Box Hora do Espanto: Série III

Edgar J. Hyde · Capítulo 17 de 17 · parte 2/8

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Box Hora do Espanto: Série III

Capítulo 17

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 8 partes.

A noite passou rápido, o que é normal quando as pessoas se divertem. As abóboras e os convidados perderam o brilho, e os pais faziam uma fila de carros para buscarem os filhos. As quatro amigas estavam paradas no degrau mais alto do lado de fora do salão da escola.

– Puxa, quase esqueci – disse Elis. – A minha mãe disse que eu podia convidar vocês três para o almoço amanhã, já que é sábado. Por favor, digam que sim! Ela e o meu pai tiraram o dia para passear, a casa será só nossa! Podemos fazer o que quisermos. Vamos lá, meninas, vocês ainda não foram à minha casa, digam que vão poder ir.

As garotas pareciam ter gostado do convite. Elis estava certa, elas ainda não conheciam a casa dela.

– Certo – elas concordaram.

– Ótimo! Cheguem ao meio-dia. Você também, Alice – ela cutucou Márcia. – E, se quiser, traga o coelho branco!

Elis desceu os degraus correndo.

– Espere, Elis, você não quer carona? – Olívia gritou.

Mas Elis tinha ido embora. Com seus belos cachos esvoaçantes, ela sumiu na escuridão.

– Pelo jeito, não – Olívia concluiu quando o carro de seu pai parou ao lado da calçada.

As três garotas subiram no carro, abafando bocejos enquanto puxavam o cinto de segurança. Elas arrancaram as incômodas perucas, as anáguas engomadas e lamentaram a perda de lantejoulas nas roupas.

– Vocês ainda não viraram abóboras? – brincou o senhor Goulden.

– Não, pai – retrucou Olívia. – E nenhuma de nós encontrou o príncipe encantado.

Natasha encostou a cabeça no banco e fechou os olhos durante a curta viagem de carro até sua casa.

Capítulo 7

 

 

– Amendoim? Você não pode estar falando sério, Natasha! Você quer levar amendoim? – Olívia não conseguia acreditar no que a amiga estava falando.

– Só de brincadeira! – Natasha riu ao telefone. – Hoje é o dia depois do Dia das Bruxas. Talvez a Elis queira brincar de pescar maçãs com a boca, nunca se sabe. De qualquer forma, a minha mãe comprou um zilhão de amendoins, e está sobrando um monte aqui na cozinha. Vou encher alguns saquinhos e levá-los.

Olívia permaneceu calada no outro lado da linha.

– Ainda está aí, Olívia? – Natasha perguntou.

– Estou, Natasha. É que você disse que hoje é o dia depois do Dia das Bruxas e eu me lembrei da data: 1° de novembro. Foi nesse dia, em 1920, que a Suzanna morreu, lembra?

Natasha tinha esquecido momentaneamente.

– Sim, lembro, Olívia. Vamos fazer o que fizemos na noite passada? Vamos até a casa da Elis e esquecemos um pouco da Suzanna por enquanto. Afinal, temos que admitir: nada de estranho aconteceu nos últimos dois dias. Talvez seja apenas coisa da nossa cabeça.

Olívia começou a protestar.

– Não, tudo bem! – Natasha continuou. – Sei que você está certa, nós não podíamos ter imaginado as coisas que aconteceram. Vamos fazer assim: a partir de amanhã, vamos analisar toda essa coisa de novo. Voltaremos à biblioteca e faremos algumas perguntas para a senhora Florence. Talvez, ela consiga nos ajudar.

Olívia respirou fundo e disse:

– Tudo bem, Natasha, acho que você tem razão. Encontro você na rua de baixo perto do novo Centro de Saúde. Vou ligar e pedir para a Márcia nos encontrar lá também. Vejo você em meia hora.

Olívia desligou o telefone. Natasha estava certa. Ela devia deixar essa coisa de lado. Suzanna Craigson estava morta, e não havia absolutamente nada que ela, Olívia Goulden, pudesse fazer a respeito disso. Ela pegou o telefone e ligou para Márcia.

Ninguém atendeu.

“Estranho” – pensou Olívia. “Talvez ela já tenha ido para a casa da Elis. Eu pensei que ela quisesse se encontrar com a Natasha e comigo, para irmos todas juntas. Talvez ela tenha ido comprar alguma coisa e nos encontre no caminho.”

Olívia subiu alguns degraus para pegar seu casaco. Às vezes, fazia muito frio nessa época, e ela não sabia se Elis planejava passar o dia dentro ou fora de casa. Era melhor estar preparada.

– Vamos lá, molenga – gritou Natasha. – Estou congelando aqui.

Olívia apertou o passo na calçada em direção à amiga.

– Desculpe, estava tentando ligar para a Márcia, mas não consegui falar com ela nenhuma vez – Olívia explicou.

Natasha deu de ombros.

– Talvez ela já esteja na casa da Elis, quem sabe? Vamos nos apressar. Espero que ela tenha feito alguma bebida quente.

As garotas começaram a subir a ladeira em direção ao bairro de Gatefells, porque a casa ficava quase no ponto mais alto da cidade. Elas caminharam juntas num silêncio agradável, aquele que só é bom entre amigos de longa data.

Olívia quebrou o silêncio ao perguntar:

– Você sabe com o que o pai da Elis trabalha, Natasha? A família parece ser muito bem de vida.

Novamente, Natasha deu de ombros.

– Não, pensei várias vezes em perguntar para a minha mãe, mas não lembrei. Só sei que eles moram numa casa grande e luxuosa no topo dessa colina e que nunca falta nada para a Elis!

As garotas chegaram ao terreno da velha casa, e Natasha ficou impressionada, não só com a beleza dos imensos jardins que rodeavam a mansão, mas com a enorme proporção de tudo.

– Não seria um sonho morar aqui? Olhe a grandeza desse lugar!

Olívia não respondeu. Desde que tinha entrado no terreno da casa, ela estava nervosa.

– Não havia portões aqui? – ela perguntou a Natasha, apontando para o final do gramado.

Natasha virou-se para Olívia.

– Como vou saber, Olívia? Só passei por aqui uma ou duas vezes, e eu estava de carro. Pelo que eu sei, não havia nenhum portão.

– Então, como é que eu me lembro de grandes portões de ferro fundido, sustentados por pilares de pedra dos dois lados? – perguntou Olívia. – E sei que aquele carvalho ali costumava ter um balanço no verão.

Olívia foi ficando cada vez mais agitada conforme falava. Seus olhos brilhavam quando ela olhava ao redor.

– Ali, a janela em que eu sempre sentava enquanto a Ellen preparava o jantar. Quando eu sentava numa determinada posição pouco antes do anoitecer, eu via o papai desmontando…

Natasha encarou Olívia. Aquela coisa toda havia afetado a amiga mais do que ela tinha imaginado. Natasha segurou nas mãos dela.

– Olívia, você precisa se acalmar! Por favor!

Os olhos de Olívia, alucinados, percorriam todas as direções. Ela ria, quase gargalhando, mas era um riso vazio, que gelava o coração de Natasha.

– Olívia, por favor, você está me assustando. Quem é Ellen? Papai desmontando? Não sei do que você está falando.

– Natasha, Olívia, por aqui – as garotas se viraram. Elis estava parada na entrada da casa, acenando, frenética. – Venham, meninas. Achei que nunca fossem chegar!

Natasha olhou na direção de Olívia, ainda segurando as mãos dela. O olhar alucinado tinha desaparecido, e Olívia estava normal de novo.

– Estou bem, Natasha. Sinceramente, não sei o que aconteceu agora há pouco. Tive a estranha sensação… Ah, não importa. Vamos! – ela esfregou os olhos como se tivesse acabado de acordar de um sono profundo e levantou ainda mais a gola do casaco. – A Elis está nos esperando. Vamos.

As garotas subiram o curto caminho que levava à entrada da casa tentando afastar qualquer pensamento sinistro.

Elis as levou até a enorme cozinha. Havia um grande fogão a lenha, e a água na chaleira tinha acabado de ferver.

– Certo, chocolate com menta, chocolate com laranja, chocolate com coco ou chocolate com chocolate? – ela ofereceu pequenos sachês de achocolatado.

– Qualquer coisa, desde que seja quente – sorriu Natasha. – Está muito frio lá fora hoje.

Elis se virou para colocar o líquido fervente nas canecas. Natasha deu uma olhada em Olívia, que parecia ter voltado ao normal. Agradecida, Natasha pegou a caneca quente que Elis lhe entregou e a segurou com as duas mãos.

– Obrigada, Elis. A Márcia não está aqui? – ela indagou.

– Ainda não – respondeu Elis, juntando-se às garotas na mesa de madeira. – Achei que vocês viriam juntas.

– É – disse Olívia. – Esse era o plano. Mas não consegui falar com ela e achei que ela tivesse vindo sozinha. Não importa, talvez seja melhor ligar para ela daqui a pouco.

Elis concordou.

– Claro, por que não? Escutem, se vocês já estiverem aquecidas, posso pendurar os casacos para vocês. Eu os devolvo quando sairmos.

– Nós vamos sair? – perguntou Natasha. – Meus dedos estão começando a descongelar e você já está falando em voltar lá para fora?

– Ora, não seja covarde, Natasha – Elis deu um tapinha nas costas da garota e foi pendurar os casacos. – Ainda estamos em novembro, vai esfriar muito mais. Achei que vocês iam gostar de conhecer os arredores mais tarde, já que é a primeira vez que vocês me visitam.

Olívia se ajeitou na cadeira e disse:

– Eu, por exemplo, adoraria dar uma volta por aí, Elis. Estou muito interessada na história do lugar. Talvez você possa nos dar detalhes.

Elis sorriu.

– Bem, provavelmente meus pais seriam as pessoas mais indicadas para isso. Mas sei de algumas coisas e vou dar o meu melhor.

Natasha ergueu as sobrancelhas encarando Olívia.

“Bem, talvez seja melhor saber mais sobre este lugar” – Natasha pensou. “Afinal de contas, parece que ele desperta alguma coisa em Olívia. Talvez a Elis consiga explicar alguns acontecimentos estranhos desta manhã.”

Ela se serviu de biscoitos de chocolate e puxou a poltrona para mais perto da lareira.

Capítulo 8

 

 

– Elis, preciso usar o banheiro – disse Olívia.

– Tudo bem, é só voltar por aqui e virar à esquerda e depois à direita. Não tem erro – Elis explicou. – Natasha e eu vamos para a biblioteca. Se você quiser saber algo sobre a história de Gatefells, lá é o lugar certo! Vou levar a Natasha primeiro, depois volto e encontro você na cozinha.

Natasha e Elis saíram da cozinha e desceram uma escada em espiral que levava a um corredor longo e estreito.

– Uau! Estes são os seus ancestrais? – ela disse, olhando as filas de quadros alinhados no corredor.

– Sim, alguns deles são – Elis respondeu. – Esse é o meu tio-avô Nicholas. Sua esposa está no pequeno quadro acima dele. Acho que não tiveram nenhum filho. Certo, estamos chegando.

Conforme as garotas andavam, a passagem ficava cada vez mais escura. De repente, Elis parou em frente a uma porta e tentou girar a maçaneta.

– Está um pouco dura, faz séculos que não entram aqui – ela deu um forte empurrão e a porta se abriu lentamente.

– Onde fica a luz? – Natasha perguntou, tateando na escuridão. De repente, ela sentiu um tremendo empurrão nas costas. – Elis, o que você está fazendo?

Elis, que parecia sorrir em meio à escuridão, deu-lhe um empurrão final.

– Desculpe, Natasha – ela murmurou, trancando a porta. – Nada contra você. Só preciso que fique fora do meu caminho por enquanto.

Natasha, mergulhada na escuridão, caiu ao tropeçar num pequeno lance de escadas dentro do que parecia ser uma espécie de porão.

– Elis! – ela gritou. – Deixe-me sair daqui! Que brincadeira é essa…

Ela tentou se levantar, mas tinha machucado o tornozelo na queda. Percebeu que sua mão estava molhada quando foi tirar o cabelo dos olhos. Ela devia ter se cortado na beirada áspera da escada quando tentou impedir a queda. E que barulho era aquele?

Alguma coisa passou correndo por Natasha, que só conseguiu ver o contorno na escuridão.

“Ah, não” – ela pensou, agora machucada e apavorada. “Ratos não, por favor, meu Deus, ratos não.”

– Cadê a Natasha? – Olívia perguntou para Elis na cozinha.

– Está procurando alguma coisa – ela disse. – Ela vai nos encontrar lá fora. Aqui, eu trouxe o seu casaco.

– Mas não vamos até a biblioteca com a Natasha primeiro? – perguntou Olívia.

– Não, não – Elis a tranquilizou. – Ela disse que só vai demorar alguns minutos e em seguida vai se encontrar conosco. Vamos, vou lhe mostrar as redondezas. Você não estava curiosa?

Olívia pegou o casaco da mão de Elis.

– Sim! Estou muito curiosa. Por onde vamos começar?

As duas saíram e contornaram os fundos da casa.

– A lagoa… ainda existe! – gritou Olívia.

– Sim, ainda existe – comentou Elis. – Por que não existiria?

– É que eu pensei que, como a Suzanna se afogou aqui, talvez a lagoa tivesse sido drenada e aterrada – disse Olívia.

Elis não se mostrou surpresa com a menção do nome de Suzanna.

– Ah, não… Essas lagoas antigas tinham várias utilidades – ela sorriu para Olívia. – Vamos entrar no barco. Parece um pouco velho, eu sei, mas é muito seguro, de verdade.

Olívia começou a segui-la, mas parou de repente.

– Elis, então você conhece a história da Suzanna? É que até agora você não parou para me perguntar como eu sabia sobre ela.

Elis olhou para trás e a encarou.

– Claro que eu conheço a história. Ela era minha parente. Vamos, você primeiro. Vou segurar a sua mão enquanto você sobe no barco.

– Não sei – Olívia começou. – Os seus pais deixam você…

– É só subir, Olívia – Elis falou rispidamente, empurrando a garota para dentro do barco.

– Elis, não empurre, você vai balançar o barco.

Elis riu.

– Não empurre, você vai balançar o barco – ela imitou, com voz infantil. – A mesma criancinha indefesa de sempre, escondida atrás da Natasha. Bem, senhorita Goulden, já me cansei das suas manhas.

Elis começou a soltar as amarras do barco.

“Ela está ficando louca. Onde será que a Natasha está?” – pensou Olívia. – Elis, por favor, pare com isso – ela implorou.

– Não! – retrucou Elis. – Não posso parar agora. Esperei anos por isso. Não percebe que tenho que vingar Suzanna? Suzanna Craigson, a garota que morreu aqui. Só que não era ela quem deveria ter morrido. Vamos voltar no tempo. Você está confortável? Então, vou começar.

Elis limpou a garganta, enquanto o barco ficava à deriva e se afastava lentamente da margem da lagoa.

– A família Craigson, a mãe, o pai e Suzanna, instalou-se aqui cerca de 100 anos atrás. Suzanna era filha única, muito amada pelos pais. A garota era introvertida e não fazia amigos facilmente, porque tinha uma pequena deficiência física. Na época, os moradores do bairro rejeitavam intrusos, principalmente os que eram um pouco diferentes. Um dia, porém, uma mulher foi até Gatefells para saber se os Craigson precisavam de uma governanta. A senhora Craigson ficou insegura no começo, pois conseguia cuidar muito bem da casa sozinha. Ela convidou a mulher para entrar e abriu a porta. Foi quando viu que a mulher também tinha uma filha da mesma idade de Suzanna. A mulher não mencionou nenhum marido, e a senhora Craigson, com pena das duas, contratou a mulher como governanta, provavelmente pensando que a garotinha poderia fazer companhia para sua própria filha.

– Ellen, a governanta, trabalhava com afinco o dia todo. A princípio, sua filha, Emma, ficava com ela na cozinha. Mas, depois, ela percebeu que Suzanna ficava sentada lá fora, olhando para a cozinha, como se esperasse a garota, e permitiu que Emma passasse algum tempo com Suzanna. As duas garotas logo se tornaram inseparáveis e o lar dos Craigson se encheu com as risadas delas. O senhor e a senhora Craigson ficaram encantados com a maneira como as coisas estavam progredindo. Um dia, quando Ellen servia o jantar, eles lhe agradeceram por ter ido a Gatefells e abençoaram o dia em que ela chegou ao bairro. Mas essas coisas nunca são o que parecem, não é?

Elis parou para pensar e olhou para Olívia.

– Assim como você também não é o que parece, Olívia, santinha do pau oco. Está assustada? Queria que sua amiga estivesse aqui?

Ela deu uma risadinha e empurrou o barco com o remo.

– Enfim, vamos voltar ao assunto em questão. Não parecia, mas Emma realmente carregava um grande fardo nos ombros. Ela era filha bastarda, e isso era um grande problema na época. Ela se sentia inferior a Suzanna e detestava ver a mãe trabalhar feito escrava o dia inteiro, fazendo de tudo para garantir o conforto dos Craigson. Então, ela bolou um plano muito simples e lógico, na minha opinião. Se você quer se livrar de alguém que por acaso tem uma lagoa praticamente na porta de casa, basta levar essa pessoa para passear perto da lagoa e afogá-la. Ela planejou tudo direitinho, nos mínimos detalhes. Com Suzanna fora de cena, o senhor e a senhora Craigson se tornariam cada vez mais apegados a ela, e provavelmente a adotariam! Embora ela não quisesse se separar da mãe, ser adotada significaria ser a herdeira, e ela e sua mãe nunca mais teriam que mendigar ou roubar.

– Ela sabia que o senhor e a senhora Craigson a adoravam, e ela fazia de tudo para bajulá-los e conquistar ainda mais o afeto deles. Na época, havia uma garagem de barcos aqui perto. Então, ela guardou algumas roupas secas na garagem, preparando-se para o que estava por vir. O senhor e a senhora Craigson tinham ido à cidade buscar o vestido que haviam mandado fazer para a festa de aniversário de Suzanna. Ela faria 14 anos de idade no dia seguinte, e eles planejavam levar as garotas a um restaurante chique recém-inaugurado no bairro vizinho. Emma ia usar um vestido que Suzanna não queria mais; estava em ótimo estado e caía muito bem nela. Mas, para Emma, isso foi a gota d’água.

– Então, ela decidiu que aquele seria o grande dia. Quando o senhor e a senhora Craigson estavam se arrumando naquela manhã, Emma fez questão de mostrar ao casal que estava com sua roupa de passeio. Emma disse que iria visitar a senhora Lawrence, pois sua mãe havia lhe contado que a velhinha não estava passando muito bem, então ela queria levar um pouco de remédio para aliviar a tosse da senhora. O senhor e a senhora Craigson se despediram e ficaram imaginando como Emma era gentil.

– É engraçado como alguém consegue enganar tanta gente, não é? – disse Elis, voltando ao presente.

Olívia estava branca como um lençol. Lentamente, o barco foi derivando para o centro da lagoa e Olívia começou a sentir que seus pés estavam molhados.

– Oh! Não contei ainda? – Elis riu. – Fiz um buraco no fundo do barco. É um só, pequeno, mas é grande o bastante para afundar o barco em cerca de meia hora. Acho que é tempo suficiente para eu ter certeza de que você sentirá muito medo. Então, você vai sentir na própria pele o que a pobre Suzanna sentiu!

Olívia olhou para baixo e viu que era verdade: havia um buraco na outra ponta do barco, e uma pequena poça tinha se formado ali.

– Elis, por favor – ela implorou. – Eu não entendo, não entendo mesmo. O que tudo isso tem a ver comigo? Por que você está me fazendo pagar pela morte da Suzanna? Não tive nada a ver com isso. Isso aconteceu antes de eu nascer! Elis, ajude-me, por favor!

Mas parecia que Elis estava olhando para outro lugar. Seus olhos, que Natasha considerava tão belos, agora pareciam frios como aço. Olívia sabia, no fundo, que ela jamais a ajudaria. Elis parecia ter perdido completamente a sanidade.

– Natasha… – Olívia murmurou quase em silêncio. – Preciso de você. Por favor, ajude-me!

Uma lágrima solitária começou a escorrer em seu rosto.

Capítulo 9

 

 

Natasha se arrastou e conseguiu se levantar. Seus olhos estavam se acostumando com a escuridão, e ela viu que estava com um corte profundo na mão. Ela tirou uma meia, colocou o tênis de novo e amarrou a meia em volta da mão o mais forte possível. Os ratos que ela achou que tinha ouvido se esconderam na escuridão, ou talvez fossem apenas camundongos, que estavam sem dúvida mais assustados com ela do que ela com eles. Ela tentou pensar. Não conseguia imaginar por que Elis estava fazendo aquilo. Ela só sabia que precisava sair dali rápido. Olívia podia ter se metido em uma encrenca das grandes. O lugar começou a esfriar ainda mais, pois não havia janelas e a luz do sol não penetrava no local. Então, com um sobressalto, Natasha descobriu o motivo do frio repentino. O vulto esguio de Suzanna Craigson havia surgido no canto do cômodo. Com medo, Natasha mancou para trás, até que suas costas estivessem fortemente pressionadas contra a parede e ela não conseguisse mais recuar.

– Natasha, por favor, não tenha medo – Suzanna começou. Ela estendeu a mão para a garota apavorada. – Por favor, acredite em mim! Estou aqui para ajudá-la. Você precisa sair daqui logo. Ela está com a Olívia.

– Elis está com Olívia? Onde? – Natasha perguntou, tentando se mover. Ela chutou a parede, frustrada, esquecendo momentaneamente o tornozelo inchado e retraindo-se de dor. – Caramba! Como posso sair daqui? Não há janelas. Não consigo forçar a porta. O que devo fazer?

Em alguma parte racional de sua mente, ela pensou:

“Estou conversando com um fantasma… Agora eu fiquei louca de vez. Estou falando com um fantasma!”

Naquela hora, porém, os pensamentos racionais ficaram em segundo plano, pois ela precisava sair daquele porão escuro e encontrar a amiga. Suzanna falou de novo.

– Natasha, você precisa me ouvir. Ouça com atenção: eu morei nesta casa há muito tempo e conheço as passagens secretas. Se você seguir as minhas instruções, posso tirá-la daqui. Mas você precisa me ouvir com muita atenção.

Natasha concordou.

– Continue – ela disse.

Suzanna se virou para a parede oposta à porta e apontou para uma grande pedra que se destacava entre as outras.

– Se você pressionar aquela pedra, ela vai abrir uma passagem que leva à cozinha. Logo na saída, antes de prosseguir para a passagem, coloque a mão para a esquerda e você encontrará uma vela e alguns fósforos. Eles estão ali desde que eu morava nesta casa, e agora você deve usá-los.

Suzanna deu mais orientações e Natasha ouviu tudo com muita atenção, tentando em vão ignorar a dor na mão e no tornozelo.

– Depressa, Natasha – o vulto de Suzanna começou a sumir. – Você precisa se apressar. Não há tempo a perder.

Quando a garota desapareceu completamente, Natasha se moveu em direção à pedra e a pressionou com força. Como Suzanna havia dito, a parede começou a se mexer lentamente, pois havia muitos anos que ninguém a movia. Uma passagem larga foi surgindo. Ela apalpou à esquerda, pegou a vela e a acendeu com um fósforo. Em seguida, ela começou a mancar pela passagem o mais rápido que podia.

O barco já estava começando a encher. Desesperada, Olívia tentava não entrar em pânico, pois sabia que qualquer movimento só pioraria a situação. Enquanto isso, Elis continuava sua história.

– E assim Emma esperou. Esperou até os Craigson sumirem de vista. Antes de voltar para casa, ela trocou de roupa e foi procurar Suzanna. Ela a encontrou do lado de fora e rapidamente colocou seu plano em ação. Convidou a garota para um pequeno passeio no barco, que estava sempre amarrado à beira da lagoa. Suzanna disse que estava com medo, pois não sabia nadar, mas Emma a tranquilizou e lhe garantiu que tudo ficaria bem. Será que ela deixaria algo acontecer com sua melhor amiga? Suzanna estava sorrindo, estava sendo boba, claro. Ela achava que Emma cuidaria dela, como sempre.

– As garotas foram para a lagoa e subiram no pequeno barco: cada uma pegou um remo. Emma começou a cantar “Rema, rema, rema o barco” e Suzanna a acompanhou. As duas riram juntas até se aproximarem do centro da lagoa. Então, bem na parte mais funda, Emma desafiou Suzanna a ficar em pé, dizendo que também se levantaria. Depois de hesitar um pouco, a jovem confiante fez o que foi pedido. Mas, ao se levantar, Emma agarrou a garota com força e tentou empurrá-la para fora do barco, nas águas turvas. Suzanna tentou se defender, com os olhos arregalados de medo e de incredulidade, mas ela era uma garota magra, enfraquecida pela doença e pela deficiência, e sua força não se comparava à de Emma. Um último empurrão e ela estava na água. Emma não esperou para ver se a garota colocaria a cabeça para fora d’água ou não. Ela simplesmente remou para o outro lado da lagoa o mais rápido que conseguiu e foi colocar a roupa seca que tinha guardado na garagem de barcos naquela manhã.

– Suzanna voltou à superfície pelo menos duas vezes, debatendo-se para respirar, tentando chamar seus queridos pais, lutando por sua vida. A última visão que teve, com os pulmões quase cheios de água, foi a de sua amiga arrastando o barco à margem da lagoa. A última emoção que ela sentiu foi a da traição.

– Traição, Olívia. É isso o que você está sentindo agora? Que eu traí a sua amizade? Espero que você esteja sentindo isso. Espero que você esteja sentindo um medo terrível, horrendo, porque sabe que jamais vou ajudá-la.

Chorando em silêncio, Olívia olhou para a garota no outro lado da lagoa e não disse nada.

Elis começou a falar de novo.

– Claro que não deu certo – ela continuou. – Os Craigson ficaram tão desolados com a morte da pobre filha que não suportavam sequer olhar para Emma, pois ela lhes lembrava muito Suzanna. O pior aconteceu algumas semanas depois, quando Emma experimentou o vestido que Suzanna usaria em sua festa de aniversário de 14 anos. Ela achava que o senhor e a senhora Craigson fossem gostar de vê-la com o vestido e que o coração deles amoleceria ao verem que ela ficava tão bela nele. Claro, a tola criatura só os deixou ainda mais angustiados. A senhora Craigson quase ficou histérica de tristeza e o senhor Craigson se isolou no escritório. Então, Ellen castigou a filha por ser tão vaidosa e insensata. Ela estava ciente dos erros da filha e sabia que a garota podia ser vaidosa, gananciosa e rancorosa. Às vezes, Ellen até se perguntava se sua filha não estaria envolvida no acidente de barco, mas ela sempre tentava tirar esse pensamento da cabeça. A tristeza dos Craigson era tanta que Ellen se sentia uma completa estranha, e a presença de sua filha era uma recordação constante de Suzanna para eles. Ela foi embora semanas depois, mudou-se para uma cidade a centenas de quilômetros de distância dali. Emma Goulden: esse nome não significa nada para você, Olívia?

Olívia espantou-se.

– Goulden? É um sobrenome muito comum, Elis, porque deveria significar algo para mim?

– Porque ela era sua parente, é por isso, Olívia. Ela conquistou ardilosamente o coração de Suzanna e a descartou assim que teve vontade. Sabe qual era o nome de solteira da minha mãe, Olívia? Craigson. Isso mesmo, Craigson! Suzanna era, ou teria sido, tataravó dela, mas a sua parente gananciosa resolveu acabar com a vida dela, sumir com ela, para tentar ser herdeira do dinheiro dela. Triste, não é? Só que não deu certo, Olívia. Mas nós, os Craigson, somos resistentes. Os pais de Suzanna tinham irmãos espalhados pela região, e um dos irmãos mais novos veio morar com a esposa em Gatefells, para garantir que a linhagem da família continuasse. Então, aqui estou eu. E aí está você.

Elis olhou para Olívia.

“Não vai demorar muito” – Elis pensou. “O barco está quase afundando.”

– Olívia, aguente firme, estou chegando!

Olívia olhou na direção da voz. Márcia corria em direção a ela acompanhada por um homem. Olívia percebeu que era o pai de Márcia. Elis olhou para cima, decepcionada, e ficou mais decepcionada ainda ao ver que Natasha também havia escapado e vinha mancando em direção à lagoa. O pai de Márcia mergulhou na lagoa e nadou até o barco quase naufragado. Ele então tirou Olívia do barco e a levou até a margem. Ele a segurou gentilmente nos braços enquanto ela chorava.

Capítulo 10

 

No dia seguinte, as garotas descobriram que Elis tinha ligado para a Márcia às nove horas e dito a ela que o almoço em Gatefells havia sido cancelado e que ela não precisaria ir até lá. Só que Márcia voltou do shopping com a mãe e telefonou para Natasha, pois queria encontrá-la naquela tarde. Assim, ela ficou sabendo pela senhora Morris que Natasha e Olívia estavam em Gatefells! Como sempre desconfiou de Elis, Márcia suspeitou que alguma coisa estivesse acontecendo e pediu para seu pai levá-la até lá.

Natasha e Olívia colocaram pequenos buquês de flores no túmulo e se sentaram calmamente por algum tempo. Depois, elas se levantaram e saíram do cemitério.

– Adeus, Suzanna – cochichou Olívia. – E obrigada por tudo.

Natasha saiu de braços dados com a melhor e mais querida amiga.

– Pena que ninguém conseguiu salvá-la a tempo. Acho que não era para ser. Pelo menos, ainda temos você – ela sorriu e abraçou Olívia.

Natasha ainda mancava ligeiramente por causa da queda no porão. O médico disse que era apenas uma torção muito feia e que ela deveria descansar o máximo possível.

– Nada de hóquei por algumas semanas – Natasha brincou.

– O que acha que vai acontecer com a Elis? – perguntou Olívia.

– Quem sabe… Provavelmente vai para um reformatório ou algo assim. Exatamente o que ela merece – Natasha respondeu.

Olívia virou-se para fechar o portão do cemitério e reparou que havia uma sepultura coberta com flores recentes. Ela ergueu os olhos para ver a lápide. Havia apenas duas palavras inscritas lá: Emma Goulden.

Esperamos que você tenha gostado desta história de Edgar J. Hyde. Aqui estão outros títulos da série Hora do espanto para você colecionar:

A colheita das almas

O doutor Morte

O escritor fantasma

O espantalho

Feliz dia das bruxas

O piano

A COLHEITA DAS ALMAS

 

Os Grimaldi, uma assustadora família com maus comportamentos e que sempre se veste inteiramente de preto, mudam-se para a vizinhança de Billy e Alice.

Logo depois, a mãe, o pai e seus vizinhos começam a agir de maneira muito estranha, como se de repente eles se tornassem malvados. As crianças e seus amigos, Ricky e Alex, logo são as únicas pessoas normais que sobram no bairro, em meio a ladrões, encrenqueiros e matadores.

A cidade toda, controlada pelos Grimaldi, não demora a perseguir as quatro crianças para capturar suas almas e completar a “colheita”.

O DOUTOR MORTE

Alguma vez você já foi ao médico com uma doença sem importância só para descobrir que iria piorar muito em seguida?

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Será que Josh e seus amigos conseguirão impedir o doutor Morte de realizar seu plano funesto?

O ESCRITOR FANTASMA

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Parece que uma história está sendo contada nas páginas do texto manuscrito, mas quem está fazendo a narrativa e por quê?

O diretor da escola de Charlie está se mostrando um pouco interessado demais no bloco de notas e não parece muito contente. Conforme Charlie investiga, descobre que as coisas são piores do que ele jamais poderia imaginar. Você alguma vez já se assustou com o diretor de sua escola?

Eu quero dizer: ficou realmente assustado?

O ESPANTALHO

Não é raro pessoas se tornarem fortemente apegadas ao lugar onde nasceram… Mas um espantalho?

Uma série de acidentes misteriosos na nova fazenda da família Davis faz David suspeitar de que há uma relação entre eles. Será que existe alguém, ou alguma coisa, por trás desses eventos macabros?

Quanto mais David investiga, mais ele quer manter a boca calada… Até que o terrível segredo do espantalho seja revelado!

FELIZ DIA DAS BRUXAS

Samanta, Tiago e Mandy são irmãos. Os pais deles decidem descansar um pouco em uma tranquila aldeia no fim de semana do Dia das Bruxas. Os adolescentes estão muito preocupados, pois ficar em uma aldeia chata vai estragar a brincadeira de travessuras ou gostosuras.

Com certeza, o Dia das Bruxas será bem diferente do normal, mas longe de ser uma chatice!

Samanta descobre um velho livro de feitiçaria e rapidamente percebe que é capaz de controlar perigosos poderes. Então, ela é levada para um mundo terrível e sinistro de magos e bruxos, e precisa escapar de lá ou perderá a vida.

O PIANO

A família Houston acredita ter encontrado uma grande pechincha quando compra um belo piano por um preço muito baixo.

Mas o piano parece ter vontade própria. Na verdade, não importa qual música as pessoas tentem tocar, ele sempre executa sua própria e triste melodia.

O que o piano tenta dizer ao mundo?

Será que os Houston levaram algo mais além da pechincha?

E quem seria o compositor da bela, mas perturbadora, música que o piano insiste em tocar?

O COVEIRO

Edgar J. Hyde

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Hyde, Edgar J.

O coveiro [recurso eletrônico] / Edgar J. Hyde; traduzidopor Silvio Antunha. -Jandira, SP:

Ciranda Cultural,2021.

112p.; ePUB ; 1,3MB.–(Hora do espanto)

ISBN: 978-65-5500-726-8(Ebook)

1. Literatura juvenil. 2. Ficção. 3. Terror. I. Antunha, Silvio. II. Título. III. Série.

CDD 028.5

2021-870 CDU 82-93

Elaborado por Odilio Hilario Moreira Junior-CRB-8/9949

Índices para catálogo sistemático:

1.Literatura juvenil028.5

2.Literatura juvenil82-93

© 2015 Robin K. Smith

Esta edição de Hora do Espanto foi publicada

em acordo com Books Noir Ltd.

Título original: The Gravedigger

© 2015 desta edição:

Ciranda Cultural Editora e Distribuidora Ltda.

Tradução: Silvio Antunha

1ª Edição

www.cirandacultural.com.br

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida, arquivada em

sistema de busca ou transmitida por qualquer meio, seja ele eletrônico, fotocópia, gravação ou outros,

sem prévia autorização do detentor dos direitos, e não pode circular encadernada ou encapada de

maneira distinta àquela em que foi publicada, ou sem que as mesmas condições sejam impostas aos

compradores subsequentes.

Livro digital: Lucas Camargo e Gabriela Fazoli

Sumário

 

Capítulo 1

Capítulo 2

Capítulo 3

Capítulo 4

Capítulo 5

Capítulo 6

Capítulo 7

Capítulo 8

Capítulo 9

Capítulo 10

Capítulo 11

Capítulo 1

 

A cada nova trovoada, a sombra de Jamie era projetada contra a parede. Os raios iluminavam o quarto dele por uma fração de segundo, antes que o manto de escuridão cobrisse mais uma vez o ambiente. Lá fora, o vento frio da noite rodopiava em torno do cemitério, uivava no meio das lápides e percorria as velhas trilhas gastas que passavam pelas árvores até a casa no pé da colina.

Dentro da casa, o breu era total. A tempestade havia danificado a rede de energia duas horas antes, deixando Jamie; Paula, a irmã mais nova do garoto; e Andrew, o pai, tateando às escuras pela casa nova, tropeçando em caixas fechadas. Como sempre acontece nessas circunstâncias, eles tentavam dar sustos de arrepiar uns nos outros.

Jamie parou no início da longa escada em espiral que levava aos quartos no andar de cima. Ele ouviu alguma coisa se arrastar para lá e para cá, rangendo as tábuas do assoalho sem mobília no quarto do pai.

“Deve ser o pai…” – ele pensou. “A Paula é leve demais para fazer esse barulho, mesmo em um cômodo sem móveis.”

Lentamente, começou a subir os degraus, esperando encontrar Paula adiante. Ele tinha uma ideia de onde o pai estava, mas Paula podia estar escondida em qualquer lugar: dentro de um armário, atrás de uma cortina, debaixo da cama… pronta para atacar.

Nesse momento, a tempestade lá fora piorou. Jamie passava perto da janela quando o clarão de outro relâmpago iluminou a escada e um vulto alto e escuro que se arrastava nos degraus atrás dele. Jamie continuou a subir os degraus, sem perceber o fantasmagórico intruso que flutuava atrás dele. Quando chegou ao topo da escada, ele parou um segundo para pensar, espreitando com cuidado.

A porta do quarto do pai estava entreaberta, mas não o suficiente para Jamie ver o lado de dentro. Conhecendo sua família como conhecia, ele sabia que alguém dentro do quarto o esperava para assustá-lo gritando escandalosamente.

Então, Jamie ouviu uma respiração. Ele virou-se rapidamente e viu… a escuridão. O vulto alto, escuro e ameaçador que flutuava atrás dele nos degraus havia desaparecido. A casa inteira estava em silêncio, um silêncio sinistro.

O rangido da porta do banheiro quebrou o silêncio e, num segundo, Jamie correu para o quarto de sua irmãzinha, deixando a porta um pouco aberta para continuar a ver o lado de fora.

Então, ele viu o vulto alto e esguio que o acompanhava furtivamente desde o andar de baixo passar pela porta do banheiro, virar e seguir pelo corredor em direção a ele.

O homem vestia uma longa capa preta e usava o cabelo penteado para trás, e seus dentes brilhavam à luz da lua sempre que ele passava por uma janela.

Antes que ele chegasse ao quarto do pai, a porta se abriu, fazendo surgir um rosto familiar. Era Paula.

O homem misterioso se esgueirou pelo corredor em direção a ela. Paula, alheia ao que estava acontecendo diante de seu nariz, saiu do quarto e seguiu pelo corredor na ponta dos pés.

De trás da porta do quarto de Paula, Jamie observava tudo, e o coração dele batia cada vez mais rápido. O homem se aproximava cada vez mais. De repente, Paula parou.

O quarto de Jamie ficava exatamente do lado oposto do corredor. Paula abriu a porta com todo cuidado (o que era bem difícil, pois a porta rangia alto ao menor movimento), entrou e fechou a porta.

Jamie conseguia ouvir seu coração bater forte enquanto observava o vulto escuro pairar do lado de fora da porta com sua longa capa preta e seus reluzentes dentes brancos. Jamie podia jurar que aquele vulto era um vampiro.

O vampiro esperou algum tempo, atravessou a porta e seguiu Paula. Jamie saiu do quarto dela, foi para o corredor, respirou fundo e se preparou para atacar.

Ele sabia o que precisava fazer.

– Um, dois, três – ele contou, correndo o mais rápido que suas pernas permitiam, e jogou-se contra a porta…

– Aaaahhhhh! – ele gritou enquanto corria direto para o meio do quarto.

– Uuuááááááá!!!

Seis vozes diferentes gritaram para ele!

Jamie olhou ao redor. Seu pai, Andrew, estava em pé ao lado de Paula. Os dois estavam acompanhados de um vampiro, uma múmia, um lobisomem e um homem que carregava a própria cabeça embaixo do braço… E todos riam muito. Jamie olhou para eles e explodiu em gargalhadas também.

Bem-vindos ao lar da família Price.

Os Price não são uma família normal. Famílias normais geralmente se assustam com fantasmas. Mas os fantasmas não assustam Jamie, nem a irmã nem o pai dele. Na verdade, existem alguns que são mais do que amigos dos Price. Eles fazem parte da família!

É o caso do conde Félix, um vampiro singular que detesta ver sangue, tampouco suporta o gosto; da Múmia, que em várias ocasiões encantou Jamie e sua família até tarde da noite com suas histórias sobre o Egito Antigo, e que os diverte ainda mais sempre que se enrosca em suas faixas.

Há também o Wolfie, o único lobisomem vegetariano do mundo. Toda vez que se olha no espelho, ele sai correndo apavorado. E o último, mas não menos importante, é Lex

Killon, um honrado cavalheiro que estava no Titanic quando o navio afundou. Agora, Lex carrega a própria cabeça embaixo do braço e cospe água do mar acidentalmente toda vez que abre a boca.

Juntos, eles são os únicos quatro fantasmas que Jamie, seu pai e sua irmã não sepultaram. Não apenas porque são bons amigos, mas porque ainda ajudam Andrew, o pai de Jamie, a ganhar a vida escrevendo livros de suspense e terror.

Não basta ter capacidade psíquica de ver fantasmas para escrever boas histórias de terror. O pai de Jamie confia em seus quatro fantasmas camaradas para obter todas as informações necessárias sobre fantasmas de verdade e o que os torna marcantes. É isso que deixa os romances de Andrew Price tão bons, tenebrosos e reais.

Na verdade, foi por essa razão que o pai de Jamie comprou uma casa no meio do cemitério, apesar da oposição de Jamie e Paula: para sua própria inspiração. Embora não tenham medo de fantasmas, Jamie e Paula perceberam que, assim que os novos colegas de escola soubessem que eles moravam num cemitério, passariam a vê-los como estranhos ou assustadores. Mas, claro, o pai deles é igual a qualquer pai: quando coloca alguma ideia na cabeça, não há nada que o faça desistir.

Sempre que Jamie ou Paula manifestavam seus receios ao pai, ele simplesmente sorria, dava uma piscadinha e dizia: “Confiem em mim”, o que significava que tudo estava de acordo com o plano dele.

– Quase pegamos você, Jamie – disse o pai, alegre. Naquele momento, todos pararam e começaram a rir alto. Alguns, como Lex Killon, riam descontroladamente.

– Nada disso – retrucou Jamie. – Eu sabia que todos vocês estavam aqui. Eu só queria assustar vocês primeiro.

– Bem, você não me assustou nadinha. Acho que você deu um susto em você mesmo! – disse Paula.

O pai concordou:

– Verdade, Jamie, você também não me assustou. E você, conde Félix?

O conde Félix flutuava no meio do quarto e continuava rindo.

– Bem – ele disse –, como não teve nada com sangue, eu não me assustei nem um pouco.

– E você, Múmia? – perguntou Andrew.

– Não! – afirmou a Múmia, com a voz abafada. – Foi a coisa mais engraçada dos últimos

2 mil anos!

Jamie ficou um pouco frustrado. Ele sabia que não tinha ficado com medo, mas ninguém mais no quarto acreditava nele.

– Vocês não me assustaram – ele disse, tentando convencê-los. – E, Múmia, se essa foi a coisa mais engraçada dos últimos 2 mil anos, você deveria sair mais vezes.

As palavras mal saíram da boca de Jamie, e o quarto voltou a se encher de risos.

– É, Múmia, você precisa sair mais! – gritou Wolfie.

– É mesmo? – a Múmia respondeu. – Você é que precisa se olhar mais no espelho.

Todos no quarto estavam com o rosto vermelho e riam histericamente.

“Gostaria que faltasse luz todas as noites”

– pensou Jamie. “É muito divertido.”

Lá fora, o vento continuava a girar e rodopiar em torno do cemitério, e a chuva ainda castigava as janelas.

Dentro de casa, Jamie e os demais foram para o andar de baixo, ainda com o rosto vermelho de tanto rirem. Então, uma trovoada iluminou o cemitério, e um vulto alto e fantasmagórico surgiu de pé, embaixo de uma árvore no fundo do jardim.

Era Ebenezer Krim, o jardineiro do cemitério. Ele estava na chuva observando a casa fazia algum tempo, sem enxergar lá dentro por causa da falta de luz. Ficou ali parado, só de olho, sem rir, sem sorrir.

Capítulo 2

 

 

Com um forte baque, o pai de Jamie derrubou um livro na mesa, espalhando para todos os lados a poeira que estava entre as páginas. O barulho ecoou pelas altas pilhas de livros e pôde ser ouvido no outro lado da biblioteca.

– Silêncio! – disse o senhor sentado na mesa da frente, e essa não havia sido a primeira vez. Na verdade, era a quinta vez que Andrew fazia barulho. Da última vez, recebera um olhar irritado da bibliotecária para ser mais discreto.

– Perdão! – desculpou-se Andrew, olhando as outras mesas ao redor para ver se ninguém mais estava se incomodando com ele. Então, continuou a arrastar ruidosamente sua cadeira pelo piso de madeira.

Jamie e Paula se esforçaram para não rir. O melhor que Jamie conseguiu fazer foi colocar a mão na frente da boca, fazendo um barulho muito alto que mais parecia o ronco de um porco, o que provocou mais um pedido de silêncio do homem na outra mesa.

– Vocês dois, fiquem quietos. Estão fazendo barulho demais! – repreendeu Andrew.

– Nós devemos ficar quietos? – perguntou Paula, incrédula. – Foi você quem levou bronca pelo barulho que estava fazendo.

– Não levei bronca – retrucou o pai. – Estava tendo uma conversa de adultos com a bibliotecária. É o que os adultos fazem.

– É verdade, Paula – emendou Jamie. – O papai estava tendo uma conversa de gente grande com aquela senhora.

– Obrigado, Jamie – disse o pai, mas, antes que ele continuasse, Jamie o interrompeu.

– Ela disse para ele calar a boca ou cair fora!

Não era preciso muito para fazer a Paula rir. O último comentário de Jamie não foi exceção, e ela foi forçada a dar gargalhadas, despertando a atenção de todos na biblioteca e causando um pedido de silêncio de outra mesa, o que resultou em um novo pedido de desculpas do pai.

– Quando podemos voltar para casa? – Jamie perguntou ao pai, quase implorando.

– Quando eu encontrar o que vim procurar – o pai retrucou, ríspido.

– Bem, o que você está procurando exatamente? – perguntou Paula, tentando parecer útil. Mas, assim como Jamie, ela também não via a hora de ir para casa.

– Estou à procura de algo suspeito sobre a nossa casa nova, algum registro de atividades de espectros, ou talvez detalhes de um passado fantasmagórico – disse o pai, fazendo o possível para deixá-los interessados. Então, Paula começou a prestar mais atenção.

– Acha que podem existir corpos enterrados na nossa casa?

– Nossa! Espere um pouco… – respondeu Jamie. – Nós moramos numa casa no meio de um cemitério. Sabe, Paula, acho que você pode estar certa. Acho que, se procurarmos bem, conseguiremos encontrar alguns corpos enterrados em algum lugar.

Paula odiava quando Jamie a fazia de boba, mas isso era algo que ele adorava fazer com a caçula sempre que tinha chance.

– Jamie, pare de zombar da sua irmã – o pai repreendeu-o, zangado. – Faça alguma coisa útil e comece a procurar nesses recortes de jornais antigos.

Jamie não queria, mas no fim resolveu ajudar, para voltar logo para casa.

As horas passaram rapidamente enquanto Jamie, o pai e a irmã pesquisavam em livros de História, fuçavam recortes de jornais e procuravam a história de algumas pessoas enterradas no cemitério. Foi tudo em vão. Nenhuma história pavorosa, nenhum registro de espectros, nada de histórias de fantasmas ou de assombrações. Nada.

O pai de Jamie fechou bruscamente o último livro, levantando poeira na direção de seu nariz. Ele tentou se segurar, mas o espirro escapou pelo ar frio da biblioteca. Jamie e Paula estavam dormindo com a cabeça na mesa, pois já tinham desistido de encontrar algo minimamente fantasmagórico.

– Jamie, acorde – o pai chamou, tentando sussurrar um grito.

Jamie levantou a cabeça e, com o cabelo amassado de um lado e com os olhos entreabertos, murmurou:

– O que foi? O que você descobriu?

– Nada – foi a decepcionante resposta do pai. – Já está na hora de voltar para casa. A biblioteca está fechando.

Jamie sacudiu Paula para acordá-la. Ela estava tão cansada que nem sentiu nada. Muito pelo contrário, só virou a cabeça para o outro lado, soltando um rosnado alto enquanto Jamie insistia em sacudi-la e puxar o cabelo dela. Por fim, ele conseguiu trazê-la de volta derrubando uma enciclopédia sobre a mesa a poucos centímetros da cabeça dela.

Quando eles se dirigiram para a saída, a bibliotecária já segurava a porta aberta, esperando que eles saíssem para trancar a porta.

– Obrigado – disse Andrew ao passar pela porta.

– De nada – respondeu a bibliotecária, obviamente feliz de ver Jamie e sua família indo embora. – Vocês voltam amanhã?

– Não, não, acho que já conseguimos dar uma olhada em tudo o que queríamos – disse Andrew, segurando a porta para Jamie e Paula.

Ao saírem no ar frio da noite, Jamie se lembrou de que eles tinham chegado à biblioteca quando ainda era dia e de que o pai tinha afirmado que eles não demorariam muito. O garoto deu uma olhada no relógio e percebeu que eles tinham ficado quase seis horas lá.

A casa já era fantasmagórica o suficiente durante o dia, mas à noite ficava ainda mais assustadora. À medida que o pai de Jamie entrava na garagem, o vento ficava mais forte, soprando para o alto as folhas caídas das árvores. Paula fechou o casaco e se preparou para descer do carro em meio ao vento gelado que uivava e zunia ao redor deles. Jamie olhou para as folhas que voavam descontroladas no céu escuro da noite.

“Até as árvores parecem assustadoras” – Jamie pensou, enquanto saía do carro e corria para a porta da frente da casa.

A porta abriu rangendo lentamente, e, um a um, Jamie, Paula e Andrew entraram no corredor da casa. Quando o pai de Jamie empurrou a porta para fechá-la, algumas folhas foram sopradas para dentro e pousaram nos pés de Paula.

– Vocês dois, subam e coloquem o pijama, enquanto eu ponho a chaleira no fogo – bufou o pai.

Jamie e Paula começaram a subir a longa escada em espiral quando ouviram o pai gritar de dentro da cozinha:

– Jamie, Paula, venham aqui um segundo.

– O que foi agora? – murmurou Paula enquanto ela e Jamie voltavam para o andar

de baixo.

Dentro da cozinha, o conde Félix, a Múmia, Wolfie e Lex estavam sentados ao redor da mesa. Jamie já tinha visto isso antes. Significava que era hora de conferência: ou os fantasmas tinham feito alguma coisa, ou estavam prestes a fazer algo. Não demorou muito para ele descobrir que já tinham feito.

– Não fizemos por mal! – exclamou o conde Félix. – Só queríamos nos divertir.

– É verdade, estávamos só brincando. Foi um acidente – continuou Lex.

– O que aconteceu exatamente? – perguntou Andrew.

– Bem, sabem brincar de pula sela? – Wolfie perguntou.

– Sim – responderam Jamie, a irmã e o pai ao mesmo tempo.

– Ah, era algo desse tipo, só que não pulávamos uns sobre os outros.

– Então vocês pulavam por cima do quê? – indagou Jamie.

– Lápides – foi a resposta abafada da Múmia.

– Lápides?! – gritou Andrew. – Ficaram malucos?

Wolfie começou a ficar muito agitado.

– A culpa é dela – ele disse, apontando para a Múmia. – Estávamos nos divertindo até essa coisa desajeitada se enroscar nas faixas e cair em cima de uma lápide.

– Bem, se vocês derrubaram a lápide, suponho que eu vou ter que levantá-la – disse

Andrew, furioso.

– É que não foi só uma… – o conde Félix interrompeu.

– Então quantas foram? – Jamie perguntou.

– E-eu a-acho que o total está na casa dos 23 – gaguejou Lex.

– Como vocês conseguiram derrubar 23 lápides? – gritou Andrew.

– Foi um pouco parecido com dominó, sabe quando você coloca um monte de peças em pé em fila e empurra a primeira? – murmurou a Múmia, timidamente.

– Por acaso alguém viu vocês? – Paula perguntou.

Os quatro se entreolharam com expressões muito vagas. Na verdade, nenhum deles reparou se estava sendo observado, então eles não tinham certeza.

– Vocês quatro vão ter que evitar muito chamar atenção, mas MUITO mesmo, pelos próximos dias – Andrew esbravejou. – Concordam?

– Sim – foi a resposta sem graça em coro.

– E isso deve começar agora!

Um a um, eles se levantaram da mesa e atravessaram a parede, desculpando-se quando saíam.

Jamie olhou para Paula.

– Foi um longo dia – ele disse.

– Foi mesmo! – Paula retrucou. – Estou com a estranha sensação de que não ouvimos nem metade da missa…

Capítulo 3

 

 

Os eventos da noite anterior não passaram despercebidos no dia seguinte. Todos na casa pareciam no limite, como se estivessem esperando alguma coisa acontecer.

Os quatro “acusados” não deram as caras, obviamente porque não queriam chamar a atenção.

Jamie estava na sala de estar, assistindo a reprises de desenhos animados antigos que não eram nada engraçados. O pai estava na cozinha, lavando a pia cheia de louça do café da manhã. Ele parecia estar a 1.000 quilômetros dali, pois olhava fixamente pela janela com uma estranha expressão no rosto.

Paula estava no quarto fazendo exercícios de dança. A música alta e o sapateado dela podiam ser ouvidos do andar de baixo. Jamie levantou-se e foi até a janela. Lá fora estava um dia bastante chato, e nenhum vestígio de luz solar ultrapassava as nuvens escuras que pareciam ficar suspensas sobre o cemitério o dia todo. Toda vez que Jamie olhava pela janela, ele tinha a sensação de que, de algum lugar entre as árvores e as lápides cobertas de musgo, ele estava sendo observado por alguém.

“Maravilha” – pensou ele. “Até durante o dia esse lugar me dá arrepios.”

Então ele virou e se afastou da janela. De repente, o som da campainha ecoou por toda a casa. Até Paula escutou, apesar da batida contínua da música.

“Estranho… Para chegar à porta da frente, a pessoa precisa passar pela janela, e eu estava lá e não vi ninguém chegar pelo portão” – pensou Jamie.

– Será que alguém pode atender a porta, por favor? – gritou Andrew da cozinha.

– Deixa comigo! – Paula gritou, enquanto descia a escada pulando alguns degraus.

Jamie e Paula gostavam de competir um com o outro em tudo. Por mais boba que fosse a tarefa, um deles tinha que ser o mais rápido, o mais inteligente ou o mais engraçado, contanto que fosse melhor do que o outro em alguma coisa.

Dessa vez foi diferente. Paula venceu a corrida para atender a porta, porque Jamie ficou parado, já que não sabia o que poderia estar do outro lado. Então, não fez questão de atender. Paula pulou os dois últimos degraus e chegou à porta.

– Cheguei primeiro, Jamie – ela disse, olhando para trás para confirmar se Jamie tinha escutado.

Jamie continuou na sala de estar. Paula escancarou a grande porta de madeira e, quando ia dar um passo para fora, deu de cara com um homem alto e magro. A cabeça de Paula estava na altura da cintura do homem, e ela foi erguendo os olhos lentamente.

Continuar: parte 3 de 8