Bilionário Indomado: Tate
Capítulo 3
—Lara!
O som de uma voz feminina chamando-a fez com que Lara parasse e virasse-se, apesar de estar impaciente para chegar ao lado de fora.
Chloe Colter atravessou o saguão apressada para alcançá-la, vestindo uma roupa semelhante à de Lara: calças de esqui, um suéter, uma jaqueta, luvas e um chapéu sobre o braço. No entanto, Chloe vestia vermelho em sua maioria, enquanto que Lara vestia preto.
— Sinto muito sobre o que aconteceu mais cedo. Acabei de falar com Tate e ele disse que você está bem — disse Chloe apressada ao chegar perto de Lara.
Ela e Chloe tinham quase a mesma altura, cerca de um metro e sessenta e cinco centímetros. No entanto, Chloe tinha uma silhueta mais feminina, curvas de que a maioria dos homens gostava. Lara notou que o olhar de Chloe Colter estava chateado.
— Está tudo bem. Também sinto muito. Eu não deveria ter machucado seu noivo. — Apesar de o imbecil ter merecido. — Ele está bem? — Não que eu me importe. Lara fez uma expressão de preocupação, ao mesmo tempo em que torceu para que James estivesse de cama em casa, ainda choramingando por causa do nariz machucado, do pé torcido e das costas doloridas.
Chloe se mexeu nervosamente. — Ele está bem, mas bem furioso no momento. Ultimamente, ele está sempre bravo. Não sei o que há de errado com ele. Ele vem agindo de forma estranha desde que voltei para Rocky Springs no ano passado.
Ele é um imbecil. Muito provavelmente, ele sempre fora assim, mas Chloe não convivera o suficiente com o noivo durante a escola para
perceber que ele era um idiota. O programa do curso de veterinária devia ser intenso. — Vocês frequentaram a mesma universidade?
— Não. — Chloe abaixou o olhar. — Ele é quatro anos mais velho que eu e já tinha terminado a universidade quando terminei a escola.
Depois daquele verão, moramos em estados diferentes. Ele estava no mestrado quando terminei a universidade. Namoramos durante o verão até irmos para lugares diferentes para estudar. Nós nos víamos quando era possível.
— As pessoas mudam — disse Lara com cuidado. — Talvez esteja na hora de repensar sobre se casar com ele. — Não era da conta dela, mas Lara não queria ver Chloe Colter casada com um homem abusivo. Ela não queria ver nenhuma mulher casada com um homem abusivo.
— Ele pediu desculpas. Disse que está passando por muito estresse — explicou Chloe em tom hesitante.
— Isso não é desculpa. Termine com ele, Chloe. Você é educada, bela e jovem.
Chloe suspirou. — Tate disse a mesma coisa.
— Eu daria ouvidos a ele — disse Lara em tom enfático, surpresa por ela e Tate concordarem totalmente sobre alguma coisa.
— Certamente vou desistir de tentar aprender alguma arte marcial com ele — comentou Chloe de forma determinada. — Eu estava imaginando se você gostaria de me ensinar.
Lara amaldiçoou o olhar suplicante no rosto de Chloe. Ela não era professora. — Eu não ensino, Chloe…
— Por favor. Eu gostaria de aprender — implorou Chloe.
Ela abriu a boca novamente para recusar, mas o instinto a atingiu.
Talvez ensinar alguns movimentos básicos àquela mulher pudesse um dia salvar a vida dela. — Não vou ficar aqui muito tempo, mas eu lhe ensinarei alguma defesa básica antes de ir embora.
Chloe pareceu aliviada. — Obrigada.
— Você vai sair? — Lara acenou com a cabeça para as roupas quentes nos braços de Chloe.
— Sim. Quero ver se esquio um pouco nas encostas antes que a nevasca chegue. Ela deverá chegar no meio da tarde. Quando os ventos ficarem fortes demais e a visibilidade diminuir, eles fecharão
as encostas. — Chloe olhou Lara de cima abaixo. — Você parece vestida para sair. Quer ir comigo?
— Na verdade, não sei esquiar — confessou Lara. — Aluguei uma moto para neve. As trilhas parecem incríveis. — Não que ela tivesse qualquer intenção de seguir alguma trilha, mas os caminhos das motos para neve eram bem extensos na propriedade do resort.
Se Marcus Colter não vem até mim, eu irei até ele.
— Tenha cuidado — disse Chloe para Lara em tom de advertência.
— Há uma nevasca prevista para mais tarde. Você sabe como lidar com um trenó em um terreno montanhoso? As trilhas são fáceis, mas é um pouco complicado em algumas das áreas mais íngremes.
— Pode deixar — mentiu Lara descaradamente. Ela demorara um minuto para perceber que o “trenó” de que Chloe falava era, na verdade, a moto para neve. É assim que chamam as motos aqui? —
Mas terei cuidado — acrescentou ela para que Chloe se sentisse melhor.
— Ótimo. Divirta-se. — Chloe abriu um sorriso. — Mantenha-se nas trilhas para novatos e volte antes da tempestade.
Lara nem sabia que havia uma tempestade a caminho. Ela estivera envolvida demais em pesquisas e tentando descobrir o local exato da casa de Marcus Colter. Uma nevasca, na verdade, poderia trabalhar a seu favor. Obviamente, ela não poderia entrar na propriedade de Marcus sem motivo. Mas poderia sair em uma moto para neve e perder-se acidentalmente, certo? Uma tempestade chegava, cobria as trilhas e ela acabava na casa de Marcus Colter sem suspeita alguma. Só uma turista boba que se perdera nas montanhas.
Perfeito.
Lara sorriu e acenou para Chloe quando elas saíram e separaram-se. Indo diretamente para a moto para neve alugada, ela vestiu as roupas quentes, ansiosa para finalmente realizar o que fora fazer em Rocky Springs. Ela precisava. O tempo estava chegando rapidamente ao fim.
Algumas horas depois, Lara descobriu que o desafio de dirigir a moto em terreno montanhoso não era um problema. Fora o desconhecido, a falta de conhecimento da área que a deixara caída
de bunda na neve. Apesar de não estar dirigindo muito depressa, o pinheiro surgira do nada quando ela chegara ao topo de uma encosta e a moto batera no tronco enorme.
— Merda! — Ela se levantou depressa, irritada consigo mesma por inutilizar o único meio de transporte do momento. Com o impacto, um dos esquis na frente da moto quebrara. E ela só se desviara da trilha pouco mais de um quilômetro, o que significava que ainda estava a vários quilômetros da casa de Marcus Colter.
— Merda. Merda. Merda — resmungou ela irritada para si mesma ao observar o esqui quebrado. — Acho que terei que caminhar.
A velocidade do vento aumentara e a visibilidade começara a reduzir, o que fora um dos motivos pelos quais ela não fora rápida o suficiente para desviar da árvore. A neve caía pesadamente e as botas dela já estavam cobertas até quase os joelhos.
Procuro o caminho de volta para a trilha ou continuo para procurar a casa de Marcus?
Tirando o capacete, ela deu um passo na direção da moto da qual voara alguns minutos antes. O músculo da coxa direita reclamou e ela fez uma careta. Ela distendera o músculo da perna, que ficara presa na moto antes que Lara fosse jogada para longe. Ao esfregar a perna sem obter alívio, Lara percebeu que a opção mais segura seria voltar para a trilha antes que o caminho ficasse coberto de neve para que conseguisse encontrar o caminho de volta para o resort.
Ela colocou a mão no bolso da jaqueta e tirou o celular. — Claro, sem sinal — resmungou ela baixinho ao guardar o celular de volta no bolso. Se estava em uma área sem sinal, deveria melhorar ao se aproximar um pouco mais do resort. Se o clima fosse o responsável pela falta de sinal, ela estava com problemas graves.
Desejando muito que não tivesse parado na loja de artigos esportivos perto do resort antes de sair das trilhas, ela mancou de volta na direção da rota das motos. Ela tinha um chapéu mais quente, um cachecol e luvas mais grossas, mas aqueles itens não adiantariam muito agora que estava presa em uma nevasca. Ela teria se dado melhor se tivesse partido imediatamente, em vez de parar para comprar roupas mais quentes e depois telefonar para seu chefe.
Aquelas duas coisas tinham sido um desperdício de tempo, cerca de
uma hora e meia valiosa, considerando que a tempestade acabara de começar. Ela já teria chegado à casa de Marcus Colter àquela altura.
Com o cachecol sobre o rosto para se proteger do vento brutal e da neve, Lara andou dolorosamente em direção à área onde saíra da trilha, parando com bastante frequência por causa da perna que doía muito.
Continue andando. Continue se mexendo.
Estava frio demais para que ela reduzisse o passo. E ficava quase impossível ver alguma coisa. As marcas que ela memorizara durante o percurso de ida não estavam mais visíveis. Ela recolocou o capacete, torcendo para que conseguisse enxergar melhor com o visor protegendo-lhe os olhos, mas não adiantou.
Ela estava presa em um mundo branco e parou para tentar se orientar. Recusando-se a entrar em pânico, ela se encostou em uma árvore e tentou enxergar além da massa branca que bloqueava sua visão. Foi quando ela achou ter ouvido o som de um motor misturado com o uivo do vento.
Estou ouvindo coisas. Ninguém mais estaria do lado de fora com este tempo.
Mas o barulho ficou mais forte e mais alto. Lara acenou com os braços na esperança de que a pessoa louca o suficiente para estar lá a visse. Felizmente, ela usava roupas em sua maioria pretas, o que faria com que se destacasse naquele branco.
Alguém a vira e Lara ficou atônita quando um veículo de neve preto e potente parou ao seu lado. A pessoa que o conduzia era grande, provavelmente um homem, mas ela não conseguiu distinguir as feições. Só o que ela conseguiu ver foi o capacete e os óculos que protegiam os olhos da pessoa.
— Suba logo nesta porra, Lara. Agora.
O mistério de quem estava do lado de fora, no meio da tempestade, foi solucionado quando ela ouviu o grito furioso de Tate Colter. A voz dele foi alta o suficiente para ser ouvida sobre a força brutal do vento.
Ela não hesitou a admitir o alívio ao passar a perna sobre a parte de trás da máquina potente e colocar os braços em volta do corpo forte.
Não importava que ele a irritasse. Ela estava grata por ver qualquer pessoa em um veículo funcional no momento.
— Segure-se com força — disse ele com voz alta o suficiente para que ela o ouvisse.
No final, ela não teve outra opção além de se segurar nele nem teve a oportunidade de procurar suportes para o passageiro em que pudesse se apoiar, em vez de se agarrar a Tate. Ele acelerou com força no momento em que ela se sentou e posicionou os pés. O
veículo que ele dirigia era muito mais potente do que o que ela alugara. Ela se segurou nele, com o coração acelerado ao se perguntar se Tate tinha vontade de morrer e se a levaria consigo. Ele voou pela nevasca em uma velocidade impressionante que teria sido empolgante se Lara não estivesse com tanto medo.
Como ele conseguia ver para onde ia? Só o que Lara conseguia ver era puro branco por todos os lados. Finalmente, ela escondeu a cabeça atrás dele, abaixando-a para bloquear o vento, incapaz de fazer qualquer coisa exceto confiar nele e manter os braços firmemente ao redor da cintura dele. Ela tentou não o atrapalhar.
Tentou se inclinar com ele quando necessário, mas era quase impossível prever os movimentos dele. As ações rápidas de Tate sobre o veículo eram concluídas antes mesmo que ela pudesse reagir.
Depois dos primeiros minutos, o coração dela se acalmou um pouco e a respiração irregular começou a se normalizar quando ela percebeu que Tate parecia saber exatamente o que estava fazendo.
Se ainda não estamos mortos, é óbvio que ele sabe o que está fazendo.
Eles estavam rodeados por árvores e voavam para cima e para baixo nas encostas sem um movimento errado. Tate lidava com o veículo como se tivesse feito aquilo um milhão de vezes antes. Ela ainda achava que ele era louco por dirigir tão depressa em condições adversas, mas Tate obviamente parecia confortável e completamente familiarizado com o terreno.
Lara estremeceu, sentindo o corpo meio congelado por causa da intensidade dos ventos frios.
Ela prendeu a respiração quando os esquis do veículo saíram do chão e voaram sobre uma vala. Lara finalmente soltou o ar quando pousaram de forma surpreendentemente leve no outro lado. Eles desceram uma colina pelo que pareceu ser a milionésima vez e Tate virou o veículo no que provavelmente era uma estrada, pois era uma pista plana que não tinha tanta neve. Ele acelerou completamente ao percorrerem o terreno sem árvores.
Ela não viu a casa até que estivessem praticamente lá. Tate parou em frente a uma casa enorme feita de madeira.
— Entre e aqueça-se. A porta da frente está aberta. Preciso guardar o trenó. — O tom dele foi potente e direto.
Lara não discutiu. Ela desceu da parte de trás do veículo, segurando-se em Tate para compensar a perna machucada. Ao mancar até a porta, ela o viu desaparecer quase imediatamente no meio da nevasca.
Ela girou a maçaneta da bela porta da frente, que se abriu com facilidade. Ela entrou no saguão, que tinha um piso de madeira maravilhoso, e tirou as roupas de neve o mais depressa possível.
Lara fez uma careta. Ela desejou ter entrado em algum tipo de salinha de limpeza. Depois de recolher as botas molhadas, as meias, as calças de neve, a jaqueta e outros itens cheios de neve, ela foi na direção do que parecia ser a cozinha, passando por uma sala de estar rústica adorável, com equipamentos de combate a incêndio antigos que decoravam as paredes e prateleiras. Com os braços cheios de roupas molhadas, ela não teve tempo de admirar a cozinha, mas era um aposento grande e parecia ser o sonho de qualquer cozinheiro. Aliviada, ela encontrou a lavanderia e a salinha de limpeza que separava a cozinha da garagem. Ela pendurou as roupas molhadas nos cabides e procurou uma toalha na cozinha. A casa era maravilhosa e ela não queria deixar água no chão de madeira. Podia ser uma casa de madeira, mas era mais uma mansão do que uma cabana no meio da floresta. Tudo era feito sob medida e os detalhes da construção eram evidentes, das vigas que adornavam o teto ao chão luxuoso de madeira. Era interessante como o construtor conseguira deixar um ar rústico na casa, mas ainda elegante.
Ela estava limpando as poças no chão perto da porta, preocupada que pudessem danificar o chão, quando Tate entrou na casa.
— O que diabos você está fazendo? — A voz dele foi baixa e reverberou com o que parecia raiva.
— Estou limpando a água do chão. Minhas roupas estavam encharcadas.
— Deixe isso.
Lara terminou o trabalho rapidamente e levantou-se, mas encolheu-se por causa da dor na perna.
— Você se machucou? — A voz dele mudou para uma preocupação gentil.
— Estou bem. Mas bati em uma árvore com o veículo do resort.
Quebrei um dos esquis. Desculpe. — Ela andou na direção da lavanderia para levar a toalha molhada.
— Eu disse para deixar isso. — Ele pegou a toalha da mão dela, levou-a até o sofá na sala de estar e acenou para que se sentasse.
— Chamarei alguém para buscar o veículo quando o clima melhorar.
Não tem problema.
Ela se sentou e suspirou ao tirar da perna o peso do corpo, permitindo que o músculo da coxa finalmente relaxasse.
Depois de ligar a lareira a gás, Tate foi levar a toalha para a lavanderia, voltando alguns minutos depois com duas xícaras de chocolate quente e um cobertor. Ele enrolou o cobertor no corpo dela e entregou-lhe uma das xícaras fumegantes. Em seguida, sentou-se na outra ponta do sofá.
— Que tal me dizer que porra deu em você para ficar na rua quando sabia que havia uma tempestade a caminho? E, pior ainda, sair da merda da trilha? As nevascas no Colorado não são brincadeira. Falei com Chloe. Ela disse que lhe avisou que havia uma tempestade a caminho — resmungou Tate. Os olhos dele a estudaram com cuidado quando ele tomou um gole do chocolate quente.
— Eu… eu me perdi — mentiu ela, sentindo-se infeliz. Ela não queria enganar o homem que saíra em um clima tão terrível para resgatá-la, mas não tinha opção. — Chloe ficou preocupada? Ela pediu a você que viesse me procurar?
Ele assentiu com expressão irritada.
— Desculpe. Foi uma coisa idiota.
Ele assentiu novamente, com o olhar penetrante.
Ótimo. Agora ele acha que sou uma idiota, uma loira burra que não é esperta o suficiente para sair de uma nevasca. Sinceramente, não posso culpá-lo por pensar assim. Mas, mesmo assim, não gosto nem um pouco.
Estranhamente, agora Lara se preocupava de verdade com o que Tate pensava dela. Ele arriscara a própria vida para salvá-la. Ele estava irritado e com toda razão. Ela se viu sentindo falta do sorriso com covinhas e da atitude divertida dele. Naquele momento, ele parecia sombrio e intenso, mais sério do que ela jamais vira. Aquela expressão feroz fez com que ela se remexesse inquieta.
— Por que fez isso? O que realmente estava procurando, Lara?
Você saiu da trilha, mas não acredito que estivesse totalmente perdida. — O olhar dele prendeu o dela, sondando sua alma.
Ela abriu a boca para falar, mas fechou-a novamente, sem saber ao certo o que dizer.
Não quero mentir para ele.
Um pequeno ganido a poupou de dizer alguma coisa quando o filhote de pastor alemão mais fofo que Lara já vira entrou correndo na sala, evitando que tivesse que responder.
Ela sorriu quando a criatura minúscula parou aos pés de Tate e saltou várias vezes com alegria. Lara observou quando ele pegou o cachorrinho com uma gentileza que fez com que o coração dela desse um salto. — Quem é esse?
Tate acariciou o filhote. — Este é Shep.
— Não é um nome muito original, Colter — disse ela brincando. —
É seu?
— Ele não foi exatamente planejado — resmungou Tate, mas continuou a acariciar o corpo trêmulo do filhote. — Alguém o largou na estrada. Provavelmente um presente de Natal que alguém decidiu que não queria que mastigasse seus móveis. Chloe me convenceu a ficar com ele. — Tate deu de ombros. — Achei que poderia cuidar melhor dele do que o dono anterior.
Ele obviamente cuidava muito bem da pequena bola de pelos e ficou evidente para Lara que Tate já amava o filhote, por mais que
resmungasse sobre a adoção dele. — Ele mal parece ter idade para ter desmamado — comentou ela pensativa.
— Chloe disse que ele tem entre dez e doze semanas.
Lara pegou o filhote no colo quando Shep saiu das pernas de Tate e rastejou na direção dela. — Ele é muito fofo. — Ela segurou o cachorrinho contra o peito e acariciou o pelo sedoso enquanto o animal lambia seu rosto. — Como alguém consegue ser tão cruel?
Ele teria morrido congelado. É pequeno demais e não aguentaria sobreviver lá fora por muito tempo.
— Ele quase congelou. Estava bem gelado quando o peguei. Por sorte, Chloe estava por perto para cuidar dele. Provavelmente ele também foi atropelado. A estrada é bem movimentada durante o inverno — respondeu Tate.
Era difícil não gostar de um cara que resgatava filhotes… e mulheres… em perigo. Tate podia não estar muito feliz com ela naquele momento, mas salvara-a mesmo assim. Lara ergueu o olhar e sorriu para ele. Ele sorriu de volta quando Shep enterrou os dentinhos no suéter dela e começou a puxar. Ela riu alegre e soltou a bola de pelo preta e marrom da roupa. — Ele gosta de mastigar as coisas.
— Ele será muito danado — concordou Tate, sem soar nem um pouco preocupado.
— Ele me lembra tanto de Chief quando era filhote. Eu o ganhei no meu aniversário de dez anos. Era um pastor, também, e a pelagem era similar. Chief foi meu companheiro constante durante anos. —
Lara suspirou. Mesmo agora, ela ainda sentia falta da companhia do cachorro.
— O que aconteceu com ele? — perguntou Tate, curioso.
Shep pulou para tentar investigar o que havia dentro da xícara e Lara riu, subitamente lembrando-se de como um filhote podia ser divertido. — Nada de chocolate para você, bebê. Não faz bem. — Ela levantou um pouco mais a xícara. Em seguida, olhou para Tate e respondeu em tom hesitante. — Tive que dá-lo. Meus pais morreram quando eu tinha dezesseis anos. Tive que ir morar com minha tia e meu tio odiava cachorros. — Ela acariciou o cachorrinho que estava em seu colo enquanto terminava de beber o chocolate. Em seguida,
colocou a xícara gentilmente sobre a mesinha de centro. O tio dela odiara tudo e todos, incluindo sua tia.
— Meu Deus, Lara. Seus pais morreram ao mesmo tempo? O que aconteceu?
Mesmo depois de pouco mais de treze anos depois daquele dia horrível, Lara ainda tinha dificuldades para falar sobre a morte dos pais. — Eles foram assassinados.
— Conte-me. Como aconteceu? — A voz de Tate foi suave e cheia de compaixão.
Lara encontrou o olhar dele ao abraçar Shep em busca de conforto.
— Eles morreram em 11 de setembro de 2001. — Instintivamente, ela soube que Tate faria a conexão e não seria preciso dizer mais nada.
O rosto de Tate foi tomado por uma expressão atônita. — Eles morreram no ataque ao World Trade Center?
Lara assentiu lentamente, com os olhos cheios de lágrimas. — Na Torre Sul. Não tiveram a menor chance. Meu pai era advogado. Ele tinha negócios em Nova Iorque e mamãe foi com ele porque o aniversário de casamento deles era em 12 de setembro. Eles queriam celebrar na cidade de Nova Iorque. Ela foi com ele para o World Trade Center naquele dia. Mamãe disse à minha tia naquela manhã que meu pai só precisava fazer algo rapidamente lá e depois sairiam para almoçar. Os dois estavam no lugar errado, na hora errada. — Quantas vezes Lara pensara aquilo? O pai dela não ia lá todos os dias. Se pelo menos seus pais tivessem ido um dia antes…
Se seu pai não acordasse tão cedo e tivesse decidido ir mais tarde…
Se…
— Eu sinto tanto, Lara — disse Tate ao se aproximar dela, colocando os braços em volta de seus ombros e empurrando Shep gentilmente para o chão.
Ele a puxou para seus braços, sem encontrar resistência, e embalou-a gentilmente contra o peito. Lara deixou que ele fizesse aquilo. Era muito bom sentir novamente um contato humano, deixá-lo confortá-la, apesar de saber que não devia. — Ainda sinto saudades deles. — Aquele dia fatídico ficaria para sempre em sua mente.
— Eu sei. Também sinto saudades do meu pai às vezes, apesar de ficar cada vez mais difícil me lembrar dele.
— O que aconteceu? — Lara sabia que o pai de Tate morrera anos antes, mas nunca descobrira a causa exata.
— Estranhamente, ele também morreu em um ato de terrorismo, mas não foi nos Estados Unidos. Em uma viagem ao Oriente Médio, na década de noventa, ele estava no lugar errado, na hora errada, exatamente como os seus pais. Ele foi morto quando um carro-bomba explodiu. Não era o carro dele. Ele só estava do lado do veículo quando a bomba detonou. Os terroristas assumiram a responsabilidade pelo atentado mais tarde, felizes por terem matado um norte-americano — contou Tate contra os cabelos dela. —
Idiotas.
Lara arregalou os olhos com surpresa. A coincidência de ambos terem perdido entes queridos em um ato de terrorismo era muito estranha. Mas o fato de algo como aquilo ter acontecido com Marcus era ainda mais bizarro.
A mente dela girava ao avaliar todas as implicações do que Tate acabara de contar. Ela percebeu, pelo pesar na voz de Tate, que ele ainda sentia a morte do pai. E Marcus? Se sentia, as coisas eram ainda mais estranhas e confusas do que Tate podia imaginar.
Ela passou os braços em volta do pescoço de Tate enquanto ele a embalava gentilmente. Ela sentiu remorso e uma certa náusea ao pensar que aquele homem louco, arrogante e gentil ficaria ainda mais arrasado quando descobrisse a verdade.