Box Hora do Espanto: Série III
Capítulo 17
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 8 partes.
Bryan estava a apenas cinco minutos do cemitério, mas estava apreensivo, pois sabia que encontraria pelo menos mais um obstáculo antes de chegar lá.
Esse obstáculo logo apareceu.
Bryan estava virando a última esquina antes do cemitério quando viu alguma coisa se mexer rápido. Ele nem teria percebido se tudo não estivesse tão parado. O movimento tinha vindo de uma cerca do outro lado da rua. Quando Bryan se aproximou da cerca, ele ouviu um choro e, ao passar para o outro lado, ele viu um menininho, de uns 4 anos de idade, chorando. O garoto olhou para Bryan.
– Cadê a minha mãe? – ele perguntou, baixinho.
Bryan parou, surpreso. Ele não imaginava que o obstáculo seria uma criança.
– E-eu não sei – ele respondeu, gaguejando.
– Quero a minha mãe agora! – exigiu a criança, brava.
– Qual é o seu nome? – perguntou Bryan, ignorando o pedido da criança.
– George – respondeu o menino, emburrado. – Você vai me levar para a minha mãe?
– Não posso – respondeu Bryan, da forma mais gentil possível. – Mas se esperar aqui, voltarei para buscar você.
– Quero ver a minha mãe agora! AGORA!
Houve um som de roupas rasgando, e o menino começou a crescer enquanto seus traços se tornavam distorcidos e sua pele ficava com um tom forte de vermelho. A cabeça do menino se partiu ao meio, revelando um rosto retorcido que vociferava, com olhos amarelos e dentes longos e pontudos da cor do carvão. Em cinco segundos, aquela criancinha meiga tinha se transformado em uma criatura horrenda com imensos chifres curvados que saíam de suas têmporas. A voz tinha mudado de um suave balbuciar infantil para uma voz profunda e pavorosa cheia de desdém.
– Prepare-se para morrer! – gritou a criatura para Bryan.
Bryan saiu do caminho quando a criatura apontou o dedo para ele, soltando uma chama brilhante e alaranjada. A chama atingiu a cerca, que explodiu em chamas.
– Fique parado e prepare-se para sentir a minha ira!
Ela disparou outra bola de fogo alaranjada em direção a Bryan, que desviou da chama mergulhando atrás de um muro.
Bryan olhou por cima do muro e se abaixou novamente quando a poderosa criatura apontou para o muro, rindo com escárnio.
– Muahahaha! Seu verme desprezível, você acha que pode escapar do mais profundo abismo do submundo? Você está errado!
O dedo acendeu e a criatura lançou mais uma bola de fogo. O muro derreteu no mesmo instante, deixando Bryan exposto.
– Seu mortal tolo, você jamais escapará de mim – a criatura zombou, triunfante. – Você mal reagiu. Eu esperava bem mais que isso do grande Bryan!
– Grande Bryan? Não sou grande, sou um cara normal.
– Normal? Acha que eu vou acreditar nisso? Vindo de você, o grande inimigo do senhor do submundo? Impossível!
– Grande inimigo? Acho que você me confundiu com outra pessoa.
– Eu nunca me engano! Posso ver o futuro! Você é inimigo de todo o submundo! Agora, prepare-se para morrer!
Mais faíscas saíram da ponta dos dedos daquela criatura medonha, deixando uma trilha flamejante na grama. Porém, Bryan não estava no lugar atingido pelas faíscas. Muito ágil, ele saltou para um pilar de ferro que parecia seguro.
– O metal não pode me conter! Você já era! – gritou a criatura, com a insanidade brilhando nos olhos.
Bryan olhou ao redor em busca de algo que o salvasse, mas infelizmente ele estava sem opções. A menos que…
O garoto pensou e calculou que a igreja estava a apenas 50 metros dali, talvez ele conseguisse chegar lá. Na mesma hora, um plano se formou em sua mente.
Sem qualquer aviso, Bryan saiu de trás do pilar de ferro e disparou em direção à igreja. Ao redor dele, chamas e raios crepitavam e estalavam.
Assim que Bryan chegou à porta aberta da igreja, a criatura mirou uma bola de fogo bem nas costas do menino.
Quando a bola de fogo se aproximou de Bryan, ele tinha acabado de passar pela entrada. Ele se virou, bem a tempo de ver a bola de fogo de repente ficar achatada, como se tivesse batido em um vidro, e sumir.
– Não! – bradou a criatura.
Bryan soltou um suspiro de alívio. O plano tinha dado certo: aquela criatura das trevas não tinha nenhum poder na igreja.
– Vou ficar esperando – rugiu a criatura. – Você não vai ficar aí para sempre. Não adianta procurar um caminho de volta, vou pegá-lo onde você estiver.
– É aí que você se engana – retrucou Bryan.
– Engano? – riu a criatura. – Engano? Veremos!
Bryan deu de ombros e foi rapidamente para o altar. Olhou ao redor em busca de algum tipo de recipiente, caneca, copo, qualquer coisa.
Encontrou a taça de metal usada nas missas para servir o vinho. Então, foi até a fonte, encheu a taça com água benta e aproveitou para jogar um pouco de água benta no corpo.
Bryan sorriu. Isso ia dar um susto naquela criatura.
Ele seguiu para a porta de novo e olhou para fora. A criatura estava sentada num muro, olhando atentamente para a igreja. Ela se levantou e disse:
– Está se divertindo? Vou esperar, você sabe.
– Eu sei que vai – Bryan respondeu. – Mas estou entediado. Vou sair.
Bryan andou calmamente na direção da criatura, que estava parada, sem saber o que fazer. Ela percebeu o que Bryan estava fazendo, mas era tarde demais. Ela ergueu os braços e gritou, apavorada, mas não conseguiu fazer nada para impedir que o menino derramasse a taça cheia de água benta em cima dela.
Torrentes de vapor emanaram da criatura, e a pele começou a formar bolhas e descamar. Chamas irromperam por todo o corpo daquele ser, que gritava suas últimas palavras:
– Vingança! Matem Bryan, o inimigo do submundo!
Ela desapareceu em uma nuvem de fumaça com um zunido breve e estridente, parecido com fogos de artifício.
Daquela horrível criatura, sobraram apenas restos de fuligem e duas pegadas incandescentes no caminho de pedra, fundidas no local onde ela tinha perecido. Em uma das pegadas com garras, ainda havia uma unha carbonizada.
– Eu sou o grande Bryan, cara! – disse Bryan, sarcástico.
Bryan saracoteou pelo caminho, deixando para trás a fuligem e as pegadas. Ele pensou no que havia acontecido e decidiu voltar à igreja para encher a taça de novo. Saiu do terreno da igreja, virou à direita e entrou no cemitério um minuto depois. Rapidamente, ele se dirigiu ao túmulo certo e colocou a taça na pedra. Então, tirou o boneco do bolso. O boneco parecia ter um brilho interno, como se possuísse uma vasta riqueza de poder. Bryan inclinou a cabeça para o lado e, com cuidado, tirou o osso do centro do boneco e o colocou perto da água. Em seguida, pôs a mão no bolso e pegou um isqueiro. Depois de tentar acender o isqueiro algumas vezes, ele conseguiu produzir uma chama. Colocou o isqueiro embaixo do boneco e o viu derreter e pingar. O som de um grito distante pareceu sair da boca do boneco, que ficou distorcido e irreconhecível.
Lentamente, uma poça se formou no chão em frente a Bryan. Fios de cabelo e galhos flutuavam na poça. À medida que a massa de cera na mão dele diminuía, o grito se tornava mais alto, até ficar quase insuportável. Quando o último pedaço do boneco derreteu, houve um clarão, e três figuras apareceram diante dele.
Elas se pareciam com a terrível criatura que ele havia enfrentado na igreja, exceto a do centro, que era mais alta e parecia mais feroz.
A criatura do meio olhou para Bryan, como se enxergasse a alma do menino, que olhou de volta com ar de coragem. Ele tinha certeza que estava olhando para o senhor do submundo.
– Você destruiu o meu amigo! Ele será vingado! – disse aquele ser malvado, com ferocidade.
Bryan não respondeu, apenas pulou para a lápide e pegou a taça de água benta. As criaturas menores recuaram com medo, mas o senhor do submundo se manteve firme e olhou para Bryan com desprezo.
– Você não pode me destruir com isso – ele zombou. – Minha essência continuará e eu voltarei.
– Você está certo, mas posso atrasá-lo, destruindo o seu corpo atual – retrucou Bryan, espirrando água benta nas três criaturas com a maior naturalidade. Bryan notou, alegre, que pequenas explosões de vapor saíam da pele delas quando a água benta espirrava nelas.
– Acho que ainda estou em desvantagem – disse Bryan, jogando água benta em uma das criaturas menores, que começou a soltar fumaça e chamas, até finalmente desaparecer em uma nuvem de fumaça. Só restaram as pegadas incandescentes e o montinho de fuligem.
– Sua vez! – falou Bryan, provocando a outra criatura.
– Vá embora – o senhor do submundo disse para a outra criatura, que desapareceu com um clarão.
– Você tornou o meu trabalho muito mais fácil – disse o garoto para o malvado.
– Você já era! – gritou a criatura.
– Engraçado! O seu amigo disse a mesma coisa lá na igreja, e veja só o fim que ele levou… – respondeu Bryan.
O vilão ergueu uma sobrancelha, e um raio foi disparado de seu olho, atingindo a taça de água benta. A taça explodiu, regando Bryan e o senhor do submundo com água benta. A pele da criatura empolou e derreteu quando a água benta tocou nele, mas ele se chacoalhou e sobreviveu ao ataque.
– Você não tem para onde ir, não tem mais chance, você já era! – rugiu o senhor do submundo, alegre. – Você não foi bem-sucedido, só quebrou metade da maldição. Agora, ela será instável e imprevisível. E a culpa é toda sua!
– E os meus irmãos? – perguntou Bryan. – E a minha mãe?
– Sua mãe? Não sei. Seus irmãos devem estar voltando para a vila – a criatura maligna pôs a cabeça de lado, parecia que estava se concentrando em outra coisa. – Sim, parece que eles estão salvos. Por enquanto. Eles estão vindo pela estrada de terra, que gracinha! Pena que não chegarão a tempo de salvar você.
Bryan olhou para o senhor do submundo e disse:
– Você não pode me matar.
O malvado olhou surpreso para Bryan e ergueu uma sobrancelha:
– Posso sim.
Ele apontou um dedo para Bryan e disparou uma chama vermelha, que atingiu Bryan no peito e o fez voar e bater no tronco de uma árvore. Ele deslizou pelo tronco e caiu em cima do braço com um estalo forte. O braço quebrou, fora isso, Bryan estava bem. A água benta deve tê-lo protegido.
Bryan levantou-se cambaleando e olhou para a criatura do mal com ar desafiador.
– Você não pode me matar – repetiu Bryan.
– Posso esmagá-lo até você virar picadinho. E é o que vou fazer: picadinho de você – disse o malvado, lançando chamas de fogo na direção do menino.
Bryan desviou meio desajeitado, evitando por pouco o fogo que incinerou uma árvore perto dele. Infelizmente, o garoto tropeçou numa lápide e se estatelou no chão. O senhor do submundo derreteu a lápide e parou diante dele.
– Prepare-se para ser esmagado até a morte!
O dedo da criatura lançou um forte feixe de fogo, que imobilizou Bryan. A chama não o feria, mas a pressão sobre ele era forte demais. Ele ouviu o ruído de uma costela quebrando e começou a se sentir tonto. A pressão da chama continuou, e ele quase desmaiou.
De repente, a pressão diminuiu. Bryan olhou perplexo e ouviu a voz de Dave.
– Tome isso! – gritou Dave, acertando as costas do senhor do submundo com uma barra de metal.
Isso só serviu para irritar mais a criatura feroz, mas foi o suficiente para Bryan se levantar e gritar:
– Rápido! Para a igreja!
Bryan passou correndo pelo senhor do submundo e agarrou o irmão pelo ombro. Ele viu Cindy se aproximar do portão e gritou:
– Para a igreja!
O malvado a princípio estava espantado demais para esboçar qualquer reação. Mas ele logo se recuperou, disparando um raio contra as crianças, que já estavam saindo do cemitério. O raio atingiu o poste do portão com uma forte explosão.
Bryan parou, após virar a esquina do cemitério, e disse para os gêmeos:
– Eu vou ficar bem. Vocês dois, vão para a igreja e ficarão a salvo. Peguem o máximo de água benta possível para jogar nesse ser, e joguem no corpo de vocês também.
Dave ia dizer algo, mas Bryan o empurrou. O senhor do submundo virou a esquina e sorriu para Bryan.
– Seus irmãos abandonaram você? – ele perguntou, triunfante.
– Sim – Bryan mentiu.
– Eles também vão morrer.
De repente, Bryan teve uma ideia.
– Não me mate! – ele disse.
– Por que não? – perguntou o malvado, dissimulado.
– Porque posso ajudá-lo – respondeu Bryan.
– Pode me ajudar? – ele questionou, com desprezo.
Cindy e Dave viraram a esquina, trazendo taças com água benta nas mãos.
– Isso! Posso ajudá-lo a morrer! – respondeu Bryan, saindo da frente do senhor do submundo.
Os gêmeos jogaram toda a água benta em cima dele, que sucumbiu num monte de fumaça e chamas. Ele praguejava e agarrava as queimaduras que corroíam sua carne. De repente, ele foi engolido por uma chama vermelha brilhante. Uma imagem semitransparente do senhor do submundo se levantou do monte e olhou com raiva para as crianças.
– Vocês venceram. Com certeza, vão quebrar a maldição e salvar o dia – a imagem dele sacudiu a cabeça. – Vocês foram os primeiros a me derrotar. Nunca mais me verão.
Com uma explosão, a imagem desapareceu, abandonando a carcaça enrugada do corpo da criatura.
As crianças ficaram quietas por alguns minutos, até que Bryan disse:
– Vamos quebrar a maldição!
As crianças entraram em silêncio no cemitério e ficaram ao redor do túmulo de Samuel Kert.
Dave se ajoelhou e cavou um pequeno buraco com os dedos. Bryan colocou o osso no buraco e Cindy o fechou. Os três ficaram curvados em volta do buraco por alguns minutos, depois caminharam para o portão e saíram do cemitério.
De repente, com um ímpeto, a vila inteira voltou à vida. As pessoas continuaram a andar, como se nada tivesse acontecido. Os pássaros cantavam e as crianças brincavam.
Bryan percebeu que ninguém tinha reparado no corpo da criatura. Ele olhou na direção do corpo, que já não estava mais lá. Ele correu para a igreja e olhou espantado para a rua, que estava perfeitamente normal.
Exceto que…
As pegadas ainda estavam lá. Bryan parou em cima delas e olhou para baixo. Lentamente as pegadas sumiram, e a superfície áspera do caminho voltou. Só a garra permaneceu, encravada como uma pedra na calçada.
Ele sacudiu a cabeça e voltou para casa, acompanhado por Cindy e Dave.
Cada um deles sabia que tinham acabado com a maldição da vila e que tudo estava bem.
Capítulo 10
Bryan acordou logo depois das oito. Fez uma careta ao mexer o braço e se lembrou do dia anterior. Que dia!
As três crianças chegaram exaustas em casa. Os gêmeos desabaram na cama extra do quarto de Bryan, que se deitou em sua própria cama. Os três conversaram calmos por alguns minutos quando, de repente, o telefone tocou. Com um susto, Cindy atendeu o telefone.
– Alô? – um olhar de alegria surgiu em seu rosto. – Pai! Ela está bem? Que ótimo!
Os meninos se agruparam ao redor dela, tentando escutar a voz fraca do outro lado da linha. Depois de alguns minutos de conversa, Cindy desligou o telefone e disse para os irmãos:
– A mãe está melhor e o pai está vindo nos pegar agora.
– Fantástico! – gritaram os irmãos com alegria.
– E você pode pedir para examinarem seu braço e suas costelas – continuou Cindy. – Deveríamos ter ido direto ao médico.
– Eu sei – retrucou Bryan. – Mas eu queria ter notícias do pai primeiro, para saber se a mãe estava bem.
– Ela está. Então, agora você pode se cuidar. Ouviu o que eu disse para o pai, não é?
– Sim, que eu caí de uma árvore – respondeu Bryan, com um sorriso no rosto. – Quanto tempo ele vai demorar para chegar?
– Uns dez minutos. O hospital não fica longe – respondeu Cindy.
– Ótimo. Mal posso esperar para ver a mãe. Ah! E para consertar os meus ossos também – Bryan emendou.
– Seu mentiroso… A dor deve estar insuportável – disse Cindy, dando um tapa de brincadeira em Bryan.
– Aaaaiiiii! – gritou Bryan. – Minhas costelas!
Cindy mostrou um ar de preocupação.
– Desculpe! – ela disse. – Eu não queria acertar aí.
– Tudo bem – disse Bryan, com o suor pingando da testa e o coração batendo umas mil vezes por segundo. – Ne-nem doeu.
– Você me surpreende, Bryan, de verdade! – disse Cindy.
– Ele só é estranho – disse Dave. – E um doido varrido!
As crianças continuavam rindo quando o pai parou o carro na calçada alguns minutos depois. Os irmãos estavam na porta antes mesmo de o pai sair do carro. Dave viu Bryan ir mancando até a calçada, apoiado em Cindy.
Quando todos estavam no carro, o pai perguntou o que tinham feito e como Bryan tinha caído de uma árvore. As crianças inventaram a história no caminho, e o pai acreditou em tudo.
No hospital, Bryan foi levado para a enfermaria, para examinarem o braço e as costelas dele. Ele reclamou um pouco, pois queria ver a mãe primeiro, mas a enfermeira se recusou a ouvir qualquer argumento. Ela o repreendeu por causa dos ferimentos, mas ela era tão simpática que Bryan não conseguia ficar bravo com ela.
Depois de uma hora colocando bandagens e gesso, a enfermeira autorizou Bryan a ir até o quarto da mãe. A moça o advertiu quando ele foi embora e recomendou que ele não fizesse muito esforço e descansasse até que as bandagens e o gesso fossem removidos.
Bryan entrou no quarto da mãe e foi direto para a cama dela. Havia tubos ligados em várias partes do corpo dela, e ela estava um pouco estranha sem maquiagem. Cindy, Dave e o pai estavam sentados perto da cama. Eles ficaram quietos e deixaram a mãe falar. Ela disse:
– Então, nós dois fomos para a guerra, não é mesmo?
Bryan sorriu e respondeu:
– Acho que a pior parte sobrou para você, mãe.
– Não, claro que não, eu só sofri uns arranhões. Vou ficar boa num instante.
– Esse instante vai demorar uns cinco dias, mãe.
– Vou sair em dois dias, querido. Vou criar a maior confusão, e eles vão ter que me botar para fora daqui.
Todos começaram a rir e logo estavam contando piadas. Bryan precisou sair do quarto, porque as costelas quebradas doíam muito quando ele ria. Ele voltou depois de um ou dois minutos, assim que parou de rir, mas logo tudo recomeçou e ele teve que suportar o sofrimento.
O pai e as crianças foram embora duas horas depois. Quando chegaram em casa, foram direto para a cama, para descansar daquele dia longo e cansativo.
Bryan se levantou, foi ao banheiro e olhou para si mesmo no espelho. A aparência dele estava simplesmente horrível, com as bandagens enroladas ao redor do peito e o braço na tipoia.
Ele foi para o quarto ao lado e acordou Cindy e Dave.
– O que você está fazendo? Ainda é cedo – Dave resmungou.
– Não é cedo – provocou Bryan, olhando o relógio. – Veja: oito e dez!
– Por que você nos acordou tão cedo, Bryan? – bocejou Cindy.
– Sei lá – respondeu Bryan, sério de repente. – Acho que não estou cansado.
– Que bom para você, mas nós ainda estamos cansados – resmungou Dave, mal-humorado.
– Em breve você estará bem acordado – retrucou Bryan. – E poderá preparar o café da manhã para o seu irmão inválido.
– Ah! Então é isso o que você quer – sorriu Cindy, de repente. – Acho que podemos fazer isso pelo Grande Bryan, destruidor das criaturas das trevas!
Bryan sorriu e seguiu Cindy até o andar de baixo. Dave resmungou e seguiu os dois.
Em pouco tempo, Cindy já estava fritando bacon, ovos e linguiça, e Dave atendia aos intermináveis pedidos do irmão mais velho. Ele havia voltado ao normal e ria feliz com Bryan e Cindy. O pai desceu, e todos se deliciaram com a magnífica fritada.
Depois de arrumar a cozinha, Cindy sugeriu que eles fossem à mercearia contar as boas- -novas para Beth. O pai voltou para o andar de cima para se arrumar. As crianças rapidamente trocaram de roupa e gritaram para o pai que estavam de saída. Não sabiam se ele tinha respondido, porque bateram a porta da frente imediatamente depois de gritarem a mensagem.
Os gêmeos tiveram que andar devagar para que Bryan os acompanhasse. Quando andava muito rápido, ele sentia uma dor insuportável nas costelas.
As crianças chegaram à loja e ficaram surpresas, porque o lugar parecia completamente diferente. Elas entraram e ficaram chocadas ao perceberem que a loja estava irreconhecível. Aquela loja que antes era esquisita e fora de moda agora era moderna e bem iluminada com luz fluorescente. No caixa, havia um homem de meia- -idade, sentado numa cadeira e lendo jornal. Ele olhou para as crianças por cima do jornal e estranhou as expressões chocadas.
– O que aconteceu com vocês? Parece que viram um fantasma – disse o homem.
– Onde está a Beth? – Cindy perguntou.
– Beth? Quem é Beth? – perguntou o homem.
– A dona – Cindy respondeu. – Beth Giby.
– Eu sou o dono – disse o homem. – Vocês têm certeza que entraram na loja certa?
Em silêncio, as crianças confirmaram.
– Engraçado… – continuou o homem. – Acho que lembro de ter visto esse nome em algum lugar. Ah! Esperem um segundo, vou buscar os documentos.
Segundos depois, o homem voltou e disse:
– Vocês estavam certos sobre a Beth. Ela era a dona da loja. Só que ela vendeu o negócio há 40 anos. O mais provável é que ela já tenha morrido – o homem ergueu a sobrancelha, desconfiado. – Vocês não estão de brincadeira comigo, não é? É claro que estão! E pensar que eu acreditei na história de vocês. É melhor vocês darem o fora daqui, seus pirralhos!
Os gêmeos saíram correndo da loja. Bryan saiu por último, apertando o peito de dor.
– E não voltem mais! – gritou o homem atrás deles.
As crianças pararam na esquina para respirar e trocaram olhares espantados. Todos sabiam o que tinha acontecido e estavam chocados.
De repente, Bryan disse:
– Já sei!
– Sabe o quê? – Cindy perguntou, desanimada.
– O Bill! Eu disse que ele parecia familiar, e agora sei com quem ele se parecia, e quem ele era!
– Quem ele era? – perguntou Dave.
– Samuel Kert! – exclamou Bryan. – O velho Bill era na verdade o velho Sam!
Esperamos que você tenha gostado desta história de Edgar J. Hyde. Aqui estão outros títulos da série Hora do espanto para você colecionar:
A colheita das almas
O doutor Morte
O escritor fantasma
O espantalho
Feliz dia das bruxas
O piano
O TEATRO DAS BRUXAS
Edgar J. Hyde
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Hyde, Edgar J.
O teatro das bruxas [recurso eletrônico] / Edgar J. Hyde; traduzidopor Silvio Antunha. -
Jandira, SP: Ciranda Cultural,2021.
112p.; ePUB ; 1,48MB.–(Hora do espanto)
ISBN: 978-65-5500-724-4(Ebook)
1. Literatura juvenil. 2. Ficção. 3. Terror.I. Antunha,Silvio. II. Título.III. Série.
CDD 028.5
2021-872 CDU82-93
Elaborado porOdilio Hilario Moreira Junior-CRB-8/9949
Índices para catálogo sistemático:
1.Literatura juvenil028.5
2.Literatura juvenil82-93
© 2015 Robin K. Smith
Esta edição de Hora do Espanto foi publicada
em acordo com Books Noir Ltd.
Título original: Stage Fright!
© 2015 desta edição:
Ciranda Cultural Editora e Distribuidora Ltda.
Tradução: Silvio Antunha
1ª Edição
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Livro digital: Lucas Camargo e Gabriela Fazoli
Sumário
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Capítulo 13
Capítulo 14
Capítulo 1
As mãos deformadas e enrugadas da bruxa agarraram a colher de pau com firmeza e mexeram o conteúdo do caldeirão. Ela era a mais velha e também a mais feia das três. Seu imenso nariz em forma de gancho quase encostava no lábio superior e, quando ela falava, era possível ver os poucos dentes remanescentes, escurecidos e quebrados com a idade. Ela tinha perdido um olho alguns anos antes, numa batalha com uma bruxa do bem. Mas, em vez de usar tapa-olho, ela simplesmente deixava a cavidade ocular exposta para todos verem.
Ela começou a murmurar enquanto continuava mexendo.
– Cauda de gerbo fresca, fígado de filhote de cachorro, coração de cordeiro recém-nascido – ela gargalhava e olhava para suas duas irmãs. – Por enquanto, tudo bem… – ela comentou com a boca retorcida, fazendo mais uma careta do que sorrindo. – Uma de vocês, traga-me o livro de feitiços. Rápido, preciso verificar os outros ingredientes.
A bruxa mais próxima tratou de se mexer, roçando seu enorme vestido preto no chão. Como as outras, ela estava toda de preto, da ponta do chapéu pontudo até os pés supergrandes, que calçavam enormes sapatos pretos de fivela.
Assim como a maioria das bruxas, ela tinha várias verrugas espalhadas pelo rosto, e a maior ficava na ponta do nariz. Ao contrário das irmãs, ela não tinha os olhos pequenos e redondos. Eram de uma cor prateada penetrante e brilharam enquanto ela procurava o livro de feitiços perdido.
– Ali – disse a outra irmã, apontando para o livro.
Mas não foi com o dedo que ela apontou, já que ela também tinha lutado e perdido uma difícil batalha contra a mesma bruxa do bem anos atrás, ficando sem a mão direita e parte do braço no combate. Por isso, a mão e o braço dela eram feitos de metal puro. A princípio, a bruxa se sentia em desvantagem, mas agora ela era capaz de realizar a maioria das tarefas com maior destreza.
Era ela quem reunia os ingredientes mais complexos, pois com sua mão de metal era fácil capturar até os animais mais rápidos.
Ela viu os olhos prateados da irmã brilharem na escuridão quando se curvou para pegar o livro de feitiços e levá-lo até a fogueira onde o caldeirão borbulhava.
Foi então que houve um enorme relâmpago e o céu ficou ainda mais escuro do que antes. Os raios serpentearam no céu e as três bruxas gargalharam juntas ao pensarem na tempestade iminente.
– Uma noite perfeita, irmãs – disse a primeira, com um hálito podre que se misturava com o ar da noite enquanto ela falava.
Ela parou de virar as páginas quando chegou ao feitiço que procurava. Percorreu com a unha enegrecida a página de alto a baixo, até chegar ao próximo ingrediente que devia colocar no caldeirão.
– Ha, ha, ha! – ela sorriu com ironia. – Isso aqui eu vou adorar. Uma mecha de cabelo recém-cortado de um menino – ela olhou para as irmãs, que também riram. – Tragam-no até mim!
As duas irmãs olharam alegremente uma para a outra e saíram, sob o brilho alaranjado das chamas, em direção ao bosque que rodeava a clareira onde elas tinham feito a fogueira. O menino chorou quando elas se aproximaram. Ele fugiu ao ver as bruxas e correu pela floresta, mas acabou tropeçando e caindo sobre espinhos. Foi o momento perfeito. As bruxas o capturaram e amarraram os braços e as pernas dele. A franja loira cobria-lhe a testa, seu rosto estava coberto de lágrimas. Ele tinha tentado ser corajoso. Afinal de contas, garotos de 10 anos de idade não choram, mas ele simplesmente não pôde evitar. Estava com muito medo.
A bruxa de olhos prateados olhava fixamente para ele, parecia queimá-lo por dentro, como se ela visse a alma dele. A outra se curvou e desamarrou a corda dos pés do menino com um rápido movimento de sua mão de metal.
Ele ficou arrepiado.
– Levante-se, menino – ela ordenou, arrastando-o.
O menino retraiu-se, em parte pela dor do puxão, mas também pelo forte odor que exalava das bruxas.
“Mesmo se viver até os 100 anos, jamais vou esquecer esse fedor… Isto é, se eu sobreviver” – ele pensou, enquanto uma das bruxas o empurrava.
Ele foi obrigado a andar em direção ao caldeirão. Enquanto isso, trovejava e raios rasgavam o céu o tempo todo. Ao chegar mais perto da fogueira, ele viu que a bruxa mais velha tinha se curvado para desembrulhar alguma coisa. Ela abriu um grande pedaço de pano preto, expondo uma coleção completa de facas e tesouras de aço brilhantes. De repente, o menino prendeu a respiração. Em seguida, começou a tremer, descontrolado.
A bruxa parecia incapaz de decidir qual tesoura usar, e se mostrava muito indecisa entre duas em particular.
Quando ele chegou perto o suficiente, as duas sequestradoras começaram a desamarrar as mãos dele. A outra bruxa ainda olhava as tesouras.
– Se me permite uma sugestão, irmã – uma delas começou a falar. – Se está tendo dificuldades para escolher, posso cortar o cabelo agora mesmo – e ela estalou os dedos de metal no ar.
O menino desatou a chorar.
– Fique quieto, seu chorão! – disse a bruxa, escolhendo finalmente a tesoura e levantando-a no ar com um floreio.
Ela pediu às irmãs que trouxessem o garoto para mais perto, pois queria escolher a melhor mecha.
– Por favor! – ele soluçava e implorava. – Por favor, não me machuquem!
Irritada com a resistência e os apelos do menino, a bruxa levantou a tesoura no ar.
– Prontas? – ela perguntou às irmãs, que seguravam o menino, uma de cada lado.
Elas acenaram que sim. Quando a tesoura se aproximou do cabelo do menino, ele gritou e tentou esquivar-se, em vão. O aço frio brilhou quando fez contato com o cabelo dele, que ficou intacto nas mãos da bruxa, brilhando feito ouro. O menino desmaiou, e as bruxas o deixaram caído sobre a grama, enquanto observavam a irmã empolgada jogar fio a fio a mecha no caldeirão. Outra trovoada veio em seguida. Elas bateram palmas de alegria e dançaram histericamente em volta da fogueira.
Duas moças vestidas com collants e sapatos iguais caminharam para a frente do caldeirão fumegante e mostraram um grande cartaz. Pouco antes de a cortina se fechar, a plateia pôde ler na placa: “FIM DO PRIMEIRO ATO”.
Capítulo 2
Agora sem as roupas, os chapéus e os sapatos pretos de bruxa, com uniformes escolares, as três garotas sentaram-se juntas no refeitório da escola para discutirem o ensaio.
– Não sei se essas verrugas de plástico foram uma boa ideia – resmungou Jo ao se olhar no espelho. – Essa aqui no meu queixo grudou demais. Onde você achou isso?
– Na loja de fantasias da cidade – respondeu Melissa. – O mesmo lugar onde achei o nosso figurino. Não é incrível?
– Não é tanto quanto essa rosquinha – disse Danny Cottrill ao passar pela mesa das garotas, roubando uma rosquinha.
– Ei! – gritou Jenny, pulando em cima dele. – Devolva isso.
Danny parou e virou-se para encarar as garotas.
– Por quê? Se eu não devolver, você vai lançar um feitiço em mim? – ele ironizou, enfiando metade da rosquinha roubada na boca.
– É! – gritou Jenny. – Cuidado, Danny Cottrill, ou vou pegar o meu livro de feitiços e transformar você num sapo feio e gordo. Ops! Quase esqueci, você já é um sapo feio e gordo… – ela riu e foi sentar ao lado das amigas.
Danny estava tão ocupado rindo da própria piada que nem ouviu o que Jenny falou por último. Ele continuou andando pelo refeitório lotado, dando tapas na nuca dos outros (que não queriam levar um tapa), fazendo as crianças menores que carregavam bandejas tropeçarem e pegando tudo o que estava a seu alcance.
– Idiota – murmurou Jo, voltando a olhar fixamente para o espelho e se esforçando para remover a desagradável verruga.
– Puxa vida, como eu queria que essa coisa saísse – ela resmungou, irritada, quando o pedaço de plástico se soltou de seu queixo e caiu na mesa diante dela.
– Dito e feito – Melissa sorriu. – E nem vi você fazer um feitiço!
Jo sorriu para a amiga.
– É que você não me ouviu pronunciar a palavra mágica “abracadabra”. Você pode desejar o que o seu coração quiser: uma pele maravilhosa sem espinhas, uma vaga no time de hóquei, um encontro com o Jonathan…
As três garotas suspiraram ao mesmo tempo.
– Imaginem só! – Melissa tomou fôlego. – O dia em que uma de nós conseguir marcar um encontro com o Jonathan será simplesmente um milagre…
Jenny esfregou as unhas. O esmalte preto que ela tinha acabado de remover havia deixado algumas pequenas manchas nas cutículas.
– Ótimo ensaio, meninas, não acham? – disse Jo. – Fiquei feliz quando a professora Debby escolheu essa peça, é bem dramática. Dava até para ouvir os alunos mais novos prenderem a respiração hoje quando ensaiamos o primeiro ato.
– Sim – Melissa concordou –, mas devo admitir que foi um alívio tirar o braço falso depois do ensaio. É bem difícil mexer os dedos.
– Podemos mudar isso, eu acho – disse Jenny. – Quer dizer, não existia um braço mecânico na peça original, mas a professora Debby achou que isso deixaria a peça Oh, fantasmas, obedeçam-nos! mais moderna.
– Não, ela está certa – disse Melissa, flexionando a mão e os dedos. – Vamos deixar assim. A peça fica um pouco mais moderna mesmo. Mas a atuação do Jonathan foi brilhante hoje, não acham? Aqueles berros foram realmente de arrepiar, eu mesma quase acreditei nele. Enfim, de onde você disse que a professora tirou esse roteiro? – ela virou-se para Jo.
– Aparentemente, ela o encontrou quando limpava um armário velho na sala de teatro há algumas semanas – disse a amiga. – Ela o leu e gostou da história na hora. Quando olhou em registros antigos da escola, ela percebeu que, embora a peça tenha sido escrita por um ex-aluno cerca de 60 anos atrás, ela nunca foi encenada na escola. Disseram para ela que todas as tentativas anteriores de encenar a peça fracassaram, já que os alunos que faziam os papéis de inimigos das bruxas sempre ficavam com doenças misteriosas. Estranho, não acha?
– Com certeza, e meio assustador – concordou Jenny.
– Ora, não seja boba – disse Melissa. – Você está levando a sério demais essa conversa de fígados de cachorrinhos e corações de cordeiros. É só uma história.
No mesmo instante, o sinal começou a tocar, anunciando o fim do intervalo. Jenny se abaixou para recolher os livros que tinham caído e os colocou na mochila.
– Preciso ir – ela avisou, depois de beber o suco às pressas. – Duas aulas de História, eu acho… Vejo vocês às quatro.
Jo e Melissa se despediram da amiga e seguiram para o outro lado da escola.
– Duas aulas de Matemática, eca! – Melissa reclamou, quando as duas entraram na sala de aula.
– Sim – cochichou Jo. – Mas pelo menos a vista é boa.
As garotas se sentaram e apoiaram o queixo nas mãos, prontas para contemplarem Jonathan com um olhar sonhador pelo resto da aula.
Capítulo 3
Na manhã seguinte, as três amigas voltaram à sala de teatro, mas desta vez elas não estavam no palco, estavam repassando algumas mudanças na peça com a professora Debby.
– Odeio essas partes – murmurou Melissa, bem baixinho. – São muito chatas.
– O que foi, Melissa? – perguntou a professora. – Por favor, compartilhe com o resto da classe: o que está incomodando você?
Melissa limpou a garganta e levantou-se.
– Desculpe, professora, eu estava apenas dizendo para a Jenny que teria sido uma boa ideia se tivéssemos feito um ensaio geral ontem.
A professora ergueu as sobrancelhas, sem acreditar no que a garota disse.
– Tudo bem, Melissa, sente-se. Vamos continuar. Só temos duas semanas. A noite de estreia se aproxima.
Por fim, depois de muitas discussões sobre mudanças na iluminação, quem e quando deveria entrar e sair, a professora chamou as três garotas para o palco.
– Tudo bem, garotas, vamos ensaiar a cena do necrotério, quando as bruxas trazem um cadáver de volta à vida. Agora, lembrem-se: sejam intensas, quero horror, maldade. Vamos lá, quero ficar aterrorizada.
A professora se sentou com o resto da classe enquanto as três bruxas encenavam a história. Elas logo entraram nas personagens, e a professora teve que admitir que elas eram muito boas. Estavam incrivelmente realistas, a ponto de ela se perguntar se a peça não seria assustadora demais para as crianças mais jovens da escola. Ela balançou a cabeça negativamente.
– Não – ela concluiu. – Hoje em dia, as crianças amadurecem tão rápido que seria preciso mais do que uma simples peça sobre bruxas para espantá-las. Tudo vai ficar bem.
No palco, as três garotas, de mãos dadas e olhos fechados, andavam em volta da cama mortuária (ou mesa, por enquanto, ela seria devidamente adaptada na noite de estreia), caminhando lentamente em volta do cadáver que jazia ali, imóvel, envolto num lençol branco. Elas murmuravam alguns feitiços enquanto a professora fazia uma anotação mental, para dizer a elas que falassem um pouco mais alto, pois não tinha certeza de qual cântico em particular elas estavam repetindo.
Ela reparou, de relance, nas janelas da sala do teatro e se admirou com o escurecimento repentino do céu.
“Acho que uma grande tempestade está por vir” – ela pensou ao voltar sua atenção para o palco.
“Elas realmente estão muito bem” – a professora pensou de novo, enquanto observava as garotas em ação. O clima estava tão tenso que era possível ouvir um alfinete cair no chão da sala.
As bruxas pararam de rodear o corpo e foram para seus lugares, uma em cada ponta do corpo e a outra no centro. Tocando diferentes partes do cadáver com as pontas dos dedos, elas começaram a sussurrar, gradualmente elevando o tom, até o barulho encher a sala inteira. Então, ao mesmo tempo, elas pararam.
– Ele já está quente – sorriu a bruxa no centro do corpo. – Vamos terminar o trabalho.
Elas deram as mãos e começaram a recitar as palavras que não diziam juntas havia centenas de anos.
– Da escuridão ordenamos que você se levante.
Ficará mais tempo na Terra de hoje em diante.
Para mais feitiços malignos podermos espalhar,
traga toda sua força para o mal eternizar.
Elas entoaram o feitiço muitas vezes, falando cada vez mais rápido, as palavras quase tropeçavam umas nas outras, até ficarem quase incompreensíveis. E o céu foi ficando cada vez mais escuro. A professora assistia ao espetáculo, fascinada, quando o “cadáver” começou a se levantar debaixo do lençol branco, como se atendesse ao feitiço das bruxas.
De repente, a janela do outro lado da sala quebrou, espalhando seus minúsculos estilhaços.
Uma das garotas, que assistia à peça e estava sentada perto da janela, pulou assustada e começou a chorar. Em choque, a professora Debby se recompôs e imediatamente acendeu a luz. A escuridão na sala era tanta que qualquer pessoa poderia jurar que mais parecia meia-noite do que meio-dia.
– Tudo bem, pessoal, acalmem-se – ela gritou, enquanto os alunos procuravam ver o que tinha acontecido com a janela. – Para trás. Não quero ninguém se cortando com vidro.
Ao se curvar para ver melhor, ela descobriu a razão de a janela ter quebrado. Um pequeno corvo, com apenas semanas de idade, estava em meio ao vidro estilhaçado.
“Ele deve ter saído do ninho antes da hora e bateu direto na janela” – ela pensou, sacudindo a cabeça. “Mas não acho que um pássaro tão pequeno conseguiria quebrar a janela. Provavelmente, o vidro estava rachado. Por isso, deve ter quebrado.”
Ela tirou o lenço do bolso e recolheu a pequena ave.
– Afastem-se, meninas. Está tudo bem agora.
Melissa, Jo e Jenny desceram do palco e se juntaram ao resto da classe, olhando para a janela quebrada com curiosidade. A professora Debby colocou o passarinho morto no cesto de lixo. Ela ia pedir ao zelador que o jogasse fora depois. Olhou para a mesa no palco, coberta com o lençol branco. Ela subiu os poucos degraus até o palco e ficou de frente para a classe.
– Muito bom, turma, foi uma ótima apresentação. Vejo vocês amanhã no ensaio extra.
Foi quando o sinal tocou. Ela ergueu a voz, tentando ser ouvida.
– Trolls e duendes, não se esqueçam de trazer amanhã os figurinos que estiverem prontos.
Enquanto a classe fazia barulho juntando as coisas e saindo da sala, a professora olhou novamente para o lençol branco. Ela podia jurar que alguma coisa tinha se mexido quando as garotas estavam entoando o feitiço, mas só podia ser bobagem. Ela tinha apenas ficado empolgada com o clima da peça, a escuridão do céu, os relâmpagos e a ameaça de tempestade. Apreensiva, ela foi em direção à mesa. Com cuidado, e sentindo mais medo do que ousaria admitir, ela levantou uma ponta do lençol e olhou por baixo; depois suspirou alto e percebeu que estava prendendo a respiração. Uma pilha de livros e um velho par de sapatos! Ela devia saber disso muito bem! Recolocou o lençol no lugar delicadamente e sorriu para si mesma, aliviada.
Foi só depois de fechar a porta da sala de teatro que ela percebeu como seu coração batia forte.
Capítulo 4
Jenny olhou desanimada para a prova diante dela. Ela detestava Álgebra! Por mais que tentasse, ela sentia que jamais entenderia aquilo, que seria sempre algo tão estranho quanto uma língua estrangeira.
– Puxa! Como eu queria entender isso – ela murmurou, enrolando o cabelo com os dedos e mastigando a ponta do lápis. Relutante, ela colocou o lápis no papel e começou a fazer a prova.
Dois dias depois, ao devolver-lhe a prova corrigida, o professor Carter deu um enorme sorriso para Jenny.
– Muito bem! – ele elogiou. – Você deve ter estudado muitas horas para tirar essa nota. Estou impressionado.
Jenny olhou para o resultado da prova e não acreditou: nove! Ela conferiu o nome no alto da folha, achando que o professor Carter tinha entregado a prova errada. Mas não, era dela mesmo. Jo olhou intrigada para Jenny, que lhe mostrou a prova.
– Uau! – cochichou a amiga. – Como você fez isso?
Jenny deu de ombros e abriu a apostila, pronta para a lição do dia. Tinha conseguido tirar um nove, quase dez, numa matéria que ela nunca tinha entendido. Talvez, ela estivesse finalmente começando a entender a matéria.
Algum tempo depois, quando as garotas fizeram uma retrospectiva dos eventos relacionados à peça, elas perceberam que seus desejos se realizavam rapidamente. Eram coisas bobas. Jo desejou que a verruga saísse, depois Jenny desejou ir bem em uma prova de Álgebra e, em seguida, Melissa desejou que sua mãe lhe comprasse um tênis novo. Bastava elas manifestarem seus desejos, que as coisas aconteciam. Mas elas só começaram a ficar assustadas no dia em que desejaram mal a Danny Cottrill.
O sol brilhava e a maioria dos estudantes estava lá fora assistindo à gincana dos alunos do oitavo ano. Os eventos ocorriam em diferentes partes da quadra, mas as garotas assistiam à corrida de obstáculos, pois Jonathan, o herói delas, era o favorito para vencer. A largada foi dada e os meninos começaram a correr. Jonathan corria por fora, na pista externa e, à direita dele, vinha Danny Cottrill. Os dois disputaram grande parte da corrida lado a lado, até que Danny caiu, e pareceu que ele colocou o pé intencionalmente no caminho de Jonathan, fazendo com que Jonathan também caísse.
– Que babaca! – gritou Melissa. – Por que ele sempre tem que fazer isso? O Jonathan estava correndo muito bem. Ele com certeza venceria se esse idiota não o tivesse derrubado!
– Às vezes eu realmente queria que esse estúpido se machucasse para valer – concordou Jenny.
A corrida continuou, é claro, e Jonathan se levantou lentamente, verificando se havia algum ferimento. Ele tinha um corte no joelho, nada muito grave, e foi mancando em direção a Danny para oferecer ajuda. Danny não se mexia. Jonathan se inclinou para perto dele, assim que o enfermeiro da escola correu para a pista.
– Acho que ele bateu a cabeça quando caiu – disse Jonathan. – Talvez tenha tido uma concussão.
O enfermeiro analisou rapidamente o menino e decidiu que era melhor chamar uma ambulância. Levaram Danny de maca para fora da quadra e, com as luzes da ambulância piscando e a sirene tocando, ele foi levado direto para o hospital local.
Na manhã seguinte, o senhor Paul, o diretor, convocou uma reunião e comunicou à escola as lesões de Danny. Ele não só tinha quebrado as duas pernas como tinha sofrido algum tipo de hemorragia interna e entrou em coma. A família estava ao lado da cama do garoto e tinha sido avisada de que era possível que Danny sobrevivesse, mas que eles deveriam se preparar para o pior.
Jenny tapou a boca com as mãos.
– Minha nossa! – ela exclamou quando Melissa e Jo olharam para ela. – Eu desejei isso para ele. Vocês se lembram? Na quadra de esportes? Eu desejei que alguma coisa grave acontecesse com o Danny, e agora aconteceu.
– Ora, não seja boba, Jenny – Jo retrucou. – Você não pode desejar que alguém entre em coma!
– Será que não? – perguntou Jenny. – Não tenho tanta certeza. Vamos dar uma boa olhada no que vem acontecendo nas últimas semanas.
As garotas saíram do auditório e ficaram paradas aguardando a próxima aula. Com ajuda de Jenny, Melissa começou a lembrar de todas as coisas que elas tinham desejado e que se tornaram realidade. Elas estavam céticas a princípio, mas aconteceram tantas coisas que Jo teve que concordar que aquilo tudo poderia ser mais do que uma simples coincidência.
– Mas como… Eu não entendo por que de repente tudo isso passou a acontecer conosco – disse Jo. – Quantas vezes vocês fecharam os olhos e fizeram um desejo, meio sem esperanças de que ele se realizasse, e que, é claro, nunca se realizou, e agora, por uma razão inexplicável, estamos conseguindo tudo o que pedimos? Por quê?
– A peça – disse Jenny, calmamente. – Eu acho que tudo está ligado à peça de alguma forma. Pensem bem. Isso tudo começou a acontecer quando aceitamos os papéis das bruxas.
A professora Karen se inclinou no batente da porta e olhou para as três garotas.
– Alguma coisa que eu deveria saber, garotas? Vocês foram dispensadas da minha aula e ninguém se preocupou em me comunicar? – ela perguntou.
– Perdão, professora, já estávamos entrando – gaguejou Melissa, enquanto as três garotas iam para a sala de aula.
Antes de se sentar, ela cochichou para as amigas:
– Lembrem-se do velho ditado: “Cuidado com o que deseja, pois pode se tornar realidade”. Acho que deveríamos começar a tomar cuidado com…
– MELISSA! – gritou a professora Karen. – Tem certeza de que você faz parte desta classe? Se sim, por favor, sente-se, pegue seus livros e preste atenção na aula de hoje.
O sinal que anunciaria o fim da aula pareceu demorar uma eternidade para tocar. As garotas se reuniram no portão da escola, e Melissa pegou a cópia do roteiro na mochila.
– Geraldine Somers – ela leu em voz alta. – Foi ela quem escreveu a peça, e acho que deveríamos começar a pesquisar sobre ela. Quanto mais eu penso nesses desejos, mais convencida eu fico de que eles têm alguma coisa a ver com a peça, e conhecer a autora parece um bom começo.
Jenny e Jo concordaram plenamente.
– Vamos ver, amanhã é sábado, então podemos ir à biblioteca de manhã para ver se conseguimos encontrar algum registro dela, o local onde ela mora e descobrir se ela escreveu outras peças e assim por diante.
– Mas lembrem-se – disse Jo –, essa peça foi escrita há pelo menos 60 anos. Se a Geraldine tivesse uns 13 ou 14 anos quando a escreveu, ela deve ser bem velhinha agora. Teremos que tomar muito cuidado se a encontrarmos mesmo, não queremos perturbar uma senhora idosa sem motivo.
As garotas combinaram de se encontrar na manhã seguinte às nove em ponto na entrada da biblioteca, depois se separaram.
– Nove da manhã no sábado, lá se vai a minha soneca – resmungou Jenny.
Capítulo 5
As garotas pesquisaram sem sucesso durante mais de uma hora quando, de repente, Melissa encontrou o que procurava.
– Achei! – ela disse, empolgada, percorrendo a página com o dedo. – Olhem só: Geraldine Somers, nascida em sete de outubro de 1920. Isso significa que ela deve ter 79 anos agora. Então, se ela escreveu a peça aos 14 anos, a peça tem uns 65 anos. Ótimo. Agora, onde ela mora?
– Veja, Melissa – Jo disse calmamente, apontando para o outro lado da página. Embaixo da coluna mais distante, uma anotação havia sido escrita, mostrando que Geraldine Somers havia morrido no dia 14 de abril de 1982. Jo suspirou.
– Então é isso, não podemos falar com um fantasma – ela disse, resignada.
As três garotas ficaram em silêncio, observando as informações na página. O que elas podiam fazer, além de esquecer completamente a ideia de pesquisar? Jenny fechou o livro e o colocou de volta na prateleira.
– Vamos embora, gente. Não adianta ficarmos aqui – Jenny entrelaçou os braços com os das duas amigas, e as três saíram da biblioteca.
Melissa parou de repente.
– Espere um minuto – ela disse às amigas. – Podemos visitar o túmulo dela! Ela deve estar enterrada no cemitério local. O último endereço conhecido dela no livro era no nosso bairro. Então, faz sentido que ela esteja enterrada aqui. É, é isso aí – ela acenou com a cabeça, animada. – Vamos visitar o túmulo dela!
Jenny e Jo olharam uma para a outra, ambas muito menos entusiasmadas do que Melissa.
– Mas, Melissa, eu não vejo motivo nenhum… – Jo tentou argumentar.
– O que eu quero dizer é o seguinte – interrompeu Melissa –, esse é o único ponto de partida que temos. Vocês não entendem? Não temos alternativa. Precisamos visitar o túmulo se quisermos descobrir algo. Jenny? – ela lançou um olhar de dúvida para a amiga.
– Bem – começou Jenny, lentamente –, acho que eu gostaria de ir a fundo nessa questão, mas não sei se…
– Então, está decidido – Melissa interrompeu de novo. – Vamos! Não temos que andar muito.
– Melissa, espere – disse Jenny. – Não posso ir agora. Tenho que fazer compras com a minha mãe hoje à tarde e, se eu for ao cemitério agora, não voltarei a tempo de me encontrar com ela. Tenho duas opções: ou eu fico de fora ou faço isso mais tarde.
Melissa olhou para Jo.
– Desculpe, Melissa, prometi levar a minha sobrinha para patinar hoje à tarde. Posso ir com você quando eu voltar. Devo chegar em casa lá pelas quatro.
Melissa respirou fundo, desapontada porque as amigas não podiam ir naquela hora. Ela não era uma pessoa muito paciente.
– Tudo bem – ela concordou, relutante. – Podemos nos encontrar no portão do cemitério às quatro e meia? Ainda estará claro, e teremos tempo suficiente para encontrar a lápide e verificar as coisas. E lembrem-se: levem blusa, faz muito frio por lá.
O cemitério local ficava bem no topo de uma colina íngreme e era um lugar muito frio, principalmente nas noites escuras de novembro. Jo tremia por dentro só de pensar que elas iriam fazer isso ao entardecer, mas não disse nada, não queria estragar os planos de Melissa.
Quando elas novamente se separaram, Melissa virou para trás e gritou para uma das garotas levar uma lanterna. E uma estaca, só por precaução.
– Só por precaução por quê? – Jo olhou para Jenny, preocupada.
– Vampiros! – Jenny disse à amiga.
Então, ao ver o olhar de horror estampado no rosto da amiga, ela riu.
– Brincadeira! – Jenny sorriu.
– É verdade, ela só está brincando. Essas coisas não existem, Jo, você tem assistido a muitos filmes de terror – brincou Melissa.
Jo sorriu, tímida.
– Não, não, eu sabia o tempo todo, sabia que ela estava brincando. Verdade! Eu sabia – ela tentou convencer a amiga incrédula.
Jenny pegou no braço de Jo.
– Tudo bem, Jo, também não estou contente com essa história de cemitério. Mas vai ficar tudo bem, você vai ver.
Capítulo 6
Quatro e meia em ponto. Melissa olhou o relógio. Onde estavam as outras? Bem nesse momento, ela ouviu as amigas conversando enquanto chegavam ao topo da colina para se juntarem a ela.
– … E isso aconteceu logo que tiveram que colocar um curativo em mim – finalizou Jo. – Que vergonha. Lá estava a Katy, patinando e rodopiando como uma profissional, e eu levei o maior tombo. E o sangramento simplesmente não parava, o que era ainda pior. Quando a atendente insistiu para que eu fosse à enfermaria, achei que ia morrer de vergonha. Quer dizer, 14 anos de idade e vou ficar com uma linda cicatriz enorme no joelho, ficará uma beleza no Baile de Natal. Que ótimo.
– Ei, Melissa, está aí há muito tempo? – perguntou Jenny.
Melissa mudava de posição, batendo os pés na tentativa de se manter aquecida.
– Não – ela sorriu, meio sem graça. – Acabei de chegar.
Realmente era uma tarde cruelmente gelada. Os caminhos levavam a diferentes direções e brilhavam na semiescuridão com a geada.
– Certo – disse Melissa, assumindo a liderança como sempre. – O plano é o seguinte: acho que devemos nos separar. Cada uma de nós procura em uma parte do cemitério até encontrarmos o túmulo. É a maneira mais rápida de fazermos isso, não faz sentido procurarmos no mesmo lugar. Então, o que acham de irmos sozinhas e voltarmos a nos reunir aqui às sete? Acho que é tempo suficiente.
– E se acharmos o túmulo antes disso? – Jenny perguntou.
– Ah, o cemitério não é tão grande assim – disse Melissa, pensativa. – Que tal nos encontrarmos no mausoléu às seis? Acham que é tempo suficiente?
Jenny se arrepiou com o uso da palavra “mausoléu”. O prédio grande e imponente que ficava no limite do cemitério tinha sido erguido 100 anos atrás pelo senhor Carruthers, em memória de sua esposa. A princípio, um imponente monumento à memória da senhora Carruthers, ele agora abrigava não só o corpo dela, mas também o do próprio senhor Carruthers e de muitos membros da família dele. Jenny admitiu, contrariada, que era uma bela construção, mas o mausoléu lhe causava arrepios, e ela passaria por ali o mais rápido possível se tivesse de ir por aquele caminho. Ela observou as altas cúpulas do edifício e, logo em seguida, desviou o olhar.