pelas rodovias continentais ou pelo aeroporto,
situado no litoral atlântico.
O transporte marítimo, porém, ainda é importante, sobretudo de
embarcações de grande porte, como navios de cruzeiro e cargueiros
de containers. A Baía de Todos os Santos tem hoje um complexo portuário que conta com os portos de Salvador e de Aratu (este
iniciado em 1971)5, com os estaleiros de São Roque do Paraguaçu
e com os terminais das indústrias Usiba, da Dow Química e do
Terminal de Madre de Deus (TEMADRE), da Petrobrás, além dos
pequenos portos das cidades do Recôncavo.
O turismo é visto como uma possibilidade de recuperação e de
desenvolvimento da Baía de Todos os Santos e do seu entorno.
Investimentos têm sido realizados na construção de marinas, na
melhoria do transporte (catamarãs) pelo setor privado, e até um
circuito náutico foi planejado pelo setor público, mas não concluído,
o que poderia dar uma nova vida à Baía de Todos os Santos.
Conclusões
Esse longo período analisado revela que, ao longo dos séculos, a
Baía de Todos os Santos teve um papel fundamental para a cidade
de Salvador, para o Recôncavo e para o Estado da Bahia. Esse
papel, tanto do ponto de vista econômico como político, com
períodos de maior ou menor dinamismo, continua na atualidade,
sobretudo tendo em vista o atual debate sobre a implantação de
uma ponte ligando Salvador à ilha de Itaparica. (VASCONCELOS,
2010)
Referências
ALMEIDA, Eduardo de Castro e (Org.). Inventários dos documentos
relativos ao Brasil existentes no Archuivo de Marinha de Ultramar de
Lisboa. Rio de Janeiro: Biblioteca Nacional, 1914. v. 32. 1 CD ROM.
ANTONIL, André João. Cultura e opulência do Brasil. Belo
Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1982. Original de 1711.
AUGEL, Moema Parente. Visitantes estrangeiros na Bahia
oitocentista. São Paulo: Cultrix; Brasília: INL, 1980. AVÉ-LALLEMANT, Robert. Viagem pelo Norte do Brasil no ano de
1859. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1961. v. 1. Original
de 1860.
BAHIA. Secretaria de Educação e Cultura. Conselho Estadual de
Cultura. Almanach para a Cidade da Bahia: anno 1812. Salvador,
1973.
BAHIA. SIC. IPAC. Inventário de proteção do acervo cultural da
Bahia: monumentos do município de Salvador. Salvador: Secretaria
de Cultura e Turismo, 1975. v. 1.
_____. Inventário de proteção ao acervo cultural: monumentos e
sítios do Recôncavo. Salvador: SIC, 1978. v. 2.
_____. Inventário de proteção ao acervo cultural: monumentos e
sítios do Recôncavo. Salvador: SIC, 1982. v. 3.
BRAUDEL, Fernand. O Mediterrâneo e o mundo mediterrâneo.
Lisboa: Martins Fontes, 1983. Original de 1946.
CALMON, Pedro. História social do Brasil: espírito da sociedade
colonial. São Paulo: Martins Fontes, 2002. v. 1. Original de 1935.
COSTA, P. Avelino de J. da. População da cidade da Baía em 1775.
In: COLÓQUIO INTERNACIONAL DE ESTUDOS LUSO-
BRASILEIROS, 5., 1965, Coimbra. Anais... Coimbra, 1965.
CUNHA, Manuela C. da. Negros estrangeiros: os escravos libertos e
sua volta à África. São Paulo: Brasiliense, 1985.
DELLON, Charles. L´inquisition de Goa; La relation de Charles
Dellon. Paris: Chandeigne, 1997. Original de 1687.
DEMANGEON, Albert. Paris: la ville est sa banlieu. Paris: Bourrelier,
1933.
GANDAVO, Pero. História da provincial Santa Cruz. Belo Horizonte:
Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1980. Original de 1576.
LAPA, José Roberto do Amaral. A Bahia e a Carreira da Índia. São
Paulo: Nacional, 1968.
LINDLEY, Thomas. Narrativa de uma viagem ao Brasil. São Paulo:
Nacional, 1969. Original de 1805.
MORENO, Diogo Campos. Livro que dá razão do Estado do Brasil -
1612. Recife: Arquivo Público Estadual, 1955. Original de 1612.
PINHO, Wanderley. História de um engenho do Recôncavo. São
Paulo: Nacional, 1982. Original de 1946.
PITA, Sebastião da Rocha. História da América Portuguesa 1500-
1724. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1976. Original de
1724.
SALVADOR, Frei Vicente do. História do Brasil 1500-1627. São
Paulo: Melhoramentos, 1965. Original de 1627.
SILVA, Ignácio Accioli de Cerqueira e. Memórias históricas e
políticas da Bahia. Salvador: IOB, 1919. t. 1.
SILVA, Maria Beatriz Nizza da. (Coord.). Dicionário da história da
colonização portuguesa no Brasil. Lisboa: Verbo, 1994.
SOUZA, Gabriel Soares de. Tratado descritivo do Brasil em 1587.
São Paulo: Nacional, 1987. Original de 1587.
SPIX, J. B. von; MARTIUS, C. F. von. Viagem pelo Brasil 1817-1820.
Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1981. Original de 1828.
TAVARES, Luis Henrique Dias. História da Bahia. São Paulo: Ática,
1979.
_____. _____ . 10. ed. São Paulo: Unesp, 2001.
TOLLENARE, Louis-François. Notas dominicais tomadas durante
uma viagem em Portugal e no Brasil em 1816, 1817 e 1818.
Salvador: Progresso, 1956. Original de 1818.
VASCONCELOS, Pedro de Almeida. Baía de Todos os Santos. In:
CONGRESSO DA HISTÓRIA DA BAHIA, 5., 2004, Salvador.
Anais... Salvador: IGHB; SCT; FGM, 2004. p. 189-196.
_____. O debate sobre a ponte, A Tarde, Salvador, p. 2, 4 mar.
2010.
_____. Questões metodológicas na geografia urbana histórica. In:
_____.; SILVA, S. B. M. (Org.). Novos estudos de geografia urbana
brasileira. Salvador: Edufba, 1999. p. 191-201.
_____. Salvador: transformações e permanências (1549-1999).
Ilhéus: Editus, 2002.
VERGER, Pierre. Fluxo e reluxo do tráfico de escravos entre o golfo
do Benin e a Bahia de Todos os Santos: dos séculos XVII a XIX.
São Paulo, Corrupio, 1987.
VIANNA, Francisco Vicente. Memória sobre o Estado da Bahia.
Salvador: Typ. e Enc. "Diário da Bahia", 1893.
1 Ampliação do texto "Baía de Todos os Santos", publicado nos
Anais do V Congresso da História da Bahia. (VASCONCELOS,
2004) Parte das referências é originária do meu livro sobre Salvador,
publicado em 2002.
2 Representavam o comércio na Junta Provisória de 1821 Francisco
Antônio Filgueiras e José Antônio Rodrigues Vianna. (TAVARES,
2001, p. 224)
3 Confira Viana Filho (1976 apud VASCONCELOS, 2002, p. 190).
4 Ver: Verger (1987, p. 368).
5 Confira Scheinowitz (1988 apud VASCONCELOS, 2002, p. 345).